Percurso metodológico para tradução e adaptação de escalas na área de saúde
sexual e reprodutiva: uma revisão integrativa
INTRODUÇÃO
As mulheres são as principais usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS),
representando 50,77% da população brasileira. Dessas, 65% estão em idade
reprodutiva, portanto a atenção à saúde da mulher, principalmente a saúde
sexual e reprodutiva, é de suma importância(1). Nesse contexto, a saúde sexual
e reprodutiva visa o bem-estar físico, mental e social, primando por uma vida
sexual segura e satisfatória à mulher, além de ser um direito e dever do estado
construir políticas de saúde que assegurem assistência integral e de qualidade
(2).
Assim, é fundamental o compromisso com a implementação de ações de saúde que
contribuam para a garantia dos direitos humanos das mulheres e reduzam a
morbimortalidade por causas evitáveis, promovendo a integralidade e a promoção
da saúde como princípios norteadores, bem como a busca pela consolidação de
avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos(1).
Diante disso, a Enfermagem exerce um papel fundamental no cuidado à mulher, por
configurar-se como uma profissão que mantém uma grande proximidade com os
clientes nos diversos níveis de atenção. Portanto, são necessárias
investigações aprofundadas sobre esse estrato populacional com vistas à
viabilização de instrumentos que possibilitem mensurar as necessidades da
mulher, especificamente em relação à saúde sexual e reprodutiva, e que sejam
capazes de possibilitar inferências de diagnósticos acurados e intervenções
eficazes, contribuindo para a melhoria da saúde e qualidade de vida da
população feminina(3).
Uma das estratégias utilizadas mundialmente na busca de melhorias na saúde é a
utilização de escalas direcionadas para mensuração dos diversos aspectos
relacionados aos determinantes das condições de saúde. Todavia, a maioria das
escalas é de origem estrangeira sendo imprescindível a tradução e a adaptação
de instrumentos previamente validados em outros países, por ser um processo que
minimiza custos e facilita o intercâmbio entre os pesquisadores(4).
Logo, para tornar uma escala estrangeira válida e passível de aplicação no
contexto brasileiro é preciso seguir algumas etapas, como a tradução para o
idioma local, a adaptação transcultural, a aplicação à população alvo e a
validação do instrumento. No entanto, a combinação de diversas metodologias em
determinados tipos de estudos pode contribuir para a falta de rigor, a
inacurácia e o viés, sendo recomendado o seguimento de padrões de rigor
metodológico com eficácia comprovada(5).
Diante do exposto, surgiu o questionamento acerca da existência de uma
uniformidade nos passos metodológicos utilizados pelos pesquisadores para o
processo de tradução e adaptação de escalas.
Reconhecendo a necessidade de seguir um rigor metodológico para um processo
exitoso de tradução e adaptação transcultural de escalas, acredita-se que a
construção de um panorama das abordagens metodológicas possa propiciar aos
enfermeiros e pesquisadores uma relevante fonte de pesquisa capaz de subsidiar
escolhas mais acertadas e, consequentemente, melhorar o delineamento de estudos
sobre validação de instrumentos de mensuração.
Dispor de instrumentos científicos confiáveis e válidos direcionados para a
Saúde Sexual e Reprodutiva feminina é uma contribuição relevante para a prática
clínica, viabilizando ações eficazes para a promoção da saúde e da qualidade de
vida das mulheres, bem como para a produção científica sobre a temática,
favorecendo a discussão acadêmica sobre o tema(6).
Considerando o acima exposto, o objetivo do estudo foi analisar o percurso
metodológico para a tradução e adaptação de escalas em dissertações e teses da
enfermagem brasileira na área de Saúde Sexual e Reprodutiva.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa das dissertações e teses brasileiras acerca
do processo de tradução e adaptação de escalas da área de saúde sexual e
reprodutiva. Esse tipo de pesquisa é a mais ampla abordagem metodológica
referente às revisões, permitindo a inclusão de estudos experimentais e não
experimentais para uma compreensão completa do fenômeno analisado. Combina
também dados da literatura teórica e empírica, além de incorporar um vasto
leque de propósitos: definição de conceitos, revisão de teorias e evidências, e
análise de problemas metodológicos de um tópico particular. A ampla amostra, em
conjunto com a multiplicidade de propostas, deve gerar um panorama consistente
e compreensível de conceitos complexos, teorias ou problemas de saúde
relevantes para a Enfermagem(5).
