A família revelando-se como um ser de direitos durante a internação hospitalar
da criança
INTRODUÇÃO
Na internação hospitalar da criança, geralmente, ela se faz acompanhar por um
dos membros de sua família. É no familiar que ela busca apoio e proteção, pois
o seu cuidado contempla o componente afetivo, tão necessário neste momento.
Verifica-se que o cuidado à criança não é exclusividade da Enfermagem ou dos
outros profissionais da saúde no hospital. A família também cuida, só que
baseada nos seus referenciais(1). Assim, o cuidado à criança passa a ser
compartilhado entre a equipe de enfermagem e o familiar cuidador que a
acompanha.
Ao ser envolvida no cuidado, a família tem o direito de conhecer o projeto
terapêutico proposto para seu filho e de ser instrumentalizada acerca do
processo de hospitalização, para que tenha condições de enfrentá-lo. A
experiência da internação no hospital, em razão das suas características e
rotinas, muitas vezes rígidas e inflexíveis, pode gerar desconforto no
paciente, impessoalidade, dependência da tecnologia, isolamento social, falta
de privacidade, perda de identidade e da autonomia, dentre outros, rompendo
bruscamente com seu modo de viver, incluindo suas relações e papéis. Neste
caso, a identidade e a autonomia podem ser afetadas, comprometendo sua
capacidade de escolher, decidir, opinar e expressar-se(1).
A hospitalização para a criança pode ocasionar um sentimento de ameaça,
agressão, medo do desconhecido, pois é nesse momento que ocorre a separação de
todos os objetos significativos de sua segurança. Por outro lado, à família
pode apresentar angústia, ansiedade e sentimento de culpa. Informar a criança e
sua família sobre os seus direitos durante a hospitalização garante uma maior
compreensão da situação e pode aliviar parte dos sentimentos negativos que eles
possam sentir(2).
Verifica-se que, em muitas situações, a família revela-se como um ser de
direitos no hospital. Ela o faz quando se reconhece como tal; solicita seus
direitos e luta para manter sua autonomia. Apesar disso, ainda, há situações em
que se submete à equipe de saúde pelo bem da criança(3-4).
Quando se reconhecem como um ser de direitos, as famílias manifestam seus
pensamentos e, é através destas manifestações, que a equipe de saúde pode
avaliar seu prestígio e imagem, frente a elas. Em diversas situações lutam
pelos seus direitos e, a partir de suas vivências e dos significados que
atribuem às suas experiências sugerem melhorias, com vistas a facilitar os
cuidados à criança no hospital.
A família utiliza como estratégias o reclamar, o questionar, o negar-se, o
brigar, o insistir, o bater o pé e o exigir, exercitando, assim, seu poder e
sua resistência frente à equipe de saúde. Ao entrar no hospital, sofre e,
fragilizada, em muitas situações, passa a depender da ajuda dos profissionais
para tomar decisões acerca do processo saúde e doença da criança. Assim, luta
pelo seu direito através da ação dos profissionais por reconhecê-los como seus
representantes, capazes de auxiliá-los neste momento(5).
A família, através da sua participação ativa no cuidado à criança, procura
manter sua autonomia frente à equipe de saúde. Neste sentido, compartilha
decisões sobre o cuidado da criança e tenta participar, conversando acerca do
plano terapêutico, a fim de subsidiar suas decisões, negociando com a equipe o
cuidado, tomando decisões a partir das avaliações que realiza(6).
Aquelas famílias cujo familiar cuidador da criança não possui uma boa rede de
suporte social na sua comunidade expressam que, mesmo no hospital, não podem
perder o controle da situação no domicílio. Precisam continuar mantendo sua
autonomia, também, em casa, como forma de dar conta das necessidades dos outros
filhos que lá se encontram, mesmo sentindo-se sobrecarregadas.
Em nosso país, a doença é um negócio altamente lucrativo e o Sistema Único de
Saúde vigente ainda não conseguiu garantir o acesso aos serviços de saúde de
forma igualitária para todos(3). Atualmente, ao entrar no mundo do hospital
verifica-se que a família exerce seu direito a um atendimento de qualidade
quando luta para manter sua autonomia, quando negocia e compartilha o cuidado
da criança com os membros da equipe de saúde, quando mobiliza uma rede de apoio
social para auxiliá-la a cuidar da criança.
