Percepções de familiares de pessoas portadoras de câncer sobre encontros
musicais durante o tratamento antineoplásico
INTRODUÇÃO
O câncer é uma das doenças crônico-degenerativas que mais acarretam transtornos
ao doente e sua família. Independentemente do prognóstico, muitos indivíduos
encontram-se fragilizados, ameaçados e amedrontados diante de seu diagnóstico
(1). Isto por que esta doença traz importantes mudanças no modo de viver, as
quais alteram a vida do doente e família desde o âmbito físico até o emocional,
pelo desconforto, pela dor, pela desfiguração, pela dependência e pela perda da
autoestima(2). Ressalta-se, ainda, que a incidência de neoplasias malignas no
Brasil tem aumentado progressivamente e, assim, o cuidar de um familiar nesta
condição vem tornando-se uma realidade no cerne de muitas famílias(3). Nesses
momentos, a família vivencia vicissitudes que afetam profundamente os aspectos
psicológicos e emocionais, e talvez seja a primeira vez que enfrenta uma
situação de morte em seu lar(3).
Cuidar nestas condições, exige muita dedicação, especialmente por parte daquele
familiar que assume o papel de cuidador principal, causando-lhe uma sobrecarga
física e emocional, relacionada ao tempo despendido nesse cuidado e às
dificuldades que lhe são inerentes(3). Nestes momentos, a família experiencia
vicissitudes que são ampliadas diante da iminência de morte e das perdas
relacionadas à evolução da doença e aos efeitos colaterais do tratamento
antineoplásico(4). Deste modo, a família angustia-se e identifica sua própria
fragilidade, reconhecendo a necessidade de apoio para o enfrentamento de sua
condição existencial(5), isto porque o câncer desperta sentimentos de
vulnerabilidade, angústia, medo, insegurança e incerteza(6).
Nessa perspectiva, emergem os cuidados paliativos, uma abordagem que aprimora a
qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados
com doenças ameaçadoras de vida, previne e alivia o sofrimento e a dor, em suas
dimensões física, psicossocial e espiritual(7). Entretanto, para a
implementação dessa filosofia, destaca-se a importância dos profissionais de
enfermagem, pelo tempo que permanecem junto ao paciente e seus familiares,
intermediando a interação entre os seres envolvidos no processo de cuidado
interdisciplinar, recorrendo a recursos que proporcionem melhor qualidade de
vida e, quando isso não for possível, uma morte digna(8).
Nessa dimensão, surgem inúmeras iniciativas, como os encontros musicais, uma
estratégia de cuidado grupal, implementada junto a sistemas familiares no
contexto da quimioterapia, tendo a música como recurso terapêutico, ativador do
processo expressivo e interativo, das narrativas e da dialogicidade,
estruturado na intencionalidade de cuidar do enfermeiro na co-construção de um
ambiente de reconstituição física, emocional e social(9).
Em estudo realizado acerca da utilização da música na assistência paliativa
domiciliar, observou-se que a supereminência dos encontros musicais na
terminalidade da vida de pessoas com câncer, aviva sensações agradáveis que
contribuem para o seu bem-estar e o de sua família, dando sentido aos seus
dias; suscita também sentimentos de alegria, tornando-os mais comunicativos,
como se a doença parasse no tempo e no espaço vivido; representa um suporte de
apoio psicossocioespiritual que desperta força e coragem para transcenderem a
angústia de sua facticidade(3).
Destarte, quando utilizada com competência e sensibilidade, a música
potencializa a expressão de afetividade, muitas vezes despercebida ante a
iminência de morte, transcendendo o cuidado fragmentado e desumano(10). Diante
do exposto e da necessidade de desenvolver recursos tecnológicos leves,
efetivos e aplicáveis ao cuidado de enfermagem, o objetivo deste estudo foi
desvelar a percepção de familiares acompanhantes que convivem com o câncer e o
tratamento antineoplásico em uma casa de apoio que utiliza de encontros
musicais como tratamento.