O referencial teórico adotado para o desenvolvimento deste estudo foi a Prática
Baseada em Evidências (PBE). A implementação da PBE na Enfermagem incentiva o
enfermeiro a conduzir pesquisas direcionadas para as necessidades da prática
clínica e/ou a utilização de resultados de pesquisas disponíveis na literatura
(7).
Procedeu-se ao levantamento dos dados no catálogo eletrônico de dissertações e
teses da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) (http://
www.abennacional.org.br), uma vez que o seu Centro de Estudos e Pesquisas em
Enfermagem (CE-PEn), criado em 17 de julho de 1971 e destinado a divulgação da
pesquisa em Enfermagem, possui o maior banco de teses e dissertações na área de
Enfermagem no Brasil, hoje com mais de 4.000 trabalhos registrados em seu
acervo referente às produções de 2000 a 2009, dado que justifica o período
analisado.
Para tanto, seguiu-se os passos descritos para o desenvolvimento de uma Revisão
Integrativa: identificação do tema; formulação de uma questão norteadora; busca
e seleção da literatura; categorização e avaliação dos estudos e apresentação
da revisão(8-10).
A verificação dos dados foi subsidiada pela seguinte questão norteadora: Qual o
percurso metodológico utilizado para tradução e adaptação de escalas, descrito
em dissertações e teses da enfermagem brasileira, na área de Saúde Sexual e
Reprodutiva nos últimos dez anos?
O levantamento dos trabalhos, na base de dados selecionada, ocorreu
inicialmente mediante a leitura dos títulos e dos resumos das dissertações e
teses para posterior seleção daqueles que atendiam aos critérios de inclusão:
estudos completos disponibilizados eletronicamente e estudos que abordavam a
tradução, adaptação e validação de escalas na área da Saúde Sexual e
Reprodutiva. De um total de 38 trabalhos que abordavam a tradução e adaptação
de escalas em áreas temáticas diversas, três o fizeram na área Saúde Sexual e
Reprodutiva.
A análise do material foi realizada em julho de 2011 e constou na leitura de
três trabalhos completos subsidiada por um instrumento de coleta de dados com
questões previamente elaboradas acerca de: dados de identificação da
dissertação/ tese; dados de identificação da escala; e percurso metodológico da
tradução e adaptação transcultural da dissertação/tese.
Para a apresentação e análise dos dados referentes ao percurso metodológico da
tradução e adaptação transcultural das escalas, utilizou-se como referencial
teórico as etapas descritas por Beaton et al.(11), uma vez que todas as
produções selecionadas para análise fundamentaram-se nesse autor. Segundo o
mesmo, a escala em idioma original deve passar pelas seguintes etapas para ser
considerada traduzida e adaptada transculturalmente: tradução inicial; síntese
da tradução; tradução de volta à língua de origem (back-translation); revisão
por um comitê de juízes; pré-teste da versão final e submissão de todos os
relatórios e construtos aos autores da escala para verificação do cumprimento
de todas as etapas do processo; e validação do instrumento(11).
RESULTADOS
Na busca pelos estudos de tradução e adaptação de escalas, desenvolvidos nos
cursos de mestrado e doutorado brasileiros em Enfermagem, que abordassem a área
de Saúde Sexual e Reprodutiva, foram selecionados um número de três trabalhos
durante o período de 2000 a 2009, todos eles teses de doutorado.
As Tabelas_1, 2 e 3 mostram os dados extraídos das três teses analisadas. Esses
dados permitem observar as variações das metodologias adotadas na tradução e
adaptação transcultural de instrumentos de origem estrangeira para serem
utilizadas no contexto brasileiro. A Tabela_1 apresenta os dados de
identificação das teses: autor, título, ano, origem e direcionalidade temática.
No que se refere aos dados de identificação das teses, elencados na Tabela_1,
todos os autores especificaram no título se tratar de um estudo de tradução,
adaptação e validação de escala.
