Promoção da saúde e participação comunitária em grupos locais organizados
INTRODUÇÃO
A pluralidade como característica interpretativa do conceito de promoção da
saúde exige esclarecer a priori que a abordagem em apresentação se pauta nas
ações formuladas e aplicadas das políticas públicas em saúde, com destaque à
gestão participativa em nível de atenção básica. Atenção que se traduz nas e
pelas ações da equipe da Estratégia Saúde da Família, conduzidas para tornar a
comunidade parte decisiva e fundamental no enfrentamento das limitações do
próprio serviço de saúde e das vulnerabilidades socioambientais locais(1).
As ações de trabalho referidas caracterizam-se pela tentativa em superar o
paradigma biocentrado consolidado desde a década de 70(2), cujo planejamento
está direcionado para intervir nos aspectos do ambiente natural, ou seja, nas
características da infraestrutura local das comunidades(3). Para viabilizar tal
pretensão o envolvimento dos moradores da comunidade constitui-se na essência
propulsora para a realização de um trabalho com possibilidades de elevar a
saúde da comunidade, sem eximir a realização das ações clínicas(3).
O envolvimento comunitário no trabalho da equipe da Estratégia Saúde da Família
responde parcialmente a pretensão de atuar, prioritariamente, na perspectiva do
entendimento de saúde como condição determinada e condicionada por fatores
socioambientais e não somente pela ausência de equilíbrio metabólico do
organismo humano(4-5).
Para a participação ativa da comunidade nas ações da referida equipe tornou-se
condição a capacitação dos moradores das comunidades, de modo, a controlar a
saúde individual e coletivamente. Controle que perpassa pela possibilidade de
identificar os anseios, as necessidades humanas básicas, bem como, de intervir
no ambiente natural local(6).
Assim, o presente estudo responde: Como a participação comunitária nos grupos
locais organizados promove a saúde socioambiental? Nesta perspectiva, a
particularidade do que se propõe é fortalecer os potenciais das comunidades, ou
seja, dos seus moradores para controlar, amenizar e evitar o aparecimento de
enfermidades ou agravos. Para tanto, objetivou-se conhecer a articulação dos
grupos locais organizados com os profissionais da equipe da Estratégia Saúde da
Família para a promoção da saúde socioambiental.
METODOLOGIA
Estudo exploratório-descritivo e analítico, realizado em 13 grupos comunitários
localizados em 03 municípios adstritos à Terceira Coordenadoria Regional de
Saúde do Estado do Rio Grande do Sul - Brasil. Os participantes foram
selecionados a partir dos seguintes critérios de elegibilidade: estar adstrito
ao território de cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) no período do
levantamento das informações a respeito do cenário de investigação - 2008;
desenvolver suas atividades no mínimo há seis meses e não se configurar como um
grupo de atendimento a patologias preconizadas ministerialmente para
intervenção da ESF.
A população do estudo compôs-se por 70 envolvidos exclusivamente em um dos
grupos comunitários investigados, quais sejam: 05 grupos de artesãs, 04 grupos
de moradores, 02 grupos de conselheiros locais de saúde, 01 grupo de pescadores
e 01 grupo de recicladores de resíduos sólidos. Houve ainda a perda dos
participantes de 01 grupo de educação, de 01 de pescadores e outro de
conselheiros devido à interrupção ou a inatividade no período da coleta de
dados. Esta se realizou por meio de entrevista semiestruturada gravada em 2009
e 2010.
Aplicou-se análise qualitativa de conteúdo(7) construindo-se duas categorias
empíricas - O envolvimento comunitário nos grupos locais organizados e O
interesse da comunidade em participar dos grupos locais organizados a partir da
utilização do software NVivo versão 7.0, apresentadas na Figura_1.

As categorias empíricas envolvimento e interesse dos grupos locais organizados
emergem da narrativa dos envolvidos de modo não excludente. Elas articulam-se
por apresentar subcategorias que se reafirmam na narrativa dos participantes,
quais sejam: solicitação, conhecimento, convívio e sobrevivência.
