Cuidado sistematizado em pré-operatório cardíaco: Teoria do Cuidado
Transpessoal na perspectiva de enfermeiros e usuários
INTRODUÇÃO
Estatísticas ministeriais destacam as Doenças Isquêmicas Cardíacas como causa
de morte importante no Brasil(1). Para dar resolutividade ao processo
obstrutivo, a cirurgia cardíaca surge como alternativa diante da
impossibilidade de recuperação da perfusão tissular miocárdica, quer por
intervenções terapêuticas farmacológicas, ou por procedimentos que aumentem a
permeabilidade coronariana, a exemplo do uso de balões e stents. Na literatura,
é conferido destaque a três tipos de cirurgia, sendo o tipo mais comum de
cirurgia reconstrutora a Revascularização do Miocárdio(2).
Independente do tipo de procedimento cirúrgico recomendado, a proximidade de um
ato operatório remete o ser humano ao temor pela própria existência e à
incerteza quanto aos resultados da intervenção. No caso de uma cirurgia
cardíaca, o fato de o coração simbolizar o sentimento e representar a fonte da
vida, pode favorecer o surgimento de ansiedade, temor, medo e incertezas. Tais
sentimentos, na medida em que retratam respostas do indivíduo ou da família
diante de uma situação contextualizada no processo saúde/doença e num
determinado momento da vida, configuram-se como diagnósticos de enfermagem
emergentes no período pré-operatório(3-5).
Outra resposta humana emergente nas situações em que há recomendação para a
realização de uma cirurgia cardíaca é a dúvida(3). Ela pode ocorrer tanto entre
os usuários como entre familiares ou acompanhantes, e se configura como
evidência clínica compatível com a atuação de enfermeiros na perspectiva de
redução do desconhecimento e da promoção de ações integrativas no tocante à
orientação/educação.
Neste contexto, a visita pré-operatória (VPO), primeira etapa da Sistematização
da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP), constitui uma estratégia
capaz de favorecer o levantamento individual das necessidades humanas.
Representa um dos momentos autênticos de interação entre o profissional e o
usuário, sendo instrumento que otimiza o cuidado perioperatório, no qual o
enfermeiro atua de maneira expressiva, proporcionando apoio emocional, atenção
e orientações nestes instantes em que o usuário experimentará diversos
sentimentos(6).
Ao realizar a VPO, o enfermeiro deve aplicar o Processo de Enfermagem,
considerando que este deve "estar baseado num suporte teórico que oriente a
coleta de dados, o estabelecimento de diagnósticos de enfermagem e o
planejamento das ações ou intervenções de enfermagem; e que forneça a base para
a avaliação dos resultados alcançados"(7).
Diante do exposto, a presente investigação adotou o significado do
relacionamento interpessoal terapêutico entre enfermeiro/usuário baseado na
Teoria do Cuidado Transpessoal de Jean Watson, considerando a representação da
visita pré-operatória como ferramenta do cuidado de enfermagem capaz de
contemplar as vivências e as formas de enfrentamento do processo cirúrgico
cardíaco, a partir de uma avaliação retrospectiva realizada pelos sujeitos no
período de pós-operatório tardio.
A presente investigação tem alicerce nas seguintes argumentações: 1)
atendimento da recomendação para que o cuidado profissional seja sistematizado
e estruturado em bases teóricas e filosóficas da própria categoria (Teoria do
Cuidado Transpessoal de Jean Watson); 2) o enfermeiro utilizar as impressões
dos usuários como critérios mensurativos para a avaliação dos resultados de
enfermagem e 3) a cirurgia cardíaca envolver a dimensão cultural e emocional
como componentes intervenientes sobre o processo de recuperação do usuário em
uma perspectiva de cuidado de enfermagem.
Objetivou-se compreender os significados do relacionamento interpessoal
terapêutico entre enfermeiro e usuário, a partir da adoção da Teoria do Cuidado
Transpessoal, sobre a visita pré-operatória de enfermagem após a vivência do
processo cirúrgico.
