Acidentes de trabalho com material biológico ocorridos em municípios de Minas
Gerais
INTRODUÇÃO
Os acidentes de trabalho com exposição a material biológico são frequentes
entre os trabalhadores de da saúde no mundo inteiro devido às peculiaridades
dos procedimentos realizados no cuidado a saúde das pessoas e as condições em
que o trabalho é executado.
Entre os diversos patógenos passíveis de serem adquiridos na ocasião dos
acidentes destacam-se os vírus da imunodeficiência humana (HIV) e os vírus das
hepatites B (HBV) e C (HCV), que possuem maior significância epidemiológica no
contexto dos acidentes ocupacionais com materiais biológicos. Estima-se que o
risco de aquisição ocupacional do HIV seja de um caso a cada 300 exposições
percutâneas a sangue contaminado; o risco de infecção do vírus da hepatite B
varia de 6,0% a 30,0%, podendo chegar a 60,0%; já no caso do vírus HCV, a
exposição percutânea a sangue contaminado é de 1,8%(1-3).
Exposições que podem colocar o profissional em risco para infecção são as
percutâneas (ocasionadas por objetos perfurantes ou cortantes); contato de
mucosa ou pele não íntegra a sangue ou outros fluidos potencialmente
contaminados(4), como sêmen, secreção vaginal, líquor e líquidos sinovial,
pleural, peritoneal, pericárdico e amniótico. Os fluidos orgânicos
potencialmente não infectantes são: suor, lágrima, fezes, urina e saliva desde
que não estejam contaminados com sangue(5).
Considerando a necessidade de se dispor de dados de forma mais sistemática para
orientar as ações de vigilância das doenças e agravos à saúde do trabalhador no
Brasil, os casos de acidentes com exposição a material biológico passaram a ser
notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) por meio
da Portaria nº 777/GM de 28 de abril de 2004. Esta Portaria foi revogada e os
agravos nela contidos foram incluídos na Portaria nº 2.472, de 31 de agosto de
2010 que, por sua vez, foi revogada pela Portaria nº 104 de 25 de janeiro de
2011, que define a relação de doenças, agravos e eventos em saúde pública de
notificação compulsória no território nacional(6).
A Norma Regulamentadora 32 (NR32), instituída por meio da Portaria nº 485 de
2005, traça as diretrizes para a proteção à saúde dos trabalhadores dos
serviços de saúde. Entre outras disposições, esta determina que lhes sejam
assegurados materiais perfurocortantes com dispositivo de segurança(7). Seguida
a esta, foi editada a Portaria nº 939 de 2008, que trata do cronograma para o
cumprimento das normas contidas na NR 32. Passados cerca de três anos, esta
Portaria foi revogada pela Portaria nº 1.748 de agosto de 2011, que altera a
redação do item 32.2.4.16 da NR 32(8). Ela define melhor os termos utilizados e
trata do Plano de Prevenção de Riscos de Acidentes com Materiais
Perfurocortantes.
Outrossim, o esforço empreendido por meio das Portarias 485/2005 e 939/2008 que
tratam respectivamente, da necessidade de fornecimento de material
perfurocortante com dispositivo de segurança e do cronograma para a
substituição daquele sem dispositivo de segurança, foi flexibilizado pela
Portaria n.º 1.748, de 30 de setembro de 2011, que estabeleceu que tal material
deve ser adotado "quando existente, disponível e tecnicamente possível".
O uso das precauções padrão é uma eficaz medida na prevenção dos acidentes de
trabalho com exposição a material biológico. O uso de equipamentos de proteção
e o manejo adequado dos resíduos dos serviços de saúde são parte dessas
recomendações mundialmente estabelecidas. Dentre outras medidas preventivas
destaca-se a profilaxia, pré-exposição da Hepatite B por meio de vacina e/ou
imunoglobulina, no entanto, não existem vacinas para a Hepatite C. A redução do
risco de infecção depende também da conduta adequada após a ocorrência do
acidente, incluindo o uso da profilaxia pós-exposição (PPE) para a prevenção da
contaminação pelo HIV. Estima-se que a PPE reduz a soroconversão em 81,0%(1).
