Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em um hospital do
Distrito Federal
INTRODUÇÃO
A preocupação com o uso de medicamentos, seus riscos, toxicidade e efeitos
colaterais é crescente no Brasil e no mundo, como reflexo da diversidade de
formas de acesso e utilização de novos fármacos pela população. Os efeitos
negativos da utilização de medicamentos expõem a população aos riscos de
sofrerem Eventos Adversos (EA) que podem acarretar um aumento do número de
hospitalizações e óbitos, bem como consequências epidemiológicas e econômicas
acentuadas(1-2).
O EA é definido como a ocorrência, em seres humanos, de qualquer efeito não
desejado, decorrente da utilização de produtos sob vigilância sanitária, o qual
pode ser evitável ou não(3-4). O evento adverso a medicamento (EAM) envolve
diferentes situações, entre elas a reação adversa a medicamento (RAM) e a
ineficácia terapêutica (IT)(2). A RAM é definida pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) como qualquer acontecimento danoso, não intencional e indesejado,
ocorrido durante o uso de um medicamento empregado com doses terapêuticas
habituais para tratamento, profilaxia ou diagnóstico(4).
O monitoramento dos medicamentos, mesmo após a aprovação para comercialização
pelas instituições de vigilância sanitária, tem sido objeto de diferentes
diretrizes propostas por agências reguladoras que orientam os serviços de saúde
a realizar a busca ativa de RAM. Estas atividades conformam as ações da
farmacovigilância, que tem como finalidade detectar, avaliar, compreender e
prevenir riscos de incidentes relacionados ao uso de medicamentos(3-6).
A RAM pode se manifestar como reação leve, moderada ou de alta intensidade, por
vezes requer hospitalização e provoca sequelas incapacitantes e letais. Os
relatos de RAM são importantes para quantificar a incidência e para tratar
rapidamente os clientes, de forma a minimizar a ocorrência de lesões graves e
sequelas. Destacam-se, neste artigo, as RAM que se manifestam na forma de
reações graves de hipersensibilidade cutânea denominadas de Síndrome de Stevens
Johnson (SSJ) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET)(7-9).
A SSJ foi relatada em 1922, quando Stevens e Johnson descreveram dois clientes
com erupções cutâneas generalizadas, febre contínua, mucosa oral inflamada e
conjuntivite purulenta grave(8-9). A SSJ é uma afecção inflamatória aguda,
febril e autolimitada, com duração aproximada de duas a quatro semanas, que
afeta a pele e a membrana mucosa(10-11). A doença tem início súbito, com febre
de 39-40º C, dor, mal-estar, cefaleia, dor de garganta e na boca. Logo os
sintomas evoluem com agravamento e o cliente pode apresentar pulso fraco e
acelerado, respiração rápida, prostração e dores articulares(12-13). Estomatite
é um sintoma precoce, em geral com bolhas nos lábios, língua e mucosa oral,
agravada pela pseudomembrana, perda de sangue, salivação e feridas que
dificultam a alimentação e ingestão de bebidas(14-15). O rosto, as mãos e os
pés são invadidos por erupções hemorrágicas, vesículas, bolhas ou petéquias,
com inflamação de alguns ou de todos os orifícios, tais como boca, nariz,
conjuntiva, uretra, vagina e ânus. Essas lesões mostram-se espalhadas por todo
o corpo. A vaginite pode ser erosiva grave. Não é incomum desenvolver pneumonia
(15). As bolhas geralmente não determinam descolamento epidérmico maior do que
10% da superfície corpórea(11,16).
A denominação Necrólise Epidérmica Tóxica (NET) foi introduzida por Lyell em
1956(12). O termo necrólise foi proposto para descrever a necrose isolada da
camada epidérmica pelo destacamento da epiderme, onde praticamente não se
vislumbram as alterações de caráter inflamatório, habitualmente presentes em
situações de eritema tóxico(12,14).