Por se tratar de pesquisa com seres humanos atendeu-se a Resolução do Conselho
Nacional de Saúde nº 196/96, obtendo a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa
da Universidade Federal do Rio Grande, parecer n. 52/2008 e, das secretárias
municipais. Utilizou-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido do
Participante e códigos para identificação das entrevistas, quais sejam: M
(município), G (grupo), P (participante).
RESULTADOS
O conjunto de informações apresentadas evidencia a promoção da saúde
desencadeada pela participação comunitária. A categoria envolvimento
comunitário revela a mobilização dos profissionais da ESF e dos moradores como
forma de gestão participativa da saúde. O interesse em participar dos grupos
locais organizados indica as proposições individuais que se potencializam em
coletivo e refletem-se no atendimento das necessidades humanas básicas
psicobiológicas e socioambientais.
O envolvimento comunitário nos grupos locais organizados
A participação das artesãs nos grupos foi referida por 19 (54,28%) das 35
envolvidas como decorrente do convite da equipe da ESF, especialmente dos
agentes comunitários de saúde, com 17 (48,57%) referências. Exemplos:
(...) elas [agentes comunitários de saúde] vão à casa da gente e
pedem pra gente vir (...) eu sei que é bom, a gente aprende alguma
coisa, não fica pensando bobagens, sai de casa (...) (M01 G01 P03).
Fui convidada por uma Agente (M01 G03 P05).
Soma-se a essas, aquelas que referiram experiência prévia e afinidade com este
tipo de trabalho manual, 14 (40%) referências, tal como:
(...) sempre fiz esses trabalhos manuais (...) já até vendi e ganhei
um dinheirinho, fui a festinhas e levei como presente (...) isso é
bom porque a gente pode sair, sem ficar constrangida por não ter nada
para levar de presente (M01 G02 P06).
Outras 14 (40%) revelaram o desejo em aprender e ensinar; 13 (37,14%) referiram
ainda que o envolvimento deu-se como uma forma de valorização dos seus
conhecimentos e das suas habilidades pela equipe da ESF.
Venho para cá para me distrair e fazer alguma coisa, a gente tem que
fazer alguma coisa assim para aprender (M01 G05 P18).
Porque eu queria aprender, no caso, talvez amanhã ou depois, ter um
ganho com isso. (M01 G02 P32).
Porque eu tenho a oportunidade de ensinar, conhecer mais gente e mais
gente aprender a fazer o que eu sei fazer (M01 G01 P01).
A gente aprende a conviver com as pessoas, a ter mais conhecimento,
participar, como se diz, da comunidade (M01 G04 P22).
Essa valorização e reflete ainda no âmbito familiar, pela composição da renda,
para 07 (20%) envolvidas.
Em primeiro lugar porque eu acho que o artesanato ajuda muito na
renda familiar e porque eu amo artesanato, é uma das paixões que eu
tenho, e acho que muitas pessoas através do artesanato sobrevivem
(M01 G03 P27).
Para 06 (17,14%) o envolvimento representou uma possibilidade de compartilhar
seus anseios com pessoas que vivenciam uma mesma realidade social e de
construir suporte para o enfrentamento das problemáticas decorrentes desta.
Por causa das amizades, eu gostei, são boas, a gente brinca bastante,
conversa bastante, troca um monte de ideia (M01 G02 P26).
Eu me senti bem, sabe, é só pra mulher e a gente conversa e aí uma
desabafa, outra troca receita e inventa de fazer um bolo, sabe, então
eu me senti bem, então continuei participando (M01 G05 P16).
Dos 08 envolvidos nos grupos de conselheiros locais de saúde, 06 (75%)
referiram a solicitação da equipe da ESF como motivação para sua participação,
[...] foi quando eu comecei a participar de saúde mental, (...) me
convidaram para participar, para apóia o trabalho do posto médico pra
gente mexe com as coisas (M01 G07 P03).
