Comunicação não verbal entre enfermeiros e idosos à luz da proxêmica
INTRODUÇÃO
A comunicação relaciona-se à transmissão de mensagens entre duas ou mais
pessoas, por motivos e situações diversas; corresponde à troca de informações
ou à exibição de sentimentos, como medo, alegria, tristeza, raiva e ainda à
exposição de sensações através de expressões verbais ou não verbais. Seu
objetivo é permitir que o ser humano compreenda o mundo, para melhor
relacionar-se com os outros, e assim poder perceber-se e transformar-se para
mudar a realidade(1).
A comunicação não verbal e o impacto de problemas por ela causados no cuidado é
mais forte que a comunicação verbal, podendo dificultar o estabelecimento de
vínculo de confiança entre o enfermeiro e o paciente. Estudos demonstram que
55% dos sentimentos são expressos através da comunicação não verbal; 38%, pela
voz, e somente 7% são representados por palavras(2-3).
O cuidado de enfermagem corresponde à base de sua atuação profissional, e a
comunicação não verbal representa um instrumento de ajuda terapêutica que
promove esse cuidado. Considerando isso, o enfermeiro precisa visualizar a
assistência de saúde de forma ampla que perpasse as realizações técnicas e
possibilite a cura e bem-estar do paciente.
Na consulta de enfermagem, o profissional deve atentar às peculiaridades de
cada faixa etária, tanto no que remete ao tipo de atendimento, quanto aos
aspectos da comunicação não verbal, que deve considerar as limitações e
especificidades de cada ser, em cada fase da vida. No que se refere à faixa
etária de idosos, sabe-se que esta vem aumentando significativamente a cada dia
e, com isso, surge a necessidade de a sociedade adaptar-se a esta nova
realidade, para poder atender as necessidades dessa população, principalmente
na atenção à saúde.
A importância em estudar a comunicação não verbal refere-se ao fato de que a
compreensão desta comunicação facilita o trabalho do enfermeiro e viabiliza uma
melhor assistência ao idoso, podendo ampliar as possibilidades de produzir bem-
estar e qualidade de vida aos usuários sob seus cuidados. Diante do exposto,
surgiram alguns questionamentos: Como ocorre a comunicação entre enfermeiros e
idosos na consulta de enfermagem? Que tipo de interações os enfermeiros
apresentam ao se comunicar com os idosos? Os enfermeiros utilizam estratégias
de comunicação não verbal?
Objetivou-se analisar a comunicação não verbal entre enfermeiros e idosos na
consulta de enfermagem à luz do referencial teórico de Hall; investigar as
interações apresentadas pelo enfermeiro ao se comunicar com os idosos; e
identificar estratégias de comunicação não verbal utilizadas pelos enfermeiros
com idosos durante a consulta de enfermagem.
REFERENCIAL TEÓRICO
Este estudo adotou Edward T. Hall, como suporte para análise do processo
comunicativo entre o enfermeiro e o idoso, pois, para este autor, a comunicação
proxêmica, é uma modalidade de comunicação não verbal que estuda a estruturação
inconsciente do homem pelo espaço(1).
A análise proxêmica é realizada mediante a observação de oito fatores que
estudam os vários tipos de sinais e traços característicos, referentes ao uso
do espaço nas relações humanas. São eles: (1) postura-sexo – analisa a posição
adotada pelos interlocutores e os sexos dos envolvidos na comunicação; (2) eixo
sociófogo-sociópeto – demonstra o desejo dos participantes de ter maior
intimidade ou envolvimento na interação. O eixo sociófogo demonstra o
desencorajamento da interação, enquanto o sociópeto evidencia o inverso; (3)
cinésico ou cinestésico – analisa ações que possibilitam maior aproximação
entre os interlocutores; (4) comportamento de contato – analisa as formas de
relações táteis ou a inexistência de contato físico; (5) código visual –
analisa o modo do contato visual nas interações; (6) código térmico – detém-se
no calor percebido pelos interlocutores; código olfativo – analisa as
características e o grau de odor sentidos pelos interlocutores; (8) volume de
voz – analisa a percepção dos interlocutores em relação ao volume e intensidade
da fala(1).