A TEORIA DO CUIDADO TRANSPESSOAL
A Teoria do Cuidado Transpessoal emergiu no final da década de 70 a partir dos
resultados de estudos realizados pela autora durante seu doutorado, culminando
com a publicação de seu primeiro livro, intitulado "A Filosofia e a Ciência do
Cuidado", em que refletiu acerca de novos conceitos de cuidado, ressignificando
a Enfermagem e sua (inter)relação com o usuário(8).
Nas últimas três décadas, houve uma percepção crescente da dimensão ética e
humana do cuidado em enfermagem, cujo ponto de partida alicerçou-se no
aprofundamento das relações humanas entre aqueles que cuidam e os que são
cuidados. Por isso, revisaram-se em 2008, os dez fatores de cuidados (Carative
Factors/Caritas Processes) explicados a seguir: 1- Adotar valores altruístas e
a pratica da bondade consigo e com os outros; 2- estimular a fé e a esperança;
3- ser sensível consigo mesmo e com o próximo, alimentando crenças e práticas
individuais; 4- desenvolver a ajuda com relações de confiança e carinho; 5-
promover e aceitar a expressão de sentimentos positivos e negativos; 6-
utilizar com criatividade métodos científicos para resolver problemas de tomada
de decisão; 7- compartilhar o ensino e a aprendizagem que atenda as
necessidades e estilos individuais de compreensão; 8- criar um ambiente de cura
física e espiritual que respeite a dignidade humana; 9- assistir necessidades
humanas básicas: físicas, emocionais e espirituais; 10- ser aberto a mistérios
e permitir a entrada de milagres). Tal concepção possibilitou perceber o ser
humano em sua dimensão metafísica e direcionar o conceito de healing (cura)
como recomposição daqueles que experimentam um processo desarmônico de saúde-
doença(8).
Os pressupostos teóricos e os fatores de cuidado ampliaram a visão do
enfermeiro em direção à integralidade do cuidar, somando as experiências dos
indivíduos envolvidos no tocante ao autoconhecimento, promoção de ensino-
aprendizagem mútua, expressão de sentimentos, manutenção de um ambiente de
cuidado terapêutico dos pontos de vista físico, espiritual, emocional e
sociocultural, alicerçados pelos conhecimentos técnico-científicos(9).
A Enfermagem brasileira agregou a teoria a partir de pesquisas realizadas nos
Programas de Pós-Graduação Stricto sensu, sendo os estudos qualitativos os
predominantes. Eles direcionam-se aos usuários e familiares, quer internados em
setores de terapia intensiva, em acompanhamento por tratamento hemodialítico,
oncológico ou em ambiente domiciliar, vinculado à saúde da mulher, de adultos
ou idosos(10-11).
Cabe acrescentar que, além dos enfoques destacados, a concepção do Cuidado
Transpessoal destacou a permuta de impressões conscienciais(8), e portanto,
fenomenológicas. Isto equivale a dizer que o enfermeiro que pretende embasar o
processo de cuidado nesta teoria deve compartilhar da concepção de que as
transformações no cenário da saúde dar-se-ão a partir de suas próprias
transformações como indivíduo e da maneira como vivencia o ato de cuidar,
traduzindo-o como uma experiência única e ontológica de si e do outro.
MÉTODO E TÉCNICAS
Delineamento: Pesquisa qualitativa delineada em um estudo de caso, método pelo
qual pode-se compreender de modo aprofundado uma situação em particular visando
mostrá-la por completo em sua realidade(12). Neste estudo, a ênfase está
alicerçada na capacidade da Teoria do Cuidado Transpessoal subsidiar o
estabelecimento de um relacionamento interpessoal terapêutico entre o
enfermeiro/usuário submetido à cirurgia cardíaca, a ponto de captar as
impressões dos usuários como critérios mensurativos para a avaliação dos
resultados de enfermagem.
