Efetividade da intervenção breve para o uso abusivo de álcool na atenção
primária: revisão sistemática
INTRODUÇÃO
Acredita-se que a bebida alcoólica teve origem na Pré-História, com o
aparecimento da agricultura e com a invenção da cerâmica. Somente na Idade
Contemporânea é que o uso excessivo de bebida passa a ser visto como uma doença
ou desordem. Historicamente, o álcool teve importâncias econômicas, sociais,
religiosas e medicamentosas, já que era consumido em todos os segmentos da
sociedade(1).
Embora já no final do século XVIII autores americanos e europeus escrevessem
acerca do consumo de álcool relacionando-o ao adoecimento, foi no início do
século XIX que o modelo biomédico ganhou força, e surgiu a idéia de tratamento
para as complicações graves decorrentes do uso crônico, como tentativa de mudar
o foco de moralismo e de vergonha que pairava sobre o "bêbado". Até aquele
momento todas as políticas públicas existentes relacionadas à temática eram de
caráter repressivo e moralizador.
A Associação Americana de Psiquiatria ' APA e o Manual Diagnóstico e
Estatístico de Desordens Mentais ' DSMI incluíram o alcoolismo em sua primeira
versão em 1952 e a sua inclusão no CID-8, da Organização Mundial de Saúde ' OMS
se deu em 1967, já os conceitos de abuso e dependência foram estabelecidos pela
OMS em 1977. Os procedimentos dessas duas taxonomias reforçaram o caráter
moralizador do alcoolismo, que colocava o beber excessivo habitual como falta
de vergonha e um caso de polícia, expressões que perduraram durante muito tempo
(2).
São diversas as concepções acerca do conceito de saúde no século XXI, uma vez
que a noção de saúde como completo bem-estar físico, psíquico e social, como
coloca a OMS é tido como utópico e se contrapõe ao estilo de vida que a maioria
das pessoas tem. Nessa perspectiva, a idéia de perfeição e completude nas três
dimensões em relação ao estado de saúde coloca quase que a totalidade das
pessoas na condição de ausência de saúde(3).
A subjetividade exerce uma influência direta na representação que o conceito
saúde tem para as pessoas, uma vez que saúde não possui o mesmo significado
para todas elas, pois depende do contexto em que vivem, suas culturas, crenças,
experiências, concepções filosóficas e científicas(4).
Nessa óptica, outros conceitos relacionados ao processo saúde-doença são
repensados já no século XX, e dentre eles aqueles que dizem respeito ao uso
abusivo de álcool e outras drogas, como referido em parágrafo anterior, assim,
tornou-se evidente a necessidade de ações de prevenção para o uso de risco de
bebidas alcoólicas. Hoje não se pode falar apenas em abstinência como uma
política de resolução e tratamento dessa condição, mas deve-se pensar no
desenvolvimento de programas que estimulem a competência dos usuários, para
promover "resiliência" (cunho do autor) ao uso de álcool, termo que tem sido
utilizado para designar a capacidade de resistir às pressões externas e
internas que facilitariam o uso de tal substância(5).
Nesse sentido, em 1972, no Canadá, é proposta a Intervenção Breve - IB como
abordagem psicoterapêutica para dependentes de álcool por Sanchez-Craig et al.
(6). A estratégia consiste na aplicação de quatro sessões focalizadas e
simples, no entanto, seus autores observaram uma redução imediata do consumo de
álcool em dependentes graves e, consequentemente, uma melhora na saúde, quando
comparada a uma amostra semelhante de pacientes sem tratamento.
De uma forma geral, a IB apresenta um enfoque educativo e motivacional, em que
o principal objetivo é desencadear a decisão e o comprometimento com a mudança
dos pacientes, com a finalidade de reduzir o risco de danos ocasionados pelo
consumo exagerado de álcool(7).
O espaço terapêutico de eleição para a intervenção breve é a atenção primária,
devido à possibilidade de vínculo entre os usuários e equipe de saúde e
efetividade do monitoramento do tratamento.
Alguns autores, embora tenham desenvolvido estudos em serviços emergenciais e
ambulatoriais, concluem que a IB na atenção primária é mais efetiva, uma vez
que o indivíduo não se encontra em um processo tão avançado de dependência
química.
