Avaliação da acupressão auricular na síndrome do ombro doloroso: estudo de caso
INTRODUÇÃO
A Síndrome do Ombro Doloroso (SOD) é definida por dor e limitação funcional
decorrente do acometimento de estruturas estáticas e dinâmicas do ombro, como
ligamentos, cápsula e músculos. É uma das queixas mais comuns e incapacitantes
do sistema musculoesquelético na população em geral. Tem uma prevalência
estimada entre 15 a 25% e, atualmente, é a segunda causa de queixa de dor no
aparelho locomotor, perdendo apenas para a dor na coluna vertebral. Pode
acometer pessoas de qualquer faixa etária, porém sua incidência aumenta com o
processo de envelhecimento, em indivíduos esportistas ou aqueles que utilizam
os membros superiores em ocupações laborativas(1-3).
De maneira geral, SOD é tratada de forma conservadora tais como cirurgias (em
casos específicos), medicamentos e fisioterapia. Quando não tratada, leva a
longos períodos de dor e limitações funcionais. O tratamento conservador,
geralmente, tem seus resultados avaliados com base na função e intensidade da
dor referida pelo paciente(1).
É importante caracterizar e quantificar a dor no ombro para que o indivíduo
portador de tal afecção possa assumir posturas corretas dos membros superiores,
durante atividades laborativas e cotidianas. As condutas adotadas pelos
profissionais da saúde, baseadas na intensidade da dor, poderiam prevenir a
evolução crônica da síndrome(2).
Frente a isto, um estudo recente objetivou produzir uma versão brasileira de um
questionário destinado a avaliar a dor, a satisfação e a função dos indivíduos
que apresentam condições dolorosas musculoesqueléticas do ombro. Este
instrumento, o Penn Shoulder Score (PSS), foi desenvolvido em 1999 para
analisar indivíduos com disfunção de ombro. Ele consiste de uma escala de 0 a
100 pontos que inclui três domínios: dor, satisfação e função. A pontuação
máxima do PSS indica ausência de dor, alta satisfação e boa função(4).
A utilização de uma escala, que possibilite ao profissional da saúde e ao
indivíduo acometido pela SOD realizar uma avaliação da funcionalidade,
satisfação e da dor do braço afetado, é fundamental para acompanhar a evolução
da condição do paciente submetido a um tratamento para tal disfunção.
Dentre as propostas de tratamento para a SOD, a acupuntura é hoje uma
modalidade de intervenção sugerida pelas equipes médicas. Dentro desta
modalidade, temos a acupressão como uma delas. Ela é definida como um método de
tratamento terapêutico que consiste em uma antiga arte de cura da Medicina
Tradicional Chinesa (MTC), que usa uma pressão para estimular pontos reflexos,
cuja propriedade é de restabelecer o equilíbrio, alcançando assim resultados
terapêuticos. Tais pontos estão estreitamente relacionados com os pontos
utilizados pela acupuntura. A diferença entre ambos é que, na acupuntura, estes
pontos são estimulados com a inserção de agulhas, enquanto que, na acupressão,
utiliza-se a pressão firme, ou dos dedos das mãos, ou de outras estruturas,
para pressionar a região desejada(5-9).
A acupressão pode também ser utilizada na região auricular, uma vez que a
orelha externa é um dos vários microssistemas e está repleta de pontos de
acupuntura que correspondem a todos os órgãos e estruturas do corpo, ou seja, o
corpo humano está representado pela orelha como um mapa formado por acupontos.
Esta técnica é também denominada de auriculoterapia(5-6,8).
A neuroanatomia e a neurofisiologia não são capazes de explicar completamente o
mecanismo de ação, tanto da acupuntura como da auriculoterapia. As explicações
são justificadas porque a aurícula possui uma grande quantidade de inervação
derivada dos nervos trigêmeos, do facial, do vago, os auriculares maiores e os
occipitais maiores e menores. Isso significa que em toda a região da orelha
externa existem pontos associados com uma inervação ligada ao cérebro e este
por sua vez unido pela rede do sistema nervoso, a determinado órgão ou região
do corpo, comandando suas funções. A relação ponto auricular-cérebro-órgão é
que tornam a auriculoterapia compatível como tratamento das mais variadas
patologias(8).
