Crianças e adolescentes com câncer em cuidados paliativos: experiência de
familiares
INTRODUÇÃO
Apesar dos progressos no processo diagnóstico e terapêutico em oncologia
pediátrica, hoje ainda se observa, em alguns casos, a incurabilidade do câncer,
fato este que justifica a assistência paliativa como foco fundamental do
cuidado em saúde. Isto porque o diagnóstico tardio do câncer tem influência nos
índices de sobrevida, complementado pela demora da procura por assistência à
saúde, bem como pela precariedade dos serviços de saúde(1).
Em 1998, a World Health Organization apresentou uma definição específica para
cuidados paliativos pediátricos, ou seja, a ação do cuidar ativo e total a
criança, em sua dimensão biopsicossocial e espiritual, desde o início do
diagnóstico da doença, aliviando o sofrimento físico, psicológico, social e
espiritual, bem como oferecendo suporte familiar. Incluiu, assim, a família e
os recursos da comunidade no cuidado da criança em instituições terciárias,
centros de saúde e em suas residências(2). Entretanto, considerando que as
necessidades biopsicossociais progridem com o agravo da patologia, de forma
quase inconsciente os cuidados paliativos são direcionados para o processo de
morte e morrer, ou seja, o cuidado ao final da vida.
Crianças e adolescentes com câncer e seus familiares enfrentam diversas
situações com o agravamento da doença como: prognósticos incertos, negação à
aproximação da morte e o fim das possibilidades de cura e tempo curto entre os
sinais de incurabilidade e a morte(3). Diante desse contexto, a criança, o
adolescente e sua família necessitam de uma abordagem de atenção à saúde, cujo
foco seja a qualidade de vida e de morte.
Estudo nacional de revisão da literatura em oncologia pediátrica assinala, como
desafio no âmbito da pesquisa e assistência multiprofissional, a prevenção e os
cuidados paliativos. Um dos aspectos ressaltados no estudo é que o cuidado em
oncologia requer da equipe de saúde uma prática resolutiva, seja qual for a
situação de doença das crianças e dos adolescentes, com desdobramentos na
dinâmica familiar, propondo que sejam revistas as ações assistenciais e
práticas no cuidar em oncologia pediátrica(4).
Diante das diversas temáticas pesquisadas em cuidados paliativos, observa-se
escassez de estudos na área de cuidados paliativos pediátricos e hebiátricos,
sobretudo aqueles relacionados às abordagens qualitativas com famílias, os
quais contemplam a subjetividade e a experiência dos sujeitos. Assim, o
presente estudo tem por objetivo investigar a experiência dos familiares no
cuidar de crianças e adolescentes com câncer, em cuidados paliativos,
particularmente nos cuidados ao final da vida.
ABORDAGEM METODOLÓGICA
Estudo de natureza descritiva e exploratória, utilizando análise qualitativa
dos dados, realizado no Setor de Onco-Hematologia Pediátrica do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo (HCFMRP/USP).
Foram propostos os seguintes critérios de inclusão para os participantes: ter
sido o familiar cuidador de uma criança ou adolescente com câncer, cujo óbito
tenha ocorrido entre julho de 2010 e dezembro de 2011, inseridos ou não no
protocolo de cuidados paliativos dessa instituição, independente do grau de
parentesco, sexo ou idade, e ser residente no estado de São Paulo.
Das 18 famílias que preencheram os critérios de inclusão, 14 participaram do
estudo, sendo que, em 2 delas, foram entrevistados dois cuidadores. Das quatro
famílias que não participaram, uma não foi encontrada após insistentes ligações
e houve três recusas.
As características das crianças e adolescentes e dos familiares participantes
do estudo podem ser observadas na Tabela_1.
Tabela 1 Caracterização das crianças, dos adolescentes e dos familiares.
Ribeirão Preto, 2011.