Ao reconhecer-se como um ser de direitos, passa a reivindicá-los, mesmo que no
hospital o poder penda mais para o lado dos profissionais. Ainda, quando,
aparentemente, se submete às vontades da equipe, é porque, até certo ponto, as
entende como necessárias para o benefício da criança. Desta forma, a aparente
submissão revela-se como uma forma de cuidado familiar à criança(7).
Participar do cuidado à criança no hospital, durante sua internação,
possibilita às famílias não somente desenvolverem suas habilidades técnicas.
Através da sua participação no cuidado, as famílias estão conhecendo mais o
cotidiano do hospital e, a partir deste conhecimento, estão desenvolvendo sua
consciência crítica e sua autonomia, fortalecendo seu poder de reivindicação,
tornando-se mais participativas no processo de tomada de decisões, quanto ao
cuidado à criança e aptas a fazerem sugestões para sua melhoria(8).
Nesse contexto, este estudo teve como objetivo conhecer as situações em que as
famílias se revelam como seres de direito no hospital durante a internação da
criança.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa descritiva de abordagem qualitativa. É qualitativa
porque se refere à pesquisa sobre a vivência das pessoas, experiências vividas,
comportamentos, emoções e sentimentos, e também sobre o funcionamento
organizacional, movimentos sociais, fenômenos culturais e interação entre
nações. Refere-se à pesquisa descritiva porque descreve o fenômeno investigado,
possibilitando conhecer os problemas vivenciados(9).
Foi realizada no segundo semestre de 2011 e teve como referencial metodológico
a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), que consiste na coleta, codificação e
comparação simultânea e sistemática dos dados, possibilitando explorar o
fenômeno investigado gerando teoria que explique e possibilite a compreensão de
fenômenos sociais e culturais(10).
O estudo foi desenvolvido na Unidade de Pediatria de um Hospital Universitário
(HU), no sul do Brasil, que tem como campo de atuação o ensino, a pesquisa, a
extensão e a assistência à saúde. Participaram do estudo dezoito familiares
cuidadores de crianças internadas no setor, no período de realização do estudo,
sendo que quinze foram distribuídos em três grupos amostrais, conforme orienta
a TFD e três participaram da validação dos dados.
Como critério para a escolha dos participantes utilizou-se ser cuidador
significativo da criança e prestar-lhe cuidados diretos no hospital durante a
realização da coleta dos dados. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido em duas vias, ficando uma cópia com cada participante. Foram
identificados pela letra F seguida do número da entrevista, como forma de
garantir seu anonimato.
A coleta de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas,
operacionalizadas através de um plano de entrevista, com cada cuidadora. Foram
questionados acerca das situações em que se revelam como seres de direito no
hospital. Estas foram agendadas com cada familiar, gravadas e transcritas para
análise.
O processo de análise inicial deu-se através da Codificação aberta dos dados,
em que as falas foram minuciosamente detalhadas, através do exame do conteúdo,
linha por linha, de forma a elaborar as unidades de análise. Na Codificação
axial foram relacionadas categorias às suas subcategorias, ao longo das linhas
de suas propriedades e dimensões. E na Codificação seletiva, gerou-se o modelo
paradigmático. Ele estabelece uma relação entre as categorias, envolvendo,
respectivamente, causa, fenômeno, contexto, condições intervenientes,
estratégias de ação/interação e consequências(9).
Foram respeitados os princípios éticos da pesquisa envolvendo seres humanos,
conforme a Resolução 196/96(11). O projeto do estudo foi submetido ao Comitê de
Ética da Universidade Federal do Rio Grande/ FURG recebendo parecer favorável
sob número 133/ 2011.
RESULTADOS
A análise dos dados mostrou que a família revela-se como um ser de direitos,
quando a reconhecem como tal; solicita e luta pelos mesmos; sugere melhorias
para o cuidado à criança; mantém sua autonomia no hospital; tendo que submeter-
se às decisões da equipe. Apesar disso, ainda, há situações em que a família
submete-se à equipe de saúde pelo bem da criança.
Sendo reconhecida como um ser de direitos
As famílias das crianças internadas sabem que têm direitos de estar no hospital
e de serem bem atendidas pelos profissionais que lhes assistem.
Até agora estão sendo atendidos meus direitos aqui no hospital, se
não estivessem eu reclamaria, pois são os meus filhos. Para mim é
tranquilo, eu não tenho nada para reclamar (F2).
Acho que meus direitos estão sendo respeitados aqui no hospital. Tudo
o que pedi para a equipe, até agora, foi feito sem cara feia, sendo
bem prestativos comigo. Entram no quarto já brincando (F3).
