Sobrecarga em cuidadores familiares de idosos: associação com características
do idoso e demanda de cuidado
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é um dos fenômenos de maior impacto evidenciado
no cenário mundial. As mudanças demográficas decorrentes do processo de
envelhecimento populacional, ocorridas na contemporaneidade, são acompanhadas
por modificações no perfil de morbimortalidade da população. Nesse processo,
evidencia-se, mais frequentemente, a prevalência de doenças crônicas não
transmissíveis, que atingem, sobretudo, a população idosa e que podem,
eventualmente, comprometer a capacidade funcional desses indivíduos, que passam
a depender de cuidados permanentes(1).
Convém salientar que a dependência do idoso, tanto a de natureza física ou
cognitiva isoladamente, quanto a associação da dependência física e cognitiva,
implicam forte pressão nos sistemas de suporte social, aqui entendidos como
sistemas de cuidado, para atender às necessidades específicas desse grupo.
Vale ressaltar que, na ocasião de algum evento que comprometa a capacidade
funcional do idoso - entendida como limitação da capacidade ou restrição no
desempenho de atividades(2) - na maioria das vezes, é a família, na figura do
cuidador familiar ou informal, que, prioritariamente, assume a responsabilidade
de cuidar do idoso dependente. É oportuno destacar que o cuidador informal pode
ser, além de membro da família, um amigo, um vizinho e um voluntário, sem
formação específica e não remunerado, que cuida do idoso no contexto familiar
(3). Além disso, cabe ressaltar que a necessidade de um membro familiar
participar do processo cuidativo de um idoso decorre mais de uma imposição
circunstancial do que de uma escolha.
Frente a essa realidade, prover cuidados diários para o idoso passa a ser uma
nova e desafiadora tarefa para a família, cujos membros, muitas vezes, assumem
o papel de cuidadores sem preparação, conhecimento ou suporte adequado para o
desempenho de tal função, o que implica prejuízos para a sua qualidade de vida
e para a qualidade do cuidado dispensado(4-5). Ao desempenhar atividades
relacionadas ao bem-estar físico e psicossocial do idoso, o cuidador passa a
ter restrições em relação à própria vida, e isso contribui para o aparecimento
de sobrecarga e de efeitos danosos para sua vida(6).
No Brasil, em particular no estado da Paraíba, há escassez de pesquisas,
especialmente de estudos de bases populacionais, a respeito do fenômeno da
sobrecarga e sua relação com características inerentes ao idoso dependente e ao
cuidador familiar. Assim, visando contribuir para o melhor entendimento dessa
temática, este estudo teve como objetivo estimar a sobrecarga em cuidadores
familiares de idosos dependentes que residem no município de João Pessoa,
Paraíba, e sua relação com as condições de saúde e capacidade funcional do
idoso e com a demanda de cuidado.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo transversal, realizado na zona urbana do município de
João Pessoa, Paraíba, que está inserido na pesquisa "Condições de vida, saúde e
envelhecimento: um estudo comparado", financiada pelo Programa Nacional de
Cooperação Acadêmica (PROCAD/CAPES), numa parceria entre a Universidade Federal
da Paraíba e a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São
Paulo.
A população de base para cálculo amostral compreendeu os idosos, de sessenta
anos ou mais, do município de João Pessoa-PB. Com vistas ao estabelecimento de
quotas representativas dessa população e considerando a diversidade
socioeconômica do município, o processo de amostragem foi probabilístico, por
conglomerados, de duplo estágio. No primeiro estágio, considerou-se o setor
censitário como unidade primária da amostragem. Assim, foram sorteados vinte
setores censitários, com probabilidade proporcional ao número de domicílios,
entre os 617 setores do município. No segundo estágio, visitou-se um número
fixo de domicílios, com a finalidade de garantir a autoponderação amostral, e
sorteou-se a rua e a quadra onde esse processo de busca seria iniciado.
