Autonomia do graduando em enfermagem na (re)construção do conhecimento mediado
pela aprendizagem baseada em problemas
INTRODUÇÃO
Atualmente, a formação em enfermagem vem sendo solicitada a responder ao
desafio de formar profissionais competentes para o trabalho em saúde(1). A
necessidade de mudanças é assumidamente comprovada, dada a ineficácia do modelo
tradicional e compartimentalizado de ensino, frente à capacidade de resposta às
demandas sociais(2).
Assim, as metodologias ativas invadem o cenário tradicional de ensino propondo
o protagonismo do aluno no processo de aprendizagem, com vistas a viabilizar o
desenvolvimento de sua autonomia(3). A autonomia do enfermeiro é indispensável
para o exercício de suas atividades durante a prática profissional, portanto,
precisa ser estimulada desde os primeiros momentos de formação do aluno durante
o período de graduação.
A Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) é uma das metodologias ativas mais
difundidas em cursos de saúde e enfermagem, firmando sua base teórica no
princípio da autonomia(3-5). Ela reconhece a "necessidade de formar enfermeiros
competentes nas dimensões técnica, científica, ética e política", ou seja,
"sujeitos sociais com capacidade de atuar em contextos de incertezas e
complexidade"(3). Seu intuito é proporcionar uma aprendizagem significativa,
aproximando os alunos da realidade ao trabalhar de forma intencional com
problemas vivenciados durante a prática profissional, considerando seus
conhecimentos prévios, sem dicotomia entre teoria e prática.
No decorrer da metodologia da ABP ocorrem alterações nos papéis dos atores no
cenário educacional - o professor deixa de ser mero transmissor de
conhecimento, e assume o papel de orientador do ensino e aprendizagem,
favorecendo a autonomia e estimulando o pensamento crítico do estudante(5). Os
alunos são instigados a assumir crescente responsabilidade perante a própria
formação, e com a mediação do tutor, passam a autogerenciar seu processo de
aprendizagem e de construção do conhecimento, que ocorre de forma contínua,
autônoma e crítica, ou seja, ao longo da vida. Essas mudanças revelam
diferentes escopos para a educação, que deixa de ser estritamente técnica/
mecânica e se compõe de finalidades política, estética, de inovação e evolução
da humanidade.
O processo tutorial além de assegurar a importância dos saberes prévios dos
alunos, torna-os capazes de manipular, de forma independente, materiais de
apoio como livros, artigos, internet, equipamentos, entre outros, em dosagens
que ultrapassam os conteúdos estipulados nos currículos, ou seja, constroem
seus próprios caminhos para o conhecimento(6).
Isso é altamente desejável, visto que a realidade que nos circunda, para qual
voltamos nossas atitudes e conhecimentos, é, simultaneamente, passível de
separação e inseparável. Podemos isolar os elementos que a constitui,
entretanto, cada vez mais percebemos que eles estão ligados uns aos outros. O
pensamento complexo nos impulsiona a visualizar que as coisas, mesmo separadas
– são ligadas, e que essas mesmas coisas ligadas, são igualmente em suas
formas, distintas(7).
Assim é o conhecimento, sua (re)construção é um processo dinâmico e que
prossegue ao longo da vida. Aos indivíduos que atuam profissionalmente em áreas
específicas, como a Enfermagem, faz-se necessário conciliar um conhecimento
geral e suficientemente amplo, com níveis adequados de especialização(6) para
que assim, emergir para a realidade, o conhecimento pertinente.
Faz-se "extremante importante examinar o que liga as coisas separadas, sempre
com o propósito de religá-las". Assim, necessitamos conceber a ética da
religação e pensar sobre as formas de organização que reúne os diferentes
elementos, pois "religar quer dizer não apenas estabelecer uma conexão
complementar, mas estabelecer uma conexão que faça um ciclo completo"(7).
Por ser a aprendizagem um fenômeno interpretativo da realidade, implica um ato
contínuo de construção, desconstrução e reconstrução dos saberes(8-9). A ABP
com o esquema de tutoria visa fazer com que os alunos saibam aprender e sintam-
se desafiados a aplicar suas descobertas em prática. Partindo dessas
características, essa nova concepção sobre aprendizagem incita o que no
pensamento complexo(10) é reconhecido por "reforma das mentes", que ocorre ao
projetar o foco mais intenso sobre as "cabeças bem feitas" em contraposição às
"cabeças bem cheias". "Uma cabeça bem feita significa que, em vez de acumular o
saber, é mais importante dispor ao mesmo tempo de uma aptidão geral para
colocar e tratar os problemas e princípios organizadores que permitam ligar os
saberes e lhe dar sentido"(8).