Cenário do Estudo: Instituição de Saúde de médio porte da Zona da Mata Mineira
que possui cadastro atualizado para realização de cirurgia de alta complexidade
cardiovascular.
Participantes: Amostra de conveniência composta por enfermeiros e usuários.
Foram elegíveis: 1) enfermeiros que atuam em setor cirúrgico, bloco cirúrgico e
unidade de terapia intensiva, ou seja, atendem a clientela de usuários de
cirurgia cardíaca e que possuem vínculo empregatício com a instituição onde os
dados foram coletados e 2) usuários que estavam em período de pré-operatório de
cirurgia cardíaca, de ambos os gêneros, com idade superior a 21 anos de idade e
que expressavam verbalmente com coerência. Em ambos os casos foram considerados
participantes voluntários não remunerados. Participaram três enfermeiros, sendo
um de cada setor e três usuários, perfazendo nove possibilidades de binômios
enfermeiro/usuário com suas respectivas combinações de interações, percepções e
avaliações. O convite individual foi o processo de recrutamento dos
participantes.
Instrumento e processo de coleta de dados: Foram elaborados impressos para
nortear o planejamento da assistência de enfermagem aos indivíduos no período
de pré-operatório de cirurgia cardíaca. Impressos estruturados a partir da
Teoria do Cuidado Transpessoal de Jean Watson e das taxonomias: NANDA
International (que aborda os diagnósticos de enfermagem), NIC (aborda as
intervenções de enfermagem) e NOC (aborda os resultados de enfermagem) -
taxonomias NNN. Para familiarização dos enfermeiros com os mesmos, foram
realizados grupos de estudos até que eles tivessem conhecimento da teoria e se
considerassem esclarecidos a respeito de suas dúvidas.
Posteriormente, os enfermeiros aplicaram estes impressos na sua prática clínica
com os usuários em fase de pré-operatório de cirurgia cardíaca. Os enfermeiros
e usuários participantes da investigação foram entrevistados individualmente e
tiveram suas falas gravadas a partir das seguintes questões norteadoras: 1)
Usuários: Como o(a) senhor(a) percebeu a visita pré-operatória de enfermagem e
as ações de enfermagem recebidas? 2) Enfermeiros: Para você, o quanto o
referencial teórico do cuidado transpessoal e as taxonomias North American
Nursing Diagnosis Association (NANDA),Nursing Intervention Classification (NIC)
e Nursing Outcome Classification (NOC) foram capazes de captar as respostas dos
usuários diante do processo cirúrgico cardíaco e respaldar sua atuação
profissional? Estas questões permitiram captar os discursos dos sujeitos
participantes. Dados coletados no período de janeiro a março de 2012 com tempo
médio de quinze minutos e variabilidade de dez a vinte minutos de duração.
Consolidação e Análise dos dados: O discurso obtido com os participantes foi
transcrito para os programas Word for Windows e NVivo versão 9,0. A escolha
pelo NVivo deveu-se ao fato de: ser ferramenta capaz de focar a análise
qualitativa na perspectiva da relação dialógica que se estabeleceu entre o
enfermeiro/ usuários que realizaram cirurgia cardíaca; possibilitar exploração
estruturada, sistemática e aprofundada dos discursos; dispor de técnicas de
codificação (exploração e extração) de informações em diferentes tipos de
buscas de texto e de codificação, que precedem e favorecem a análise e a
interpretação dos dados a partir da construção das similaridades, divergências
e aproximações entre os conteúdos emergentes e minimizar o tempo e o esforço na
etapa de categorização dos dados.
