A terminologia CIPE® e a participação do Centro CIPE® brasileiro em seu
desenvolvimento e disseminação
INTRODUÇÃO
A Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem- CIPE® é um sistema
de linguagem padronizada, amplo e complexo, que representa o domínio da prática
da Enfermagem no âmbito mundial. É também uma tecnologia de informação, pois
favorece a coleta, armazenamento e análise de dados em uma variedade de
cenários, linguagens e regiões geográficas distintas, contribuindo para que a
prática dos profissionais da Enfermagem seja eficaz e, sobretudo, se torne
reconhecida pela sociedade e visível no conjunto de dados sobre saúde(1).
Neste artigo, focalizam-se as versões já divulgadas da CIPE®, desde que o
Conselho Internacional de Enfermeira(o)s assumiu a tarefa de desenvolver uma
classificação dos elementos da prática profissional (diagnósticos, intervenções
e resultados de enfermagem) que tivesse alcance internacional; o Programa CIPE®
e seus componentes estruturais, os quais se articulam para conformar o Ciclo de
vida da terminologia; os Centros acreditados pelo CIE para Pesquisa e
Desenvolvimento da CIPE® ; e, por fim, a contribuição do Centro brasileiro para
o desenvolvimento e disseminação da CIPE®.
EVOLUÇÃO DA CIPE®
A CIPE® teve seu marco inicial em 1989, ano em que o Conselho Nacional de
Representantes (CNR) do Conselho Internacional de Enfermeira(o)s (CIE) aprovou
uma Resolução para o desenvolvimento de uma classificação dos elementos da
prática profissional (diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem),
que tivesse alcance internacional. A aprovação dessa Resolução acolhia
preocupação expressa por grupos de enfermeira(o)s sobre a dificuldade para se
nomear as situações ou problemas com que a Enfermagem lidava em seu cotidiano,
por falta de um sistema de linguagem padronizada; e sobre as dificuldades para
se descrever a contribuição específica da Enfermagem para a solução, alívio e
prevenção de problemas de saúde, e para a promoção de modos saudáveis de vida
(2).
A falta de atenção dada ao desenvolvimento de uma linguagem unificada para a
Enfermagem começava a ser vista como uma desvantagem para a profissão, razão
para que a frase pronunciada, à época, por Norma Lang se tenha tornado
emblemática(2) : "Se não podemos descrevê-la [a Enfermagem], não podemos
exercer controle sobre ela, obter financiamentos, ensiná-la, pesquisá-la ou
inseri-la em políticas públicas".
Antes do início, propriamente dito, da construção da CIPE®, foram realizados,
em 1991, um levantamento na literatura da área e uma pesquisa junto às
Associações vinculadas ao CIE, para identificar que sistemas de classificação
eram conhecidos e usados nos diferentes países; a familiaridade que se tinha
com outros sistemas de classificação, a exemplo da Classificação Internacional
de Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde (OMS); e se era, de fato,
percebida a necessidade de construção do sistema de classificação previsto na
Resolução do CNR-CIE(2).
Em dezembro de 1996, o CIE divulgou a CIPE® Versão Alfa, contendo duas
classificações: a Classificação dos Fenômenos de Enfermagem e a Classificação
das Intervenções de Enfermagem. Na continuidade, foram publicadas a Versão Beta
e a Versão Beta 2, respectivamente em 1999 e 2001, ressaltando-se que a Beta 2
representou muito mais uma revisão editorial (revisão gramatical, correções ou
alterações em códigos, correções em definições) do que propriamente uma nova
versão da CIPE®.
A utilização das versões Beta e Beta 2 na prática profissional evidenciou que
sua estrutura dificultava o alcance da meta de uma linguagem unificada de
Enfermagem e, acima de tudo, que não estava satisfazendo as necessidades da(o)s
enfermeira(o)s. Partindo dessa constatação, o Grupo Estratégico de Consultores
da CIPE®, estabelecido em 2002, desenvolveu uma investigação entre líderes
mundiais no domínio de vocabulários usados em cuidados de saúde, com a
finalidade de assegurar que a CIPE® Versão 1.0, cuja construção já havia sido
iniciada, fosse, de fato e de direito, compatível com os vocabulários e normas
existentes(3). Ressalte-se que, com essa nova versão, a CIPE® passou a assumir
uma abordagem formal, ontológica, para lidar com os conceitos do domínio da
Enfermagem, o que a diferencia de outros sistemas de classificação de
Enfermagem(4).
