Política de saúde do homem: perspectivas de enfermeiras para sua implementação
INTRODUÇÃO
Indicadores, no Brasil, mostram que há diferenças na esperança de vida ao
nascer entre homens e mulheres e que em décadas anteriores a 1980 essas
diferenças eram de aproximadamente cinco anos, elevando-se nas décadas
seguintes, porém com valores não muito significativos. "Em 1980, enquanto as
mulheres possuíam uma esperança de vida ao nascer de 66 anos, os homens
detinham uma vida média de 59,6 anos, representando uma diferença de 6,4 anos"
(1).
Depois de percorrido 32 anos, as mulheres passaram viver 6,7 anos a mais que os
homens (77,4 anos, para o sexo feminino e 70,7 anos, para o sexo masculino),
valores semelhantes aos da Colômbia. Em países desenvolvidos, como nos Estados
Unidos e Canadá, a diferença é de aproximadamente 5 anos e em Cuba, país
emergente em desenvolvimento, as mulheres vivem 3,9 anos a mais que os homens
(81,3 para o sexo feminino e 77,4 para o sexo masculino)(2).
Quanto aos indicadores de mortalidade masculina no Brasil, segundo a
Organização Panamericana de Saúde (OPS), para cada 1000 homens 8,7 morrem,
enquanto que o índice para mulheres é de 5,6. Traduzindo-se em um menor número
de idosos nesse grupo. Entre as principais causas de óbitos no sexo masculino
estão as neoplasias malignas (cânceres de estômago, pulmão e próstata); as
doenças isquêmicas do coração; as doenças cerebrovasculares e as causas
externas (suicídio, acidentes de transporte e homicídios)(2).
Os homens expõem-se mais aos fatores de risco e num comparativo sobre as
exposições a determinados fatores como o sedentarismo, tabagismo, obesidade e
alcoolismo, eles apresentaram valores superiores ao das mulheres com relação ao
tabagismo (44,6% em homens e 31,9% em mulheres), a hipertensão (31% em homens e
14,4% em mulheres) e ao alcoolismo (12,6% em homens e 3,3% em mulheres)(3).
Envolver os homens na prática diária do autocuidado tem sido um desafio da
estratégia Saúde da Família (ESF), principalmente quando se refere à adoção de
um estilo de vida saudável, mas a ideia é compreender o problema no contexto de
uma complexa teia de relações, envolvendo: o homem, a Unidade Básica de Saúde
(UBS) e o estabelecimento do vínculo entre eles(4).
Neste enfoque e na tentativa de acolher o homem, o Ministério da Saúde (MS), em
2008, formulou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem
(PNAISH) que objetiva ampliar e facilitar o acesso do homem nos serviços de
atenção primária, em outras palavras, visa à prevenção de doenças, suas
complicações e a promoção da saúde dessa população(5).
No contexto das políticas de saúde, o enfermeiro como integrante da ESF, tem
papel importante na prevenção de doenças/agravos e na promoção de qualidade de
vida da população de modo geral e em especial, para os grupos mais vulneráveis,
como os homens na fase produtiva.
Diante dos valores e dos diferenciais de indicadores de morbimortalidade entre
os sexos, percebe-se uma situação de saúde desfavorável para os homens que
precisa ser considerada e enfrentada pelos serviços de saúde. Em face dessa
problemática, surgiu o interesse por este estudo que tem como objetivo
descrever e analisar a percepção das enfermeiras1 da estratégia Saúde da
Família acerca da importância da Política de Assistência à saúde do homem, bem
como suas perspectivas para a implementação desta política.
METODOLOGIA
Este trabalho é um recorte de uma pesquisa mais ampla, que estudou a percepção
da enfermeira da Estratégia Saúde da Família sobre a assistência à saúde do
homem na fase produtiva. Neste, buscou-se descrever somente a percepção das
enfermeiras relacionada à importância da Política Nacional de Atenção Integral
à Saúde do Homem e às suas perspectivas para a implementação desta política na
Estratégia Saúde da Família.
