Modos de condução da entrevista em pesquisa fenomenológica: relato de
experiência
INTRODUÇÃO
Na abordagem qualitativa de pesquisa em saúde se busca compreender o
significado individual ou coletivo de um determinado fenômeno. Nos estudos da
enfermagem se considera a complexidade e diversidade do ser humano, do ponto de
vista de quem vivencia, assim contribui para melhor compreensão da distância
entre a prática e o conhecimento. Em torno de como as pessoas significam, elas
organizarão suas vidas, inclusive o cuidado com sua saúde(1-2).
A partir desta concepção para caracterizar o método qualitativo, pode-se
apontar a modalidade fenomenológica. Na busca da coerência e consistência da
investigação é preciso atentar para as características e delineamentos,
principalmente: a construção do objeto de estudo e questões de pesquisa; as
estratégias na etapa de campo e a postura do pesquisador; a escolha da técnica
de produção de dados, desde a coleta, a análise e até as proposições.
A escolha da técnica de produção de dados, com vistas a apreender aspectos da
subjetividade dos sujeitos da pesquisa, aponta a entrevista como uma das
possibilidades. Esta pode variar, conforme sua estruturação, desde uma conversa
informal até um roteiro padronizado, sendo denominadas como: estruturadas,
semiestruturadas e não estruturadas(3).
Podem ser desenvolvidas nas modalidades: face a face e mediada. Na primeira,
entrevistador e entrevistado se encontram um diante do outro e estão sujeitos
às influências verbais e não verbais. Na segunda, a comunicação acontece por
meio do telefone, ambiente virtual, questionário, entre outros. Pode ser
utilizada como única técnica, como procedimento preliminar ou associada a
outras. E, também, ambas podem ser desenvolvidas em grupo ou individualmente(3-
5).
Dentre os tipos, tem-se a entrevista na pesquisa fenomenológica, a qual
pretende acessar o vivido do ser humano por meio de um movimento de
compreensão. Como modo de acesso ao ser, a entrevista fenomenológica é
desenvolvida como um encontro, singularmente estabelecido entre o sujeito
pesquisador e cada sujeito pesquisado(6-7).
Neste artigo tem-se como objetivo relatar a experiência da entrevista na
produção de dados em pesquisa fenomenológica a qual foi utilizada na tese de
doutorado com criança que tem AIDS por transmissão vertical e que está em
transição da infância para a adolescência, sustentada no referencial
heideggeriano. A relevância está em criar subsídios que apoiem critérios de
qualidade e de validade em pesquisa qualitativa, tendo em vista que a
entrevista fenomenológica pretende compreender as experiências e as vivências,
convergentes com o objeto de estudo de fenômenos que permeiam a prática
assistencial.
Após aprovação pelos Comitês de Ética em Pesquisa de três hospitais do Rio de
Janeiro (protocolos de aprovação EEAN/UFRJ 096/06; IPPMG/UFRJ 09/07; HUGG/
UNIRIO 36/07), entrevistou-se 11 meninos (as) de 12 a 14 anos, que conheciam
seu diagnóstico(8-11). A aprovação pelo Comitê de Ética da(s) instituição(ões)
que compõe(m) o(s) cenário(s) para produção dos dados é imprescindível, por
tratar-se de pesquisa envolvendo seres humanos, conforme a Resolução brasileira
nº 196/96. Para tanto, os princípios éticos da pesquisa devem ser garantidos
segundo a legalidade e a moralidade dos atos científicos.
MODOS DE CONDUÇÃO DA ENTREVISTA EM UMA PESQUISA FENOMENOLÓGICA
Ao término da tese de doutorado percebeu-se a necessidade de compartilhar o
saber construído na experiência de condução da entrevista na produção de dados
em pesquisa fenomenológica. Esta foi a motivação da produção desse artigo.
Denominamos essa técnica de entrevista fenomenológica e passamos a descrever
suas dimensões ôntica e ontológica, segundo o referencial heideggeriano(12).
Essas dimensões são consideradas relacionais e estão presentes nos diferentes
momentos na sua condução: anterior ao encontro, no encontro face a face e
posterior ao encontro.
A ôntica busca a descrição, remete aos fatos, um quê conhecido. Configura-se
como algo dado, estático. Diz respeito ao fenomênico, àquilo que aparece pelos
significados e é captado na entrevista. Fundamenta-se tanto no senso comum
quanto no científico, sendo passível de mensuração e classificação(12). Na
condução da entrevista, esta dimensão se refere aos fatos presentes no
pesquisador, no sujeito pesquisado e no ambiente, contempla o planejamento e o
desenvolvimento da produção de dados.
A ontológica busca a compreensão, remete ao ser, um quem desconhecido.