Criança/ Idade Idade à época do Familiar Data da Duração da entrevista (em
Adolescente ao Diagnóstico diagnóstico entrevistado entrevista minutos)
morrer
A1 18 Meduloblastoma 3 anos Mãe 30.07.2011 130
anos
A2 13 Leucemia 3 anos Mãe 13.08.2011 75
anos Linfoide Aguda
A3 13 Linfoma não- 7 anos Mãe 03.09.2011 90
anos Hodgkin
C4 10 Meduloblastoma 1 ano Mãe 03.09.2011 40
anos
C5 3 anos Neuroblastoma 2 anos Mãe 29.10.2011 60
C6 1 ano Tumor de Seio 1 ano Mãe e Avó 12.11.2011 60
Endodérmico
C7 5 anos Rabdomiossarcoma 3 anos Mãe 25.11.2011 90
C8 2 anos Tumor de Sistema 3 meses Avó 25.11.2011 70
Nervoso Central
C9 1 ano Angiossarcoma 4 meses Mãe 21.01.2012 110
C10 4 Leucemia 3 meses Mãe e Tia 25.01.2012 60
meses Linfoide Aguda
A11 18 Rabdomiossarcoma 16 anos Mãe 25.01.2012 50
anos
A12 15 Leucemia 15 anos Mãe 26.02.2012 60
anos Mieloide Aguda
C13 7 Leucemia 6 meses Mãe 26.01.2012 60
meses Linfoide Aguda
A14 17 Histiocitose 17 anos Mãe 27.01.2012 60
anos
Anteriormente à data marcada para a entrevista, recorreu-se aos prontuários
para conhecer a história da enfermidade. A coleta de dados foi iniciada com a
elaboração do genograma e ecomapa para conhecer a organização familiar e a
história da família relativa ao cuidado à criança e ao adolescente com câncer
na fase final da vida. Posteriormente foi realizada a entrevista elaborada em
duas partes: uma inicial, com a identificação das famílias e, outra, com
questões diretivas. A entrevista foi realizada no domicilio, tendo apenas um
caso na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo,
gravadas mediante autorização dos participantes.
Para análise dos dados optou-se por trabalhar compreensivamente o conjunto dos
conteúdos e enunciados, empregando a análise de conteúdo. Essa técnica
compreende a análise dos dados a partir do material empírico, permitindo a
inferência de sentidos e organização em temas(5).
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP), sob
protocolo no 1325/2011, e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HCFMRP/USP. Foi
elaborado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) sendo solicitado
a anuência mediante assinatura do termo para aqueles que concordaram em
participar. Foi autorizada ainda pela instituição onde foi realizada a pesquisa
a dispensa do TCLE para análise de prontuários dos participantes do estudo. Em
respeito ao anonimato, os participantes foram identificados por letras e
números.
RESULTADOS
O material empírico foi organizado ao redor de três temas: "O impacto do
agravamento da doença na dinâmina familiar", "Comunicação de más notícias" e "A
vivência da família diante dos cuidados paliativos".
O impacto do agravamento da doença na dinâmica familiar
Um aspecto comum a todas as entrevistas foi a retomada do momento do
diagnóstico do câncer e, desde então, a preocupação com o processo de
agravamento da doença e com a morte. Os participantes manifestaram sentimentos
de sofrimento, preocupação, dor e medo, acompanhados da constante esperança de
cura.
[...] A hora que me deram o diagnóstico, eu fiquei desesperada,
porque eles não deixaram A2 ficar comigo. Eles deram o diagnóstico e
falaram que era para nós virmos para a casa e depois na segunda-feira
retornar ao campus que lá eles iriam fazer exames mais detalhados
[...] para mim o teto daquele lugar caiu na minha cabeça aquele dia,
porque até então eu não tinha noção do que era Leucemia [...] eu já
tinha escutado falar (da Leucemia) em adulto, mas de criança não, a
maioria das pessoas não sabiam que isso dava em criança. (M2)
[...] Mas eu sempre tinha esperança de que ele iria sair, que ele
iria voltar a se movimentar, iria falar. Em nenhum momento passou que
ele iria morrer, foi uma surpresa a morte dele, porque eu sempre
tinha esperança de um milagre. (M14)
No período de agravamento da doença, os cuidadores referiram que foram,
sobretudo, os sinais e sintomas apresentados pela criança e adolescentes que os
levaram a perceber as complicações decorrentes da evolução do câncer e a
possibilidade de morte.
[...] Eu fui vendo essas mudanças assim na C5, mas a perninha, ao
invés de melhorar, começou a piorar o movimento dela sabe? o jeitinho
dela andar, ela andava de motoca, ela não conseguia pedalar, ela ia
com o pezinho. (V8)
A recidiva da doença também foi outro fator importante associado ao agravamento
do câncer. A percepção da mãe, relacionando os sinais e sintomas que sugeriram
a volta do câncer, foi diretamente ligada à piora do prognóstico e medo da
morte.