Foram utilizadas quatro etapas na análise dos dados: 1) pré-análise,
desencadeada pela leitura flutuante para conhecimento e criação de impressões
iniciais, seguida de leitura aprofundada para estabelecimento das hipóteses
sobre as ligações entre os conteúdos e impressões do binômio enfermeiro/
usuário com articulação dos mesmos; 2) escolha de estratégia de análise baseada
na percepção dos sujeitos sobre a temática objetivada, o que envolveu a reunião
das informações em unidades de codificação que, após agregadas, permitiram
inferências e interpretações iniciais; 3) aproximação entre unidades de
registro e de significado com o retorno dos fragmentos do texto para o contexto
onde foram gerados, utilizando as regras de enumeração, intensidade, direção e
estética dos conteúdos; 4) seleção de ferramentas compatíveis para apreensão da
operacionalização da classificação dos elementos que compõe o conjunto do
discurso e reunião em grupos de unidades de registros em situações mutuamente
exclusivas ou complementares, com agrupamento em clusters por similaridade de
palavras e utilização do coeficiente de Pearson para descrever o grau de
correlação entre os clusters emergentes.
Aspectos éticos: Foram assegurados os aspectos éticos e legais de pesquisa
envolvendo seres humanos, conforme Resolução 196/96 e suas complementares,
sendo o projeto submetido a Comitê de ética com parecer número 305/2011.
RESULTADOS
Em relação ao gênero dos usuários, duas eram mulheres e um homem. A média de
idade foi de 53 anos. As mulheres possuíam o ensino fundamental incompleto e o
entrevistado masculino, o ensino médio completo. Todos declararam não terem
recebido visita pré-operatória em cirurgias anteriores. A prevalência de
cirurgia cardíaca foi do tipo reconstrutora (Revascularização do Miocárdio),
seguida da modalidade reparadora (Correção de Comunicação Interatrial).
Quanto aos profissionais enfermeiros, os entrevistados foram do gênero
feminino, atuavam em setores de clínica médico-cirúrgica, centro cirúrgico e
Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Duas enfermeiras possuíam especialização
lato sensu em UTI neonatal e Urgência e Emergência; uma estava em fase de
conclusão da Pós Graduação em Cardiologia. A média de idade das participantes
foi de 29 anos e o tempo médio de formação quatro anos. Apenas uma enfermeira
realizava a visita pré-operatória de enfermagem, sendo o procedimento
desconhecido para as outras entrevistadas. Todas declararam que pela primeira
vez teriam a experiência de utilizar um instrumento baseado em um referencial
teórico e aplicar as taxonomias NNN.
Foram identificados três grupos de significados, também denominados clusters,
para apreender a significação da VPO pelos usuários e cinco clusters para
apreender a percepção dos enfermeiros ao vivenciarem esta experiência clínica
propiciada a partir da presente investigação. O relato de experiência, a reação
ao cuidado e o enfrentamento do processo cirúrgico foram os clusters
identificados entre os usuários.
O relato de experiência abrangeu a deficiência do conhecimento em relação ao
procedimento cirúrgico e à lembrança no pós-operatório das orientações
recebidas na VPO.
Eu não sabia que ia fazer cirurgia. Na verdade eles falaram que era
coisinha simples que ia resolver com o cateterismo, que não precisava
de cirurgia nem nada. (Usuário 2)
Aconteceu tudo que vocês falaram. Doeu o tubo e o dreno na hora de
tirar, dói muito, né filha! (Usuário 4)
A reação ao cuidado na primeira fase da SAEP emerge nos discursos como algo, a
princípio, assustador por conta do detalhamento dos procedimentos no trans e
pós-operatórios, visualização das fotos da Unidade de Terapia Intensiva e
manipulação dos insumos (tubos, drenos, cateteres).
Que ela (enfermeira) me explicou; aí me assustei, por que vi que era
uma cirurgia bem séria. Por que ela (enfermeira) veio e explicou
tudo, aí eu fiquei meio assustada. Andei chorando, por que eu sou
muito chorosa! Depois acalmei! (risos) (Usuário 2)
Porém, a avaliação da assistência prestada pelo enfermeiro e equipe de
enfermagem denotou melhor enfrentamento e percepção positiva do cuidado.
