Perfil das ocorrências de politrauma em condutores motociclísticos atendidos
pelo SAMU de Teresina-PI
INTRODUÇÃO
As mudanças sociais, políticas, econômicas, o crescimento urbano e o
desenvolvimento da indústria automobilística trouxeram graves problemas de
Saúde Pública ao Brasil, como os acidentes e violências de trânsito, os
homicídios, os autoextermínios e os acidentes em geral, que são considerados a
grande epidemia do século XX(1). A ênfase aqui, no entanto, será dada aos
traumas decorrentes de acidentes de trânsito envolvendo motocicletas, tendo em
vista o seu forte impacto na elevação gradual dos índices de morbimortalidade
na população.
Os Acidentes de Trânsito (ATs) motociclísticos estão se tornando cada dia mais
comuns, consolidando-se como a terceira causa de obituário mundial, antecedida
apenas pelas doenças cardiovasculares e neoplásicas. Diante dessa situação,
tornou-se consenso mundial devotar mais atenção ao Atendimento Pré-Hospitalar
(APH), na tentativa de minimizar a morbimortalidade no atendimento ao
traumatizado(2).
O atendimento inicial com avaliação primária, estabilização e transporte da
vítima de agravos de trânsito até um centro de melhor referência para dar
continuidade ao serviço de emergência minimiza a ocorrência de lesões
decorrentes de um atendimento ineficiente no local (1). Além disso, gera
informações para o aprimoramento de políticas públicas mais efetivas no tocante
às ações de prevenção das doenças/agravos, educação, proteção e recuperação da
saúde e reabilitação dos indivíduos(3).
Os acidentes motociclísticos estão relacionados a uma cadeia de causalidade.
Para se conhecer em maior detalhamento esse agravo, o primeiro passo é a
descrição exata e minuciosa de como ele acontece. Assim, torna-se fundamental
obter o maior número de informações possíveis sobre esses acontecimentos, a fim
de reunir, sistematicamente, dados sobre a extensão, características e
consequências desse problema de saúde pública, dimensionando seu impacto na
vida das vítimas(4). O entendimento dos fatores relacionados aos acidentes
motociclísticos tem evidenciado a necessidade de disponibilizar recursos para a
prevenção, com atuação no direcionamento das intervenções conforme os fatores
de risco específicos da população alvo(5).
Assim a realização deste estudo se justifica pela preocupação com o aumento do
número de vítimas dos acidentes motociclísticos. A elevação desse evento exige
mais informações sobre a população envolvida, as circunstâncias do acidente e
os fatores de risco associados para fundamentar a tomada de decisões das
autoridades para problemas no trânsito, no sentido de minimizar tanto a
frequência de acidentes como suas drásticas consequências. Por fim, os
resultados poderão estimular - e subsidiar - pesquisas futuras acerca do tema.
Essas pesquisas certamente contribuirão para a formulação de estratégias de
enfrentamento desse agravo.
Em face do exposto, o presente trabalho teve como objetivo investigar o perfil
das ocorrências de politrauma em condutores motociclísticos atendidos pelo SAMU
de Teresina no ano de 2009.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo documental, descritivo, com abordagem quantitativa. A
escolha do método justifica-se, por permitir descrever os aspectos do fenômeno
estudado, identificando as prováveis causas, determinando a frequência e
categorizando as informações colhidas dos documentos analisados(6). Com a
aplicação do método quantitativo, tornou-se possível gerar dados estatísticos
por meio da mensuração da população analisada que compartilhou as
características do estudo(7).
O universo da população analisada foi constituído por 3.829 fichas de
atendimento do SAMU a vítimas politraumatizadas por acidentes motociclísticos,
fichas geradas pelas Unidades de Suporte Básicas e Avançadas no ano de 2009. Os
critérios de inclusão relacionam-se aos casos de acidentes motociclísticos com
vítimas politraumatizadas que geraram ficha de atendimento pelas Unidades de
Suporte Básico e Avançado do SAMU de Teresina- PI no ano de 2009. Foram
excluídas as fichas de atendimento de outros tipos de acidentes, pacientes com
diagnóstico de politrauma que não foram vítimas de acidentes motociclísticos ou
que tiveram remoção antecipada.
Para a coleta de informações procedeu-se à consulta manual de todas as fichas
de atendimento diário de 2009 e foram selecionadas aquelas que se adequaram aos
critérios de inclusão, cujas informações foram transcritas para o instrumento
específico elaborado pelos pesquisadores. Esse procedimento ocorreu nos meses
de agosto e setembro de 2010.
Após a etapa descrita, procedeu-se à análise dos dados por meio de estatística
descritiva simples cujos resultados foram apresentados em forma de tabelas e
gráficos, para melhor visualização e compreensão. Para tal, utilizou-se o
software Microsoft Excel XP.
