Idosos vítimas de trauma: doenças preexistentes, medicamentos em uso no
domicílio e índices de trauma
INTRODUÇÃO
Assim como em países desenvolvidos, o Brasil também passa por uma transição
demográfica, pois se observa um significativo aumento de pessoas com 60 anos ou
mais em relação às demais faixas etárias. Essas pessoas, denominadas idosos,
possuem participação ainda ativa na sociedade, resultado dos constantes
esforços em promover uma forma de vida mais saudável(1) e, também a busca
pessoal de novas experiências culturais e recreativas. Este estilo de vida
ocorre, em sua maioria, em um cenário urbano onde, a falta de acessibilidade
nos espaços domésticos e públicos, em particular de vias públicas, expõe os
idosos ao risco de acidentes e violências.
Os traumas repercutem como um evento com representatividade para esta
população, pois, muitas vezes, prejudicam sua capacidade física e mental(2),
trazem importantes consequências sociais e econômicas, e são responsáveis por
altos coeficientes de mortalidade. No Brasil, no ano de 2011, dados
estatísticos relacionados às internações hospitalares por causas externas
mostram que essas foram representadas por 6,44%, ou seja, 160.781 internações
no Sistema Único de Saúde, segundo capítulos da Classificação Internacional de
Doenças (CID10), com expectativa de aumento com o passar dos anos(3).
Trauma define-se como o termo médico cujo significado é lesão; deve ser
considerado uma doença e não um acidente ou fatalidade e, assim, pode-se evitá-
lo. Os idosos são expostos aos mesmos mecanismos de trauma que a população
geral, a diferença está na dimensão em que eles ocorrem(4). O trauma em idosos
possui características específicas e alguns fatores, como por exemplo, as
alterações decorrentes do próprio processo de envelhecimento, a associação à
doenças preexistentes e o uso concomitante de medicamentos podem interferir
negativamente em sua morbimortalidade.
Os efeitos do envelhecimento nos sistemas orgânicos, os quais podem ser
descritos por sua progressiva perda funcional, ao tentarem responder às
exigências do trauma, encontram outras complicações(4). Associado a isso, é
comum que idosos apresentem ao menos uma doença prévia, o que corresponde, por
si só, a um fator preditivo da mortalidade em vítimas de trauma(5). Dentre
elas, é comum encontrar na população geral o diabetes mellitus, a hipertensão
arterial sistêmica, coronariopatia, insuficiência cardíaca, doença pulmonar
obstrutiva crônica, insuficiência renal crônica e cirrose hepática(4). Sendo
assim, habitualmente, os idosos fazem uso de um ou mais medicamentos para
controle de doenças, como por exemplo, os psicotrópicos (antidepressivos,
sedativos, neurolépticos), que estão associados com a ocorrência de quedas; os
anti-hipertensivos, que podem tornar a ressuscitação difícil após o trauma; os
beta-bloqueadores que, especificamente, podem diminuir a resposta hemodinâmica
compensatória à perda de volume ou sangue; e os anticoagulantes e agentes
antiplaquetários, que aumentam o risco de complicações hemorrágicas(6).
Portanto, ao realizar o atendimento ao idoso, vítima de trauma, deve-se ter em
mente estas variáveis.
Os índices de trauma possibilitam quantificar as alterações fisiológicas e a
gravidade das lesões anatômicas apresentadas pelas vítimas e calcular a
probabilidade de sobrevida, contribuindo na avaliação da qualidade do
atendimento prestado(7). Diversos índices fisiológicos e anatômicos têm
mostrado relação com o trauma geriátrico, destacando-se: Revised Trauma Score
(RTS), Injury Severity Score (ISS) e Trauma and Injury Severity Score (TRISS)
(6).
Este estudo justifica-se à medida que se pretende reconhecer em idosos, vítimas
de trauma com maior gravidade, a presença de variáveis que podem ser
responsáveis pelo prolongamento da permanência hospitalar, pelo surgimento de
complicações, incapacidades e mortes. Além disso, pesquisas nesta temática,
especialmente com a utilização dos índices de trauma, ainda são incipientes no
país.