Se eu fizesse essa cardíaca sem saber antes, eu ia ficar
descontrolada! Quando eu acordasse na UTI, eu ia pensar que eu estava
muito ruim [...] Eu ia pensar que não era normal o tubo, o dreno e
que eu devia estar muito ruim. (Usuário 2)
Ah! Se eu não tivesse a visita pré-operatória eu não ia não. Não ia
fazer (a cirurgia) não. Só delas (as enfermeiras) me explicaram tudo
direitinho, o que ia acontecer. Se não fosse elas, eu não ia fazer a
cirurgia não. Eu me lembro de cuidados de enfermagem antes da
cirurgia. Foram muitos (cita alguns nomes de profissionais). Meu medo
diminuiu e a ansiedade também. (Usuário 3)
Antes eu não sabia de nada; tinha dúvidas. Sabia que ia fazer uma
cirurgia, mas não sabia como era, não sabia de nada. E vocês passaram
a orientação e eu fiquei tranquilo! Engraçado que eu fui lembrar das
orientações lá na UTI! Eu sabia de tudo que estava em mim, por que
vocês me falaram graças a Deus! Antes e após eu percebi os cuidados.
Foi muito bom! Eu agradeço muito! Eu perguntei mais algumas dúvidas e
fui esclarecido. Me senti apoiado. (Usuário 4)
Utilizou-se o coeficiente de Pearson a fim de descrever o grau de correlação
entre os clusters do usuário, sendo encontrados para o nó da Avaliação da
Assistência a partir do Enfrentamento e Percepção do Cuidado os valores
representados respectivamente por = 0,889792 e = 0,896525, indicando forte
correlação entre as categorias.
Para os enfermeiros, os clusters agruparam-se em cinco: Facilidades e
benefícios do referencial teórico adotado nos impressos, Resultados obtidos a
partir desta experiência, Avaliação dos impressos quanto à utilidade, O quanto
a SAE pode ser traduzida a partir do impresso utilizado, habilidade com os
impressos e com a teoria de enfermagem adotada.
A instrumentalização do cuidado de enfermagem a partir de impressos baseados em
teoria e em taxonomias como NANDA, NIC e NOC não fazia parte da rotina do
enfermeiro na instituição, limitando-o a princípio.
Nós não temos uma teoria que embase o cuidado. (Enfermeiro 1)
Antes (da presente experiência com a SAE com teoria) a gente só
abordava, mas não havia intervenções. A gente só explicava o
procedimento. Já os diagnósticos e intervenções, igual eu falei
[...]. Eu senti dificuldade pela falta de prática, mas com o estudo e
a prática, não tomaria tanto tempo, faria com mais facilidade.
(Enfermeiro 3)
Porém, ao avaliar os resultados obtidos diante da Sistematização da Assistência
de Enfermagem fundamentada cientificamente, o profissional percebeu a
satisfação do usuário com o cuidado prestado, mensurando com maior propriedade
a efetividade das intervenções implementadas.
Eu vi de maneira positiva essa resposta quando ele chegava no bloco.
O paciente chegava no bloco e eu percebia que os pontos que a gente
levantou estavam mais seguros, mais embasados. Eu senti o paciente
mais seguro, eu senti que ele tinha um ponto de referência,
enfermeiro/técnico de enfermagem. Ele conhecia melhor o ambiente, a
estrutura, parecia mais seguro do que 24 horas anteriores. Então, o
fator segurança foi muito visível para mim, maior segurança por parte
dele. (Enfermeiro 3)
Outra fala remontou aos fatores de cuidado propostos pela teoria adotada,
entendidos pelo enfermeiro como os resultados a serem alcançados e permitindo
conectividade ao diagnóstico de enfermagem levantado a partir da coleta de
dados.
