Intervenção nas situações de crise psíquica: dificuldades e sugestões de uma
equipe de atenção pré-hospitalar
INTRODUÇÃO
A crise como uma experiência da vida humana é permeada pela necessidade de um
cuidado profissional imediato pautado em conhecimento teórico-prático e
vinculado a um modelo, para responder à pessoa em crise, coerente com os
processos transformadores que impactam a prática interdisciplinar profissional
e alinhado às atuais políticas públicas de saúde mental.
Atender à pessoa em crise é encarar a ruptura com a certeza, é dispor-se para
um turbilhão que dilacera a vida, uma tempestade de forças que aterrorizam o
padrão(1).
A concepção de crise é polissêmica. Isto porque a apropriação conceitual e
contextual ofertam diferentes sentidos clínicos, históricos e sociais. No
entanto, crise é o desencadeamento psíquico que coloca a pessoa no vazio, em um
lugar de interrogação.
Com a implantação da Política Nacional de Saúde Mental, que está pautada na
mudança paradigmática de interpretar/responder o fenômeno da loucura, pode-se
verificar um investimento na implantação de estruturas de Atenção Pré-
hospitalar ao Sujeito em Crise Psíquica, mas ao mesmo tempo, percebe-se uma
fragilidade por parte de alguns gestores no processo de capacitação
profissional para atender essa demanda. Um dos indicativos dessa dificuldade
está relacionado principalmente à escassa literatura referente à atenção à
crise(1).
Os sujeitos em grave sofrimento psíquico vivenciam momentos críticos que, por
vezes, coincidem com o desencadeamento de um momento de crise, gerando com isso
ações confusas e incompreendidas por eles próprios e pelas pessoas que o
circundam. Este fato dificilmente se resolve com uma intervenção pontual, pois
o momento da crise revela uma tentativa de elaborar um acúmulo existencial e
histórico de sofrimento que necessita de uma estratégia ampliada de cuidado. Um
dos estratagemas para tentar solucionar o problema do atendimento à urgência
dessa clientela é contemplada no Relatório da IV Conferência Nacional de Saúde
Mental, com o aumento da cobertura eficaz de transporte móvel para atendimento
às emergências em saúde mental com acolhimento adequado, atendimento e remoção
qualificados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU(2).
Com a publicação da Portaria nº 2048/GM, instituiu-se a Política Nacional de
Atenção às Urgências, na qual foi definido o conceito das urgências
psiquiátricas, atestando que estas são de competência técnica dos serviços de
urgência. Em 2003, foi aprovada a Portaria nº1864/GM(3-4), que fundou o
componente pré-hospitalar móvel da política de urgência, por intermédio da
implantação de Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). O SAMU tem
como dever realizar os atendimentos psiquiátricos, com o propósito de
acompanhar os sujeitos em crise até a rede de atendimento de urgência.
Neste sentido, a questão que norteou este estudo foi: como os profissionais da
atenção pré- hospitalar percebem as intervenções nas pessoas em crise psíquica?
Objetivou-se, pois, conhecer como os profissionais de Unidades de Suporte
Básico à vida do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência percebem as
intervenções nas pessoas em crise psíquica.
REFERENCIAL TEÓRICO
No ano de 2001, após intensas discussões no Congresso Nacional, é implantada a
Política Nacional de Saúde Mental, através da Lei nº 10.216(5). Esta política
de Estado dá início a uma mudança no modelo de atenção à saúde mental
brasileira que, norteada pelo processo de Reforma Psiquiátrica e os princípios
do SUS, passa a ser orientada pelo Paradigma Psicossocial que prioriza os
serviços comunitários e territorializados.
A constituição de uma nova forma de cuidado baseada na atenção psicossocial
considera necessário refletir e inventar novas concepções e práticas em saúde
mental. O paradigma psicossocial pressupõe a aproximação do profissional com o
contexto da pessoa, sua história de vida, avaliação clínica e do seu estado
mental, para que essa possa manifestar seu sofrimento. Esse contato busca
formas de atuação que impliquem na percepção da pessoa em crise como um ser
singular, complexo e entrelaçado por uma rede familiar e social.