A partir de então, a CIPE®, como uma terminologia combinatória, permite o
desenvolvimento de novos vocabulários locais e, como uma terminologia de
referência, permite a identificação de relacionamentos entre conceitos e
vocabulários disponíveis, o que a caracteriza como um marco unificador dos
diferentes sistemas de classificação dos elementos da prática da Enfermagem(3).
Após o lançamento da Versão 1.0 (2005), foram divulgadas mais quatro versões da
CIPE® : a Versão 1.1 (2008), a Versão 2 (2009), a Versão 3 (2011) e a Versão
2013 (2013). Nessas novas versões, manteve-se a representação multiaxial do
Modelo de Sete Eixos (Foco, Julgamento, Meios, Ação, Tempo, Localização e
Cliente), introduzido na Versão 1.0 para organizar os conceitos primitivos
(conceitos simples, atômicos) do domínio da Enfermagem, passando a ser
apresentados, também, conjuntos de conceitos pré-coordenados (conceitos
complexos, moleculares) relativos a diagnósticos / resultados e intervenções de
enfermagem(5). Com essa nova apresentação, a CIPE® passou a se caracterizar,
além de combinatória, como uma terminologia enumerativa.
A cada lançamento de nova versão, tem-se observado, no conjunto da
terminologia, o aumento do número de conceitos pré-coordenados (diagnósticos /
resultados e intervenções de enfermagem) em comparação ao número de conceitos
primitivos, que tem diminuído(6). Em 2005, quando foi divulgada a Versão 1.0, a
participação de conceitos primitivos era de 83%, passando a 59,10% na Versão
2013; por seu turno, a participação de conceitos pré-coordenados era de 17% na
Versão 1.0, alcançando 40,9% na Versão 2013 (Gráfico_1).

Há, atualmente, um total de 3.894 conceitos incluídos na CIPE® Versão 2013, dos
quais 1.592 são conceitos pré-coordenados; e 2.302 são conceitos primitivos,
distribuídos nos eixos do Modelo de Sete Eixos (Gráfico_2).
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Ressalte-se que, para a construção de afirmativas de diagnósticos / resultados
e intervenções de Enfermagem (conceitos pré-coordenados), a CIPE® utiliza
conceitos primitivos incluídos nos eixos do Modelo dos Sete Eixos e as
recomendações da ISO 18104:2003 - Modelo de Terminologia de Referência para a
Enfermagem, da Organização Internacional para Padronização (International
Organization for Standardization - ISO)(7-8).
Desde o lançamento da Versão Alfa, em 1996, várias pesquisas e experiências de
aplicação da CIPE® na prática profissional estão em andamento no âmbito
mundial. No ano de 2000, passou-se a considerá-la um programa oficial da área
Prática Profissional, um dos pilares fundamentais do CIE(9). Em dezembro de
2008, foi aprovada sua inclusão na Família de Classificações Internacionais da
Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma Classificação Relacionada, trazendo
para essa família de classificações uma parte essencial e complementar dos
serviços profissionais de saúde - o domínio da Enfermagem(3).
PROGRAMA CIPE®
Em seus aspectos organizativos, o Programa CIPE®, vinculado à área de Prática
Profissional do CIE, envolve três componentes, a saber, pesquisa e
desenvolvimento; manutenção e operações; disseminação e educação. Atuando de
modo articulado, esses componentes estruturais dão sustentação ao Ciclo de vida
da terminologia CIPE® (Figura_1), que caracteriza como ela evolui, tanto para
satisfazer as necessidades dos usuários como das organizações que lidam com
padronização, de modo que esteja compatível com os vocabulários e normas
existentes. Cada componente estrutural do Ciclo de vida da terminologia CIPE®
envolve múltiplos processos e requer diferentes ferramentas para realizar as
tarefas e gerar os produtos que lhe são próprios(4).
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No componente Pesquisa e Desenvolvimento, os estudos sobre a CIPE®, que estão
sendo realizados ao redor do mundo, envolvem a validação de conceitos, a
abrangência e ampliação de seu conteúdo, análises semânticas, aplicação e
utilidade prática(4), entre outros, que representam uma importante fonte para o
desenvolvimento e fortalecimento da terminologia.