[...] Eu percebi um caroçinho no pescoço e eu falei, não acredito que
aquela doença maldita tinha se espalhado, ai eu levei [...] Ele
estava ficando inquieto, só que eu falava, assim, para a minha mãe,
mãe o C5 está ficando muito inquieto, eu falava eu acho que ele está
sentindo dor, eu estou com medo, e ela, filha está mesmo; ele sentava
para assistir o desenho, levantava, não aguentava ficar sentado,
encostava a cabeça no braço do sofá, levantava, deitava e eu falava:
filho você está sentindo dor? E ele: é... Então eu dava remédio. (M5)
A participação contínua da família no processo de adoecimento foi permeada por
sentimentos de sofrimento e solidão. A doação da família mostrou-se crescente,
com interrupção das demandas individuais em prol do cuidar exclusivo da criança
ou do adolescente enfermo.
[...] Eu abandonei tudo, foram os últimos nove meses de
quimioterapia, internada, foram nove meses intensos. (M3)
Foi muito difícil porque eu tive que aguentar muita coisa [...]
Então, se tinha que chorar, eu chorava no cantinho, sozinha, eu não
desabafava com ninguém, fui agüentando. (V8)
Em decorrência da dedicação do membro familiar ao cuidado da criança e do
adolescente, dedicação requerida pela dependência, a mãe explicou sentir
necessidade da presença da família, da equipe e de pessoas próximas para poder
dividir os momentos de sofrimento, angústias e tristezas. Esses relatos
estiveram presentes principalmente na fase final de vida da criança e do
adolescente, quando a percepção de luta para a cura da doença já não era mais o
foco do cuidado.
Um dia [...] eu acabei falando que eu não aguentava mais ficar
sozinha aqui no Hospital das Clínicas [...] Até uma das minhas irmãs
foi passar a noite comigo. (M2)
Diante do agravamento do câncer e da progressão das dependências, as famílias
necessitaram de reestruturação e organização para o cuidado da criança e do
adolescente na fase final da vida, recaindo a maior sobrecarga no cuidador
principal, na maioria das vezes, a mãe; o pai, as avós ou o filho mais velho
ficaram responsáveis pelo sustento e cuidados com os outros membros da família.
Eu aqui (no hospital), minha mãe vinha uma vez na semana, porque ela
tinha que ir embora, a minha filha mais velha vivia de congelados, só
microondas e o meu filho mais novo ficava na casa do pai, da avó e da
tia [...] Quando o meu filho mais novo queria ficar em casa, minha
mãe dormia com ele. Mas a minha filha amadureceu muito, cuidava da
casa, de tudo, dormia sozinha, ela tinha 14 ano e eu tinha muita
confiança nela. (M7)
O suporte foi oferecido para o cuidador e para a família em diversas ocasiões,
do diagnóstico ao período de luto, por amigos, familiares e pela igreja,
conforme os relatos abaixo.
Apoio eu sempre tive, no hospital, na igreja, na família, se não são
os amigos nessas horas não sabemos o que fazer. Todos vinham aqui,
conversavam [...] Sempre tem as pessoas que ajudam, como eu parei de
trabalhar as pessoas sempre doavam alguma coisa para ela, então nunca
faltou nada para ela, nem para mim. As pessoas sempre cuidaram muito
bem de nós, faltava dinheiro, o vizinho chegava e dava. O apoio era
geral, era muito bom. (M12)
Durante as entrevistas, a fé e a crença religiosa e espiritual se destacaram
entre os apoios mais importantes e necessários no enfrentamento do processo de
adoecimento e morte. Os depoimentos expressaram a presença constante da fé e
crença religiosa como forma de apoio, força e aceitação da morte.
[...] Se fosse para ela ser minha, tudo bem, mas se não fosse, para
tomar uma previdência, que ela segurasse na mão de Deus e fosse
embora, não aguentava mais vê-la naquela situação. (M6)
Nós tínhamos muita fé em Deus, que na última hora Deus iria tirar
tudo aquilo e foi assim até o dia de morrer. (M11)
Comunicação de más notícias
A evolução da doença oncológica conduz, de certa forma, quase que naturalmente
à assistência voltada aos princípios dos cuidados paliativos, incluindo a
participação ativa da família no cuidado à criança e ao adolescente.