Alguns estudos desenvolvidos nessa área buscam avaliar esse método terapêutico
em diferentes situações, seja para: demonstrar sua efetividade na analgesia de
pacientes com hérnia de disco lombar(10); na capacidade de aprendizagem e
memória de ratos modelo com a doença de Alzheimer(11); na redução da dor
pélvica e lombar secundária à gravidez(12); como terapia adjuvante na artrite
reumatóide(13); no controle dos transtornos generalizados de ansiedade(14); no
tratamento de asma bronquica na infância(15); ou até mesmo no controle da
náusea e vômitos em pacientes de câncer de mama submetidos a quimioterapia
adjuvante(9).
Nessas pesquisas, os autores discutem algumas questões sobre a auriculoterapia,
incluindo a sua eficácia, a relação do seu mecanismo de ação sobre as doenças,
a seleção exata de acupontos auriculares e a necessidade de mais pesquisas
sobre a aplicação deste método. Em todos os estudos, os autores apontam que a
acupuntura auricular tem as características de alta taxa de efetividade, taxa
de cura e baixa taxa de recorrência da afecção. Outro ponto discutido, em tais
estudos, é em relação ao tempo de tratamento, tanto com o uso de agulhas, como
com o uso da acupressão auricular. O tempo estimado de tratamento nos estudos
variou entre 10 a 12 semanas(9-15).
Reconhecendo a auriculoterapia como um importante instrumento de analgesia e
cura, este estudo busca avaliar os resultados do uso da acupressão auricular,
para uma portadora do Diagnóstico de Enfermagem de Dor Crônica, secundário a
Síndrome do Ombro Doloroso.
OBJETIVO
Avaliar os resultados da acupressão auricular quando usada como terapia no
tratamento da Dor crônica, secundária à Síndrome do Ombro Doloroso, quanto ao
efeito analgésico e terapêutico satisfatório e o tempo estimado de tratamento
para obtenção desses resultados.
MÉTODO
Para a obtenção do objetivo proposto foi realizado um Estudo de Caso,
modalidade de pesquisa entendida como a escolha de um objeto de estudo definido
pelo interesse em casos individuais. Ela busca a investigação de um caso
específico, bem delimitado, contextualizado em tempo e lugar para que se possa
realizar uma busca circunstanciada de informações(16-17).
Conforme os objetivos dessa pesquisa, este Estudo de Caso é classificado como
instrumental, pois objetiva examinar um caso para se compreender melhor a ação
da auriculoterapia na SOD, servindo assim como base para orientar estudos ou
ser instrumento para pesquisas posteriores(16).
Este estudo teve como intervenção a acupressão auricular e como indicador de
resultado o questionário Penn Shoulder Score (PSS - Brasil). Este instrumento
foi desenvolvido para analisar indivíduos com disfunção de ombro, consistindo
de uma escala de 100 pontos que inclui três domínios: Dor, Satisfação e Função.
Os domínios de dor e satisfação apresentam, respectivamente, três
itens e um item avaliados por meio de uma Escala de Avaliação
Numérica (EN) de 0 a 10, sendo que 0 corresponde à ausência de dor e
a não satisfeito, enquanto 10 corresponde à pior dor possível e a
muito satisfeito. O domínio de função contém vinte itens, graduados
em uma escala de Likert de quatro pontos, variando de 0, que
significa "não consigo fazer de forma alguma", a 3, "sem
dificuldade", com pontuação máxima de 60 pontos. A pontuação do PSS
varia de 0 a 100 pontos, com a pontuação máxima indicando ausência de
dor, alta satisfação e boa função(4).
A avaliação dos itens Dor, Satisfação e Função do questionário PSS - Brasil foi
realizada antes do primeiro atendimento, como critério de inclusão e
levantamento do escore das consequências das disfunções de ombro e foi re-
aplicado na oitava, na décima e na décima segunda semana de tratamento. As três
perguntas do item Dor e a pergunta do item Satisfação do questionário foram
aplicadas semanalmente.
A pesquisa foi realizada no local de trabalho da participante da pesquisa.