Outros 06 (75%) referiram o próprio interesse pelo trabalho dos profissionais;
05 (62,5%) buscam contribuir para o atendimento das necessidades da comunidade,
por exemplo,
Foi por problema de saúde que eu vi certas ineficiências, certas
carências mesmo do atendimento, fiquei sabendo da reunião, pedi mais
detalhe, eles falaram detalhes pra mim, disseram que seria
interessante e eu como não sou de fugir (...) (M01 G06 P02).
Outro refere a experiência em outros grupos comunitários organizados como fator
de estímulo à sua participação,
(...) fui escolhida pela Pastoral DST/AIDS para ser uma das delegadas
e quando nós chegamos nessa pré-conferência à gente viu assim que o
município tinha propostas boas, tinha coisas boas, mas para o
município. E que a nossa realidade local era outra bem diferente, que
nós tínhamos outras necessidades básicas que não era bem aquilo ali,
então a gente precisava montar um grupo. Aí então foi quando a gente
foi informado de que nós podíamos montar um Conselho Local de Saúde e
a gente começou a se reunir (M01 G07 P05).
No grupo de recicladores de resíduos sólidos a participação de 05 (100%) deu-se
como uma oportunidade de obtenção de renda para a totalidade dos envolvidos,.
As gurias me convidavam, eu não queria, eu não vou nada, mas aí
depois eu disse, na verdade eu to precisando de dinheiro (...) (M01
G08 P04).
Porque as gurias me convidaram para fazer o curso e eu fui ficando,
ficando e fiquei (M01 G08 P02).
Porque eu gosto, para mim foi uma boa porque eu tinha problema de
nervos e aqui, melhorei um monte, melhorei mesmo (...) (M01 G08 P03).
A necessidade econômica do coletivo de pescadores, 05 (100%) foi referida como
motivação para o envolvimento dos mesmos.
Eu estava desempregado, parado, pescando, aí os guris me convidaram,
faltava um alguém para transportar o peixe até a fábrica ou pegar um
gelo (...) a gente precisa de dinheiro para ter saúde, pra comer,
comprar até os remédios (M01 G09 P02).
Agrega-se ainda o conhecimento referido por 02 (40%) dos envolvidos a respeito
dos incentivos governamentais para o desenvolvimento organizado do trabalho
deste setor produtivo da sociedade, tal como:
Nós temos um programa, fazemos parte do RS Pesca que através da nossa
participação a gente consegue arrumar as embarcações, as redes, até
comprar alguma coisinha para a sede como os frízeres (...) em
parceria com o pessoal conseguimos material de construção e nós [os
pescadores] decidimos quem são os pescadores que precisam ou outras
pessoas da comunidade de casa e nós construímos (...) assim a gente
ajuda muito na saúde da comunidade (M01 G09 P04).
A construção do Grupo de Moradores consolida-se a partir da existência de um
trabalho voluntário prévio para 17 (100%) dos envolvidos que permitiu a
agregação de novos integrantes por meio do convite realizado a 08 (47,05%) dos
envolvidos.
Eu já fazia parte (...) nós arrecadamos roupas, alimentos e
distribuímos nas comunidades há muito tempo (...) há pouco fui
convidada para fazer parte de um grupo daqui, dessa comunidade (M02
G10 P05).
Outro interesse referido por 02 (11,76%) envolvidos constitui-se na manutenção
do trabalho da ESF e para 01 (5,88%) na possibilidade de trocar experiências e
aprender com o outro.
(...) o estatuto diz que tem que ter eleições de dois em dois anos, é
uma coisa assim, que tu não ganha nada (...). Então as pessoas não
estão muito dispostas a se doarem. E a gente tem uma ideia que ela
[grupo comunitário local] não pode se extinguir por causa do PSF, que
se extingue, compromete o PSF, então por isso, por estes motivos
assim que a gente sempre tem mantido (...) de dois em dois anos tem
eleição (M02 G10 P01).
(...) a gente aprende conversando um com o outro, contando dos
problemas, como fez para resolver, indica quem pode ajudar, onde deve
ir porque, às vezes, as pessoas nem se dão de conta que aquela
pessoainha já passou por isso ou algo parecido, não é, e sabe como
fazer (M02 G12 P09).
