Cuidado ao idoso em Campinas-SP: estudo qualitativo com gestores e
representantes políticos
INTRODUÇÃO
O Brasil tem vivenciado um processo de aumento da expectativa de vida
decorrente da rápida transição demográfica nos últimos anos(1-2).
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, de 2008, apontam que a proporção de idosos no Brasil
com pelo menos uma doença crônica é de 79,1%. Além disso, 30,5 % dos idosos não
tem seu domicílio cadastrado no Programa Saúde da Família nem possuem plano de
saúde particular(3).
As altas demandas em saúde pela população frente aos recursos públicos escassos
e finitos implicam, invariavelmente, formas de priorização para sua utilização
correta, eficaz, eficiente e efetiva e também moralmente legítima(4). Promover
a saúde com equidade torna-se, assim, um grande desafio para os gestores
públicos, pois os níveis de desigualdades sociais em saúde e os recursos
escassos fazem com que as prioridades para a gestão pública se fundamentem no
conhecimento da situação de saúde e do impacto de políticas, programas,
projetos e ações sobre a saúde e seus determinantes(5).
A equidade em saúde exige métodos de planejamento que privilegiem o uso de
recursos potencialmente benéficos para melhorar a saúde de toda a população.
Nesta perspectiva, para que o impacto social seja ampliado, as ações deveriam
atingir o maior número possível de pessoas, priorizando a redução de doenças
comuns(5). Além disso, o cuidado ao idoso implica oferecer serviços cuja
estrutura apresente características que possibilitem o acesso e acolhimento
adequado a estas pessoas, respeitando suas vulnerabilidades e especificidades
(6).
Para nortear a criação e o desenvolvimento de práticas em prol da saúde dos
idosos no país, criou-se a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI)
(7), que fundamenta a ação do setor saúde na atenção integral à população idosa
nos diferentes níveis de atendimento: promoção da saúde, prevenção, recuperação
e tratamento das doenças.
Em outubro de 2003 foi instituído o Estatuto do Idoso(8), que prescreve
diretrizes para o cuidado com o objetivo de prevenir doenças e manter a saúde
dos idosos. Conta com 118 artigos sobre diversas áreas dos direitos
fundamentais, incluídas as necessidades de proteção, visando reforçar as
diretrizes contidas na Política Nacional do Idoso, delineada a partir de 1994.
Além de incluir leis e políticas já aprovadas, incorpora novos elementos e
enfoques, dando um tratamento integral ao estabelecimento de medidas destinadas
a proporcionar o bem-estar.
A garantia dos direitos sociais dos idosos não tem se concretizado
efetivamente, pois estas políticas vêm sendo implementadas no Brasil de forma
lenta e gradativa(9). Assim, faz-se necessário identificar as práticas
implantadas nos municípios que tenham por objetivo seguir estas políticas,
refletindo e avaliando o trabalho realizado pelas equipes de saúde,
considerando a aplicabilidade e resolubilidade.
Portanto, o presente estudo teve por objetivos identificar, descrever e
analisar as práticas realizadas na saúde do idoso na cidade de Campinas-SP, na
perspectiva de representantes da saúde do idoso, tendo como base a PNSPI.
Este trabalho busca fomentar discussões acerca das concepções dos sujeitos
sobre estas práticas, pela identificação de questões da saúde do idoso, no
contexto político e social e subsidiar intervenções no ensino, na pesquisa e na
assistência, podendo contribuir para a Enfermagem e para o crescimento e
aperfeiçoamento das práticas e políticas de saúde neste campo.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo e analítico, com abordagem
qualitativa, realizado por meio de entrevistas semiestruturadas com
trabalhadores, gestores e representantes da saúde do idoso na cidade de
Campinas ' SP. Envolvemos os responsáveis em âmbito distrital, no serviço
especializado e também no Conselho Municipal do Idoso, conforme segue.
Distritos de saúde: a cidade de Campinas conta com cinco distritos de saúde,
divididos de acordo com o território da cidade. São eles: distrito Norte,
Noroeste, Sul, Sudoeste e Leste. Cada um deles contém determinado número de
serviços de saúde pelos quais são responsáveis. Foram entrevistados quatro
apoiadores da saúde do idoso, um de cada distrito, com exceção do distrito sul,
pois a apoiadora estava em férias no período da coleta de dados.