Convém destacar que, após o sorteio dos setores, identificou-se, no mapa
municipal de João Pessoa a localização de cada setor sorteado, incluindo os
bairros que seriam visitados. Posteriormente, houve outro sorteio, em que foram
definidas as ruas que deveriam ser visitadas pelos entrevistadores e
registrados, na folha de arrolamento, o número de idosos residentes e a data da
visita domiciliar para a aplicação do questionário. Por fim, determinaram-se as
equipes que iriam entrevistar os idosos e os cuidadores participantes do estudo
de cada setor censitário. Feitas as entrevistas pré-estabelecidas, nos casos em
que não foi alcançada a densidade amostral proposta, os entrevistadores
continuaram as visitas até conseguir o número desejado de idosos por setor. Os
erros amostrais foram fixados em torno de 10%.
Considerando esses aspectos, fizeram parte do universo do estudo "Condições de
vida, saúde e envelhecimento: um estudo comparado", 240 idosos que viviam na
comunidade, com idade igual ou superior a sessenta anos, de ambos os sexos,
assim como os cuidadores familiares daqueles idosos que apresentavam
comprometimento em sua capacidade funcional para realizar as atividades básicas
da vida diária (ABVD).
Os critérios adotados para a inclusão dos idosos neste estudo foram os
seguintes: idosos que apresentavam algum grau de incapacidade funcional (física
e/ou cognitiva) e que recebiam cuidado por membros familiares. Para a inclusão
dos cuidadores, foram considerados: pessoas de ambos os sexos, que não recebiam
remuneração pela provisão de cuidado e que eram membro da família do idoso.
Considerando esses critérios, fizeram parte da amostra 52 idosos e seus
respectivos cuidadores familiares, que formaram a totalidade de idosos que
evidenciavam incapacidade funcional (parcial ou total), bem como dos cuidadores
da população envolvida na referida pesquisa.
A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas domiciliares com os
idosos e seus cuidadores, no período de abril a junho de 2011, seguindo o
sentido horário dos setores sorteados. Para colher os dados dos cuidadores, foi
utilizado questionário semiestruturado que contemplava a Escala Burden
Interview(7), adaptada e validada no Brasil(8), para estimar a prevalência da
sobrecarga, e questões para mensurar o suporte ao cuidador na provisão de
cuidado aos idosos. No concernente à coleta de dados relativa aos idosos,
utilizou-se, também, questionário semiestruturado envolvendo a escala do
Miniexame do Estado Mental (MEEM)(9) e o Índice de Katz(10), para avaliar a
capacidade funcional física e cognitiva, além de questões referentes aos
problemas de saúde autorreferidos ou relatados pelos cuidadores familiares.
Foram obedecidos os seguintes escores da Escala Burden Interview para avaliar e
classificar a sobrecarga entre os cuidadores: sobrecarga intensa (escore entre
61 e 88), sobrecarga de moderada a severa (escores entre 41 e 60), sobrecarga
de moderada a leve (escores entre 21 e 40) e ausência de sobrecarga (escores
inferiores a 21)(11-12).
Para a análise estatística dos dados, foi utilizado o aplicativo SPSS
(Statistical Package for the Social Science) for Windows, versão 15.0. A
descrição das variáveis foi realizada calculando-se as medidas de distribuição
(média, desvio-padrão, frequência absoluta e relativa). Na etapa da análise
confirmatória, para as variáveis qualitativas, foi aplicado o teste Qui-
quadrado de Pearson (χ2) ou teste Exato de Fisher. Para as variáveis
quantitativas, empregou-se a Análise de Variância (ANOVA) ou o teste de Mann-
Whitney e, para verificar a correlação entre essas variáveis, o teste de
Pearson ou o teste não paramétrico de Spearman. Foi considerado um nível de
significância de 5%.
