Estado de saúde de trabalhadores de enfermagem em readequação e readaptação
funcional
INTRODUÇÃO
Atualmente, uma das prioridades dos serviços de saúde é a saúde do trabalhador.
Em uma sociedade capitalista, em que impera a lógica da produtividade e da
racionalização de recursos, o discurso de preocupação com a saúde do
trabalhador nem sempre se traduz em ações efetivas. Em geral, o que se observa
é a sobrecarga de trabalho e a convivência dos gerentes em condições laborais
adversas que podem impactar negativamente na qualidade da assistência prestada
(1).
As organizações hospitalares são sistemas complexos em que trabalhadores de
diferentes profissões interagem. São, sobretudo, organizações de pessoas
confrontadas com situações emocionalmente intensas, tais como o nascimento, a
doença e a morte, geradoras de ansiedade e tensão física e mental. Dessa
maneira, o trabalho no ambiente hospitalar contribui não só para a ocorrência
de acidentes, como também para desencadear situações de fadiga física e mental
(2).
A Enfermagem é responsável pelo maior contingente da força de trabalho das
instituições hospitalares e a equipe de enfermagem é quem cuida
ininterruptamente dos pacientes. Os trabalhadores da Enfermagem são os que mais
sofrem com as inadequadas condições de trabalho, a insalubridade do ambiente, o
trabalho repetitivo, a sobrecarga de trabalho, os baixos salários(3-4), que
consomem suas energias físicas e psíquicas.
O desgaste pode ocasionar alterações morfológicas, fisiológicas ou
psicológicas, limitações temporárias ou definitivas e adoecimento. Diante
disso, a Previdência Social implantou leis de amparo e seguridade ao
trabalhador, sendo uma delas a que regulamenta a readaptação funcional.
A lei Federal nº 8.112, publicada em 1990, estabelece em seu artigo 24 que a
readaptação "é a investidura do servidor em cargo de atribuições e
responsabilidades compatíveis com a limitação que tenha sofrido em sua
capacidade física ou mental, verificada em inspeção médica"(5).
Considerando os aspectos acima mencionados, a instituição onde se realizou o
estudo implantou a readequação e a readaptação funcionais que foram
normatizadas por resolução do Conselho de Administração no ano de 2000. Na
readaptação funcional, ocorre a mudança de cargo decorrente da inaptidão
definitiva do servidor para o cargo originário; já a readequação funcional é um
procedimento que autoriza a redução do rol permanente de atividades inerentes
ao cargo ocupado em decorrência de restrições definitivas de saúde apresentadas
pelo servidor, desde que mantido o núcleo básico do cargo(6).
O objetivo desse estudo foi identificar o estado de saúde dos trabalhadores de
enfermagem readequados e readaptados de um hospital universitário público.
MÉTODO
Estudo transversal, realizado em um hospital universitário público localizado
na região norte do estado do Paraná. Trata-se de uma instituição pública de
grande porte que presta atendimento exclusivamente ao Sistema Único de Saúde em
diversas especialidades médicas e cirúrgicas. Tal instituição também atua na
formação de recursos humanos, educação continuada, pesquisa e desenvolvimento
tecnológico.
A população potencial do estudo foi constituída por servidores readequados e
readaptados, lotados na Diretoria de Enfermagem desse hospital, cuja equipe de
enfermagem é composta por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem,
auxiliar operacional e técnico administrativo.
Segundo dados do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina
do Trabalho - SESMT da instituição, em fevereiro de 2011, de um contingente de
915 servidores lotados na Diretoria de Enfermagem, 71 encontravam-se
cadastrados como readequados e readaptados oficialmente pela Medicina do
Trabalho. Desses, 16 já não se encontravam nessa condição no período da coleta
dos dados e a população de estudo reduziu-se para 55 indivíduos, número esse
que pode estar subestimado, uma vez que profissionais podem estar nessa
situação extraoficialmente, ou seja, readequados e readaptados por acordo
informal com chefia imediata.