Objetivou-se com este estudo analisar como a ABP promove o desenvolvimento da
autonomia do aluno no processo de aprender a aprender.
METODOLOGIA
Estudo exploratório de cunho qualitativo, no qual se utilizou a Bricolagem(11)
como método. A Bricolagem propõe um esquema aberto que visa romper com a
monológica de se fazer pesquisa, ou seja, combater o reducionismo. Ela amplia o
foco possibilitando a utilização de uma variedade de métodos, instrumentos e
referenciais teóricos permitindo que o pesquisador possa compor diversas
interpretações.
Desenvolvida em uma universidade pública da região Centro-Oeste, durante o
período de estágio docência do programa de pós-graduação em nível de mestrado,
a investigação teve como sujeitos os tutores e alunos da disciplina de
Introdução ao Gerenciamento em Saúde, ministrada no quarto semestre do curso.
Ao todo, somaram 16 (dezesseis) acadêmicos matriculados na referida disciplina;
e 2 (dois) professores/tutores que operacionalizaram a metodologia da ABP.
Para a coleta dos dados na perspectiva da Bricolagem, e objetivando compreender
todos os complexos elementos envolvidos no cenário da utilização da ABP, foram
adotados di-versos instrumentos e técnicas de pesquisas, na intenção de captar,
com maior abrangência, o fenômeno investigado. A Bricolagem amparou a
necessária combinação entre as técnicas de observação participante, entrevista
semiestruturada, análise de registros dos alunos em portfólios, fichas de
avaliação e de gravação em áudio dos diálogos nas tutorias.
Como estratégia para análise dos dados, na condição de pesquisadoras bricoulers
(11), reunimos os diversos elementos que constituíam o fenômeno, na intenção de
atribuir-lhes sentido interpretativo, aqui entendido como a "busca pelo sentido
das falas e das ações" com a finalidade de se alcançar compreensão(12).
A Bricolagem utiliza, para o início da interpretação, o texto como porta de
entrada, denominado POETA. Ele funciona como o elemento central para a rede de
entretecimento na análise. Um POETA pode ser "qualquer coisa que tenha ou que
produza sentido – uma imagem, um livro, uma fotografia, uma teoria"(9). Nesta
pesquisa nossos POETAs traduziram-se nos materiais advindos das estratégias de
coleta de dados, ou seja: entrevistas com tutores da disciplina, observação
participante das sessões tutoriais, gravações em áudio das tutorias, análise de
registros em portfólios realizados pelos alunos, e ainda de instrumentos de
avaliação.
A análise dos dados seguiu estratégias de interpretação adotadas pelas autoras,
percorrendo as seguintes etapas: 1) Leituras iniciais; 2) Leitura aprofundada;
3) Construção de mapas de significados; 4) Articulação dos mapas; 5) Religação
dos sentidos e significados, e elaboração das categorias empíricas. Tais
categorias foram analisadas à luz do pensamento complexo de Edgar Morin e da
pedagogia libertadora em Freire.
Os preceitos estabelecidos na resolução 196/96 foram respeitados, o projeto
aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob nº 796/CEP/HUJM, e o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido aplicado a todos os participantes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A ABP proporciona aos acadêmicos que dela participam, diferentes oportunidades
para o desenvolvimento de sua autonomia, assim como formas diversas de lidar
com o conhecimento. Percebemos que com a ABP, os alunos aprendem de forma
autônoma e colaborativa, constroem e reconstroem seu conhecimento mediados
pelas atividades recorrentes do método e pelas novas funções que tanto alunos
quanto tutores precisam exercer.
Organizamos os resultados com a finalidade de melhor explicitar os momentos nos
quais os alunos (re)estruturam seus conhecimentos, munidos pela autonomia
proporcionada pela metodologia da AB, e exercitam, assim, o aprender a
aprender. Nessa intenção, apresentamos a seguir as categorias: a (re)construção
do conhecimento a partir dos saberes prévios; a (re)construção do conhecimento
a partir do exercício da teorização; a (re)construção do conhecimento
possibilitada pela religação dos saberes; e a autonomia envolvida na busca pelo
conhecimento pertinente.