Esse teórico obteve provas indicadoras de que a regularidade das distâncias
observadas resulta de mudanças sensoriais, classificando-as em distância
íntima; distância pessoal; distância social e distância pública(1).
MÉTODO
Estudo exploratório descritivo com abordagem quantitativa, desenvolvido em
unidades básicas de saúde da cidade de João Pessoa, no estado da Paraíba. O
distrito selecionado para a realização do estudo foi o Distrito Sanitário III,
por tratar-se do distrito com maior número de unidades básicas de saúde.
A população foi composta por 54 enfermeiros vinculados ao Distrito Sanitário
III e todos os idosos cadastrados respectivamente nessas Unidades de Saúde da
Família. Dos 54 enfermeiros, 32 constituem a amostra do estudo. Participaram
também 32 idosos que foram atendidos por esses enfermeiros durante o período de
coleta. Os critérios de inclusão da amostra para os enfermeiros foram os
seguintes: fazer parte da assistência da atenção primária e estar presente no
momento da coleta de dados. Para os idosos, os critérios de inclusão foram
estes: fazer parte da comunidade assistida pela unidade básica, possuir idade
igual ou superior a sessenta anos e estar aguardando a consulta com o
enfermeiro no momento da coleta de dados.
A técnica escolhida para a coleta de dados foi a filmagem, que possibilita o
registro e armazenamento dos dados por meio de imagem e som, permitindo a
visualização do material com exatidão dos detalhes, quantas vezes for preciso.
Em cada unidade investigada, foi realizado pré-teste dos equipamentos técnicos
antes de iniciar a coleta, com o objetivo de adequar a angulação ideal do
equipamento e observar a iluminação do ambiente, para que fossem captadas
imagens satisfatórias que permitissem visualizar, com propriedade, as
expressões faciais e corporais dos enfermeiros durante a consulta ao idoso.
Foram utilizadas duas câmeras, colocadas em posições estratégicas para que
fosse possível a visualização dos sujeitos e o registro da comunicação, porque
estas registraram imagens em posições diferentes, sendo escolhidas, por
refinamento após a coleta, as imagens da filmadora que ficaram com melhor
angulação em cada consulta.
A coleta de dados foi realizada no período de agosto a setembro de 2012. Para a
transcrição dos dados captados pela filmagem, foi utilizado um instrumento
construído com base na Teoria Proxêmica de Hall, contemplando questões
referentes ao processo de comunicação não verbal. Este passou pelo processo de
validação do seu conteúdo, realizado por três enfermeiras especialistas da área
de comunicação, tornando-o legítimo para a análise das filmagens.
Após a coleta de dados, iniciou-se a análise das filmagens, da qual
participaram outros três juízes, enfermeiros, devidamente treinados, a partir
de bibliografias da comunicação não verbal e da Teoria Proxêmica de Hall. Para
domínio do método, promoveu-se uma situação simulada. Posteriormente, foi
iniciada a análise das filmagens minuto a minuto, que geraram dados que foram
processados no software estatístico PASW Statistic, versão 18 e analisados por
meio de estatística descritiva e exploratória. Por fim, para a análise
estatística utilizou-se o teste Qui-quadrado (Χ2).
Para a realização da pesquisa, foram consideradas todas as normas da Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde(4). O projeto foi aprovado pelo Comitê de
Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da
Paraíba – CEO/CCS, sob Protocolo nº 0220/12, e foi solicitada a autorização do
diretor/responsável pelas Unidades básicas selecionadas do município de João
Pessoa.
RESULTADOS
A seguir, são apresentadas tabelas elaboradas a partir dos dados identificados
durante a pesquisa, que totalizaram 525 minutos de filmagem. Destaca-se que, no
total, foram registrados 1.575 momentos de interações.
Em relação à idade dos enfermeiros inseridos na amostra, doze (37,5%) tinham
idade entre 20 e 39 anos; dezoito (56,25%), entre 40 e 59 anos, e dois (6,25%),
acima de 60 anos, com prevalência para o sexo feminino (90,63%). Quanto à faixa
etária dos idosos, 21 (65,63%) tinham idade entre 60 e 69 anos, oito (25%)
entre 70 e 79 anos e três (9,38%) acima de 80 anos. No tocante ao sexo, 21
(65,63%) eram mulheres, e onze (34,37 %) homens.