Nessa lógica, os autores do presente estudo se propõem a realizar uma revisão
sistemática da literatura, com a finalidade de identificar a produção
bibliográfica acerca das intervenções breves realizadas na atenção primária, no
Brasil, nos últimos treze anos e que foram divulgadas nas principais bases de
dados brasileiras, na área da saúde.
OBJETIVOS
O presente trabalho objetivou identificar artigos que contemplassem o critério
de estudo empírico a respeito do emprego de estratégias de intervenções breves
no uso abusivo de álcool; e analisar a eficácia e os impactos dos
aconselhamentos propostos aos participantes, nos estudos selecionados.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo bibliográfico sistemático das publicações divulgadas nas
Bases de Dados da Biblioteca Virtual de Saúde ' BIREME (Scielo, Lilacs e
Medline), no período de 1997 a 2010. A seleção dos textos apoiou-se em
descritores previamente determinados: álcool, intervenção breve, atenção
primária, tratamento e efetividade. O número de descritores pautou-se nas
normas para publicação de periódicos em Enfermagem.
O período foi escolhido devido ao fato de que as primeiras publicações
científicas acerca das intervenções breves para o uso abusivo de álcool são
datadas a partir da década de 1970 e, produzidas essencialmente naquela época
por países desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Espanha.
Os critérios de inclusão de artigos que versam a respeito de intervenções
breves foram os seguintes: delineamento da pesquisa, com seleção apenas de
estudos empíricos; objetivos, métodos e resultados claramente definidos no
resumo do artigo; artigos publicados nas línguas portuguesa, inglesa e
espanhola; artigos publicados entre os anos de 1997 a 2010.
RESULTADOS
A busca limitada pelos parâmetros determinados anteriormente resultou em um
total de 486 artigos. Dentre esses, os artigos referentes a pesquisas de
revisão literária, artigos que não abordavam a temática de efetividade das IBs
com os usuários dos serviços de saúde (relacionados à capacitação de gestores
da saúde, capacitação de agentes comunitários, redução de danos e etc.) e
artigos cujos resultados ainda não estavam concluídos quando publicados, foram
excluídos. A amostra final foi, portanto, composta por 30 itens, apresentados a
seguir na tabela_1.
Dentre os artigos identificados, prevaleceram aqueles em que foram utilizados
os descritores tratamento e álcool, com 226 itens, na Scielo, seguidos daqueles
em que foram empregados os descritores álcool, intervenção breve, atenção
primária e efetividade, com 89 itens, selecionados no Medline.
Após o processo de seleção dos artigos, procedeu-se à tabulação dos dados
encontrados com a discriminação dos seguintes aspectos: ano; autor; país em que
trabalho foi realizado; local de aplicação da IB; caracterização da população
estudada; uso de teste de rastreamento; e efetividade das IBs, apresentados nos
quadros_1, 2 e 3.
Entre os anos de 1997 e 2010 foram publicados 30 artigos, sendo que em 2008 e
2009 foram divulgados seis trabalhos, respectivamente. Observou-se que a partir
de 2001, verificou-se a crescente e linear produção de artigos em periódicos,
com notável ascendência a partir de 2008.
Os trabalhos foram publicados em sete países, sendo 12 deles elaborados por
pesquisadores dos Estados Unidos da América. No período, o Brasil e a
Inglaterra produziram seis trabalhos, cada um, posicionando-se na segunda
posição de trabalhos divulgados nas bases de dados da Bireme.
Dos 30 trabalhos que preencheram os critérios estabelecidos para esta pesquisa,
14 foram desenvolvidos em ambientes da atenção primária, e seis em espaços
ambulatoriais.
Quanto ao público-alvo, as idades prevalentes entre os participantes foram
entre 18 e 65 anos. O público adolescente e universitário que se mostrou
representativo, uma vez que quatro artigos publicados enfocaram esse grupo
etário. Vale ressaltar que dois artigos tiveram com amostra uma população
idosa, na faixa etária de 65 anos e acima.
A respeito do gênero, sete estudos tiveram como amostra o sexo masculino, três
o sexo feminino, e catorze se caracterizaram por analisar ambos os sexos.
Em 16 trabalhos os autores não utilizaram instrumentos validados para
rastreamento de consumo de álcool. O AUDIT foi empregado para o rastreamento em
cinco trabalhos, sendo que em um deles foi associado a outro teste.