A nosso ver, pesquisas com esse escopo justificam-se, pois estudos que abordam
os sentimentos dos familiares cuidadores de pessoas com câncer, acompanhando-os
durante o tratamento em casas de apoio que utilizam a música como uma
estratégia para o cuidado, é escassa em âmbito nacional e internacional. Tal
realidade demonstra a necessidade de o enfermeiro refletir acerca da condição
destes seres e albergar em seus cotidianos os cuidados a estas pessoas, visto
que, nestes momentos de suas vidas, esses familiares coexistem com sofrimentos
emocionais, tendo que se adaptar às situações suscitadas pela permanência na
instituição, a doença e o tratamento. Isso requer a identificação de suas
necessidades biopsicossociais, que devem ser apreciadas e levadas em
consideração no planejamento e desenvolvimento das ações e programas de saúde
voltados a tais seres.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo estruturado na fenomenologia existencial
heideggeriana(11). Diante da complexidade inerente à área da saúde, a
fenomenologia pode viabilizar a compreensão do encontro entre os seres
envolvidos no processo de cuidado, promovendo a humanização(12). Ponderando
ainda que o cuidado de enfermagem abrange questões existenciais, a
fenomenologia subsidia significativa contribuição para o pensar e o fazer do
enfermeiro. Vale salientar que a pesquisa fenomenológica objetiva descrever as
experiências em sua totalidade, ou seja, desvelar o significado das percepções
emergentes no contexto vivenciado(13).
Portanto, neste tipo de estudo, a região de inquérito ou região ontológica é a
própria situação em que o fenômeno que se buscou desvelar ocorre, ou seja, a
subjetividade latente nas vivências dos familiares acompanhantes, dos usuários
da casa de apoio da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Maringá (RFCC), que
acolhe pessoas adultas de ambos os sexos, residentes em outros municípios e
Estados, que fazem quimioterapia e/ou radioterapia em Maringá, disponibilizando
pouso, banho, alimentação e transporte gratuitos para a clínica ou hospital.
Durante o tratamento, independente do quadro clínico do usuário, a presença de
um acompanhante é permitida, mas não obrigatória.
Mediante autorização prévia da Presidente da organização supracitada, iniciou-
se a etapa de familiarização com o cenário de estudo e aproximação com os
usuários lá hospedados, com o intuito de reconhecer a dinâmica da casa de
apoio, inserindo-nos naturalmente em seu cotidiano. Na semana que antecedeu o
primeiro encontro, tive a oportunidade de conhecer cada usuário da instituição,
falar sobre os encontros musicais e saber sobre suas preferências musicais,
para que o repertório a ser implementado pudesse contemplar a apreciação de
todos.
Com o intuito de nortear com transparência a trajetória metodológica dos
encontros musicais, adotaram-se as diretrizes recomendadas para relatórios de
intervenções musicais na área da saúde, considerando a complexidade de
estímulos musicais, e outros fatores como a escolha da música, o modo de
entrega ou a combinação de música com outras estratégias de intervenção(14).
Assim, as músicas utilizadas nos encontros musicais foram pré-selecionadas
pelos próprios participantes, bem como pelo pesquisador, direcionado pelo
estilo musical ou cantor referenciado. Os participantes conduziam a
intervenção, escolhendo a partir desta seleção as músicas que gostariam de
ouvir naquele momento.
Os estilos musicais previamente referenciados foram o sertanejo e o religioso,
e as músicas com as quais os sujeitos de pesquisa se identificaram após a
intervenção foram: "Oração pela família", em Sol maior (G); "Franguinho na
panela", em Sol maior (G); "Couro de boi", em Fá maior (F); e "Noite
traiçoeira", em Sol maior (G), com prevalência dos ritmos quaternário e
ternário.
Vale salientar que, permitir a participação do cliente na escolha do
repertório, estimula-o a reavivar reminiscências que compunham a sua
historicidade, haja vista que a música está atrelada a eventos cotidianos
significativos da vida de cada ser. Evocar essas lembranças pode subsidiar o
enfrentamento e a superação de sua angústia existencial(15).