Reconhecem-se como seres de direitos quando são informadas acerca do processo
terapêutico instituído para a criança e acerca das normas e rotinas do
hospital.
Quando foi hoje a enfermeira veio informar que pode ser feita uma por
turno, pois o médico deixou prescrito. Sinto-me bem atendida, ainda
mais quando vem uma enfermeira informando que em caso de alguma
necessidade é só comunicar (F1).
Acreditam ter seus direitos atendidos frente à solicitude e presença constante
dos profissionais da equipe.
Aí vem a moça da copa: 'o que a senhora precisar pode me chamar'. Vem
novamente, o pessoal da enfermagem, perguntando: 'se precisar de
alguma medicação prescrita é só nos falar' (F1).
Acho que os direitos que tenho estão sendo cumpridos, pois as
medicações estão vindo na hora certa, bem como estamos sendo
atendidos quando solicitamos atendimento à equipe (F5).
Ao se reconhecerem como seres de direito as famílias manifestam seus
pensamentos e, é através destas manifestações, que a equipe de saúde pode
avaliar seu prestígio e imagem, frente às famílias.
A partir do momento que meu filho é bem tratado e que não falham com
ele, pois ele precisa ser tratado. Aí, é que percebo não só o meu
direito de mãe sendo atendido. Das outras vezes que meu filho
internou no hospital, em função de crises convulsivas que ele tem de
duas a três vezes, no ano também fui bem atendida. É um direito
nosso. Durante todos os momentos da internação do meu filho, não fui
tratada com indiferença, foi sempre tudo bem (F4).
É uma equipe bem preparada e humana (F5).
Não sendo reconhecida como um ser de direitos
As famílias de crianças internadas no hospital vivenciam situações em que
percebem ter tido seus direitos negligenciados.
Foi bastante difícil, pois quando cheguei ao hospital, por volta do
meio-dia, custaram para internar meus gêmeos que só foram ser
internados às quatro e meia da tarde. Os dois passando mal e, mesmo
assim, eu custei para conseguir sequer consultar com um pediatra, se
não passam eles na frente dos outros que estavam na fila eu acho que
eu iria surtar. Achei uma falta de respeito (F2).
Na entrada do hospital, eu tive que dizer uma mentirinha para eles me
deixarem entrar fora do horário da visita. Assim, eu me sinto lesada,
quanto a esse meu direito, visto que sou eu quem cuidou da minha neta
(F5).
Lutando pelos seus direitos
As famílias são ativas no exercício de sua cidadania no hospital. Sua
permanência nesse contexto parece estar imprimindo outra dinâmica ao processo
de trabalho, pois esta interação com o ambiente e com os profissionais da
equipe de saúde faz com que conheçam o cotidiano hospitalar, reivindicando uma
maior participação no processo de cuidado, solicitando cuidados para a criança
e para si e avaliando o cuidado prestado pela equipe.
Se eu achar necessário eu peço algum exame. Estou sempre conversando
com o médico. Às vezes, eu até discuto com ele, porque eu sou
insistente demais (F11).
Quando eu acho que poderiam estar fazendo mais por ela e não estão,
eu solicito. Se uma medicação foi suspensa, como aconteceu, e os
sintomas voltaram, já peço para o médico o retorno da prescrição
deste remédio. É aquela coisa do acompanhamento de mãe. Faço isso o
dia inteiro: - Óh, faltou o soro, molhou o lençolzinho, enfim, este
tipo de coisas. Conversando, discutindo, pedindo. Eu vou pedir, vou
brigar, vou discutir, mas eu quero aquilo ali que é um direito dela,
porque eu sou uma cidadã e eu tenho direito. É batendo o pé e
exigindo (F12).
Na luta por seus direitos evidenciou-se que, muitas vezes, as famílias se
submetem aos cuidados da equipe por confiar na mesma e acreditar que esta, por
ter maior conhecimento, acerca do processo de adoecimento e necessidades de
cuidados das crianças, possuem condições de decidir o que é melhor para a
criança.
Na verdade, só em estar aqui a gente já está exercendo do direito à
internação da criança. Mas, no mais, tem muitas coisas que a gente
desconhece, não sabe dizer o que é melhor para a gente. Então, a
gente se entrega nas mãos dos nossos médicos, enfermeiras. Porque
eles é quem sabem mais e a gente confia neles (F13).