Com o intuito de os juízes manterem um padrão de análise, no que se refere à
identificação das interações comunicativas, foram estabelecidos critérios de
julgamento considerando as variáveis da Teoria Proxêmica de Hall a partir da
escala de Likert, a avaliação Ruim inclui quando o enfermeiro não utiliza
estratégias de comunicação não verbal; já na Regular há pouca sintonia na
interação, o enfermeiro se dispersa e pouco utiliza as estratégias de
comunicação; na Bom, os comportamentos faciais e corporais são facilmente
observados, há em parte atenção ao interlocutor, com pouca interação de
contato; enquanto na avaliação Excelente há a observação de comportamentos
faciais e corporais que se modificam a partir do contexto da interação, como
forma de estimular e incentivar o interlocutor, sendo permanente a atenção
dispensada ao interlocutor, com interação de contato satisfatória a aproximação
com o idoso.
Em relação à Tabela_2, constata-se que as variáveis "Realiza interação
sentado", "Realiza interação em pé" e "Tratam-se com aperto de mão, abraço ou
beijo na saída" que compõem o fator Postura-Sexo apresenta uma tendência de
resposta para a avaliação Regular (80,09%; 71,64%; 40,00%). Já para o fator
Eixo Sociofugo-Sociopeto, quase todas as variáveis indicadoras violaram as
suposições do teste de Qui-quadrado, principalmente devido ao grande número de
células com frequências nulas. Além disso, as variáveis indicadoras que compõem
o fator Avaliação da Distância apresentaram significância estatística, no
sentido de haver indícios de que as frequências das categorias de avaliação
dessas variáveis sejam distintas, sendo a variável "Adota a distância íntima",
avaliada Boa (55,29%) e "Adota a distância pessoal" Ruim (91,40%).
Tabela 1 Distribuição dos enfermeiros e dos idosos segundo faixa etária e sexo,
João Pessoa-PB, 2012 (n = 64)
Enfermeiros f % Idosos f %
Faixa etária Faixa etária
20-39 12 37,50 60-69 21 65,63
40-59 18 56,25 70-79 8 25,00
60-68 2 6,25 80-89 3 9,38
Sexo Sexo
Feminino 29 90,63 Feminino 21 65,63
Masculino 3 9,38 Masculino 11 34,37
Fonte: dados coletados pelas autoras (2012)
Tabela 2 Teste de Qui-quadrado para verificar as tendências de resposta das
variáveis indicadoras para os fatores Postura-sexo, Eixo Sociofugo-Sociopeto e
Avaliação da distância(a), João Pessoa-PB, 2012
Fator RUIM REGULAR BOM EXCELENTE Valor-p
f % f % f % f %
Postura-Sexo
Realiza interação sentado 32 2,10 1219 80,09 270 17,74 1 0,07 0,0000b
Realiza interação em pé 24 17,91 96 71,64 13 9,70 1 0,75 0,0000b
Tratam-se com aperto de mão, abraço ou beijo na - - - - 2 100,00 - - ---
chegada
Tratam-se com aperto de mão, abraço ou beijo na 2 8,00 10 40,00 9 36,00 4 16,00 0,0670
saída
Eixo Sociofugo-Sociopeto
Posiciona a cadeira uma em frente à outra 21 1,35 1001 64,46 524 33,74 7 0,45 0,0000b
Posiciona a cadeira uma lateralmente à outra - - 2 50,00 2 50,00 - - 1,0000
Posiciona cadeira uma paralelamente à outra - - 8 88,89 1 11,11 - - 0,0196a
Posiciona a cadeira de costas - - 10 100,00 - - - - ---
Mantém os ombros inclinados para dentro 69 5,76 1058 88,39 70 5,85 - - 0,0000b
Mantém os ombros inclinados para trás 4 3,20 118 94,40 3 2,40 - - 0,0000a
Mantém as bordas dos aposentados livres da parede146 10,04 1137 78,20 171 11,76 - - 0,0000b
Mantém as bordas dos aposentados encostadas na 66 11,96 369 66,85 117 21,20 0 0,00 0,0000a
parede
Avaliação da Distância
Adota a distância íntima 7 1,37 210 41,18 282 55,29 11 2,16 0,0000b
Adota a distância pessoal 37 3,35 1010 91,40 58 5,25 - - 0,0000b
Fonte: dados coletados pela autora (2012)
aMesmo o resultado do teste sendo significativo (p<0,05), ele não é válido
devidos ás freqüências observadas serem nula ou inferiores a 5.