Deste modo, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2011, foram realizados
oito encontros musicais, onde foram cantadas e tocadas no violão as músicas
escolhidas pelos usuários da casa de apoio. Os encontros musicais aconteceram
às segundas-feiras, com início às 17h30min, pois, no período da manhã e/ou da
tarde, os familiares acompanham os pacientes que se deslocam para a clínica ou
hospital. Eles tiveram uma duração média de 1h30min, ponderando o desgaste
físico dos usuários que permanecem na casa de apoio de segunda à sexta-feira,
retornam para suas residências nos finais de semana, para então refazerem o
caminho percorrido e retomarem o tratamento, uma viagem, muitas vezes, longa e
exaustiva.
Foi utilizada como estratégia de intervenção a audição musical, associada ao
processo expressivo e interativo dos sujeitos. O modo de entrega musical foi
música ao vivo - voz e violão de seis cordas Tagina® Dallas com cordas de aço -
além de dez cópias do material impresso em folhas de sulfite A4 brancas,
contendo as letras das músicas para os participantes (sugestão feita por um
deles no primeiro encontro), uma estante de partituras Hunter®, cadeiras e
sofás dispostos em círculo com o intuito de propiciar a interação do grupo.
As músicas foram interpretadas pelo próprio pesquisador, enfermeiro e músico,
com experiência prévia de utilização deste recurso em outras situações com a
participação dos usuários, e em volume agradável aos ouvidos. Os encontros
aconteceram na sala social, onde circulam funcionários, usuários e
beneficiários da RFCC. Não obstante, avaliamos que os níveis de privacidade e
ruídos ambientais não tenham interferido nos resultados da intervenção, visto
que neste ambiente, os usuários assistem TV, conversam e, muitas vezes,
adormecem no sofá.
Neste período, 13 familiares acompanhantes integraram os encontros musicais,
sendo cinco no primeiro, três no segundo, quatro no terceiro, cinco no quarto,
cinco no quinto, três no sexto, quatro no sétimo e três no oitavo. Mas, somente
cinco familiares foram sujeitos de pesquisa, pois participaram de, no mínimo,
três encontros musicais, critério de inclusão pré-estabelecido. Ressalta-se
que, as intervenções em grupo podem agregar valores em termos de apoio aos
participantes e que os efeitos terapêuticos das interações sociais a ele
inerentes podem transcender os da própria intervenção(14).
Após a participação no terceiro encontro, os familiares foram entrevistados
individualmente, conduzidos pela seguinte questão norteadora: "O que esses
encontros musicais representam para você neste momento de sua vida?" Com o
intuito de facilitar a análise do fenômeno, logo após o término de cada
encontro, as observações realizadas foram registradas em um diário de campo.
Para captar a plenitude expressa pelos sujeitos, inicialmente, realizamos
leituras atentas de cada depoimento, separando os trechos ou unidade de
sentidos (us) que para nós se mostraram como estruturas fundamentais da
existência. Posteriormente, passamos a analisar as unidades de sentidos de cada
depoimento, realizando seleção fenomenológica da linguagem de cada sujeito,
pois uma unidade de sentido é, em geral, constituída de sentimentos revelados
pelos depoentes que contemplaram a interrogação ontológica do estudo(16). E, da
qual emergiu a temática ontológica que foi interpretada à luz de algumas ideias
heideggerianas e de autores que o referenciam, como também, pesquisadores que
versam sobre a problemática em estudo.
Por se tratar de pesquisa que envolve seres humanos em seu desenvolvimento,
observamos os aspectos éticos disciplinados pela Resolução 196/96 do CNS-MS,
revogada e substituída pela Resolução 466/12, do CNS/MS. O projeto foi
apreciado e aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo
Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá (Parecer n°. 614/2010).