As principais estratégias utilizadas pelos pesquisadores foram: aconselhamento
breve e entrevista motivacional. De maneira geral, os artigos incluídos no
presente estudo pretenderam analisar os efeitos e/ou a efetividade das
intervenções breves. A maioria dos artigos da amostra indicou que as IBs são
efetivas, com exceção de três artigos, ou porque os pacientes já estavam
internados e conseqüentemente abstinentes ao álcool, ou não surtiram efeito em
pacientes com comorbidades ou porque a estratégia teve o mesmo efeito que o
aconselhamento padrão. Alguns autores dos trabalhos estudados afirmam que as
IBs reduzem significativamente o consumo excessivo de álcool, causa impacto
positivo e imediato nos usuários e que tais estratégias são mais eficazes no
campo da atenção primária.
DISCUSSÃO
Estudos científicos relacionados à aplicação de intervenções breves no
tratamento de pacientes bebedores de álcool começam a ser realizados
intensamente a partir de 2003. O interesse dos pesquisadores por essa área
clínica é vasto, uma vez que os resultados dessa terapia são motivadores para
pacientes e profissionais.
São reconhecidas as indicações das IBs para a redução de índices de
morbimortalidade, sendo que a mortalidade pode ser reduzida em 23% e 36% entre
bebedores pesados, como foi encontrado em um estudo realizado em 2006(38). Este
resultado tem relevância clínica e psicossocial, pois podem prevenir problemas
causados pelo uso excessivo de álcool, como aparecimento de doenças
cardiovasculares, acidentes de trânsito; e gerar mudanças comportamentais nos
indivíduos, o que impacta positiva e diretamente nas taxas de mortalidade.
A técnica da IB pode ser aplicada por profissionais de várias formações, desde
que tenham recebido um breve treinamento. Desde simples recomendações para
redução do consumo, fornecidas por um profissional (assistente social,
enfermeira ou técnica de enfermagem), até uma série de recursos oferecidos em
um programa estruturado de tratamento podem ser empregados. Como exemplificado
em 2004 por Marques et.al., um médico do Programa de Saúde da Família, pode
incorporar em sua consulta de rotina um espaço para identificação de pacientes
potenciais para o uso excessivo de álcool, incluindo a aplicação da IB durante
a entrevista a ser realizada com o paciente(40). Apesar de existir a negação e
resistência em alguns pacientes, os bebedores de risco são, na maioria das
vezes cooperativos. A experiência obtida no estudo realizado pela OMS em 2001
demonstra que os pacientes são cooperativos e a maioria deles aprecia que os
profissionais de saúde mostrem a interação do álcool com a saúde(41).
Uma importante ferramenta para a definição de estratégias de prevenção são os
instrumentos de rastreamento (screening). Eles possibilitam a introdução de
procedimentos de intervenção breve e motivam o paciente a mudar seu
comportamento. O principal deles para o uso de álcool é o AUDIT (Alcohol Use
Disorders Identification Test), de fácil aplicação e com validação universal.
Quando associado à intervenção breve, o AUDIT facilita a aproximação inicial e
permite um feedback positivo para o paciente, possibilitando assim, a
identificação dos níveis de consumo do usuário em questão, o que facilita a
definição de estratégias de acordo com o resultado do teste. Usuários
identificados no teste como bebedores pesados podem se beneficiar do uso do
teste, pois estratégias de IBs podem ser postas em prática antes que estes
sofram as complicações mais graves e evoluam para a dependência de álcool(43).
Nesta revisão literária, somente cinco estudos utilizaram o instrumento AUDIT.
Os artigos predominantemente não apresentaram instrumentos de rastreamento;
dentre os 30 artigos, mais de 50% não indicaram qualquer ferramenta de suporte
à intervenção. Assim o presente estudo tem algumas limitações como não
identificar um instrumento considerado padrão-ouro para o rastreamento de
consumo do álcool.
A população alvo da aplicação das IBs é diversificada, o que demonstra que os
efeitos do uso abusivo de álcool incidem diretamente na vida de indivíduos,
independente de sua faixa etária. O estudo realizado por De Micheli et.al.,
2004, comprova que a IB é efetiva na redução do consumo de substâncias, além de
diminuir a intensidade dos problemas e dos comportamentos de risco(28).
