Tendências pedagógicas na produção do conhecimento em educação em enfermagem do
estado de São Paulo
INTRODUÇÃO
Com a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de
graduação em Enfermagem em 2001, novas indicações foram estabelecidas sobre o
processo educacional, preconizando que a formação do futuro enfermeiro deve ser
generalista, crítico-reflexiva, aperfeiçoando habilidades e competências a
partir do encontro entre a teoria e a prática, refletindo em um profissional
preparado para trabalhar com base nos princípios do Sistema Único de Saúde
(SUS) e preocupado com a transformação da realidade social em que está inserido
(1).
A partir dessas diretrizes, desencadeou-se um movimento de reestruturação
curricular nos cursos das Instituições de Ensino Superior (IES), requerendo
assim a implantação de Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) que viabilizem uma
relação de interdependência entre currículo e prática pedagógica emergindo um
novo paradigma na formação acadêmica(2).
Na contemporaneidade, almeja-se um processo educativo que se estabeleça em um
contexto social, a partir de uma prática pedagógica desenvolvida por meio de
relações dialógicas que proporcionem a reflexão sobre o processo de ensino e o
empoderamento a partir dos conhecimentos construídos pelos educandos e
educadores(3).
No campo da Educação em Enfermagem, a produção científica incentiva a
incorporação, a socialização e a produção de conhecimentos por meio de um
processo multidimensional de perspectivas e prioridades, construídas nas
relações dos diferentes saberes dos sujeitos sociais que participam ativamente
desse processo. Esses fatores são fundamentais para a formação do profissional
Enfermeiro, sendo que este processo não pode ser apenas teórico, mas requer a
reflexão sobre a realidade social e a possibilidade de discussões acerca do
significado na formação do profissional. A base desta formação requer preparo
teórico-prático, ancorado em uma postura pedagógica(4).
As opções pedagógicas adotadas no processo educativo mostram as ideologias e os
objetivos do contexto, trazendo consequências discerníveis sobre a conduta
individual e coletiva, sobre o comportamento da sociedade em seu conjunto, como
também na formação dos profissionais da área(5). Os processos educativos se
desenvolvem tendo como base uma determinada tendência pedagógica, sendo assim,
quando se aprofundam os conhecimentos acerca destes processos, é possível ter
clareza de qual caminho, quais objetivos e finalidades querem se alcançar na
formação dos profissionais de Enfermagem(6).
As tendências pedagógicas podem ser classificadas em: Tradicional, Renovada,
Tecnicista, Libertadora e a Crítico-Social dos Conteúdos. Em cada uma delas é
possível identificar características que as distinguem e revelam um modo de
pensar a educação e o processo de aprendizagem que delas decorre(7). A seguir
apresentam-se as principais características das tendências pedagógicas.
Na tendência Tradicional, a questão central é aprender a reproduzir, sendo que
a postura do educador é autoritária, aquele que detém o conhecimento, a relação
entre educador-educando é vertical. Assim, o educando é considerado um sujeito
passivo que apenas recebe o conhecimento, e a escola tem a responsabilidade por
uma formação moral, intelectual e de esforços. Os conteúdos são passados de uma
forma lógica, rigorosa e coerente, como forma de memorização utiliza-se a
repetição de exercícios. A aprendizagem ocorre de forma repetitiva e mecânica e
a avaliação é um processo superficial, em que o comportamento e a memória do
aprendiz são objetos de estudo(7).
Nas tendências Renovada e Tecnicista, destaca-se como questão principal do
ensino o aprender a aprender e o aprender a fazer. A postura do professor ainda
é autoritária, e a relação entre professor (instrutor) e aprendiz é apenas
técnica existindo assim a consciência do limite grupal. O aprendiz é o sujeito
que necessita adquirir apenas habilidades técnicas. A postura da escola
enquadra-se em um processo ativo de construção de habilidades e técnicas, ou
seja, uma preparação para o mundo do trabalho. Sendo assim, o ensino é baseado
em aprender e executar as técnicas sendo que decorar cada ação ainda é
essencial. Os pressupostos da aprendizagem baseiam-se no aprendizado como uma
questão de modificação do desempenho, modelagem e o processo avaliativo ocorre
por meio de provas objetivas, sendo que a mesma está diretamente ligada aos
objetivos estabelecidos e ocorre ao término do processo com a finalidade de
constatar se os aprendizes adquiriram as habilidades desejadas(7).