É um estudo qualitativo, exploratório, descritivo e de campo, realizado no mês
de julho de 2011, em UBS situadas na Zona Norte de Teresina-PI. Os dados foram
coletados por entrevistas semiestruturadas, orientadas por um roteiro de
perguntas estruturadas para a caracterização dos sujeitos e abertas para buscar
a percepção das enfermeiras.
Os sujeitos foram 16 enfermeiras que compõem as equipes das referidas UBS, as
quais foram selecionadas pelos seguintes critérios: aceitarem participar da
pesquisa assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e estejam
trabalhando na equipe, há pelo menos 1 ano, nestes Centros de Saúde. A amostra
foi definida pelo critério de saturação das falas.
Dentre os entrevistados, 93,75% são do sexo feminino e, apenas, 6,25% do sexo
masculino. Com relação à idade, 43,75% estão na faixa etária entre trinta a
quarenta anos; 37,50% entre quarenta e um e cinquenta anos e, somente, 18,75%
estão entre cinquenta e um e sessenta anos. Quanto ao tempo de formação, a
maioria dos entrevistados possui mais de dez anos de graduação; 37,50% dos
sujeitos possuem pós-graduação em Saúde Pública e 31,25% em Saúde da Família e,
apenas, 6,25% referiu não possuir nenhuma pós-graduação. Quanto ao tempo de
serviço na ESF, 62,50% das enfermeiras já têm de seis a dez anos de serviços
prestados. Em relação ao turno de trabalho, 56,25% das enfermeiras trabalham no
turno da manhã e 43,75% no turno da tarde.
Após a realização das entrevistas e de suas transcrições, na íntegra, os dados
de interesse para a pesquisa foram agrupados e contextualizados em categorias
temáticas semânticas, por meio da análise de conteúdo de Bardin e discutidas a
partir do referencial teórico do Interacionismo Simbólico.
O Interacionismo Simbólico explora os fundamentos e causas de ações humanas e
concebe que as pessoas definem e agem em função de significações estabelecidas
e processadas na interação social(6).
A análise de conteúdo de Bardin consiste em um conjunto de técnicas de análise
das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de
descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que
permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/
recepção (variáveis/inferidas) destas mensagens(7).
Seguindo os preceitos da Ética em pesquisa, constantes da Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde que trata de pesquisa com seres humanos, o projeto
deste estudo foi aprovado pelo Parecer nº 0137.0.043.000-11 do Comitê de Ética
e Pesquisa da Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e Tecnológicas do Piauí
(NOVAFAPI), Teresina-PI. Para garantir o caráter sigiloso das informações,
todos os depoentes foram nomeados numericamente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As duas categorias empíricas surgidas das falas das enfermeiras apresentadas
neste recorte tratam, a primeira, da importância por elas conferida à Política
de Assistência à Saúde do Homem, destacando a sua contribuição para a redução
dos índices de morbimortalidade nessa população, manutenção da estrutura
familiar e redução dos fatores de risco, considerando que essa faixa etária
masculina constitui uma parcela significativa no contingente populacional
produtivo e político do Brasil. A segunda, das perspectivas favoráveis e
desfavoráveis dessas profissionais para a implementação dessa política,
conforme descritas:
A. Importância conferida à Política de Saúde do Homem
Esta categoria evidencia a percepção das enfermeiras sobre a importância dessa
política, que, por meio de uma assistência direcionada ao homem, ou seja, com a
prática efetiva de ações de proteção, promoção da saúde e prevenção de doenças,
poderá reduzir a morbimortalidade masculina por causas preventivas e evitáveis,
contribuindo para o aumento da expectativa de vida dessa população. Tal
evidência pode ser observada nos fragmentos seguintes:
... com essa assistência de saúde (...) vai diminuir muito,
principalmente, as mortes, (...) eles morrem mais do que as mulheres;
acho que pelo menos vai melhorar a vida média do sexo masculino (D7).
É necessária essa iniciativa do Ministério da Saúde porque, se não
tiver, vão aumentar os problemas ainda mais (...) a saúde deles está
muito comprometida (D6).
As enfermeiras referem que a saúde do homem está bastante comprometida e isso é
evidenciado pelos indicadores relativamente altos de morbimortalidade. No
entanto, essas estatísticas se mantêm por conta da exposição do homem aos
fatores de risco ao longo da vida e da renúncia às medidas de proteção e
prevenção de agravos.