Assim, juntamente com a enfermeira responsável pelo SESMT, a pesquisadora
organizou e atualizou a planilha dos servidores readequados e readaptados. Em
seguida, visitou cada setor em que tais trabalhadores encontravam-se e deixou
um envelope com o questionário, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE) e uma carta explicando os objetivos e a importância da pesquisa.
O critério de inclusão no estudo foi pertencer à equipe de enfermagem, estar
formalmente readequado ou readaptado e encontrar-se no exercício ativo de suas
funções durante o período da coleta de dados. A totalidade de trabalhadores da
equipe de enfermagem nessa condição foi convidada a participar, sendo excluídos
funcionários que se encontravam afastados por licença especial, licença adoção
e atestado médico de mais de 30 dias.
Dos 55 trabalhadores readequados e readaptados que inicialmente compuseram a
população deste estudo, seis já haviam se aposentando, dois estavam em processo
de aposentaria, gozando de licença especial, um recusou-se a participar da
pesquisa, 11 encontravam-se em licença médica no período da coleta dos dados e
um havia falecido. Restaram, portanto, 34 trabalhadores lotados nos diversos
setores da instituição.
A coleta de dados foi realizada no período de novembro de 2010 a março de 2011,
utilizando-se dois instrumentos para esse fim. O primeiro foi um questionário
para caracterização dos trabalhadores, contendo dados sociodemográficos (idade,
sexo, situação conjugal, escolaridade, entre outros) e ocupacionais (categoria
profissional, carga horária de trabalho semanal, motivo e ano da readaptação,
tempo de trabalho antes da readaptação, função que exercia e função que exerce
atualmente, entre outros). O segundo foi o Medical Outcomes Studies 36 - item
Short Form (MOS SF-36) a fim de avaliar seu estado de saúde.
O MOS SF-36 é um instrumento genérico de avaliação de estado de saúde física e
mental de fácil administração e compreensão. É um questionário multidimensional
formado por 36 itens agrupados em oito domínios: capacidade funcional, aspectos
físicos, dor, aspectos sociais, saúde mental, aspectos emocionais, vitalidade e
aspecto geral de saúde. Esses oito domínios podem ser agrupados em dois
componentes: físico (capacidade funcional, aspectos físicos, dor, aspecto geral
de saúde) e mental (aspectos sociais, saúde mental, aspectos emocionais,
vitalidade). Cada domínio é analisado em separado e o escore final varia de
zero a 100, em que zero corresponde ao pior estado geral de saúde e 100, sendo
que sua validação e adaptação cultural para o Brasil foi realizada em 1997(7).
Os dados foram tabulados no programa Microsoft Excel 2010; o cálculo dos
escores do SF-36 seguiu os seguintes passos:
1. Cálculo do escore em cada um dos domínios (capacidade funcional, aspectos
físicos, dor, estado geral da saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos
emocionais e saúde mental) e soma dos pontos obtidos em cada item do domínio,
para cada trabalhador.
2. Uso dos valores mínimos e máximos possíveis em cada item para calcular o
valor transformado com o emprego da fórmula:
Escala transformadora:
Com o objetivo de verificar a compreensão, a clareza, a objetividade, a
legibilidade, a forma de apresentação e o tempo de preenchimento do instrumento
pelos participantes, foi realizado um pré-teste com dez trabalhadores
escolhidos aleatoriamente.
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa registrado
no Sistema Nacional de Informação sobre Ética em Pesquisa, CAAE nº
0160.0.268.268-10 e todos os entrevistados receberam e assinaram o TCLE.
RESULTADOS
Os 34 trabalhadores readequados e readaptados que participaram do estudo
encontravam-se na faixa etária de 40 a 65 anos, sendo que a idade média foi de
50,3 anos; 28 (93,3%) eram do sexo feminino, todos com mais de sete anos de
estudo e renda superior a dois salários mínimos, observando-se que o motivo da
readequação e readaptação foi de ordem física para 31 (91,2%) trabalhadores.