Evitando designar os sujeitos de forma genérica, como sujeito 1, 2..., os
familiares receberam codinomes de elementos de expressão musical.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Sentindo-se acolhida em sua vicissitude
"Ser-com" ou "Sendo-com" é um constitutivo ontológico do ser-no-mundo, do
existir humano. "Com" que tem origem no latim cum e no grego syn significa
"junto", algo ou alguém na presença do outro. Assim, o ser humano existe sempre
em relação a algo ou alguém e neste ser-com-os-outros, o ser-no-mundo é sempre
cuidado, compreende as suas experiências, estabelece significado próprio aos
objetos e seres em seu mundo, e dá sentido à sua existência(11). Nessa
perspectiva, os familiares acompanhantes sentiram-se acolhidos em sua condição
existencial, reconhecendo os encontros musicais como uma possibilidade de
estar-com-o-outro em sua temporalidade na casa de apoio.
Esse trabalho... só vem a somar para a recuperação desse paciente, em
todos os sentidos. [...] para que ele, por um momento sequer, esqueça
daquela patologia e daquele momento difícil que ele está levando,
junto com a família. [...] desta patologia horrível que é o câncer
[...] Porque queira ou não queira a música é uma terapia e ela é bem
vinda em todos os lugares [...] aqui nós temos católicos, evangélicos
e independente da raça, cor e religião que cada um siga, você pode
ver que todos gostam da música. [...] eu acho que isso é um trabalho
maravilhoso [...] eu acho muito importante, sabe? a música. (Tenuto)
Diante da complexidade da doença de sua mãe, Tenuto concebe os encontros
musicais como uma terapia complementar aos tratamentos convencionais, que
auxilia na recuperação dos doentes "em todos os sentidos", pois lhes permite
deslembrar, por um momento, a angústia e o sofrimento vivenciado e
compartilhado neste contexto. O sentido implícito em sua linguagem pode
transmitir a dificuldade vivenciada no seu ik-stante existencial, ou seja, no
presente, onde os encontros musicais subsidiam a possibilidade de sentir-se
cuidado também, ampliando sua qualidade de vida. Nesse sentido, os encontros
musicais despertam uma sensação de integridade social e evolução cognitiva,
ressignificando as emoções e o sentido da vida(4).
Ah! É muito importante, porque faz a gente desenvolver aquilo que a
gente sente, e deixa a gente mais calmo. Eu acho que ele toca bem no
lado emotivo, a parte espiritual também [...] é um pouco difícil,
porque a gente fica longe dos filhos pequenos, dos parentes [...]. E
nessa parte, a música foi muito importante para mim. Eu não vejo a
hora de chegar aquele dia, para ir lá para sala, para nós cantarmos,
todo mundo junto. [...] Cada encontro é especial para mim, porque eu
não vejo ninguém triste. [...] Deus que determina na vida da gente e
manda pessoas especiais, usadas por ele, para transmitir aquela
energia positiva para a gente. (Marcato)
Nesta unidade de sentidos, apercebe-se que a temporalidade vivida na casa de
repouso faz Marcato vivenciar um paradoxo existencial, isto é, estar com seu
familiar doente e ao mesmo tempo vivenciar a saudade daqueles que estão
distante. Na analítica heideggeriana, o Ser-aí enquanto um ente ontológico-
existencial traz em si um modo fundamental de se manifestar ao mundo através da
capacidade de transcender sua própria espacialidade e sentir-se próximo dos
entes que estão distantes(11). Neste sentido, atenta-se em seu discurso, que a
música potencializou sua capacidade de espacializar-se, aproximando-a daqueles
que são co-presença em sua vida, preenchendo assim, o vazio experienciado.
Sobre o assunto, o estudo enfatiza que o estar longe de entes queridos é sempre
permeado de solidão, pois o ser-no-mundo se sente distante do seu cotidiano
familiar, das coisas que lhe conferem a integridade do ser(6).
Seguindo este pensar, os encontros musicais permitiram-na expressar os seus
sentimentos, abrir-se ao mundo e a si mesma; proporcionaram-lhe um momento de
introspecção existencial e espiritual, que a conduziu a uma experiência
transcendental: assumir as possibilidades concretas de seu existir. Pois, a
música possibilita a aproximação dos seres e a aproximação do homem com sua
própria essência, subsidiando a compreensão do sentido da vida, na unicidade e
subjetividade de uma experiência que integra as dimensões humanas(17). Assim
sendo, a presença de outros seres providos por Deus, contribuíram para este
processo de abertura, impulsionando-a em sua perseverança na perspectiva de
vencer a luta contra o câncer que acometia o seu esposo e retornar ao convívio
dos seus.