Nas tendências Libertadora e Crítico-Social dos Conteúdos, a questão central é
aprender viver a junto - aprender a ser, o professor deixa de ser autoritário e
é considerado facilitador ou mediador do processo educativo a relação entre
educador e educando é horizontal e o aprendiz é considerado um sujeito crítico,
reflexivo e autônomo. A escola prepara os aprendizes para o mundo adulto e suas
contradições e os conteúdos são desenvolvidos em torno de problemas reais, em
que todos participam da construção do conhecimento por meio de grupos de
discussões e o processo ensino-aprendizagem ocorre por meio da compreensão,
reflexão, crítica-síntese. A avaliação é um processo contínuo, que ocorre desde
a primeira interação entre educador e aprendiz(7).
Acredita-se que, para a consolidação de uma formação profissional preparada
para atuar no SUS, na busca da interdisciplinaridade, é condição sine qua non a
adoção de tendências pedagógicas que contribuam para uma formação crítica e
criativa do futuro profissional, a partir de inovações dentro dos currículos,
nos PPPs e com estratégias diferenciadas de ensino, visando formar futuros
enfermeiros habilitados para atuar na realidade social em prol do bem-estar da
população(8).
Diante da necessidade de adoção de tendências pedagógicas que contribuam na
formação para o SUS, faz-se necessário estudar acerca das diferentes tendências
pedagógicas encontradas na produção cientifica em Educação em Enfermagem. Neste
sentido, este estudo objetiva analisar as tendências pedagógicas da produção
científica dos Grupos de Pesquisa em Educação em Enfermagem (GPEE) originada,
especificamente, no Estado de São Paulo.
A escolha pela especificidade do Estado de São Paulo é justificada pelo mesmo
constituir-se em um importante polo acadêmico do Brasil, com considerável
impacto na produção científica, sendo o Estado com maior número de Grupos de
Pesquisa em Educação em Enfermagem e publicações na área(9). Sendo assim, a
partir dessa análise, será possível compreender o que e como esta produção
científica contribui na orientação do processo ensino-aprendizagem na formação
dos futuros profissionais de enfermagem.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa do tipo descritiva, exploratório-analítica, em base
documental, de natureza qualitativa. Os dados foram obtidos por meio do Censo
CNPq 2008, disponível online, a partir da análise da produção científica dos
pesquisadores pertencentes aos Grupos de Pesquisa em Educação em Enfermagem do
estado de São Paulo. O período de coleta dos dados ocorreu no mês de janeiro de
2011.
Os dados foram capturados e organizados por ano de publicação em livrarias a
partir do gerenciador bibliográfico EndNote®. A partir da captação dos estudos
no formato completo, realizou-se a leitura na íntegra, a identificação da
natureza dos estudos e categoria temática Educação, Enfermagem e Saúde,
englobando os estudos a partir das similaridades dos temas mais publicados a
saber: Formação Profissional, Competências, Tecnologia Educacional, Educação
Permanente em Saúde, Processo Ensino-Aprendizagem, Perfil dos Programas de Pós-
Graduação, Ensino na Assistência, Educação Popular, Interdisciplinaridade,
Experiência dos Estudantes, Prática Pedagógica.
A análise dos dados ocorreu a partir da proposta operativa em relação à Análise
Qualitativa(10). Para elucidar as tendências pedagógicas utilizadas pelos
autores dos artigos científicos, foram usados recortes textuais com o número do
estudo sequencial e seu respectivo ano de publicação, mantendo em anonimato a
identidade dos autores.