Desenvolve-se em um horizonte amplo de possibilidades e configura-se como
movimento. Está para além do fenomênico, porque expressa a interpretação do
fenomenal e revela sentidos. Ou seja, para além daquilo do que aparece e
evidencia aquilo que é, transpõe o comum, àquilo que nem todos veem(12). Na
condução da entrevista, esta dimensão está fundada na empatia e na
intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos.
A dimensão ôntica inclui a determinação dos sujeitos da pesquisa e do cenário;
aprovação pelo Comitê de Ética; aproximação e ambientação ao cenário do estudo;
o acesso aos sujeitos de pesquisa; a assinatura dos Termos de Consentimento
Livre e Esclarecido e de Assentimento Livre e Esclarecido, este último quando
se tratar de pesquisa com crianças e adolescentes.
A determinação dos sujeitos de pesquisa acontece a partir: do conhecimento
(científico) já produzido; da problematização da temática de pesquisa; e do
objeto do estudo. Faz-se necessário estabelecer os critérios de inclusão e de
exclusão e suas especificidades. Quanto ao número de participantes, este não é
pré-determinado, visto que a etapa de campo, desenvolvida concomitante ao
movimento analítico, se encerra quando os significados expressos nos
depoimentos mostram suficiência de estruturas essenciais para compreender o
fenômeno investigado, anunciando no alcance dos objetivos o desvelamento dos
sentidos(13-14).
A escolha do(s) cenário(s) está diretamente relacionada ao problema e ao objeto
de estudo, onde é possível acessar os sujeitos da pesquisa. É importante
considerar o número de sujeitos que cada local oportuniza e a rotina de
atendimento, e correlacionar essas questões com o cronograma previsto para o
desenvolvimento dessa etapa da pesquisa.
Assim, se inaugura a etapa de campo propriamente dita, quando acontece o
movimento de aproximação e de ambientação(15). A aproximação ao(s) cenário(s)
objetiva que o pesquisador conheça a estrutura do cenário e a dinâmica de
funcionamento e seja conhecido das pessoas, bem como apresente a proposta de
pesquisa. A ambientação possibilita desenvolver um compromisso entre o
pesquisador e as pessoas que compõem o(s) cenário(s) da pesquisa, estabelecendo
atitudes de ajuda para seleção do local para a entrevista e acesso aos sujeitos
da pesquisa. Esse movimento estende-se às entrevistas, em que o pesquisador
busca perceber a singularidade, os significados do silêncio, da fala, do dito e
do não dito, e respeitá-las, exercitando a escuta, para mergulhar no difícil
exercício de redução dos pressupostos.
Algumas questões importantes devem ser consideradas antecipadamente: onde
perguntar (destaque à necessidade de privacidade); a quem perguntar (seleção
dos sujeitos da pesquisa); o que perguntar (questões orientadoras da entrevista
construída a partir do objeto/objetivo da pesquisa).
A seleção do local para a realização da entrevista visa um ambiente de
privacidade em que, preferencialmente, os sujeitos possam dispor-se sem nenhum
objeto entre eles. Se for desenvolvida em um serviço de saúde, uma sala próxima
ao local onde eles são atendidos pode ajudar a minimizar a preocupação em
perder a consulta agendada.
O acesso aos sujeitos da pesquisa inclui: a seleção dos sujeitos em cada
cenário da pesquisa, segundo os critérios de inclusão/exclusão previamente
estabelecidos; o convite feito, individualmente ou em grupo, para os possíveis
sujeitos que serão entrevistados os quais são denominados depoentes; a
disponibilidade para participar da entrevista; o agendamento para o encontro.
Com o desenvolvimento da entrevista, pode ocorrer uma exposição do sujeito,
pois ele, ao falar de suas vivências, pode obter a consciência daquilo que, até
então, estaria velado. O atendimento às demandas decorrentes da entrevista,
especialmente, as psicológicas, resultantes do (re)pensar e do expressar de
vivências/sentimentos singulares à sua história pessoal, familiar e social
deverão ser atendidas. Isto depende da disponibilidade e compromisso dos
profissionais da(s) instituição(ões) e minimiza os riscos e potencializa os
benefícios da investigação. Assim, é fundamental que o pesquisador faça um
contato prévio com os profissionais, visando garantir o atendimento, quando
necessário, de demandas dos sujeitos da pesquisa.
Na dimensão ontológica, a entrevista acontece no encontro face a face. Emerge
com o estabelecimento da questão do outro - sujeito entrevistado -, fundada na
empatia e na intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos(6). Assim,
o encontro da entrevista exige do pesquisador um posicionamento de descentrar-
se de si, para direcionar-se, intencionalmente, à compreensão do sujeito da
pesquisa. Esse posicionamento denomina-se atitude fenomenológica.