A (re)construção do conhecimento a partir dos saberes e experiências prévias
Uma das mudanças relacionadas ao conhecimento constatada neste estudo foi a
possibilidade do saber em enfermagem ser (re)construído de forma individual e
coletiva no grupo tutorial. Esse processo iniciou-se com o reconhecimento da
importância dos saberes e experiências prévias dos alunos, oriundos de base
empírica e adquiridos por meio de vivências, e do contato com a realidade.
Estes conhecimentos foram partilhados entre os colegas durante as discussões
que percorreram as etapas da identificação dos termos desconhecidos; definição
dos problemas; brainstorming; e sistematização das hipóteses; que correspondem
aos primeiros 4 passos da operacionalização da ABP.
Esse processo possibilitou a troca de informações entre os alunos, que passaram
a se comunicar melhor, argumentar e defender opiniões, analisar criticamente a
veracidade e a aplicabilidade dos saberes à realidade tratada no caso, julgando
em consenso, se os conhecimentos já obtidos e debatidos pelo grupo são
satisfatórios para a compreensão da situação-problema. Desse modo, o saber
deixa de ser exclusivamente concebido pelo professor, pois os alunos percebem
que também é possível aprender com os colegas, assim como as informações
prévias e as experiências/vivências que já possuem, podem ser tão valiosos
quanto resultados de investigação científica.
Percebi que cada um pode contribuir com o grupo através de
experiências antes vividas. [...] Na medida em surgiam as dúvidas
sobre determinados assuntos ou termos, íamos discorrendo nosso
entendimento a respeito do mesmo. (Portfólio 2)
Então essa nossa parte do diálogo aqui é importante, porque eu posso
usar o que eu sei, o nosso conhecimento prévio, porque ele também é
importante tá? Então tentem trazer tudo o que sabem [...]. (Áudio
Tutoria grupo 1)
Atualmente, o caráter autobiográfico e autorreferencial do conhecimento, é
plenamente assumido(13). A realidade complexa exige cada vez mais, o
entrelaçamento entre os saberes pessoais e o que é estudado em sala de aula, ou
seja, um conhecimento que seja íntimo, que permita a união entre o sujeito e
objeto, considerando as subjetividades e percepções implicadas.
Faz-se de extrema importância considerar os saberes do senso comum, visto que
são eles que orientam a maior parte de nossas ações como seres humanos, e é
pelo uso dos mesmos, que damos sentido a nossas vidas(13). Portanto, os
conhecimentos prévios dos educandos necessitam ser considerados durante as
atividades acadêmicas, pois na medida em que são ativados, ocorre a
significação do novo saber estruturado ao contexto em que está sendo estudado
(14).
Os saberes de senso comum e os científicos, quando interpenetrados um pelo
outro, dialogam entre si, e originam uma nova racionalidade na qual o processo
dialógico configura a transformação do senso comum em ciência e vice-versa(13).
É responsabilidade, tanto da escola quanto do educador, considerar os saberes
dos educandos, e também as formas como são organizados, pois são "socialmente
construídos na prática comunitária", e fazem parte de seu cotidiano e de suas
vidas. O ensino da realidade concreta associada aos conteúdos ministrados nas
disciplinas é proposto com o intuito de estabelecer uma "intimidade entre os
saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social deles como
indivíduos"(7), portanto, o professor precisa respeitar o saber de pura
experiência do aluno, bem como estimular a capacidade criadora e indagadora do
educando. Nessa perspectiva, este é um papel ético do professor, fazer com que
o aluno pense e reflita sobre sua realidade, para assim se tornar cada vez mais
liberto.
Percebemos que a proposta da ABP vai ao encontro deste importantíssimo aspecto,
considerado na pedagogia libertadora de Freire. Ao trabalhar com casos
fictícios que retratam a realidade, o aprendizado dos alunos torna-se
significativo.