Quanto aos procedimentos éticos, o projeto da macropesquisa à qual o estudo
está vinculado foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do
Hospital Universitário Lauro Wanderley (Protocolo 679/10). Os participantes
foram informados sobre os seus objetivos, o desenvolvimento e a forma de
divulgação dos resultados. Além disso, tiveram garantidos o anonimato, o
respeito, o sigilo das informações e a liberdade de desistir de participar da
pesquisa em qualquer uma de suas fases. Firmou-se a aquiescência dos idosos em
participar do estudo com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido.
RESULTADOS
De todos os idosos investigados, a maior prevalência foi do sexo feminino
(55,8%), com faixa etária de oitenta anos ou mais (51,9%), média de idade entre
75 e 79 anos, viúvos (40,4%) e aposentados (88,5%). No que se refere às
condições de saúde, os problemas mais frequentes referidos foram: hipertensão
arterial (52,9%); doença neurológica (51%); visão prejudicada (46,8%);
incontinência urinária ou fecal (40%); audição prejudicada (38,5%); constipação
(36,5%); artrite (35,3%); ansiedade (25,5%); problemas de coluna (25,5%);
diabetes mellitus (25%); derrame cerebral (25%); osteoporose (18,4%); doença
cardíaca (15,7%); doença gastrointestinal alta (15,7%) e depressão (14%). Vale
destacar que 55,7% dos idosos apresentaram cinco ou mais morbidades associadas.
Após a aplicação da escala do Miniexame do Estado Mental(9) entre os idosos
investigados, verificou-se que 36 (69,23%) deles evidenciavam déficit
cognitivo, com média (desvio-padrão) de 9,51 (10,29). Foi verificada correlação
estatisticamente significativa entre o pior desempenho cognitivo e a idade
avançada do idoso (p=0,038).
Ainda no concernente à avaliação da capacidade funcional dos idosos, os dados
referentes ao seu desempenho funcional, na realização das ABVD, mensurado a
partir das seis funções propostas pelo Índice de Katz(10) (tomar banho, vestir-
se, fazer higiene pessoal, transferir-se, ter continência e alimentar-se)
demonstraram que 48,1% eram dependentes em todas as seis atividades. Desse
grupo, 68% eram do sexo feminino, 68% estavam na faixa etária de oitenta anos
ou mais de idade, e 48% eram viúvos. Houve associação estatisticamente
significativa entre a idade e o nível de capacidade funcional do idoso
(p=0,022).
Entre os cuidadores familiares participantes do estudo, vale salientar que a
maioria era do sexo feminino (96,2%), filhos(as) do idoso (50%), casados(as)
(60,8%), com uma média de 52,6 anos de idade. Em relação ao suporte ou ajuda na
provisão do cuidado, a maioria dos cuidadores (38,4%) obteve ajuda mais
significativa para a atividade relacionada ao retorno do idoso às consultas.
Entre os cuidadores que não tinham suporte, verificou-se maior déficit de ajuda
para as atividades referentes aos cuidados com a pele (37%), às eliminações
(35%) e à higiene corporal (35%).
No que diz respeito ao fenômeno da sobrecarga, principal desfecho do estudo,
foi possível averiguar, mediante a aplicação da Escala Burden Interview(7), uma
prevalência entre os cuidadores equivalente a 84,6%. A média total de
sobrecarga do cuidador familiar foi de 31,0 pontos. Considerando os níveis de
sobrecarga, identificou-se que 32 (61,5%) dos cuidadores familiares
evidenciavam sobrecarga moderada a leve, 12 (23,1%) expressavam sobrecarga
moderada a severa, e oito (15,4%) não apresentaram sobrecarga.
