Contribuições de grupos de educação em saúde para o saber de pessoas com
hipertensão
INTRODUÇÃO
Desde sua proposta inicial, o movimento da promoção da saúde, em sua base
conceitual e ideológica, vem investindo na autonomia dos sujeitos em relação ao
seu processo saúde/ doença. O rumo tomado por esse movimento aponta para a
necessidade de reorientar as práticas sanitárias, na tentativa de enfrentar as
desigualdades sociais, estimular a participação da comunidade nas decisões e
planejamento da saúde, envolvendo vários segmentos da sociedade.
A promoção da saúde, sob essa ótica, representa preparar as pessoas para cuidar
de si, por meio de ações educativas, que articulem os significados de saúde e
autonomia. Dessa forma, a educação representa estratégia de excelência para
promover saúde, alcançada a partir da autonomia dos sujeitos para o autocuidado
(1).
A educação encontra-se condensada, basicamente, em duas principais vertentes de
pensamento e ação: Modelo Tradicional e Modelo Dialógico ou Radical(2-3). O
modelo tradicional de educação baseia-se na concepção de saúde do modelo
biomédico e objetiva a prevenção de doenças. As ações educativas são promovidas
numa perspectiva individualista e autoritária, objetivando mudanças
comportamentais por meio de prescrição de condutas saudáveis aos sujeitos(1-3).
Esse modelo pedagógico é definido(4) como ensino bancário, no sentido de que o
"educando recebe passivamente os conhecimentos, tornando-se um depósito do
educador". A eficácia dessa abordagem de educação estaria na quantidade de
informação adquirida pelo educando e não em promover um momento de reflexão
sobre seu contexto de vida.
Já o modelo dialógico(4) ou radical vem ao encontro do movimento da promoção da
saúde(2), cujo ponto de partida é o indivíduo e sua realidade. Sua proposta de
ação baseia-se no desenvolvimento da consciência crítica das pessoas em relação
a seu contexto de vida, a partir de uma relação dialógica entre educador e
educando(4-5), com objetivo de promover a saúde, como subsídio para uma vida
com qualidade. Aposta no trabalho em grupo, na perspectiva de que o ambiente
coletivo facilita a construção de conhecimento, devido ao seu potencial para
promover o diálogo, reflexão e troca de ideias entre os participantes(2,6).
Baseia-se, ainda, no encontro democrático, onde todos, profissionais e
usuários, atuam como iguais, ainda que com papéis diferentes. Pressupõe-se que
o diálogo possibilita tanto o reconhecimento do saber do outro, quanto a
compreensão de seu ponto de vista e, por isso, resulta em saberes produzidos a
partir da (re)leitura da realidade dos envolvidos(4-5).
Embora seja possível agrupar as abordagens de educação nessas duas vertentes
teóricas, as diferenças existentes entre elas, em seu campo prático, ainda não
estão claramente definidas. Muitas vezes, os objetivos de uma se sobrepõem aos
da outra(2), pois esse processo é influenciado pelas concepções de saúde e
educação dos envolvidos, e, ainda, pelas práticas pedagógicas utilizadas. A
principal diferença entre os modelos tradicional e dialógico reside no fato de
que este último objetiva mais a transformação social do que a mudança pessoal
propriamente dita. A partir dessas reflexões, entende-se que a educação em
saúde acontece em um processo complexo que inclui fatores subjetivos e
objetivos, que compõe a realidade sociocultural dos indivíduos.
No contexto da atenção básica, a educação em saúde representa uma das
principais atribuições dos profissionais das equipes de saúde, com destaque ao
processo de trabalho da enfermagem. Justifica-se essa afirmação, uma vez que
"as próprias bases conceituais da enfermagem preconizam a função do enfermeiro
como um educador, afinal não há cuidar sem educar e vice-versa"(7). Nesse
entendimento, o enfermeiro deve ser capaz de analisar criticamente seu papel
como educador, no sentido de identificar se sua ação contribui para a promoção
da consciência crítica dos diferentes grupos socioculturais, no que tange às
potencialidades e fragilidades de seu contexto de vida. Para tanto, essas ações
devem privilegiar a complementaridade dos saberes científico e popular, na
tentativa de construir, coletivamente, um conhecimento contextualizado com a
realidade.