bO resultado do teste é estatisticamente significativo ao nível de 5% (0,05).
Como mostra a Tabela_3, seis das treze variáveis indicadoras que compõem o
fator Cinestésico apresentaram resultados inconclusivos para o teste de
homogeneidade de suas proporções. Os motivos foram o reduzido número de
respostas fornecidas e a quantidade de células com frequências nulas. Já para o
fator Comportamento de Contato, apenas a variável "Interação com aperto de mão"
não apresentou resultado conclusivo, enquanto a variável "Toca afetivamente
como cumprimento" obteve uma avaliação Boa (45,71%).
Tabela 3 Teste de Qui-quadrado para verificar as tendências de resposta das
variáveis indicadoras para os fatores Cinestésico e Comportamento de contato
(a), João Pessoa, 2012
Fator RUIM REGULAR BOM EXCELENTE Valor-p
f % f % f % f %
Cinestésico
Demonstra tranquilidade 31 2,17 853 59,78 525 36,79 18 1,26 0,0000b
Demonstra afirmação 118 10,29 819 71,40 205 17,87 5 0,44 0,0000b
Demonstra indiferença 22 33,85 35 53,85 8 12,31 - - 0,0002b
Demonstra preocupação 30 14,35 154 73,68 25 11,96 - - 0,0000b
O comportamento facial 58 15,47 204 54,40 103 27,47 10 2,67 0,0000b
demonstra felicidade
O comportamento facial 4 40,00 4 40,00 2 20,00 - - 0,6703
demonstra tristeza
O comportamento facial - - 2 100,00 - - - - ---
demonstra medo
O comportamento facial 9 52,94 8 47,06 - - - - 0,8084
demonstra desagrado
O comportamento facial - - 18 81,82 4 18,18 - - 0,0028a
demonstra surpresa
O comportamento facial 1 8,33 10 83,33 1 8,33 - - 0,0012a
demonstra raiva
O comportamento facial 330 24,66 703 52,54 273 20,40 32 2,39 0,0000b
demonstra atenção
O comportamento facial 107 50,00 106 49,53 1 0,47 - - 0,0000b
demonstra- -se inalterado
Coloca as mãos nos olhos - - 13 86,67 2 13,33 - - 0,0045a
Comportamento de Contato
Toca afetivamente como 4 11,43 13 37,14 16 45,71 2 5,71 0,0012b
cumprimento
Toca ativamente 10 45,45 10 45,45 2 9,09 - - 0,0545
Toca apenas ao realizar um 55 30,56 96 53,33 28 15,56 1 0,56 0,0000b
procedimento técnico
Interação com aperto de m? 2 15,38 6 46,15 4 30,77 1 7,69 0,2089
Fonte: dados coletados pela autora (2012)
aMesmo o resultado do teste sendo significativo (p<0,05), ele não é válido
devidos às frequências observadas serem nula ou inferiores a 5.
bO resultado do teste é estatisticamente significativo ao nível de 5% (0,05).
Nesta Tabela, quase todas as variáveis indicadoras que compõem os fatores
Código Visual, Código Térmico, Código Olfativo e Volume de Voz apresentaram
resultados estatisticamente significativos em favor das tendências de respostas
das suas categorias. E, mais uma vez, a avaliação Regular foi a classificação
mais informada para essas variáveis.