Ao analisarmos a origem das produções, verificou-se que duas foram
desenvolvidos na região Sudeste e a outra na Região Nordeste. As teses
produzidas na Região Sudeste, foram oriundas da Universidade de São Paulo (USP)
de Ribeirão Preto. Já a produção referente à Região Nordeste adveio da
Universidade Federal do Ceará (UFC).
Em relação à direcionalidade temática, uma enfocou a assistência pré-natal, uma
o aleitamento materno e outra a dinâmica familiar de mulheres com câncer de
mama.
Na Tabela_2, foram identificados o título da escala, a origem, ano de
publicação da escala original, objetivo da escala, quantidade de itens da
escala original e países que já realizaram a tradução e a adaptação
transcultural da escala em estudo.
Conforme a Tabela_2, os títulos das escalas originais que foram objetos de
estudo das teses analisadas foram: Prenatal Psychosocial Profile (PPP),
Breastfeeding Self-Efficacy Scale (BSES), Family Dynamics Measure II (FDM II).
Ao analisar o país de origem da escala, percebe-se que todas foram
desenvolvidas no Continente Norte Americano e na década de 90.
Os objetivos das escalas em análise foram divididos em três direcionalidades
temáticas: 1. Assistência pré-natal (mensurar as percepções da mulher sobre o
estresse, sobre o apoio do companheiro, o apoio dos outros e a autoestima
durante a gestação); 2. Amamentação (mensurar a autoeficácia das mães na
habilidade em amamentar); e 3. Dinâmica familiar (avaliar a dinâmica familiar
em situação de saúde e doença, para o uso clínico e de pesquisa, capaz de
identificar famílias em risco).
Quanto aos itens das escalas, observamos uma variação mínima de 33 itens e
máxima de 66 itens, com média de 49,5 itens.
De acordo, ainda, com a Tabela_2, percebe-se que, em uma das teses analisadas
(T1), o autor não informou se o instrumento de medida havia sido traduzido e
adaptado transculturalmente para outros idiomas, diferente do que se constatou
nas outras duas teses (T2 e T3), quando as autoras esclarecem que, além da
versão adaptada para o Brasil, existiam as versões produzidas por autores na
Austrália, Porto Rico, China e Polônia para T2 e por autores na Turquia e
Grécia para T3.
Na Tabela_3, estão presentes os dados referentes ao percurso metodológico
adotado pelos pesquisadores em estudo, segundo as etapas estabelecidas pelo
referencial teórico comum às três teses: Beaton et al.(11).
Conforme observado, as três teses adotaram o mesmo referencial metodológico:
Beaton et al.(11). Entretanto, em uma delas (T3), houve a associação de mais
dois referenciais teóricos: Chalow (1995) e Maneesriwongul & Dixon (2004).
Quanto às etapas do percurso metodológico, os dados coletados foram divididos
em subcategorias, segundo as etapas descritas pelo autor adotado: tradução
inicial, síntese das traduções, retro-tradução, comitê de juízes, pré-teste e
submissão aos autores da escala.
Na primeira etapa, denominada de tradução inicial, constatou-se a participação
de pelo menos dois tradutores independentes, com fluência no idioma original
(inglês) e alvo (português). No entanto, em dois trabalhos (T1 e T3), esta
etapa contou com a participação de mais um tradutor, totalizando três em cada.
Ainda nessa etapa, em T1 os três tradutores envolvidos eram da área da saúde,
não ficando explicitado se os mesmos foram informados dos objetivos da
tradução. Em T2, somente um dos tradutores era da área da saúde e os objetivos
da tradução da escala foram revelados para o outro tradutor. Em T3, dois dos
tradutores eram da área da saúde e não ficou claro se eles foram informados dos
objetivos da tradução da escala.
Na segunda etapa, denominada de síntese da tradução, constatou-se que em todas
as teses houve a produção de uma síntese das traduções elaboradas na etapa
anterior.
Na terceira etapa, denominada de retro-tradução, houve a participação de dois
retrotradutores em todas as teses, com semelhança na fluência nos dois idiomas
de interesse - português e inglês, mas com variações quanto à especialidade
destes: em T1 ambos eram da área de letras, em T2 ambos eram estudantes de
medicina e em T3 um era profissional da saúde mental e o outro não teve sua
especialidade revelada.