Diante do exposto, objetivou-se conhecer como o saber em saúde é construído por
pessoas com hipertensão acompanhadas por uma equipe de saúde da família.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva. Visualizou-se como adequada
ao objetivo da pesquisa, pois representa a abordagem para analisar a realidade
dos sujeitos, a partir deles mesmos, e compreender as diversas maneiras com que
interpretam suas experiências de vida(8).
Participaram da pesquisa nove pessoas moradoras de uma comunidade assistida por
uma equipe da Estratégia de Saúde da Família (ESF), em um município do sul do
Brasil. Definiram-se como critérios de inclusão: pessoas com diagnóstico de
hipertensão arterial isolada (que não apresentassem cardiopatias ou outra
doença crônica associada), maiores de 18 anos e em acompanhamento com a equipe
da ESF. Foram consideradas pessoas em acompanhamento com a equipe aquelas que
frequentassem o Grupo de Hipertensos e Diabéticos realizado pela equipe da ESF,
e também que mantivessem um controle clínico na unidade, com pelo menos duas
consultas médicas e/ou de enfermagem ao ano, conforme protocolo do Ministério
da Saúde(9). Os sujeitos foram incluídos na pesquisa mediante assinatura do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A coleta de dados se realizou por meio de entrevista semiestruturada e
observação(8). O trabalho de campo foi desenvolvido em três cenários do local
de estudo. O primeiro foram as reuniões do Grupo de Hipertensos e Diabéticos da
ESF, nas quais, por meio da observação, foram selecionados os possíveis
sujeitos da pesquisa. Outro cenário foi a unidade de saúde, que disponibilizou
documentos para a confirmação dos critérios de inclusão dos sujeitos. E o
terceiro cenário foi o domicílio dos sujeitos, onde se realizaram as
entrevistas semiestruturadas e a observação do cotidiano desses usuários e suas
famílias.
A análise dos dados sustentou-se na análise temática, a qual está sistematizada
em três etapas(8): pré-análise; exploração do material; e tratamento dos
resultados obtidos, inferência e interpretação. Nas etapas de pré-analise e
exploração do material, foi utilizado o software Atlas Ti 5.0 (Qualitative
Research and Solutions), para auxiliar na codificação das entrevistas. No
intuito de preservar o anonimato dos sujeitos, adotou-se a denominação S (forma
abreviada de "sujeito") seguida da numeração que correspondia à ordem de
realização das entrevistas.
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade à qual estava vinculado, conforme Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde, de acordo com o Certificado de Apresentação para Apreciação
Ética 0306.0.243.000-08.
RESULTADOS
As definições sobre saúde e doença são construídas ao longo da vida das pessoas
e mediadas por seus saberes e experiências relacionadas a esses constructos.
Dessa forma, a construção desses saberes será influenciada por diversos
elementos presentes no cotidiano das pessoas. Apoiando-se nessa reflexão, ao
serem questionados sobre os elementos presentes na construção do saber em
saúde, todos os sujeitos desta pesquisa indicaram os grupos de educação em
saúde como o espaço mais relevante. Dentro do grupo, apontaram atividades
expositivas/dialogadas, lúdicas e de descontração, como metodologias eficazes
para o processo de ensino-aprendizagem.
Quem me ajudou a entender foi o médico, as enfermeiras ali, a agente
de saúde, que faziam essas reuniões. Ali eu aprendi muitas coisas. E
outras pessoas. Que a gente vai falando, um diz uma coisa, outro diz
outra, e a gente vai raciocinando! Então ajudam a gente a entender.