O objetivo foi identificar o perfil sociodemográfico de idosos, vítimas de
trauma; caracterizar as doenças preexistentes e os medicamentos em uso no
domicílio; calcular os índices de trauma; descrever o desfecho clínico e
verificar a associação das variáveis faixa etária, sexo e mecanismo do trauma
com as variáveis doenças, mecanismo e os índices de trauma.
METODOLOGIA
Estudo retrospectivo e exploratório, realizado a partir da análise dos dados de
natureza secundária contidos no banco de dados de vigilância das causas
externas do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia (NHE) de um hospital geral
terciário do interior paulista, referentes às notificações dos pacientes,
vítimas de trauma, no período de janeiro de 2008 a dezembro de 2010.
Os critérios de inclusão do estudo foram: possuir 60 anos ou mais de idade,
ambos os sexos, vítimas de trauma, que foram atendidos na Sala de Trauma,
cadastrados no banco de dados do NHE. Idosos com fratura isolada de colo de
fêmur pós-queda da própria altura e aqueles com lesões ortopédicas com ISS ≤8
pontos foram excluídos, pois atualmente estudos se dedicam a compreender a
queda da própria altura e suas consequências(8), além do que a mesma possui
baixa gravidade(9). Ao excluí-la, pretende-se evidenciar os traumas de
gravidade moderada a muito grave (ISS ≥ 9).
A população total de vítimas de trauma, cadastradas no referido banco nos três
anos analisados foi de 5.945 pacientes, destes, 470 (7,9%) eram idosos. Após a
aplicação dos critérios de inclusão/exclusão, a amostra deste estudo foi
constituída por 131 idosos.
A coleta de dados seguiu as informações contidas no banco de dados do NHE,
considerando seu sistema de medidas: 1) sociodemográficas – idade, sexo, estado
civil e profissão/ ocupação; 2) características do evento traumático – tipo de
transporte pré-hospitalar e mecanismo do trauma; 3) índices de trauma – Revised
Trauma Score (RTS), Abreviated Injury Scale (AIS), Injury Severity Score (ISS)
e Trauma and Injury Severity Score (TRISS); e fator de alteração de consciência
(sob efeito de álcool, sedado, sedado e entubado, epiléptico e outros); 4)
doenças pré-existentes e uso de medicamentos em domicílio e 5) evolução clínica
– necessidade de cirurgia e qual especialidade, necessidade de internação na
Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tempo de internação e, no óbito, qual a
causa principal.
O RTS é um índice fisiológico que possibilita avaliar a resposta orgânica ao
trauma a partir de parâmetros da avaliação do estado neurológico pela Escala de
Coma de Glasgow (ECGl), da pressão arterial sistólica e da frequência
respiratória; os quais são determinados no momento da admissão hospitalar,
podendo estar alterados se o paciente estiver sob efeito anestésico, álcool,
drogas ilícitas ou se foi entubado(10). Quanto maior a pontuação, maiores as
chances de sobrevida.
A AIS contém uma lista de milhares de lesões com valores de gravidade que
variam de 1 a 6, dividindo-se o corpo em seis regiões: cabeça e pescoço, face,
tórax, abdome e órgãos da pelve, extremidades e ossos da pelve e superfície
externa. A gravidade das lesões é classificada em: 1 – gravidade mínima; 2 –
moderada; 3 – grave, sem risco de vida; 4 – grave, com risco de vida, mas de
provável sobrevida; 5 – crítica, sobrevivência duvidosa e 6 – quase sempre
fatal(10).
O ISS é um índice anatômico, considerando a gravidade das lesões existentes nos
seguimentos do corpo. É baseado na AIS e, portanto, seu cálculo é realizado de
acordo com os índices mais graves de cada uma das seis regiões do corpo, assim,
o ISS pode variar de 1 a 75 pontos(7). Neste estudo, os valores do ISS obtidos
foram categorizados de 9 a 15 pontos (trauma moderado), 16 a 24 (trauma grave)
e 25 pontos ou mais (trauma muito grave)(10).
Já o TRISS, escore de trauma e o escore de gravidade da lesão, é um índice que
associa o RTS e o ISS, considerando-se, ainda, a idade e o tipo de trauma
(contuso ou penetrante), possibilitando o cálculo da probabilidade de
sobrevida. Pode ser interpretado como: de 0-25%, associado à inevitabilidade da
morte; entre 26-50%, significa indivíduos potencialmente salváveis; e 51% ou
mais, indica francas condições de se evitar o óbito(10).
