Interconexão entre a história da graduação em enfermagem no Brasil e o
pensamento ecossistêmico
INTRODUÇÃO
As primeiras instituições de ensino superior foram instaladas a partir de 1808,
por ocasião da vinda da família real para o Brasil. Entretanto, somente em 1920
(século XX,) surge a Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal
do Rio de Janeiro, que reunia os cursos superiores da cidade, a saber: a Escola
Politécnica, a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Direito - que surgira a
partir da fusão da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências
Jurídicas e Sociais. O decreto que oficializou a universidade foi o de nº
14.343, de 7 de setembro de 1920. Mas, somente a partir de 1930 ocorreu a
procura pelo ensino superior devido as transformações políticas, sociais,
econômicas e culturais em processo no país(1).
Nesse contexto, a construção do saber em enfermagem no Brasil se desenvolveu em
cinco fases(2). A primeira denominava-se enfermagem pré-profissional, chamada
de "modelo religioso", em que o saber era traduzido pelos procedimentos
caseiros. Esse período inicia com o Brasil colônia e se estende até o final do
século XIX. Os cuidados aos doentes, geralmente, eram realizados pelos
escravos. Entretanto, destaca-se nesse período, a dedicação, zelo e cuidado
desenvolvido aos doentes e necessitados, pelos padres Jesuítas José de Anchieta
e Frei Fabiano de Cristo. A segunda caracterizava-se pelo modelo "vocacional e
disciplinar" de Florence Nightingale, chamada de enfermagem moderna. Essa fase
aponta, como marco inicial da enfermagem moderna, a criação da Escola de
Enfermagem Anna Nery, no ano de 1922. Já a terceira fase, que se estende até os
meados de 1940, consagrou-se pela passagem do capitalismo liberal para
monopolista e pelo desenvolvimento industrial, assinalada pela enfermagem
funcional, em que o foco era a assistência. A penúltima fase desenvolveu-se
entre as décadas de 1940 e 1960, na qual a ênfase estava no trabalho em equipe
e na organização de princípios científicos. E a quinta fase ocorreu no início
da década de 1960, estendendo-se até os dias atuais com a criação das teorias
de enfermagem(2). Percebe-se que a enfermagem é uma profissão que, ao longo do
tempo, vem escrevendo uma história permeada por conceitos e paradigmas,
influenciando o ser e o fazer do profissional enfermeiro(3).
Ao associar o "ser" e o "saber" do enfermeiro ao pensamento ecossistêmico
emerge uma possibilidade de um novo "ser" e "fazer" na enfermagem. Nessa
acepção, o enfermeiro integra a teia da vida e é convidado a fazer parte do
cuidado de toda a natureza(4). Pois, considera-se a teia da vida constituída de
todos os elementos vivos e não vivos que fazem parte de um determinado espaço
que se inter-relacionam, interdependem e se influenciam mutuamente.
Objetiva-se, neste artigo, refletir sobre a interconexão entre a história da
Graduação em Enfermagem no Brasil e a perspectiva ecossistêmica, pois a
história é constituída de eventos que influenciaram o "ser", o "saber" e o
"fazer" da enfermagem.
HISTÓRIA DA GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM NO BRASIL
A primeira escola de enfermagem do mundo foi fundada em Londres em 1860, no
Hospital de St. Thomas(5). O Brasil iniciou a sua caminhada histórica na
formação em enfermagem no ano de 1890, por meio da criação da Escola
Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras pelo Marechal Deodoro da Fonseca,
através do Decreto nº 791, para fornecer mão-de-obra qualificada em todos os
hospitais civis, militares e psiquiátricos.
No entanto, considera-se que a Enfermagem Moderna, fundamentada nos princípios
nithingaleanos, foi inserida no Brasil em 1923, por meio da organização do
serviço de enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP),
dirigido por Carlos Chagas. O ensino sistematizado tinha como objetivo formar
profissionais de enfermagem que garantissem o saneamento urbano necessário para
a continuidade do comércio internacional, o qual se encontrava ameaçado pelas
epidemias.
Esse ensino estava sob a responsabilidade das enfermeiras da Fundação
Rockfeller, convidadas para o Brasil com a finalidade de organizar o serviço de
enfermagem de saúde pública e dirigir uma Escola de Enfermagem (EEnf). Essa
escola foi nomeada EEnf do DNSP, criada em 1922, e iniciou suas atividades no
ano seguinte. Após três (03) anos foi renomeada para Escola de Enfermagem Anna
Nery, e a seguir, em 1931, ano da regulamentação do exercício e ensino da
enfermagem no país, para EEnf da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Somente em 1937, essa escola, pioneira de enfermagem brasileira, foi
incorporada à Universidade do Brasil, e no ano de 1946 foi reconhecida como
estabelecimento de ensino superior(6).
Continuando nessa retrospectiva histórica, na década de 30 outras escolas de
enfermagem foram criadas no Brasil: a Escola de Enfermagem Carlos Chagas, na
cidade de Belo Horizonte- Minas Gerais-, em 1930; a fundação da Escola de
Enfermagem da Escola Paulista de Medicina, em 1938(6).