Embora o SINAN já tenha sido implantado no Brasil há alguns anos, ainda são
escassos os estudos publicados que analisam os seus registros buscando
subisidiar ações preventivas a ocorrência dessas injúrias.
Valin & Marziale analisaram a ocorrência e as caracteristicas da exposição
ocupacional a material biológicos em instituições de saúde de um município do
interior de São Paulo, por meio de consulta ao SINAN e arquivos do Centro de
Referência de Saúde do Trabalhador Regional de São João da Boa Vista - SP no
biênio 2008-2009 e encontraram registros de 85 acidentes ocorridos entre
trabalhadores da equipe de enfermagem (73,4%); estudantes de enfermagem (8,2%);
médicos (7,1%) e trabalhadores do service de limpeza (7,0%) e que o principal
motivo da ocorrência dos acidentes foi o descarte inadequado de materiais
perfurocortantes. Em 20,0% dos casos registrados os trabalhadores utilizaram a
quimioprofilaxia pós exposição(9).
Diante do contexto ora apresentado, o objetivo deste artigo foi identificar o
perfil dos acidentes com exposição a material biológico ocorridos na região Sul
do estado de Minas Gerais, registrados no Sistema de Informação de Agravos de
Notificação.
METODOLOGIA
Estudo descritivo, transversal de abordagem quantitativa dos dados, realizado
por meio de consulta ao SINAN, no período de janeiro de 2007 a maio de 2011, em
uma região de saúde do Estado de Minas Gerais. Esta região é composta por 50
municípios que fazem parte da área de abrangência de uma Superintendência
Regional de Saúde (SRS), pertencente à macrorregião sul do estado de Minas
Gerais, com uma população total de 848.262 habitantes. Esta região é dividida
em cinco microrregiões de saúde, que possuem serviço de assistência
especializada em HIV/AIDS (SAE) em seu município sede e compõem, portanto, a
rede de biossegurança. Quando ocorre um acidente, as vítimas são encaminhadas
para o município de referência da microrregião, considerado porta de entrada
para os acidentados, local onde são traçadas as condutas de acordo com o tipo
de acidente, além do acompanhamento subsequente no ambulatório de infectologia.
As cinco microrregiões de saúde foram identificadas neste estudo como: micro
01, com cinco municípios e 183.803 habitantes; micro 02, com cinco municípios e
120.384 habitantes; micro 03, com seis municípios e 123.868 habitantes; micro
04, com vinte e quatro municípios e 250.451 habitantes; e micro 05, com dez
municípios e 169.756 habitantes.
Para fins de notificação e investigação, define-se acidente de trabalho com
exposição a material biológico como sendo "as exposições envolvendo sangue e
outros fluidos orgânicos, ocorridos com os profissionais da área de saúde
durante o desenvolvimento do seu trabalho, onde os mesmos estão expostos a
materiais biológicos potencialmente contaminados"(5).
Para fins de análise, foi considerado o conceito ampliado de trabalhadores da
saúde, que inclui aqueles que atuam indiretamente, em atividades em que há
risco de exposição a sangue e a outros materiais biológicos, e também os que
prestam assistência domiciliar e atendimento pré-hospitalar, além das ações de
resgate realizadas por bombeiros ou outros profissionais(10).
As variáveis analisadas foram: idade; sexo; município de notificação; município
de ocorrência; ocupação; tipo de material; situação vacinal do acidentado; tipo
de exposição; material orgânico; fonte identificada; sorologia da fonte;
soroconversão do acidentado; evolução do caso, tempo de trabalho na ocupação.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade José do
Rosário Vellano - UNIFENAS, sob protocolo número 41/2011.
RESULTADOS
No período analisado foram notificados, no SINANnet, 460 casos de acidentes de
trabalho com exposição a material biológico. Dezessete casos (3,7%) foram
excluídos da análise, devido a inconsistências. A média e mediana de idade dos
acidentados foi de 36 e 33 anos, respectivamente.
Entre os 460 casos, 333 (72,4%) eram mulheres e 127 (27,6%) homens. A maioria
dos acidentados se auto-referiu como sendo da cor branca (N= 335/72, 8%) e,
conforme apresentado na tabela_1, a maior parcela possuía o ensino médio
completo (N=149/32,4%).