(S 9, 68 anos)
O grupo foi importante! Tem as explicações, as orientações, tudo para
o bem da pessoa. No grupo a gente se informava como tinha que se
alimentar, ensinavam o que a gente devia comer e o que não devia
comer. Foi muito bom. Boas palestras! [...] Eu fiquei muito bem
informada! (S 8, 65 anos)
O aprendizado sobre saúde foi considerado pelos sujeitos como produto das
explicações e orientações oferecidas pelos profissionais, principalmente, no
Grupo de Hipertensos e Diabéticos realizado pela equipe da ESF. A educação em
saúde é favorecida pelas atividades em grupo, na medida em que essa modalidade
promove o aprofundamento das discussões referentes às questões de saúde,
facilitando a construção coletiva de saberes(10).
No grupo, os sujeitos destacaram como pessoas importantes para a construção do
saber em saúde tanto os profissionais da ESF, pelas explicações
disponibilizadas, quanto os demais participantes, pelas trocas de conhecimentos
e experiências durante as atividades. Essa troca entre os pares reflete a
importância do saber popular no processo de educar em saúde, na medida em que
promove a contextualização da realidade, pautada na valorização das histórias e
das vivências de cada participante(11). Assim, a construção do saber, nessa
perspectiva, se estabelece por meio da interação e comunicação sobre as
diversas experiências e saberes, entre os participantes do grupo, promovendo a
coparticipação de todos no processo de ensino-aprendizagem(12).
As crenças culturais em torno da saúde e doença são elementos integrantes da
capacidade do indivíduo de compreender e atuar sobre sua saúde. O entendimento
dessas questões, por parte da equipe de saúde que desenvolve ações de educação
em saúde, se faz necessária para que as reais necessidades das pessoas sejam
observadas e atendidas por esses profissionais(13).
Assim, o grupo se configura em um espaço de comunhão entre diferentes culturas,
conhecimentos e visões de mundo, no qual cada pessoa se diferencia e se
reconhece no outro, por meio de uma relação dialógica que lhes possibilita
falar, escutar, refletir, questionar e aprender mutuamente. Essa modalidade de
educação em saúde deve superar a simples função de difundir conceitos e
comportamentos considerados corretos, possibilitando problematizar, em uma
discussão horizontal, as situações concretas vivenciadas pelos sujeitos. Como
resultado esperado, essa ação promove o desenvolvimento da conscientização
crítica dos usuários a respeito das potencialidades e fragilidades de sua
realidade, estimulando um posicionamento autônomo na busca por soluções para os
problemas de saúde em âmbito individual e coletivo(4-5,11,14).
A metodologia expositiva, desenvolvida por meio de palestras, foi visualizada
pelos participantes, como estratégia pedagógica eficaz na construção do saber
em saúde. Para a maioria dos sujeitos, representou um fator positivo, senão
determinante para o seu entendimento acerca da hipertensão e demais assuntos
relacionados à saúde.
No entanto, na análise das falas, constataram-se visões e posicionamentos
divergentes sobre a forma com que essa atividade foi efetivada nos encontros do
grupo. Essa divergência referia-se, principalmente, à concepção sobre os papéis
assumidos pelos usuários nesse espaço de educação em saúde:
Fui muitos anos [no grupo] [...] o Dr. V. dava explicação para a
gente. Mostrava as figuras do coração, da circulação passando, do
sangue grosso! Tudo nos slides e nos cartazes [...] Dava os livro
para gente trazer para casa, para olhar, para ler. Muitas senhoras
perguntavam e ele explicava. [...] Bem explicado! Que eu entendi tudo
da hipertensão, foi assim. E a gente aprende tanta coisa mais [...]
Eu gostava de ouvir, de assistir aquelas conversas, de falar. Até
para vocês novinhas, muitas coisas que não sabem, que não passaram,
que não viram. Com as conversas que entende outras coisas diferentes.