Nesse sentido, é preciso abertura do pesquisador para compreender a perspectiva
do outro. Não há uma prescrição do que deva ser feito, pois se trata de um
encontro de subjetividades.
A empatia é que possibilita esta compreensão, sem necessidade de viver o vivido
do outro. É a forma de acesso que o pesquisador possui para penetrar nos
objetos vividos. A compreensão acontece em um movimento, em que a entrevista se
inicia pelo modo de ser impessoal, que é o mais imediato do ser no mundo. Para
aproximar-se do sujeito da pesquisa, o pesquisador tem a intenção de construir
uma ponte entre o próprio sujeito e o outro, de inicio inteiramente fechado, e
de tal maneira desenvolver uma relação de ser-com(12).
Assim, o encontro pesquisador-sujeito da pesquisa possibilita uma vivência em
que compartilham compreensões, interpretações e comunicações, na esfera da
intersubjetividade. Essa implica na comunicação em copresença. Acontece na
experiência da compreensão do mundo da vida, na qual a subjetividade do sujeito
entrevistado está centrada numa realidade que é estranha ao pesquisador. Do
movimento de confronto entre essas subjetividades emerge, então, o encontro
(12).
O encontro promove uma abertura à escuta indo além do aparente para alcançar a
expressão de significados. Então, a partir da análise dessa significação,
determina-se: como perguntar (condução da entrevista mediada por questões
empáticas a fim de evitar induzir a fala dos sujeitos da pesquisa); como
encerrar a entrevista (desenvolvendo um feedback, perguntando se o sujeito da
pesquisa gostaria de acrescentar algo e agradecendo sua disposição para esse
encontro); e para quantos perguntar (estabelecido a partir do que se mostra nas
entrevistas e responde ao objetivo).
Na experiência do encontro com as crianças, para iniciar a entrevista, a
pesquisadora se apresentava e reiterava alguns aspectos descritos no Termo de
Assentimento Livre e Esclarecido, como o uso do gravador, reforçando o sigilo e
o anonimato. Procurava se colocar de frente para a criança, sem que nada
ficasse entre eles. Posicionava o gravador ao lado, em uma distância que
assegurasse a qualidade da gravação e que, se possível, não interferisse na
relação.
A entrevista iniciava com a questão orientadora: "como está sendo, para você,
virar adolescente?" A outra questão - "Como é o seu dia a dia tendo AIDS?" -
somente era mencionada quando o sujeito da pesquisa falava da doença,
respeitando o modo como a nominava.
O diálogo se desencadeava com a elaboração de questões empáticas, que são
elaboradas a partir da fala do próprio sujeito da pesquisa e emerge do
exercício de escuta. Isso indica um movimento necessário e imprescindível de
intencionalidade e direcionalidade(15) com foco no objeto de estudo.
Durante o encontro, o pesquisador precisa atentar aos modos de mostrar-se do
sujeito entrevistado, captando o dito e o não dito, observando as outras formas
de discurso(12,16): silêncio, gestos, reticências e pausas, respeitando o
espaço e o tempo do outro.
Durante o desenvolvimento da entrevista pode haver intercorrências, como
ruídos, movimentos do ambiente, interferências de outras pessoas, entre outros.
Isso pode reduzir ou interromper a atitude relacional estabelecida entre os
sujeitos, a disposição de ambos no diálogo, a abertura do sujeito pesquisado
para se expressar e do pesquisador para compreender.
A condução das entrevistas, uma a uma, foi possibilitando os ajustes
necessários, o que exige atenção, disponibilidade, envolvimento e esforço para
alcançar a atitude fenomenológica. Tal ajuste se deu desde a escuta da primeira
entrevista. Na experiência, percebeu-se que, em um dos momentos de silêncio do
sujeito entrevistado, ao invés de aproveitar suas palavras ditas anteriormente
para retomar o diálogo e aprofundar aquilo que era pertinente ao horizonte do
objeto de estudo, a pesquisadora perguntou: "o que mais está acontecendo?".
Destaca-se que a expressão "o que" restringe aquilo que pode ser dito. Repetiu-
se essa situação quando o entrevistado falou a palavra "normal" e a
entrevistadora resgatou o discurso dele para questionar sobre esse significado.
Então, um modo de elaborar as questões empáticas, que possibilitam a abertura,
poderia ser retomando algo que foi dito por ele/a e utilizando a palavra
"como": "como é vir sempre aqui?".
Portanto, foi necessário que a pesquisadora se lançasse no exercício constante
de retomar o objetivo do estudo e, durante o encontro fenomenológico, ficasse
atenta e sensível ao que estava sendo dito pelo depoente, na elaboração das
questões empáticas que possibilitaram o aprofundamento e a busca por clareza na
compreensão do objeto de estudo.