Discutir com os colegas fortalece o trabalho em equipe e retrata
melhor a realidade. (Portfólio 6)
Uma aluna relata sobre experiência de estágio voluntário que fez no
hospital de sua cidade, o que desperta a atenção dos demais alunos,
antes dispersos. (Relatório Observadora 2)
[...] lá no sétimo semestre eles falam assim que não viram, não sabem
[...] eles não sabem o que é gerenciamento. Por quê? Porque eles não
significaram aquilo, eles não conseguiram enxergar aquilo numa
situação concreta. Então pra mim faz toda diferença quando você traz
[...] a situação-problema. (Entrevista Tutora 2)
A ABP como estratégia de ensino amparada na aprendizagem pela descoberta e
aprendizagem significativa, valoriza o princípio do aprender a aprender. Todo
conhecimento para ser significativo necessita estabelecer relação com saberes
prévios dos alunos, favorecendo sua autonomia para assimilar conhecimento
empírico e cientifico em um único contexto. Na aprendizagem significativa o
aluno atua como protagonista no processo de construção do próprio conhecimento
(2).
A metodologia da ABP proporciona autonomia para que o próprio aluno crie sua
rede de entrelaçamento de saberes prévios com novas estruturas cognitivas.
Podemos afirmar neste sentido, que o aprendizado é um fenômeno complexo e não
se concretiza pela soma ou acréscimos de conhecimentos, mas sim, pelas novas
estruturas de conexão que cada sujeito é capaz de construir para si(2).
Nessa perspectiva, a aprendizagem ocorre verdadeiramente quando o sujeito
consegue integrar a informação que lhe chega no formato mais abrangente, com a
informação que já possui(13). Considerando este aspecto pode-se falar em
aprendizagem como construção de conhecimento, pois caso contrário, as
informações podem estar somente se acumulando de forma paralela, transformando-
se tão somente em respostas corretas, que são facilmente perdidas e esquecidas.
A (re)construção do conhecimento a partir do exercício da teorização
A (re)construção do conhecimento também foi influenciada pelo processo de
teorização (passo 6) da ABP. Os alunos, ao consumirem resultados de pesquisas
com vistas a preencher as lacunas de conhecimento, compreenderem e darem
resolutividade ao caso, puderam constatar que possuíam concepções equivocadas
sobre temas debatidos no grupo tutorial, e assim reformular suas ideias
mediante identificação do equívoco.
Muitas coisas que eu pensava saber quando fui pesquisar não era como
eu pensava, outras eu nem imaginava que existiam. [...] Agora que
estou com a pesquisa pronta, estou ansiosa pela próxima etapa.
(Portfólio 11)
De imediato fiquei perplexa por ter ciência do quão pobre era meu
vocabulário. Vários termos que estavam nos textos me eram
desconhecidos. O interessante foi ter a oportunidade de conhecer
terminologias novas. (Portfólio 12)
A teorização em bases científicas, além de proporcionar a oportunidade para o
consumo de resultados de pesquisas, também permitiu o exercício de postura
crítica sobre a leitura do material, analisando sob quais formas essas
pesquisas poderiam ser empregadas na problemática do caso. O ato de pesquisar,
assim como o de consumir resultados de pesquisa é considerado de extrema
importância no desenvolvimento da autonomia e consequente liberdade do aluno.
"Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino"(15), a pesquisa visa
satisfazer as indagações, ou seja, conhecimentos que necessitam ser aprimorados
ou até mesmo (re)avivados, a apreensão de novos saberes auxilia nas
intervenções que podem influenciar mudanças na realidade do indivíduo.
A APB enquanto método possibilita que o aluno busque pelo conhecimento de forma
autônoma permitindo-o obter renovações contínuas de informações para que
alcance êxitos cognitivos durante a vida acadêmica, e se torne capaz de
desenvolver destrezas, atitudes, valores e competências que irão subsidiar sua
prática profissional(6).
Assim, a busca e o contato com a produção de conhecimentos disponibilizados em
fontes idôneas, auxiliou a construção não só da capacidade cognitiva do aluno,
como também seu poder de análise crítica. A aprendizagem reflexiva considera a
importância das respostas cognitivas, entretanto, os pensamentos e os
sentimentos também devem ser relevados, pois estão envolvidos em uma rede de
caminhos altamente complexos(1).