Centro de Referência a Saúde do Idoso da Cidade de Campinas-SP:localizado no
centro da cidade, esta unidade foi criada pela Prefeitura de Campinas e é a
primeira unidade de referência de Campinas voltada para a saúde da população
idosa. Foi entrevistado um gestor deste serviço.
Conselho Municipal do Idoso (CMI): o Conselho Municipal do Idoso é um órgão
vinculado à Prefeitura Municipal de Campinas e que foi criado com os objetivos
de interpretar e veicular os interesses da população idosa, tendo como meta a
formulação, coordenação, supervisão e avaliação das políticas e práticas
municipais dirigidas a essa parcela da população. Foi entrevistado um
representante deste órgão.
Secretaria de Saúde: Foi entrevistada a profissional responsável pela Área de
Assistência à Saúde do Idoso na SMS de Campinas, ligada ao Departamento de
Saúde.
A coleta de dados foi realizada no período de julho a setembro de 2009, em
encontros previamente marcados com os sete sujeitos. Foram explicados os
objetivos do estudo e como seria realizada a entrevista. Também assinaram neste
momento o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Resolução 196/96,
Conselho Nacional de Saúde), aprovado pela Secretaria Municipal de Saúde de
Campinas e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, São Paulo, Parecer nº
451/2009. As entrevistas foram realizadas por uma das autoras do trabalho.
Para a coleta de dados foi elaborado um roteiro semiestruturado, elaborado em
duas partes. A primeira relacionada aos dados de caracterização dos sujeitos:
nome, sexo, idade, formação, local de trabalho, tempo de atuação no trabalho. A
segunda parte continha perguntas temáticas, ou seja, sobre as práticas voltadas
à saúde do idoso. Desta forma o participante era estimulado a trazer conteúdos
relacionados às práticas implementadas no município e em sua área de atuação.
A formulação de cada uma das perguntas foi feita com base nas diretrizes da
PNSPI: promoção à saúde e manutenção da capacidade funcional, atenção às
necessidades de saúde do idoso, apoio a estudos e pesquisas na área do
envelhecimento e capacitação de recursos humanos especializados. Além disso,
solicitou-se aos sujeitos uma avaliação geral da saúde do idoso em Campinas
(SP), e a indicação de dificuldades para o desenvolvimento das ações e
possíveis alternativas.
Para análise dos discursos, utilizou-se o método de análise temática de
conteúdo, que consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma
comunicação cuja presença ou frequência signifiquem algo para o objetivo
analítico visado. Ou seja, tradicionalmente, a análise temática se encaminha
para a contagem de frequência das unidades de significação como definitórias do
caráter do discurso(10).
Nessa perspectiva, as entrevistas foram todas gravadas em fitas cassete e
transcritas na íntegra, os sujeitos receberam o nome das sete cores do arco-
íris como forma de identificação, preservando assim o anonimato de suas
identidades. As entrevistas foram codificadas inicialmente em categorias ou
temas centrais. As ações e interações entre as diversas categorias iniciais
foram relacionadas, reclassificando-as para melhorar a clareza e abrangência
dos relatos.
A discussão dos dados foi feita com vista a tornar mais claras as concepções
dos gestores acerca da política e avaliar as ações no âmbito da saúde do idoso,
compreendendo de forma mais viva e direta o modo como os sujeitos deste estudo
pensam sobre a sua prática para a população idosa de Campinas (SP).
RESULTADOS
Foram entrevistados sete representantes da saúde do idoso no município. Destes,
cinco eram do sexo feminino. A faixa etária variou dos 31 aos 59 anos. Quanto à
formação, cinco são médicos (um pediatra, três geriatras e um sanitarista), um
enfermeiro e um deles é administrador de empresas. O tempo de atuação atual no
cargo de representante ou gestor variou de três meses a cinco anos.
Os temas centrais identificados foram: tempos e lugares; condições de acesso;
gestão; recursos humanos; demandas da população; promoção à saúde e prevenção
de doenças e agravos.