Por tratar-se de uma pesquisa documental, este estudo não foi submetido ao
Comitê de Ética com Seres Humanos. Destaca-se que os preceitos éticos que
integram a resolução CNS 196/96 foram mantidos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados do Censo 2008 do CNPq mostram que o estado de São Paulo possui 12
Grupos de Pesquisa em Educação em Enfermagem. A partir da análise da produção
científica dos 94 pesquisadores pertencentes a estes grupos, constatou-se um
total de 557 artigos científicos, sendo que, deste montante, 131 estudos
estavam relacionados com a temática educação publicados em periódicos com
qualificação A1, A2, B1 e B2 conforme Qualis/CAPES 2010, disponíveis on-line na
íntegra, no período de 2004 a 2010.
Quanto à natureza dos estudos, 83 são pesquisas, dos quais 59 caracterizam-se
como pesquisas qualitativas, 22 são pesquisas quantitativas e 02 são pesquisas
quali-quantitativas; 24 são reflexões teóricas, 13 são revisão de literatura e
11 são relatos de experiência.
No que se refere à temática Educação, Enfermagem e Saúde, os temas mais
abordados podem ser evidenciados na tabela_1.

A partir da leitura na íntegra dos 131 estudos, foram extraídos recortes
textuais para melhor elucidar a conformação das tendências pedagógicas dos
autores dos estudos dos artigos analisados. Destaca-se que em muitos textos
pode-se observar a presença de uma tendência pedagógica tradicional ou
tecnicista, mas que evidenciava um forte movimento em busca de transformação
para uma tendência libertadora, sendo assim, foram feitos os seguintes
agrupamentos: Tendência Tradicional, Transição da Tendência Tecnicista para a
Libertadora, Tendência Renovada e Tendência Tecnicista, Transição da Tendência
Tradicional para a Libertadora, Tendência Libertadora e Crítico-Social Dos
Conteúdos.
TENDÊNCIA TRADICIONAL
Representando a menor parte dos estudos encontrados nesta busca, a tendência
Tradicional está presente em 08 estudos, o que significa 6,10% de toda produção
dos Grupos de Pesquisa. A essência destes textos aborda a maneira que os
conteúdos são transmitidos, de professores para estudantes, como evidenciado
nos recortes textuais abaixo:
Nos currículos dos cursos da área da saúde, entre eles o de
enfermagem [...], ainda é possível visualizar a relação assimétrica
entre as disciplinas do tipo fechada, com conteúdos delimitados em
relação vertical, sendo a pré-requisitação um recurso continuamente
utilizado como forma de viabilizar a interdisciplinaridade. (Estudo
02, ano 2010)
Observamos, de modo geral, que a avaliação dessa temática é tratada
de modo tradicional, por meio de provas escritas, apresentações orais
e trabalhos como foi relacionado por 44% das escolas pesquisadas.
(Estudo 26, ano 2005)
A prática pedagógica amparada em pressupostos da tendência Tradicional possui
uma visão essencialista imutável do ser humano. O processo educativo nesta
lógica orienta-se a partir de um "modelo ideal" já existente e que não leva em
consideração o contexto que está inserido.
Nota-se ainda que alguns educadores permanecem presos às formas tradicionais de
ensino em sala de aula, afastados da realidade social, numa relação unilateral,
acreditando ser detentor do saber. Considera-se que a dicotomia entre a teoria
e a prática aliados ao autoritarismo e ao processo pedagógico distantes de uma
reflexão crítica dos docentes sejam fatores que precisam ser revistos para o
alcance de melhorias exitosas na formação do futuro profissional(11).
DA TENDÊNCIA TECNICISTA PARA A LIBERTADORA
Movimentos da tendência Libertadora também podem ser identificados em estudos
tecnicistas, como ocorreu com 13 (9,92%) dos textos integrantes desta pesquisa.