Obteve-se um check-list das doenças preexistentes e medicamentos em uso
procedentes dos prontuários médicos, a partir da elaboração e validação de um
instrumento de coleta de dados, que posteriormente, foram agrupados conforme os
capítulos da CID10 e de acordo com o Dicionário de Especialidades
Farmacêuticas, respectivamente.
Para o processamento dos dados, foi elaborada uma planilha em Microsoft Excel,
contendo um dicionário (codebook) e duas planilhas que foram utilizadas para a
validação por dupla entrada (digitação). Após, os dados foram exportados para o
software estatístico SAS® 9.0, utilizado para realizar todas as análises
estatísticas. Os dados foram interpretados de acordo com estatísticas
descritivas – frequência simples, medida de tendência central – média (méd), de
variabilidade – desvio padrão (dp) e correlacionais. Valores de p menores que
0.05 foram considerados significativos.
Para a análise da associação entre as variáveis faixa etária, sexo e mecanismo
do trauma com as variáveis doença, ISS e mecanismo do trauma foram realizados
alguns agrupamentos. Foram considerados: acidentes de transporte (códigos do
trauma referentes aos pedestres, ciclistas, veículos automotores e
motociclistas), quedas, queimadura e violência (agressão, ferimento por arma de
fogo e arma branca).
O projeto foi apreciado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto, sendo aprovado, sob o protocolo nº 1261/2011.
RESULTADOS
Perfil sociodemográfico
A idade dos idosos variou entre 60 e 93 anos (méd=69,9 anos; dp=7,7 anos). O
intervalo com maior distribuição foi o de 60-69 anos com 77 (58,8%)
participantes de ambos os sexos. Houve o predomínio do sexo masculino 96
(73,3%) e, com relação ao estado conjugal, a maioria era casada/amasiada 71
(55,1%) e 70 (54,7%) eram aposentados ou pensionistas.
Doenças preexistentes e medicamentos em uso no domicílio
A maior parte dos idosos (65,6%) apresentava doenças preexistentes, sendo que
58,0% possuíam alguma doença do aparelho circulatório, 49,4% transtornos
mentais e comportamentais e 26,6%, doenças endócrinas, nutricionais e
metabólicas. Vale ressaltar que um mesmo idoso poderia estar presente em uma ou
mais categoria ao mesmo tempo. Destaca-se, dentre elas, a hipertensão arterial
sistêmica (HAS) 51 (38,9%), o etilismo 26 (19,8%) e o tabagismo 19 (14,4%) e o
diabetes mellitus tipo 2 19 (14,4%), respectivamente.
O número de doenças preexistentes por idoso variou entre zero e seis (méd=2,3;
dp=1,4), sendo que 33 (25,2%) possuíam uma doença, 20 (15,3%), duas e 17
(13,0%), três. Ressalta-se que para 21 (16,0%) deles havia, em seus prontuários
médicos, a informação de que não possuíam qualquer doença e para 24 (18,3%) não
havia registro se possuíam ou não.
Houve o predomínio do uso de medicamentos em domicílio (48,9%), destes, 33,4%
faziam uso de anti-hipertensivos, 19,8% de diuréticos e 11,4% de antiagregante
plaquetário/ anticoagulante. Destaca-se que um mesmo idoso poderia estar
presente em uma ou mais categorias ao mesmo tempo. Na categoria de anti-
hipertensivos, os inibidores da enzima conversora da angiotensina eram usados
por 38 (28,9%) dos idosos e os betabloqueadores cardiosseletivos, por 22
(16,7%).
O número de medicamentos em uso pelos idosos variou entre zero e nove (méd=3,2;
dp=2,3). Nota-se que 22 (16,8%) tomavam um medicamento, 10 (7,6%), dois e 10
(7,6%), três.
Características do trauma
Quanto ao tipo de transporte pré-hospitalar, 36 (27,5%) idosos foram
transportados pelas Unidades de Suporte Avançado (USAs) de Ribeirão Preto,
seguido de 31 (23,7%) pelas Unidades de Suporte Básicos (USBs) de outras
cidades e 30 (22,9%) pelas USBs de Ribeirão Preto.