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A Tabela_2 apresenta os resultados da aplicação do MOS SF 36. Os oito domínios
foram agrupados nos componentes físico e mental. O primeiro engloba função
física, desempenho físico, dor corporal e saúde em geral e o segundo é composto
por saúde mental, desempenho emocional, função social, vitalidade. Os piores
escores observados, em geral, foram dor corporal, vitalidade e saúde. As
maiores pontuações ocorreram nos domínios desempenho emocional e saúde mental e
todos os domínios do componente mental apresentaram maiores pontuações.
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Os trabalhadores readequados e readaptados por questões mentais apresentaram
melhores escores para aspectos do componente físico se comparados aqueles com
readequação e readaptação por motivo físico que, em todos os domínios,
apresentaram escores inferiores aos daqueles com readequação e readaptação por
questões mentais. Estes, por sua vez, apresentaram maior escore no domínio
saúde mental.
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Quanto às categorias profissionais, exceto no domínio desempenho emocional,
observou-se que técnicos e auxiliares de enfermagem e auxiliar operacional
obtiveram escores baixos e os que ocupavam cargo técnico-administrativo
apresentaram melhor estado de saúde em comparação com os demais.
DISCUSSÃO
A idade média dos trabalhadores da equipe de enfermagem que estavam formalmente
readequados e readaptados foi de 50,3 anos. Um estudo de revisão de literatura
sobre a capacidade para o trabalho mostrou que o Índice de Capacidade para o
Trabalho diminui mais acentuadamente a partir dos 45 anos, o que pode estar
associado a alterações próprias da idade, mas também ao aparecimento ou
agravamento de doenças (8). Disso decorre a importância de estudar a saúde dos
trabalhadores dessa faixa etária.
Em 31 (91,2%) trabalhadores, a causa da readequação e readaptação foi de ordem
física. Em estudo desenvolvido em um hospital geral do interior paulista com
trabalhadores da equipe de enfermagem que estavam formalmente readaptados as
patologias que desencadearam o processo de readaptação foram do sistema
osteomuscular e do tecido conjuntivo (1).
Em seu processo de trabalho, o trabalhador da enfermagem está sujeito a várias
cargas biológicas, químicas, psíquicas. Constatou-se a presença de cargas
mecânicas e fisiológicas, sendo que essas condições contribuem para a gênese de
distúrbio osteomuscular. As cargas mecânicas são vivenciadas durante a
movimentação de pacientes, no transporte de materiais e aparelhos, na
utilização de mobiliário inadequados e nas condições de instalação e manutenção
de equipamentos. Já as cargas fisiológicas resultam de trabalho em turnos,
dupla ou tripla jornada, realização de horas-extras, sobrecarga de atividades
pela exigência da produtividade e esforços físicos(9).
As cargas de trabalho a que os trabalhadores de Enfermagem estão expostos
tornam seu processo de trabalho penoso, perigoso e insalubre. A exposição a
essas cargas gera um perfil patológico que ainda é pouco conhecido pelos
gerentes institucionais e órgãos da esfera pública, pouco se sabendo a respeito
de quanto esses problemas de saúde oneram os cofres da previdência social, ou
seja, a sociedade(10).
Nesse estudo, observou-se que o componente físico apresentou escore médio
inferior ao do componente mental. Os domínios dor corporal, vitalidade e função
física foram os mais prejudicados, o que também foi constado em um estudo
realizado com 286 trabalhadores de três instituições hospitalares(11).
A dor corporal foi o domínio mais comprometido com média de 41,8 sendo
determinada pelos distúrbios musculoesqueléticos. Dentre os principais fatores
de risco, destacam-se a organização do trabalho (aumento da jornada de
trabalho, horas extras excessivas, ritmo acelerado, déficit de trabalhadores),
os fatores ambientais (mobiliários inadequados, iluminação insuficiente) e as
possíveis sobrecargas de segmentos corporais em determinados movimentos, por
exemplo: força excessiva para realizar determinadas tarefas, repetição de
movimentos e posturas inadequadas no desenvolvimento das atividades laborais
(12). Outros domínios bastante afetados foram a vitalidade e a função física, à
semelhança de outros estudos(13-14).