O interesse da comunidade em participar dos grupos locais organizados
Do conjunto das 35 artesãs, 24 (68,57%) referem que o processo de ensino-
aprendizagem constitui-se na principal finalidade do trabalho do coletivo,
como:
(...) é muito porque as pessoas vêm pra cá, passam à tarde, uma
aprende o que não sabe, às vezes, eu venho pra cá e ensino elas e eu
aprendo o que eu não sei (M01 G01 P01).
A valorização da sua participação foi referida por 20 (57,14%) envolvidas como
fator para alcance do bem-estar/saúde e por 16 (45,71%) como a possibilidade de
contribuir para a renda familiar, outras 11 (31,42%) salientam a interação com
outras mulheres da comunidade como fator propulsor à sua participação neste
coletivo, conforme relato:
Aprenderem alguma coisa, até melhora a renda familiar, pra fazer
algum trabalho, alguma coisa, e até mesmo pra pessoa não entra, não
entra numa depressão (M01 G03 P05).
Dos 08 envolvidos nos Grupos de Conselheiros Locais de Saúde, 05 (62,5%)
revelam que o trabalho produzido decorre do interesse em dar resolutividade às
ações em saúde realizadas pela equipe da ESF, por exemplo:
Acompanhar, fiscalizar, deixa vê, viabilizar, viabilizar soluções
(...) do ponto de vista do Conselheiro (M01 G06 P02).
Outros 05 (62,5%) expressam também a relação com a ESF ao referirem a busca,
por meio de reivindicações, de melhorias na infraestrutura e nos recursos
materiais,
É fazer a melhora do posto médico dentro deles, aqui, nas atividades
(...) (M01 G07 P03).
E 01 (12,5%) refere que o interesse está em fiscalizar as ações promovidas pela
equipe da ESF, veja:
(...) como faltava medicamentos para a unidade, para a gente ter como
pedir, como arrumar as ruas, limpar as valetas, pra começar a tirar
os lixos dos bairros (...) entra nesse grupo por causa disso, pra
reclama, e como reclama, e a gente reclama e pede, eles não atendem
num dia e no outro dia a gente ta batendo lá de novo, não atende por
telefone a gente vai pessoalmente (M01 G06 P07).
Os Grupos de Moradores investigados compuseram-se de 17 envolvidos, dos quais
16 (94,11%) se referem à manutenção das condições sanitárias da comunidade para
o alcance do bem estar/saúde e para a formação educacional dos moradores como
interesse primordial do coletivo.
É o que sempre se fez os eventos, sempre o lucro visado nos eventos
eram tudo em beneficio da comunidade, assim melhorias ambientais (M02
G10 P04).
(...) cada diretoria tem o seu objetivo, (...) muitos objetivos em
comum a limpeza da praça, a coleta seletiva (M02 G10 P05).
Outros 05 (29,41%) envolvidos destacam a orientação comunitária, o oferecimento
de atividades de lazer e a doação de gêneros alimentícios como proposição do
trabalho desenvolvido.
Propiciar momentos de lazer, (...) de alegria por mais que eles sejam
poucos. Eu trabalho com crianças então, eu sei que um pouquinho de
momentos de alegria, um pouquinho de momentos de lazer, pra essas
crianças já é muito, pode parecer que não, mas fica marcado pra eles
por muito tempo (M02 G11 P10).
A interação da comunidade com os gestores municipais para a negociação do
alcance das necessidades locais foi referida por 04 (23,52%) envolvidos.
(...) trabalhar em prol da comunidade, por que o presidente do bairro
ele tem acesso ao poder público. É um porta-voz do bairro, das
necessidades de melhoria do bairro (...) (M02 G10 P01).
O objetivo é trabalhar em prol da comunidade, com o objetivo de levar
conhecimento a nossa comunidade, tentar fazer com que os moradores
tenham uma escola dentro do bairro, que agora já temos o CAIC, uma
quadra de esportes a qual conseguimos através de um projeto também e
agora agente tem lutado pra conseguir um posto mesmo, um posto de
saúde do bairro mesmo (M03 G11 P07).