DISCUSSÃO
Ao se analisar o perfil dos enfermeiros, conforme expresso na Tabela_1,
verificou-se que a marca de gênero na enfermagem se faz evidente, sobretudo
pela sua trajetória histórica de ser um ofício eminentemente feminino. Embora
já se perceba um movimento em relação à inserção do homem na profissão, os
dados deste estudo ainda revelam a predominância das mulheres no contexto das
práticas assistenciais. Foi observado também um maior número de mulheres entre
os 32 idosos participantes do estudo, corroborando com dados do IBGE(5), que
referem predomínio de idosos do sexo feminino na população brasileira.
Consequentemente, no que concerne à procura pela assistência à saúde são as
mulheres as que mais buscam pela assistência, além de estarem mais atentas a
sinais e sintomas que remetem a doenças, estando os homens com os maiores
índices de mortalidade. Algumas hipóteses para esses índices sugerem a
violência, os acidentes de trânsito e as doenças crônicas(6-7).
A Tabela_2 aponta que, na consulta de enfermagem a idosos, a postura "Realiza
interação sentado" prevaleceu e obteve julgamento regular, e pode ser
justificada pelo conforto proporcionado pela mesma, além de facilitar a
realização da anamnese e subsequente registro no prontuário das informações
colhidas durante a interação, assim como possibilita a realização da glicemia
capilar e aferição da pressão arterial, além de ser mais confortável e
facilitar a troca de informações.
Já a postura em pé, avaliada também de forma regular, pode ser justificada em
face da necessidade de o enfermeiro realizar algum tipo de assistência ao idoso
que necessite da adoção da distância íntima, como visualizado em alguns casos,
para aferição da pressão arterial, exame específico dos membros inferiores e
avaliação da circunferência abdominal, o que, desta forma, mantinha o
enfermeiro e o idoso, na maior parte do tempo, na mesma postura. Assim, as
mudanças corporais são pertinentes ao ambiente onde ocorre a interação e
transmite os sentimentos dos comunicantes(1).
Quanto ao cumprimento inicial e a posteriori, estabelecido por meio de um
aperto de mão, abraço ou beijo, demonstra o tipo de relacionamento que se
pretende estabelecer e manter no futuro, respectivamente(8). No âmbito deste
estudo, prevaleceu a variável "Tratam-se com aperto de mão, abraço ou beijo na
saída" de forma regular ao passo que a variável "Tratam-se com aperto de mão,
abraço ou beijo na chegada" não se aplica para as interações analisadas.
Portanto, um relacionamento estabelecido através desses gestos de saudação
universais no início e fim do atendimento, ressalta confiança e segurança,
possibilitando assim o estabelecimento de vínculo entre enfermeiro e idoso,
como também com a família, favorecendo a reaproximação com certa dose de
harmonia, como forma de consolidar a interação.
A realização deste estudo evidenciou a preferência dos enfermeiros por um
espaço desagregador, ou seja, aquele que afastava as pessoas umas das outras,
dificultando a interação entre essas, uma vez que os enfermeiros adotaram a
variável "Posiciona a cadeira uma em frente à outra" com frequência regular e
esta é caracterizada como a segunda distância que mais favorece à interação,
quando comparada a representada pela variável "Posiciona a cadeira uma
lateralmente a outra" que deveria ser a primeira opção de escolha na iteração,
por ser a que melhor possibilita o contato entre os comunicantes. Em ordem
crescente, a distância que mais favorece a interação, é a lateral, a de frente
e a de lado, sendo a de costas avessa ao contato(1).
A compreensão da distância adotada pelos seres humanos durante a interação é
fundamental para a compreensão da linguagem corporal, uma vez que uma está
relacionada à outra(9). A distância íntima foi avaliada como boa, e a distância
pessoal que, apesar de próxima, pode não favorecer o contato físico e não
possibilitar serem sentidos os odores e o calor do corpo, prevaleceu e foi
avaliada como regular.
Nesse contexto, a posição física entre duas pessoas é importante, pois, em
geral, comunica o grau de intimidade emocional entre elas. O estabelecimento da
distância pessoal permite uma fala descontraída e é menos ameaçadora para o
idoso, visto que, ao ultrapassar essa distância, esses tendem a se sentir mais
desconfortáveis ou ameaçados(10).