Nos relatos dos cuidadores, em todo o percurso do processo de doença, a
comunicação entre a equipe de saúde e a família mostrou-se confusa, ambígua ou
não realizada quando dizia respeito ao agravamento da doença, impossibilidades
de tratamento curativo e proximidade da morte.
[...] Ele falou assim: é o seguinte, a C8, é assim, ela tem um tumor
tipo uma esponja mais firme e esse é tipo uma bolha e a qualquer
momento ela pode dormir novamente. E eu estava tão passada, que só
depois fui entender o que era dormir, que ela iria entrar em coma
novamente, e foi onde ela entrou em coma e veio a óbito [...] não,
para mim não foi clara a conversa, porque se ele chegasse em mim e
falasse: olha avó o que está acontecendo com a C8 é o seguinte,
apareceu outro tumor e é esse tumor que está provocando tudo e não
tem jeito mais. (V8)
Observamos que as famílias tinham necessidade de receber informações reais e
objetivas sobre as condições de saúde da criança e adolescente. Às vezes, mesmo
despreparada e com medo, ela deseja conhecer o prognóstico. A comunicação
adequada pode auxiliar na preparação para a perda e aceitação da morte.
[...] Eu queria ter a conversa, mais ao mesmo tempo eu tinha medo.
Você vê uma filha ali, que gostava de brincar, conversar, sem falar,
sem comer, sem andar. (M1)
Na tentativa de preservar a criança e o adolescente do sofrimento que as
informações do agravamento da doença e possibilidade de morte poderiam causar,
as mães verbalizaram que a comunicação deveria ser realizada somente entre a
equipe e a família.
Foi muito difícil, porque às vezes me decepcionei com os médicos
porque não aceitavamos eles falarem que não tinha mais jeito, não
queria que eles falassem daquele jeito para a A11, mas iria falar de
que jeito? Olha, é assim mesmo A11, não tem mais jeito para tirar a
água da barriga. Isso machucava muito ela e me machucava também,
então eu preferia que os médicos não falassem, mas dizem que é por
lei explicar tudo para a pessoa. Mas penso que quando pegamos uma
fase, igual à de A11, que era uma adolescente, não deveria ser assim,
para a família tudo bem, mas para a pessoa que está doente podia ser
mais restrito [...] Podem ter magoado pelo jeito que explicaram,
deviam ter mais delicadeza e um jeitinho mais carinhoso, por que doe
demais. (M11)
A conversa entre a mãe e os outros membros da família foi relatada enquanto
apoio e modo de compartilhar o sofrimento, tendo ocorrido, principalmente,
entre os membros mais próximos da família como os pais, filhos e o marido.
Com o C4 não, mas com a minha família toda sim, minha mãe sabia, meus
filhos sabiam, eu sempre fui muito franca com eles [...] A conversa
foi tranquila, a irmã chorou muito, porque na verdade ela é meia irmã
de C7 e o meu outro filho era o verdadeiro irmão de C7 e a irmã
brigavam de mais com C7. Eles viram tanto sofrimento, que eles não
aguentavam mais ver o C7 sofrer. Então para eles a morte do C7 foi um
alívio das dores. (M7)
A vivência da família diante dos cuidados paliativos
Neste estudo a maior parte dos participantes referiu ter sido informada sobre a
inclusão das crianças e dos adolescentes nos cuidados paliativos, no entanto, a
família como um todo não foi participada.
O significado dos cuidados paliativos foi descrito, por algumas mães, como a
ausência do tratamento curativo e alívio dos sintomas. Entretanto, a maioria
dos relatos mostrou que alguns princípios dos cuidados paliativos foram
apreendidos apenas de modo parcial, não indicando a participação e inclusão
gradual da família e da criança e do adolescente na terapêutica paliativista,
muitas vezes entendida como "não ter mais nada para fazer".
Não sei esse termo de cuidados paliativos. (M5)
Quando descobri que o tratamento dela iria ser paliativo, que não
poderia fazer mais nada, foi difícil [...] foi difícil a conversa
porque era uma decisão deles sobre o tratamento paliativo. (M12)
Diante dos cuidados paliativos, a família vivenciou experiências relativas às
necessidades da criança e do adolescente. Dentre as necessidades físicas
identificadas destacaram a falta de apetite e, principalmente, à dor.