A SSJ e a NET ocorrem em aproximadamente duas a três pessoas por milhão/ano na
Europa e Estados Unidos da América (EUA). Acometem clientes de todas as idades,
raças e sexos(10), sendo 20% crianças e adolescentes(13). O pico de incidência,
porém, está na segunda década de vida(15). Indicadores do Brasil são escassos
quanto à prevalência de SSJ e NET. Estima-se que a SSJ varie de 1,2 a 6 por
milhões/ano e a NET varie de 0,4 a 1,2 por milhões/ano. Alguns fatores podem
ser predisponentes, como comorbidades múltiplas e o uso de medicamentos para
tratá-las, idade avançada, susceptibilidade genética, doenças com ativação
imune e imunossupressão(14).
A NET tem, como características iniciais, sintomas inespecíficos, influenza-
símile, tais como febre, dor de garganta, tosse e queimação ocular,
considerados manifestações prodrômicas que precedem em um a três dias o
acometimento cutaneomucoso. Erupção eritematosa surge simetricamente na face e
na parte superior do tronco, com extensão craniocaudal, provocando sintomas de
descolamento epidérmico ou dor da pele. Em cerca de dois a cinco dias ou, por
vezes, em questão de horas, ou, mais raramente, em cerca de uma semana, ocorre
o estabelecimento completo da extensão do quadro cutâneo(9-12).
O ápice do processo de desenvolvimento da NET ocorre com a desnudação da
epiderme necrótica, a qual é destacada em verdadeiras lamelas ou retalhos,
dentro das áreas acometidas pelo eritema de base(12), podendo atingir uma
superfície corporal menor que 30% (13,15).
A distinção entre a SSJ e a NET, do ponto de vista clínico, se realiza pela
percentagem de área com erupções cutâneas ou passível de erosão com sinal de
Nikolsky (SN) positivo, calculada em termos de superfície corporal(12). Segundo
a literatura, a SSJ acomete ≤10% da superfície corporal; a ocorrência
simultânea de SSJ e NET pode comprometer 10 a 30% da epiderme; e a NET atinge
área ≥30% da superfície corporal(13-16). O SN representa o deslocamento da
camada superficial da epiderme mediante uma fricção ou trauma leve. Nos casos
de SSJ e NET, o SN torna-se positivo sobre grandes áreas da pele. Muitos órgãos
internos são acometidos pelo mesmo processo patológico que envolve a pele,
determinando um espectro de manifestações sistêmicas(13,15).
Os prognósticos dos casos de NET são avaliados segundo um escore de gravidade
composto por sete parâmetros denominados SCORTEN: Idade > 40 anos, neoplasia,
frequência cardíaca > 120bpm, Descolamento da epiderme > 10%, Ureia > 28mg/dL,
Glicose > 252mg/dL, e Bicarbonato sérico > 20mg/dL(12-14).
Os fármacos mais comumente associados ao desencadeamento da reação são as
sulfonamidas, anti-inflamatórios, penicilina, barbitúricos, alopurinol,
antiepilépticos e vacinas(8,11). Acredita-se que o mecanismo de desenvolvimento
da SSJ e da NET esteja associado a reações de hipersensibilidade mediadas por
células T citotóxicas, além de outros fatores predisponentes a RAM, como
alterações no metabolismo de fármacos, deficiência nos mecanismos de
detoxificação de metabólitos intermediários reativos e a predominância de um
genótipo de acetiladores lentos(12).
As complicações mais frequentes da SSJ e da NET, segundo a literatura, são a
sepse, que, quando não reconhecida e tratada, pode levar ao óbito; e a
ceratoconjuntivite, que pode prejudicar a visão e resultar em retração
conjuntival, cicatrização e lesão da córnea(16). Entre as sequelas mais comuns
na fase tardia da NET, citam-se a hiper ou hipopigmentação da pele (62,5%), as
distrofias das unhas (37,5%) e as complicações oculares, dentre as quais se
destacam: olhos secos (46,0%), triquíase (16,0%), simbléfaro (14,0%),
distiquíase (14,0%), perda da visão (5,0%), entrópio (5,0%), ancilobléfaro
(2,0%), lagophthalmos (2,0%) e ulceração da córnea (2,0%). Cicatrizes
hipertróficas têm prevalência baixa. Complicações, com envolvimento de mucosas,
ocorrem em 73,0% dos clientes na fase aguda da doença; e as sequelas atingem,
principalmente, a mucosa oral e esofagiana e se estendem menos para a mucosa
pulmonar e genital(15-16). Todas as possíveis complicações e sequelas precisam
ser cuidadosamente observadas durante o tratamento, pela equipe de saúde.