Em Manutenção e Operações, componente essencial do ciclo de vida da CIPE®, tem-
se dado atenção à prática baseada em evidência; à melhoria constante da
qualidade do conteúdo e à conformidade com os padrões internacionais para
desenvolvimento de terminologias(4). Os processos envolvidos nesse componente
orientam a revisão de conteúdo e o lançamento de novas versões, em que se busca
a inserção de conteúdos que reflitam mudanças ocorridas na prática de
enfermagem e/ou uma melhor compreensão de termos já constantes, bem como a
adição de termos que venham preencher lacunas existentes e a remoção de termos
redundantes ou desatualizados; e assegurar que a CIPE® seja/esteja compatível
com o estado de desenvolvimento da ciência de Enfermagem, das ciências da
classificação e da informática, e do cuidado de saúde.
Por fim, quanto ao componente Disseminação e Educação, considera-se que somente
se avalia o potencial e a qualidade de uma terminologia, como de qualquer outra
tecnologia de informação, a partir da familiaridade que se demonstre ter com
sua aplicação no sistema de atenção à saúde(4), isto é, com seu uso na prática
clínica, favorecendo o raciocínio clínico e a documentação, seja em prontuários
eletrônicos ou em sistemas manuais de informação.
A CIPE® está em constante evolução e muito já foi alcançado em seus quase vinte
e cinco anos de desenvolvimento. Em 2003, como parte da tarefa de coordenar sua
disseminação e utilização internacional, entre outras atividades relacionadas
ao Ciclo de vida da terminologia, o CIE começa a desenvolver, por intermédio do
Programa CIPE®, a ideia de criação de Centros para Pesquisa e Desenvolvimento
da CIPE®, dando-se particular atenção ao processo de submissão de propostas,
critérios para avaliação, escopo de trabalho e responsabilidades desses
Centros.
CENTROS PARA PESQUISA E DESENVOLVIMENTO DA CIPE®, ACREDITADOS PELO CIE
Um Centro CIPE® Acreditado pelo CIE é uma Instituição, Faculdade, Departamento,
Associação Nacional ou grupo semelhante, que preenche os critérios do CIE para
ser designado como Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE®. Esses
Centros são considerados elementos importantes tanto para o desenvolvimento da
profissão, como para a produção de informação e conhecimento com potencial para
influenciar a Enfermagem nos anos futuros. Nesse contexto, ressalta-se a visão
da CIPE® como sendo parte integral da infraestrutura global de informação sobre
as políticas e práticas de cuidado à saúde(10).
Cada Centro CIPE® identifica suas especificidades de trabalho (tradução,
validação, aplicação, identificação de novos termos para inserção na CIPE®,
etc.), espaço geográfico de atuação (local, regional, nacional,
interinstitucional, etc.) ou âmbito de organização (área de especialização,
experiência em pesquisa, etc.). Trabalhando em seus próprios projetos e, ao
mesmo tempo, comunicando-se entre si, constituem o Consórcio de Centros CIPE®,
fortalecendo a Enfermagem, seja no âmbito local, regional ou global(10).
Atualmente, há onze Centros CIPE® Acreditados pelo CIE em todo o mundo, assim
distribuídos (Figura_1): dois na América do Norte, estando um deles localizado
nos Estados Unidos e o outro no Canadá; dois na América do Sul, um localizado
no Chile e um no Brasil; três na Europa, sendo um deles composto por três
países de língua alemã (Alemanha, Áustria e Suíça) e sediado em Berlim, um
localizado na Polônia e um em Portugal; dois na Ásia, estando um no Irã e um na
Coréia; e dois na Oceania, os dois localizados na Austrália.