Por constituir um caminho para melhorar a qualidade de vida dos doentes e sua
família, auxiliando no processo de cura e/ou enfrentamento das doenças, a
espiritualidade tem despertado o interesse dos profissionais da saúde(5). Nesse
sentido, acreditamos que o bem-estar espiritual avivado através dos encontros
musicais, especialmente no que tange ao repertório religioso/espiritual, pode
representar um suporte que proporciona aos familiares, conforto, reflexão e
motivação diante das adversidades que vêm ao seu encontro.
Eu achei assim... importante. Toca o coração da gente. Você fica mais
perto de Deus, porque fala muito nos hinos, eu senti isso, sabe?
[...] porque você vem para o teu lado mais interior. Não sei se fica
mais sensível. Você vê quantas pessoas choram [...]. Eu acredito que
anima bastante. Você vê como o meu marido ficou animado, ficou
contente. Eu acho que alivia a cabeça, espanta os pensamentos ruins.
[...] acho que de todo mundo estar junto ali reunido, já é uma grande
coisa. [...] Você vê ali que o pessoal fica, tipo assim, como se
fosse uma família. Então, eu gosto. Eu gosto de todo mundo aqui como
se fosse um irmão. (Legato)
Em seu depoimento, Legato revela a importância dos encontros musicais em seu
processo de reconstrução de sentidos existenciais, intermediando sua
aproximação com Deus. Evidencia também os aspectos psicológicos, sociais,
emocionais, reflexivos e espirituais, intrínsecos ao recurso de cuidado, quando
descreve a sensibilidade de seus companheiros, bem como a alteração no estado
de ânimo e humor de seu esposo.
A acompanhante acredita que os encontros musicais depuram os pensamentos,
suavizando a sobrecarga vivenciada, enfatizando a significância de ser-com-os-
outros, bem como a co-presença de outros em sua mundaneidade de mundo,
reconhecendo como terapêutico, o simples fato de se reunirem para cantar. Com
efeito, se "ser-no-mundo só é possível mediante o cuidado e ser-no-mundo é ser-
com-outros, logo o cuidado também é, ontologicamente, originário do ser-com, da
co-presença"(6). Todavia, na cotidianidade, o ser-no-mundo somente cuida do
outro quando a existência desse outro traduz significado. Deste modo, o cuidado
manifesta-se por meio de demonstrações de solicitude e co-responsabilidade pela
vida do outro(6).
Nesse contexto, a essência determina a existencialidade do ser e sua condição
humana, revelando sua autenticidade e ressignificando sua vida. Isto porque os
sentimentos e emoções emergentes das relações cotidianas intensificam a
reciprocidade entre os sujeitos, permitindo que compartilhem com o outro suas
concepções de mundo, suas convicções e valores socioculturais(13). Destarte, os
encontros musicais possibilitaram a co-existência entre os usuários da casa de
apoio, mediada pela música, um ente que possibilita esta aproximação
ontológica, dando sentido ao existir-no-mundo dos seres evidenciados.
Assim sendo, os encontros musicais contemplam outros pressupostos filosóficos
dos cuidados paliativos, pois integram os aspectos psicossociais e espirituais
do cuidado ao paciente e sua família; oferecem um sistema de apoio para ajudar
a família a lidar com a doença e a terminalidade da vida de seu ente querido;
reforçam e aprimoram a qualidade de vida destes, influenciando positivamente o
curso da doença(7).
Ah! O encontro musical é como se Deus estivesse presente na hora da
dor, na hora do sofrimento. Porque quando a gente está sofrendo, a
música traz... como se fosse um remédio para o nosso sofrimento.