Percebe-se que, mesmo os textos sendo, em sua essência, focados na tendência
tecnicista, os autores evidenciam a limitação desta prática educativa e a
necessidade de um novo olhar pedagógico:
Compete ao coordenador (docente) articular conceitos e experiências,
valores humanistas, voltados para o desenvolvimento de competências e
o aprender a aprender. A dimensão tecnológica deve ir além das
competências técnicas específicas, abrangendo a reflexão sobre os
padrões éticos, sociais, culturais, econômicos e educacionais
decorrentes da disseminação e utilização da tecnologia. (Estudo 55,
ano 2009)
Os fragmentos dos textos acima ainda que focados na pedagogia Tecnicista já
apresentam indícios de uma transformação necessária do ponto de vista
pedagógico. Uma transformação pedagógica no sentido de ultrapassar a prática
centrada apenas na habilidade técnica. Neste sentido, a relação dialógica entre
educando e educador contribui com o desenvolvimento de cada um na sua
individualidade, respeitando a cultura e os saberes distintos. O conhecimento é
construído nesta relação, alcançando a humanização e reconhecimento um no
outro, gerando o processo de ação e reflexão e potencializando as oportunidades
de adquirir novos conhecimentos.
Diante do exposto, é fundamental destacar que é no desenvolvimento de uma
prática dialógica e reflexiva que o saber dos educandos se concretiza e é
compartilhado entre pares. A práxis da reflexão torna-se importante para a
mudança da prática diária e, neste âmbito, o docente enfermeiro necessita ter
domínio das suas ações bem como a responsabilidade em manter segura a
integridade e curiosidade no processo de aprendizagem dos educandos(12).
TENDÊNCIA RENOVADA E TENDÊNCIA TECNICISTA
Com o movimento das tendências pedagógicas, os conteúdos escolares e os
professores deixaram de ser tratados como núcleos da educação e os educandos
iniciam seu processo de libertação educativa, porém ainda limitado. Estes
movimentos foram encontrados em 15 (11,45%) dos 131 estudos, que nos trazem
detalhes destas tendências, os quais se podem perceber no recorte do texto
abaixo:
O procedimento, produto da aprendizagem, ocorre pela capacidade de
organizar ações para alcançar uma meta. Nesta perspectiva, a
aquisição de conhecimento procedimental consiste em transpor a
condição de saber dizer para a condição de saber fazer. (Estudo 54,
ano 2008)
Percebe-se neste recorte que a formação está relacionada com atividades de
natureza técnica. O cuidado administrado pelos profissionais não raro é
realizado de forma mecânica, norteado por tarefas, seguindo rigidamente normas
e prescrições. As relações pessoais, por sua vez, quase sempre se apresentam
frágeis. A habilidade técnica é priorizada em detrimento da relação
estabelecida entre as pessoas. A tendência Tecnicista afasta o profissional/
educando da realidade social enfocando apenas a visão biologicista e tecnicista
do processo saúde-doença(13).
TRANSIÇÃO DA TENDÊNCIA TRADICIONAL PARA LIBERTADORA
Neste grupo foram evidenciados 34 (25,95%) estudos que inicialmente focalizaram
e trabalharam com a tendência tradicional, que apresentavam aspectos rígidos e
autoritários, específicos desta tendência pedagógica. Todavia, também
percebemos nesses textos que os autores reconheciam fragilidades desta
tendência e refletem sobre a necessidade de iniciativas e atividades
características da tendência libertadora, como se apresenta a seguir:
O desafio da mudança da prática avaliativa no ensino-aprendizagem,
encontra-se no pressuposto de que o professor se libere do uso
autoritário da avaliação que o sistema lhe faculta e autoriza,
empenhando-se em construir uma nova prática, adotando o papel de
educador, deslocando o centro de sua ação de fiscalizar/medir/julgar
para propiciar a aprendizagem, tendo em vista o compromisso com a
aprendizagem de todos os estudantes. (Estudo 18, ano 2007)
A educação a distância visa suprir a necessidade de mão de obra
qualificada, e deve ser adotada como uma nova forma de educar e não
como uma 'roupagem' para educação tradicional, apresentando técnicas
inovadoras, como autonomia crítica e processos mediados pela
comunicação síncrona e assíncrona. (Estudo 64, ano 2007)
É possível observar que, tanto os educadores, como os educandos ainda sentem
dificuldades em assumir uma postura libertária. Este fato pode-se justificar
pelo contexto histórico fortemente marcado por um sistema educativo
tradicional. A educação bancária presente ainda na atualidade, caracterizada
pelo ato de depositar conhecimentos nos educandos ainda impera com fortes
influências na sociedade.