Os critérios para que a participante fosse incluída nesse estudo foram: ter
acima de 18 anos; ter concordância por escrito para a participação na pesquisa;
ter dor e limitação nos movimentos do ombro; ser avaliada com o questionário
PSS - Brasil e ter a pontuação positiva para dor e disfunção de ombro; não
estar fazendo uso de nenhuma outra terapêutica para o tratamento ou controle da
dor (medicação analgésica, anti-inflamatória, corticosteróides, fisioterapia,
massagens e acupuntura sistêmica); não estar em programação de férias durante o
período de intervenção; não estar grávida.
Os dados foram analisados qualitativa e quantitativamente. Os dados
quantitativos foram armazenados no programa Excel for Windows Explorer® e
analisados estatisticamente com cálculos simples. Foram utilizadas análises
descritivas (número e percentual), objetivando caracterizar e analisar a
amostra.
A pesquisa teve aprovação da Instituição no qual a participante trabalha
(ofício DS-009/06/11) e do Comitê de Ética da Universidade Cruzeiro do Sul
(protocolo CE/UCS-075/2011). Foi explicado para a participante o objetivo do
estudo e lhe apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido,
solicitando a leitura e oficialização da pesquisa. Foi reafirmado que a
participação dela era voluntária, garantindo a permanência dos dados sob a
guarda dos pesquisadores. Foi informado ainda que, se em algum momento, ela
decidisse não continuar no estudo, poderia nos contatar, a fim de que excluí-la
da pesquisa.
APRESENTAÇÃO DO CASO
MOS, casada, 42 anos é policial militar do Estado de São Paulo há 23 anos.
Refere dupla jornada de trabalho: no quartel e em sua casa, onde realiza as
atividades de organização e limpeza do lar. Durante o seu período na Polícia
Militar, ela migrou de um setor para outro, desenvolvendo atividades de
patrulhamento na maior parte da sua carreira militar. Relata que entre as
atividades laborativas que mais utiliza os membros superiores, os treinamentos
onde tem que ficar "em guarda" (posição ereta do corpo, com os membros
superiores voltados para a parte posterior, na região dorsal), é a mais
desgastante fisicamente, pois tem que permanecer durante horas na mesma
posição. Após esse longo período "em guarda", o policial militar completa seu
treinamento e apresentações com a "marcha", no qual faz movimentos com os
membros superiores de repetição.
Atualmente, MOS trabalha em um setor administrativo da corporação, permanece
longos períodos trabalhando no computador e cumpre, de tempos em tempos,
escalas de plantão de patrulhamento e apresentações em solenidades.
Ela relata que, há aproximadamente um ano e dois meses, vinha sentindo um
desconforto nos dois ombros, porém tal desconforto não lhe causava limitação
importante. Esse desconforto era descrito como uma dor de intensidade leve. Ao
participar em abril de 2010 de uma solenidade da Polícia Militar, MOS
permaneceu durante mais de seis horas em treinamento, tendo que ficar na mesma
posição e com os braços para trás. Afirma que, a partir desse dia, ela começou
a sentir fortes dores nos dois ombros, sendo que a dor era pior no ombro
esquerdo. A dor foi tão intensa, que ela procurou auxílio médico, sendo
afastada das suas atividades. Foi diagnosticada, após exame de tomografia
computadorizada da coluna cervical, uma artrose cervical com irradiação para o
ombro. Fez sessões de fisioterapia e uso de anti-inflamatórios não esteroides.
Como não apresentou melhora após esse tratamento, fez uso de corticosteróides
que aliviaram os sintomas.
Relata que a dor em seus ombros passa por períodos de melhora e piora. Diz que
quando exerce atividades como limpar a casa ou ficar em forma, no dia
subsequente, ela não consegue trabalhar e tem que fazer uso de algum analgésico
ou relaxante muscular.
Desde o primeiro pico de piora, ela não consegue dormir à noite, diz que tem
"sono picado", pois acorda com dor quando, inconscientemente, gira na cama,
caindo em cima do ombro mais afetado. Afirma ainda que no dia posterior a sua
noite de sono interrompida, ela percebe que fica mal humorada e irritada com
qualquer situação.