Dois (11,76%) identificam no trabalho da associação uma fonte alternativa para
aquisição de uma renda, como:
(...) conseguir renda, um pouquinho mais de renda pra população,
fazer sabão, pegar óleo velho, (...) ele também prejudica o meio
ambiente (...) (M02 G10 P05).
O alcance de uma renda em troca do trabalho realizado pelo grupo de
recicladores e a possibilidade de contribuir para a manutenção da limpeza do
meio ambiente comunitário foram referidos por 03 (60%) dos 05 envolvidos como
principais objetivos para o desenvolvimento do trabalho do coletivo.
Ganhamos pouco, mais trabalhamos por isso, esse dinheiro e já
ajudamos a limpar a comunidade não é os lugares ficam mais limpos até
para as crianças brincarem (...) (M01 G08 P04).
Um (20%) referiu os cuidados com o meio ambiente como uma forma de ajudar a
comunidade na manutenção do bem-estar/saúde, de acordo com o relato:
Nós limpamos tudo, ajudamos a limpar o lixo das casas porque as
pessoas jogam tudo na frente, agora já aprenderam mais, dependuram os
sacos para os cachorros não rasgarem (...) tudo mais limpo fica
melhor pra gente olhar, a gente se sente melhor em casa, caminhando
na rua, pra receber visita porque às vezes o cheiro ruim vem do lixo
que o vizinho deixou atirado (M01 G08 P03).
Para os pescadores o desenvolvimento do trabalho em coletivo representa,
prioritariamente, a possibilidade para 04 (80%) dos 05 envolvidos em torná-lo
formal.
O objetivo do grupo é trabalhar na legalidade, é muito burocrático,
mas e não se quer trabalhar fora dela também (M01 G09 P03).
E, 01 (20%) refere à garantia do valor do produto no processo de negociação
como interesse primeiro do coletivo.
A gente tem o objetivo que ele [pescador] pesque seu peixe e saiba
quando ele está vendendo, quanto ele vai ganhar, vai dar valor ao seu
produto, vai cuidar dele (M01 G09 P01).
DISCUSSÃO
A promoção da saúde como resultante da interação dos grupos locais organizados
da comunidade com os profissionais da ESF revela a potencialidade, para além do
trabalho da área da saúde, dos próprios moradores da comunidade em intervir em
sua realidade.
Intervenção que ao emergir da iniciativa dos profissionais indica que tal
trabalho em saúde os permite conhecer e transformar as vulnerabilidades dos
moradores em motivação para o desenvolvimento e fortalecimento de potenciais
individuais.
No âmbito deste trabalho, os enfermeiros caracterizam a comunidade pela
compreensão dos aspectos que determinam a saúde local(1). Eles desenvolvem suas
ações pautadas no modo de viver e de sobreviver da comunidade assegurando,
assim, uma interação que mantém a saúde pela participação comunitária no
próprio modo de trabalho da equipe(8).
O envolvimento e o interesse, neste sentido, estão implicados na aproximação
entre profissional e comunidade, com fins de construir uma relação interpessoal
de confiança. Esta se fortalece pela melhora clínica da problemática momentânea
que acomete o cliente e, especialmente pela manutenção de uma interação que
valoriza a participação comunitária no trabalho da equipe da ESF e nas ações de
integração entre membros da própria comunidade.
O trabalho de acompanhamento e monitoramento da saúde dos moradores realizados
pelos profissionais da ESF configura-se como um momento de encontro. Para os
enfermeiros, neste instante, é possível promover à saúde, especialmente, porque
se produz um diálogo bidirecional entre os envolvidos. Interação que gera a
ampliação das estratégias de autocuidado e, mais do que um diálogo preventivo,
desencadeia sentimentos de pertença e de identificação do morador com sua
comunidade, mediado pelo trabalho em saúde(9).
Paralelamente à iniciativa dos profissionais, o conhecimento como o desejo
expresso pelos moradores em estimular suas habilidades e apreender novas
práticas por meio das ações desenvolvidas nos grupos locais organizados
representa que o potencial individual se fortalece em coletivos e pelo trabalho
da equipe de ESF.