A configuração do paradigma psicossocial substitutivo ao modelo iatrogênico e
cronificador do manicômio, tendo como estratégia de transformação dos saberes e
a construção da cidadania dos sujeitos do sofrimento, requer um saber/fazer;
diferenciado no contexto da crise psíquica(6). Isto porque ao mesmo tempo em
que o sofrimento intenso paralisa a ação profissional, põe em xeque seu saber
técnico racional, e é com outro fazer que este mesmo saber se constituirá.
O movimento da Reforma Psiquiátrica constitui um processo permanente de
mudanças na forma de pensar a crise, criando estratégias voltadas para a busca
da cidadania dos sujeitos em sofrimento psíquico através da garantia de seus
direitos. Preconiza-se que a atenção urgente à pessoa em crise reflete um
contexto complexo. É essencial visualizar na pessoa que sua crise possui um
sentido e, para isso, é esperado um acolhimento dialogado que traga segurança,
menos medo e possibilite o estabelecimento de vínculo pela transferência(1).
Essas mudanças profissionais visam transformar as relações com as instituições,
com a loucura, com o louco e com o transtorno mental, no sentido de que
conduzam uma relação de coexistência, de troca, de solidariedade e de cuidados
(7). Para isso se faz necessária a permanente mudança paradigmática do entender
a loucura como condição humana, do modelo controlador e asilar para a uma forma
libertadora, tendo como possibilidade o Paradigma Psicossocial.
O conjunto das práticas promovidas pelo processo de Reforma Psiquiátrica como
Modo Psicossocial é um movimento dialético de contradição ao modelo
psiquiátrico tradicional, sendo este último ainda o modelo dominante nas
práticas de saúde mental(8). Para configurar a mudança do paradigma de atenção
capaz de superar o modelo asilar e/ou paradigma biomédico é imprescindível que
a concepção de prática preencha algumas condições relativas a mudanças
radicais.
A atenção urgente à pessoa em crise, via de regra, ocorre pelo SAMU(1) e é
baseada predominantemente no paradigma biomédico. Esse modelo preconiza o
conceito de urgência psiquiátrica associada à agressividade, onde é vista a
descompensação patológica (surto) e, em menor tempo possível, se busca a
reestabilização mental por meio de contenção química e/ou mecânica. As ações
são baseadas em protocolos médicos previamente definidos por diagnósticos e
doses de medicação com a finalidade de tornar normal a pessoa em crise.
No paradigma psicossocial a atenção valoriza a subjetividade, o saber e o
sentir da pessoa com vista a compreender o que está acontecendo com ela. Busca
novas possibilidades para as pessoas em seus momentos de sofrimento. A
interação através da clareza que o contexto representa para a equipe entrar em
cena tem a finalidade de proporcionar o alívio do sofrimento para a pessoa.
O paradigma psicossocial preconiza que a crise deve ser refletida criticamente
(9) e que pode ser revisitada através de algumas categorias(10) como: Concepção
do objeto e dos meios de trabalho, seria o olhar dos profissionais frente ao
que é a crise e à resposta a essa complexidade e consiste em como as
organizações institucionais estão arranjadas para que exista uma Rede de
Atenção à Crise potente; Formas do relacionamento com a clientela, significa
como ocorrem as relações profissionais, gestoras e familiares com a pessoa em
crise e como a troca de saberes entre estes acontecem; Concepção da finalidade
em termos terapêuticos e éticos, permite refletir o sentido da crise, o que ela
promove de saúde para a pessoa, indica a busca de autonomia e empoderamento. O
Modo Psicossocial busca na intervenção da pessoa em crise contribuir com a
emancipação, através da ampliação do poder de troca e reprodução que a pessoa
tem como potencial(10).
Nesse sentido, o Paradigma de Atenção Psicossocial coloca que além da atenção
urgente à pessoa em crise se faz necessária uma ética do cuidado. Essa premissa
tem como máxima "não à crueldade" - baseada na empatia, na alteridade e na
solidariedade- que valoriza a posição do sujeito, que reconheça a
especificidade do saber que vai além da vontade de que a pessoa produza sentido
na crise(11). A ética deve ser baseada em princípios vitais da dignidade humana
e que promova um cuidado de encontros(1).