A quarta etapa, denominada de comitê de juízes, foi cumprida por todas as
teses, porém com algumas variações: em T1 o comitê contou com a participação de
três enfermeiras obstétricas e a autora da tese; em T2 o comitê foi formado por
três professores universitários da área, com título de doutor; em T3 o comitê
foi composto por dois profissionais da saúde com experiência no contexto da
família.
Na quinta etapa, denominada de pré-teste, observou-se que a maioria das teses
(T1 e T2) submeteu a versão traduzida e aprovada pelo comitê de juízes a uma
parcela da população-alvo, tendo essa amostra variando entre 30 e 39 sujeitos,
como sugerido por Beaton e seus colaboradores. Uma autora (T3) não executou
essa etapa.
Na sexta etapa, denominada de submissão aos autores da escala, houve
cumprimento de apenas uma tese (T3).
DISCUSSÃO
Buscou-se fundamentar a discussão na síntese do conhecimento evidenciado nas
teses analisadas e em outras publicações científicas sobre a temática, a fim de
contribuir para uma maior compreensão das etapas metodológicas requeridas para
o processo de tradução e adaptação transcultural de instrumentos de mensuração.
O processo de construção do conhecimento reflete as transformações do movimento
histórico vivenciado pela enfermagem. Neste movimento dinâmico que visa um
avanço criador na práxis do ensino, pesquisa e assistência, os enfermeiros vêm
buscando utilizar diferentes e inovadores tipos de estudo(12).
Considerando a relevância dos estudos metodológicos, uma vez que eles
disponibilizam instrumentos confiáveis e válidos de mensuração, especialmente
na área de saúde sexual e reprodutiva, é fundamental a divulgação desse tipo de
produção, como incentivo a futuras pesquisas de convergência metodológica.
Portanto, uma das estratégias para o alcance dessa meta seria citar o tipo de
estudo ou o seu propósito em seções comuns de busca, como no título do
trabalho, a exemplo do que observamos nas teses analizadas.
Constatou-se que no ano de 2008 houve um predomínio da produção científica
brasileira acerca do uso de escalas, mais de uma década depois da mesma
tendência a nível internacional, uma vez que a publicação dos instrumentos
originais datava da década de 1990. Todavia, acredita-se que esse tipo de
produção deva assumir uma curva de crescimento, tanto a nível local, quanto
nacional, pois é crescente o número de pesquisadores com interesse no assunto.
Os instrumentos de mensuração fundamentam-se na psicometria, que procura
explicar o sentido que têm as respostas dadas pelos sujeitos aos itens de uma
escala. Etimologicamente, psicometria representa a teoria e a técnica de medida
de processos mentais, pioneiramente aplicados na área da psicologia e da
educação(13). Posteriormente, seu uso ampliou-se para outras áreas, dentre elas
a saúde ganhou um grande impacto.
Ao se analisar a origem das produções, percebe-se nitidamente a predominância
de estudos provenientes da região Sudeste. Essa prevalência pode guardar
relação com o fato de a maioria dos cursos de pós-graduação localizar-se nesta
região do Brasil, embora, nos últimos anos, a política de incentivo à pesquisa
tenha avançando, na tentativa de disseminar a pós-graduação em enfermagem nas
demais regiões brasileiras(12).
Em relação às direcionalidades temáticas contempladas nas teses analisadas,
observou-se convergência com muitos estudos brasileiros, ao abordarem temas
como pré-natal, aleitamento materno e dinâmica familiar de mulheres com câncer
de mama. Em contrapartida, revelam-se lacunas em outras temáticas da saúde da
mulher, igualmente relevantes, como a anticoncepção, as gestações de risco, o
puerpério, o climatério, as doenças sexualmente transmissíveis, dentre outras,
fornecendo assim, direcionamento para estudos futuros.
Ressalta-se que, nas teses analisadas, as autoras das versões brasileiras
preferiram citar o título dos instrumentos na língua inglesa, não sendo
encontradas justificativas para a não tradução destes para a língua portuguesa.
No entanto, algumas autoras, ao fazerem menção à versão adaptada
transculturalmente para o idioma do Brasil, acrescentaram ao título original a
expressão "brazilian version", sendo esta a forma que a maioria dos tradutores
de escala prefere para citar o objeto final de suas construções(14-15).
