Avaliação da farmacoterapia prescrita a idosos institucionalizados
INTRODUÇÃO
O avanço da medicina e o uso de medicamentos são importantes fatores para o
aumento da longevidade, trazendo inúmeros benefícios aos indivíduos idosos, se
utilizados com cautela e responsabilidade. Caso contrário, estes podem piorar
as condições de vida desta população pelo grande número de reações adversas aos
medicamentos (RAM's) que podem acometê-los(1).
AS RAM's podem ser mais graves e acentuarem-se nos idosos devido às alterações
nos processos de absorção, distribuição, metabolismo e excreção dos
medicamentos, característicos do envelhecimento(2).
Existem poucos estudos a respeito da farmacoterapia em idosos no Brasil e os
artigos encontrados se referem, na sua maioria, a idosos residentes na
comunidade(3). Sendo assim torna-se importante a realização de estudos com
idosos institucionalizados, que beneficiaria não só a essa população restrita,
mas a toda população idosa.
A administração de medicamentos é de responsabilidade da equipe de enfermagem,
e trata-se de uma atividade que exige responsabilidade e embasamento científico
para ser desenvolvida de forma segura ao paciente(2).
O artigo 11, inciso III, alínea "a" do Decreto Lei nº 94.406/87 determina que a
administração de medicamentos é uma atribuição do auxiliar de enfermagem,
juntamente com o artigo 13 que responsabiliza o enfermeiro pela supervisão,
orientação e direção desta atividade(4).
Logo, é necessário que estudos que analisem a qualidade da farmacoterapia
prescrita a idosos institucionalizados sejam realizados com o intuito de
identificar eventuais erros e contradições para que estes sejam modificados de
modo que a prescrição medicamentosa propicie à população idosa uma melhoria da
qualidade de vida.
Considerando esse pressuposto teve-se como objetivo avaliar o perfil e a
qualidade da farmacoterapia prescrita a idosos residentes em instituições de
longa permanência situadas em Londrina-PR.
MATERIAIS E MÉTODOS
Estudo descritivo e transversal realizado em todas as instituições de longa
permanência para idosos (ILPIs), filantrópicas, situadas em Londrina-PR,
totalizando 203 idosos distribuídos em quatro ILPIs. Foram incluídos todos os
idosos que se encontravam efetivamente residindo nas instituições, sendo
excluídos aqueles que durante o período da coleta de dados não tivessem
completado 60 anos.
Os dados foram coletados no segundo semestre de 2009, utilizando-se de um
instrumento de avaliação contendo dados sócio-econômicos (idade, sexo,
escolaridade), tempo de institucionalização, presença de tabagismo, etilismo,
deambulação, se já eram aposentados. Estes dados foram obtidos em prontuário e
através de informações fornecidas pelos profissionais de saúde responsáveis
pelo cuidado dos idosos. Quanto aos medicamentos foram catalogados todos os
produtos farmacêuticos prescritos no mês de outubro, obtidos a partir dos
registros nos prontuários de todos os residentes, os quais foram solicitados
junto aos responsáveis técnicos das respectivas instituições de longa
permanência para Idosos (ILPI's).
Foram coletadas as seguintes informações a respeito da farmacoterapia: nome
comercial de cada medicamento e principio ativo, ou seja, toda "substância
quimicamente ativa responsável pela ação do medicamento representado pelo nome
genérico"(5).
Todos os produtos farmacêuticos industrializados e fórmulas magistrais foram
incluídos no banco de dados e analisados, exceto os que não puderam ter a sua
composição claramente determinada (homeopáticos, fitoterápicos, chás e
tinturas). Os princípios ativos encontrados em cada produto foram agrupados por
classes terapêuticas, conforme o Anatomical-Therapeutical-Chemical
Classification System (ATC). Trata-se de uma ferramenta com a finalidade de
melhorar o uso de drogas(6).
Foram descritos os eventos de polifarmácia, considerando o uso de cinco ou mais
medicamentos simultaneamente(7). Considerou-se medicamentos impróprios para
idosos aqueles descritos pelos critérios canadenses que consiste em uma lista
elaborada por meio de um consenso, atualizada posteriormente e dividida em duas
categorias: medicamentos ou classes deles que deveriam ser evitados em idosos,
independentemente do diagnóstico ou da condição clínica, devido ao alto risco
de efeitos colaterais e pela existência de outros fármacos mais seguros; e
medicamentos ou classes deles que não devem ser usados em determinadas
circunstâncias clínicas(8).
Os resultados foram processados e tabulados no programa Epi Info versão 3.3.2
2005, analisando as variáveis simples por porcentagem e realizadas associações
entre variáveis usando razão de prevalência.
O estudo faz parte da pesquisa "Avaliação cognitiva de idosas
institucionalizadas", com protocolo na CPG/UEL sob o nº 28729/2007, e obteve
aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina,
protocolo no SISNEP/ CAAE nº 0245.0.268.000-07.