Deixo por conta deles, porque eles sabem o que fazer. O que vai ser
melhor ou não. Se eu interferi foi pra pedir que não viesse cenoura
porque ele não come e pedi que aumentasse o leite, porque ele estava
chorando com fome, mas no mais eu não me meto em nada, nem em
medicação, nem nos procedimentos, se tem que furar, colocar um soro,
fura. Paciência! Pra isso, eu já assinei lá embaixo para deixar fazer
o que fosse necessário. Eu confio muito neles, pois já internei mais
de uma vez (F14).
Sugerindo melhorias para o cuidado à criança no hospital
Quando é dada oportunidade para as famílias, as mesmas, a partir da sua
experiência com a hospitalização, têm condições de fazer sugestões para a
melhoria das condições em que o cuidado à criança é prestado na Pediatria.
Se me perguntarem eu sei dizer o que poderia ser feito para melhorar
o cuidado aqui. A gente passa algum tempo internada e passa a
conhecer a Unidade, as rotinas. Já estive aqui outras vezes (F6).
Tem coisas aqui que poderiam ser diferentes e não alteraria muito a
rotina. Ia melhorar pra gente: a comida vir aqui em cima, poder
trocar o acompanhante em diferentes horários (F10).
Outras sugestões relacionaram-se à possibilidade de mudanças em normas e
rotinas da instituição como a flexibilização dos horários de visita, a
permissão para a entrada de alimentos na unidade, a possibilidade de se lavar e
estender suas roupas no hospital.
Acho que deveria poder entrar as visitas fora de horário, porque às
vezes não se pode vir quando a gente quer e a gente precisa que nos
tragam o que a gente precisa. Não iria atrapalhar (F15).
Poderia ser diferente no caso de liberar a comida para entrar. Eu
acho que seria justo. É claro que as enfermeiras não têm culpa, mas
elas sabem que a gente fica com fome. A última refeição é às 20h da
noite. E se a criança chora a noite toda, tu tens que ficar acordada.
Tu rói o quê? Tem o que roer? Acho que poderia entrar comida (F12).
O hospital nos dá muito, mas tinham que facilitar este lado aí. Teria
que ter no hospital um local que a gente pudesse lavar e secar a
nossa roupa (F10).
Também sugeriram a possibilidade de melhoria das condições, nas quais as
famílias são instaladas possibilitando-lhes conforto para cuidar. Desta forma,
as famílias nos mostraram novas possibilidades de cuidado a serem resgatadas e
construídas, durante nosso processo de cuidar.
Eu acho que seria importante ter mais conforto aqui para que nós,
mães, ficássemos melhor. Ter uma cadeira melhor, até uma cama pra
gente (F15).
Ver a temperatura da criança toda hora. Se a criança está bem eu acho
que não tinha necessidade. Atrapalha, não deixa a gente dormir. E não
é só isso, sempre tem uma coisa para fazer. Eu acho que isso não
precisava (F11).
Mantendo sua autonomia no hospital
A família, através da sua participação ativa no cuidado à criança, procura
manter sua autonomia frente a esta e à equipe de saúde. Neste sentido, a
família participa das decisões, quanto ao cuidado da criança e tenta se impor,
conversando acerca do cuidado, a fim de subsidiar suas decisões, negociando com
a equipe o cuidado, tomando decisões a partir das avaliações que realiza.
Eu mantenho a minha autonomia, eu não complico, só vejo se tudo está
direitinho, se os remédios estão direitinho. Porque a gente cuida
junto e um ajuda o outro (F10).
Aqui é assim, todo mundo cuida. Cada um faz a sua parte. A gente
negocia, combina tudo pelo melhor para a criança (F9).
Aquelas famílias cujo familiar cuidador da criança no hospital não possui uma
boa rede de suporte social na sua comunidade expressaram que, mesmo no
hospital, não podem perder o controle da situação no domicílio. Precisam
continuar mantendo sua autonomia, também, em casa, como forma de dar conta das
necessidades dos outros filhos que lá se encontram. Precisam continuar tomando
todas as decisões em relação ao cuidado das outras crianças em casa, mesmo
sentindo-se sobrecarregadas.
Eu não tenho ninguém para tomar conta das coisas na minha casa.
Então, eu estou aqui, mas, também, estou em casa. Vou e determino as
coisas para os outros filhos. A comida, os temas, tudo. Vejo se o
marido está cuidando das roupas, dos uniformes, das contas, das
compras. Não é fácil (F14).