Fortalecimento marcado pela capacidade de estímulo ao pensar produtivo, que
ocupa o tempo do cotidiano da vida comunitária e propicia mais do que aprender,
desenvolver ou aperfeiçoar habilidades individuais. Contribui para o
afastamento de problemas que tornam os moradores vulneráveis às adversidades
socioambientais.
No ambiente de trabalho da ESF, a negociação para a participação dos moradores
nas ações de promoção da própria saúde demonstra que o enfermeiro favorece o
acesso ao atendimento das necessidades clínicas(5). Em contrapartida a
participação comunitária nas ações conjuntas torna-se ativa pela liberdade em
interagir solicitando esclarecimentos e escolhendo os assuntos de interesse
particular que serão abordados garantindo a privacidade do desejo do morador
(10), fator que evita constrangimentos e delimita interesses comuns(11).
O conhecimento evidenciado estabelece um caráter dinâmico às relações
interpessoais. Se por um lado os moradores têm na equipe da ESF um meio para
obter maior suporte à promoção de sua saúde, por outro revelam que este os
permite arguir os profissionais da saúde em prol de seus interesses para torná-
los comuns a ambos.
A comunalidade de interesse entre os envolvidos em uma interação constitui-se
no alicerce para constituição e consolidação de um ambiente de trocas pela
compreensão das relações estabelecidas(12). Tal compreensão implica na forma de
participação dos moradores nos grupos locais organizados e na relação destes
com os profissionais da saúde.
O trabalho da equipe da ESF ao mediar às relações interpessoais promove a
gestão participativa das ações comunitárias que se consolida pelo interesse da
comunidade em articular-se para mantê-lo e para qualificá-lo em termos de
condições de trabalho. Para tanto, o conhecimento da sua funcionalidade
propulsiona a participação comunitária que se sentem impelida a dar suporte às
negociações entre profissionais e gestores.
Os gestores municipais buscam caminhos para atender a diversidade de
necessidades dos moradores e das comunidades e entre tais, a interação como os
clientes do trabalho da ESF, promove a resolutividade dos serviços. Contudo, se
por um lado há liberdade no trabalho da ESF para promover a participação e o
restabelecimento da saúde, por outro existe uma fiscalização do cumprimento das
metas de produtividade. Assim, coexistem normatizações distintas entre os
profissionais envolvidos neste tipo de produção em saúde(13).
A participação da comunidade no trabalho da ESF por meio dos grupos locais
organizados converge para afirmar a implementação de uma nova proposta de
atenção à saúde. Proposta que almeja intervir em situações de risco para
amenizar os efeitos deletérios do processo de desenvolvimento dos povos(14).
O chamamento para participar dos grupos locais organizados pode também ocorrer
por iniciativa dos próprios envolvidos, especialmente, pela identificação da
necessidade de aquisição de uma fonte de renda ou ainda quando já há o
desenvolvimento e conhecimento do modo de trabalho em coletivo. Os
participantes envolvem outros moradores pela expressão de interesses comuns que
perpassam a questão econômica individual e insere-se no âmbito das necessidades
humanas básicas de recreação, gregária, lazer, entre outras de cunho coletivo.
O isolamento social, a impossibilidade de expressar-se ou de comunicar-se
provoca o adoecimento psicobiológico nas comunidades(15). A essência da
condição humana está implicada na necessidade de sentir-se integrante de um
coletivo conceituado ou definido socialmente, mesmo que cada morador de uma
comunidade tenha em si sua singularidade que se conforma na pluralidade e
potencialidade do ser, fazer, querer coletivo(16).
O envolvimento nesta interação compõe-se do interesse individual em suprir suas
necessidades humanas básicas que na dinâmica das ações de trabalho transbordam
a competitividade das relações formais para produzir suporte à comunidade pelo
acesso a informações que promovem a saúde(17).