Hoje (referindo-se após a teorização) a discussão foi bem proveitosa
e interessante, analisei a situação diferente e com um olhar mais
compreensivo da situação, até porque busquei conceitos que não
estavam no meu entendimento. (Portfólio 5)
Olha só, baseados nos que vocês trouxeram (teorização), o que vocês
acham que Amanda (enfermeira do caso fictício) deveria fazer? (Áudio
Tutoria Grupo 1)
Na percepção de alunos e tutores, a busca pelo saber é um movimento contínuo, e
as atualizações técnicas e cognitivas precisam ser realizadas ao longo de toda
a vida profissional. Portanto, o processo de aprender a aprender se firmou pelo
fato dos alunos, para além de compreenderem a constante necessidade de
atualização, tomarem consciência acerca de ‘como’ e ‘onde’ buscar o
conhecimento aplicável para a situação específica sob estudo.
O segundo ponto seria aprendizado ao longo da vida, que eles estão
aprendendo a aprender eles não tem uma ... algo que a gente possa
dizer que tá pronto e acabado né?
[...]. (Entrevista Tutora 1)
Embora a autonomia do aluno como construtor do conhecimento seja algo
resguardado durante a metodologia da ABP, esse processo é viabilizado pela
consequente liberdade do aluno, ou seja, é um processo recursivo, a existência
de uma depende do desenvolvimento da outra. A liberdade envolve um alto grau de
subjetividade e é definida "pelo conjunto de possibilidades de invenção, de
escolha, de decisão, de apropriação de acasos e determinismos", assim,
primeiramente ela "define-se pelo conhecimento; em seguida, "pela possibilidade
do sujeito agir em função desse conhecimento"(16).
Nesta mesma perspectiva, a educação é o que permite a libertação do sujeito.
Para tornar-se liberto, é preciso necessariamente a prática da autocrítica,
embebida pela autoconsciência do próprio inacabamento como ser humano(15).
O exercício da autocrítica estimulado pela metodologia da ABP, fez com que os
alunos refletissem sobre a forma como cumpriram suas investigações teóricas. Os
resultados desse exercício apontaram tanto para a necessidade de aprimorar as
estratégias de busca, levando a perceber necessidade de melhorar a execução da
atividade, como também, para a satisfação com a busca bibliográfica realizada,
e até entusiasmo em partilhar com colegas os resultados obtidos.
Não pesquisei como deveria, por isso me senti um pouco apreensiva,
reconheço que poderia ter feito mais [...]. (Portfólio 5)
Não foi difícil encontrar textos e artigos que respondessem as
questões. Foi um exercício de pesquisa e leitura prazeroso.
(Portfólio 14)
Aspecto relevante no processo de aprender a aprender possibilitado pela ABP, é
a busca e a teorização por conceitos do problema fictício(17). Nesta etapa, os
alunos são estimulados a consultar livros, periódicos, jornais, revistas,
internet, profissionais e experts sobre os temas. Cabe ao tutor nesta etapa, o
importante papel de incentivo, pois se a estratégia de teorização for falha, os
alunos podem perder a autoconfiança e se sentirem desestimulados com a
metodologia.
Essas reflexões críticas sobre a própria atuação envolvem a constante
exploração dos sentimentos que compõe uma parte importante sobre as
experiências vividas, formação dos pensamentos e sensações da experiência
particular. "Os sentimentos influenciam a motivação para agir e,
consequentemente, no processo cognitivo"(1).
Assim o tutor necessita estar atento às expressões de sentimentos dos alunos
durante a metodologia, pois como mediador do processo de aprendizagem, possui
importante missão de auxiliar os alunos a vencer suas barreiras, e a alcançar
êxito.
A (re)construção do conhecimento possibilitada pela religação dos saberes
Durante vários momentos das sessões tutoriais, mediados pelo tutor ou por
iniciativa própria, os alunos associaram vários dos temas tratados na
disciplina de gerenciamento com outras disciplinas do curso de enfermagem, ou
seja, realizaram interdisciplinarização. A associação entre os temas emergiam
de experiências vividas durante a formação acadêmica no atual semestre e em
anteriores, tanto nas práticas curricula-res, quanto em disciplinas ministradas
por outros professores.
Percebi que o gerenciamento que o enfermeiro faz em seu trabalho está
baseado em conceitos da administração, o que revela a importância de
lançar mão em outras áreas de conhecimento e não ter o foco limitado.