Constatou-se que, para 41 (31,3%) idosos, o mecanismo de trauma foi a queda,
seguido de 37 (28,2%) atropelamento e 17 (13,0%) para as queimaduras. Em
relação ao tipo de trauma, 109 (83,2%) idosos apresentaram trauma contuso. De
todos os traumas, sete (5,3%) foram caracterizados como tentativa de
autoextermínio.
Considerando as regiões do corpo afetadas, nota-se que 78 (59,5%) idosos
apresentaram alguma lesão na região da cabeça/pescoço, seguida por 60 (45,8%)
na região das extremidades e ossos da pelve. Dentre os 78 idosos com lesão na
região da cabeça/pescoço, 43,6% foram classificados com AIS 3 (grave, sem risco
de vida) e para os com lesão na região das extremidades e ossos da pelve (60),
em 16,7% o AIS correspondeu a 3 (grave, sem risco de vida).
O número de lesões por idoso variou entre uma e seis (méd=1,8; dp=1,1). No que
se refere à relação entre lesões e região do corpo, 69 (52,7%) apresentaram
lesões em apenas uma região do corpo, 34 (26,0%) em duas regiões, 19 (14,5%) em
três e 9 (6,9%) em quatro ou mais regiões.
De acordo com a Tabela_1, a pontuação do RTS obteve méd=7,0 e dp=1,6; sendo que
63,4% deles apresentaram escores aproximados de 8, ou seja, alta probabilidade
de sobrevida. Quanto ao ISS, houve méd=19,7 e dp=13,8. Nota-se que 44,3%
apresentaram trauma moderado, seguidos de trauma muito grave (30,5%) e trauma
grave (25,2%). Quanto ao TRISS, a pontuação variou entre 0,2 e 97%, com média
de 78,1%, sendo que 80,2% apresentaram valores de 51% ou mais, o que indica
franca condições de se evitar o óbito. Vale ressaltar que, na admissão
hospitalar, dados da avaliação inicial revelaram que 109 (83,2%) das vítimas
não apresentavam nenhum fator de alteração da consciência.
Tabela 1 Distribuição dos idosos, vítimas de trauma, nos anos 2008, 2009 e
2010, segundo os índices de trauma RTS, ISS e TRISS, Ribeirão Preto-SP, 2011
Variáveis n %
Escore de trauma revisado - RTS (PONTOS)
8 83 63,4
7 16 12,2
6 13 9,9
5 5 3,8
4 7 5,3
3 4 3,1
0 2 1,5
Ignorado 1 0,8
índice de gravidade da lesão - ISS (PONTOS)
9 a 15 (trauma moderado) 58 44,3
16 a 24 (trauma grave) 33 25,2
25 ou mais (trauma muito grave) 40 30,5
Escore de trauma e o escore de gravidade da lesão - TRISS (%)
0 a 25 12 9,2
26 a 50 13 9,9
51 a 75 8 6,1
76 a 90 25 19,1
91 a 95 31 23,7
96 a 100 41 31,3
Ignorado 1 0,8
Foi possível verificar a associação entre mecanismo do trauma e doença
preexistente (p=0,01), sendo que 33 (31,4%) daqueles com doença preexistente
foram vítimas de acidente de transporte, seguida de 31 (29,5%) por quedas.
Houve, também, associação entre mecanismo do trauma e sexo (p=0,03), com
predomínio de acidentes entre os homens, 52 (40,6%) e as quedas entre as
mulheres, 14 (10,9%).
Verificou-se que os acidentes foram o mecanismo do trauma que mais acometeram
idosos na faixa etária entre 60-69 anos representados por 36 (28,1%); entre 70-
79 anos por 18 (14,1%); entre aqueles com 80 ou mais, prevaleceram as quedas,
por 10 (7,8%).
Quanto ao desfecho clínico do trauma, 86 (65,6%) idosos necessitaram realizar
algum procedimento cirúrgico, com destaque para o ortopédico em 39 (46,1%). O
número de dias de internação variou entre zero e 116 dias, sendo que 57 (43,5%)
permaneceram entre um e 10 dias internados. Dos idosos vítimas de trauma, 44
(33,6%) evoluíram a óbito, apresentando como principal causa o traumatismo
crânio-encefálico para 16 (36,4%).