A. Tempos e lugares
Este tema relaciona-se com a necessidade dos sujeitos de descreverem sua
realidade numa perspectiva histórica. Constam aqui menções a trabalhadores que
foram marcantes para o desencadeamento de práticas e diretrizes municipais na
saúde do idoso, trazem algumas das características dos distritos e a ideia de
que o trabalho na área da saúde do idoso em Campinas é novo e está em
desenvolvimento:
Eu acho que ele é muito novo (...) ele é bem recente com relação às
políticas a nível central que foram criadas e depois levadas para a
base. (Amarelo)
O distrito Z avançou muito, pois um dos apoiadores, o (...), se
interessou muito por esta área (...). Então ele se apropriou disso
como dele. Se apropriou mais no que pôde e junto aos outros
apoiadores do distrito ele desencadeou algumas ações. (Laranja)
Há uma área de abrangência antiga e uma área muito nova. Naquela tem-
se mais idosos que nesta. Quanto mais longe do centro, menos idosos.
(Azul)
B. Condições de Acesso
Algumas entrevistas enfatizaram a questão das instalações precárias para o
atendimento do idoso, seja em situações de emergência, seja em Centros de
Saúde, tanto em relação ao acesso dos usuários com alterações de locomoção,
quanto em relação à privacidade, com ocorrências de interrupção de atividades
que necessitam de ambiente privado, em depoimentos, como:
Quando o paciente [idoso] não é tão grave, mas precisa de uma
observação mais prolongada ou internação, eles são levados para o
(...),mas não tem um ambiente, um espaço para receber melhor o idoso.
(Violeta)
Trazem também a necessidade de se investir em infraestrutura para que a
população de idosos possa ser atendida adequadamente e que as ações em saúde a
este segmento populacional sejam integrais e universais, conforme deve ser o
SUS para todos.
Tem um grupo que até acabou, por conta de espaço físico (...). Então,
as atividades ao ar livre são mais fáceis porque a gente acaba usando
as praças, salões de igrejas (...). Um dos Centros de Saúde tem
dificuldade de acesso porque ele fica num prédio que não tem acesso
para cadeira de rodas, nem elevador... (Verde)
C. Demandas da população
Este tema mostrou ser um dos maiores entraves na questão atendimento ao idoso
em Campinas. A demanda de idosos que buscam o centro de saúde é grande quando
se consideram os recursos disponíveis para atendê-los. Muitos subtemas
estiveram relacionadas dentro deste tema, e um deles é a intensa procura das
unidades de saúde por parte dos idosos:
(...) Se você for aos grupos de trabalho, a maioria é de idosos,
acima de 60 anos, aposentados, ou, então, donas de casa... (Verde)
Além disso, relatam que a Estratégia Saúde da Família abriu portas para muitos
problemas sociais e de saúde que antes eram pouco identificados, além do
cuidador, que hoje é um dos principais desafios para os serviços de saúde no
município, pois demandam cuidados e têm necessidades complexas. Os sujeitos
mostram que estão desenvolvendo alternativas para suprir esta demanda:
Com a ajuda dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) (...) a gente
achou muito caso de abandono e negligência (...) e aí trouxe outra
demanda que acabou ficando grande demais para nós, que é a questão do
cuidador informal (...). A gente tem aqui no distrito esse manual de
cuidadores (...). Então aqui a gente faz esses grupos. Antes a gente
fazia 'in loco', a capacitação do cuidador junto com as unidades.
Agora, o ano passado nós optamos por capacitar multiplicadores...
(Verde)
Agora, a nossa dificuldade é com aqueles cuidadores que ainda nem
sequer se assumiram, no seu papel e estão nos seus domicílios...
Muitas vezes são também pessoas jovens, trabalhadoras, que também não
podem vir ao Centro de Saúde nestes horários que a gente faz, às
vezes, param de trabalhar, mas não tem com quem deixar o idoso para
vir (...). A nossa penetração neste campo ainda, eu acho, é muito
falha; e outra, (...) se a gente não faz um trabalho com o adulto
jovem, para que ele tenha percepção de si mesmo e de sua saúde, como
que a gente quer que ele tenha esta percepção do outro. (Violeta)
Outro problema envolve a rede privada de saúde. Trata-se do fato de muitos
convênios de saúde oferecerem o serviço de atendimento domiciliar ao idoso, mas
não fornecerem o material para o cuidado, que fica por conta das famílias ou
das unidades básicas. Além disso, muitos pacientes têm perdido seus convênios
por conta da piora da situação econômica da família, ou porque perdem seus
empregos ou quando se aposentam:
(...) A gente tem sentido que a população de idosos 'SUS dependente'
tem crescido nos últimos tempos, por uma questão econômica mesmo
(...). Então, assim: o convênio faz atendimento domiciliar, mas não
dá o insumo. Então, a gente fornece gaze, material para o curativo e
eles fazem a assistência. Então, tem muito paciente acamado no
distrito que a gente tem registrado, mas não dá assistência direta...