O conhecimento extraído da percepção destas enfermeiras sobre a
morbimortalidade masculina é corroborado por estudos que tratam dos indicadores
de vida média do homem. Estes indicadores são comparativamente menores que os
da mulher em todas as regiões do Brasil(8).
A frequência de maiores agravos e letalidade no sexo masculino devem-se mais a
exposição a fatores de risco relacionados ao gênero do que ao biológico. Esses
fatores podem ser socialmente determinados pelo estilo de vida, hábitos,
costumes, sedentarismo, comportamento social, urbanização e nível
socioeconômico(9).
Outro enfoque ressaltado pelas enfermeiras diz respeito à realidade do homem já
conhecida, o destaque para as doenças cardiovasculares e as causas externas,
como os principais motivos de óbitos nesse grupo. Esta afirmação está presente
nos fragmentos das falas seguintes:
... há muitas mortes por doenças cardiovasculares, coisas que podem
ser modificáveis com o estilo de vida (...) fora os acidentes
automobilísticos que nós poderíamos, também, ajudá-los, (...) sobre a
forma de prevenir (D9).
... é uma boa medida tomada pelo Ministério, (...) na fase produtiva
dos homens, há muitos óbitos (...) porque também é uma fase que morre
muitas pessoas de acidente, tanto acidente de trabalho, como acidente
de trânsito (D14).
Ressaltam que as doenças cardiovasculares, bem como as causas externas são
importantes no agravamento da morbimortalidade masculina e poderiam ser
evitadas com a modificação no estilo de vida dos homens. Elas acreditam que as
medidas assistenciais e educativas direcionadas a esse grupo, adotadas pelo
Ministério da Saúde, poderiam contribuir para a modificação dessa panorâmica.
Por outro lado, enfatizam que as enfermeiras são agentes importantes na
execução dessas medidas.
Destacam os acidentes de trânsito e acidentes de trabalho como causas externas
de elevada incidência e possíveis de prevenção, ratificando os dados
apresentados por estudos que mostram os acidentes de transporte, como segunda
principal causa de morte entre os homens, perdendo apenas para a violência
(principalmente homicídios) que é a primeira causa de morte. Estas são seguidas
das doenças relacionadas ao aparelho digestivo (principalmente cirrose
hepática) e as neoplasias malignas (predominando câncer de pulmão, próstata e
estômago). Outras causas com acentuada sobremortalidade são os transtornos
mentais e comportamentais, muitas vezes relacionada ao uso de álcool e
substâncias psicoativas(8).
O mesmo estudo ressalta que nas internações hospitalares, as principais causas
são as doenças relacionadas ao aparelho respiratório, seguindo-se das doenças
do aparelho circulatório, infecciosas e parasitárias, do aparelho digestivo e
lesões. Além disso, esse grupo masculino é o principal autor de roubos e
assaltos e os protagonistas na violência doméstica, o que reflete na maior
população penitenciária(8).
Nesta categoria, também se evidencia que as enfermeiras percebem que a Política
de Assistência à Saúde do Homem é importante porque poderá contribuir para a
manutenção da estrutura familiar, não apenas pela existência do homem no meio
da família, dado pelo prolongamento de sua vida, mas pela possibilidade de
reduzir os agravos à sua saúde possibilitando com que ele viva com qualidade.
Isso pode ser percebido na fala seguinte:
... as famílias ficariam muito desestruturadas, os homens adoecendo e
morrendo cedo ficariam muitas viúvas e a gente sabe que é muito
importante a presença masculina em uma família, em um lar (D16).
As enfermeiras destacam que o homem exerce um papel importante na família e por
essa razão ela se torna desestruturada quando esse membro não está mais
presente, da mesma forma que o seu adoecimento traz sofrimento e expectativas
para que o homem retorne a sua posição como o líder dos familiares. Se o homem
adoece toda a família é influenciada. Esta afirmação está em consonância com o
estudo que aborda que o homem tem um papel de provedor na família,
característica da identidade masculina, reafirmando a importância das
responsabilidades com a família e com a manutenção da casa por representar o
chefe do lar(10).
