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Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672014000300468

variedadeBr
ano2014
fonteScielo

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Modos de condução da entrevista em pesquisa fenomenológica: relato de experiência INTRODUÇÃO Na abordagem qualitativa de pesquisa em saúde se busca compreender o significado individual ou coletivo de um determinado fenômeno. Nos estudos da enfermagem se considera a complexidade e diversidade do ser humano, do ponto de vista de quem vivencia, assim contribui para melhor compreensão da distância entre a prática e o conhecimento. Em torno de como as pessoas significam, elas organizarão suas vidas, inclusive o cuidado com sua saúde(1-2).

A partir desta concepção para caracterizar o método qualitativo, pode-se apontar a modalidade fenomenológica. Na busca da coerência e consistência da investigação é preciso atentar para as características e delineamentos, principalmente: a construção do objeto de estudo e questões de pesquisa; as estratégias na etapa de campo e a postura do pesquisador; a escolha da técnica de produção de dados, desde a coleta, a análise e até as proposições.

A escolha da técnica de produção de dados, com vistas a apreender aspectos da subjetividade dos sujeitos da pesquisa, aponta a entrevista como uma das possibilidades. Esta pode variar, conforme sua estruturação, desde uma conversa informal até um roteiro padronizado, sendo denominadas como: estruturadas, semiestruturadas e não estruturadas(3).

Podem ser desenvolvidas nas modalidades: face a face e mediada. Na primeira, entrevistador e entrevistado se encontram um diante do outro e estão sujeitos às influências verbais e não verbais. Na segunda, a comunicação acontece por meio do telefone, ambiente virtual, questionário, entre outros. Pode ser utilizada como única técnica, como procedimento preliminar ou associada a outras. E, também, ambas podem ser desenvolvidas em grupo ou individualmente(3- 5).

Dentre os tipos, tem-se a entrevista na pesquisa fenomenológica, a qual pretende acessar o vivido do ser humano por meio de um movimento de compreensão. Como modo de acesso ao ser, a entrevista fenomenológica é desenvolvida como um encontro, singularmente estabelecido entre o sujeito pesquisador e cada sujeito pesquisado(6-7).

Neste artigo tem-se como objetivo relatar a experiência da entrevista na produção de dados em pesquisa fenomenológica a qual foi utilizada na tese de doutorado com criança que tem AIDS por transmissão vertical e que está em transição da infância para a adolescência, sustentada no referencial heideggeriano. A relevância está em criar subsídios que apoiem critérios de qualidade e de validade em pesquisa qualitativa, tendo em vista que a entrevista fenomenológica pretende compreender as experiências e as vivências, convergentes com o objeto de estudo de fenômenos que permeiam a prática assistencial.

Após aprovação pelos Comitês de Ética em Pesquisa de três hospitais do Rio de Janeiro (protocolos de aprovação EEAN/UFRJ 096/06; IPPMG/UFRJ 09/07; HUGG/ UNIRIO 36/07), entrevistou-se 11 meninos (as) de 12 a 14 anos, que conheciam seu diagnóstico(8-11). A aprovação pelo Comitê de Ética da(s) instituição(ões) que compõe(m) o(s) cenário(s) para produção dos dados é imprescindível, por tratar-se de pesquisa envolvendo seres humanos, conforme a Resolução brasileira 196/96. Para tanto, os princípios éticos da pesquisa devem ser garantidos segundo a legalidade e a moralidade dos atos científicos.

MODOS DE CONDUÇÃO DA ENTREVISTA EM UMA PESQUISA FENOMENOLÓGICA Ao término da tese de doutorado percebeu-se a necessidade de compartilhar o saber construído na experiência de condução da entrevista na produção de dados em pesquisa fenomenológica. Esta foi a motivação da produção desse artigo.

Denominamos essa técnica de entrevista fenomenológica e passamos a descrever suas dimensões ôntica e ontológica, segundo o referencial heideggeriano(12).

Essas dimensões são consideradas relacionais e estão presentes nos diferentes momentos na sua condução: anterior ao encontro, no encontro face a face e posterior ao encontro.

A ôntica busca a descrição, remete aos fatos, um quê conhecido. Configura-se como algo dado, estático. Diz respeito ao fenomênico, àquilo que aparece pelos significados e é captado na entrevista. Fundamenta-se tanto no senso comum quanto no científico, sendo passível de mensuração e classificação(12). Na condução da entrevista, esta dimensão se refere aos fatos presentes no pesquisador, no sujeito pesquisado e no ambiente, contempla o planejamento e o desenvolvimento da produção de dados.