Outro dado que merece destaque é quanto à tradução e adaptação da escala prévia
em outros países. Percebeu-se que essa informação foi descrita por duas das
três teses analisadas. Esse dado deveria constar em todos os estudos desta
natureza, pois auxiliaria tanto na compreensão da magnitude do instrumento,
como na análise comparativa de sua aplicação, convergindo para uma adaptação
transcultural mais acurada e válida.
Em relação ao processo metodológico de tradução e adaptação transcultural, as
teses revisadas foram analisadas de acordo com as seis etapas propostas por
Beaton et al.(11), em que foi verificado se os critérios estabelecidos pelo
autor foram seguidos. Quanto maior o cumprimento, melhor a avaliação quanto à
qualidade do trabalho(11).
O processo de adaptação transcultural de uma escala de origem estrangeira
requer uma rigorosa metodologia para que se obtenha, no final, uma escala
equivalente e não uma mera tradução literal(15). Para isso, a tradução de um
instrumento deve seguir passos importantes para garantir essa equivalência
entre os dois idiomas envolvidos(14).
Na primeira etapa preconizada por Beaton et al.(11)- Tradução inicial, deverão
ser realizadas duas traduções independentes para a língua portuguesa. Uma por
um tradutor (T1) que não seja da área de saúde - este não será informado do
objetivo da tradução; e outra por um segundo tradutor (T2), que será um
profissional de saúde com fluência em inglês - este será informado do objetivo
da tradução. Ressalta-se que as traduções deverão ser realizadas por
brasileiros com fluência em inglês (idioma original da escala)(11,16).
Nesta etapa, as três teses estão em concordância com referencial metodológico
adotado, pois seguiram o número mínimo de tradutores (dois) e a fluência destes
no idioma original (inglês).
No entanto, em relação ao critério de que um dos tradutores não deveria ser da
área da saúde, houve descumprimento por T1. Quanto à revelação dos objetivos da
tradução da escala, este aspecto não foi respeitado por T1 e T3 (não deixaram
claro se o fizeram), e foi executado incorretamente por T2 (revelou os
objetivos para o tradutor que não era da área da saúde). Destaca-se que para o
tradutor pertencente à área da saúde deve ser revelado o objetivo da pesquisa
para que o mesmo possa evitar termos técnicos utilizados no campo científico,
desconhecidos da população em geral.
Na segunda etapa preconizada por Beaton et al.(11)- Síntese das traduções, a
pesquisadora deverá sintetizar os resultados das duas traduções. Esta síntese
será cuidadosamente registrada quanto a cada item do instrumento. Após os
ajustes entre as duas traduções, o instrumento será utilizado no estágio
seguinte(11).
A falta de informação ainda é observada na fase de síntese, onde duas teses,
embora a tenham executado, não deixaram claro quem participou dessa fase, fato
observado tanto em T2, quanto em T3. Essa última apenas mencionou que a síntese
foi realizada por uma "equipe". Esse tipo de conduta dificulta a avaliação dos
trabalhos devido à falta de dados importantes para a identificação e
compreensão da metodologia.
Na terceira etapa preconizada por Beaton et al.(11) - Tradução de volta à
língua de origem (Back-translation), o procedimento adotado consiste em envio
do instrumento, para a sua língua oficial, etapa denominada de back-
translation, que deve ser executada por dois tradutores sem o conhecimento dos
objetivos da back-translation, com o propósito de evitar viés na pesquisa. Após
a realização das traduções de volta à língua de origem, os instrumentos serão
encaminhados ao próximo estágio.
Porém, os achados dos trabalhos analisados revelam divergência em relação ao
cumprimento desses critérios, uma vez que eles foram executados de forma
equivocada ou incompleta, demostrando falta de atenção na elaboração desses
estudos. Isto corrobora com os achados de outro autor, que observou uma
tendência em não conduzir o processo de adaptação transcultural com o rigor
metodológico necessário e exigido nesse tipo de trabalho(17).
Na quarta etapa preconizada por Beaton et al.(11)- Revisão por um comitê, no
qual todos os instrumentos produzidos até esta fase (as duas traduções, a
tradução síntese e as duas versões do back-translation, além da versão original
)serão examinados por um comitê de juízes formado por profissionais da área da
saúde e conhecimento na temática abordada.