Tabela 1 Distribuição dos acidentes segundo escolaridade, 2007-2011. Minas
Gerais, 2011.
Escolaridade n %
Total 460 100,0
analfabeto 1 0,2
1a a 4a série incompleta (EF*) 22 4,8
4a série incompleta (EF*) 11 2,4
5a a 8a série incompleta (EF*) 26 5,7
ensino fundamental completo (1° grau)20 4,3
ensino médio incompleto (2° grau) 11 2,4
ensino médio completo (2° grau) 149 32,4
superior incompleto 26 5,7
superior completo 105 22,8
ignorado 52 11,3
não preenchido 25 5,4
não se aplica 12 2,6
*Ensino fundamental.
As notificações feitas entre 2007 e 2011, tanto pelos SAE da rede de
biossegurança como por outros municípios foram agrupados por microrregião de
saúde. Observou-se que a microrregião dois concentra a maioria das notificações
(N=198/49,7%), sendo também a que demonstrou maior trabalho em rede, pois cerca
de 43,9% dos acidentados residiam na sede do SAE, enquanto 56,1%, nos demais
municípios de sua área de abrangência. Nas demais microrregiões, quase a
totalidade dos casos por elas notificados eram residentes no município-sede
(Gráfico_1).
Gráfico 1 Notificações de acidentes com material biológico por microrregião de
saúde, 2007-2011. Minas Gerais, 2011.
Uma das informações importantes para auxiliar na identificação do risco e
delineamento de propostas de intervenção é conhecer o local onde ocorreu o
acidente, pois sabe-se que a avaliação pelo município de residência ou de
notificação nem sempre corresponde ao local de ocorrência. O dado mais preciso
neste caso seria o município onde se localiza a empresa que o profissional
executa suas atividades. No entanto, percebe-se que em 41,3% (N=190) dos casos
este dado não foi informado. Na microrregião que mais notificou casos de
acidentes (N=198), esse dado foi informado em apenas 13% (b=26) deles.
A distribuição dos acidentados, segundo a Classificação Brasileira de
Ocupações, está apresentada na Tabela_2. Quase metade dos acidentes ocorreu
entre os auxiliares e técnicos de enfermagem (n=215/46,7%), seguida por
enfermeiros (n=37/8,0%) e médicos (n=32/7,0%). Quando agrupadas, as ocupações
relacionadas a higiene, limpeza, garis e catadores de materiais para reciclagem
respondem por 12,4% (n=57) dos acidentes. Na categoria "outros" foram agrupadas
as ocupações que não se relacionam com a área de saúde, sendo atividades que
habitualmente não envolvem contato com pacientes, sangue ou outros fluidos
corporais, tais como advogado, cabeleireira, dona de casa, pedagogo,
profissional da agropecuária.
Tabela 2 Distribuição dos acidentes segundo ocupação, 2007-2011. Minas Gerais,
2011.
Ocupação ?n %
Total 460 100,0
Administrativo 13 2,8
Agente comunitário de saúde 5 1,1
Catador de material reciclável 3 0,7
Enfermeiro 37 8,0
Estudante 20 4,3
Farmacêutico / bioquímico 5 1,1
Fisioterapeuta 4 0,9
Gari 24 5,2
Higiene e limpeza 30 6,5
Médico 32 7,0
Odontólogo 18 3,9
Policial 9 2,0
Técnico / auxiliar de enfermagem 215 46,7
Técnicos de laboratório 19 4,1
Outros 25 5,4
Ignorada 1 0,2
A maioria dos registros informava que os profissionais estavam na ocupação há
um ano ou mais (n=233/49,3%). No entanto, verifica-se uma elevada frequência de
não preenchimento do campo (n=131/27,7%). Entre os trabalhadores que estavam há
mais de um ano na ocupação, 29 (12,4%) estavam há um ano, seguidos por dois
anos (n=19/8,1%). O maior tempo de trabalho foi de 32 anos (n=01) e o menor,
uma hora (n=02).