As reações adversas caracterizadas como SSJ e NET ainda são consideradas pouco
frequentes na literatura e no cotidiano dos serviços de saúde. Para o manejo
clínico adequado, pelos profissionais de saúde, esses agravos devem ser
compreendidos quanto ao mecanismo de ação e fatores desencadeadores, para que
possam ser objeto de ações preventivas, diagnóstico precoce, tratamento
oportuno e obtenção do melhor prognóstico.
Neste sentido, os objetivos deste estudo foram: analisar as características
demográficas e clínicas dos clientes diagnosticados com SSJ e NET internados
entre 2005 e 2012, bem como identificar as ações dos profissionais de saúde
para o manejo das RAM em um hospital público do Distrito Federal.
MÉTODO
O estudo foi descritivo transversal e retrospectivo, com abordagem
quantitativa. Estudos descritivos quantitativos são apropriados para investigar
fenômenos pouco conhecidos em suas particularidades, pois possibilitam que o
pesquisador observe, descreva e documente os vários aspectos do objeto, sem
manipulação de variáveis ou procura pela relação de causalidade. Por outro
lado, os estudos transversais são aplicáveis às investigações das relações
causa e efeito quando não há a necessidade de saber o tempo de exposição de uma
causa para gerar o efeito. Em outras palavras, a informação acerca da exposição
e do agravo são coletadas ao mesmo tempo(17-18). Complementarmente, a
classificação de estudo retrospectivo foi empregada para caracterizar as
variáveis associadas aos fatores causais da SSJ e NET identificadas após a
ocorrência das doenças.
Os dados foram coletados por meio de análise documental dos relatórios de
enfermagem e dos registros da equipe de saúde nos prontuários de todos os
(n=22) clientes com diagnóstico de SSJ e NET hospitalizados na Unidade de
Terapia Intensiva (UTI) e/ou Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ), em
associação com as unidades de dermatologia, plástica ou pediatria, de um
hospital público do Distrito Federal.
Os relatórios de enfermagem usados como fonte complementar de informações neste
estudo foram livros com folhas pautadas e numeradas, utilizados para o registro
de intercorrências clinicas e administrativas que precisam receber maior
atenção pela equipe e em especial, pelas chefias das unidades. Os relatórios de
enfermagem contribuíram para a identificação de casos de SSJ e NET, para
facilitar a busca pelos prontuários físicos nos arquivos, nos períodos
anteriores à implantação do prontuário eletrônico do paciente no hospital, bem
como para identificar as ações de vigilância das RAM. Por meio desses
relatórios foi possível incluir no estudo todos os clientes que tiveram
registro de hospitalização no período de janeiro de 2005 a dezembro de 2012 e
que permaneceram internados por período superior a 24 horas.
Os dados como idade e sexo, diagnóstico da enfermidade de base, superfície
corporal comprometida, fármacos usados pelos clientes quando do surgimento dos
primeiros sinais e sintomas, complicações, tratamento e desfechos foram
coletados no período de janeiro a julho de 2012. Esses foram organizados no
software Excel (2007) e analisados mediante estatística descritiva.
Para a classificação da superfície corporal com descolamento epidérmico,
utilizou-se a Regra dos Nove de Wallace. Essa regra emprega valor igual a nove
ou múltiplo de nove às partes atingidas do corpo do adulto, da seguinte forma:
cada braço, coxa e perna equivalem a 9,0% da superfície corporal, assim como a
cabeça, o tórax e o abdome; o dorso equivale a 18,0%. A soma de todas estas
partes totalizam 99,0%. O 1,0% restante é o períneo. Para pequenas regiões,
usa-se uma comparação da área atingida com a palma da mão que equivale a 1,0%
da superfície corporal(13). Em crianças de até 1 ano cabeça e pescoço são 19,0%
e cada membro inferior 13,0%. Em crianças de 1-10 anos cabeça e pescoço são
19,0% menos a idade e, cada membro inferior 19,0% mais (idade dividido por 2).