Tínhamos que comprar coisa diferente, porque ela não comia, não
queria comer, ficava muito pálida, emagrecia bastante. (M1)
[...] Um dia eu estava conversando com a Dra B., pouco antes do
final, e ela falou assim: mãe, uma coisa eu te prometo, que a hora
que chegar a hora do C7 ele não vai ter dor e o que o C7 mais teve
foi dor. (M7)
Além dos aspectos físicos, as necessidades psicológicas e emocionais foram
mencionadas como importantes.
Ela chamava muito e uma noite amarraram ela [...] Quando eu cheguei
de manhã ela falou: mãe, me amarraram, porque eu queria você. (M2)
Algumas mães relataram que o filho manifestou desejo de ir para casa e ficar
com seus familiares, no espaço da vida cotidiana.
[...] Era ela que não queria mais ficar em Ribeirão [...] até a
última vez que eu a levei, perguntei se ela queria internar e ela
falou que não, chorando ali no colo e não internou, aceitei a vontade
dela. (M6)
Ao mesmo tempo, a família sentiu-se mais confortável quando o sofrimento da
criança ou do adolescente foi minimizado. Assim, a possibilidade do manejo e
controle da dor e de outros sintomas no ambiente hospitalar é vista enquanto
disponibilidade de mais recursos, influenciando a decisão do ambiente
hospitalar ser o local de morte, assim como ocorreu nesse estudo.
[...] às vezes eu falo assim, e se não tivesse levado, será que ela
tinha morrido aqui? [...] É duro você ver uma pessoa morrendo e não
poder fazer nada, aqui eles não põem a mão também e lá quando eu vi
que ela estava morrendo, eles ficavam junto, ela ficou com o
aparelhinho na boca até o último momento, não tiraram nada, só quando
ela fechou o olhinho mesmo e faleceu mesmo, enquanto ela estava dando
um suspiro a máscara estava nela, e se fosse aqui, ela iria morrer as
míngua, e o que eu iria fazer, iria ser pior ainda. (M6)
Os últimos momentos de vida da criança e adolescente com câncer foram
descritos, por alguns dos participantes, como sendo de maneira suave e
tranquila, com a presença da família. Nesse instante, também estiveram
fortemente presentes nos depoimentos a crença religiosa e espiritual e a equipe
de saúde, como conforto e ajuda.
Tive um envolvimento muito grande com a L. (médica) por causa da
religião, minha irmã é católica, eu espírita e minha outra filha
evangélica, ai ficou uma coisa eclética, ai eu perguntei para a L. se
ela sabia fazer a prece de caritas, ela falou que sabia, então eu
pedi para ela fazer. Todo mundo fechou os olhos, fizemos a oração,
então eles perguntaram se eu queria ver preparar ela, eu falei que
não, mas assim, todo mundo ficou bem, tudo tranquilo, mas, falei para
a psicóloga que foi até estranho, mas na hora eu senti no quarto uma
coisa bonita, uma alegria, não era uma coisa triste entendeu, por ser
aquele momento, era uma coisa, assim, que nossa foi bonito. (M3)
DISCUSSÃO
Este estudo identificou que o processo de adoecimento da criança e do
adolescente é vivido intensamente pela família, representado, sobretudo, pelo
sentimento de esperança, medo da morte, desespero, culpa, negação e revolta. A
família enfrenta múltiplas mudanças diante do diagnóstico do câncer, alterações
relacionadas aos aspectos físicos, psicológicos e financeiros e, em particular,
o desequilíbrio no convívio social e familiar interligado à sobrecarga do
familiar cuidador(6).
A morte quase sempre é repelida pelos pais, entretanto esse momento é um dos
mais críticos. Com a aproximação da morte e a vivência, no âmbito hospitalar,
de mortes de pacientes e ou companheiros, com a mesma idade e doença, a
possibilidade da finitude e o desenvolvimento de uma consciência de morte
passam a existir de forma real nos pensamentos da família(7).