O Diagnóstico de Enfermagem para MOS é o de Dor crônica. A sua pontuação
segundo o questionário PSS - Brasil teve o seguinte escore conforme o Quadro_1:

Após a identificação por meio do instrumento Penn Shoulder Score - Brasil que
MOS apresenta alteração na Dor, Satisfação e Função em ambos os ombros, foi
proposto o tratamento descrito abaixo.
PROCEDIMENTO
A intervenção consistiu no método de acupressão auricular com esferas de
cristais, por serem consideradas neutras, polidas, com 1,5 mm de diâmetro,
presas em esparadrapo, produzindo uma ação mecânica sobre o acuponto desejado.
As esferas foram colocadas sobre os pontos descritos abaixo com auxílio de uma
pinça mosquito, após limpeza de toda a região auricular com álcool a 70 P/V. Os
pontos escolhidos foram direcionados segundo os descritos pela Medicina
Tradicional Chinesa (MTC) para o tratamento da SOD conforme segue:
A. Triângulo_Cibernético_ou_Auriculocibernético: é indicado para iniciar
qualquer tipo de programa de terapia auricular(5,8). É constituído pela ordem
dos seguintes pontos:
- Shenmen, têm como função predispor o tronco e o córtex cerebral a
receber e decodificar os reflexos dos pontos que serão utilizados, a
provocar no cérebro a produção de cargas de hormônios naturais do
tipo "endorfinas", produzindo efeito sedativo(5,8);
- Rim: regula os ossos e estimula: a filtragem do sangue pelos rins,
eliminando mais metabólitos; as funções do sistema respiratório a
aumentar o processo de metabolismo do oxigênio; o aumento da secreção
de hormônios pelas glândulas endócrinas e as funções dos órgãos
excretores, inclusive das glândulas sebáceas e sudoríparas(5,8);
- Simpático: tem como mecanismo de ação acelerar e regular as
atividades do sistema neurovegetativo, equilibrando as funções do
simpático e do parassimpático, nesse sentido ao equilibrar as funções
do sistema nervoso autônomo provoca equilíbrio geral no organismo.
Estimula as funções da medula óssea, bem como o metabolismo de
cálcio, agindo sobre o tecido ósseo e o periósteo equilibrando sua
formação ou regeneração. Provoca vasodilatação e age sobre os tecidos
musculares provocando ação anti-inflamatória, relaxamento ou
tonificação das fibras do sistema músculo-tendinoso(5,8).
B. Ombro: têm como indicações terapêuticas as Bursites, Tendinites, Luxação do
ombro, Dores subaxilares, Paralisia dos membros superiores, Sequelas de
Esclerose lateral amiotrófica(5,8);
- Articulação_do_ombro: têm como indicações terapêuticas as Bursites,
Calcificações, Tendinites, Reumatismos, Artrites, Fraturas, Analgesia
e Anestesia da região(5,8);
- Clavícula: têm como indicações terapêuticas as dores na região,
fratura de clavícula, inflamações dos músculos da área da clavícula,
ruptura de tendões e luxações(5,8);
O ciclo de tratamento consistiu em doze semanas.
A paciente foi orientada a estimular as esferas sobre os acupontos em média
cinco vezes ao dia (ao levantar-se, próximo da hora do almoço, no meio da
tarde, próximo da hora do jantar e antes de dormir), com duração de um minuto
em cada ponto. As esferas permaneceram na orelha durante uma semana. A cada
sessão semanal foi rodiziado a orelha, alternado entre orelha direita e
esquerda para evitar a formação de lesões até o final do ciclo de tratamento.
Todos os atendimentos foram realizados pela pesquisadora para que se mantivesse
um parâmetro fidedigno dos acupontos selecionados.
RESULTADOS
Após a primeira aplicação das esferas de cristais MOS relatou que os acupontos
estavam "queimando", ela sentia a sua orelha "pegando fogo". Tal sensação se
manteve nas sessões subsequentes.
Após uma semana de tratamento, a paciente relatou que melhorou muito o seu
sono, chegando dormir quatro horas sem interrupção. De acordo com o Quadro_2
pode-se observar que houve significativa melhora da pontuação da Dor e
Satisfação de MOS. O escore de Dor passou de 13 para 25, uma melhora de 40%. Já
o item Satisfação a melhora foi de 70% em apenas uma semana de tratamento.