A pesquisa obedeceu aos critérios da resolução do Conselho Nacional de Saúde
(CNS) 196/96, que garante sigilo em relação às informações coletadas, bem como
o anonimato dos participantes. Foi devidamente aprovada pelo Comitê de Ética e
Pesquisa - CEP da Faculdade Integral Diferencial ' FACID (protocolo nº 410/09)
e autorizada pela Fundação Municipal de Saúde de Teresina.
RESULTADOS
Finda a coleta de dados, constatou-se que, dos 4.541 atendimentos realizados
pelo SAMU a vítimas de trauma por acidentes de trânsito, 3.829 foram por
acidentes motociclísticos, o que perfaz 84% das causas dos atendimentos.
No que se refere ao gênero, o sexo masculino teve ampla prevalência, com um
total de 2.915 vítimas (76,13%) em comparação com o total de vítimas do sexo
feminino, que foi de 893 (23,3%). As fichas de atendimento que não tiveram a
identificação do gênero somam 22 (0,57%). Grande parte das vítimas são
adolescentes e adultos, já que os casos se concentraram na faixa etária de 11 a
40 anos. Isso constitui percentual de 77%.
Quanto à distribuição das vítimas segundo o dia da semana apresentada na tabela
1, verificam-se mais registros aos finais de semana, os quais se podem
descrever assim: aos domingos 955 casos (25%); aos sábados 779 (20%); às
sextas-feiras 518 (14%).

Em relação ao horário do acidente, destacou-se o período noturno, com 1.218
(32%) vítimas, seguido do horário vespertino com 1.123 (29%). O horário da
manhã e o da madrugada totalizaram, juntos, 39% dos acidentes (Gráfico_2).
[/img/revistas/reben/v65n6/a08grf02.jpg]
Os mecanismos do trauma mais frequentes foram queda (58%) e colisão moto-carro
(23%), como mostra a Tabela_2.
[/img/revistas/reben/v65n6/a08tab02.jpg]
Quanto às regiões corpóreas mais afetadas nos acidentes motobilísticos, pode-se
observar no Gráfico_3 maior frequência de acometimento nos Membros Inferiores
(MMII) com 1.055 (36%) vítimas, seguida dos Membros Superiores (MMSS) com 651
(23%), face com 533 (18%), Trauma Crânio-Encefálico (TCE) 367 (13%).
Os resultados apontam que, dos 3.829 politraumatizados por acidente
motociclístico, apenas 2.511 (65,57%) faziam uso do capacete no momento do
agravo. Além disso, 447 (12%) vítimas referiram ingestão de álcool ou estarem
alcoolizadas ao se acidentarem. A maior proporção de vítimas politraumatizadas
por acidentes motociclísticos que necessitaram de atendimento pelo SAMU ocorreu
no mês de dezembro com 406 (10,6%) casos. A coleta de dados possibilitou também
a análise da ocorrência ou não de óbitos, sendo que o coeficiente médio de
mortalidade imediata foi de 1%.
DISCUSSÃO
Para uma visão global da magnitude do problema, apresenta-se, inicialmente, uma
análise comparativa entre as vítimas de acidentes de moto e as dos demais
veículos a motor. Verifica-se com isso um número de vítimas por acidentes de
moto proporcionalmente maior do que o número de vítimas dos demais veículos.
Algumas pesquisas corroboram este estudo ao apontarem os usuários de moto como
a principal vítima no trânsito em nosso país(8-9). Isto é reflexo do número de
motos em circulação, da desorganização do trânsito, da deficiência geral da
fiscalização, do comportamento dos usuários e da impunidade dos infratores(10).
Na pesquisa ora realizada, pôde-se constatar que as vítimas são
predominantemente do sexo masculino. Essa, tudo indica, parece ser uma
característica comum às ocorrências nas grandes cidades. Em Fortaleza, por
exemplo, essa predominância foi superior a 98%(11). É notório o maior número de
motociclistas do sexo masculino. Além disso, o comportamento mais agressivo
desse grupo no trânsito expõe os motociclistas a maiores riscos na condução dos
veículos, como velocidade excessiva, manobras mais arriscadas e consumo de
álcool(12).
Fazendo uma apreciação do que o gráfico_1 revela, constata-se que a faixa
etária de 21 a 30 anos apresenta uma predominância de 40% em relação às demais
idades. Dados semelhantes foram identificados nos estados de São Paulo(13),
Goiás(14) e Mato Grosso(9). A constatação evidencia que essa realidade se deve
à inexperiência, à impulsividade, ao prazer em experimentar sensações de risco,
à autoconfiança na condução do veículo, além de excesso de velocidade e
desrespeito às normas de segurança(15). O predomínio de adultos jovens nessas
ocorrências produz impacto significativo (e negativo!) na economia do estado,
por atingir pessoas em plena idade produtiva.