Ainda existe o conflito de superação das formas tradicionais de ensino, vivido
por educadores e educandos. Ao mesmo tempo em que desenvolvem processos
tradicionais de ensino, reconhecem que, para o avanço na formação do
profissional enfermeiro, é fundamental que todos os envolvidos no processo
educativo consigam transcender o papel histórico e cultural da tendência
tradicional. Também reconhecem a necessidade de estabelecer novas relações
entre educador e educando permeadas pelo diálogo e generosidade, facilitando
dessa forma o processo de aprendizagem do educando.
No estudo, ficou evidente a necessidade de uma opção consciente e
reflexiva dos docentes em relação à inserção das novas tecnologias no
processo ensino-aprendizagem em enfermagem, construindo uma concepção
de informática compatível com a dimensão humana da prática
profissional da enfermagem, baseada no diálogo, na relação face a
face, onde o professor assume uma postura de facilitador desse
processo, compreendendo as funções da informática nas dimensões do
ensino, pesquisa, assistência e gerenciamento de enfermagem. (Estudo
63, ano 2004)
Em decorrência do momento do ensino que vivenciamos atualmente ser dinâmico e
influenciado pelo passado do processo de aprendizagem, destaca-se que as
escolas de enfermagem precisam buscar formas diferenciadas por meio de seus
currículos para formar futuros profissionais competentes e comprometidos com a
sociedade e as mudanças que se aplicam a mesma, com vistas de uma reflexão
crítica e reflexiva sobre a sua repercussão na prática profissional(14).
TENDÊNCIA LIBERTADORA E CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS
Do total de estudos analisados, 61 (46,56%) estão pautados em tendências
centralmente marcadas por preocupações políticas e sociais. Podem-se verificar
estudos pautados nestas tendências que trabalham com a formação do futuro
profissional de enfermagem contribuindo dessa forma com uma formação preocupada
com a realidade social que visa à transformação, como se observa nos recortes
textuais a seguir:
A formação adota a perspectiva da contextualização e da escuta das
necessidades de saúde também assegura ao aluno a capacidade de
problematizar e de descobrir as soluções criativas e cooperativas
para os problemas reais, permitindo a construção do saber e
autonomia, com a intervenção do profissional de saúde na reorientação
do modelo assistencial. (Estudo 01, ano 2004)
A formação deve ser pautada no contexto da realidade e não centrada
em conteúdos descontextualizados dos aspectos sócio, político,
econômico e cultural em que a sociedade se organiza. A formação do
enfermeiro, em sintonia com os pressupostos e diretrizes do SUS,
possibilita vislumbrar uma educação freiriana, que por ser
emancipatória e transformadora da realidade permite, ao individuo,
responder aos desafios do mundo contemporâneo sendo protagonista da
sua própria história. (Estudo 23, ano 2009)
Assim, a formação profissional pretendida para o egresso dos cursos
de enfermagem é mais aberta e dialógica e ao mesmo tempo crítica;
mais flexível e ao mesmo tempo mais rigorosa; solidamente alicerçada
em conhecimentos e principalmente, fundamentada na ética, voltada
para o desenvolvimento do raciocínio, da autonomia, da criatividade,
da comunicação e da capacidade de identificar problemas e buscar
alternativas para superá-los. (Estudo 15, ano 2007).
Estes recortes fortalecem a importância da educação ser vista como prática da
liberdade. Para que o processo ensino-aprendizagem ocorra pautado em uma
tendência libertadora e crítico-social dos conteúdos é necessário que educador
e educando desenvolvam a sensibilidade do ato de aprender juntos mesmo
possuindo experiências/saberes diferentes.
Neste movimento, os educandos precisam ter liberdade despertando a sua
criatividade, sendo este um fator essencial para o processo educativo. Além
disto, a tendência libertadora torna-se incompatível com uma pedagogia que de
maneira consciente ou mistificada, tem sido prática de dominação. Uma cultura
tecida com a trama da dominação, por mais generosos que sejam os propósitos dos
seus educadores, é barreira cerrada às possibilidades educacionais dos que se
situam nas subculturas dos proletários e marginais(15).