Da mesma forma que pesquisas recentes envolvendo familiares de crianças e
adolescente com câncer em cuidados paliativos, a presente investigação observou
aceitação, por parte dos pais, da morte do filho quando a doença se agravou,
gerando intenso sofrimento a cada dia, situação, muitas vezes incontrolável
pela equipe, mesmo com uso de todos os recursos disponíveis(8).
Outro fator relacionado ao agravamento da doença foi a recidiva do câncer, que
traz consigo o aprender novamente a conviver com a doença e suas limitações,
sendo que para a maioria das famílias esse retorno tornou-se ainda pior do que
o próprio diagnóstico inicial, face aos sentimentos de fracasso e derrota da
cura, acarretando impacto negativo, sofrimento e mudanças em suas vidas(9).
A doença incurável do filho levou os pais e demais familiares a dedicarem-se,
em qualquer circunstância, ao cuidado, compreendendo a vulnerabilidade da
criança e do adolescente diante do câncer. A presença constante dos pais
possibilita que os mesmos avaliem as necessidades de seu filho, protegendo-o e
minimizando possíveis efeitos da doença e do tratamento, além de proporcionar
apoio e partilhar o sofrimento diante dos cuidados paliativos(8).
Consequentemente, a necessidade de suporte e apoio foi uma constante. Isto
porque o apoio é um forte aliado da família no enfrentamento da doença, da
recidiva, do agravamento e do processo de morte, interligado à comunicação e ao
atendimento individualizado(10). Assim, quando as limitações das possibilidades
de cura são discutidas com a família, ela também busca suporte e apoio na fé e
crença religiosa e ou espiritual, já existente ou não; é nessa esfera que
acredita haver forças soberanas capazes de curar seu filho com câncer em
cuidados paliativos(11).
A religiosidade é vista como uma forma de intensificar o apoio social,
permitindo melhor adaptação psicológica dos familiares, com redução dos
sentimentos depressivos. Assim, o cuidador sente-se acolhido e protegido por um
ser superior, encontrando, na espiritualidade, o suporte para melhor aceitação
das situações vivenciadas, superação de obstáculos e enfrentamento da doença
(12).
A família cuidadora necessita de informações concretas, sem omissões, de forma
transparente e objetiva, de modo que possa se sentir mais segura, conseguindo,
assim, enfrentar a experiência, preparando-se para lidar com a dor e possível
perda do filho. Estudo quantitativo, realizado com pais e médicos de crianças
com câncer submetidas a transplante de células-tronco, com objetivo de avaliar
as perspectivas e padrões de cuidado no final da vida evidenciou que a
participação dos pais no processo de decisão do prognóstico de seus filhos foi
vista de maneira satisfatória. Assim, os pais podem discutir sobre os
benefícios e complicações dos tratamentos curativos, início da terapia
paliativa e cuidados eficazes diante das principais necessidades da criança e
do adolescente com câncer, de forma a minimizar o sofrimento e garantir a
qualidade de vida, participando da decisão a respeito das melhores condutas a
serem tomadas, por meio da conversa aberta e honesta, acolhendo a esperança da
família e melhorando a qualidade do cuidado(13).
Ao mesmo tempo, a comunicação de más notícias deve ser realizada com compaixão
e solidariedade, permitindo silêncio e escuta do paciente e de sua família,
facilitada por equipes treinadas e preparadas, ferramentas fundamentais nesse
processo(14). A omissão, a ausência e as divergências de informações na
comunicação entre equipe e família dificultam a aceitação dos familiares em
relação à conduta de cuidados paliativos em decorrência da pouca convicção que
a equipe transmite a esses familiares(11).
Além disso, observou-se nas entrevistas a sensação de abandono do cuidado da
criança, do adolescente e da família quando é verbalizada a expressão "não tem
mais o que fazer". A clareza, o conhecimento e a objetividade com que a
informação é transmitida aos familiares são, em geral, ambíguos, imprecisos, e
muitas vezes omissos quando nos deparamos com a filosofia dos cuidados
paliativos. Nessa situação, a família percebe o desinteresse da equipe em
relação à continuidade do tratamento, perdendo a confiança nas informações e
nas condutas(11).