É muito complicado. Então, a gente não pode parar de fornecer porque
o paciente tem direito, é da área de abrangência. Ao mesmo tempo você
não está vendo a qualidade da assistência que ele está recebendo, não
tem controle disso. (Verde)
E com a alta demanda de pacientes idosos com problemas de saúde surgem dúvidas
sobre como priorizar o acesso dos usuários aos serviços que ainda é
insuficiente:
(...) (a saúde para o idoso em Campinas) precisa ser ampliada e
mantida. Você tem dificuldade no atendimento em saúde, por exemplo,
com o idoso que não tem recursos... Têm idosos em situação em
emergência, é um exemplo, e a família leva esse idoso a um
atendimento médico. Aí quando ele tem alta, ele não tem nem condição
de voltar sozinho para casa... Não tem quem o leve... Não tem quem
cuide dele... (Anil)
Porque a gente tem dificuldade de garantir acesso para população às
consultas... em geral... Então a gente tenta fazer grupos, outras
portas de entrada que não a consulta. Mas uma hora o idoso vai
precisar de uma assistência mais especializada pelos profissionais.
Então por mais que façamos grupos, isso vai permitir que alguns não
adoeçam, mas os que adoecerem não estarão tão bem amparados...
(Verde)
Quando a gente tem poucos agentes a gente tenta dividir por risco,
obviamente as áreas de maior risco e a gente tenta varrer estas
áreas, e as de menor risco a gente vai ver com o tempo, fica para
depois. É assim: não que a gente deixe de reconhecer a
universalidade, mas temos que trabalhar com a equidade. (Violeta)
D. Recursos humanos
Com relação à questão dos recursos humanos em saúde os participantes trouxeram
muitas questões que estão relacionadas à má qualidade no atendimento ao idoso,
a falta de contratação de pessoal, equipes incompletas, o absenteísmo, o
estabelecimento e acompanhamento de competências, por exemplos:
Apesar de a gente valorizar no discurso esta questão da promoção,
quando a gente vai ver (...) o nosso quadro de recursos humanos não
favorece (...) e hoje a gente tem isso, equipe de saúde da família,
clínico, e vai esse 'feijão com arroz'. Mas a gente sabe que se a
gente quiser investir pesado em promoção de saúde, esse modelito, a
gente precisa inovar um pouco mais. (Violeta)
Este absenteísmo compromete todo o trabalho programado para aquele
dia, aquela semana, (Laranja)
Agora, se eu sei que o ACS está fazendo Lian Gong, está fazendo
grupo: não é para isso! Não é que ele não seja capaz de fazer, mas é
que ele está tendo um 'desvio' de sua função, (Laranja)
A educação oferecida aos profissionais, intitulada de "capacitação", parece ser
fortemente focada na abordagem da doença no idoso em detrimento do processo de
saúde-doença-cuidado com manutenção da funcionalidade e independência desses
indivíduos. Alguns gestores criticaram esta ideia, no entanto, foi evidente
também a percepção de que idoso é bem tratado, pois ele tem as mesmas "doenças"
do adulto:
... a gente está fazendo esta capacitação. Mas capacitação em algumas
patologias mais prevalentes: demência, Parkinson, osteoporose, dor...