(A Teoria do Cuidado Transpessoal subsidiou)na verdade, na hora de
fazer o diagnóstico relacionando os fatores (fatores de cuidado-
Clinical Caritas), a gente liga uma coisa a outra. (Enfermeiro 2)
Outro resultado obtido a partir desta experiência foi mencionado pelo
profissional através da perspectiva que os impressos possibilitam de
direcionamento do autoconhecimento e da intencionalidade de entrada no universo
do outro de maneira integral, buscando compreendê-lo em seus limites e
dificuldades.
O cuidado de nós mesmos para saber cuidar do outro, então o
autoconhecimento, filtrando essas impressões para saber a necessidade
do outro. Essa abordagem ajuda também ao paciente, para ele se abrir,
dá abertura para ele falar, por exemplo: Eu não vou conseguir largar
o cigarro, até ontem eu fumava dois maços, agora estou internado aqui
e não posso fumar mais nada, eu vou operar do coração, mas não vou
conseguir largar o cigarro. Como que vai ser? Se a abordagem for
humana, ele tem maior abertura para a mudança do que simplesmente
falar: Você não vai mais fumar por que você é cardiopata. (Enfermeiro
3)
Na avaliação da utilidade dos impressos à luz de uma teoria de enfermagem,
evidenciou-se nas falas a oportunidade que este confere, de agregar valor
científico a um momento peculiar como o pré-operatório de cirurgia cardíaca.
Justamente essa teoria em uma fase que é assim difícil. Muitas vezes
a gente chega lá (junto ao usuário) e o paciente não sabe nada e ela
(teoria) esclarece. Então a gente vê o quanto que a gente precisa de
frisar mais. (Enfermeiro 1)
Quando a gente vai fazer um exame físico, entrar num primeiro contato com o
paciente, conversar com ele para a admissão, é bem menos aprofundado. Com os
instrumentos, a gente acaba entrando em mais detalhes. Por que com os impressos
você busca tudo. A Coleta de dados do impresso, se você seguir, você coleta
tudo da vida do paciente de forma aprofundada, desde a parte clínica até a
parte sentimental, a vida, o social. (Enfermeiro 2)
Principalmente nesse campo de atuação, no pré-cirúrgico de uma cirurgia
cardíaca que envolve muitos fatores religiosos, emocionais, de família, esse
cuidado transpessoal é o principal. Então, a teoria encaixa muito bem com esse
fator (múltiplas dimensões do paciente), apesar de ser também muito abrangente.
Ela atende muito bem, por que os fatores físicos neste momento são muito
pequenos perto dos emocionais para o paciente. Essa atenção, esse cuidado que a
gente volta, "como você sente, como você está", ele sente a diferença, por que
quebra esse parâmetro da enfermagem só aferir sinais vitais e está tudo bem.
(Enfermeiro 3)
A Sistematização da Assistência de Enfermagem traduz-se para o enfermeiro como
valor essencial à sua prática, por permitir cientificidade ao cuidar e garantir
a universalidade da linguagem para toda a equipe.
Com certeza esses instrumentos traduziram a minha prática. É uma
forma assim da gente mostrar que se tem planejamento com referencial,
com um embasamento, que nada é tirado de trás da orelha. É uma forma
de estar mostrando que nosso trabalho também tem um por que de tudo,
tem um planejamento, um embasamento. Dá para perceber diferença no
pós-operatório imediato; a diferença de quem recebe a VPO
sistematizada com a teoria de base e quem só recebe a VPO sem a
teoria. Eu observo que eles estão mais tranquilos, redução de
ansiedade, medo, insegurança. (Enfermeiro 1)
Aliás, desde a prescrição, com as abordagens que nós estávamos
fazendo, até mesmo o paciente demonstrou no pós o quanto as
intervenções foram boas, por que antes ele não sabia, não tinha a
menor ideia do que ia acontecer. (Enfermeiro 2)
Eu senti com a construção dos diagnósticos e das intervenções uma
visibilidade melhor do cuidado, de como fazer, de conseguir enxergar
de maneira mais científica o que é proposto realmente para a
enfermagem, as intervenções para os diagnósticos traçados, né? As
intervenções são bastante diretas e fica fácil até para o técnico de
enfermagem aplicar nas 24 horas anteriores à cirurgia. (Enfermeiro 3)
A habilidade com os impressos e com a teoria adotada pode ser desenvolvida
mediante o comprometimento atitudinal dos enfermeiros, sendo externada a partir
da vitória dos primeiros momentos de dificuldade.