Seguindo nessa linha de pensamento, cabe colocar que a expansão da quantidade
de cursos de enfermagem, no Brasil, ocorreu por meio de determinantes sociais,
políticos e econômicos, acompanhando as políticas educacionais e de saúde(7).
Para encontrar os motivos desencadeadores é preciso considerar a mudança
ocorrida na Constituição Federal do Brasil de 1934 em relação à educação que
passou a ser um direito de todos, sob a responsabilidade da família e dos
poderes públicos. Por mais de uma década, ou seja, até 1945, o ministro da
Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema Filho, promoveu uma gestão marcada
pela reforma do ensino secundário e universitário. Nessa mesma época o Brasil
já implantava as bases da educação nacional.
Na enfermagem, a Lei 775/49 regulamentou o ensino da enfermagem em todo o
território nacional, tornando obrigatório o vínculo das escolas a um Centro
Universitário ou a uma Faculdade de Medicina terminando, dessa forma, com as
Escolas de Enfermagem isoladas(8).
Seguindo na evolução do ensino no Brasil, é importante destacar a promulgação
da Lei 5540/68, a qual estabeleceu a Reforma Universitária, de cunho
funcionalista, segundo certas características das universidades americanas. Ela
mudou a estrutura dos cursos e determinou que o ensino superior seria
ministrado em universidades, aliando o ensino à pesquisa. Além disso,
determinou que o corpo docente das EEnf passasse a ter uma maioria de
enfermeiras.
Nos anos 1970 e até meados dos 1980, o Departamento de Assuntos Universitários
do Ministério da Educação e Cultura, criou um programa de expansão dos cursos
de enfermagem, promovendo a criação de trinta e seis cursos superiores de
enfermagem, sendo 67% (vinte e quatro) públicos e 33% (doze) particulares(8).
No Brasil, com base nas informações do e-MEC(9), existem, atualmente, 739
cursos de ensino superior em Enfermagem(9), distribuídos da seguinte forma nas
regiões do País: região Norte 65, Nordeste 187, Centro-Oeste 61, Sudeste 316 e
Sul 110.
O CONTEXTO DO PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO
Um sistema é uma organização complexa, caracterizado pela existência de fortes
interações ou por interações não triviais, isto é, não lineares(10). O biólogo
Bertalanffy, em 1928, ampliou a teoria do holismo de Smuts (1926), a qual
consiste em um universo edificado em estruturas de complexidade crescente, para
utilizá-la na ação do conceito das diferentes disciplinas e campos de atividade
humana, como uma Teoria Geral de Sistemas. Essa teoria ressaltou os riscos da
visão reducionista na tentativa de se explicar o todo pelo comportamento de uma
de suas partes constituintes(11). A mesma possui propriedades que só podem ser
encontradas na complexidade, dessa forma, não devem ser identificadas por meio
de análises ou fragmentações do todo. Ou seja, uma organização só pode ser
estudada como um sistema, pois o todo é maior do que a soma das partes(11-13).
O pensamento sistêmico fundamenta-se em três premissas básicas(4,10):
* Sistemas existem dentro de sistemas: cada sistema é constituído de
subsistemas, que fazem parte de um sistema maior, o suprassistema.
Portanto, cada subsistema pode ser detalhado em seus subsistemas e
elementos componentes;
* Sistemas são abertos e são caracterizados por um processo infinito de
intercâmbios com o seu ambiente e realizam trocas de energia e
informações, pois seus elementos interdependem, se inter-relacionam, se
influenciam mutuamente, exercem intercâmbio e se energizam;
* As funções de um sistema dependem de sua estrutura que deve estar de
acordo com a finalidade ou objetivo que forma sua função de intercâmbio
entre o conjunto de elementos que o compõem e que se relacionam por sua
vez com o suprassistema.
Existem diversas propriedades de um sistema complexo, entre outras, destacam-se
a homeostase, o feedback, a sinergia, a entropia. Enquanto o princípio da
entropia se refere ao desgaste dos elementos, a homeostase possui a capacidade
de o sistema retornar ao estado de equilíbrio pois, a sinergia existente entre
os elementos, com seu efeito multiplicador, atua em conjunto para alavancar o
resultado global. Entretanto, o feedback é necessário para comparar com
critérios previamente instituídos com o produto da saída. Conforme a resposta
obtida pelo sistema esse pode ser positivo e ou negativo. O feedback negativo
ocorre quando há um desvio ao estabelecido, podendo o sistema como um todo
ajustar-se ou neutralizar esse desvio. Considera-se feedback positivo quando
amplifica o nível da saída, assim permite verificar o que foi realizado para
programar o que pode ser melhorado a partir do concretizado e assim fortalecer
o processo como um todo(10).
Essa teoria propagou-se por meio dos pensadores sistêmicos. O pensamento
sistêmico é pensamento de processo, no qual a forma torna-se associada ao
processo, à inter-relação, à interação, e os opostos são unificados por meio da
oscilação. Tem-se que a construção de uma concepção sistêmica da vida deverá
também ser subsidiada pelo conhecimento intuitivo que se fundamenta em uma
experiência direta, não intelectual, da realidade, holística e não-linear(13).