[/img/revistas/reben/v66n5/09q02.jpg]
Na terceira semana MOS apresentou uma pequena lesão no ponto do Shenmen e no
ponto da Clavícula. Frente a isto, foi aplicada a solução de Cavilon® em todo o
pavilhão da orelha externa. Ela trouxe como principal resultado nessa semana a
acentuada melhora do seu padrão de sono. Referiu que conseguiu manter durante
toda a semana um padrão periódico de descanso durante a noite, despertando ao
amanhecer com a sensação de satisfação e sono restaurador. De acordo com o
Quadro_2 pode-se observar que a melhora da pontuação da Dor e Satisfação de MOS
em relação a segunda semana ainda foi de forma crescente, revelando em relação
a Dor, uma melhora entre a primeira e a terceira semana de tratamento de 50%.
Já em relação a Satisfação, a melhora de MOS foi de 80%.
No seu quarto atendimento foi observado que as lesões apresentadas no dia 08/
04/2011 estavam cicatrizadas. MOS relatou que durante a semana ela evoluiu com
Dor tipo "queimação" no ombro esquerdo, o mais afetado. Quando questionada a
descrever as intercorrências que ocorreram durante essa semana, ela relatou que
sua filha acidentou-se na escola e que tal situação desencadeou um episódio de
extremo estresse, ficou com raiva da professora de sua filha, pois acreditou
que ela foi diretamente responsável pelo acidente. Essa intercorrência
influenciou na evolução do seu tratamento. Isso é demonstrado pelos escores das
pontuações de Dor e Satisfação, ambos declinaram 20% em relação a semana
anterior (Quadro_2).
No quinto e sexto atendimento, os escores de Dor e Satisfação apresentaram uma
melhora de 46,7% e 80% respectivamente. Nesse mesmo período, MOS participou
ativamente da mudança de seu departamento, exercendo muita atividade física com
os membros superiores. Em decorrência disso, relatou dores em ambos os ombros,
porém associa essas dores com estafa muscular e não relaciona com a mesma dor
que sentia nos ombros antes de iniciar a intervenção dessa pesquisa.
Na sétima semana houve uma redução do escore de Dor de 46,7% para 33,3%, no
entanto, o escore de Satisfação manteve-se inalterado. Ao ser questionada sobre
os acontecimentos da sua semana, MOS não correlacionou nenhum fato novo que
justificasse a redução do seu escore da Dor.
Na oitava semana foi reaplicado o questionário PSS - Brasil incluindo o item
função. Utilizando a primeira avaliação como parâmetros iniciais de comparação,
pode-se verificar uma melhora na pontuação total do questionário PSS - Brasil
de MOS em 29,7%. Já em relação as pontuações isoladas dos itens Dor e
Satisfação, os escores voltaram a se equiparar aos mesmos das semanas de 29/04/
2011 e 06/05/2011 conforme demonstra o Quadro_2.
Na nona semana de atendimento foi observado que nos acupontos do ombro,
articulação do ombro e clavícula da orelha direita houve um aumento na
pigmentação desses locais para um tom castanho, porém sem o aparecimento de
solução de continuidade. A pontuação do item Dor reduziu 1 ponto e o item
Satisfação se manteve inalterado, conforme revela o Quadro_2.
Na décima semana foi reaplicado o questionário PSS - Brasil para os itens Dor,
Satisfação e Função. Utilizando a primeira avaliação como parâmetros iniciais
de comparação, pode-se verificar que houve uma melhora de MOS na pontuação
total do questionário PSS - Brasil em 31,8%. Porém, se compararmos os escores
entre a oitava e a décima semana, a diferença foi de apenas 2%.
Na décima primeira semana de atendimento não houve alteração significativa do
escore de Dor e a pontuação do item Satisfação se manteve inalterado nas
últimas sete semanas. O escore do item Dor sofreu alterações mínimas sem
relevância estatística.
O décimo segundo e último atendimento foi realizado em 17/06/201 e foi
reaplicado o questionário PSS - Brasil completo conforme revela o Quadro_2.