Foi se descobrindo no fazer: como começar, como reduzir pressupostos, como
elaborar as questões empáticas, como desenvolver a intersubjetividade e como
perceber quando a entrevista terminava. Uma estratégia utilizada foi registrar
palavras-chave ditas pelo próprio depoente, para que, ao buscar um
aprofundamento, fosse possível retomar seu dito usando suas próprias palavras.
Também para retomar o diálogo, quando a criança evidenciava um silêncio sem
retomar aquilo que estava sendo expresso em seu discurso ou quando mostrava que
já havia dito o que desejava sobre determinada questão.
A transcrição dos encontros foi desenvolvida pela própria pesquisadora, no
intuito de resgatar a comunicação verbal e não verbal, bem como a subjetividade
do outro. Foi priorizado que essa composição do discurso, expresso face a face,
fosse transformada em discurso escrito o mais próximo possível de quando foi
desenvolvida cada entrevista, a fim de que as lembranças não se perdessem. Por
vezes, foi necessário um afastamento de tempo maior, pois este confronto de
subjetividades provoca o descentramento dos sujeitos envolvidos, o que resultou
em mobilização da pesquisadora.
O discurso textual foi composto da seguinte forma: cabeçalho objeto e objetivo
da pesquisa, código do depoente, data e horário do encontro; as questões
orientadoras e empáticas registradas em cor cinza; o que foi expresso pelo
depoente registrado em cor preta; a comunicação não verbal de ambos os sujeitos
colocada entre colchetes.
Após as primeiras entrevistas, desenvolveu-se uma análise preliminar com a
intenção de refletir: a adequação das questões orientadoras e das questões
empáticas utilizadas na entrevista, quanto à compreensão dessas questões pelos
sujeitos, se possibilitavam a fluência do depoimento e se atendiam ao objeto e
objetivo da pesquisa. Foi possível perceber que as questões estavam adequadas.
Essa análise buscou verificar se facetas do cotidiano e estruturas essenciais
estavam sendo reveladas nos depoimentos, a fim de sustentar o enfoque da
perspectiva existencial, o quadro de referência da Fenomenologia e o
referencial teórico-metodológico heideggeriano.
Para a análise preliminar, foram desenvolvidas escutas e leituras atentas do
primeiro depoimento. Esse (re)vivenciar o depoimento, após a entrevista,
mostrou a necessidade de redução de pressupostos e pré-conceitos, impregnados
da compreensão dominante de teorias tradicionais e de opiniões sobre o ser. É
imprescindível que a redução fenomenológica aconteça, pois o que se pretende é
a compreensão do próprio depoente, que não acontece guiada pelo conhecimento
científico, mas pelos significados expressos por ele.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por determinação teórica, a episteme produzida na investigação fenomenológica
revela singularidades obscurecidas no cotidiano das pessoas. O acesso à
dimensão ontológica, pertinente aos fenômenos, necessariamente considera a
dimensão ôntica, referente aos fatos.
Ao considerar estas dimensões na condução da entrevista, para o estabelecimento
da atitude fenomenológica compreende-se que é necessário que o pesquisador se
entregue ao envolvimento subjetivo, respeitando a singularidade do ser, sua
historicidade e vivências que foram compartilhadas. A disponibilidade para o
tempo de cada depoente, que não é o cronológico, mas o vivido no encontro e o
revivido em suas lembranças e sentimentos despertados e nos comportamentos. Na
experiência relatada, foi possível apreender e exercitar a atitude
fenomenológica mediada pela empatia e intersubjetividade, e se mobilizar com
aquilo que foi dito e com o que foi silenciado. Nesse movimento, permitiu-se
escutar, calar, sentir, falar e refletir para compreender.
Buscou-se manter o horizonte da objetividade (dimensão ôntica) exigida pela
investigação fenomenológica, em específico no foco do objeto de estudo, para
assegurar a produção de dados que possibilitasse a análise compreensiva dos
depoimentos. A atitude fenomenológica (dimensão ontológica) é o critério de
rigor que se impõe na condução da entrevista como técnica de produção de dados
nesta abordagem qualitativa de pesquisa.
Portanto, a contribuição deste estudo oferece subsídios para o desenvolvimento
da etapa de campo da pesquisa qualitativa, especialmente na modalidade
fenomenológica. Oferece recursos teóricos (ôntico) e possibilidades
(ontológico) para a produção de dados, com vistas ao rigor da pesquisa e à
compreensão dos resultados, respectivamente. A compreensão do vivido do
participante da pesquisa remete a reflexões das ações de cuidado dos
profissionais da saúde, que poderão incidir na prática assistencial.