Tendo que se submeter às decisões da equipe
Mostrou que a família, como se encontra em um mundo desconhecido, no qual
exerce menos poder, em muitas situações, termina se submetendo às decisões da
equipe de saúde. Nas relações da equipe com as famílias, parece haver uma
assimetria de poder e, invariavelmente, a equipe procura impor às famílias suas
opiniões, exercendo sobre elas certa dominação. Por sua vez, as famílias
possuem capacidades diferentes de negociação e de controle sobre suas próprias
vidas. Este fato associado à vulnerabilidade em que se encontram no hospital
facilita a submissão das famílias à equipe.
Eu acato tudo que o médico e as enfermeiras dizem. Eles sabem mais
Ele quer dar alta com a guria ruim, mas a gente vai dar alta sabendo
que daí a um tempo vai ter que voltar de novo com a criança (F8).
Olha tem muita coisa que acontece que a gente termina tendo que
aceitar, nem que não concorde muito, porque a gente pensa na criança,
no bem dela. A gente não quer criar confusão, quer um clima bom...
Então, aceita (F11).
Os profissionais, como têm maior controle sobre o território do hospital e
sobre as informações acerca do diagnóstico e tratamento da criança, têm mais
condições de impor-se às famílias. No entanto, esta aparente submissão pode não
significar uma apatia da família, mas, sim, uma estratégia de enfrentamento
possível da situação, em benefício da criança.
A gente é de pouca informação acerca da doença, vê nossa filha
doente, bem ruinzinha, então, o que eu não sei eu acato. A gente
precisa confiar neles. Então, por isso a gente acata tudo. Teríamos
que entender mais para dizer que não (F12).
DISCUSSÃO
Ao cuidar a criança no hospital a família revela-se como um ser de direitos. Em
nosso país, apesar da saúde ser um direito de todos e um dever do Estado ainda
vê-se que o Sistema Único de Saúde vigente ainda não garante acesso aos
serviços para todos. Tal fato, talvez ocorra porque muitos desconhecem seus
direitos e a forma de reivindicá-los, apesar de esta realidade estar, aos
poucos, mudando(3).
A família tem ocupado lugar diferenciado, na organização do trabalho em
enfermagem, à medida que conquistou direito à sua permanência no hospital e à
participação no cuidado à criança, adquirindo maior autonomia no setor, mudando
a forma como o processo de trabalho desenvolvido é organizado, dando-lhes maior
autonomia. Neste sentido, o atendimento na Pediatria passa a voltar-se para
além das intervenções clínicas da criança, para a integralidade do seu cuidado
(8).
Torna-se necessário a inclusão de estratégias que busquem viabilizar arranjos
diferenciados para os serviços de saúde, voltados para a integralidade do
cuidado, e que oportunize maior autonomia aos sujeitos. Assim, é necessário
reorganizar o cuidado hospitalar para que atenda integralmente às necessidades
singulares de cada família que convive com esta realidade(12).
A participação ativa da família no cuidado fortalece os vínculos com a equipe
de saúde que passa a valorizar sua cultura, valores e crenças, quando institui
o plano de cuidados(7). Ao adentrar o ambiente do hospital, tendo este direito
garantido, ocorre a formalização do cuidado familiar. Neste sentido,
viabilizando sua particularidade e autenticidade, em prol da melhora do estado
de saúde da criança(13).
A família revela-se como um ser de direitos quando é garantida sua participação
no sistema de saúde(3). No hospital, a família favorece a troca de informações,
auxilia a tornar os procedimentos mais aceitáveis à criança, favorece a
prevenção de acidentes e a terapêutica instituída, propiciando que esta receba
um atendimento humanizado e acolhedor. Além disso, a família garante que a
criança receba informações acerca do seu estado de saúde, de acordo com o seu
entendimento(14).
Porém, frente à política das instituições de saúde, o comportamento impositivo
dos profissionais de saúde reproduz relações de poder em relação ao cuidado,
tornando pouco reconhecido o direito das famílias ao compartilhamento das
decisões e do plano de cuidados da criança(8,15). A inserção de um acompanhante
e o seu envolvimento com o processo terapêutico não se trata de uma simples
questão, implicando em reorganização do trabalho e compreensão da dinâmica das
relações interpessoais entre os agentes envolvidos no cuidar(13).
Propiciar que a família exerça seu direito à permanência no hospital implica em
negociar com ela o cuidado à criança, respeitando suas crenças e valores e
aproximando o cuidado profissional ao cuidado popular. A família promove um
cuidado que é deliberado pela equipe de enfermagem, aliviando, de certa forma,
o trabalho que por essa deveria ser realizado(13).