No entanto, frente à maior frequência da distância pessoal neste estudo, é
oportuno destacar a necessidade de os enfermeiros adotarem a distância íntima,
que os aproxima dos idosos, facilitando o diálogo e a troca de informações,
pois, quanto mais próximos uns dos outros, mais intimidade demonstra-se haver
entre esses, ao passo que se revelam os mecanismos de comunicação ocorridos na
interação(11).
Salienta-se que, por serem conscientes da necessidade de aproximação física a
ser estabelecida durante a assistência de enfermagem, os idosos apresentam uma
maior aceitação à invasão do espaço pessoal, o que foi comprovado através de
estudos realizados com idosos hospitalizados, que revelaram maior tolerância à
invasão pessoal, quando comparada à invasão territorial(12).
Quanto às variáveis "Demonstra indiferença" e "Demonstra preocupação",
descritas na tabela_3, cuja frequência avaliada como regular foi
significativamente elevada, essas expressões devem ser evitadas na interação
com o idoso, pois podem comprometer a participação do idoso na interação e
afetar diretamente o estabelecimento de sua saúde. Assim, reafirma-se a
importância de o enfermeiro utilizar expressões faciais conscientes que
estimulem o idoso e não o deixe constrangido, inquieto ou preocupado.
Já quanto a demonstração de atenção, quando o comunicante fixa o olhar no
interlocutor, ampliam-se as possibilidades de observação, e as mensagens
transmitidas pelo interlocutor se tornam mais claras. Desta forma, é essencial
a atenção do enfermeiro a fim de identificar e compreender as necessidades
expressas pelos gestos não verbais do idoso. Pois, os sinais silenciosos do
corpo, como os gestos, o olhar, a postura, a expressão facial e as próprias
características físicas que individualizam o homem dentro de seu contexto
específico, representam 55% das expressões não verbais(3,9).
A variável "O comportamento facial demonstra-se inalterado" obteve avaliação
ruim, o que demonstra a necessidade de o enfermeiro utilizar expressões faciais
que estimulem a participação do idoso na interação, pois, é possível
identificar rostos bastante expressivos em algumas pessoas, ao passo que outras
mascaram seus sentimentos, dificultando a determinação do que realmente sentem
ou pensam(13). Corroborando essa assertiva, estudo confirma a capacidade dos
idosos em decifrar as expressões do rosto dos profissionais(12).
Para as variáveis "Comportamento facial com expressão de tristeza, medo,
desagrado, surpresa e raiva", não se obteve resultado conclusivo. No entanto,
vale ressaltar a importância do enfermeiro não se deixar vencer pelos
sentimentos de tristeza, medo, desagrado, surpresa, ou raiva, pois seu
envolvimento nessas emoções implica a incapacidade de responder adequadamente e
ouvir objetivamente. Convém salientar que, para uma eficaz comunicação não
verbal do enfermeiro com o idoso, esse profissional precisa dominar
conscientemente suas expressões faciais, tornando seus sentimentos menos
intensos, neutralizando-os ou disfarçando-os, como também usar expressões de
tranquilidade, afirmação, felicidade e atenção a fim de estimular a
participação do idoso na interação.
Para o fator Comportamento de Contato, a variável "Toca afetivamente como
cumprimento" obteve boa avaliação; já para a variável "Toca ativamente" mais de
90% dos julgamentos sugeriram uma avaliação entre ruim e regular, enquanto a
variável "Toca apenas ao realizar um procedimento técnico" foi julgada como
regular, e a "Interação com aperto de mão" não apresentou resultados
conclusivos, tornando claro que a utilização do toque pelos enfermeiros ainda
precisa ser efetivado.
Como se mostra na Tabela_4, prevaleceu o julgamento regular para as variáveis
"Centra o olhar no interlocutor", "Desvia o olhar do interlocutor", "Há
interação visual enquanto manipula objetos", "O olhar demonstra estímulo", "O
olhar demonstra domínio da relação" e "O olhar demonstra dúvida".