As informações clinicas registradas nos prontuários foram comparadas aos
critérios usados para o diagnóstico médico de SSJ e NET em relação à superfície
corporal comprometida. Os critérios indicam que: SSJ acomete ≤10,0% da
superfície corporal; SSJ e NET, simultaneamente, acometem 10,0-30,0%; e a NET
compromete área ≥30,0%(12-14). Embora a literatura recomende outros fatores de
risco e critérios para avaliação da gravidade, sumarizados no SCORTEN, neste
estudo foram coletados somente a idade e o descolamento epidérmico, devido à
fragilidade nos registros clínicos nos prontuários e por se tratar de estudo
retrospectivo.
Os fármacos associados ao desencadeamento da RAM foram classificados de acordo
com os níveis anatômico (Nível 1) e terapêutico (Nível 2) da Anatomic
Therapeutic Clinical (ATC), recomendada pela Organização Mundial de Saúde(19).
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação
de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde,
Brasília, Distrito Federal (CEP/FEPECS), sob o número de protocolo (164/2012).
Foram preservados o sigilo e a confidencialidade dos dados coletados dos
prontuários.
RESULTADOS
No ano de 2005, a UTQ do hospital estudado recebeu 1 cliente com SSJ. Nos anos
de 2007 e 2012, houve 5 e 7 diagnósticos confirmados, respectivamente (Tabela
1). Somente em 7 casos foi possível identificar o número de dias decorridos
desde o início do uso do medicamento até o aparecimento dos principais
sintomas, que variou de 2 a 20 dias, com média de 8 dias.
Tabela 1 Incidência de SSJ e NET em hospital público de Brasília, no período de
2005 a 2012, Brasília-DF, 2012
Ano 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Total
Nº de casos 1 2 5 1 2 3 1 7 22
Dos 22 prontuários analisados (eletrônicos e físicos), 7 casos foram
diagnosticados como SSJ, 9 como NET e em 6 casos não houve diferenciação entre
SSJ ou NET (Tabela_2). As unidades em que os clientes estiveram hospitalizados
foram: Unidade de Queimados (13), Unidade Terapia Intensiva e de queimados (4),
Unidade de Terapia Intensiva (2), Dermatologia (1), Unidade de Cirurgia
Plástica (1), Pediatria (1). O tempo de internação em número de dias,
identificado em 18 casos, variou de 2 a 47 dias, com uma média de 15,17 dias (±
desvio padrão 12,29%). Em relação ao sexo, predominou o feminino (14). A faixa
etária mais acometida foi a de 11 a 40 anos, com 14 dos casos, variando de 11 a
86 anos, com uma média de idade de 37,6 anos.
Tabela 2 Caracterização demográfica e clínica dos clientes diagnosticados SSJ e
NET em hospital público do DF no período de 2005 a 2012, Brasília-DF, 2012
Variáveis f
Reação adversa (n=22) SSJ 7
NET 9
Sem diferenciaçã6
Sexo (n=22) Feminino 14
Masculino 8
Faixa etária em anos (n=22) ≤11- 20 4
≤21 - 30 5
≤31 - 40 5
≤41 - 50 1
≤51 - 59 4
≥ 60 3
0 a 10,0 1
Percentual de área total com descolamento epidérmico 11,0 a 30,0 4
(n=20) ≥ 31,0 15
SI 2
Dias de internação (n = 18) 2 - 5 3
6 - 10 5
10 - 19 5
≥ 20 5
Setores de internação (n=22) UTQ 13
UTQ/UTI 4
UTQ/Dermatologia 1
UTQ/Plástica 1
UTQ/Pediatria 1
UTI 2
A área total da superfície corporal com descolamento epidérmico constava em 20
dos 22 prontuários analisados, sendo mais frequente (15) o comprometimento de
áreas ≥ 31% (Tabela_2). As lesões provocadas pelo descolamento epidérmico foram
classificadas em queimaduras de primeiro, segundo e terceiro grau, por se
tratar de um hospital especializado nesse tipo de tratamento. Dos 16
prontuários com esta informação, 9 foram classificados como lesões de segundo
grau, 6 com lesões superficiais e 1 caso com lesão profunda. A gravidade e
intensidade da RAM, segundo os registros nos prontuários, foi leve em 5 dos
casos, moderada em 16 e grave em 1. O cliente classificado como RAM grave, com
idade de 70 anos, evoluiu para o óbito. Esse teve cerca de 90% da área total de
superfície corporal com descolamento epidérmico, segundo os registros.