Entre as circunstancias, destacam-se aqueles acidentes que ocorreram em virtude
do descarte inadequado de material perfurocortante (n=91/29,7%) seja em saco de
lixo (n=54/11,7%) ou em bancada, cama, chão, entre outros locais (n=37/8,0%).
Cerca de 8,0% (n=37) ocorreu durante a administração de medicação endovenosa e
7,2% durante administração de medicação intramuscular. Pode-se verificar que 47
(10,2%) casos foram registrados no campo "outros" da ficha de notificação,
porém, sem especificação da circunstância. Vinte casos (4,3%) não tiveram este
campo preenchido, número superior ao campo ignorado (n=8/1,7%).
A maioria das exposições ocorreu pela via percutânea (n=381/82,3%), seguidas
por pele íntegra (N=178/38,4%) e pele não íntegra (n=23/5,0%).
O material orgânico que predominante foi o sangue (N=340/73,9%), no entanto,
foi observada uma frequência substancial entre "ignorado" (9,6%) e ausência no
preenchimento deste item (7,2%). A categoria "outros" respondeu por 29 casos
(6,3%). A esta categoria foram incluídos casos unitários de acidentes
envolvendo líquor, líquido amniótico, ascítico, pleural e soro/plasma.
O agente, ou o instrumento que estava sendo manipulado no momento em que
ocorreu a maioria dos acidentes foi a agulha com lúmen (N=311/67,6%), seguida
de outros agentes (N=52/11,3%), agulha sem lúmen (N=39/8,5%) e 4,3% não tiveram
este campo preenchido.
Observou-se que ainda há um percentual considerável de profissionais de saúde
que estão constantemente expostos ao risco por não estarem imunizados para a
Hepatite B.
Entre os acidentados, 14% (n=65) referiu não possuir o esquema completo com
três doses da vacina contra a Hepatite B (Tabela_3). A soma dos dados ignorados
e não preenchidas chega a 58 (12,5%).
Tabela 3 Esquema completo de imunização para hepatite B segundo ocupação, 2007-
2011. Minas Gerais, 2011.
Imunização
Ocupação Sim Não IGN* Não PreenchidoTotal
n % n % n % n %
Administrativo 10 2,2 0 0,0 1 0,2 0 0,0 11
Policial 6 1,3 2 0,4 1 0,2 - 0,0 9
Biólogo - 0,0 - 0,0 - 0,0 1 0,2 1
Médico 27 5,9 2 0,4 1 0,2 2 0,4 32
Dentista 14 3,0 2 0,4 1 0,2 1 0,2 18
Farmacêutico 3 0,7 2 0,4 - 0,0 - 0,0 5
Enfermeiro 34 7,4 - 0,0 1 0,2 2 0,4 37
Fisioterapeuta 3 0,7 1 0,2 - 0,0 - 0,0 4
Higiene e limpeza 14 3,0 10 2,2 5 1,1 2 0,4 31
Auxiliar e técnico de enfermagem 173 37,6 20 4,3 11 2,4 11 2,4 215
Auxiliar e técnico de laboratóri10 2,2 3 0,7 0 0,0 0 0,0 13
Auxiliar de prótese dentária 6 1,3 - 0,0 - 0,0 - 0,0 6
Gari 9 2,0 11 2,4 3 0,7 1 0,2 24
Agente comunitário de saúde 3 0,7 - 0,0 2 0,4 - 0,0 5
Catador de material reciclável 2 0,4 - 0,0 1 0,2 - 0,0 3
Ignorada - 0,0 - 0,0 - 0,0 1 0,2 1
Estudante 15 3,3 3 0,7 1 0,2 1 0,2 20
Outros 9 2,0 9 2,0 5 1,1 2 0,4 25
Total 338 73,5 65 14,1 33 7,2 24 5,2 460
Entre os acidentados, o maior percentual de não vacinados foi o de técnicos e
auxiliares de enfermagem (n=20/4,3) seguidos pelos profissionais de higiene e
limpeza (n=10/2,2%) e garis (n=11/2,4%).
Na maioria dos acidentes registrados, o paciente-fonte foi identificado (n=313/
68,0%). Em 26,7% deles a fonte era desconhecida (n=123), 1,7% (N=8) ignorada e
3,5% (n=16) não preenchidos.