RESULTADOS E DISCUSSãO
A idade dos idosos variou entre 60 e 100 anos e a média e a mediana foram 76,4
e 77, respectivamente (DP=8,8). A população era predominantemente feminina
(Tabela_1). Este quadro pode ser atribuído a fatores como a menor exposição do
sexo feminino a determinados riscos, notadamente no trabalho; menor prevalência
de tabagismo e uso de álcool; diferenças quanto à atitude em relação a doenças
e incapacidades e, por último, maior cobertura da assistência gineco-obstétrica
(9).
Observou-se que 84,8% dos idosos possuíam registro nos prontuários de dados
referentes ao estado civil. Estes dados podem indicar que possuir um
companheiro diminui a institucionalização do idoso, mas que isso não se aplica
ao fato de ter família. Dos idosos investigados 58,8% possuíam dados
disponíveis com relação à escolaridade e desses a maioria (80,0%) era
analfabeto ou possuía ensino fundamental incompleto.
Em relação ao tempo de institucionalização, 90,2% dos idosos possuíam este dado
disponível no prontuário e, destes, 12,5% residiam na instituição há menos de
um ano, 50,5% de um a cinco anos, 20,1% de seis a dez anos e 16,8% mais que dez
anos. O tempo de residência mínimo na ILPI foi de até um ano e o máximo de 46
anos, com uma média de permanência de 6,1 anos. A maioria dos idosos (93,4%)
era aposentada. O hábito de etilismo foi encontrado em 9,3% da população e o
tabagismo em 21,1%.
Os achados demonstraram que 97% dos 203 idosos faziam uso de algum medicamento,
dado este superior ao encontrado em instituições de longa permanência para
idosos no Nordeste do Brasil (87,2%)(3). Desta forma, apenas 3% não faziam uso
de medicamentos.
Neste estudo a média do número de medicamentos prescritos por idoso foi de 5,6,
variando de um a 15 produtos, sendo que a maioria fazia uso de mais de cinco
medicamentos (Tabela_2). Em estudo realizado em uma instituição asilar do Rio
de Janeiro-RJ foi encontrado uma média de 3,3 medicamentos(10).

O número de medicamentos consumidos tende a aumentar com a idade(22). E para
cada medicamento utilizado pelo idoso, a chance de internação decorrente de
complicações medicamentosas aumenta em 65%(11).
Entre os 197 medicamentos foram encontrados 151 princípios ativos diferentes
prescritos para a população estudada. Considerando cada principio ativo como um
evento independente de medicação observou-se um total de 1.071 eventos de
medicação realizados para o grupo, o que determinou um número médio de 5,3
princípios ativos prescritos por idoso. A maioria dos medicamentos prescritos
era de uso contínuo (Tabela_3).
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Os princípios ativos mais consumidos foram: ácido acetilsalicílico (5,1%),
hidroclorotiazida (4,3%), sinvastatina (4,3%), enalapril (4,0%), sulfato
ferroso (4,0%) e captopril (3,2%). O ácido acetilsalicílico tem função
analgésica e antitrombótica, e tem como principal efeito adverso o desconforto
gástrico, principalmente se ingerido sem alimentação prévia; também pode agir
antagonizando o efeito de anti-hipertensivos, dificultando o controle da
pressão arterial(12).
De acordo com a classificação ATC foram encontradas 38 classes de medicamentos.
Nesta classificação as substâncias ativas são divididas em diferentes grupos,
de acordo com o órgão ou sistema em que atuam e suas propriedades terapêuticas,
farmacológicas e químicas(8). Dentre os eventos de medicação, as classes mais
prevalentes foram os antipsicóticos 12,1%, os hipolipemiantes 9,6%, os
psicoanalépticos 8,5% e os inibidores do sistema renina-angiotensina 7,6%.
Com relação às possíveis interações medicamentosas foi detectada a ocorrência
de 359 eventos e 55,7% idosos estavam expostos a estes. Do total de interações
medicamentosas 24,8% foram classificadas como leve, 61,8% como moderada, e
13,4% como grave.
Os critérios canadenses de Mcleod nos fornecem uma lista de medicamentos que
são impróprios para serem utilizados por idosos, ou seja, cujos danos causados
por eles superam os benefícios, possibilitando uma assistência farmacológica
mais segura. Como exemplo de medicação imprópria está o uso do fármaco
amitriptilina por idosos(8). Baseado nestes critérios, identificou-se neste
estudo a prescrição de ao menos um medicamento de categoria imprópria a 58,1%
dos idosos, superior ao encontrado em outro estudo(13). Além disso, os idosos
foram expostos a um total de 172 eventos de drogas potencialmente
inapropriadas, em que 82,6% podem determinar efeitos adversos de alta
severidade.
Verificou-se que 59,9% dos idosos que estavam em uso de medicações foram
submetidos à polifarmácia. Tais achados encontram-se extremamente superiores
aos dados da literatura brasileira(14).