Quanto à relação entre a sobrecarga dos cuidadores familiares e as condições
clínicas e funcionais dos idosos, verificaram-se maiores médias de sobrecarga
entre os que dispensavam cuidados aos idosos com maior número de comorbidades
(32,34) e que apresentavam déficit cognitivo (31,72). Do mesmo modo, tanto
maior o nível de dependência do idoso no desempenho das ABVD, maior a média de
sobrecarga entre os cuidadores. Foi identificada associação estatisticamente
significativa entre maior sobrecarga e maior dependência do idoso para o
desempenho da atividade de alimentar-se (p=0,04), conforme evidencia a Tabela
1.
Tabela 1 - Associação entre incapacidade funcional para as ABVDs dos idosos
dependentes e a sobrecarga dos cuidadores familiares, considerando as
categorias ordinais da Escala de Sobrecarga de Zarit, João Pessoa-PB, 2011
Sobrecarga (n=52)
Atividades básicas Ausência de Sobrecarga Sobrecarga Média da sobrecarga p-
sobrecarga moderada a moderada a (DP) valor
leve severa
Banho
Não recebe assistência; 1 8 3 31,17 (10,97)
Assistência para uma parte do corpo; 1 7 2 32,70 (13,46) 0,855
Não toma banho sozinho. 6 17 7 30,37 (10,94)
Vestuário
Veste-se sem assistência; 4 4 2 28,10 (12,94)
Assistência para amarrar os sapatos; 1 3 0 21,00 (4,32) 0,089
Assistência para vestir-se. 3 25 10 32,82 (10,78)
Higiene pessoal
Vai ao banheiro sem assistência; 3 7 3 27,69 (11,44)
Recebe assistência para ir ao banheiro; 2 17 6 34,00 (11,43) 0,178
Não vai ao banheiro para eliminações 3 8 3 28,71 (10,08)
fisiológicas.
Transferência
Deita, levanta e senta sem assistência; 3 8 6 33,71 (14,64)
Deita, levanta e senta com assistência; 2 12 3 30,47 (9,56) 0,454
Não levanta da cama. 3 12 3 28,94 (8,98)
Continência
Controle esfincteriano completo; 3 7 3 29,23 (14,29)
Acidentes ocasionais; 2 18 5 32,72 (9,72) 0,578
Supervisão, incontinente. 3 7 4 29,57 (11,12)
Alimentação
Sem assistência; 3 7 2 25,85 (9,98)
Assistência para cortar carne ou pão; 2 17 7 34,92 (11,90) 0,04
Com assistência, ou sondas, ou fluidos 3 8 3 28,79 (10,27)
EV
No que se refere à relação entre a sobrecarga do cuidador familiar e o suporte
para o cuidado com o idoso (Tabela_2), houve correlação estatisticamente
significativa entre a média de sobrecarga do cuidador e a falta de ajuda para
as seguintes atividades: higiene corporal (p=0,035), higiene oral (p= 0,022),
medicação (p=0,004) e lazer (0,008).