Nos casos em que se conhecia a fonte, a maioria delas apresentou sorologia não
reagente para as três doenças infecciosas consideradas no acidente. A maior
prevalência de resultado reagente foi para o HIV (n=17/8%), que foi a sorologia
mais realizada (n=212), provavelmente pela disponibilidade do teste rápido.
Entre os demais exames realizados verificou-se que o HBsAg foi reagente em 1,0%
dos casos (n=2/159 realizados); 6% (n=8/128) para anti-HBc e 3% (n=5/175) para
o anti-HCV.
A soma entre os campos sorologia não realizada, informação ignorada e falta de
preenchimento chega a 35,9% para o HIV; 47,6% para HBsAg; 54,1% para anti-HBc e
42,0% para anti-HCV.
Nas condutas adotadas diante dos acidentes, a quimioprofilaxia para a prevenção
das doenças de transmissão sanguínea foi indicada em 28,7% dos casos (n=133) e
o esquema mais utilizado para a prevenção do HIV foi o composto por zidovudina
e lamivudina (AZT + 3TC), conforme apresentado na Tabela_4.
Tabela 4 Condutas adotadas na ocorrência do acidente, 2007-2011. Minas Gerais,
2011.
Conduta Sim Não IGN* NP**
n % n % n % n %
Indicação de quimioprofilaxi133 28,7 215 46,4 40 8,6 75 16,2
Recusou quimioprofilaxia 3 0,6 199 43,0 51 11,0 210 45,4
AZT+3TC 69 14,9 143 30,9 45 9,7 206 44,5
AZT+3TC + indinavir 27 5,8 171 36,9 49 10,6 216 46,7
AZT+3TC + nelfinavir 1 0,2 194 41,9 49 10,6 219 47,3
HBIG*** 11 2,4 187 40,4 49 10,6 216 46,7
Vacina contra hepatite B 37 8,0 159 34,3 50 10,8 217 46,9
Outro ARV**** 11 2,4 179 38,7 47 10,2 226 48,8
*ignorado
**não preenchido
***Imunoglobulina humana contra Hepatite B
****ARV- antirretroviral
Constatou-se que 15% dos acidentados não possuíam esquema completo de vacinação
para hepatite B, no entanto, a prescrição de vacina e imunoglobulina foi
inferior à necessidade dos mesmos, 8,0% e 2,4%, respectivamente. Pode-se
verificar que a soma entre os casos ignorados e não preenchidos, na maioria dos
campos, chega a ser superior ao número de casos onde foi assinalado "sim" ou
"não".
Quanto ao uso de equipamentos de proteção individual, verificou-se que em 35,7%
(n=164) dos acidentes as luvas não estavam sendo utilizadas no momento da
ocorrência. O avental não foi utilizado em 72% dos casos. Frequências
igualmente elevadas foram encontradas também para o não uso de óculos (83,0%),
máscara (78,9%) e proteção facial (88,3%).
Observou-se que 22,6% dos casos foram encerrados como ignorados (n=104) e 25,4%
(n=117) das notificações não tiveram este campo preenchido; Portanto, em 221
(48,0%) casos não é possível conhecer o desfecho do acidente. Entre os
acidentados, 30,4% (n=140) tiveram alta, pois a sorologia da fonte foi
considerada negativa.
Destaca-se que, dentre o total de acidentados, 13 (2,8%) evoluíram para
conversão sorológica; desses, 11 (84,6%) foram registrados na micro 01, e dois
casos na micro 04 (15,4%). Não foi informada que infecção foi adquirida. No
entanto, é interessante observar que, dentre os casos em que a fonte era
conhecida (n=313), 17 (5,4) apresentaram sorologia positiva para HIV, oito
(2,5%) para anti-HBC, dois (0,6%) HBsAg e cinco (1,6%) para Hepatite C. Entre
esses, somente um caso apresentou simultaneamente HBsAg e anti-HIV positivos;
um caso apresentou HBsAg e anti-HBC positivos e sete anti-HBC positivos e HBsAg
negativo, portanto, oito potenciais transmissores do vírus da Hepatite B. Ao
todo, 28 pacientes-fonte conferiam risco de transmissão.