Figura_2
a. Centro do Grupo de Língua Alemã de Usuários da CIPE® - Sediado em
Berlim, o Grupo é composto pelas Associações Nacionais de Enfermagem
da Áustria, Alemanha e Suíça, e por três grupos de usuários da CIPE®
desses países. O papel dos três países no Centro CIPE® tem sido o de
apoiar o desenvolvimento contínuo da terminologia e o uso de recursos
tecnológicos para sua implementação nas respectivas redes de
trabalho.
b. Centro para Descoberta de Conhecimento sobre Dados Mínimos de
Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de Minnesota - As
atividades do Centro envolvem a provisão de sinergia entre projetos
inter-relacionados sobre conjuntos de dados essenciais, incluindo
iNMDS (Conjunto Internacional de Dados Mínimos de Enfermagem), NMDS
(Conjunto de Dados Mínimos de Enfermagem) e NMMDS (Conjunto de Dados
Mínimos de Gerenciamento de Enfermagem). Esses projetos intencionam
contribuir para, e ser compatíveis com as terminologias e padrões
nacionais e internacionais, tais como o SNOMED (Nomenclatura
Sistematizada de Termos Clínicos da Medicina), LOINC (Nomes e Códigos
para Identificação Lógica de Observações Clínicas e Laboratoriais) e
a ISO (Organização Internacional para Padronização). Os projetos
promoverão o desenvolvimento e disseminação da CIPE® por meio de sua
utilização como a parte clínica dos elementos componentes dos dados
mínimos de enfermagem.
c. Centro Chileno para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® - O Centro
Chileno está localizado no Departamento de Enfermagem da Universidade
de Concepción. Tem como metas desenvolver um programa de pesquisa em
Enfermagem de Família; disseminar os avanços da CIPE® e incorporá-la
no processo de educação em Enfermagem; e colaborar na validação de
termos da CIPE®.
d. Programa de Pesquisa da Universidade Flinders para o Centro de
Enfermagem em Desastres - O Centro está localizado na Universidade
Flinders, em Adelaide, Austrália. Sua missão é promover a pesquisa,
desenvolvimento e reconhecimento da contribuição da Enfermagem no
preparo e resposta a desastres. O Centro tem como meta promover a
Enfermagem por meio do desenvolvimento da CIPE®, com foco em áreas
específicas da prática em que a Escola de Enfermagem e Obstetrícia
tem atuação, concentrando-se inicialmente na elaboração de um
Catálogo para Enfermagem em Desastres, fortalecendo as comunidades na
Atenção Primária à Saúde.
e. Centro de Prática de Enfermagem e Obstetrícia, Acreditado pelo CIE
para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® - O Centro está localizado
no Hospital Canberra, em Adelaide, Austrália. Afiliado ao Instituto
Joanna Briggs, da Universidade de Adelaide, que focaliza evidências
utilizadas para a aplicação e desenvolvimento de protocolos clínicos
baseados em revisões sistemáticas, é também conhecido como Centro de
Prática de Enfermagem e Obstetrícia Baseada em Evidências. A missão é
a de manter um Centro vigoroso para investigação e compreensão dos
fatores que influenciam a qualidade dos resultados da atenção à
saúde; e para o estabelecimento de estruturas teóricas e processos
que contribuam para a manutenção e melhoria contínua da prática
baseada em evidência na Administração de Saúde do Território da
Capital Australiana (Australian Capital Territory Government Health -
ACT Health) e região da Ásia-Pacífico.
f. Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® da Universidade
Federal da Paraíba - O Centro está localizado na região Nordeste do
Brasil, estado da Paraíba, e está vinculado ao Programa de Pós-
Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal da Paraíba. Sua
missão é apoiar o desenvolvimento contínuo da CIPE® ; promover o uso
dessa terminologia na educação e prática clínica de enfermagem; e
colaborar com o CIE e com os outros Centros Acreditados pelo CIE para
fortalecer e ampliar a CIPE® como uma terminologia de referência a
ser usada no âmbito mundial. Os objetivos são os de desenvolver e
validar termos que reflitam a prática de enfermagem, bem como
submeter novos termos, ou sugerir adaptação / ajuste de termos ou
definições já existentes, expressos de modo culturalmente relevante.