(Portfólio 9)
[...] foi possível ver que a administração em enfermagem requer o
conhecimento de teorias da administração; de filosofia do serviço de
enfermagem; das políticas de saúde; da legislação e muitas outras
teorias para o funcionamento total dessa administração, sendo
portanto importante para nos enfermeiros expandir a leitura para
áreas além da saúde. (Portfólio 14)
(referindo-se a teorização) Resolução de conflitos eu coloquei junto
com o conceito de liderança [...] A partir desse conceito de líder,
de uma forma de líder, é que ele vai bus-car encontrar os meios para
estar resolvendo os conflitos [...]. (Áudio Tutoria Grupo 1 – Aluna)
As ideias morinianas aplicadas à educação, considerando o contexto cognitivo,
"privilegiam a religação dos saberes e a prática transdisciplinar". Existe uma
real necessidade de transitar pelas diversas áreas do conhecimento, de forma a
promover um diálogo entre as ciências e as formas epistemológicas de pensar
(18).
A atual forma como os currículos de enfermagem se encontram dispostos, segue a
lógica dispersa e parcelada advinda do desenvolvimento técnico - cientifico do
século XIX. "A educação deve levar em conta a complexidade do real, evitando
conceber as disciplinas do currículo de forma isolada"(18).
Assim, ao analisarmos a composição do projeto pedagógico do Curso de Graduação
em Enfermagem, percebemos que o mesmo detalha a grade curricular, explicitando
as disciplinas que o compõe, ementa, carga horária, competências requeridas e
bibliografia a ser utilizada. Essas disciplinas se combinam por áreas de
concentração e formam os blocos ou semestres que compõem o Curso. Da mesma
forma, a composição do quadro docente atuante na faculdade, subdivide-se entre
grupos de trabalho combinados por área de atuação: Enfermagem Fundamental;
Saúde da Criança e do Adolescente; Saúde Sexual e Reprodutiva; Saúde do Adulto;
Saúde Mental; Administração em Enfermagem; Estágio curricular.
Em estudo recente(19) em que foi analisada a gestão do trabalho docente na
referida instituição, constatou-se que um dos objetivos estabelecidos no plano
pedagógico e pelos componentes dos cargos de gestão é a integração entre as
áreas de concentração que compõe a grade curricular do curso, como tentativa de
evitar o parcelamento/fragmentação entre os saberes. Entretanto, apesar de
constar no PPP a intencionalidade da integração, o desenvolvimento do trabalho
docente na realidade estudada, satisfaz esse objetivo a título operacional, não
permitindo ainda, a necessária transdisciplinaridade.
A forma predominante de se fazer educação, que persiste no sistema disciplinar,
desconsidera a urgência da reforma do pensamento e dificulta os processos de
desenvolvimento da autonomia e senso crítico, imprescindíveis para a
emancipação do sujeito. Assim, o currículo "fragmentado em disciplinas perde a
visão de conjunto, dificulta o diálogo entre os saberes e causa desinteresse
dos estudantes pelos seus conteúdos"(18).
Nesse cenário, a complexidade emerge não como solução para os problemas do
mundo, mas como uma alternativa, pois no âmbito educacional visa contemplar um
"novo contexto cognitivo que privilegia a religação dos saberes e a prática
transdisciplinar"(18). Na viabilização da interdisciplinaridade e
transdisciplinaridade, a ABP se mostra como uma potente metodologia, capaz de
subsidiar a composição de um currículo integrado.
Na abordagem complexa, o conhecimento fragmentado e constituído de forma
isolada é insuficiente, "visto que e preciso situá-los em seu contexto para que
adquiram sentido". Desta forma, a interdisciplinaridade na Enfermagem/Saúde,
incita a "necessidade de religação dos saberes para permitir a relação da parte
no todo e do todo na parte"(9).
A autonomia do educando na (re)construção do conhecimento pertinente
O educador, para desenvolver a autonomia de seus alunos, precisa realizar
atividades que estimulem a tomada de decisão e a responsabilidade pela própria
formação, para que eles aprendam a decidir com liberdade(20) assumindo todas as
consequências desse ato, portanto, essa autonomia deve abranger a liberdade
pela busca do conhecimento pertinente.