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório-descritivo, realizado no estado
de Santa Catarina, com quatro equipes da Unidade de Suporte Básico do SAMU,
compostas por um total de 34 profissionais. Estabeleceu-se como critério de
inclusão: profissionais da equipe da Unidade de Suporte Básico do SAMU, que
prestam atendimento ao público com crise psíquica; a autorização para a
gravação das informações e para a publicação dos resultados. Atenderam a esse
critério 14 profissionais, sendo que, destes, sete eram técnicos de enfermagem
e sete socorristas que atuam como motoristas e na assistência.
A coleta de dados foi realizada no período de abril a junho de 2011, após
autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa
Catarina (Parecer N.º 1060/11) e assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido dos participantes. Os dados foram coletados por meio de entrevistas
semiestruturadas, gravadas e posteriormente transcritas. Aos participantes se
perguntou como percebiam a crise psíquica e o atendimento dado pelo SAMU à
pessoa em crise. Neste artigo estão contempladas as percepções sobre o
atendimento em crise psíquica. Para garantir o anonimato dos participantes,
adotou-se a letra P (Participante) seguida do número da entrevista.
Para o processo de organização dos dados se utilizou três figuras metodológicas
do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC): Expressão-chave (ECH), ou seja, trechos
que revelam a essência do conteúdo dos depoimentos individuais, fundamentais
para a construção do DSC; Ideia Central (IC), expressão que descreve de maneira
sintética o sentido de cada conjunto homogêneo de ECHs; e o Discurso do Sujeito
Coletivo (DSC), discurso síntese, redigido na primeira pessoa do singular,
formado por ECHs que têm a mesma IC(12). Para a construção dos DSC, realizou-se
a leitura atenta de cada entrevista; o destaque em itálico das expressões
chaves (ECHs) de cada discurso individual; o agrupamento das ECHs de mesmo
sentido nos diferentes discursos individuais; a identificação da Ideia Central
(IC) do conjunto das ECHs de mesmo sentido, de sentido equivalente, ou de
sentido complementar e que compuseram o DSC. Os DSC estão representados por
DSC1 e DSC2. Optou-se, por não apresentar no artigo as ECHs e, sim, os
discursos que as compõem, para evitar repetição na apresentação dos dados, uma
vez que nos DSC estão contempladas as ECHs dos discursos individuais, com a
mesma IC. Os resultados foram discutidos à luz do paradigma psicossocial.
RESULTADOS
Dos resultados encontrados emergiram dois DSC com os temas: Percepção das
dificuldades no atendimento à pessoa em crise de saúde mental, constituído com
ECHs de 11 participantes, apresentado no Quadro_1; e, Sugestões na busca por um
atendimento mais próximo do desejado à pessoa em crise psíquica, referente a
ECHs de 10 profissionais, conforme o Quadro_2.
Quadro 1 Percepção das dificuldades no atendimento à pessoa em crise de saúde
mental
IC DSC 1
Falta Acredito que a experiência do dia a dia me faz ter certo preparo técnico, mas com
preparo dificuldade na questão psicológica. Por ser o SAMU um serviço de Urgência e
para o Emergência, e não de continuação do cuidado realiza-se o necessário, mas acho que
atendimento poderíamos ter um preparo melhor. Fico muito em alerta a tudo o que o paciente faz,
a forma dele agir e de se expressar. Eu abordo porque tem que abordar mas eu não me
sinto preparado. Pode-se dizer que estou preparado na medida do possível, pois
consigo realizar técnicas para contenção física, mas não psicológica. Em algumas
situações não me sinto preparado e abordo a pessoa com a presença da polícia
militar. No caso de agressividade não me sinto preparado. Acredito que
precisaríamos de mais orientação, pois é a única área que a gente não tem
capacitação. Quando consigo me aproximar, na abordagem, a pessoa fica tranqüila,
mas quando não, é na força mesmo. Com certeza precisa mais coisa para o
atendimento, orientação. Acredito que a falta de preparo e de conhecimento
associada ao estigma do medo, faz com que o atendimento siga uma forma não correta
(P1,P2,P3.P4,P5,P6,P7,P9,P10,P13,P14).