(Amarelo)
O objeto do nosso trabalho é algo altamente complexo, que tem uma
dimensão de subjetividade muito grande (...). Por exemplo, nos grupos
de diabéticos, o paciente vai lá e ouve: 'o diabetes é uma doença
assim, você não pode fazer isso e aquilo... Ele não tem mais vontade
de viver! Eu não preciso vir aqui para escutar isso, é só ligar a
televisão que eu vejo! Eu quero vir num lugar que me leve para cima e
que me fale: 'olha, isso aqui não é bom, mas esta outra aqui é bem
legal, dá para viver bem, enfim (...). Muitos profissionais ainda
veem este modelito... Apesar de que isso é muito difícil, é uma
mudança de cultura profissional (...). E aí eu incentivo todas as
nossas unidades a fazer uma abordagem não só técnica da hipertensão,
do diabetes; mas cuidar, antes, do processo saúde-doença: de
discutir, o que é a vida, o que é doença, o que é crescer,
envelhecer, o que é ter um envelhecimento saudável, (...) Obviamente,
vai ter um momento em que a gente vai falar de hipertensão, diabetes,
medicamentos, enfim. (Violeta)
... Olha, a maioria está preparado para atender sim, por conta da
patologia que eles apresentam: diabetes, hipertensão, enfim, todas as
outras (...). (Azul)
Eu acho que as pessoas ainda não estão capacitadas para atender o
idoso de forma adequada... (Verde)
E, além disso, tem a conscientização dos profissionais que eu acho
que isso vem com as capacitações (...). Tem para o adulto, para
mulher, e para direcionar um pouco mais para o idoso, porque falta
ainda uma sensibilidade mesmo para o idoso no dia-a-dia, né...
(Vermelho)
Ainda neste tema os sujeitos relatam haver pouco envolvimento da prefeitura com
pesquisas e estudos na área do envelhecimento por parte do município, sendo
este tema, na maioria das vezes, tocado apenas pelas iniciativas das
universidades. Queixam-se da falta de sensibilização por parte dos
profissionais no que diz respeito às peculiaridades da saúde do idoso, ao mesmo
tempo, é possível identificar uma preocupação maior, como apresentado a seguir:
Apenas no currículo escolar das universidades. Que eu saiba não tem
estudos do próprio município para o idoso. (Anil)
Não, não... Assim, que eu conheça... Pesquisa... Que eu saiba não.
Nada. (Vermelho)
Aqui a gente tem trabalhado muito em consonância com a pesquisa
porque é portaria, e porque é necessidade (...). Os profissionais
foram liberados para esta atividade. (Amarelo)
E. Promoção à saúde e prevenção de doenças e agravos
Neste tópico, listamos as atividades descritas pelos entrevistados que são
realizadas nos Centros de Saúde que visam promover a saúde, prevenção de
doenças e agravos, bem como a reabilitação. Na avaliação dos gestores, a
questão da promoção foi o que mais avançou no município em termos de práticas
em saúde:
Então neste ponto a gente tem bastante oferta (...). Mas eu acho que
neste ponto, da questão da preventiva, a gente tem trabalhado bem;
acho que é uma das coisas que mais andou, em termos de saúde do
idoso, mesmo. (Verde)
Avançou bastante, principalmente na saúde integrativa, eu acho que é
um trabalho que o idoso também precisa muito. (Vermelho)
As atividades citadas pelos gestores foram classificadas conforme segue:
Práticas integrativas: meditação, homeopatia, plantas medicinais;
Atividades de Vivência (não corporais): artesanato, Tear das Artes, bailes,
excursões, Viva Mais (programa que tem como principal objetivo estimular a
participação dos idosos numa rede de ações que possibilitam conhecer novos
amigos e ampliar as perspectivas de vida);
Grupos: Educação em Saúde, Qualidade de Vida, Hiperdia, Reeducação Alimentar;
Atividades corporais - que visam predominantemente o exercício físico:Lian Gong
(prática corporal oriental que objetiva tratar e prevenir dores no corpo,
problemas osteomusculares e articulares e atua nas disfunções dos órgãos
internos e problemas respiratórios),Tai Chi Chuan (é uma artemarcialchinesa,
reconhecida também como uma forma de meditação em movimento) ginástica
corporal, ginástica harmônica, dança circular, ginástica postural, caminhada.
Apesar de afirmarem o avanço do município dentro das práticas de promoção,
alguns gestores ressaltam a falta de envolvimento dos profissionais com estas
atividades. Trazem ainda a importância dos grupos para a diminuição da demanda
espontânea:
Com o grupo (...) você tira paciente de agenda! Essa coisa do
paciente voltar, voltar e voltar, você tira ele disso! (...) Você
informa mais, orienta mais, o paciente controla melhor (...). Isso a
gente não vê na prática (...) Aqui nós ainda não entendemos, pelo
menos a maioria, ainda não incentivam a criação desta questão de
grupos. (Laranja)
A população e os profissionais têm dificuldade em incorporar isso.