Algumas publicações científicas encontradas selecionaram uma população amostral
adolescente(10,13,16,28). Considerando que o contato ou a experimentação de
substâncias psicoativas parece ser inevitável para a maioria das pessoas desse
grupo etário, a orientação preventiva parece minimizar as conseqüências
observadas em jovens que cumprem medidas protetivas, por exemplo, conforme
verificado em população estudada(16).
De acordo com os artigos avaliados, os homens apresentam maior consumo de
álcool e dessa forma, maior dependência. Do total de 30 artigos da amostra,
sete destes tinham homens como população total estudada ou predominante. Essas
pessoas, em sua maioria, foram abordadas no serviço de atenção primária à
saúde, salvo uma amostra específica de componentes do corpo de bombeiros de uma
cidade mineira(21). Essa atenção particular a uma classe trabalhadora demonstra
a necessidade de abordagem, avaliação e encaminhamento de possíveis bebedores
de risco para os serviços especializados no tratamento de álcool.
Mesmo não sendo predominante nos estudos relacionados ao consumo de álcool, a
população feminina teve uma representatividade significativa, já que na amostra
final desta revisão, quatro artigos abordaram a temática no universo feminino.
O consumo de álcool entre mulheres, principalmente entre adolescentes e
mulheres com idades entre 40 e 55 anos mostra-se ascendente na sociedade
brasileira. Bem como na amostra masculina, existe predominância de abordagem de
usuárias no serviço primário, no entanto, alguns estudos mostraram que é
possível a identificação de homens e mulheres que fazem uso excessivo de álcool
em outros ambientes, além da atenção primária.
Estudo aplicou as IBs em clínicas obstétricas de serviços de atenção primária
que realizavam o acompanhamento pré-natal da gestante. Uma minuciosa entrevista
era realizada com a parturiente, a fim de se identificar possíveis riscos à
gestação. Comprovou-se que após seis meses de aplicação das IBs houve uma
significativa redução no número de bebidas consumidas, no número de dias de
consumo e no número de dias bebendo pesado(17).
Outro segmento etário abordado por dois artigos de nosso estudo foi o de
idosos. Nesses, os problemas relacionados ao álcool não são divulgados e
freqüentemente passam despercebidos aos olhos dos profissionais de saúde. Nos
usuários em que o uso abusivo de álcool se desenvolveu a partir dos 50 anos, as
perdas e o isolamento que acompanham o envelhecimento se mostraram como fatores
que, muitas vezes estão associados com o incídio dos problemas relacionados ao
beber pesadamente. Nos estudos, os autores indicaram que as IBs conseguiram
reduções significativas no consumo e na freqüência do consumo excessivo de
álcool e que estas estratégias se mostram tão efetivas na população idosa,
quanto em jovens(27,30).
O serviço de atenção primária à saúde é o primeiro contato do indivíduo, da
família e da comunidade com o sistema de saúde. É o melhor ambiente para a
aplicação de medidas preventivas, pois o estigma com o alcoolista é menor e
conseqüentemente também será menor a sua resistência à abordagem e orientação a
respeito do problema. A atenção primária é caracterizada por uma boa relação de
custo e efeito, pois consegue atingir um número amplo de pessoas e tem
oportunidade de intervir antes que o padrão de uso de álcool provoque danos
graves à saúde do usuário. Vale ressaltar que nos municípios de pequeno porte
no Brasil, o impacto destas estratégias pode ser ainda maior, uma vez que a
atenção primária é a principal, senão a única, forma de oferta de serviços
públicos de saúde.
O uso excessivo de álcool aumenta a incidência de muitas doenças, com perdas
associadas à qualidade de vida e, conseqüentemente, à expectativa de vida. Uma
ação preventiva realizada eficazmente aumenta a expectativa de vida da
população, e reduz os custos sociais e de cuidados de saúde, como apresentado
por estudo que confirma a relação custo- benefício das IBs e sugere a
implementação das mesmas em serviços de atenção primária à saúde, como
excelente estratégia oportunista de rastreio de usuários, já que esses estão na
sala de espera dos serviços de saúde(14). Também se pode observar os benefícios
que as IBs produzem diretamente à saúde humana ao se analisar estudo
(26)realizado porem 2005 com 78 bebedores de risco, que comprovou que após um
ano de utilização das Ibs como estratégia para tratamento, verificou-se
reduções nos níveis de colesterol, triglicérides, Gama-glutamil transferase
(GGT) e Volume corpuscular médio (VCM).