Depois que a gente começou (a lidar com NANDA, NIC e NOC) eu consegui
visualizar com mais facilidade e, hoje, eu tenho mais ainda. A gente
tem que lançar mão mesmo das ferramentas, por que quando a gente usa,
a gente consegue construir melhor o cuidado. Eu sinceramente fiquei
muito satisfeita de trabalhar com esses instrumentos, por que eu
senti a importância deles para a minha prática. (Enfermeiro 3)
DISCUSSÃO
A partir da análise dos resultados, pode-se apreender que o cuidado de
enfermagem desde a VPO até o findar do pré-operatório imediato para o usuário,
é avaliado positivamente. De fato, os pacientes que vivenciam sentimentos
negativos antes da cirurgia cardíaca e que recebem orientação pré-operatória,
experimentam melhores experiências no pós-operatório no tocante aos âmbitos
físico e psicossocial. A perspectiva de minimização do medo e angústia traduz-
se em melhor recuperação pós-operatória e consequente redução do tempo de
internação hospitalar, evitando infecções e reduzindo custos institucionais
(13).
Comumente relatada como um sentimento que acompanha o pré-operatório de
cirúrgica cardíaca, a ansiedade teve significativa redução com a utilização de
musicoterapia(14) e educação pré-operatória(15), evidenciando que propostas
alternativas podem fazer parte do cuidado de enfermagem que antecede o
procedimento cirúrgico. Nesta acepção, a comunicação interpessoal emerge como
atividade que deve ser prioritária no perioperatório de cirurgia cardíaca(16),
por considerar que esta qualifica a assistência de enfermagem a partir do
cuidado-orientação ao usuário. Entretanto, observa-se que mesmo em meio às
atividades técnicas, o enfermeiro abstém-se do uso desta ferramenta(17).
Outra abstenção profissional diz respeito à aplicação da SAE por meio das
etapas do processo de enfermagem. Desafios como a falta de conhecimento dos
modelos conceituais e teóricos, número reduzido de recursos humanos e
materiais, além da intensa demanda de atividades assistenciais e
administrativas, são comumente relatados(18).
Contudo, no presente estudo, ao dimensionar suas ações de cuidado a partir de
um referencial teórico transpessoal e das taxonomias que instrumentalizam a
SAEP no período considerado, o enfermeiro obteve maior satisfação laboral, pela
condição que os instrumentos permitiram de visualização do cuidado prestado por
toda a equipe de enfermagem, conferindo autonomia e visibilidade do processo de
cuidar, o que valorou sua atuação e destacou-o sobremaneira no cenário
institucional.
Aliada à habilidade do enfermeiro, a utilização da SAE fundamentada na Teoria
do Cuidado Transpessoal mostra-se como um suporte para qualificar o cuidado de
enfermagem e criar um ambiente terapêutico centrado no paciente em direção ao
alcance dos resultados anteriormente pretendidos na elaboração do processo de
enfermagem(19).
Logo, perceber o usuário no escopo de suas necessidades físicas, emocionais,
espirituais e sociais, demanda do profissional uma constante atualização de
subsídios teóricos capazes de oferecer resultados favoráveis a partir dos
diagnósticos e intervenções implementadas.