Nós trabalhadores, por conta da formação, é uma das questões, porque
a gente é de uma geração diferente... Eu (...) venho de outra
geração, absolutamente hospitalocêntrica, voltada para assistência.
Então os próprios profissionais hoje têm dificuldade em entender o
valor das ações de promoção. (Violeta)
No entanto, alguns deles trazem a ideia de que muitas das atividades realizadas
são pontuais e não são específicas para o idoso. Apenas um sujeito demonstrou
haver uma iniciativa de diferenciar, na prática, o idoso do adulto. E em muitas
das atividades, por não serem específicas para o idoso, acabam não vendo o
idoso de forma integral, apesar de a grande maioria dos participantes serem
idosos:
Algumas unidades têm grupos específicos de artesanato... Mas é bem
pontual. (Verde)
Então todas as atividades (...) são direcionadas para o adulto e o
idoso está participando. Não tem alguma coisa separada, não tem esta
separação ainda na maioria das unidades (...) tudo o que é
desenvolvido para o adulto, o idoso é super presente. A maioria são
idosos. (Vermelho)
Então a gente tenta fazer uma primeira consulta do idoso um pouco
mais demorada, ou, por exemplo, na farmácia, a gente orienta a
auxiliar a checar se o paciente entendeu a maneira correta de tomar a
medicação (...) que com o idoso ela tenha um pouco mais de atenção
(...) em todas as ações dentro das nossas unidades a gente tenta
trazer um pouco deste olhar. (Violeta)
F. Gestão
Este tópico apareceu relacionado com muitas outras questões, tais como recursos
humanos, práticas de promoção à saúde, manejo da demanda, infra-estrutura,
dentre outros. E quando questionados a respeito de alternativas para viabilizar
as políticas na prática, a maioria dos gestores destacam a "verba insuficiente"
para as ações em saúde e os desdobramentos que isto tem:
O passo inicial que eu acho é o recurso público. Não tem outro
caminho. (...) Não tem outro caminho para atender aos que mais
precisam. (Anil)
Então eles criaram as portarias (...) mas não deram verba. Então fica
difícil, fica por conta do município. (Amarelo)
(...) tem muitas coisas que a gente não faz. Passa pela questão do
financiamento e todos os desdobramentos que isto tem. Por exemplo: a
contratação de ACS: como que você quer organizar a saúde do idoso
numa população com quatro ACS? O clínico generalista com uma agenda
lotada todo dia. Então é assim: o dinheiro e todos os desdobramentos
operacionais disso (...). Se a gente tivesse um centro de saúde
lindo, muito dinheiro e uma gente tropeçando, não garantem também...
Então eu acho que aí entram as outras questões (...), que são,
primeiro, no nível de gestão, macro mesmo, desde assim, a nossa
carreira de coordenador, dos gestores (...). A capacitação, como é
feita? Quem são os nossos gestores hoje? (Violeta)
A questão da referência para o Centro de Referência do Idoso (CRI) por parte de
alguns distritos, pois deve haver orientação das unidades e pelo atendimento
aos usuários ser feito apenas por encaminhamento:
Você tem um CRI que começou e que teria que ter começado depois,
porque você teria que ter os centros de saúde com atendimento bom ao
idoso para então ter o CRI. A gente não pode fazer encaminhamento
nenhum. Por enquanto não temos isto... (Azul)
O CRI faz dois anos que está na ativa (...) e capacitou as unidades
do distrito W para encaminharem estes pacientes ao CRI. A demanda
espontânea lá não acontece. Nem mesmo acolhimento. Apenas com
referência. (Verde)
Além disso, ressaltam a necessidade de sustentabilidade, intersetorialidade e
institucionalização das ações em saúde:
Em qualquer serviço hoje a palavra que tem que ter é
sustentabilidade; e tem que ser independente daquela pessoa que está
administrando naquele momento. (...) Tem que ser uma coisa
institucionalizada dentro do programa de saúde; não é só um programa,
uma campanha; tem que ser permanente. (Anil)
Eu acho que a gente precisa de uma coisa bem ampla, de envolver
outras políticas, de melhorar, aí, a nossa capacidade de articulação,
né, da saúde com as outras áreas. Para gente poder potencializar as
nossas ações. (Violeta)
Outras questões pontualmente citadas foram a falta de uma política avaliativa
das ações, de autonomia para os distritos, e de um centro de educação
permanente para cada distrito para, assim, facilitar a formação e
desenvolvimento de estudos na área do envelhecimento. Além disso, alguns
gestores mostraram-se confusos no momento de responder algumas questões,
evidenciando dificuldade de entender a política de saúde do idoso e,
consequentemente, de se implementar práticas convergentes com tais diretrizes.