(S 6, 78 anos)
A fala acima sugere uma concepção participativa sobre a prática de educação em
saúde, pois se constata a relação estabelecida entre os envolvidos, em que
tanto o profissional como os usuários assumiram posicionamentos ativos no
processo. Predominou o entendimento dos sujeitos de que a proposta dessa
atividade realizada pelo profissional foi estimular a participação deles, para
adotarem papéis de sujeitos na construção dos seus conhecimentos. Ainda, a
metodologia utilizada permitiu envolver os educandos na explicação, por meio
dos recursos empregados, facilitando que os mesmos entrassem na dinâmica de
pensamento do educador. Assim, percebeu-se que o conteúdo parece ter sido
apreendido e compreendido pelos usuários, e não apenas memorizado, como
tradicionalmente acontece.
Nesse contexto, observa-se que, quando o usuário se reconhece como sujeito da
própria educação, o papel do profissional é reconhecido como facilitador do
processo educativo, fato que se torna importante para o posicionamento de
autonomia do sujeito na transformação da sua realidade. O usuário, ao assumir a
construção de seu saber, sente-se mais capacitado para cuidar da sua saúde,
reconhecendo sua responsabilidade frente ao processo saúde/doença. Com isso,
seu objetivo torna-se a busca pela promoção da saúde, descentralizando sua
atenção da doença(11).
A educação em saúde pautada em uma perspectiva dialógica não nega a validade de
momentos explicativos, em que o educador expõe ou fala sobre o objeto. No
entanto, é necessário que os envolvidos mantenham uma postura aberta, curiosa,
indagadora, e não apassivada, enquanto falam ou ouvem. O bom educador é o que
consegue, enquanto explica, envolver o educando no movimento de idas e vindas
de seu pensamento, incitando para que ele compreenda o conteúdo, ao invés de
recebê-lo na íntegra. Então, o processo de ensino-aprendizagem relaciona-se com
o esforço crítico do educador de desvelar a compreensão de algo, e, por parte
do educando, de atuar como sujeito de sua aprendizagem, no desvelamento que o
professor deseja causar(5).
Nesse entendimento, o fato de representar uma atividade predominantemente
expositiva não a descaracteriza de uma ação educativa dialógica. Entende-se
que, mesmo a atividade sendo desenvolvida mais ativamente pelo profissional que
conduziu a explanação, o diálogo entre os envolvidos não foi silenciado por sua
fala. Ao integrar um grupo, os participantes devem ter assegurado seu direito
de expressar sua opinião, seu ponto de vista, ou de manter-se em silêncio. Cada
membro exerce um papel, pois possui uma identidade diferente dos outros, mesmo
com um objetivo grupal comum(6).
Ao contrário da discussão anterior, constatou-se que uma pequena parcela dos
sujeitos demonstrou uma concepção menos participativa sobre as ações de
educação em saúde realizadas no grupo. Mesmo reiterando as palestras como
práticas eficazes de ensino-aprendizagem, esses sujeitos indicaram uma atuação
menos ativa durante o desenvolvimento de atividades dessa natureza.
Olha, essas palestras, como nós temos aqui, é bom que uma ensina
muitas coisas boas para outra. Aquela que sabe explica a verdade e
aquela que está aprendendo, se ela [quem aprende] erra alguma coisa,
ela [quem ensina] tem que chamar a atenção, dizendo "Não é assim!"
[...] Falava mais o doutor. A gente, às vezes, falava uma coisinha,
às vezes não falava nada. Ficava na da gente.[Eu] Ficava só guardando
aquilo que saiu ali, no pensamento e no coração. E alguma coisa que
eu errei, a gente erra às vezes, é humano. Que a gente não sabe tudo.
(S 8, 65 anos)
Os elementos que compõem esse discurso denotam que esse sujeito apresentou um
entendimento de educação em saúde numa perspectiva tradicional, na qual o
profissional, munido do conhecimento científico, prescreve práticas de vida
corretas a serem seguidas(2-3). A educação, sob essa ótica, é uma doação de
saberes dos que se assumem sábios àqueles que julgam nada saber. Os conteúdos
transmitidos são recortes de uma realidade descontextualizada, muitas vezes,
alheios às experiências dos educandos. Essa educação está esvaziada da
realidade, impedindo que o educando receba a experiência do fazer, necessária
para o desenvolvimento da consciência crítica e de autonomia frente às suas
escolhas(15).