Tabela 2 - Distribuição relativa ao suporte ou ajuda na provisão de cuidado aos
idosos dependentes, segundo as médias de sobrecarga entre os cuidadores
familiares, João Pessoa-PB, 2011
Ajuda para cuidar do Idoso (n=52)
Atividade Não Às vezes Sempre/Quase sempre Não se aplica p-
valor
n (%) Média Sobrecarga n (%) Média Sobrecarga n (%) Média Sobrecarga n (%) Média Sobrecarga
(DP) (DP) (DP) (DP)
Higiene 18 34,00 (3,00) 13 34,87 (2,78) 20 25,22 (1,83) 1 - 0,035
corporal (35%) (25%) (38%) (2%)
Higiene oral 17 31,64 (2,51) 13 35,81 (2,28) 22 22,50 (1,72) - - 0,022
(33%) (25%) (42%)
Eliminações 18 31,91 (2,62) 12 33,89 (2,40) 21 23,44 (1,89) 1(2%) - 0,111
(35%) (23%) (40%)
Cuidados com 19 33,48 (2,58) 9 31,56 (2,69) 23 26,08 (2,75) 1 - 0,339
a pele (37%) (17%) (44%) (2%)
Alimentação 15 31,60 (2,72) 18 34,94 (2,53) 18 24,85 (2,39) 1 - 0,098
(29%) (35%) (35%) (2%)
Medicação 6 33,36 (2,54) 6 34,53 (2,51) 32 22,38 (1,70) 8 - 0,004
(12%) (12%) (62%) (15%)
Sono e 15 31,87 (2,18) 20 34,85 (2,81) 15 21,88 (1,83) 2 - 0,067
repouso (29%) (38%) (29%) (4%)
Atividade 16 34,06 (2,00) 10 30,50 (3,80) 25 23,50 (1,76) 1 24,75 (4,26) 0,052
física (31%) (19%) (48%) (2%)
Lazer 13 34,20 (1,78) 8 31,00 (4,32) 30 20,60 (2,16) - 33,67 (9,38) 0,008
(25%) (15%) (58%)
Serviço de 6 33,69 (1,95) 8 30,00 (3,50) 32 23,13 (3,85) 6 28,17 (4,89) 0,101
fisioterapia (12%) (15%) (62%) (12%)
Retorno às 9 31,07 (3,05) 10 37,00 (2,64) 30 27,00 (2,35) 3 25,50 (2,50) 0,059
consultas (17%) (19%) (58%) (6%)
DISCUSSÃO
A média total de sobrecarga do cuidador familiar, na presente pesquisa, foi
semelhante à de outros estudos que tiveram como propósito avaliar esse fenômeno
entre os cuidadores(12-14). Cuidar de idosos dependentes pode causar impacto
emocional e sobrecarga para os cuidadores. Esse impacto ou sobrecarga é
definido como problemas físicos, psicológicos ou emocionais, sociais e
financeiros que essas pessoas apresentam por cuidar de idosos doentes(15).
Considerando isso, grande parte das pesquisas desenvolvidas tanto no âmbito
nacional quanto no contexto internacional, tem realçado os efeitos negativos do
processo de cuidar de um idoso dependente, relacionados à alta incidência de
sobrecarga entre os cuidadores familiares, que se refletem em maior prevalência
de doenças psiquiátricas, mais uso de drogas psicotrópicas, maior número de
doenças somáticas, isolamento social, estresse pessoal e familiar, alterações
na dinâmica familiar e de sua vida social e sentimentos de ter que cumprir uma
obrigação onerosa e causadora de tensão(16-17).
Diversos fatores se articulam para determinar os sentimentos que serão
desencadeados no indivíduo ao assumir o papel de cuidador, com destaque para os
relacionados ao próprio idoso, como, por exemplo, sua condição de saúde, o seu
grau de dependência física e/ou cognitiva, além da demanda de cuidado para o
cuidador - suporte ou déficit de suporte.
Conforme já mencionado ao longo desta abordagem, evidenciou-se maior sobrecarga
entre os cuidadores que auxiliavam idosos que evidenciavam cinco ou mais
morbidades, o que gera importantes implicações sobre a funcionalidade e o nível
de dependência do idoso e, por conseguinte, sobre a demanda de cuidado para o
cuidador. Quanto ao nível de funcionalidade, verificaram-se maiores médias de
sobrecarga entre os cuidadores que prestavam cuidados aos idosos com déficit
cognitivo, de acordo com a escala do Miniexame do Estado Mental, e os que
apresentavam maiores níveis de dependência no desempenho das atividades da vida
diária.
No processo de cuidar do idoso com déficit cognitivo, o cuidador familiar
depara-se com vários desafios, tais como dificuldade para lidar com os quadros
de agitação e de agressividade que ele apresenta; com a deambulação constante,
especialmente noturna, provocada pelas alterações nos hábitos de sono e
repouso; com os esquecimentos; com a repetitividade e as solicitações
constantes; com a falta de etiqueta à mesa e no trato social e com os
comportamentos bizarros(18).