O tratamento tópico mais utilizado nos clientes com descolamento epidérmico
incluídos nesta pesquisa foram os Ácidos Graxos Essenciais (AGE).
Em 21 dos casos estudados, foi possível identificar o fármaco associado ao
desencadeamento da RAM e classificá-lo de acordo com os níveis anatômico (Nível
1) e terapêutico (Nível 2), da Anatomic Therapeutic Clinical (ATC). Seguindo
esta categorização, identificaram-se os medicamentos com ação sobre o Sistema
Nervoso (15), anti-infecciosos gerais para uso sistêmico (4) e outros (3). Em
relação à ação anátomo-terapêutica, os antiepilépticos (10), os antibióticos
(3) e os analgésicos (1), usados isoladamente, foram os possíveis
desencadeadores da RAM. Nos demais 7 casos, foi observado que houve associação
de fármacos de diferentes classificações ATC.
Em apenas dois casos analisados identificou-se que a RAM foi decorrente de
automedicação, com associação entre fármacos com efeito analgésico e para
terapia sintomática da gripe: Dipirona simples e associada com
desclorfeniramina, e broncodilatador (fenoterol) associado à corticosteroide
(Prednisona) (Quadro_1). Nos demais casos, os medicamentos foram prescritos
pelo médico.
Quadro 1 Fármacos relacionados ao desencadeamento da SSJ e NET em casos
tratados em um hospital público do Distrito Federal, no período de 2005 a 2012,
Brasília-DF, 2012
Nível anatômico Fármacos Nº Grupos Cód.
ATC
Fenobarbital 4 Antiepiléptico N03
Fenitoína 3 Antiepiléptico N03
Sistema Nervoso (N) Carbamazepina 2 Antiepiléptico N03
Lamotrigina 1 Antiepiléptico N03
Dipirona 1 Analgésico N02
Penicilina benzatina 1 Antibiótico J01
Amoxicilina 1 Antibiótico J01
Anti-infecciosos gerais de uso sistêmico (J) Trimetoprima e sulfametoxazol,
associados a Penincilina benzatina 1 Antibiótico J01
e Eritromicina
Sistema musculoesquelético (M) Alopurinol 1 Antigotoso M04
Dipirona associado ao Resfenol*
(paracetamol/maleato de 1 Analgésico e antigripal N02
clorfenamina/cloridrato de
fenilefrina)**
Rifampisina e Dapsona associado à 1 Antibiótico e J04 e
Prednisona*** corticosteroide H02
Fenitoína associado à 1 Anticonvulsivante e N03
Associação de fármacos de diferentes classificaçõesCarbamazepina Antiepiléptico
Fenobarbital associado à Metildopa1 Antiepiléptico e Anti- N03 e
hipertensivo C02
Enalapril associado à Dipirona 1 Anti-hipertensivo e C09 e
analgésico N02
Fenoterol associado à Prednisona**1 Broncodilatador e H02 e
corticosteroide R03
Prontuário sem informação 1 - -
Total 22
*Produto para terapia sintomática da gripe, classificado através da Relação de
Medicamentos de Referência - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2010;
**Associação através de automedicação, dados do prontuário;
***Poliquimioterapia para tratar Hanseníase.
Destaca-se ainda a fragilidade nos registros das informações demográficas e
clínicas nos prontuários. Isso dificultou a obtenção de dados mais precisos
sobre o tempo decorrido entre o uso do medicamento e o aparecimento dos sinais
e sintomas, tempo de internação, gravidade dos casos por meio do SCORTEN, os
possíveis fármacos que desencadearam a EA, bem como o acompanhamento do cliente
após a alta.