Dessa forma, se estabelece uma relação de opressão, em que os profissionais
assumem papéis de opressores e os usuários, de oprimidos. É por essa razão que
a explanação do conteúdo a ser ensinado pelo educador se desenvolve numa
relação prescritiva, pois impõe a opção da consciência opressora à oprimida. O
produto dessa ação será um comportamento também prescritivo, em que o indivíduo
seguirá as pautas estabelecidas pelo profissional(15). Nessa ação, os
indivíduos memorizam os conteúdos transferidos, reproduzindo os discursos dos
profissionais e caracterizando um falso saber.
Entre os participantes do presente estudo, pôde-se perceber que a concepção de
educação em saúde implícita em alguns discursos, relacionava-se à reprodução
dos conteúdos memorizados, principalmente, nas discussões que envolviam os
cuidados que deveriam seguir, diante da condição de indivíduos com hipertensão.
Evidenciou-se uma percepção de menos valia desses participantes, em relação ao
seu conhecimento, frente à legitimidade do conhecimento científico apresentado
pelo profissional. A esse respeito, estudo(7) realizado com profissionais de
uma equipe da ESF revelou que a crença sobre o profissional ser o detentor do
saber e a população vazia de conhecimento ainda é observada no cotidiano dos
serviços de saúde, o que se torna um obstáculo para a realização de ações
educativas numa perspectiva dialógica e problematizadora. Essa percepção
dificulta o desenvolvimento de um processo educativo em que se possibilite a
participação espontânea, autônoma, e a valorização dos diferentes saberes dos
sujeitos envolvidos.
No contexto do Grupo de Hipertensos e Diabéticos, alguns sujeitos citaram
também os momentos de descontração entre os participantes e atividades lúdicas
promovidas pelos profissionais da equipe, como atividades eficazes para a
construção do saber em saúde, e, ainda, que motivam a participação nos
encontros.
É bom a gente sair, ter contato com outras pessoas, conversar, ver
coisas diferentes. Ir aos encontros [...] as reuniões ali, as aulas,
a gente conversa com as enfermeiras. [...] eu gosto é quando sai as
festas do grupo. [...] as jantas, baile. Fomos a Gramado, Canela.
[cidades turísticas no sul do Brasil] [...] Que eu gosto mais! Da
dança do ventre, também. Eu gostei! [...] Não falho uma reunião. (S
5, 73 anos)
[...] esses tempos, elas [enfermeiras] fizeram um bingo. Tinha uns
envelopes, a gente dizia um número e a enfermeira tirava uma
pergunta. Aí a gente ia respondendo o que sabia, e o que a gente não
sabia ela explicava. Eu acho que é uma boa maneira da gente aprender.
[...] Aquela dança do ventre, também, eu achei legal! [...] eu fico
em casa o dia todo, então, me sinto sozinha. Daí, quando tem essas
coisas, eu aproveito para sair. (S 4, 47 anos)
As falas apresentadas reiteram o grupo como espaço de aprendizado e, também, um
meio de lazer e convivência entre os envolvidos. São atividades que promovem o
entretenimento e interação, as quais grande parte dos usuários valorizou como
forma de motivar sua participação nos encontros. Assim, compartilhar ideias,
experiências e aprender mais a respeito de sua condição de saúde são
características fundamentais que estimulam os sujeitos à participação no grupo
(10).
A valorização de ações que promovam recreação e socialização contribui para a
promoção da autoestima e do aprendizado dos sujeitos, mediante o
desenvolvimento das relações sociais. Essas atividades oportunizam, ainda,
compartilhar momentos de lazer, descontração e alegria, valorizando atividades
culturais e potencializando talentos entre os envolvidos(16). Nesse
entendimento, os grupos representam, além de um espaço de educação em saúde,
também uma possibilidade de convívio social entre os participantes.