Comparando a pontuação total do questionário PSS - Brasil de MOS entre a
primeira semana e a décima segunda semana de atendimento, pode-se observar uma
melhora de 34,3%. Se compararmos a oitava semana com a décima segunda houve uma
diferença de 4,7%.
DISCUSSÃO
A disfunção do ombro de MOS, segundo o instrumento PSS - Brasil, antes do
início do tratamento, teve uma pontuação baixa - 44/100, indicativo de
alterações significativas quanto a Dor, Satisfação e Função dos seus ombros. Ao
contrário de outros questionários ou escalas para avaliação da Dor, o PSS -
Brasil possui uma pontuação que varia de 0 a 100 pontos, com a pontuação máxima
indicando ausência de Dor, alta satisfação e boa função.
Durante todo o tratamento, MOS sempre relatava que, após a colocação das
esferas, os pontos selecionados ficavam "queimando", sentia que a sua orelha
estava "pegando fogo". Essa sensação é explicada pela hiperestimulação da rede
nervosa e ativação da circulação na rede vascular da orelha que aciona e excita
o fluxo energético(18). Os autores dessa temática descrevem esses sintomas como
sendo reações normais e esperadas, aparecem em aproximadamente 80% dos
pacientes e estão ligadas ao êxito do tratamento, e caso o paciente não refira
ou não perceba essas respostas, o terapeuta deverá rever se os acupontos
utilizados são os mais indicados(18).
Uma das principais queixas de MOS, em relação a sua disfunção, era a insônia.
Este problema é descrito segundo a taxonomia II de NANDA, 2010, como "distúrbio
na quantidade e na qualidade do sono que prejudica o funcionamento normal de
uma pessoa"(19). Este diagnóstico pode ser evidenciado pela paciente, pois ela
apresentava características bem definidas como sensação de sono não
restaurador, alterações do humor e dificuldade para permanecer dormindo. Esses
sintomas estão estreitamente relacionados com a Dor que MOS sentia ao mover-se
na cama durante a noite e, inconscientemente, ficar em cima do ombro mais
afetado.
Estudos descrevem o aparecimento dos distúrbios do sono e da influência que o
binômio sono-vigília nas doenças em que a Dor é presente. Falam também da
importância de, além do tratamento álgico, focar em intervenções específicas
para a promoção do sono restaurador(20). Tais preocupações se dão pelo fato de
comprovações, por intermédio de estudos clínicos e experimentais, tanto em
humanos como em animais, que há uma relação recíproca entre sono e Dor,
baseados em explicações neurofisiológicas de que áreas do cérebro envolvidas
com a percepção da Dor também estão envolvidas com a geração e manutenção do
sono(20). Nesse sentido, essa relação transforma-se em um ciclo vicioso
autossustentado, ou seja, a presença da Dor, principalmente a crônica, gera
constantes estímulos sensoriais que ativam e mantém áreas do sistema nervoso
central, responsáveis pelo estado de alerta, enquanto rejeita áreas
responsáveis pelo início e manutenção do sono(20). O resultado desse processo é
o aumento dos distúrbios do sono à medida que a Dor também aumenta. As
consequências são devastadoras, pois a ausência de funções restaurativas e
reparativas do sono levam a um retardo no processo de cura, aumentando ainda
mais a Dor(20).
Pode-se observar que esse ciclo vicioso foi apresentado pela paciente deste
estudo e interrompido na terceira semana de tratamento a partir do momento em
que a Dor foi controlada por intermédio da auriculoterapia. Em apenas três
sessões a pontuação da Dor de MOS melhorou em 50% o que causou o
desaparecimento do diagnóstico de insônia.
A partir do momento em que MOS diminui a sua Dor e melhorou a qualidade do seu
padrão de sono, consequentemente também melhorou seu humor, desempenho no
trabalho e atividades rotineiras. Nesse mesmo período, a sua Satisfação em
relação ao ombro também apresentou índices elevados até o final do tratamento.
Uma reação adversa apresentada por MOS foi o aparecimento de pequenas lesões
nos pontos do Shenmen e Clavícula na terceira semana de tratamento. Tais lesões
podem ter ocorrido em decorrência do excesso de pressão exercida por MOS
durante os estímulos diários, e está relacionada com os riscos da
auriculoterapia(18). O repouso da orelha feito durantes as sessões e seus
ciclos objetivam reduzir ou evitar essas intercorrências.