Os resultados previstos incluem a construção de um banco de dados
essenciais de enfermagem e a construção de catálogos CIPE®.
g. Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® da Universidade
Médica de Łódź - O Centro está localizado em Łódź, Polônia. A missão
do Centro é a de promover projetos focalizando a CIPE®, na teoria e
na prática; o objetivo geral é a melhoria da prática de enfermagem na
Polônia.
h. Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® da Associação
Iraniana de Enfermagem - O Centro está localizado em Teerã, no Irã. A
missão do Centro é a de identificar conceitos para a Enfermagem no
Irã, que já estejam incluídos ou não na CIPE®. O Centro também
objetiva cooperar com os outros Centros Acreditados pelo CIE, como
parte do Consórcio de Centros CIPE®, tanto no desenvolvimento
contínuo da terminologia quanto no uso de conceitos da CIPE® na
prática de enfermagem.
i. Centro Acreditado pelo CIE para Pesquisa e Desenvolvimento de
Sistemas de Informação da Escola de Enfermagem do Porto - O Centro
está localizado na cidade do Porto, em Portugal. Sua missão é a de
promover a qualidade da educação e do cuidado de enfermagem, por meio
do desenvolvimento de Sistemas de Informação em Enfermagem (SIE); e
colaborar com o CIE apoiando o desenvolvimento da CIPE®. O Centro
atuará no âmbito da missão e metas da Escola Superior de Enfermagem
do Porto (ESEP), em colaboração direta com a Unidade de Pesquisa da
Escola, por meio da qual cooperará diretamente com a Ordem dos
Enfermeiros, Associação Nacional membro do CIE.
j. Centro Coreano Acreditado pelo CIE para Pesquisa e Desenvolvimento
da CIPE® - O Centro está localizado na Faculdade de Enfermagem da
Universidade Nacional de Seul. Sua missão é a de aumentar a aplicação
clínica da CIPE®, por meio da tradução da terminologia para a língua
coreana e de sua disseminação; contribuir para o avanço e
desenvolvimento da terminologia com a realização de pesquisas sobre
modelos clínicos detalhados, mapeamento e desenvolvimento de
subconjuntos da terminologia; e incluir as terminologias padronizadas
e o uso da CIPE® nos currículos acadêmicos e em programas de educação
continuada.
k. Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® da RNAO - O Centro
está localizado em Ontário, no Canadá, e está vinculado à Associação
de Enfermeira(o)s Registrada(o)s de Ontário (Registered Nurses'
Association of Ontario - RNAO). A missão deste Centro é a de promover
o avanço da prática e dos resultados de saúde baseados em evidência,
por meio de sua colaboração com o CIE para fazer o mapeamento de
conjuntos de ordens de enfermagem com a CIPE® e mensurar resultados
sensíveis à enfermagem, derivados de seus Guias para Melhores
Práticas, reconhecidos internacionalmente. Convertidos para a CIPE®,
esses produtos podem contribuir para o Programa e-Health do CIE;
fornecer intervenções de enfermagem padronizadas para inserção em
prontuários eletrônicos médicos / de saúde, no âmbito global; e
facilitar a coleta de dados eletrônicos e a avaliação de resultados
sensíveis à enfermagem derivados dos Guias para Melhores Práticas da
RNAO.
Segundo o CIE(10), estão incluídas entre as vantagens de ser um Centro CIPE® o
reconhecimento internacional, as oportunidades de colaboração como membro do
Consórcio de Centros CIPE® e a possibilidade de participar na tomada de decisão
sobre assuntos que focalizam o desenvolvimento e disseminação da CIPE® ; entre
as obrigações estão as de ser coerente com a missão global do CIE e com a visão
e com as metas estratégicas estabelecidas para a CIPE®.
PARTICIPAÇÃO DO CENTRO BRASILEIRO NO DESENVOLVIMENTO E DISSEMINAÇÃO DA CIPE®
A proposta de criação de um Centro CIPE® vinculado ao Programa de Pós-Graduação
em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (PPGENF-UFPB) CIE foi
encaminhada ao CIE no início de 2007. Em julho desse mesmo ano a proposta foi
aprovada, considerando-se o Centro para Pesquisa e Desenvolvimento da CIPE® do
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba
(Centro CIPE® - PPGENF-UFPB) um Centro Acreditado pelo CIE(11-12).
As atividades que vêm sendo desenvolvidas pelo Centro CIPE® - PPGENF-UFPB estão
em consonância com os três componentes do Ciclo de vida da terminologia CIPE® a
saber, Pesquisa e Desenvolvimento; Manutenção e Operações; Disseminação e
Educação.Ressalta-se que nem sempre as atividades ocorrem de modo isolado, ou
seja, em um componente específico, pois uma ação de Pesquisa e Desenvolvimento
também pode ser considerada de Manutenção e Operação, quando resulta em termos
para serem incluídos na CIPE® ou em alterações de termos já existentes. Da
mesma forma, o desenvolvimento de uma pesquisa pode levar à disseminação desta
terminologia e ao ensino de sua utilização na prática.