DISCUSSÃO
Possivelmente, a média de idade encontrada neste estudo deve-se ao fato dos
idosos ainda apresentarem um perfil de população adulta, ou seja, com
independência e autonomia, o que lhes proporciona vida ativa com participação
em atividades sociais, de trabalho, de lazer, entre outras que podem expô-lo a
situações de trauma.
Supõe-se que o predomínio do sexo masculino e da média de idade dos idosos
pesquisados tenha sido influenciado pelos critérios de seleção e,
especialmente, pelos de exclusão. Provavelmente, homens nas faixas etárias mais
novas, se exponham mais a traumas, pelo fato de que circulam mais pelo
perímetro urbano, enquanto que as idosas, na maioria das vezes, circulam por
lugares mais próximos de seus domicílios(11). Ainda chama a atenção que as
práticas de risco estejam fortemente associadas ao sexo masculino, o que torna
os homens as maiores vítimas da violência, potencializada pelas desigualdades
sociais e outras condições adversas(12).
Em relação aos aposentados e pensionistas do estudo, ao considerar que a
maioria dos idosos estudados está na faixa etária entre 60 e 69 anos, é
possível que alguns estejam na condição de aposentados e em plena atividade, o
que pode torná-los vulneráveis aos traumas, uma vez que necessitam se deslocar
para realizar atividades laborais ou exercer atividades relacionadas a práticas
de risco.
Ao processo de envelhecimento podem estar associadas as doenças crônicas não
transmissíveis, as quais compõem o elevado número de casos de morbimortalidade
da população brasileira. Dados censitários(13), no ano de 2008 com 59,5 milhões
de brasileiros, evidenciam que 31,3% deles afirmaram ter pelo menos uma doença
crônica; entre aqueles com 65 anos ou mais, 79,1% declararam possuir alguma
doença crônica, sendo que destes, 28,3% possuíam três ou mais doenças.
Em estudo(5) com pacientes acima de 15 anos, vítimas de trauma, e com
diagnóstico de doença isquêmica do coração, cirrose, coagulopatia congênita,
doença pulmonar obstrutiva crônica ou diabetes, estas foram consideradas
importantes fatores preditivos da mortalidade.
A HAS, observada neste estudo, pode gerar consequências negativas na condição
respiratória e hemodinâmica do paciente após o trauma, antecedendo estados de
hipóxia e hipoperfusão, podendo até confundir no momento da avaliação da
gravidade do trauma, pois a resposta hemodinâmica é limitada nesta população
(14) e o valor da pressão arterial apresentada no idoso hipertenso pode ser
considerado normal, quando na verdade, já se inicia um quadro de hipovolemia
(14).
Deve-se considerar que, nestes casos, podem ocorrer alterações cardíacas e/ou
renais, demandando atenção especial no controle da diurese e o exame frequente
dos aparelhos cardiovascular e respiratório do idoso, com vistas à prevenção,
por exemplo, de falência ventricular esquerda durante estados de choque(4).
Verificou-se, neste estudo, a média de 2,3 doenças preexistentes por idoso. A
esse respeito, é comum a presença de mais de uma doença por idoso(5) e à medida
que o número de doenças aumenta, há maiores chances de óbito após o trauma(15).
Os anti-hipertensivos (33,4%) predominaram dentre os medicamentos em uso pelos
idosos. Em outro estudo(16), também há evidências da utilização deles pela
maioria dos idosos, vítimas de trauma, devendo-se estar alerta para o fato de
que, nestes casos, a ação desta classe de medicamento pode levar à diminuição
da resposta cardiovascular ao trauma, principalmente na presença do choque(17),
dificultando seu diagnóstico precoce e podendo ocasionar a morte do idoso(18).
A este respeito, deve-se atentar que, normalmente, os idosos fazem uso, em
média, de três a quatro medicamentos diferentes, muitas vezes sem controle
médico, possibilitando, portanto, a ocorrência de interações medicamentosas com
as drogas administradas para o tratamento cirúrgico, quando indicado(19).