Estudos brasileiros verificaram que as alterações advindas das áreas cognitivas
do idoso, especialmente referentes à sua comunicação e às alterações
comportamentais, acarretaram impacto negativo na vida de cuidadores por
tensionar suas relações tanto com o receptor de cuidados quanto com os demais
membros da família(6),(19).Além do déficit cognitivo do idoso, a sua
incapacidade física também ocasiona maior demanda para o cuidador, e isso
contribui para o acometimento da sobrecarga entre esses indivíduos.
No âmbito deste estudo, constatou-se que quanto maior era o nível de
dependência do idoso no desempenho das atividades básicas, maior a média de
sobrecarga entre os cuidadores. Analisando essa dependência dos idosos,
considerando o seu desempenho na realização de atividades específicas, o estudo
mostrou associação estatisticamente significativa entre a sobrecarga dos
cuidadores e a maior necessidade de assistência do idoso na alimentação (p-
valor 0,004).
Vale salientar que a perda da capacidade de executar as atividades básicas da
vida diária por parte do idoso obedece a uma ordem crescente de dificuldade,
que começa pelo banho, seguidos do vestuário, da higienização, da locomoção, da
continência e, por fim, da alimentação. Assim, associada à inabilidade para a
atividade de alimentar-se, o idoso apresenta, também, incapacidade para
desempenhar outras atividades (tomar banho, vestir-se etc.), o que implica mais
demanda de cuidado para os cuidadores familiares e, consequentemente, maior
probabilidade de incidência de sobrecarga entre eles.
Há que se enfatizar que, com o passar do tempo, as ações de cuidado com o
idoso, como higiene, conforto, alimentação, entre outras, tornam-se repetitivas
e desenvolvem no cuidador familiar cansaço físico e mental. Nesse contexto, ele
passa a necessitar de ajuda de outros indivíduos tanto para desenvolver as
atividades de cuidado requeridas pelo idoso quanto para si próprio,
especialmente para se desvencilhar temporariamente desse papel e promover o
autocuidado.
No presente estudo, conforme expressa a Tabela_2, houve associação
estatisticamente significativa entre maior a média da sobrecarga do cuidador e
o déficit de suporte para a provisão do cuidado com o idoso, no que tange às
seguintes atividades: fazer a higiene corporal (p-valor 0,035) e a higiene oral
do idoso (p-valor 0,022), administrar medicação (p-valor 0,004) e promover-lhe
lazer(p-valor 0,008). Na ausência de cooperação, especialmente de outros
membros da família, o cuidado prestado pelo cuidador familiar, comumente,
representa ônus, caracterizado, especialmente, por sentimento de insatisfação,
insegurança, angústia e aprisionamento ao papel(20).
CONCLUSÃO
Os resultados da pesquisa elucidam alta prevalência de sobrecarga entre os
cuidadores familiares de idosos dependentes, a qual teve como determinantes
múltiplos fatores passíveis de serem modificados com a implementação de
assistência social e de saúde, de modo que atenda às necessidades específicas
desses indivíduos, assim como daqueles que recebem seus cuidados.
Considerando esses achados, ressalta-se que, no âmbito do sistema de saúde, é
sobremaneira importante que os enfermeiros e demais profissionais envolvidos
nesse sistema possam propiciar intervenções que visem à melhoria das condições
de saúde e funcionais do idoso, bem como suporte formal aos cuidadores
familiares engajados no atendimento das necessidades básicas dos que são
dependentes.
Enfim, salienta-se que os cuidadores familiares de idosos devem ter garantidas,
além da assistência à saúde, condições ideais para o desenvolvimento do
autocuidado, de modo que estes não sejam conduzidos a um "ciclo de
negligência", que, por sua vez, poderá levá-los a uma condição de dependência
semelhante à do idoso e, desse modo, a necessidade de um novo cuidador para
ambos.