De acordo com o projeto de acreditação apresentado ao CIE, o Centro CIPE® -
PPGENF-UFPB começou suas atividades na área do componente Pesquisa e
Desenvolvimento com dois grandes projetos. O primeiro possibilitou o
desenvolvimento de vários subprojetos nas unidades clínicas do Hospital
Universitário Lauro Wanderley (HULW-UFPB), com o objetivo de construir um Banco
de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem daquela instituição. O segundo, a
partir dos resultados do primeiro projeto, permitiu o desenvolvimento de outros
subprojetos de pesquisa para a construção de enunciados de diagnósticos,
resultados e intervenções de enfermagem, para pacientes internados nas Clínicas
Médica, Pediátrica, Cirúrgica, Obstétrica, de Doenças Infectocontagiosas,
Unidade de Terapia Intensiva Geral e Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.
Os resultados das pesquisas desenvolvidas por unidade clínica possibilitaram a
construção do Banco de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem das Unidades
Clínicas do HULW-UFPB, contendo 483 termos constantes e 409 não constantes na
CIPE® Versão 1.0, os quais retratam a prática de enfermagem nas unidades de
internações do referido hospital, onde são atendidos pacientes de várias
especialidades. Esses resultados evidenciaram que a equipe de Enfermagem do
HULW/UFPB utilizava uma linguagem especializada, mesmo sem a formalização do
emprego de um sistema de classificação específico(13).
A partir do Banco de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem das Unidades
Clínicas do HULW-UFPB, e utilizando as diretrizes do CIE para a elaboração de
enunciados dos elementos da prática de enfermagem, foram desenvolvidos
enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem,
relacionados às necessidades humanas dos clientes internados para cuidados de
saúde nas clínicas do referido hospital. Os trabalhos realizados nas sete
unidades clínicas levaram à construção de 257 diagnósticos e resultados de
enfermagem, que foram classificados de acordo com as Necessidades Humanas
Básicas de Horta. Em seguida, foram distribuídos para os diagnósticos /
resultados 3.216 enunciados de intervenções de enfermagem, com uma média de
12.5 intervenções por diagnóstico de enfermagem(14).
Outra contribuição do Centro CIPE® PPGENF-UFPB na área de pesquisa tem sido o
desenvolvimento de Catálogos ou Subconjuntos Terminológicos da CIPE®, tema de
cinco dissertações do Curso de Mestrado em Enfermagem do PPGENF-UFPB,
desenvolvidas no período de 2008 a 2013, focalizando a Insuficiência Cardíaca
Congestiva; a dor oncológica; a hipertensão na atenção básica; a pessoa idosa
no âmbito domiciliar; e clientes submetidos a prostatectomia. No
desenvolvimento dessas dissertações foram utilizados alguns passos
metodológicos recomendados pelo CIE(4,7) para o desenvolvimento de catálogos ou
subconjuntos terminológicos da CIPE®, bem como outras técnicas de pesquisa,
utilizadas como estratégias para o refinamento ou para a construção de um
processo metodológico para o desenvolvimento desses subconjuntos, tais como:
transcrição dos registros da prática feita pelos membros da equipe de
enfermagem em prontuários clínicos; extração de termos da prática de enfermagem
que podem ser utilizados para construir enunciados de diagnósticos, resultados
e intervenções de enfermagem; mapeamento cruzado dos termos extraídos com os
termos da CIPE®, para identificação de termos constantes e não constantes nos
eixos dessa classificação; construção de definições teóricas para os termos não
constantes na CIPE® ; e confirmação, por grupos de peritos, do significado e da
utilização na prática dos termos constantes e não constantes na CIPE®, entre
outras.