As enfermeiras fazem menção ainda a contribuição que a Política Nacional de
Atenção Integral à Saúde do Homem trará para a redução dos fatores de risco.
Essa política se faz importante por está diretamente relacionada com a
esperança e qualidade de vida do homem, uma vez que, sendo executada, atuará na
proteção de sua saúde, reduzindo, abrandando ou eliminando as exposições a
fatores de risco, além de estimulá-los a adotar medidas de prevenção primária à
sua saúde:
... seria melhor se a gente pudesse estar orientando, quanto à
questão da alimentação, estilo de vida (...) então você pode estar
mudando uma série de coisa, como a questão das dislipidemias (D3).
Segundo as enfermeiras os homens se expõem mais aos fatores de risco e por isso
a implementação dessa política será ideal na redução desses fatores. Sobre este
assunto, estudos mostram que o homem gera fatores de risco danosos a sua saúde,
resultando em doenças, lesão e morte. Investir na prevenção das doenças é
garantir qualidade de vida ao homem, evitar internações hospitalares, além de
gastos aos sistemas de saúde. Essas consequências resultantes das medidas de
prevenção relacionam-se com quase todas as doenças de causas conhecidas e é
mais efetiva e segura que a procura por indivíduos de alto risco, embora também
deva ocorrer(3).
Há muitos agravos à saúde do homem relacionados aos fatores culturais e sociais
que também poderiam ser evitados, na percepção das enfermeiras, se estes
procurassem as medidas de prevenção primária, modificando o seu estilo de vida
como por exemplo o abandono de vícios e hábitos (fumo, álcool, estresse,
trabalho, sedentarismo, entre outros) muitas coisas mudariam. Autores concordam
que esses comportamentos de risco nos homens, como eles se cuidam e percebem
seu corpo, têm que ser visto sob a ótica de gênero, como homens concretos
relacionando-se com as masculinidades(11).
Quanto ao risco para as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), as
enfermeiras expressam, que a implementação dessa política diminuirá a exposição
do homem a essas doenças, contribuindo para a redução da morbidade tanto
masculina como feminina, pois as ações educativas a serem desenvolvidas no
contexto da política, sensibilizarão esse grupo para a diminuição dos fatores
de riscos:
... com relação às DSTs, eles não querem se precaver(...) não querem
usar preservativo porque dizem que dói, que arde, é ruim fazer sexo
com camisinha, então eu acho que tem que ter esse programa de saúde
(D6).
O homem, além de ser responsável pelo seu adoecimento, ainda adoece a mulher,
tornando-se obstáculo para a saúde dela, quando não adere às medidas de
prevenção como o uso de preservativos, expondo a si e a parceira às DSTs. Isso
se deve a uma visão machista de que cabe à mulher a responsabilidade de
promoção à saúde e prevenção das doenças.
As enfermeiras ressaltam, ainda, que os homens negam o uso do preservativo,
pois afirma que dói e arde, trazendo desconforto. Autores apontam que fatores
como esses, relacionados ao imaginário masculino, de que o preservativo diminui
o prazer sexual ou interrompe a relação e o contato direto entre o casal
contribui para o seu não uso, além de que o seu uso em relacionamentos estáveis
pode ameaçar a confiança entre o casal, por suspeitar de infidelidade ao crer
na possibilidade de relações extraconjugais(12).
As enfermeiras consideram que a assistência à saúde dos homens, nessa faixa
etária, seja essencial por protegê-los da morte, uma vez que representam uma
parcela significativa da população produtiva do país e, portanto, merecedora de
cuidados:
... é muito importante, porque o óbito de homens repercute em tudo,
financeiramente no país, na renda de modo geral. Eles são a força
produtiva do país (D12).
As enfermeiras reafirmam a representatividade dessa população em meio ao
contingente populacional por ser geradora de renda para sua casa e para o país.
Apesar de hoje a mulher estar mais inserida no mercado de trabalho, ainda é o
homem que compõe o maior grupo de trabalhadores no país na realidade
brasileira. A faixa etária dos 25 aos 59 anos, privilegiada pela política,
compõe a fase produtiva da vida do homem e o MS completa isso, afirmando que
esse grupo etário masculino corresponde a 41,3 % da população masculina com
diferentes fases da vida ou a 20% do total da população do Brasil,
correspondendo à supremacia da força produtiva, e além do mais exerce um
significativo papel sociocultural e político(5).