A ontológica busca a compreensão, remete ao ser, um quem desconhecido.

Desenvolve-se em um horizonte amplo de possibilidades e configura-se como movimento. Está para além do fenomênico, porque expressa a interpretação do fenomenal e revela sentidos. Ou seja, para além daquilo do que aparece e evidencia aquilo que é, transpõe o comum, àquilo que nem todos veem(12). Na condução da entrevista, esta dimensão está fundada na empatia e na intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos.

A dimensão ôntica inclui a determinação dos sujeitos da pesquisa e do cenário; aprovação pelo Comitê de Ética; aproximação e ambientação ao cenário do estudo; o acesso aos sujeitos de pesquisa; a assinatura dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e de Assentimento Livre e Esclarecido, este último quando se tratar de pesquisa com crianças e adolescentes.

A determinação dos sujeitos de pesquisa acontece a partir: do conhecimento (científico) produzido; da problematização da temática de pesquisa; e do objeto do estudo. Faz-se necessário estabelecer os critérios de inclusão e de exclusão e suas especificidades. Quanto ao número de participantes, este não é pré-determinado, visto que a etapa de campo, desenvolvida concomitante ao movimento analítico, se encerra quando os significados expressos nos depoimentos mostram suficiência de estruturas essenciais para compreender o fenômeno investigado, anunciando no alcance dos objetivos o desvelamento dos sentidos(13-14).

A escolha do(s) cenário(s) está diretamente relacionada ao problema e ao objeto de estudo, onde é possível acessar os sujeitos da pesquisa. É importante considerar o número de sujeitos que cada local oportuniza e a rotina de atendimento, e correlacionar essas questões com o cronograma previsto para o desenvolvimento dessa etapa da pesquisa.

Assim, se inaugura a etapa de campo propriamente dita, quando acontece o movimento de aproximação e de ambientação(15). A aproximação ao(s) cenário(s) objetiva que o pesquisador conheça a estrutura do cenário e a dinâmica de funcionamento e seja conhecido das pessoas, bem como apresente a proposta de pesquisa. A ambientação possibilita desenvolver um compromisso entre o pesquisador e as pessoas que compõem o(s) cenário(s) da pesquisa, estabelecendo atitudes de ajuda para seleção do local para a entrevista e acesso aos sujeitos da pesquisa. Esse movimento estende-se às entrevistas, em que o pesquisador busca perceber a singularidade, os significados do silêncio, da fala, do dito e do não dito, e respeitá-las, exercitando a escuta, para mergulhar no difícil exercício de redução dos pressupostos.

Algumas questões importantes devem ser consideradas antecipadamente: onde perguntar (destaque à necessidade de privacidade); a quem perguntar (seleção dos sujeitos da pesquisa); o que perguntar (questões orientadoras da entrevista construída a partir do objeto/objetivo da pesquisa).

A seleção do local para a realização da entrevista visa um ambiente de privacidade em que, preferencialmente, os sujeitos possam dispor-se sem nenhum objeto entre eles. Se for desenvolvida em um serviço de saúde, uma sala próxima ao local onde eles são atendidos pode ajudar a minimizar a preocupação em perder a consulta agendada.

O acesso aos sujeitos da pesquisa inclui: a seleção dos sujeitos em cada cenário da pesquisa, segundo os critérios de inclusão/exclusão previamente estabelecidos; o convite feito, individualmente ou em grupo, para os possíveis sujeitos que serão entrevistados os quais são denominados depoentes; a disponibilidade para participar da entrevista; o agendamento para o encontro.

Com o desenvolvimento da entrevista, pode ocorrer uma exposição do sujeito, pois ele, ao falar de suas vivências, pode obter a consciência daquilo que, até então, estaria velado. O atendimento às demandas decorrentes da entrevista, especialmente, as psicológicas, resultantes do (re)pensar e do expressar de vivências/sentimentos singulares à sua história pessoal, familiar e social deverão ser atendidas. Isto depende da disponibilidade e compromisso dos profissionais da(s) instituição(ões) e minimiza os riscos e potencializa os benefícios da investigação. Assim, é fundamental que o pesquisador faça um contato prévio com os profissionais, visando garantir o atendimento, quando necessário, de demandas dos sujeitos da pesquisa.

Na dimensão ontológica, a entrevista acontece no encontro face a face. Emerge com o estabelecimento da questão do outro - sujeito entrevistado -, fundada na empatia e na intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos(6). Assim, o encontro da entrevista exige do pesquisador um posicionamento de descentrar- se de si, para direcionar-se, intencionalmente, à compreensão do sujeito da pesquisa. Esse posicionamento denomina-se atitude fenomenológica.