Quadro 2 Sugestões na busca por um atendimento mais próximo do desejado à
pessoa em crise psíquica.
IC DSC 2
Capacitação e sistematização do Acredito que seria necessário um treinamento para a equipe, onde aprenderíamos
atendimento como agir nas situações. Outro ponto importante seria o aumento de psiquiatras na
rede de atendimento de emergência, ter hospitais ou clínicas que aceitassem esses
pacientes pelo SUS. Só tem uma que aceita, o IPQ. Outra coisa seria principalmente
a criação de uma sistematização do atendimento para o SAMU. Precisa ter
capacitação, educação continuada, inclusive para saber como abordar e como segurar
a pessoa. Temos que saber como segurar a pessoa em crise. A gente tenta não fazer
força, mas é preciso. Tem que ter mais cursos, palestras para as equipes de APH,
SAMU, bombeiro e até para a polícia. Ter mais acompanhamento para a família. A
psiquiatria é uma coisa complicada, porque o paciente quando está em surto, o
médico do SAMU manda dar a medicação para proteção da equipe e acabo complicando o
lado do paciente porque quando chego ao hospital com o paciente o médico me
questiona como eu trago um paciente dormindo. Deveríamos ter uma equipe
especializada no SAMU ou então não atender esse público, pois não é demanda para o
SAMU (P1, P2, P3, . . . P10)
Além das dificuldades apresentadas pelas equipes, os dados analisados retratam
sugestões que a equipe aponta para melhor atender a pessoa em crise psíquica.
DISCUSSÃO
Pode-se perceber no DSC1 uma dificuldade no atendimento devido a um déficit de
conhecimento técnico para as ações em situações de crise psíquica no campo da
saúde mental, pois essas ações estão embasadas em conhecimento empírico e
pessoal sustentado no modelo biomédico. Constata-se, pelo paradigma
psicossocial, uma necessidade de mudança no atendimento discursado, tanto na
perspectiva do trabalhador quanto na perspectiva da organização dos serviços,
pois as dificuldades apontadas revelam despreparo profissional e sentimentos de
estranhamento que a crise representa.
Em relação ao (des)preparo profissional para atender à pessoa em crise
psíquica, vale apontar que a concepção de atendimento pré-hospitalar (APH) se
caracteriza por toda e qualquer assistência realizada fora do âmbito hospitalar
em situações de urgência e emergência, contendo ou não risco de morte(13).
Entendendo-se esse processo de formulação de serviço baseado em patologia
clínica e de ação imediata se contrapõe a um entendimento de saúde ampliado, em
que o grau de sofrimento é individualizado e por consequência há a necessidade
de intervenções complexas e singulares. Essa compreensão ampliada depende de
concepções teóricas que se adotem para guiar a ação educativa, seja nos cursos
de formação técnico acadêmico, seja na educação permanente e em serviços.
As diretrizes que envolvem o preparo para a Atenção Pré-hospitalar à pessoa em
crise encontram, no Serviço de Atenção Móvel de Urgência (SAMU), um dos
principais instrumentos para sua efetivação. Esse serviço tem por finalidade
prestar socorro à população em casos de urgência, buscando reduzir o número de
óbitos, o tempo de internações em hospitais e as sequelas decorrentes da falta
de socorro precoce(14).
É no campo das situações de Urgência que a Crise se insere. A resolução do
Conselho Federal de Medicina define como Urgência a ocorrência imprevista de
agravo à saúde, com ou sem risco potencial de vida, cuja pessoa necessita de
assistência médica imediata(15).
A urgência e crise no campo da saúde mental requerem definições e discussões
entre gestores e trabalhadores do SAMU para promover principalmente consensos
na intervenção. Porém, sabe-se que a crise depende de como o profissional
interpreta o fenômeno, de como ele constrói seu arsenal de concepções e
práticas, a partir desse entendimento(16). Entende-se que as concepções do
profissional estão atreladas também à capacitação em serviço e, se existe pouca
ou nenhuma capacitação promovida pela instituição para a qualificação dos
profissionais do SAMU no atendimento à pessoa em crise mental, esse atendimento
pode se dar de modo inadequado.