Em reforço dos resultados dos estudos realizados em Sergipe(12) e Minas Gerais
(16), a presente investigação constatou ainda que os acidentes nos finais de
semana superam os acontecidos em dias úteis da semana. Atribui-se esse fato ao
grande número de eventos festivos, ingestão de bebida alcoólica mais frequente,
ultrapassagem do limite de velocidade, manobras arriscadas e diminuição da
fiscalização nesses dias.
O período noturno, no Pará, configura-se como o horário em que ocorre a maioria
dos acidentes(1). Isso se associa ao cansaço do fim do dia, à elevação do fluxo
de veículos, à variação da visibilidade limitada pelo alcance dos faróis, a
veículos não sinalizados, à menor fiscalização da polícia, ao desrespeito à
sinalização, ao excesso de velocidade e ao uso de álcool ou drogas(15,12).
Além disso, verifica-se que a queda e a colisão moto-carro são os tipos de
acidentes mais frequentes. Isso corrobora com estudos realizados recentemente
em Natal-RN(17) e Aracaju-SE(18), em que se destaca a queda como responsável
pelo maior número de vítimas, seguida da colisão moto-carro. Disso tem
resultado traumatismos em diversas partes do corpo.
Para os motociclistas, os segmentos corpóreos mais acometidos por traumas foram
os MMII, MMSS e cabeça. Estudos(19-20)também evidenciam os MMII (53,9%), MMSS
(41,1%), e segmento cefálico (3,1%) como as áreas mais afetadas. Tais dados
confirmam a presença frequente, e em conjunto, desses traumas; porém, as
ocorrências evidenciadas em MMII são as maiores causas de morbidade, por serem
justamente as regiões mais desprotegidas. A alta letalidade, entretanto, está
diretamente relacionada aos traumatismos cranioencefálicos, preveníveis pela
utilização do capacete.
O uso do capacete é requisito essencial e obrigatório para condução de
motocicletas. No entanto, ficou evidente o elevado percentual de condutores que
não o utilizavam no momento do acidente, apesar de essa atitude se constituir
em infração gravíssima, segundo o Artigo 244 do Código Nacional de Trânsito,
tendo como penalidade multa e suspensão do direito de dirigir(21).
Analisando os dados quanto ao uso de bebida alcoólica, pesquisas apontam uma
forte relação entre a ingestão de álcool e AT, uma vez que a bebida gera uma
sensação de confiança nos condutores de veículos a motor, porém produz perda
nas suas habilidades de tempo de reação e coordenação(13). Constatou-se, por
exemplo, no Rio de Janeiro(22), que 70% dos AT´s causados pelo consumo de
bebidas alcoólicas tendem a ser bastante violentos,com óbito de condutores e
passageiros.
O mês de dezembro foi o de maiores índices de acidentes motociclísticos, talvez
por ser período de maior movimentação no trânsito em decorrência da finalização
do ano e das festividades. Investigação realizada no Mato Grosso do Sul
(23)também identificou dezembro como o mês de maior número de vítimas, pelo
alto fluxo e movimentação de pessoas em virtude das férias escolares.
No que tange à ocorrência de vítimas com óbito, os dados revelaram percentual
de 1%, semelhante a estudo realizado em Sorocaba-SP(24). Analisando a relação
entre feridos e mortos, encontrou-se uma relação de 174:1. Isso evidencia que
os índices de morbidade são e devem ser mais preocupantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entre as vítimas investigadas prevaleceram jovens, do sexo masculino, na faixa
etária de 21 a 30 anos. Quanto ao tipo de acidente, verificou-se que a maioria
foi por queda. O horário noturno e a zona urbana tiveram a maior concentração.
Destacou-se o final de semana, sobretudo o domingo como o dia de maior
ocorrência. No mês de dezembro, gerou-se o maior número de registros de casos,
sendo o trauma musculoesquelético o mais evidenciado nesses eventos. Obteve-se
um número significativo quanto à não utilização de EPIs, como, também, quanto à
ingestão de bebida alcoólica pelos motociclistas. Constatou-se ademais que o
óbito imediato teve um percentual mínimo, resultado oposto, quando comparado à
morbidade decorrente desse tipo de acidente.
Conhecer a população envolvida e as circunstâncias em que esses acidentes
aconteceram possibilitou detectar que o comportamento humano se constitui numa
das principais causas desse tipo de agravo, sendo, pois, passível de
modificação por meio de intervenções preventivas.
Percebe-se que há necessidade de um trabalho de conscientização voltado para a
sociedade em geral, mas, principalmente, para as pessoas reconhecidamente
usuárias desse tipo de transporte. Torna-se, portanto, imprescindível e
imediata a adoção de medidas socioeducativas que garantam o comportamento
adequado dos indivíduos no trânsito, visando à redução e prevenção dos
acidentes. Espera-se que os resultados possam estimular e subsidiar pesquisas
futuras nessa área, uma vez que a continuação de estudos que abordem essa
temática contribuirá com a formulação de estratégias de enfrentamento desse
agravo.