Os educadores não apenas instruem, mas estimulam o aluno a tomar
decisões, fazer observações, perceber relações e trabalhar com
hipóteses. Dessa forma, o professor facilita ao estudante que
incremente o seu poder (empowerment), ou seja, conducentes a
aquisição de poder técnico (saber) e político para atuar em prol da
sociedade. (Estudo 10, ano 2006)
Um dos eixos principais da prática freireana fundamenta-se na (re)educação do
educador. A formação profissional do educador e seu compromisso com a sociedade
necessitam ser um processo constante e permanente imerso em um contexto social,
que é condicionador, mas não dependente dele. É necessário a existência de uma
estreita relação entre o pensar e a agir dando maior visibilidade à autonomia
pedagógica dos educadores com vistas à transformação do contexto social.
Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo
programático da educação não é uma doação ou uma imposição - um
conjunto de informes a ser depositado nos educandos, mas a revolução
organizada, sistematizada e acrescentada ao povo, daqueles elementos
que este lhe entregou de forma desestruturada(15).
Os estudos que abordaram como ocorre o processo ensino-aprendizagem dentro de
uma tendência emancipatória, ressaltam a importância do educador como
facilitador e estimulador no processo educativo. Além disso, destacam como
elementos-chave neste contexto o diálogo, a amorosidade, a empatia e o respeito
para com os educandos. A curiosidade epistemológica, como inquietação ao
desvelamento do novo, é parte essencial do processo educacional(16).
Os recortes textuais abaixo elucidam o que foi dito anteriormente:
É preciso estar aberto à diversidade e as diferenças individuais e
culturais, valores e crenças dos sujeitos envolvidos no processo
ensino-aprendizagem, valorizando-se os vínculos afetivos e as
efetivas amorosidade, possibilitando, dessa forma, o diálogo
consensual e a construção do conhecimento. (Estudo 28, ano 2010)
A aplicação do modelo de avaliação emancipatória com os enfermeiros
da Unidade de Terapia Intensiva Coronariana de um Hospital de Ensino
[...] proporcionou a reflexão, a compreensão e a transformação das
atividades educativas de forma libertadora (Estudo 46, ano 2007)
Essa educação, por sua vez, não deve ser vista apressadamente como um
programa centrado na transmissão pura e simplesmente, por meio do ato
de depositar, transferir e transmitir valores e conhecimentos,
visando à modelagem de formas de pensar, sentir e agir. Deve ser
concebida, a partir da perspectiva dialógica de Paulo Freire, como o
usuário do serviço ser reconhecido como sujeito portador de um saber
que pode ser base para uma prática emancipatória de ressignificação
do processo saúde-doença-cuidado. (Estudo 22, ano 2010)
No que diz respeito à postura dos educadores dentro do processo educativo, a
produção científica dos Grupos de Pesquisa em Educação em Enfermagem aponta
para uma prática docente crítica e reflexiva, em que o educador busque adquirir
princípios éticos na relação educador/educando no intuito de alcançar uma
realidade justa e solidária.
Tanto o curso presencial quanto o curso a distância de qualidade
possuem os mesmos ingredientes. Ambos dependem de educadores maduros
(intelectual e emocionalmente), entusiasmados e que saibam motivar e
dialogar. Depende, também, da curiosidade e da motivação dos alunos,
o que facilita e estimula as melhores qualidades do professor [...].
(Estudo 125, ano 2008)
A opção pedagógica para o site foi trabalhar na perspectiva que
considera o aluno como construtor do seu conhecimento, no qual o
professor deve ser orientador/facilitador do processo educativo, com
base nas propostas emancipadoras e libertadoras de Paulo Freire.