[...] é um momento difícil, porque na hora que você recebe a notícia,
parece que tudo vai acabar. Eu chorei bastante no início, mas depois
eu me lembrei que tem um Deus que cuida de nós. [...] Por difícil que
seja a nossa caminhada, Deus está presente em todos os momentos.
[...] na alegria, na tristeza, na hora da maior angústia [...] é
alimento espiritual, alimento para a alma (risos). [...] seja qual
música for. Se for sobre Deus é melhor... (Staccato)
Em sua existencialidade, o homem se compreende, por antecipação, como um ser
lançado no mundo, numa temporalidade tridimensional da consciência de ser:
confere significado às experiências pregressas (vigor de ter sido), a partir de
uma vivência contemporânea (ik-stante) interpretada como o devir de um projeto
existencial (porvir) cujo artífice é o cuidado(6). Neste sentido, verifica-se
no discurso de Staccato que o impacto do diagnóstico de câncer surgiu como a
possibilidade da impossibilidade da existência de seu ente querido, anulando
perspectivas e despertando temor ante o seu porvir.
Diante das preocupações e incertezas experienciadas no ik-stante de sua vida,
reaviva reminiscências do seu vigor de ter sido, digerindo os encontros
musicais como um remédio para a sua dor e o seu sofrimento, um alimento
espiritual que a faz sentir a presença de Deus em sua vida. Na esperança de
derrotar o câncer, encontra na fé que professa, conforto, confiança e
segurança, superando desta maneira as dificuldades emergentes em sua caminhada.
Logo, compreendemos que as adversidades vivenciadas por Staccato,
possibilitaram-lhe uma estação de reflexão, demonstrando-lhe a fragilidade
humana ante a iminência de morte de um ente querido, compreendendo que a
espiritualidade é o caminho para transcender sua facticidade e que os encontros
musicais contribuíram para isso.
Adverte-se a importância da enfermagem compreender e aceitar que o outro é um
ser permeado de crenças e valores que não podem ser negligenciados no processo
saúde-doença, pois a espiritualidade, religiosidade ou crenças religiosas
ajudam a dar significado às experiências de doença e morte; provêem suporte
social, emocional e espiritual - conforto, consolo, motivação e esperança -
renovando suas energias e direcionando o comportamento dos familiares durante o
seu estado de adaptação à doença e morte(18).
Eu gostei muito daqueles encontros! Fez muito bem para as pessoas que
estavam lá. Porque, a gente está baixo astral... Ali eu estava
acompanhando a minha mãe e aqueles encontros acabaram, de certo modo,
trazendo muita experiência para a gente. Porque, em algumas vezes,
cada um acabou expondo a sua situação. Sobre a minha mãe mesmo, a
gente fez muita amizade ali naquela casa. Pessoas trouxeram palavras,
as músicas, a letra das músicas, de certo modo ela confortava a
gente. [...] Trouxe momentos de alegria para mim, com certeza,
porque, eu gosto muito de cantar [...] trouxe muita alegria para a
minha alma também. (Sforzando)
Na concepção heideggeriana, o humor é onticamente um existencial fundamental,
que o ser-no-mundo utiliza para se manifestar no mundo(10). "É a condição de
tocar e ser tocado, de poder compartilhar seus sentimentos e, principalmente,
de vivenciar manifestações de alegria ou tristeza"(3). Ou seja, é "o estado e a
integração dos diversos modos de sentir-se, relacionar-se e de todos os
sentimentos, emoções e afetos bem como das limitações e obstáculos que
acompanham essa integração"(11).
Diante da necessidade de falar e ser ouvido, a palavra do outro pode significar
para o ser-no-mundo uma possibilidade de cuidado, haja vista que, por meio da
palavra, os seres expressam sua existencialidade e acolhem a coragem, o consolo
e o ânimo necessários para viver e conviver com o câncer(6). Deste modo,
constata-se que Sforzando alude sobre as palavras de apoio recebidas dos amigos
que conquistara na casa de apoio; o conforto e o bem-estar transmitidos pelas
letras das músicas entoadas nos encontros musicais; o prazer e a alegria de
cantar, alegrando e acalentando sua alma. Evidenciamos que, em seu exílio
efêmero, Sforzando articulou no início do primeiro encontro sua perplexidade
existencial: "vai, faz alguma coisa por nós".