Surgiram nos pontos do ombro, articulação do ombro e clavícula de MOS aumento
da pigmentação, transformando-se em uma cor marrom, que segundo alguns autores,
está relacionado por estagnação energética nas doenças crônicas em andamento ou
ainda naquelas que já foram "curadas"(5,18). Nesse sentido, pode-se
correlacionar essas afirmativas com as alterações apresentadas por MOS. Elas
começaram a ser notadas na nona semana de tratamento, no período em que seus
escores do PSS - Brasil, comparado com o início do tratamento, teve uma melhora
na pontuação total em 29,8%.
É importante comparar a intercorrência vivenciada por MOS durante o período em
que esteve participando da pesquisa, na quarta semana, com a evolução do seu
tratamento. Segundo a MTC, o homem é visto como um organismo único, sem
divisões. As emoções e as estruturas físicas fazem parte de um só corpo. Nesse
sentido, cada tecido, emoção ou órgão interno, tem um papel fundamental e
específico na manutenção da saúde do ser humano(7,18). Sendo assim, "qualquer
situação que venha a prejudicar o normal funcionamento dessas estruturas
acarreta o surgimento de sinais e sintomas, indicativos da presença de
desequilíbrio, as chamadas síndromes energéticas"(18).
MOS vivenciou a raiva nesse período quando soube do acidente da sua filha na
escola. Segundo a MTC a fúria afeta o elemento Madeira, desequilibrando-o. Tal
elemento é responsável pelo "movimento" e controla as articulações do corpo
(7,18). A consequência disso foi o declínio na evolução do seu tratamento,
sendo demonstrado pela redução das pontuações de Dor e Satisfação.
A SOD de MOS foi desencadeada pela artrose, que teve início na coluna cervical
e, posteriormente, evoluiu para as articulações de ambos os ombros. No
ocidente, a artrose é definida como uma doença de toda a articulação
(cartilagem, ligamentos, sinóvia e osso), a lesão inicial costuma ser na
cartilagem articular. Ela tem um forte componente genético e, na maioria das
vezes, tem a sobrecarga mecânica como um iniciador do processo de lesão da
cartilagem, que acaba evoluindo para um ciclo vicioso inflamatório, perpetuando
a degradação articular(21).
Fazendo uma correlação com a MTC, a artrose causada por estresse físico consome
a energia do Rim, responsável por controlar os líquidos orgânicos e determinar
as condições dos ossos, sendo assim, compromete a quantidade do líquido
sinovial e as restaurações ósseas das articulações(5-7).
Nesse sentido, o tratamento proposto neste estudo para MOS foi o de estimular
pontos reflexos na orelha com um material neutro (esferas de cristais), para
que o organismo reagisse equilibrando os mecanismos compensatórios responsáveis
pela mobilidade da articulação do ombro, bem como o de induzir o processo
restaurador da articulação, conforme descrito no item procedimento.
Até algumas décadas atrás, o tratamento da osteoartrite ou artrose ficou
limitado ao uso de analgésicos simples, anti-inflamatórios, medidas físicas,
infiltrações com corticóides e, nos casos refratários e mais graves, o
tratamento cirúrgico. Com o avanço de pesquisas sobre essa temática e o
esclarecimento das vias inflamatórias envolvidas induziram os médicos a
adotarem outros medicamentos para o tratamento e controle de tal afecção(21).
Vale ressaltar que os estudos ainda descartam a possibilidade de cura da
artrose, no entanto, esses mesmos estudos trazem para a discussão a existência
de drogas modificadoras da doença, que têm a capacidade de alterar a evolução
na degeneração articular, retardando sua progressão, podendo até torná-la
assintomática e, desse modo, evitando uma parcela dos procedimentos cirúrgicos
de salvação(21). Porém, tais pesquisas ainda estão em andamento, sem
comprovação de resultados favoráveis em longo prazo, uma vez que a artrose é
uma doença crônica e de evolução lenta(21). Atualmente ainda nos deparamos com
prescrições de medicações de ação antiinflamatórias que apresentam efeitos
colaterais devastadores, como por exemplo, o Diclofenaco de Sódio, que lista
inúmeros efeitos colaterais.