O primeiro Catálogo CIPE® foi desenvolvido para pacientes portadores de
Insuficiência Cardíaca Congestiva na Classe Funcional III da Escala da NYHA,
tendo como base o modelo fisiopatológico da insuficiência cardíaca, para a
prioridade de saúde doenças cardíacas, resultando em 68 enunciados de
diagnósticos e resultados de enfermagem e 234 de intervenções de enfermagem,
construídos com base na CIPE® Versão 1.0, e distribuídos a partir dos sintomas
mais frequentes nos pacientes portadores de ICC, ou seja, taquicardia,
dispneia, edema e congestão(15). O segundo Catálogo CIPE® foi desenvolvido para
pacientes adultos portadores de neoplasia maligna que, em algum momento, desde
o diagnóstico do câncer até a morte, experimentam a sensação de dor. Nesse
segundo Catálogo, os enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de
enfermagem construídos foram distribuídos de acordo com o Modelo de Dor
Oncológica, desenvolvido no estudo, contemplando 156 diagnósticos e resultados
de enfermagem e 219 intervenções de enfermagem, construídas com base na CIPE®
Versão 1.0 e mapeados com a CIPE® Versão 1.1(16). O Subconjunto Terminológico
da CIPE® para a pessoa hipertensa na atenção básica foi desenvolvido para
proporcionar ao enfermeiro uma ferramenta de auxílio na organização do processo
de trabalho, no que tange à assistência de enfermagem ao usuário hipertenso;
bem como na padronização da documentação da prática de enfermagem na consulta
de enfermagem a essa clientela. Foram construídos, com base na CIPE® Versão 3,
60 enunciados de diagnósticos e resultados de enfermagem e 351 de intervenções
de enfermagem, distribuídos de acordo com o Modelo de Cuidados na Doença
Crônica e na Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Horta(17). A proposta
do Subconjunto Terminológico da CIPE® para a pessoa idosa foi estruturado para
servir de guia para os enfermeiros que prestam cuidados a essa clientela, no
atendimento nas Unidades de Saúde ou no domicílio. Foram construídos 142
enunciados de diagnósticos e resultados de enfermagem e 645 intervenções de
enfermagem, com base na CIPE® Versão 3, tendo como suporte teórico o Modelo de
Atividade de Vida(18). O Subconjunto Terminológico da CIPE® para clientes
prostatectomizados tem o objetivo de guiar a prática clínica dos enfermeiros
que atuam em Clínica Cirúrgica, podendo favorecer a implantação da assistência
de enfermagem e disseminar a utilização e implantação da CIPE®. Foram
construídos 33 enunciados de diagnósticos e resultados de enfermagem e 206
intervenções de enfermagem, com base na CIPE® Versão 3, tendo como modelo
teórico a Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Horta(19).
As iniciativas de desenvolvimento de Catálogos ou Subconjuntos Terminológicos
pelo Centro CIPE® PPGENF-UFPB não se esgotam nas dissertações defendidas,
estando em processo de desenvolvimento, no Curso de Doutorado em Enfermagem, um
Catálogo CIPE® para a pessoa com Diabetes Mellitus na atenção especializada; e
em processo de validação os Catálogos CIPE® para dor oncológica e o para a
pessoa idosa no domicílio.
Espera-se que a utilização desses Catálogos ou Subconjuntos Terminológicos, por
fazerem parte de uma linguagem unificada de enfermagem, contribua para a
implementação efetiva do processo de enfermagem na prática profissional,
associada a uma terminologia de enfermagem, como também para a construção de
sistemas de informação de saúde, permitindo o mapeamento com outros sistemas de
classificação em Enfermagem, resultando no desenvolvimento de dados
consistentes que descrevam o trabalho da Enfermagem.
Outra importante contribuição do Centro CIPE® PPGENF-UFPB, que envolve os três
componentes estruturais do Ciclo de vida da terminologia CIPE®, tem sido a
tradução da CIPE® para o português do Brasil, já disponível na Versão 31, e com
a tradução da Versão 2013 em processo de conclusão. De acordo com o CIE(20),
essas traduções, normalmente realizadas de forma voluntária por enfermeira(o)s,
são essenciais para a implementação da CIPE® na prática, no ensino e na
pesquisa em enfermagem.
Na área do componente Disseminação e Educação, o Centro CIPE® PPGENF-UFPB tem
contribuído com a participação na publicação de livros e de vários artigos
sobre a temática, apresentação de conferências em eventos nacionais e
internacionais, cursos de curta duração sobre a CIPE® e consultoria e parceria
a grupos de pesquisa vinculados ao Centro.