Verificou-se um alto percentual de registros de soroconversão, 13 acidentados
em 29 casos de fonte com sorologia positiva, ou 44,8%.
O formulário de Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT) foi preenchido em
51,3% dos casos notificados (n=236). No entanto, verifica-se um percentual
elevado de desconhecimento desta informação (n=161/35%).
DISCUSSÃO
Neste estudo, a maioria dos acidentados era do sexo feminino, maior contingente
de trabalhadores nas duas categorias profissionais que mais tiveram casos
notificados: técnicos/auxiliares de enfermagem e auxiliares de serviços gerais
(limpeza). Resultado semelhante foi obtido em estudo conduzido na cidade de
Londrina, com uma amostra de 253 notificações de acidentes de trabalho, sendo
73,5% ocorridos com mulheres, auxiliares de enfermagem (39,5%) e auxiliares de
serviços gerais (13%)(11).
Em estudo desenvolvido em um hospital universitário de Brasília nos anos de
2003 e 2004, foram registrados 107 acidentes de trabalho com exposição a
material biológico ocorridos predominantemente entre mulheres (83,3%)(12). Em
oposição, um estudo realizado em um Hospital Universitário na Índia mostrou que
53,2% dos 557 acidentes registrados entre 2003 e 2005, ocorreram com pessoas do
sexo masculino(13). Neste estudo, as categorias que mais relataram acidentes
foram estagiários (53,1%) e residentes (22,8%).
A média e mediana de idade dos acidentados (36 e 33 anos) são semelhantes
àquelas encontradas estudos conduzidos por outros autores(14). O sangue foi o
material biológico predominante, concordando com os resultados obtidos nos
estudos conduzidos no Brasil e Venezuela(14-16).
Entre os cinco municípios que são referência para os acidentados de suas
regiões, somente um deles demonstrou, por meio das notificações, o trabalho
efetivo em rede. Os demais apresentaram um número pequeno de notificações que
nos permite inferir que estejam ocorrendo subnotificações.
Verificou-se que a maioria dos acidentes ocorreu entre profissionais da área de
enfermagem (54,8%), limpeza (13,0%) e médicos (6,2%). A categoria de auxiliares
e técnicos de enfermagem é a mais exposta a risco biológico, assim observado
por estudos conduzidos no Distrito Federal e Rio de Janeiro(12-14). Isso ocorre
também pelo maior tempo de contato daqueles com os pacientes e a realização de
maior número de procedimentos invasivos. Uma série de peculiaridades está
ligada à profissão de enfermagem conferindo maiores riscos de acidentes como: o
desenho dos materiais que nem sempre oferecem segurança, o comportamento
individual, a forma de organização e as condições de trabalho(17).
No entanto, existem diferenças entre as atividades realizadas e os serviços,
como por exemplo, as exposições ocorridas em clínicas e centros cirúrgicos que
geralmente acometem predominantemente os profissionais médicos. Em um estudo em
Madrid nos anos de 1996 a 2000, foi evidenciado que médicos estavam envolvidos
em 51,4% das exposições ocupacionais, ocorridas em unidades cirúrgicas e
notificadas ao sistema de vigilância EPINETAC (Exposure Prevention Information
Network)(18).
Como a incidência de acidentes de trabalho foi maior entre os auxiliares e
técnicos de enfermagem, a escolaridade predominante foi o segundo grau
completo. Porém, os trabalhadores de nível superior foram responsáveis pela
segunda maior parcela de acidentados.
O descarte inadequado de material perfurocortante em sacos de lixo ou em
bancada, cama, chão, dentre outros locais, foi a principal circunstância de
ocorrência do acidente percutâneo. Os grandes problemas geradores do descarte
inapropriado desses materiais são: coletores improvisados pela falta de
dispositivos adequados, localizados distantes dos pontos de realização de
procedimentos, disposição dos resíduos acima da capacidade recomendada e
presença de agulhas e outros perfurocortantes dispostos fora dos recipientes,
conferindo risco aumentado de acidentes(19).