Como dispositivo de ensino, alguns entrevistados destacaram atividades lúdicas,
exemplificadas pelo "bingo", como método para promover a aprendizagem de uma
forma descontraída. Estas foram visualizadas por eles como atividades que, além
de proporcionar participação ativa dos sujeitos, são mais produtivas em relação
à compreensão dos assuntos abordados. Entende-se que isso ocorre pelo fato de
que a própria metodologia depende do envolvimento dos integrantes. Além disso,
as discussões partem da reflexão e dos conhecimentos dos indivíduos sobre as
temáticas propostas e, por essa razão, estimulam a criatividade e o
posicionamento crítico, pois oportunizam o compartilhar de diferentes opiniões
e visões sobre o mesmo assunto.
A educação é mais autêntica quanto mais desenvolver nos homens sua função
criativa e criadora. Por isso, deve ser "desinibidora" e possibilitar que os
"educandos sejam eles mesmos"(4). Nesse pressuposto, o lúdico atua como um
recurso privilegiado para explorar os significados culturais reconhecidos e
valorizados no contexto dos usuários e, por isso, constitui-se como importante
dispositivo para o desenvolvimento da consciência crítica e da autonomia dos
envolvidos(17).
Os jogos educativos coletivos caracterizam-se como instrumentos de comunicação,
expressão e aprendizado, que favorecem a troca de saberes entre os
participantes, construindo o conhecimento coletivamente. Essas atividades
possibilitam estreitar as relações entre os envolvidos, o que torna o ambiente
mais descontraído, espontâneo e menos normatizado(18). Assim, por preservar
comportamentos espontâneos, dinamizam o diálogo, permitindo aos envolvidos
expressar dúvidas, expectativas e posicionamentos, criando um espaço de
aprendizado agradável e prazeroso.
Cabe destacar que as atividades lúdicas e de descontração desenvolvidas no
grupo foram associadas pelos participantes à figura das enfermeiras da ESF.
Percebeu-se, nos relatos e na observação dos encontros, que essas atividades
oportunizaram a construção de uma relação menos formal entre os usuários e as
enfermeiras, contribuindo para o estabelecimento de vínculo entre os mesmos.
Entende-se que o lúdico situa-se nesse contexto, na medida em que pauta-se na
intencionalidade de produzir relação de reciprocidade, interação e
solidariedade, no qual ambos, enfermeira e usuários, são sujeitos criadores,
capazes de reinventar formas de cuidado(19), portanto, produtores de novos
conhecimentos.
Alguns participantes citaram as conversas informais com pessoas de seu
convívio, como amigos, vizinhos e pessoas da família, como elementos
importantes para a construção do saber em saúde. Percebeu-se que esses
entrevistados associaram essas conversas às informações obtidas nos meios de
comunicação, como espaços complementares de aprendizado, conforme apresentado
nos relatos a seguir:
[...] a gente ouve falar, no próprio grupo, ouve na televisão,
pessoas mesmo conversando. Ouve comentários de pessoa normal mesmo.
Pessoas da família às vezes conversando. [...] Todas as conversas que
a gente tem com as pessoas, sempre aproveita alguma coisa! E saber e
aprender e ter amizade nunca é demais! (S 7, 48 anos)
Com a agente [agente comunitária de saúde], nas visitas e no grupo.
[...] E na televisão ajuda também, que dá [sobre] tratamento,
alimentação. Eu gosto de olhar [programa de televisão], para ver
quais são os alimentos que são bons para quem tem hipertensão [...]