O convívio decorrente deste modo de atender às necessidades individuais de uma
comunidade foi ressaltado pelos moradores envolvidos nos grupos locais
organizados como fator para o alcance do bem-estar. Este como resultado do
incentivo dos profissionais da ESF ou dos próprios moradores à participação,
cuja é capaz de valorizar o conhecimento, a experiência e as habilidades
refletindo-se em mais do que uma forma para aproximar os moradores e
identificar as estratégias locais de enfrentamento das vulnerabilidades.
Valorização que se irradia para as interações sociais devido à possibilidade de
produzir renda e contribuir para a sobrevivência familiar.
A promoção da saúde, nesta perspectiva, caracteriza-se pela solidificação do
autocuidado como expressão do potencial de postar-se cotidianamente frente a
situações de tomada de decisões que repercutirão sobre os desejos de apreender
saberes, buscar verdades e produzir o bem-estar para si e para outrem(18).
Desejos que obtêm nas ações do trabalho da equipe da ESF um meio para sua
viabilidade, já que laços de amizade são construídos a partir de interações que
propiciam lazer, entretenimento e diversão concomitantemente a manutenção da
condição de saúde da comunidade, cuja articulação está assegurada nas e pelas
ações do enfermeiro(5).
O trabalho do enfermeiro na ESF provoca um mútuo e recíproco atendimento às
necessidades humanas básicas da comunidade na interação desencadeada entre o
profissional e representantes dos grupos locais organizados por permitir a
concretização da gestão participativa em saúde(19). Esse profissional
fundamenta-se em um conhecimento clínico específico da enfermagem para intervir
na complexidade dos determinantes locais da saúde avançando, assim, em termos
de resolutividade das problemáticas comunitárias(20).
Seu trabalho apoia-se nos desejos da comunidade para promover a saúde na
simplicidade da (re)significação da autoimagem dos participantes dos grupos
locais organizados. Avançando amplamente para consolidação da própria ESF, bem
como para a qualidade das relações interpessoais e de saúde dos moradores.
A investigação da participação comunitária apresentada tem como limite a
valorização da organização dos moradores no envolvimento e na definição de
interesses em conjunto com o trabalho da equipe de ESF em detrimento a
especificidade do tipo de produção realizada nos grupos locais organizados por
entender que a promoção da saúde está para além da aquisição de renda, mas na
autovalorização dos envolvidos como forma de estimular o bem-estar dos e para
os moradores.
CONCLUSÃO
A participação comunitária investigada decorre da interação entre moradores e
destes com a equipe da ESF com a finalidade de promover a saúde dos indivíduos
e do ambiente natural comunitário. Assim, o envolvimento e o interesse da
comunidade em participar dos grupos locais organizados decorrem da iniciativa
dos profissionais da saúde e dos moradores, já participantes desses grupos,
para disseminar informações e conhecimentos a respeito do acesso e do modo de
trabalho do serviço local de saúde, ou seja, da ESF.
A participação contribui para o convívio de moradores que buscam alternativas
para a manutenção e estabelecimento de um maior grau de saúde, promovido nos
grupos pela interação interpessoal. Esta corrobora para a sobrevivência dos
envolvidos pela melhoria do bem-estar individual que fortalece a participação
produtiva. Logo, o trabalho tem como resultado a produção da capacidade de
negociação de mercadorias comercializáveis, de modo que, ele implica na
aquisição de melhorias socioambientais e de renda.
Deste modo, a promoção da saúde se expressa nas ações dos grupos locais
organizados que buscam a saúde para si, intervindo no seu modo de viver e de
sobreviver, ou seja, agindo sobre os danos da ação humana. Paralelamente, os
participantes se fortalecem porque conquistam maiores possibilidades de serem
(re)conhecidos como sujeitos capazes de provocar mudanças no contexto local, na
e para a saúde e a natureza.
A contribuição deste estudo está para além do estímulo às ações de gestão
participativa no âmbito da saúde, mas em destacar o potencial existente nas
comunidades, fundamento a ser explorado pela ampliação do convívio dos
interessados em promover à saúde e garantir a sobrevivência das comunidades.