Há, também, relação entre o uso de medicamentos por idosos e a ocorrência de
traumas, devido provavelmente aos efeitos adversos como hipotensão postural,
sonolência, tonturas e a necessidade de urinar com maior frequência(20).
Quanto ao tipo de transporte pré-hospitalar, deve-se considerar, durante o
atendimento inicial, a estabilização clínica dos pacientes e a gravidade do
trauma, a fim de que sejam transferidos para os hospitais de referência em
trauma que atendam suas necessidades e, preferencialmente, após a triagem pela
regulação médica. Observou-se que o transporte pré-hospitalar, por USB,
principalmente de pacientes traumatizados em estado grave e procedentes de
cidade vizinhas ao local de estudo, é inadequado, podendo expor a vítima à
morte(21).
Evidenciou-se o predomínio de quedas (31,3%), seguidas por atropelamentos
(28,2%), resultados semelhantes aos encontrados na literatura(1). A queda é
considerada um problema de saúde pública e está associada a fatores de risco
intrínsecos e extrínsecos. As complicações decorrentes da queda no idoso podem
ser caracterizadas pela imobilização prolongada, rabdomiólise, desidratação e
infecção. Além disso, acrescentam que as lesões decorrentes de quedas em
pacientes geriátricos tendem a ser mais graves do que aquelas apresentadas por
pacientes jovens e com quedas similares(6).
Vale mencionar que falhas na infraestrutura física de vias públicas, tais como
a falta de calçamentos e rampas de acesso a prédios públicos, obstáculos nas
calçadas, entre outros, dificultam o livre trânsito do idoso e aumentam o risco
de quedas. Além disso, fatores como estes dificultam a acessibilidade do idoso
aos diversos setores e atividades sociais e, por conseguinte, sua inserção
social(22).
Os idosos, com facilidade, são vítimas de atropelamentos, em especial na
presença de largas avenidas que nem sempre lhes permite a travessia em tempo
hábil e programado pelos semáforos, mesmo utilizando a faixa de pedestres(23).
Geralmente, idosos condutores de veículos, ao se envolverem em acidentes, estão
em baixas velocidades, não alcoolizados e próximos de suas residências(22),
sendo os homens mais frequentemente vítimas na condição de condutores e, as
mulheres, na de passageiras(1).
Quanto aos índices de trauma, considerando as regiões do corpo afetadas,
destaca-se a cabeça/pescoço seguida pelas extremidades e ossos da pelve. Deve-
se levar em consideração o mecanismo do trauma ao se verificar a localização
das lesões nos diversos segmentos corpóreos(7).
O segmento cefálico pode ser lesionado tanto pelo impacto contra o veículo
quanto contra o solo, porém, a maior gravidade das lesões está relacionada ao
impacto contra o veículo. O para-brisa parece ser a estrutura do automóvel
causadora das lesões mais graves sobre o segmento cefálico. Da mesma forma,
fraturas dos membros inferiores são comuns e parecem ser decorrentes da
associação da angulação e rotação dos membros inferiores(24).
Em relação à gravidade das lesões, as de extremidades são mais frequentes,
porém os maiores escores estão presentes no segmento cefálico, podendo
acarretar hemorragias intracranianas e contusões cerebrais(25). Uma
consequência irreversível observada nestas condições é a maior probabilidade de
óbito(26).
Os valores obtidos pelo RTS e ECGl para os idosos pesquisados indicam melhores
perspectivas de recuperação e melhor qualidade de vida para a maioria deles
após o evento traumático. Ao demonstrarem graus variados de comprometimento no
paciente, estas escalas atuam de forma a direcionar o atendimento(7), conforme
sua complexidade, proporcionando sua continuidade e evitando danos adicionais.
Quanto à gravidade do trauma, foi possível verificar que estudos que abordam
traumas em idosos evidenciam pontuação variada para o ISS, relacionando-o com a
faixa etária ou com o mecanismo do trauma(27). No geral, verifica-se que a
gravidade calculada pelo ISS é relativamente baixa para idosos; contudo, suas
implicações atingem maiores proporções, principalmente, no que diz respeito à
probabilidade de morte(28). Houve alta chance de sobrevida calculada pelo
TRISS, no entanto, deve-se ter cautela ao utilizar isoladamente estes índices
para a análise da evolução do trauma no idoso, pois fatores como o sexo, a
idade e estado patológico parecem ser igualmente importantes(1).