Com as vizinhas, de ouvir falar que é bom... [...] é curiosidade! A
pessoa curiosa tem mais facilidade de aprender as coisas, não é? (S
5, 73 anos)
Ficou explícito, na análise das falas, o posicionamento de curiosidade e busca
por novos conhecimentos, como características comuns a grande parte dos
sujeitos desta pesquisa. É por esse estímulo e disponibilidade para aprender
que esses sujeitos se lançam na busca para transformar antigos saberes,
reconhecendo, na relação dialógica, um espaço de construção de conhecimento.
Esta disponibilidade de buscar novos saberes só é possível quando o homem se
reconhece como um "ser inacabado", que está em "constante busca de ser mais"
(4). É nessa consciência de si como ser inacabado que reside a capacidade, no
indivíduo, de aprender e de não acomodar-se na sua inconclusão(5).
As conversas com pessoas de seu convívio foram apontadas como elemento
importante na busca pelo conhecimento. Nesse sentido, o diálogo refere-se ao
encontro em que se solidarizam o refletir e o agir dos sujeitos, dirigidos à
realidade a ser transformada e humanizada. Por essa razão, não se pode reduzi-
lo a um ato de depositar ideias de uma pessoa para outra, mas trata-se de um
ato de criação, no qual "não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há
homens que, em comunhão buscam saber mais". Além disso, no diálogo, para ser
consolidado como tal, há de se ter a confiança entre os sujeitos e a esperança
nesse encontro. Se esses indivíduos nada esperam do encontro, já não há
diálogo. Torna-se um encontro vazio, improdutível e normativo(15). A análise
das falas conduz à interpretação de que nessas "conversas" consolidou-se um
encontro dialógico, pois, segundo os participantes, foram produzidos novos
conhecimentos, novas experiências e novos ângulos de olhar aquela realidade.
Ao mesmo tempo, percebeu-se que esse diálogo, por ser efetivado entre iguais no
que se refere ao conhecimento prévio, ou seja, pautado no saber popular
adquirido naquele contexto sociocultural, proporcionava um aprendizado mais
aproximado com a realidade vivenciada por eles, do que quando elaborado com
base em informações descontextualizadas e generalizáveis.
Já os meios de comunicação foram apontados pelos participantes de maneira
conjugada com outros meio de educação em saúde, como se, isolados, não fossem
suficientes para mover um processo de ensino-aprendizagem. Isso se deve ao fato
de que as ações educativas veiculadas nesse espaço são construídas com pouca
articulação com o cotidiano de seus espectadores e dos serviços de saúde. Por
essa razão, há de se considerar a importância de articular as mensagens desse
meio de educação com os conhecimentos construídos em experiências localizadas,
como no cotidiano dos serviços de saúde(14).
A influência do saber popular também foi observada como elemento importante na
construção do saber em saúde dos entrevistados. Alguns sujeitos apontaram, como
metodologias de aprendizado, a observação do cotidiano e a sua própria história
de vida.
Eu sei que tem que fazer caminhada, andar. Eu viajo de ônibus e vejo
as pessoas caminhando nas ruas, fazendo caminhada. É muito bom para
saúde isso aí. [...] Se cuidar com alimento, no sal, não exagerar em
alimento, nem em coisa nenhuma. [...] isso eu sei desde criança.
Porque, onde eu me criei, o sal não é alimento, é um tempero. Quanto
menos, melhor! [...] chazinho, também. Aprendi quando era pequeninho,
lá onde me criei. (S 2, 80 anos)
Os elementos apreendidos nesse relato suscitam a valorização, por parte desse
sujeito, de sua experiência de vida na construção do saber em saúde. Na sua
visão, a educação em saúde iniciou-se nos contextos social e familiar,
influenciados tanto pela relação entre seus membros, quanto pelos valores,
crenças e práticas de vida assumidas e reportadas entre eles. Logo, é um
processo iniciado na infância, que acompanha a história dos indivíduos. Como
ferramenta de aprendizagem, os entrevistados apontaram a observação do contexto
sociocultural, destacando a dinâmica de vida das pessoas, ou seja, a forma como
interagem entre si e com o meio em que estão inseridas.