Tabela 4 Teste de Qui-quadrado para verificar as tendências de resposta das
variáveis indicadoras para os fatores Código Visual, Código Térmico, Código
Olfativo e Volume de Voz, João Pessoa, 2012
Fator RUIM REGULAR BOM EXCELENTE Valor-p
f % f % f % f %
Código Visual
Centra o olhar no interlocutor 223 21,93 562 55,26 207 20,35 25 2,46 0,0000b
Desvia o olhar do interlocutor 444 42,09 557 52,80 53 5,02 1 0,09 0,0000b
Há interação visual enquanto manipula 455 38,04 690 57,69 48 4,01 3 0,25 0,0000b
objetos
O olhar demonstra punição 10 71,43 4 28,57 - - - - 0,1088
O olhar demonstra estímulo 46 22,01 125 59,81 35 16,75 3 1,44 0,0000b
O olhar demonstra domínio da relação 191 26,49 342 47,43 173 23,99 15 2,08 0,0000b
O olhar demonstra dúvida 10 43,48 12 52,17 1 4,35 - - 0,0114b
O olhar demonstra espanto 3 15,79 15 78,95 1 5,26 - - 0,0001a
Código Térmico
Mantém-se confortável 65 4,34 1036 69,16 387 25,83 10 0,67 0,0000b
Mantém-se inquieto 15 20,27 54 72,97 5 6,76 - - 0,0000b
Código Olfativo
Mantém-se a mão entre o nariz e a boca 32 15,76 120 59,11 47 23,15 4 1,97 0,0000b
Volume de Voz
Mantém o mesmo tom de voz 56 3,67 745 48,79 658 43,09 68 4,45 0,0000b
Mantém o tom de voz aumentado 4 30,77 6 46,15 3 23,08 - - 0,5836
Mantém o tom de voz em sussurro 25 89,29 3 10,71 - - - - 0,0000a
Mantém-se em silêncio 57 34,55 103 62,42 5 3,03 - - 0,0000b
Fonte: dados coletados pela autora (2012).
aMesmo o resultado do teste sendo significativo (p<0,05), ele não é válido
devidos às frequências observadas serem nula ou inferiores a 5.
bO resultado do teste é estatisticamente significativo ao nível de 5% (0,05).
Dos sentidos existentes, a visão é responsável pelo maior número de informações
transmitidas(1). Seu uso possibilita a captação de informações precisas acerca
do que se passa com o outro, bem como se é possível transmitir os sentimentos
de si próprio durante aquele momento de interação, pois a visão pode indicar
punição, estímulo, domínio, dúvida ou espanto. Nessa conjuntura, a visão denota
uma possibilidade de compreender e interpretar tudo o que está ocorrendo com o
outro.
Acerca da presença de interação visual enquanto manipula objetos, é oportuno
destacar que a realização de outras coisas enquanto presta assistência ao
paciente, deve ser evitada a fim de se obter uma válida história de saúde(14).
Desta forma, observa-se que a correta utilização do olhar dos enfermeiros, no
processo de assistência à saúde dos idosos, possibilita uma maior compreensão
das necessidades dos idosos, pois demonstra o nível de atenção do ser que cuida
para o que está sendo cuidado. Logo, pode-se apontar que, mesmo que a linguagem
verbal revele um sentido, as expressões emanadas pelos olhos transparecerão o
que realmente se passa na mente do comunicante, pois, a expressão ocular revela
a atitude da mente(9).
Sobre o fator Código Térmico, as variáveis "Mantém-se confortável" e "Mantém-se
inquieto" mantiveram avaliação regular. O estabelecimento de uma postura
confortável na interação pode ser mantido quando o enfermeiro proporciona um
ambiente físico agradável, especialmente no aspecto ambiental. No entanto, para
países tropicais, como o Brasil, vale ressaltar que as condições climáticas do
estado no qual o estudo se desenvolveu podem ser a causa do maior índice para a
inquietação. Com isso, os enfermeiros precisam tornar o ambiente o mais
agradável possível à interação, na tentativa de buscar melhor conforto tanto
para si mesmo como para o paciente, pois isto proporcionará uma fiel
desenvoltura dos movimentos corporais, já que cada momento de interação é único
e decisivo às condutas a serem seguidas(15).