Em relação às ações dos profissionais de saúde para o manejo das RAM, não foram
encontrados, no período, registros sistematizados de notificação, tampouco
existia no hospital, um setor responsável pela Gerência de Risco e/ou de
Farmacovigilância.
DISCUSSÃO
Um dos fatores de risco avaliado neste trabalho foi a idade. A prevalência de
clientes diagnosticados com SSJ e NET foi maior na faixa etária de 11 a 40 anos
(n=14). Os dados encontrados contrapõem-se à literatura, que afirma que o pico
de incidência está na segunda década de vida(13-15). Por outro lado, 3 dos 22
casos analisados eram idosos, com idade igual ou acima de 60 anos (Tabela_2),
faixa etária mais acometida por doenças crônico-degenerativas e, portanto, com
maior predisposição e incidência de RAM devido a polifarmacoterapia(14,20-22).
Predominou o sexo feminino, consonante com outros estudos cujos achados indicam
a maior incidência entre as mulheres.
Quanto à gravidade da RAM, observou-se que somente o caso de uma cliente idosa,
com 70 anos de idade e cerca de 90,0% de área com descolamento epidérmico e
diagnóstico de NET, evoluiu para o óbito. Este dado está coerente com a
literatura quanto à maior probabilidade de mortalidade em idosos(14,20-22). A
literatura aponta que a mortalidade nos casos de SSJ ocorre em aproximadamente
10,0%, e nos casos de NET, entre 30,0% e 70,0% dos casos(16). A mortalidade
causada pela SSJ e NET aumenta com a idade e de acordo com a região do corpo
afetada, por serem agravos que provocam reação cutânea grave que demanda
diagnóstico rápido e adequado(16).
Entre os clientes estudados, 20 foram tratados na UTQ e 2 na UTI, sinalizando
que o manejo clínico foi adequado neste serviço, conforme sugere a literatura
especializada(13,20).
Os fármacos predominantes no desencadeamento da RAM neste estudo foram aqueles
que atuam no Sistema Nervoso (N), especialmente os anticonvulsivantes
(fenobarbital, fenitoína e carbamazepina), e os anti-infecciosos gerais para
uso sistêmico (J), com destaque para os antibióticos. Estes achados corroboram
os dados obtidos na literatura que informam que os fármacos mais frequentemente
associados a SSJ e a NET foram os antibióticos, com destaque para as
penicilinas, as sulfas e os anticonvulsivantes, em especial a fenitoína e a
carbamazepina(8,11,22). A identificação do fármaco que desencadeou a RAM é
essencial para a definição da ação terapêutica inicial, tendo em vista que a
suspensão do uso deve ser imediata, seguida do tratamento tópico das lesões
causadas(20-22).
A literatura disponível ainda não é suficiente para explicar o nexo causal
entre o uso de medicamentos e o desenvolvimento de RAM, mas aponta que a
imunossupressão, a idade avançada e as crianças estão mais vulneráveis.
Todavia, há registros de indivíduos previamente saudáveis que fizeram uso de
medicamentos como antibióticos e anti-inflamatórios não corticoides e
desenvolveram reações adversas(10,13-15,22). Neste sentido, os resultados deste
estudo reforçam a necessidade de mais investigações sobre as RAM, com ênfase
nos fatores sociodemográficos, clínicos e farmacológicos associados ao
desenvolvimento da SSJ e NET.
O serviço estudado se caracteriza por ser um hospital de referência no
tratamento de queimados e por isto utiliza a Regra dos Nove de Wallace para
determinação da Área Total de Superfície Queimada (ATSQ)(23) também para
avaliar a área atingida com descolamento de epiderme nos casos de SSJ e NET.