Em se tratando das associações realizadas neste estudo, é possível supor que a
causa dos traumas em idosos pesquisados seja orgânica ou patológica para as
mulheres, e acidental para os homens. A este respeito medidas preventivas
específicas para o trauma se fazem necessárias.
Quanto ao desfecho, nota-se que as extremidades foram a segunda região do corpo
mais acometida e a primeira em necessidade cirúrgica. Este percentual elevado
de procedimentos cirúrgicos realizados, talvez se justifique pelo fato de que o
local de estudo seja reconhecido como serviço de referência para o tratamento
de lesões ortopédicas. Pode-se inferir também, que o mecanismo e a gravidade do
trauma predispuseram os idosos às fraturas e, assim, com necessidade de
abordagem cirúrgica para o tratamento.
As lesões em cabeça/pescoço acometeram grande parte dos idosos desta pesquisa
que, consequentemente, foi a região do corpo considerada como maior causadora
dos óbitos. Alguns fatores estão associados aos piores prognósticos deste tipo
de lesão, tais como: idades mais avançadas, menores pontuações na ECGl e
ausência de reatividade pupilar(26), a presença de doenças, o uso de
anticoagulantes e anti-inflamatórios(29).
Os resultados deste estudo destacaram que idosos jovens foram vítimas de
acidentes, enquanto idosas mais velhas, de quedas. Houve predomínio do trauma
moderado, sendo a região da cabeça/pescoço a parte do corpo mais acometida, com
lesão grave, porém sem risco de vida; mesmo assim, parte significativa evoluiu
a óbito. Mediante os dados aqui expostos e com vistas a evitar piores
resultados, faz-se necessária a elaboração de medidas preventivas e curativas
do trauma em idosos. Neste sentido, recomenda-se monitoração invasiva precoce
na tentativa de reduzir complicações diversas e aumentar as chances de
sobrevida desta população(15), ao considerar que a história patológica
pregressa e o consequente uso de medicamentos podem mascarar uma condição mais
grave(1). Torna-se importante desenvolver pesquisas abordando a vulnerabilidade
e os riscos que pedestres e motoristas idosos apresentam ao se envolverem em
acidentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo possibilitou identificar as características e evolução do
trauma em idosos, a partir da análise dos dados de natureza secundária obtidos
no NHE de um hospital geral terciário de uma cidade do interior paulista, entre
2008 e 2010.
Vale ressaltar que os dados aqui apresentados são peculiares para a amostra
estudada, portanto generalizações devem ser evitadas.
Em decorrência das alterações biopsicossociais do processo de envelhecimento, a
assistência aos pacientes geriátricos vítimas de traumas deve ser diferenciada.
Além das mudanças comuns, a presença de doenças crônicas e o uso de
medicamentos pré-trauma podem influenciar na reação orgânica dos pacientes
senis.
Este estudo assumiu um caráter diferencial quando se optou por investigar
apenas a população de idosos, vítimas de trauma, atendidos em um centro de
referência para urgências e emergências.
Acredita-se que as questões abordadas nesta pesquisa poderão contribuir para a
compreensão do impacto do trauma na vida do idoso, uma vez que suas
consequências físicas, emocionais e sociais, podem ser evitadas, por meio de
medidas preventivas que abordem a educação no trânsito, prevenção de acidentes,
valorização do indivíduo em qualquer idade, cuidados com a saúde dos idosos,
entre outros.
Além disso, a possibilidade de utilização de sistemas de pontuação para a
avaliação das alterações fisiológicas, anatômicas e da probabilidade de
sobrevida de idosos traumatizados permite uma mensuração das reais respostas do
idoso ao trauma.
Apesar disso, sabe-se que estes índices apresentam algumas limitações na
predição de sobrevida, especialmente em se tratando de populações específicas
como os idosos que geralmente possuem reserva fisiológica diminuída, apresentam
doenças prévias e fazem uso de medicamentos diversos. Dessa forma, estes
fatores devem estar claros para a equipe que o assiste, sobretudo em seu
primeiro atendimento, possibilitando a prevenção de complicações.