DISCUSSÃO
As políticas nacionais referentes à saúde do idoso foram criadas a partir de
1994 e vêm tendo repercussão aos poucos na rede de saúde, pois enquanto nos
países desenvolvidos o envelhecimento ocorreu associado às melhorias nas
condições gerais de vida, nos países em desenvolvimento esse processo acontece
de forma rápida, sem tempo para uma reorganização social e da área de saúde
adequada para atender às novas demandas emergentes(1). Isso justifica a opinião
dos sujeitos quando dizem que a atenção à saúde do idoso em Campinas é um
programa novo e que ainda está em desenvolvimento.
De acordo com os discursos dos gestores, os idosos e suas famílias parecem não
encontrar nas unidades básicas de saúde de Campinas o apoio e resolutividade de
que necessitam. No entanto, sabe-se que a atenção primária deve ser o primeiro
contato ou principal porta de entrada do sistema de saúde que visa garantir
atenção à maior parte das necessidades de saúde, bem como indicar o acesso aos
outros níveis, quando preciso. Para o sistema funcionar desta forma é preciso
que a unidade básica de saúde seja acessível à população adscrita, eliminando-
se barreiras financeiras, geográficas, temporais e culturais, aspectos em geral
que deveriam ser contemplados pelo Programa de Saúde da Família(11).
A universalidade é restrita também pela falta de investimentos que
compatibilizem a oferta com o aumento substancial da demanda à saúde, e em
decorrência da perda da qualidade dos serviços prestados, experimenta um
processo sutil de privatização(12).
As altas demandas revelam uma mescla de direitos, necessidades e desejos, que
assumem conotações distintas, de acordo com um processo dialógico(13). Entende-
se com isso que a integralidade assume um papel referencial dentro do sistema
de saúde e que sua completude é quase impossível de ser alcançada, visto que
está relacionada aos sentimentos e necessidades do outro, que são subjetivos e
volúveis. No entanto, é preciso tentar superar limites para se aproximar do que
se diz ser a integralidade do cuidado, trazendo para a discussão tais barreiras
a fim de sejam ou possam ser ultrapassadas, pois os idosos e suas famílias
necessitam ser compreendidos e apoiados, considerando a complexidade do
trabalho em saúde.
No que tange à integralidade, a atenção integral em saúde se volta para as
necessidades do ser humano como sujeito da produção da existência, sendo que a
satisfação de tais necessidades nos orienta na construção de relações sociais.
Não há como pensar e realizar o trabalho de um ser humano integralmente se não
nos reconhecermos também como ser integral. Esse princípio precisa estar
presente na formação desses trabalhadores(14).
Um processo de trabalho apoiado em uma equipe multiprofissional apta a oferecer
atenção integral e a sustentar o enfoque ampliado da estratégia de saúde da
família, com claros objetivos de inclusão social, exige qualificação dos
profissionais inseridos e adesão ao programa por parte desses profissionais
(15). Conforme pode ser constatado pelos resultados, a formação dos
profissionais com vista a fazê-los perceber a integralidade do idoso é
insuficiente. Tais dilemas deveriam, portanto, ser compreendidos pelos gestores
a fim de que buscassem superar, no dia-a-dia, a alienação no e pelo trabalho
que se manifesta pela divisão de tarefas ou em áreas diversas e distintas do
saber, principalmente no cuidado aos idosos(14).