Esta forma de classificação, embora pouco usada nesses casos, estava registrada
em 20 prontuários e se constitui em parâmetro para o diagnóstico diferencial
entre SSJ e NET. Entretanto, observou-se nos registros dos prontuários que o
cálculo de superfície atingida com descolamento epidérmico não foi
adequadamente utilizado para diferenciar os casos de SSJ e NET(13-16). Cita-se
que 7 casos foram diagnosticados com SSJ, mas somente 1 cliente teve menos de
10% da superfície corporal atingida. Outros 4 casos tiveram uma superfície
corporal com descolamento epidérmico entre 10 e 30% e deveriam ter sido
diagnosticados com SSJ e NET simultâneos(13-15). Porém, nenhum caso foi
diagnosticado dessa forma. Além disso, 15 clientes tiveram mais de 30% da
superfície corporal com descolamento epidérmico, mas apenas 9 foram
diagnosticados com NET.
Estes dados confirmam a necessidade de maior produção e disseminação de
informações sobre a incidência de RAM, em especial as que se caracterizam por
erupções cutâneas leves, moderadas e graves, para aumentar a capacidade de
prevenção, diagnóstico e tratamento(4-9). Assim, ratifica-se a necessidade de
avaliação clínica especializada e a vigilância rigorosa de EA, EAM e RAM para
prevenir o sofrimento humano induzido por medicamentos e diminuir custos
financeiros associados com efeitos adversos inesperados(4-6).
Não foram encontrados outros registros para o monitoramento de RAM, conforme
proposto pela farmacovigilância, especialmente as notificações dos EA a setores
próprios dentro do hospital, no período estudado. Estas informações associadas
à fragilidade nos dados registrados nos prontuários reforçam a necessidade de
maior disseminação de informações e de capacitação dos profissionais de saúde,
seja para a notificação dos casos, seja para maior critério no diagnóstico e
seguimentos dos casos após a alta. Além disso, é necessário investir na
melhoria da documentação dos casos, de forma a incluir nela dados completos,
confiáveis e de fácil acesso, especialmente aos profissionais responsáveis
pelas ações de farmacovigilância(5-6).
CONCLUSÃO
Os resultados mostraram que no período de 2005 a 2012 foram tratados neste
hospital 9 casos de NET, 7 de SSJ e outros 6 sem o diagnóstico diferencial.
Predominou o sexo feminino e a faixa etária de 21 aos 40 anos. A maioria dos
fármacos foi prescrita, sendo os antiepilépticos a principal classe
farmacológica associada a RAM, seguida dos antibióticos. Contudo, observou-se
neste estudo divergência nos diagnósticos de SSJ e NET considerando-se as
recomendações da literatura. Apesar de não trazer prejuízo ao tratamento, o
diagnóstico de grande parte dos clientes, não considerou a superfície corporal
com descolamento epidérmico, parâmetro importante de diferenciação entre SSJ e
NET. As lesões por descolamento epidérmico causam grande prejuízo à qualidade
de vida do cliente com SSJ e NET, por provocarem dor intensa e deixarem-no
vulnerável a processos infecciosos.
Os casos tratados nesse período tiveram, em sua maioria (21), desfechos
favoráveis, com alta para o cliente, e apenas 1 óbito. Entre os prontuários que
continham a informação, 9 sofreram lesões epidérmicos de 2° grau. Todos os
casos foram tratados na UTQ e/ou na UTI.
Neste estudo foram encontradas limitações nos registros dos prontuários físicos
e eletrônicos dos clientes, principalmente relacionadas aos dados demográficos,
clínicos, sequelas e ao acompanhamento ambulatorial posterior à alta. Não foram
encontradas informações sobre a notificação de RAM. Essas informações são
importantes, dadas as características desses agravos, que apesar de raros,
geram um forte impacto econômico e social, com risco potencial de provocar
cegueira, modificações na pele e sobrecarga psicológica em população de perfil
sóciodemográfico diverso.