Por outro lado, destaca-se a percepção de enfermeiros ao apontar a SAE como
instrumento teórico distanciado da prática, o que conduz à compreensão da
formação profissional lacunar quanto à perspectiva problematizadora e de
aliança entre o saber-fazer acadêmico. Esta realidade imprime fragilidades
consideráveis em torno da Ciência da Enfermagem, considerada ainda em
construção(20). Alguns efeitos negativos da ausência do cuidado sistematizado
são o desconhecimento das necessidades do usuário, falta de qualidade
assistencial e de visibilidade do enfermeiro(18).
Em paralelo a esta discussão e tomando-se como base os resultados da presente
pesquisa, reforça-se a clareza que a SAE orientada por um referencial teórico e
pelas taxonomias confere ao processo de trabalho do enfermeiro. A satisfação do
usuário pode ser apreendida pelo profissional a partir da avaliação dos
resultados (NOC) das intervenções (NIC) propostas, revelando também aumento do
enfrentamento a partir do conhecimento das informações que antes lhe eram
duvidosas, bem como o autocontrole do medo e da ansiedade.
Ademais, o coeficiente de Pearson maior que 0,7 denotou o quanto o usuário
percebeu o cuidado de enfermagem prestado e o avaliou satisfatoriamente,
percebendo-se com maior capacidade de enfrentamento do processo saúde-doença.
Este resultado converge com a proposição da Teoria do Cuidado Transpessoal, a
qual favorece a libertação de sentimentos e permite que o paciente melhore a
assimilação de si, de estar em situação de doença cardíaca com vistas à
reestruturação ou recomposição (healing)(21).
Este referencial teórico tem como precípuas a interatividade e
intersubjetividade no momento do cuidado. Para tal concretude, o enfermeiro
deve unir-se ao ser de quem se cuida, em uma relação que percebe o todo formado
pela mente, corpo e espírito(21). Por meio da análise de conceito, evoca-se a
percepção dos enfermeiros deste estudo, em que no momento de cuidado explicitam
a possibilidade de união com o paciente por meio da operacionalização e
instrumentalização que os auxiliaram.
Neste sentido, o roteiro proposto pelo estudo considerou os aspectos
científicos e humanos da profissão, ressignificando a atividade do profissional
consciente e preocupado com a dignidade humana em direção ao olhar específico
sobre o seu eixo principal: o cuidado ontológico em um paradigma transcendente
para os sujeitos envolvidos.
Acredita-se que a limitação do conhecimento em torno desta temática seja uma
das principais responsáveis pela inaplicabilidade no cotidiano laboral do
enfermeiro. Torna-se fundamental a aproximação do ensino e pesquisa com a
assistência, desenvolvendo a habilidade necessária para o manejo dos
instrumentos de coleta de dados, diagnósticos, intervenções e resultados, à luz
de uma teoria que traduza o cuidar em enfermagem, vencendo a dicotomia do
saber-fazer.
CONCLUSÃO
Desvelar os significados do relacionamento interpessoal terapêutico entre
enfermeiro/usuário, a partir da adoção da Teoria do Cuidado Transpessoal, sobre
a visita pré-operatória de enfermagem após a vivência do processo cirúrgico
permitiu: 1) identificar que os impressos baseados no referencial teórico/
filosófico foram capazes de captar as necessidades dos usuários quando
abordados terapeuticamente na VPO; 2) que os enfermeiros dispusessem de
respaldo para definir a conduta terapêutica de forma individualizada diante das
situações emergentes a partir das informações coletadas por ele a ponto de
subsidiar a realização do julgamento clínico e a aplicação do raciocínio
diagnóstico; 3) que os diagnósticos identificados e as intervenções
implementadas foram avaliadas pelos usuários como favoráveis ao enfrentamento
do processo cirúrgico durante o trás e pós-operatório cardíaco e 4) que os
próprios enfermeiros avaliaram positivamente o uso do referencial teórico de
Watson e das taxonomias NNN na medida em que estes referenciais conferiram
visibilidade, cientificidade e autonomia à sua prática clínica.