O aumento do consumo de medicamentos é influenciado por fatores socioeconômicos
e culturais, neste estudo tem-se como principal fator a prescrição
indiscriminada de medicamentos e o aumento do número de patologias decorrentes
do envelhecimento, considerando que a única fonte de acesso aos medicamentos
dos sujeitos da pesquisa é a prescrição realizada na instituição.
Algumas medidas podem reduzir a polifarmácia, incluindo manter o registro
atualizado dos medicamentos, revisando-o a cada consulta; identificar o nome
dos medicamentos pelo nome genérico e grupo terapêutico; certificar-se da
indicação adequada; ter conhecimento dos efeitos secundários dos medicamentos;
conhecer as alterações promovidas pelo envelhecimento e evitar redundâncias
farmacológicas(13).
Os critérios anteriormente mencionados são uma importante ferramenta na prática
da terapêutica medicamentosa ao idoso institucionalizado(14). Algumas
limitações destes critérios dizem respeito ao fato de se tratar de um consenso
e não ser um trabalho baseado em evidências; não permitir avaliar fatores como
interações medicamentosas, dosagens inapropriadas, tempo de tratamento e erros
de prescrição; além de não serem totalmente condizentes com a realidade dos
medicamentos disponíveis no Brasil(15).
O uso de medicamentos é de extrema importância à saúde, mas o seu uso
indiscriminado e suas consequências geram aumento dos gastos na área da saúde.
O aspecto econômico também deve ser observado, considerando que este estudo foi
desenvolvido em instituições de longa permanência, filantrópicas, e estas
dependem em parte da contribuição de terceiros para manter as suas despesas. Em
um estudo realizado em instituições de longa permanência na região sul do
Brasil, identificou-se que o gasto com medicamentos em ILPIs filantrópicas
equivalia a 4,8% do orçamento(16).
Estes dados demonstram a importância de uma avaliação adequada no momento da
prescrição de medicamentos para idosos e, para isto, é necessária a atuação de
uma equipe multidisciplinar, com profissionais capacitados. Portanto, se faz
necessário o cumprimento da legislação que exige a permanência de uma equipe de
profissionais de saúde nestas instituições, o que permite um acompanhamento
adequado e individualizado(17).
A equipe de enfermagem assume um importante papel na terapêutica do paciente,
sendo a responsável legal pela administração dos medicamentos prescritos. Tão
importante quanto à prescrição médica é a administração dos medicamentos
prescritos, função essa exercida pela equipe de enfermagem(18). Por isso, é
imprescindível que a equipe de enfermagem e principalmente o enfermeiro tenha
conhecimento a respeito da farmacologia de modo que possa identificar possíveis
interações medicamentosas, incompatibilidades farmacológicas e reações
farmacológicas precocemente minimizando assim os riscos ao cliente(19).
É responsabilidade de o enfermeiro promover ações de educação com a equipe de
enfermagem, transformando a prática da administração de medicamentos um ato
consciente e seguro para os clientes. Pois, em quase todos os lugares a
execução da prescrição médica é cumprida mecanicamente em horários
preestabelecidos(20).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo mostraram que os idosos institucionalizados em
locais filantrópicos recebem uma quantidade de medicamentos superiores a de
idosos residentes em comunidades e ainda maior se comparados com outras ILPIs.
E isso é evidente tanto em relação ao número de medicamentos consumidos, as
possíveis interações medicamentosas e no número de medicamentos impróprios para
idosos.
Foi possível observar nestas instituições a não permanência de uma equipe
multidisciplinar capacitada para o atendimento a esta população. O
gerenciamento das instituições é realizado por enfermeiros que na maioria das
vezes não possui especialização na área de Gerontologia, sendo um enfermeiro
por período, realidade não condizente com a necessidade das instituições, não
permitindo assim um acompanhamento e atendimento adequado aos idosos.
O médico faz visitas semanais ou até quinzenais, havendo grande rotatividade
desses profissionais, o que não permite um acompanhamento sistemático. Em casos
de intercorrências os idosos são levados a hospitais de referência.
Ressalta-se também, a importância do acompanhamento da equipe unidade básica de
saúde da área de abrangência, para que o idoso seja assistido de modo integral
à saúde.
O investimento em profissionais capacitados e em métodos que permitam uma
prescrição de medicamentos adequada é de extrema importância, considerando o
elevado custo com internações decorrentes de efeitos adversos e interações
medicamentosas, e do gasto desnecessário com medicamentos.
A adoção de instrumentos com critérios que permitam detectar possíveis
interações medicamentosas de maneira fácil e precocemente pode ser uma forma de
minimizar a ocorrência desses problemas.
A sistematização e padronização dos prontuários fornecem subsídios que permitem
detectar possíveis fatores de risco para ocorrência de reações medicamentosas e
fazer um acompanhamento individual.
O enfermeiro deve apoderar-se da prática de administração de medicamentos,
valorizando esta atividade como uma série de técnicas a serem executadas e como
uma atividade reflexiva, pautada em conhecimentos a respeito da terapêutica
medicamentosa, anatomia e fisiologia do envelhecimento visando um atendimento
de qualidade à população idosa.