Nesse sentido, é preciso abertura do pesquisador para compreender a perspectiva do outro. Não uma prescrição do que deva ser feito, pois se trata de um encontro de subjetividades.

A empatia é que possibilita esta compreensão, sem necessidade de viver o vivido do outro. É a forma de acesso que o pesquisador possui para penetrar nos objetos vividos. A compreensão acontece em um movimento, em que a entrevista se inicia pelo modo de ser impessoal, que é o mais imediato do ser no mundo. Para aproximar-se do sujeito da pesquisa, o pesquisador tem a intenção de construir uma ponte entre o próprio sujeito e o outro, de inicio inteiramente fechado, e de tal maneira desenvolver uma relação de ser-com(12).

Assim, o encontro pesquisador-sujeito da pesquisa possibilita uma vivência em que compartilham compreensões, interpretações e comunicações, na esfera da intersubjetividade. Essa implica na comunicação em copresença. Acontece na experiência da compreensão do mundo da vida, na qual a subjetividade do sujeito entrevistado está centrada numa realidade que é estranha ao pesquisador. Do movimento de confronto entre essas subjetividades emerge, então, o encontro (12).

O encontro promove uma abertura à escuta indo além do aparente para alcançar a expressão de significados. Então, a partir da análise dessa significação, determina-se: como perguntar (condução da entrevista mediada por questões empáticas a fim de evitar induzir a fala dos sujeitos da pesquisa); como encerrar a entrevista (desenvolvendo um feedback, perguntando se o sujeito da pesquisa gostaria de acrescentar algo e agradecendo sua disposição para esse encontro); e para quantos perguntar (estabelecido a partir do que se mostra nas entrevistas e responde ao objetivo).

Na experiência do encontro com as crianças, para iniciar a entrevista, a pesquisadora se apresentava e reiterava alguns aspectos descritos no Termo de Assentimento Livre e Esclarecido, como o uso do gravador, reforçando o sigilo e o anonimato. Procurava se colocar de frente para a criança, sem que nada ficasse entre eles. Posicionava o gravador ao lado, em uma distância que assegurasse a qualidade da gravação e que, se possível, não interferisse na relação.

A entrevista iniciava com a questão orientadora: "como está sendo, para você, virar adolescente?" A outra questão - "Como é o seu dia a dia tendo AIDS?" - somente era mencionada quando o sujeito da pesquisa falava da doença, respeitando o modo como a nominava.

O diálogo se desencadeava com a elaboração de questões empáticas, que são elaboradas a partir da fala do próprio sujeito da pesquisa e emerge do exercício de escuta. Isso indica um movimento necessário e imprescindível de intencionalidade e direcionalidade(15) com foco no objeto de estudo.

Durante o encontro, o pesquisador precisa atentar aos modos de mostrar-se do sujeito entrevistado, captando o dito e o não dito, observando as outras formas de discurso(12,16): silêncio, gestos, reticências e pausas, respeitando o espaço e o tempo do outro.

Durante o desenvolvimento da entrevista pode haver intercorrências, como ruídos, movimentos do ambiente, interferências de outras pessoas, entre outros.

Isso pode reduzir ou interromper a atitude relacional estabelecida entre os sujeitos, a disposição de ambos no diálogo, a abertura do sujeito pesquisado para se expressar e do pesquisador para compreender.

A condução das entrevistas, uma a uma, foi possibilitando os ajustes necessários, o que exige atenção, disponibilidade, envolvimento e esforço para alcançar a atitude fenomenológica. Tal ajuste se deu desde a escuta da primeira entrevista. Na experiência, percebeu-se que, em um dos momentos de silêncio do sujeito entrevistado, ao invés de aproveitar suas palavras ditas anteriormente para retomar o diálogo e aprofundar aquilo que era pertinente ao horizonte do objeto de estudo, a pesquisadora perguntou: "o que mais está acontecendo?".

Destaca-se que a expressão "o que" restringe aquilo que pode ser dito. Repetiu- se essa situação quando o entrevistado falou a palavra "normal" e a entrevistadora resgatou o discurso dele para questionar sobre esse significado.

Então, um modo de elaborar as questões empáticas, que possibilitam a abertura, poderia ser retomando algo que foi dito por ele/a e utilizando a palavra "como": "como é vir sempre aqui?".

Portanto, foi necessário que a pesquisadora se lançasse no exercício constante de retomar o objetivo do estudo e, durante o encontro fenomenológico, ficasse atenta e sensível ao que estava sendo dito pelo depoente, na elaboração das questões empáticas que possibilitaram o aprofundamento e a busca por clareza na compreensão do objeto de estudo.