A comunicação a respeito da evolução do câncer e o início dos cuidados
paliativos entre o familiar cuidador e a criança e adolescente com câncer, se
não for realizada de forma adequada, pode não zelar pela sua saúde emocional e
minimizar o sofrimento. Para muitos, devido à idade, a criança e o adolescente
não entenderiam o processo de morte e morrer. Segundo uma pesquisa qualitativa
realizada com familiares enlutados após a morte de uma criança com câncer, o
processo de morte e morrer é percebido pela criança, pois foi manifestado por
meio de relatos verbais, por vezes implícitos, e não verbais, expressos por
ações e gestos(15).
Assim, para uma comunicação adequada por meio da interação e inter-relação
entre profissional de saúde e o paciente e sua família, é necessário valorizar
a importância da comunicação de más notícias e, sobretudo, conhecer as
estratégias de comunicação; interrogar a respeito das expectativas e
conhecimento do paciente e família sobre sua doença e tratamento, afirmar a
solicitude e interesse por aspectos multidimensionais do paciente, toque
afetivo, o olhar, o sorriso, a proximidade física e a escuta atentiva. O
conhecimento de tais estratégias é, atualmente, considerado escasso pela equipe
de saúde, não podendo ser adquirido com o tempo, mas por adequadas capacitações
(16).
Este estudo identificou também a falta de conhecimento da família na inclusão
da criança e do adolescente com câncer nos cuidados paliativo. Estudo sobre a
experiência de familiares de crianças e adolescentes com câncer em cuidados
paliativos identificou que o reconhecimento dos cuidados paliativos traz
esperança para o controle dos sinais e sintomas e, portanto, redução do
sofrimento e melhora da qualidade de vida(11).
Mais do que isso, os cuidados paliativos pediátricos devem ser reconhecidos
tanto por parte das instituições, serviços e profissionais quanto pelos
pacientes e suas famílias não apenas como um método alternativo de cuidado, mas
como uma abordagem que coexiste com a terapêutica curativa, cujo objetivo
central é a qualidade de vida da criança, adolescente e de sua família(14).
A maior parte das crianças e adolescente estudados, tiveram sua inserção nos
cuidados paliativos tardiamente, nas últimas semanas ou dias de vida, com
intervalos de 2 dias a aproximadamente seis meses, o que se reflete em seus
relatos como falta da participação no processo de decisão, muitas vezes
decorrente da ausência de informações e conhecimento. Em concordância, pesquisa
realizada com famílias de crianças e adolescentes em cuidados paliativos,
atendidos no ambulatório de Dor e Cuidados Paliativos em hospital público da
cidade de São Paulo, assinalou que, em relação à inclusão de crianças e
adolescentes com outras patologias incuráveis atendidas nesse local, a inserção
de crianças e adolescentes com afecções oncológicas no grupo de cuidados
paliativos ocorreu próxima de sua morte(11).
Os cuidados paliativos estão relacionados com a preservação da autonomia por
meio de uma assistência individual, a qual sinaliza a valorização dos
sentimentos experimentados e expressos pelo ser humano no percurso da doença
(17). O não reconhecimento, por parte da equipe de saúde, da incurabilidade do
câncer reduz a oportunidade de planejar o local da morte, discutir o desejo de
condutas médicas de ressucitação cardiorespiratória e controle do sofrimento,
com implicações negativas para a criança, o adolescente e sua família(13).
Os depoimentos também retrataram o impacto negativo que a notícia de
incurabilidade e cuidados paliativos gerou nas famílias, as quais definiram
essa fase como um tempo de caos e incertezas; sentiram-se desorientadas a
respeito de suas ações e atitudes, vivendo entre o medo da morte e a esperança
da cura.
A inserção da família no cuidado do paciente oncológico é fundamental para
prover as necessidades quase que incondicionalmente impostas pela doença e seu
agravamento. A escuta sensível, a comunicação terapêutica, o apoio e o processo
de ensino-aprendizagem ao lidar com a problemática vivenciada pela família
levam a equipe de enfermagem a apoiar suas necessidades, oferecendo segurança e
fornecendo estratégias para o enfrentamento da doença, em especial, na fase de
cuidados paliativos, com objetivo de minimizar o sofrimento(18).
Com o agravamento da doença e aproximação do momento da morte, há aumento da
possibilidade dos sinais e sintomas se tornarem mais presentes na vida da
criança e do adolescente, de forma progressiva e intensa, ocasionando
preocupações e sentimentos de impotência da família devido ao agravamento do
sofrimento da criança e do adolescente pelo não controle desses sintomas(11).