Sobre o fator Código Olfativo, a variável "Mantém a mão entre o nariz e a boca"
também obteve avaliação regular. Esta postura pode sugerir um maior
distanciamento dos enfermeiros para com os idosos, pois, frente a todos os
sentidos, o olfato corresponde ao que requer maior proximidade dos
comunicantes, bem como o tato e o paladar. Logo, se um dos comunicantes expelir
um mau odor, a interação apresentar-se-á de maneira mais rápida podendo
comprometer a qualidade da assistência, uma vez que o mau odor pode dificultar
a atuação do enfermeiro que se inclinará a concluir mais brevemente a
interação.
Por último, na análise do fator Volume de Voz, as variáveis "Mantém o mesmo tom
de voz" e "Mantém-se em silêncio" foram avaliadas regularmente. O tom de voz
adotado na interação permite o estabelecimento de uma melhor interação. Para a
utilização do tom de voz normal, faz-se necessário considerar as alterações
ambientais que podem interferir na compreensão do idoso, como a presença de
ruídos que implica o aumento do tom de voz, podendo também ocasionar a
distração tanto do enfermeiro quanto do idoso(16).
Salienta-se que esse aumento do tom de voz na atenção ao idoso pode ser
justificado quando este apresentar algum déficit auditivo, sendo possível,
portanto, quando a comunicação verbal não é suficientemente eficaz(14). Já a
utilização do silêncio, caracterizado como um método de comunicação não verbal,
quando utilizado no momento apropriado, oportuniza a outra pessoa a pensar
sobre a réplica ou a organizar seus pensamentos. No entanto, seu prolongamento
deve ser evitado, pois a distração ou a ansiedade se tornam possíveis(3).
Após a análise desses dados, é possível ressaltar as dificuldades dos
enfermeiros em perceber e utilizar conscientemente a comunicação não verbal,
implicando em limitações para a assistência e estabelecimento de vínculos. A
avaliação dos fatores postulados por Hall explicitou que a comunicação não
verbal, quando utilizada de forma consciente torna-se eficaz, possibilitando
observar, captar e emitir informações e sensações entre as pessoas, por meio
dos gestos corporais e expressões faciais a fim de oportunizar novos
conhecimentos que possibilitam a eficácia da assistência de enfermagem ao
idoso. Para tanto, a fim de dispensar um atendimento capaz de proporcionar
melhoria na saúde e qualidade de vida ao idoso, os enfermeiros precisam
aprofundar seus conhecimentos sobre a temática com o propósito de efetivar a
relação, evitando que o cuidado planejado para ser terapêutico, não se
transforme ineficaz.
CONCLUSÕES
A partir dos resultados obtidos, é possível identificar que a atuação do
enfermeiro no que concerne a emissão de comportamentos não verbais de forma
consciente ainda é falha, podendo esse fator estar relacionados a não
capacitação profissional em lidar com o público idoso, ou ainda pela falta de
capacitação dispensados acerca da temática da comunicação ainda na graduação.
Onde de sobremaneira a idade dos enfermeiros remete a um possível longo tempo
de formação, o que também pode ter contribuído para torná-los mais cansados e
menos dispostos a buscar novas capacitações.
Este estudo apresentou por limitações a utilização da filmagem que implicou em
uma não aceitação dos enfermeiros a colaborarem com sua realização, além das
dificuldades em manipular os aparelhos para iniciar a gravação, seja pela falta
de habilidades com esta tecnologia, ou ainda pela falta de espaço nos
consultórios de enfermagem que comprometia o posicionamento das câmeras.
Relacionado ao idoso, ficou evidente uma melhor e mais rápida aceitação em
participar do estudo, mesmo com o uso das filmagens.
Os estudos sobre a comunicação não verbal de enfermeiros com idosos na atenção
primária de saúde ainda são incipientes em nosso meio, e este estudo pode ser
considerado um ponto de partida para outras pesquisas, afim de efetivar as
ações de promoção a saúde dos idosos e assim melhorar sua qualidade de vida.