Em pesquisa realizada com 10 trabalhadores da equipe de enfermagem em
readaptação funcional em um hospital público, as patologias que desencadearam o
processo de readaptação foram doenças do sistema osteomuscular e do tecido
conjuntivo na maior parte dos trabalhadores. Os transtornos mentais e
comportamentais, representados principalmente pelos quadros depressivos,
afetaram um único sujeito1.
Comparando os trabalhadores em readequação e readaptação funcional por motivos
físicos e mental percebe-se que aqueles cuja readequação e readaptação foi
motivada por transtornos físicos apresentaram comprometimento de todos os
domínios, com exceção do desempenho emocional. Esses resultados podem estar
associados ao ambiente ocupacional desses trabalhadores, que tem como
caraterística a repetitividade do trabalho, as posturas indevidas, os ruídos, o
ambiente insalubre e a sobrecarga de trabalho(15).
Na presente investigação, três sujeitos, cuja readequação e readaptação foi
motivada por transtornos mentais, apresentaram escores maiores nos domínios do
componente físico e, como esperado, escores menores nos domínios do componente
mental, que avalia percepções em relação a ansiedade, depressão, alteração de
comportamento e bem-estar psicológico.
O sofrimento psíquico é outro aspecto a ser considerado, já que o trabalhador
que atua em instituições hospitalares está exposto a diferentes estressores
ocupacionais que afetam diretamente seu bem-estar. As cargas psíquicas podem
ter como consequência o sofrimento do trabalhador, levando a medicalização
abusiva ou desnecessária, licença médica excessiva, internação hospitalar e
aposentadoria por invalidez(16).
A Tabela_4 revela a semelhança entre o estado de saúde do auxiliar operacional
e o dos técnicos e auxiliares de enfermagem que, além da sobrecarga de
trabalho, são afetados pela exposição a cargas de trabalho biológicas,
químicas, psíquicas. Estudo verificou a presença de cargas mecânicas e
fisiológicas, exemplificadas pela manipulação de peso excessivo, trabalho em
pé, posições inadequadas e incômodas e trabalho noturno e rodízios de turno(4).
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Os domínios dor corporal, vitalidade e saúde foram, em geral, os mais
prejudicados, sendo que esse comprometimento pode ser atribuído ao fato de que
94% dos profissionais eram auxiliares operacionais e de enfermagem que, mesmo
após a readaptação funcional, realizam atividades laborais que exigem esforço
físico, interferindo em sua saúde física.
CONCLUSÃO
Este estudo possibilitou a avaliação da percepção de saúde dos trabalhadores de
enfermagem mostrando que a readaptação funcional é uma estratégia adotada para
potencializar o trabalho dos servidores, em que pesem suas limitações. A
população de readaptados representa 6% dos trabalhadores de Enfermagem da
instituição, causando impacto no gerenciamento da equipe e requerendo das
chefias preparo e competência para liderar a equipe de maneira integradora.
Na avaliação do estado de saúde desses trabalhadores, foi possível identificar
que o principal motivo de readaptação funcional é de natureza física, o que se
refletiu em piores escores nos domínios de dor corporal, vitalidade e saúde em
geral. Os trabalhadores readequados e readaptados por questões mentais
apresentaram melhores escores para os domínios do componente físico em
comparação àqueles cuja readequação e readaptação deveu-se a problemas físicos.
Os resultados apresentados podem subsidiar a criação de uma política
institucional para trabalhadores em readaptação funcional, esperando-se ainda
que incentivem a realização de novas pesquisas sobre o tema.
Algumas limitações do estudo impedem a generalização dos resultados. Em
primeiro lugar, a população é pequena e, em segundo, há escassez de estudos
sobre a temática. Ainda assim, o tema investigado é de fundamental importância,
uma vez que o bem-estar e a qualidade de vida no trabalho influenciam a
qualidade final da assistência de enfermagem, pois na condição de profissionais
da Enfermagem, temos de nos preocupar com a qualidade de vida dos trabalhadores
para valorizar o ser e o fazer da Enfermagem.