(Estudo 62, ano 2007)
A implementação desses recursos no ensino depende de uma concepção de
educação que valoriza o diálogo e considera 'o aluno como um sujeito
que constrói seu caminho rumo ao conhecimento', sendo o professor
aquele que auxilia nesta construção. (Estudo 60, ano 2007)
Também foi possível averiguar em muitos textos, a importância do trabalho em
grupo, sendo o mesmo considerado como uma mola propulsora na interação e
desenvolvimento entre os pares. Como é possível observar nos recortes textuais
abaixo:
O papel do coordenador de grupos nesse contexto é o de atuar como um
facilitador que fortalece o grupo, propiciando o elo coesivo - a
sinergia - que se constitui no elemento essencial, na força
impulsionadora do desenvolvimento grupal. (Estudo 30, ano 2007)
O trabalho grupal deve ser fundamentado na comunicação contínua entre
os pares, integrando o ambiente interno e externo e transformando a
administração auto centrada, formal e fechada em administração que
contemple o caráter da interdependência; sendo dinâmica,
participativa, integradora e flexível, e ainda, aberta, democrática e
cooperativa, na qual os indivíduos possuem senso de autonomia sem
perder a concentração na meta coletiva. (Estudo 95, ano 2004)
Outro aspecto evidenciado na produção científica nesta tendência foi o papel do
educando no processo ensino-aprendizagem. Para essa tendência é fundamental que
o mesmo participe como sujeito ativo e curioso na construção do seu
conhecimento, sendo imprescindível o desenvolvimento da autonomia e o respeito
ético a este princípio, como pode ser percebido nos extratos textuais a seguir:
A autonomia do aluno nos processos de aprender a fazer, a conviver, e
a ser, torna-se um desafio colocado aos professores de enfermagem. A
autonomia caminha de modo inseparável da liberdade e da
responsabilidade, e não está dissociada do convívio social, em
comunidade; é um processo simultaneamente individual e coletivo,
micro e macro-orientado, e se desenvolve por meio da participação
ativa do sujeito - neste caso, o aluno. (Estudo 91, ano 2010)
A intenção dos programas educativos de gerarem habilidades para uma
tomada de decisão contextualizada e plena nos seus determinantes
biopsicológicos é complexa e, do ponto de vista pedagógico, requer
uma proposta de ensino capaz de promover o aprendizado de forma
autônoma e reflexiva; com respeito aos conhecimentos e experiências
prévias; permeado pelo contato com a realidade com o meio ambiente,
com as outras pessoas. (Estudo 86, ano 2010)
Para que ocorra a verdadeira transformação no ato educativo, os educadores
necessitam induzir a percepção e curiosidade dos educandos em relação ao
contexto no qual cada um está imerso, mostrando que o processo educativo ocorre
para além da sala de aula, através da liberdade e da reflexão coletiva e
individual perante a sociedade. Sendo assim, a sala de aula deve ser entendida
como um momento inicial do processo educativo(16).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise dos 131 artigos científicos produzidos pelos Grupos de
Pesquisa em Educação em Enfermagem, percebe-se um movimento intenso em busca de
transformação da Educação em Enfermagem. Identifica-se o desejo do rompimento
com o modelo cartesiano do processo ensino-aprendizagem. A grande concentração
de textos embasados em tendências libertadoras, ou com a ambição em adotá-las,
revela um fator positivo na postura destes Grupos de Pesquisa.
Neste sentido, destaca-se que na formação dos profissionais de Enfermagem é
imprescindível a presença do pensamento crítico-reflexivo, problematizando os
pressupostos e fundamentos desta formação, reafirmando dessa forma os
compromissos que consideram básicos para a cidadania, onde a educação assume o
papel de mediadora de uma prática social.
Para que a Enfermagem como ciência transcenda de forma efetiva para posturas
pedagógicas libertadoras é importante que os Grupos de Pesquisa em Educação em
Enfermagem considerados importantes disseminadores desse conhecimento,
desenvolvam e incentivem trabalhos que fomentem o debate, demonstrem
experiências pedagógicas exitosas, desvelem os resultados da formação a partir
de processos pedagógicos diferenciados, contribuindo com a transformação que a
formação em Enfermagem requer para fazer frente aos novos desafios do mundo
contemporâneo.