No contexto da Reforma Psiquiátrica qualquer esquema que defina crise deve
considerar a organização psiquiátrica existente naquela área e naquele momento
histórico particular(17). Em relação à organização para o atendimento, o SAMU
precisa amparar sua organização de trabalho baseado em Rede de Atenção, já que
os resultados apontaram que para atender o sujeito em crise psíquica necessita
de um suporte. Atualmente, a Portaria nº3088, de 2011(18), é a normativa que
institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou
transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e
outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, no que tange à
atenção de urgência e emergência, esta é formada pelos seguintes pontos de
atenção: a) SAMU 192; b) Sala de Estabilização; c) UPA 24 horas; d) portas
hospitalares de atenção à urgência/pronto socorro; e) Unidades Básicas de
Saúde, entre outros. Portanto, as diretrizes políticas indicam a Rede como
caminho da organização do trabalho profissional.
Deste modo, o preparo para atender a crise no Paradigma Psicossocial se pauta
em profissionais e gestores comprometidos com o SUS e com a Reforma
Psiquiátrica, baseada em rede de atenção. É inerente ao preparo profissional,
também, o interesse desse pelo conhecimento e a disposição para atender e
discutir os casos dessa especificidade(1). A capacitação deve envolver a
discussão da concepção de Crise, que terá uma acolhida como efeito estrutural
se for concebida como integrante do modo de o sujeito se posicionar em relação
às suas conjunturas conflitivas (subjetivas e sociocultural) que o afligem(6).
As situações de crise também podem ser concebidas como: a) grave sintomatologia
psiquiátrica aguda; b) grave ruptura das relações familiares e/ou sociais; c)
recusa do tratamento psiquiátrico (remédio, internação entre outros), estima
não necessitar de cuidado, mas aceita contato; d) recusa obstinada de contato
com equipes de tratamento psiquiátrico; e) situações de alarme e risco no
contexto familiar e/ou social, traduzindo-se em incapacidade de se defrontar
com a crise(17).
O primeiro contato e os sucessivos momentos de verificação da realidade de vida
do sujeito em sofrimento mental compõem o quadro das necessidades: onde vive,
onde dorme, o que come, com quanto dinheiro vive, com quem se encontra, quem
está à volta, onde trabalha. A escuta favorece uma perspectiva histórica e
explicita as contradições e os conflitos que mobilizam a crise(17). Contudo, a
existência/sofrimento, o conflito psíquico, a experiência subjetiva radical, a
consideração do aparelho psíquico e os fenômenos do inconsciente, a
singularidade da condição psicótica e a crise são especificidades da saúde
mental que possibilitam o campo da atenção psicossocial ampliar as abordagens
psicossociais, através da clínica ampliada, com a finalidade de transformar a
vida concreta dos sujeitos(19).
Logo, as capacitações amparadas em metodologias ativas e problematizadoras, com
discussão de casos clínicos trazidos da prática profissional vivida, aliadas
aos saberes da clínica da atenção psicossocial (psicanálise, esquizoanálise, e
materialismo histórico)(8) são caminhos preconizadas pelo paradigma
psicossocial para se ter como produto diretrizes organizativas em Rede e
clínicas de forma consistente.
A caracterização da crise no modelo de Reforma Psiquiátrica deve levar em conta
três dimensões minimamente: a dimensão clínica - o diagnóstico sindrômico e o
diagnóstico da estrutura clínica no sentido psicanalítico, a presença de
comorbidades; a dimensão do laço social do sujeito - a rede de suporte,
família, trabalho, renda, cultura; e, a dimensão da singularidade da pessoa -
subjetividade (sujeito do inconsciente) sujeito de direitos e deveres. A
posição da pessoa nessas dimensões demarca um processo de crise(20).
No atendimento à pessoa em crise o desafio é entrar na relação a partir da
disposição, é como conciliar aproximação e negociação com aceitação e
administrar os sentimentos e emoções envolvidos, intervenção esta, cuja
habilidade requer no entrelaçamento entre as teorias da subjetividade e da
complexa condição humana uma ação criativa. É na produção de um espaço criativo
que se tem a possibilidade do dar-se conta do insuportável e do impossível(21).