Quanto às práticas de saúde, a conversão do modelo de atenção básica
operacionaliza-se por meio da organização do trabalho em equipe, com a
substituição de práticas convencionais de assistência e a incorporação de novas
práticas voltadas para a família e a comunidade, com o objetivo de influenciar
os determinantes sociais do processo saúde-doença(16). No entanto, pôde-se
perceber pelos relatos que esta ideia tem sido incorporada por poucos
profissionais da saúde do município, exceto pelo dever do seguimento da
política, no sentido de obrigação a seguir. Exemplo disso é o fato de alguns
gestores trazerem a questão do esforço dos ACS para formarem grupos, enquanto
os profissionais da saúde estão dentro do Centro de Saúde atendendo à demanda
espontânea.
Como uma alternativa, a integração das unidades de atenção primária à rede
assistencial como forma de garantir oferta abrangente de serviços e para
coordenar as diversas ações requeridas para resolver as necessidades menos
frequentes e mais complexas da população (11). A coordenação deste serviço
implica a capacidade de garantir a continuidade da atenção ao longo da rede de
serviços por meio de mecanismos de integração, tecnologias de gestão clínica e
instrumentos para a comunicação entre profissionais de diferentes serviços.
Neste sentido, a intersetorialidade levaria a uma melhor resolutividade dos
problemas de saúde da população.
A efetivação da atenção básica como estratégia de reorganização do modelo
assistencial depende de sua transformação num nível de atenção de alta
resolubilidade, qualidade e capacidade de integração com os demais níveis do
sistema(17). O Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da
Atenção Básica (PMAQ)(18) confirma esta ideia, na medida em que busca induzir a
ampliação do acesso e a melhoria da qualidade da atenção básica, com garantia
de um padrão de qualidade comparável nos diversos âmbitos local, regional e
nacional, de maneira a permitir maior transparência e efetividade das ações
governamentais direcionadas à atenção básica em saúde em todo o Brasil.
Pôde-se perceber, portanto, que o modelo de atenção à saúde do idoso em
Campinas, de acordo com o discurso dos sujeitos, é fragmentado e desigual,
trazendo fortes entraves para a consolidação efetiva e plena das políticas de
saúde a este grupo etário, condicionando e determinando questões centrais como
a rede de atenção, sua utilização, o acesso dos usuários aos serviços, os
recursos, impactando os próprios princípios do SUS(12).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo traz a visão dos gestores da área da saúde do idoso da cidade de
Campinas sobre a implementação de ações voltadas à saúde do idoso no município,
com base na PNSPI. O método de livre discurso por parte dos gestores,
direcionada apenas pelas questões relacionadas às diretrizes, proporcionou às
pesquisadoras um conteúdo rico, pois os sujeitos tiveram a liberdade de opinar
acerca da construção da saúde do idoso em Campinas, além do relato das ações
que de fato já foram concretizadas na cidade. No entanto, foi considerada uma
limitação do estudo o fato de um dos distritos não ter sido avaliado, pois o
responsável pela área de atuação estava em férias.
Partindo do pressuposto da descentralização preconizada pelo SUS, o município é
responsável pela criação e manutenção de unidades de atenção à saúde, bem como
pela articulação entre elas, garantindo a resolutividade e sustentabilidade dos
serviços prestados, bem como, pela prestação de contas aos governos estadual e
federal e à população do adequado funcionamento destas atividades. Operar o SUS
com equidade e garantindo atenção a todos, com ênfase aos mais frágeis, é um
desafio permanente.
Conforme o discurso dos gestores, o município de Campinas parece estar aquém do
desejado. No entanto, observa-se que o município tem investido nas ações em
prol do idoso, e tem tentado colocar em prática a Política Nacional de Saúde do
Idoso. Os entraves citados parecem estar relacionados às diferentes esferas de
gestão: municipal, estadual e federal. Identificou-se a necessidade de se
promover ações avaliativas das atividades já instaladas e que estas sejam mais
bem planejadas, conforme as necessidades reais do idoso e do sistema de atenção
à saúde como um todo.
Deve-se ressaltar que não há representantes da Enfermagem em cargos diretivos
na gestão municipal de serviços voltados para a pessoa idosa. A partir dos
resultados do presente es-serem minimizadas a partir de iniciativas dos
profissionais da tudo e considerando a enfermagem como disciplina voltada área,
que propiciem melhorias na assistência a estas pessopara o cuidado humano e o
ensino do autocuidado, pode-se as, melhor qualidade de vida, manutenção da
autonomia e encontrar lacunas das práticas na saúde do idoso passíveis de
independência.