Entende-se que "a leitura do mundo" revela a tarefa assumida pelo indivíduo
como "sujeito no próprio processo de assimilação da inteligência do mundo".
Essa interpretação deve ser considerada como "um ponto de partida para a
compreensão do papel da curiosidade, como um dos impulsos da produção de
conhecimento"(5). Isso representa dizer que a construção do conhecimento dos
sujeitos deve partir da interpretação crítica que eles fazem do seu contexto de
vida.
Nesse caso, constatou-se a atuação desses participantes como autores de seus
conhecimentos, no momento em que conseguiram refletir a sua realidade e, pela
interpretação dos elementos captados nela, construíram o saber em saúde. Não se
pode negar, também, uma sutil influência do saber científico, advindo da
participação nos grupos de educação em saúde, no posicionamento desses
participantes, ao apontarem especificamente tais informações (atividade física
e restrição do sal). Entende-se que a construção do saber partiu da observação
e reflexão crítica da realidade sociocultural - dos conteúdos práticos do saber
popular que esses sujeitos conseguiram associar aos conteúdos científicos
explicados a eles, de forma teórica, nos grupos de educação em saúde. Assim,
tratava-se de um saber prático construído socioculturalmente, sob a influência
de informações científicas, teoricamente ensinadas.
CONCLUSÕES
Constatou-se que a educação em saúde é um processo que se inicia desde a
infância, momento em que são estabelecidas as primeiras concepções acerca do
processo saúde-doença-cuidado, a partir da observação e reflexão sobre as
práticas cotidianas e no contexto familiar. No entanto, é no diálogo e na
convivência com pessoas de seu convívio - familiares, amigos, vizinhos e
profissionais da saúde - que adquire impacto na vida dos indivíduos.
Os grupos de educação em saúde representam um dos principais meios para
construção do saber em saúde, já que permitem a complementaridade dos saberes
científico, do profissional e o saber popular, advindo da experiência cotidiana
dos sujeitos, apreendido no seu contexto sociocultural.
De maneira geral, o aprendizado em saúde foi considerado como resultante da
participação no grupo, sendo as palestras uma metodologia eficaz para o
processo ensino-aprendizagem, na visão dos participantes. No entanto,
identificaram-se divergências em relação às concepções desses sujeitos sobre
essa ação pedagógica, a qual estava articulada com os papéis assumidos pelos
usuários nesse espaço, ou seja, a forma com que se reconhecem como sujeitos ou
objetos da educação em saúde. O grupo foi visualizado também com meio de
convivência e descontração, sendo as atividades lúdicas consideradas ações que
motivam a participação nos encontros e o aprendizado. Por priorizar o diálogo,
essas ações possibilitam partilhar ideias e experiências e, por essa razão,
foram entendidas como ações privilegiadas para a construção do saber em saúde.
Destaca-se que essas atividades foram relacionadas diretamente às enfermeiras
da equipe. Tais ações estreitaram o vínculo entre os participantes do grupo e
as enfermeiras, o que gerou o reconhecimento sobre o trabalho desenvolvido por
elas. As enfermeiras foram visualizadas como profissionais comprometidas em
promover atividades diferenciadas, criativas e, ao mesmo tempo, acolhedoras,
que permitiam romper com uma visão tradicional sobre as ações educativas em
saúde. Isso facilitou a atuação dos participantes como protagonistas dessas
ações.
Frente ao apresentado, pode-se mencionar que a construção do saber em saúde é
influenciada pelas informações científicas acessadas pelos sujeitos,
principalmente em grupos de educação em saúde. No entanto, é no retorno à
realidade socio-cultural que tais informações são reinterpretadas, com base no
saber popular, tendo relação com suas experiências de vida e com suas
percepções sobre o processo saúde-doença-cuidado. Nessa discussão, se
fundamenta a constatação de que, embora vivenciando as mesmas atividades
pedagógicas, as repercussões dessas ações serão efetivadas e percebidas
diferentemente pelos participantes.