As parcerias do Centro CIPE® PPGENF-UFPB, estabelecidas internamente, envolvem
Professores e alunos do Curso de Graduação e Pós-Graduação em Enfermagem, do
Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiátrica e do Departamento de
Enfermagem Clínica, do Centro de Ciências da Saúde da UFPB, o Grupo de Estudos
e Pesquisa em Fundamentação da Assistência de Enfermagem (GEPFAE), do PPGENF-
UFPB; e o Grupo de Sistematização da Assistência de Enfermagem do HULW-UFPB.
Externamente, há parceria reconhecida em vários Estados brasileiros envolvendo
enfermeiros, professores e alunos de Enfermagem de Cursos de Graduação e de
Programas de Pós-Graduação, e de Grupos de Pesquisa. Entre eles, pode ser
citado o Grupo de Estudo e Pesquisa em Informática em Saúde do Programa de Pós-
Graduação em Tecnologia em Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
Curitiba - PR; o Grupo de Estudo e Pesquisa em Enfermagem em Cuidados
Paliativos, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual
de Londrina, Londrina - PR; o Grupo de Estudo e Pesquisa em Enfermagem em
Reabilitação, e o Grupo de Estudo e Pesquisa em Sistematização de Enfermagem e
Saúde, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem - Escola de Enfermagem da
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte - MG; Grupo de
Sistematização da Assistência de Enfermagem em Neonatologia e Obstetrícia do
Hospital Sofia Feldman, Belo Horizonte - MG; Grupo de Sistematização da Prática
de Enfermagem em Saúde Coletiva da Secretaria Municipal de Saúde, Curitiba -
PR; além de alunos e professores vinculados à pós-graduação em enfermagem da
Universidade Federal da Bahia, da Universidade Federal de Goiás, da
Universidade Federal Fluminense, da Universidade Estadual do Ceará,
Universidade Federal do Espírito Santo e Escola de Enfermagem da Universidade
de São Paulo. São também parceiros externos do Centro CIPE® PPGENF-UFPB a
Associação Brasileira de Enfermagem, por meio da Comissão de Sistematização da
Prática de Enfermagem, e o Conselho Federal de Enfermagem (Figura_3).
[/img/revistas/reben/v66nspe/a18fig03.jpg]
As parcerias possíveis não se esgotam nas que foram mencionadas. O Centro CIPE®
PPGENF-UFPB está aberto à participação e cooperação de pessoas ou grupos
interessados em construir sistemas de registro dos elementos da prática usando
a CIPE® e em tornar essa classificação um instrumental tecnológico útil à
prática de enfermagem no local do cuidado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O CIE assumiu a tarefa de coordenar a construção da CIPE® por entendê-la como
um instrumento de informação para descrever a prática da Enfermagem; prover
dados que identifiquem a contribuição da Enfermagem na atenção à saúde;
promover avanços nos campos de prática profissional, por meio de sua aplicação
na assistência, educação, pesquisa e gerência de Enfermagem.
A CIPE® foi planejada para ser parte integral da infraestrutura global de
informação, fornecendo dados sobre as práticas e as políticas de atenção à
saúde, de sorte a melhorar a atenção à clientela, no âmbito mundial. Desse
modo, caracteriza-se como um instrumento que facilita a comunicação da(o)s
enfermeira(o)s entre si, com outros profissionais de saúde e com os
formuladores de políticas relacionadas à saúde e à formação de recursos
humanos.
A terminologia facilita a documentação padronizada do cuidado prestado ao
paciente pelo profissional de enfermagem e os dados e as informações
resultantes dessa documentação podem ser usados para o planejamento e
gerenciamento do cuidado de Enfermagem; a obtenção de financiamentos; a análise
dos resultados do paciente que são sensíveis à ação de Enfermagem; e a
elaboração de políticas de saúde e de educação em Enfermagem.
Mister é que, no processo de cuidar, a(o)s enfermeira(o)s utilizem o
conhecimento teórico-prático e os instrumentos, métodos e processos específicos
da área, na gerência e na execução do cuidado de enfermagem, buscando a
excelência das ações, as suas e as de sua equipe, para alcançar junto à
clientela a principal finalidade da profissão - prestar um cuidado digno,
sensível, competente e resolutivo, que contribua para a solução, para o alívio
ou para a prevenção de problemas de saúde, e que promova modos saudáveis de
vida para as pessoas.