Reconhece-se, no entanto, que a hospitalização traz dificuldades para o
cotidiano da família, que poderá compartilhar momentos difíceis. Diante das
dificuldades, frente à internação hospitalar da criança, a família passa a
lutar pelos seus direitos, no intuito de exercer sua cidadania(7). Com esse
pressuposto, passam para a equipe o que precisam na unidade, pedem informações,
reclamam do atendimento e conferem o horário das medicações, no intuito de
compartilharem o cuidado com a equipe.
Além disso, passam a sugerir melhoras no cuidado à criança no hospital(8). Para
tanto, a liberação da comida para o familiar cuidador, mais carga horária para
visitas e melhores condições de instalação, remetem às reivindicações, fazendo-
os se sentir participativos e autônomos no cuidado hospitalar.
Todavia, no ambiente hospitalar, as famílias ainda se deparam com o poder
exercido pela equipe de saúde, tendo que se submeter às decisões da mesma, em
prol da melhora da criança(3-4). Com isso, ficam apreensivas ao chegar ao
hospital, enfrentando a necessidade de internação por não poderem ir embora sem
o tratamento hospitalar.
Assim, torna-se necessário repensar as práticas do cuidado à criança
hospitalizada, construindo uma relação dialógica como primeiro passo para a
construção do vínculo entre profissionais de saúde e família. Para garantir o
cuidar integral, deve-se considerar a necessidade de estabelecer vínculos,
confiança e responsabilização entre família e profissionais da equipe. Um olhar
e um agir ampliados para a família, tornando-a parte do processo, no âmbito da
assistência à criança hospitalizada, garante que a mesma tenha seus direitos
garantidos e possibilita que a mesma revele-se como um ser de direitos.
CONCLUSÕES
O estudo possibilitou conhecer as situações em que as famílias se revelam como
seres de direito e convivem com as normas e rotinas no hospital. A partir dos
dados evidenciou-se que a família revela-se como um ser de direitos à medida
que é garantida sua participação no sistema de saúde, sentindo-se acolhidas
pelos profissionais da equipe. Todavia, quando a mesma não compartilha as
decisões e o plano de cuidados, os familiares sentem seus direitos
negligenciados.
Dessa forma, a família passa a lutar pelos seus direitos, objetivando sua
autonomia, bem como o compartilhamento das decisões com a equipe de saúde,
sugerindo melhorias para o cuidado, para não terem que se submeter às decisões
da mesma.
Torna-se importante abordar a família de forma respeitosa, garantindo-lhe a
manutenção do sigilo, favorecendo a construção de vínculos e o estabelecimento
de confiança, atendendo-a nas suas necessidades específicas. Acredita-se que a
família subsidiada poderá tornar-se protagonista da sua vida, sentindo-se
apoiada e assessorada nas suas decisões.
É fundamental que os profissionais da equipe de saúde, atuantes em Unidades de
Pediatria, criem e aprimorem o cuidado às crianças e a seus familiares
cuidadores. Esse momento deve fazer parte do planejamento dos cuidados
oferecidos, levando em conta o contexto social no qual estão inseridos. Com
isso, a família poderá se sentir instrumentalizada para o cuidado à criança,
bem como valorizada e respeitada pela equipe de saúde, tendo seus direitos
respeitados.
Como a família encontra-se fragilizada, pela internação hospitalar de seus
filhos, esta, na maioria das vezes, fica a mercê das decisões dos
profissionais. Assim, compete ao enfermeiro tomar a iniciativa de integrá-la ao
processo de cuidado da criança, na busca por relações menos conflitantes e mais
efetivas, no sentido de se propiciar um cuidado mais qualificado, sensível e
humano.
Para que isto ocorra, é necessária uma Enfermagem atuante, que priorize o
aspecto educativo da assistência, e que, tanto a família, como a equipe de
enfermagem, interaja e se comunique de forma satisfatória. Esta participação
deve ser discutida entre família e enfermagem, planejada conjuntamente, de
acordo com o preparo, desejo e disponibilidade entre ambas. Planejamento
estratégico do cuidado, de que a enfermagem e as famílias dispõem para auxiliar
as crianças neste momento.
Conclui-se que o enfermeiro precisa compreender a família como um grupo que
constrói a sua história, que atribui significados às experiências vividas e, a
partir desses, age. Frente à necessidade da internação hospitalar da criança a
família enfrenta conflitos e contradições, necessitando de auxílio para
adaptar-se. Torna-se fundamental, permitir que estas sejam famílias no
hospital, possibilitando o exercício de seus direitos e cidadania.