Em relação à vacinação, observou-se que 73,5% dos profissionais estavam com
esquema completo de vacina contra Hepatite B. Por meio de revisão bibliográfica
realizada no Brasil, entre os anos de 1999 a 2006, a porcentagem de esquema
vacinal completo para Hepatite B entre os profissionais variou entre 35,4 e 90%
e, em apenas 57% dos estudos houve registros acima de 70,0%(17). Porém,
considerando a relevância da Hepatite B como doença ocupacional entre os
profissionais de saúde, a gratuidade (desde 1996) da imunoprevenção e a
possibilidade da não conversão (anti-HBs > 10mUI/mL) com apenas três doses, a
situação apresentada no presente estudo torna-se preocupante.
Registrou-se elevado percentual de soroconverão, porém, não foi informada qual
infecção foi adquirida. No entanto, quando se considera o vírus HIV, este dado
é superior ao estimado na literatura, que é de uma contaminação a cada 300
exposições percutâneas com sangue contaminado com o vírus HIV(1).
O uso de luvas confere algum efeito de proteção aos acidentes. Vários são os
fatores que interferem na gravidade da exposição como o tamanho da agulha e a
profundidade de penetração que estão diretamente associadas com o volume de
transferência sanguínea, além da titulação viral do sangue fonte. O material
das luvas pode reduzir cerca de 46% a 86% do volume de sangue transferido,
contribuindo para redução de riscos(20). Não é possível verificar, nesse
estudo, os motivos pelos quais em 35,7% dos acidentes analisados os
profissionais não utilizaram as luvas, mas, evidencia-se a necessidade de ações
de incentivo ao uso de todos os equipamentos de proteção individual indicados
para os procedimentos.
A gestão de riscos, além de obrigatória(7), tem como objetivo conferir proteção
aos trabalhadores reduzindo a frequência e a gravidade dos acidentes. Para
tanto, é necessário o conhecimento das circunstâncias relacionadas com as
exposições a partir do desenvolvimento de sistemas de vigilância adequados.
CONCLUSÃO
Apesar dos esforços no sentido de elaboração de políticas de proteção à saúde
do trabalhador, cuja expressão mais atual se dá com a Norma Regulamentadora 32
(NR32), os resultados desta pesquisa revelam que ainda há falhas no que
concerne à vigilância aos trabalhadores no contexto dos acidentes com exposição
a materiais biológicos, uma vez que embora a ocorrência não apresente números
alarmantes, a qualidade dos registros apresentados nos leva a inferir que nem
todos os casos estão sendo registrados.
Verificou-se uma lacuna no preenchimento das fichas; muitos campos não foram
preenchidos, ou, quando foram, constava a informação "ignorada". Este é um
instrumento importante para que se possam delinear ações de prevenção e a perda
de dados compromete a atividade de vigilância. Para elevar a qualidade dos
registros é importante que a notificação seja preenchida na ocasião do
atendimento do acidentado, para que não haja perda de informações.
Constatou-se que muitos acidentes ocorreram em função do descarte inadequado de
materiais perfurocortantes, o que expõe os diversos profissionais, inclusive do
serviço de limpeza e de coleta de resíduos, ao risco de acidentes e a exposição
a materiais biológicos contaminados.
Na ocasião do acidente, uma parcela considerável dos trabalhadores não estava
com o esquema completo de vacinação contra o vírus da Hepatite B. Faz-se
necessário que os serviços de saúde monitorem a imunização dos funcionários uma
vez que, entre as três infecções abordadas, a Hepatite B é a única
imunoprevenível.
A notificação em âmbito nacional dos acidentes com exposição a material
biológico constitui uma relevante ação para implementação de estratégias de
prevenção e controle nessa área. A análise e divulgação desses dados contribuem
para adoção de medidas de controle, supervisão de cumprimento das recomendações
nacionais e internacionais de controle e prevenção de acidentes de trabalho com
exposição a material biológico e possibilita a avaliação da eficácia,
efetividade e eficiência das ações empregadas em cada uma das instituições de
saúde dos municípios cujos dados foram analisados nesta pesquisa.
Os resultados obtidos contribuem para o avanço do conhecimento cientifico na
área de Saúde do Trabalhador e motiva a realização de novas pesquisas.