Foi se descobrindo no fazer: como começar, como reduzir pressupostos, como elaborar as questões empáticas, como desenvolver a intersubjetividade e como perceber quando a entrevista terminava. Uma estratégia utilizada foi registrar palavras-chave ditas pelo próprio depoente, para que, ao buscar um aprofundamento, fosse possível retomar seu dito usando suas próprias palavras.

Também para retomar o diálogo, quando a criança evidenciava um silêncio sem retomar aquilo que estava sendo expresso em seu discurso ou quando mostrava que havia dito o que desejava sobre determinada questão.

A transcrição dos encontros foi desenvolvida pela própria pesquisadora, no intuito de resgatar a comunicação verbal e não verbal, bem como a subjetividade do outro. Foi priorizado que essa composição do discurso, expresso face a face, fosse transformada em discurso escrito o mais próximo possível de quando foi desenvolvida cada entrevista, a fim de que as lembranças não se perdessem. Por vezes, foi necessário um afastamento de tempo maior, pois este confronto de subjetividades provoca o descentramento dos sujeitos envolvidos, o que resultou em mobilização da pesquisadora.

O discurso textual foi composto da seguinte forma: cabeçalho objeto e objetivo da pesquisa, código do depoente, data e horário do encontro; as questões orientadoras e empáticas registradas em cor cinza; o que foi expresso pelo depoente registrado em cor preta; a comunicação não verbal de ambos os sujeitos colocada entre colchetes.

Após as primeiras entrevistas, desenvolveu-se uma análise preliminar com a intenção de refletir: a adequação das questões orientadoras e das questões empáticas utilizadas na entrevista, quanto à compreensão dessas questões pelos sujeitos, se possibilitavam a fluência do depoimento e se atendiam ao objeto e objetivo da pesquisa. Foi possível perceber que as questões estavam adequadas.

Essa análise buscou verificar se facetas do cotidiano e estruturas essenciais estavam sendo reveladas nos depoimentos, a fim de sustentar o enfoque da perspectiva existencial, o quadro de referência da Fenomenologia e o referencial teórico-metodológico heideggeriano.

Para a análise preliminar, foram desenvolvidas escutas e leituras atentas do primeiro depoimento. Esse (re)vivenciar o depoimento, após a entrevista, mostrou a necessidade de redução de pressupostos e pré-conceitos, impregnados da compreensão dominante de teorias tradicionais e de opiniões sobre o ser. É imprescindível que a redução fenomenológica aconteça, pois o que se pretende é a compreensão do próprio depoente, que não acontece guiada pelo conhecimento científico, mas pelos significados expressos por ele.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Por determinação teórica, a episteme produzida na investigação fenomenológica revela singularidades obscurecidas no cotidiano das pessoas. O acesso à dimensão ontológica, pertinente aos fenômenos, necessariamente considera a dimensão ôntica, referente aos fatos.

Ao considerar estas dimensões na condução da entrevista, para o estabelecimento da atitude fenomenológica compreende-se que é necessário que o pesquisador se entregue ao envolvimento subjetivo, respeitando a singularidade do ser, sua historicidade e vivências que foram compartilhadas. A disponibilidade para o tempo de cada depoente, que não é o cronológico, mas o vivido no encontro e o revivido em suas lembranças e sentimentos despertados e nos comportamentos. Na experiência relatada, foi possível apreender e exercitar a atitude fenomenológica mediada pela empatia e intersubjetividade, e se mobilizar com aquilo que foi dito e com o que foi silenciado. Nesse movimento, permitiu-se escutar, calar, sentir, falar e refletir para compreender.

Buscou-se manter o horizonte da objetividade (dimensão ôntica) exigida pela investigação fenomenológica, em específico no foco do objeto de estudo, para assegurar a produção de dados que possibilitasse a análise compreensiva dos depoimentos. A atitude fenomenológica (dimensão ontológica) é o critério de rigor que se impõe na condução da entrevista como técnica de produção de dados nesta abordagem qualitativa de pesquisa.

Portanto, a contribuição deste estudo oferece subsídios para o desenvolvimento da etapa de campo da pesquisa qualitativa, especialmente na modalidade fenomenológica. Oferece recursos teóricos (ôntico) e possibilidades (ontológico) para a produção de dados, com vistas ao rigor da pesquisa e à compreensão dos resultados, respectivamente. A compreensão do vivido do participante da pesquisa remete a reflexões das ações de cuidado dos profissionais da saúde, que poderão incidir na prática assistencial.


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