Em 2008 uma pesquisa realizada durante seis meses com aproximadamente 326
indivíduos dependentes de álcool e não dependentes, comprovou que ambos os
grupos se beneficiaram das estratégias de intervenção breve, atingindo níveis
significativos de redução do total de bebidas ingeridas e o número de dias de
consumo(19).
Analisando os artigos desta revisão, contatou-se que a intervenção breve foi
eficaz e reduziu significativamente os episódios de bebedeira, obtendo
resultados eficazes com apenas uma sessão de IB(11,28). Em apenas três artigos
da amostra a IB não foi efetiva: os pacientes com comorbidades não foram
beneficiados com a técnica(20); autores obtiveram melhores resultados de
tratamento quando empregaram o aconselhamento padrão, ou seja, a prática de IB
não surtiu efeitos superiores à estratégia já empregada; a IB não foi eficaz
porque os pacientes já estavam internados, e, consequentemente, abstinentes de
álcool(25).
De uma forma geral, a intervenção breve apresenta um enfoque educativo e
motivacional para pessoas, às quais se intenciona a redução do uso de álcool.
Entretanto, existem dificuldades para a implementação da intervenção na rotina
dos serviços de atenção primária à saúde, como a falta de engajamento dos
profissionais de saúde e a descrença acerca da possibilidade de melhora dos
usuários em relação aos problemas associados ao uso abusivo de álcool(42).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentre os 30 artigos selecionados para o estudo sistemático da literatura,
entre os anos de 1997 a 2010, que versavam acerca da IB como estratégia
empregada em serviços da atenção primária, para a redução do consumo abusivo de
álcool, outros estudos publicados utilizaram teste de rastreamento de uso
abusivo de álcool, como o AUDIT, o que dificulta saber a quantidade de álcool
que a pessoa consumia, e conseqüentemente, repercute na confiabilidade das
intervenções breves, quanto a serem efetivas ou não.
Além disso, a não caracterização dos participantes em todos os estudos
impossibilitou estabelecer, em todos eles, o gênero e a faixa etária mais
suscetíveis ao consumo excessivo de álcool, e também, em qual desses grupos as
IBs são mais eficazes.
A falta de conscientização dos profissionais de saúde acerca do alcoolismo,
como sendo verdadeiramente uma questão de saúde pública, os leva a estigmatizar
os consumidores abusivos e a não se envolver com estratégias de enfrentamento
como as IBs, em sua rotina profissional.
Os resultados encontrados mostraram que o local mais adequado para a
implantação destas estratégias o serviço de atenção primária. Porém, para o
maior sucesso da técnica ressalta-se a importância do engajamento dos
coordenadores das unidades básicas de saúde (UBS) na implementação dessa
proposta, estimulando e proporcionando a capacitação de seus funcionários.
Deve-se levar em consideração que qualquer profissional, de nível superior, da
área da saúde tem habilidades suficientes para atingir bons resultados na
aplicação das IBs, desde que esteja capacitado.
Ademais, pode-se aproveitar o potencial que os agentes comunitários têm em
transitar seus territórios, para que os mesmos possam identificar os
consumidores abusivos nos espaços comunitários, contribuindo para que os
profissionais tenham acesso a eles e possam aplicar as estratégias de IBs.
Alguns estudos preconizam que as IBs devem ser direcionadas apenas aos
bebedores com comportamento de risco ou consumo nocivo, pois esses ainda não se
apresentam com sinais de dependência. Outros autores afirmam que os bebedores
já diagnosticados dependentes se beneficiam também do uso destas estratégias,
considerando que esse seria o primeiro passo, pois as IBs se caracterizam como
políticas motivacionais e não invasivas.
As autoras acreditam que as IBs devam ser incorporadas nas políticas públicas
de saúde em atenção aos usuários de álcool e outras drogas, como estratégia
para o enfrentamento do consumo abusivo do álcool, antes que esse chegue à
dependência química. Dessa forma, tais estratégias seriam financiadas pelo
Ministério da Saúde e todos os profissionais e equipes de saúde da atenção
básica seriam capacitados para realizá-las.
Por fim, as autoras fazem uma provocação aos enfermeiros que atuam no cuidado
em saúde mental, para que publiquem artigos relatando suas experiências com
IBs, uma vez que nos artigos estudados, alguns dos estudos foram realizados por
enfermeiros (a coleta de dados), mas publicados por outras categorias
profissionais.