Diante da análise dos critérios estabelecidos pelas teses analisadas quanto à
formação do comitê de juízes, percebeu-se que não houve um consenso no perfil
deste grupo de experts. Além disso, os referenciais metodológicos disponíveis
são breves em sua descrição, não tecendo comentários aprofundados sobre sua
composição.
Sintetizando o perfil de juízes com base nos achados das teses analisadas
verificou-se: profissionais com título de doutorado e com experiência prática e
acadêmica na área em estudo. Entretanto, no sentido de aprimorar o processo de
tradução e adaptação, sugere-se como critérios para formação desse comitê: ser
profissional de saúde, ser pesquisador doutor, possuir experiência acadêmica e
prática na área temática da escala, ter experiência com escalas psicométricas
(incluindo utilização, criação, avaliação e validação). Ademais, sugere-se a
inclusão de profissionais da área de letras, que poderão auxiliar na adaptação
semântica do instrumento. Vale ressaltar, que esta é apenas uma sugestão e que
requer aplicação e posterior validação dos pesquisadores interessados no
assunto.
Na quinta etapa preconizada por Beaton et al.(11) - Pré-teste, a versão final
do instrumento deverá ser aplicado em uma amostra de 30 a 40 indivíduos, para
que seja verificada sua compreensão pela população-alvo. Em relação a esta
etapa, todos os critérios foram cumpridos adequadamente por apenas duas das
teses analisadas. O cumprimento desta etapa é relevante por oportunizar ajustes
advindos de sugestões do público-alvo da escala, verificar a compreensão das
questões propostas e servir para o planejamento da aplicação do instrumento
final - como tempo gasto no preenchimento, local adequado, forma de abordagem e
aceitação da abordagem.
Na sexta etapa preconizada por Beaton et al.(11) - Submissão aos autores da
escala, todos os relatórios e construtos deverão ser enviados aos autores da
escala, para verificação do cumprimento de todas as etapas do processo e
validade do instrumento. Percebe-se que este é um critério citado apenas por
Beaton et al.(11), sendo pouco utilizado nos estudos de tradução e adaptação de
escalas. Observou-se no presente estudo que apenas uma tese cumpriu este
critério (T3), no entanto, isto fortaleceu seu processo metodológico,
contribuindo para a qualidade do seu construto(18).
Após análise dos estudos identificou-se a prevalência da não padronização do
processo de tradução e adaptação transcultural. Além disso, é perceptível o não
detalhamento nas descrições de informações referente ao percurso metodológico
seguido, o que dificultou a averiguação acerca da adoção do rigor metodológico
exigido para esse tipo de pesquisa, configurando-se como uma limitação do
presente estudo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo possibilitou identificar os principais focos de produção da enfermagem
brasileira em recortes de pesquisa do tipo metodológico na área da saúde sexual
e reprodutiva, bem como o cumprimento das etapas requeridas para tal. Os
resultados demonstram que ainda é incipiente a produção de teses e dissertações
que objetivem traduzir e adaptar escalas na área da saúde sexual e reprodutiva,
além da ausência de uniformidade no cumprimento das etapas do percurso
metodológico adotado.
Acredita-se que a uniformização e correta execução das etapas de tradução e
adaptação transcultural são fundamentais para o alcance de instrumentos de
mensuração confiáveis e válidos. Como referencial teórico-metodologico
sugerimos Beaton et al.(11), uma vez que ele foi adotado pela maioria dos
estudos revisados nesta pesquisa e que apresentaram resultados consistentes.
Espera-se que os achados desta investigação possam contribuir para a execução
bem sucedida de futuras investigações. No entanto, considerando que foi
utilizado um número pequeno de elementos componentes para o estudo, recomenda-
se que as informações aqui fornecidas sejam vistas com parcimônia.
Existe um interesse gonvernamental crescente em otimizar a atenção a saúde da
mulher. Diante disso, as produções acadêmicas de instrumentos válidos e
confiaveis de mensuração das condições de saude sexual e reprodutiva da mulher,
são particularmente relevantes, pois poderão subsidiar boas práticas de
enfermagem para esta clientela.