A dor, a dispneia, os distúrbios gastrointestinais e as alterações neurológicas
são os principais sinais e sintomas na fase de cuidados paliativos, os quais
geram angústia e sofrimento para a criança, adolescente e sua família. Assim, o
manejo dos sintomas é fundamental no cuidado paliativo em oncologia pediátrica
(14). Em nossos achados, os sintomas que mais emergiram nos relatos dos
cuidadores foram primeiramente a dor, seguida da anorexia.
O desejo de retornar para casa e vivenciar a morte do filho junto da família
foi mencionado pela maioria; entretanto, isso não depende apenas da vontade da
criança ou do adolescente e de sua família, mas da estabilidade do quadro
clínico da doença, controle adequado dos sinais e sintomas e, quando
necessário, de estrutura física e recursos materiais indispensáveis para o
cuidado(11). Em concordância, esse estudo revelou a necessidade de dispositivos
para viabilizar o cuidado domiciliar e, para que isso seja possível, é
fundamental que a mãe ou o responsável tenha conhecimentos e habilidades para
manipular os equipamentos e detectar possíveis complicações.
Os serviços de cuidados paliativos adequadamente estruturados para atender
crianças e adolescentes poderiam facilitar a morte no domicílio, mediante
atendimento contínuo com recursos humanos e materiais competentes e organizados
em redes(14).
As ações direcionadas a minimizar o sofrimento dos pais nos instantes da morte
de seu filho refletem em seu processo de luto e retomada da vida, ajudando na
aceitação da morte e no período de luto. Desse modo, as ações mais praticadas
nos últimos dias de vida pelos profissionais da saúde, segundo a visão dos pais
de crianças e adolescentes com câncer, são direcionadas ao controle da dor,
manejo do conforto, apoio e comunicação franca(19). A presença da equipe no
momento da morte tem sido descrito como benéfica nos cuidados paliativos em
oncologia pediátrica, fato também observado nesse estudo.
Desta forma, o convívio com o processo de morte e morrer é considerado o maior
desafio para a equipe de saúde, em particular para a equipe de cuidados
paliativos, que vivencia, cotidianamente, os cuidados ao final da vida.
Compartilhar o processo de morte e morrer do paciente com sua família consiste,
para equipe, em um momento de autoconhecimento, de aquisição de habilidades de
comunicação, além de possibilitar a reflexão e o redimensionamento do enfoque
do cuidar para o curar(20).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência da família diante dos cuidados paliativos foi marcada pela
reorganização familiar centrada no cuidado da criança e do adolescente com
câncer em cuidados paliativos. O agravamento do câncer, com possibilidade de
morte da criança e do adolescente, foi percebido pelos familiares
principalmente por meio dos sinais e sintomas físicos, principalmente a dor e a
anorexia, recidiva da doença e mudanças no tratamento, por parte da equipe de
saúde, o que determinou necessidades biopsicossociais e espirituais das
crianças, do adolescente e da família, as quais progrediram ao longo do
agravamento da doença e aproximação da morte.
Além disso, este estudo identificou que o conhecimento e a participação da
família nos cuidados ao final da vida são conduzidos por meio da comunicação de
notícias difíceis entre a equipe de saúde, o paciente e sua família. No
entanto, essa comunicação, quando existente, mostrou-se ineficaz, com
informações confusas e ambíguas.
Ao conceber as necessidades das crianças e dos adolescentes em cuidados
paliativos bem como de suas famílias, a equipe de saúde deve estar focada em
uma assistência planejada e baseada em ações direcionadas às esferas físicas e
emocionais, aos valores culturais, éticos e religiosos, e nos recursos humanos
e materiais disponíveis. É ainda imprescindível que esse planejamento seja
conduzido por um objetivo central, ou seja, a qualidade de vida e, portanto,
com foco no conforto e bem-estar biopsicossocial e espiritual, compartilhado e
realizado em conjunto com a criança, o adolescente e sua família, respeitando
seus desejos e opiniões.
Estudos futuros direcionados à assistência à criança e ao adolescente em
cuidados paliativos, processo de morte e morrer e luto são essenciais para
disseminar a filosofia dos cuidados paliativos na prática clínica, sobretudo
para capacitar profissionais que atuam nessa área e formar futuros
profissionais de saúde.