Na metodologia da ABP, as situações-problemas são elaboradas pelos professores
e visam atender uma série de temas estabelecidos nos programas curriculares dos
cursos. Neste caso em particular, isso não se deu de modo diferente, ou seja, a
situação-problema elaborada percorreu pelos temas estabelecidos no conteúdo
disciplinar. Entretanto, mesmo com o caso trazendo temas específicos, os alunos
aprenderam de forma independente a buscar o conhecimento pertinente, aquele
passível de ser aplicado à prática, neste particular, à situação problema
utilizada.
O conhecimento pertinente para a educação da era planetária necessita resgatar
"o contexto, o global; o multidimensional e o complexo"(10), assim o contexto
necessita ser considerado com a finalidade de dar sentido à informação, o
global reúne as diversas partes ligadas ao contexto de forma inter-retroativa,
e o aspecto multidimensional visa captar todas as dimensões/facetas a serem
consideradas, enfrentando assim, a complexidade dos elementos da realidade que
são "tecidos juntos".
Nesta atividade realizamos um debate, ou, melhor dizendo, discussões
pertinentes aos termos utilizados no texto. (Portfólio 2)
Hoje fizemos a problematização e discussão do caso, levantamos
questões pertinentes a ele e a disciplina. (Portfólio 7)
Dessa maneira, os problemas expostos no caso fictício do método ABP, não foram
analisados ou tratados de forma reducionista ou isolada/fragmentada. Por mais
que objetivos e metas tenham sido estabelecidos com vistas a dar respostas e
resolutividade ao caso, podemos afirmar que as questões de aprendizagem (passo
5) foram elaboradas considerando as conexões entre os temas, e com vistas a
satisfazer a problemática geral do caso.
Destacamos também que, durante a metodologia, os temas não foram aprofundados
teoricamente, pois a metodologia prioriza o manejo do conhecimento pertinente
necessário para cada situação. Neste ponto, ressaltamos que a ABP visa romper
com o ‘depósito conteudista’ da ‘educação bancária’(15), segundo a qual é
preciso esgotar todo o conhecimento.
A lógica instaurada pela metodologia ativa abre a possibilidade para que os
alunos tenham acesso à informação de forma autônoma, e que possam articulá-la
ou aplicá-la nas circunstancias em que o problema se apresentar. Essa decisão
parte dos próprios alunos ao analisarem criticamente sobre a necessidade de
busca pelo conhecimento. Na perspectiva complexa, "o conhecimento completo é
inatingível. Esta forma de pensar comporta o reconhecimento de um principio de
não completude e de incertezas"(9).
Portanto, a viabilização da autonomia pela ABP, faz com que os alunos estejam
preparados para enfrentar situações problema da realidade, considerando a
multidimensionalidade dos fenômenos, construindo conhecimento pertinente, ou
seja, aquele que permite manejar as informações necessárias à compreensão e
resolução do caso.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ABP como metodologia de ensino centrada no aluno, visa problematizar casos da
realidade para significar os conteúdos tratados nos currículos, bem como
promover o desenvolvimento da autonomia do educando perante seu processo de
formação.
A análise deste estudo evidenciou que os alunos e tutores percebem diferentes
formas de lidar com o conhecimento e passam a exercer novos papéis no processo
ensino-aprendizagem. Os alunos se reconhecem como responsáveis pelo próprio
aprendizado e gozam de autonomia na (re)construção do conhecimento. Verificamos
que os acadêmicos tornam-se aptos a interligar saberes e experiências prévias,
àqueles disponibilizados no meio científico. Desenvolvem ainda a habilidade
para religar saberes, antes fragmentados e desconexos, e para autonomia na
busca pelo conhecimento pertinente.
A ABP enquanto metodologia prioriza a aprendizagem significativa ao
possibilitar articulação da realidade ao que está sendo estudado, resgatando a
complexidade e multidimensionalidade dos elementos envolvidos no contexto.
O exercício da teorização estimula o consumo de resultados de pesquisa e incita
a atualização continua, pois o conhecimento transcende a história com movimento
em espiral, sempre renovando e reconstruindo concepções. Além disso, ocorre o
despertar do senso crítico do aluno sobre os materiais científicos com os quais
passa a ter um contato constante. Essa aprendizagem reflexiva é cada vez mais
valorizada durante a prática educativa, e faz com que os alunos se tornem
sujeitos éticos-políticos, com postura emancipada frente as forças opressoras.