A crise pensada em um contexto encontra na negociação a possibilidade de se
relacionar com a pessoa em crise. O atendimento é refletido a partir de: como
se dá aqui a questão da crise? Quando uma pessoa está em crise ela vai para
onde? De que jeito? De que forma? Quem atende? Como atende? Que resposta lhe
dá? Como se dá o circuito psiquiátrico em seu território?(22).
Em que pese a representação que o profissional da equipe do SAMU tem sobre a
urgência psiquiátrica é algo que provoca inquietude e sentimento como o medo,
presente também no DSC1. O que se constata é que a representação da loucura
reflete um imaginário social em que este fenômeno incomoda por representar o
desconhecido e lidar com incertezas. Este resultado mostra, ainda, uma
perspectiva onde a loucura se expressa apenas em sintomas psiquiátricos, ou
seja, uma reprodução do senso comum sobre o fenômeno. O que aponta é que a
educação, dependendo do modelo teórico-metodológico, tanto pode transformar
como emancipar o profissional para atender esta especificidade. Logo, a
educação permanente e a supervisão clínica institucional são dispositivos para
transformar os dados indicados.
Confrontar o preconceito exige uma ação compromissada para romper barreiras,
admitindo espaços de liberdade, valorização do sujeito cidadão e autônomo, ou
seja, o desafio que se coloca é buscar novas relações, novas práticas que
repensem as ações intervencionistas e limitantes da nossa convivência com a
loucura e o louco(23).
O fazer dos trabalhadores do SAMU é pautado na necessidade de segurança e busca
o controle do que fazem, porém a estabilidade dos espaços é ilusória e ignorar
isso acaba por emperrar os fluxos da vida, causando o sofrimento. Para as
equipes do SAMU, quando o assunto é saúde mental, acaba sendo mais parte de um
grande problema do que uma solução(1).
No DSC2 está retratada a necessidade de investimentos em capacitação continuada
para essa equipe, com foco na prática de intervenção nas situações de crise
psíquica. Outro ponto descrito é a organização de um protocolo de atendimento
com direcionamento dos passos para a realização deste.
A construção de critérios utilizados na regulação para guiar médicos
reguladores de como proceder quando forem acionados para atender à pessoa em
crise se revela como uma boa prática nesse campo porque contribui para o
funcionamento do SAMU na rede de saúde mental e inclui a pessoa em crise no
conjunto dos atendimentos com resolução(1). Para a pessoa em crise ser melhor
assistida na realidade sanitária, a constituição de protocolos deve ser
norteada pela invenção e criatividade, aliadas ao saber técnico, pois a ciência
é uma das formas de explicar o mundo, mas que também é provisória. A quem serve
o protocolo? O que significa o protocolo nesse contexto? Seria possível o
enquadramento das diferenças singulares das pessoas em protocolos?(1).
A forma de organização do serviço de atendimento pré-hospitalar investigada é
pautada na sistematização da assistência, com condutas padronizadas, contendo
passos pré-estabelecidos segundo critérios organizados e estudados pela gestão.
Com isso, dificultam-se as ações em saúde mental, devido ao fato de o
sofrimento psíquico ser composto de intensidade conflitiva.
A busca por uma reorganização da assistência em saúde trouxe uma simplificação
do conceito de sistematização e, principalmente, de protocolo, que surgiu como
uma estratégia de guia norteador do atendimento, mas passou a ser uma forma
sistemática de padronização das ações. Com isso, o sofrimento psíquico composto
de conflito subjetivo se fortaleceu pela visão patologizante e de controle dos
corpos orientado pela psiquiatria clássica.
É a pessoa em crise psíquica que diz qual é a urgência, assim, cabe aos
reguladores uma escuta acolhedora que os farão enxergar que crise está vogando.
A partir disso as decisões são tomadas baseadas na ética do suporte à vida, e
que seja incentivada a busca do saber do outro a fim de somar o conhecimento
das partes e construir o vínculo(1).