Permeado por esse pensamento, o ecossistema abrange a comunidade de organismos
integrantes de um determinado espaço e que interagem entre si, são
interdependentes, se inter-relacionam, trocam energia e se influenciam
mutuamente numa troca de energia. O ser humano como elemento integrante do
ecossistema, viabiliza e possibilita a construção de verdadeiras redes no
espaço em que coabita, e se desenvolve(14). Desse modo, o ecossistema é um
sistema aberto e dinâmico composto por organismos vivos e o meio com o qual e
no qual interage, trocando material e energia; e se encontra, estruturado no
tempo e no espaço(15).
A INTERRELAÇÃO DA HISTÓRIA DO ENSINO SUPERIOR EM ENFERMAGEM NO BRASIL E O
PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO
Focar a profissão enfermagem neste pensamento e, em consequência, aplicá-lo,
representa querer exceder a competência singular/pessoal e profissional,
potencializando processos no desenvolvimento humano e, desta forma, encontrar
respostas significativas na área da enfermagem/saúde que beneficie pessoas,
comunidades, ambientes e infinitos sistemas. Portanto, nessa acepção o ser
humano é um elemento constituinte da teia da vida. O ser humano pode ser visto
como um ser multidimensional capaz de construir, destruir e reconstruir sua
história, perante sua vivência com a possibilidade de agir de forma singular
frente às situações que se apresentam(13). É cabível considerar que cada um
carrega dentro de si inúmeras particularidades advindas das diferentes
vivências e situações, inerentes às constantes transformações sofridas e
absorvidas e, as inúmeras decisões tomadas para se posicionar perante as
mesmas.
Olhar o ser humano sob essa ótica multidimensional é considerá-lo um elemento
integrante de um espaço que por sua vez integra outros elementos e que em
conjunto formam um determinado ecossistema. Ao resgatar a História da Graduação
em Enfermagem brasileira, e ao relacioná-la com o pensamento ecossistêmico,
permite compreender o sentido que esse grupo profissional ocupa no ambiente e
como se relaciona com os demais elementos que a integram. As inter-relações que
se estabelecem entre todos os elementos constituintes do ecossistema são
capazes de produzir o produto em processo por meio da integração, cooperação,
inter-relação, interdependência e influência mútua.
Esse ecossistema por meio de suas propriedades de cooperação, parceria, inter-
relação e interdependência são capazes de exercer influência mútua e, assim,
construir um produto com capacidade de transformar o meio no qual se insere.
Por conseguinte, para analisar a história da enfermagem do ponto de vista
ecossistêmico é necessário considerá-la na totalidade que forma o seu conjunto
e que se expressa por meio das relações com o ambiente-espaço com o qual age,
muda e se transforma de maneira dinâmica.
Ao tomar por base a abordagem teórico-metodológica do ecossistema leva a
apreender que cada curso ou escola de enfermagem, que se estabelece num
determinado espaço, possui a probabilidade de receber a energia dos demais
elementos integrantes, tanto vivos como não vivos e, assim, produzir as
transformações necessárias para uma vida mais saudável e sustentável daquele
ambiente. Enquanto se volve o olhar para o passado busca-se compreender a
dinâmica utilizada para processar as modificações e transformações no espaço e,
por conseguinte, compreender a possibilidade de continuar a introduzir as
melhorias para tornar o espaço mais saudável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao resgatar uma breve história da graduação em enfermagem brasileira, e ao
relacioná-la com o pensamento ecossistêmico, foi possível compreender o sentido
e a responsabilidade que a mesma possui frente ao grupo constituinte do espaço,
como também, as suas relações e interdependências com os demais coadjuvantes
transformadores deste ambiente.
Pontua-se que a energia resultante desse processo inter-relacional, expressa
pela homeostase se potencializa na medida em que é capaz de se integrar,
cooperar e inter-relacionar-se numa inclusão de totalidade. Esse princípio
sistêmico sempre procura o equilíbrio. Assim, a totalidade potencializadora
compreende a construção das ações e saberes que, no coletivo, torna-se maior do
que a sua soma individual.
Em suma, o ecossistema como abordagem teórica permite que cada curso ou escola
de enfermagem que se estabelece num determinado espaço conceba a probabilidade
de receber a energia dos demais elementos integrantes, tanto vivos como não
vivos e, assim, consegue produzir as transformações necessárias para uma vida
mais saudável e sustentável daquele ambiente. Essa propriedade sistêmica de
acordo com os autores sistêmicos permanece ininterrupta enquanto os sistemas se
autorregulam e conseguem suprir a ação daqueles elementos que se encontram em
processo de entropia interna. Refletir sobre esse processo dinâmico é útil e
estimulante porque conduz o olhar para o passado e permite ancorar-se no saber/
conhecimento construído para prosseguir projetando melhorias e avanços técnico-
científicos para o futuro, pois o passado, o presente e o futuro se
interconectam.