A medicação citada por MOS, de que ela fazia uso periódico antes do início da
pesquisa, tem como uma de suas composições o diclofenaco sódico. A partir da
segunda semana de tratamento, com a melhora do item Dor do PSS-Brasil, MOS
aboliu o uso de drogas anti-inflamatórias para o controle da Dor.
Ao comparar o tempo de tratamento da auriculoterapia na SOD, percebe-se que a
diferença entre a melhora de MOS da oitava para a décima semana de tratamento é
de apenas 2%, não representando alteração estatística significativa. Porém,
quando se aumenta mais quatro semanas, ou seja, mais quatro sessões, esse
diferença aumenta para 4,6%.
Comparando somente os itens de Dor e Satisfação, pode-se observar que, após a
oitava semana, o item Satisfação manteve-se inalterado; já o item Dor teve
pequenas oscilações, sem relevância estatística. O item Função teve uma melhora
de 7,77 pontos entre a primeira avaliação e a oitava, essa diferença aumentou
em apenas 1 ponto entre a oitava e a décima semana. Ao compararmos a primeira
avaliação com a décima segunda a melhora atingiu uma diferença de 12,35 pontos.
Ou seja, mesmo MOS não fazendo uso de medicações classificadas como "drogas
específicas" para o tratamento da osteoartrite, a função de seus ombros teve
uma evolução significativa.
CONCLUSÃO
Reconhecendo cada vez mais a auriculoterapia como uma importante técnica
terapêutica, este estudo contribuiu com dados pontuais e relevantes para o
entendimento de que essa modalidade da MTC pode e deve ser utilizada pelos
enfermeiros como tratamento das alterações osteoarticulares dos ombros com
baixo índice de efeitos colaterais ou adversos. Isso se deve aos resultados
apresentados nessa pesquisa, em que se evidenciou uma melhora da paciente em
questão, em 34,3% da sua disfunção classificada como SOD. Pode-se concluir
também que o tratamento com a auriculoterapia pode abolir o uso de drogas
analgésicas e anti-inflamatórias e seus efeitos deletérios.
Pode-se afirmar que a seleção dos pontos utilizados na pesquisa pode ser
classificada como um protocolo de tratamento para a SOD, e o tempo de
tratamento indicado nesse estudo é de doze sessões. As sessões deverão ocorrer
semanalmente, alternando entre as duas orelhas para evitar lesões e fadiga
auricular em decorrência do processo de acomodação do sistema nervoso.
O instrumento (PSS - Brasil) que foi adotado como indicador de resultado,
permitiu a compreensão e análise dos resultados de forma objetiva segura.
É importante ressaltar que a Dor gera inúmeros transtornos para a pessoa que a
vivencia, como por exemplo, a insônia. Portanto, quando se assume o papel de
terapeuta, deve-se abrir o campo de observação para perceber a totalidade do
indivíduo sob os cuidados e conseguir fazer correlações entre os sintomas e as
disfunções orgânicas. Isso significa que nem sempre é necessário estimular o
organismo com inúmeros comandos, como na auriculoterapia, inserir várias
esferas ou agulhas para tentar tratar todos os sintomas. Devemos lembrar dos
preceitos da MTC que ensina que, ao equilibrar um elemento, os demais vão
também se equilibrando em um processo harmônico e gradual.
Espera-se ter contribuído para demonstrar a efetividade da auriculoterapia como
uma ferramenta de intervenção rápida e eficaz no tratamento das afecções
osteoarticulares para os terapeutas e enfermeiros habilitados a exercer tal
atividade.
No entanto, é importante ressaltar que isto é o início da compreensão desta
possibilidade terapêutica. Abre-se um leque de possibilidades de investigação
para a validação destas propostas, bem como a apresentação de outros acupontos
e técnicas de estímulos.
Deve-se pensar que é importante reconhecer os resultados alcançados, porque
eles podem ser a base para o desenvolvimento exploratório de outras pesquisas
sobre essa temática. Assim, este trabalho pode servir como um convite para que
os profissionais que atuam nas Terapias Alternativas e Complementares ampliem
tais conhecimentos.