Na meditação heideggeriana, o homem ao estar-no-mundo estabelece relações,
sendo na maioria das vezes absorvido, toma a forma do seu mundo, da realidade
que está vivendo(19). Diante disto distingui-se na fala do depoente, que a
relevância e a contribuição da terapia em grupo neste contexto oportunizam o
compartilhar de experiências com outros seres que vivenciam facticidades
semelhantes, pois constitui um ambiente reflexivo e interativo mediado pela
dialogicidade e escuta sensível(8) Ressaltamos que a música facilita a
expressão de emoções, a comunicação interpessoal, a interação entre os clientes
e a equipe de saúde e o compartilhamento de experiências(15).
Diante do exposto, enfatizamos a relevância destas instituições, uma vez que, a
dor, desfiguração, isolamento social e a iminência da morte fazem parte dos
sentimentos vivenciados pela maioria dos pacientes submetidos a tratamentos
oncológicos e seus familiares(20).
Ressaltamos ainda a importância das casas de apoio que albergam pessoas em
tratamento oncológico e sua família, como lugares que, articulados com
estratégias de cuidado como a música, possibilitam não somente as inúmeras
pessoas darem seguimento a seu tratamento, como também proporciona um
acolhimento autêntico aos familiares que acompanham seu ente querido,
compartilhando momentos de angústias, tristezas e alegrias, principalmente
quando se encontram longe de seus lares.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O encontro mediado pela música promove a abertura do ser para o diálogo e o
vínculo entre enfermeiro, cliente e família, no âmbito dos cuidados paliativos
oncológicos, ampliando as possibilidades de interação entre os sujeitos
envolvidos no processo de cuidar das pessoas que convivem com o câncer e o
tratamento antineoplásico em uma casa de apoio, subsidiando aos familiares
acompanhantes a elaboração de estratégias de enfrentamento e a transcendência
de suas vicissitudes.
Vislumbrando a qualidade de vida e a humanização da assistência de enfermagem à
família, apreendemos que a utilização dos encontros musicais como uma
estratégia de cuidado possibilita a expressão de subjetividades, proporcionando
conforto, reflexão e compreensão diante da possibilidade de morte de um ente
querido. Como trazem a música como principal recurso de abordagem, os encontros
musicais oportunizam o compartilhar de experiências entre pessoas que vivenciam
situações semelhantes no espaço coletivo. Constitui um espaço concreto para
profissionais sensibilizados com a condição destes pacientes e seus familiares,
desenvolvam uma escuta sensível e uma assistência qualificada.
Cabe salientar que, ao possibilitar a co-existência com outros seres, os
encontros musicais permitiram uma aproximação ontológica que revelou como estes
encaram a doença de seu familiar e sua temporalidade na casa de apoio. Nessa
perspectiva, os familiares digeriram a música como uma terapia complementar
multidimensional que influencia no estado de ânimo e humor do ser-doente,
deslembrando temporariamente sua condição existencial; como uma terapia
medicamentosa para o seu sofrimento, que o alimenta espiritualmente, fazendo-
o experienciar a presença de Deus, e assim suportar a dor e a angústia de
presenciar, de modo impotente, o extenuar de seu ente querido e as adversidades
emergentes em sua terminalidade da vida.
Dentre as limitações do estudo, destaca-se o reduzido número de sujeitos, em
virtude do critério de inclusão, necessário para o estabelecimento de vínculo
entre sujeito e pesquisador, bem como sua contextualização no tempo e espaço
das vivências dos sujeitos evidenciados, o que não permite generalizações.
Todavia, acreditamos que os resultados apresentados possam sensibilizar outros
enfermeiros e pesquisadores sobre a importância deste recurso de cuidado, com o
intuito de aprofundar o conhecimento e a reflexão acerca da temática,
demonstrando assim sua relevância para a enfermagem oncológica no contexto dos
cuidados paliativos.