Na afirmação de que "Temos que saber a forma como pegar, a gente tenta não
fazer força, mas é preciso", pode-se verificar um entendimento dos
profissionais referente às situações de crise psíquica, prioritariamente de
contenção, deixando de lado as ações de acolhimento com escuta e diálogo para
buscar vínculo e o encaminhamento responsável. A sistematização do trabalho em
saúde se caracteriza como uma estratégia metodológica para organização da
equipe, mas para nortear a assistência, e não como forma de padronização. A
prática assistencial a partir do paradigma psicossocial necessariamente precisa
ser individualizada, com foco no sujeito e não na doença.
A leitura pelos serviços de saúde é de que a crise é um diagnóstico com padrões
procedimentais estabelecidos, e reforçam-na como um processo de simplificação
da própria existência da pessoa à crise, tendo em vista que a pessoa em crise
reflete toda uma complexidade da vida. A crise como diagnóstico decorre de
medicação e internação, para isso se faz necessário dar outro lugar à mesma na
formação profissional(1,17). Então, decorrente disso, é preciso investir em
processos educacionais para as equipes de atendimento pré-hospitalar, como um
processo teórico-prático, relacionando as ações de atendimento com os
princípios do SUS, conforme a afirmação "Acredito que seria necessário um
treinamento para a equipe, onde aprenderíamos como agir nas situações".
É fundamental entender a educação como um fenômeno social complexo, através do
estabelecimento de relações dialogáveis e horizontalizadas, através do diálogo
contínuo, ativo e participativo entre todos os atores(24). Compreender que
qualificar o atendimento é problematizá-lo a partir do entendimento de que o
conhecimento não está pronto, precisa ser construído. O processo não se faz
somente pela transmissão de conteúdos, mas, sim, a partir da construção ativa
de todos os atores na construção do conhecimento, procurando meios que o levem
ao crescimento e ao aperfeiçoamento de sua capacidade. O cuidado da crise no
campo das urgências requer do profissional a sensibilidade de captar o que se
passa na cena, disposição para buscar o que está acontecendo e prestar cuidado
a partir da demanda da pessoa, pois na crise o conflito que atravessa a pessoa
é algo que coloca o profissional no lugar de interrogado(1).
A educação precisa ser vista como um processo dinâmico e contínuo de construção
do conhecimento, pautado no diálogo, em que todos os atores assumam papel ativo
no processo de aprendizagem, através de uma abordagem crítica reflexiva da
realidade(25), o que reafirma a ideia do Paradigma Psicossocial e que traz à
tona um olhar inventivo e complexo, que nem sempre uma teoria tem condições de
dar conta. Com isso, faz-se necessário repensar as práticas de saúde,
problematizar o entendimento de crise e, principalmente, rever o imaginário
social da loucura.
CONCLUSÕES
Conhecer como os profissionais de atenção pré-hospitalar percebem as
intervenções nas pessoas em crise psíquica levou a dois resultados: o primeiro,
que as dificuldades no atendimento à pessoa em crise em saúde mental estão
atreladas à falta de conhecimento da equipe de como prestar o atendimento; e, o
segundo, são as sugestões dos participantes na busca por um atendimento mais
próximo do desejado, como a capacitação e a necessidade da sistematização ao
atendimento.
Faz-se necessário investir em processo de formação pautado nas novas
estratégias de cuidado norteadas pelos princípios do SUS e pelo paradigma
psicossocial, valorizando as potencialidades dos profissionais e principalmente
as suas criatividades. Com isso, não podemos deixar de salientar a importância
da apropriação dos profissionais para a busca de um conhecimento que não pode
ser estanque, mas sim, contínuo.
Portanto, este trabalho traz como contribuição científica para o campo da
atenção pré-hospitalar, em relação à intervenção em crise psíquica, dados que
não são novos, mas que ainda se perpetuam no campo da saúde como: a) reforço do
paradigma biomédico nas intervenções; b) baixo investimento da gestão e dos
trabalhadores em relação a esta especificidade através da educação e
sistematização do cuidado; c) sentimentos e percepções de senso comum frente às
emergências psiquiátricas.