Nessa categoria, a percepção das enfermeiras aponta para a importância de uma
política que contemple o homem na sua integralidade, considerando as diferenças
com relação ao seu estilo de vida, sua inserção na força de trabalho, entre
outros aspectos, de modo a tentar reduzir os agravos à sua saúde. Nesse
sentido, corroboram com o MS quando trata da heterogeneidade das possibilidades
de ser homem, levando em consideração idade, condições socioeconômicas,
situação carcerária, deficiência física e/ou mental, orientações sexuais,
identidades de gênero não hegemônicas. Tudo para ser equânime na atenção a essa
população(5).
A percepção das enfermeiras, ainda coaduna com a fala do ex-ministro da saúde
José Gomes Temporão nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva, que expressa a
importância de ações voltadas ao homem, destacando sua contribuição para
obtenção de melhores resultados em programas que busquem a prevenção das DSTs,
o controle da violência de gênero, a saúde reprodutiva e a redução do
sofrimento de homens e mulheres e a garantia da cidadania(13). "Uma ação
educativa bem feita 'modernizaria' os homens brasileiros, dissipando o
pensamento mágico que os (des)orienta e que os torna presas de seu próprios
preconceitos", pois os tornaria conscientes de sua vulnerabilidade(14).
B. Perspectivas para a implementação da Política de Saúde do Homem na ESF
Esta categoria evidencia a percepção dos enfermeiros sobre as perspectivas
favoráveis e desfavoráveis para a implementação da Política de Assistência ao
Homem na ESF. Nos fragmentos das falas dessas enfermeiras, observou-se o que
elas esperam pela implementação e expressam suas ideias para que a prática da
assistência à saúde do homem aconteça, em que os profissionais e os serviços de
saúde devem melhorar para que efetivamente esta assistência torne-se realidade.
Iniciativa perfeita a do Ministério da Saúde (...) chegou a hora de
não só vermos o homem como o hipertenso (...), o diabético, mas com
as prováveis e possíveis doenças que podem acometê-lo e que podem ser
prevenidas (...) cada faixa etária requer um cuidado diferenciado e
eu acho que o homem também merece (D3).
... a saúde do homem em si (...) a gente vai deixando para lá, mas a
gente tem que voltar os olhos para isso. A política é bastante
viável, eu acredito que dá certo porque a gente tem que trabalhar com
a prevenção no PSF (...) e eu acho que vale a pena, é um programa que
veio para ficar (D14).
As enfermeiras apóiam a iniciativa ministerial de assistir ao homem adulto, uma
vez que ele possui sua singularidade e é acometido por diversas doenças que
podem ser prevenidas. Além de merecer um cuidado direcionado, levando em
consideração a relação de gêneros, assim como as outras faixa etárias da
população. Segundo elas, isso é realizar uma assistência integral e equânime,
entendendo o processo saúde-doença no homem.
Estudos têm sido realizados com o objetivo de entender o processo saúde-doença
do homem, considerando suas diferentes características (raça/cor, etnia, classe
social, entre outras). Discussões acerca da promoção da saúde, dos direitos e
da equidade ganharam destaque nos dias atuais, contribuindo para a saúde do
homem sob a ótica das masculinidades e permitindo que sejam vistos em suas
singularidades(8).
Conforme as enfermeiras, o homem ainda é visto, somente quando está acometido
por alguma morbidade (hipertensão, diabetes, cardiopatias, câncer, outras),
sendo esta situação associada à sua atitude de rebeldia perante as ações de
saúde principalmente, quando estas são de prevenção e promoção. É hora dos
homens se sensibilizarem em relação ao seu papel de eternos provedores e
"fortaleza sem brechas", de reverem o seu comportamento e modificarem suas
condutas, adentrando o Sistema Único de Saúde (SUS) pela atenção básica(1).
As enfermeiras consideram a prática dessa assistência viável e percebem a
filosofia da atenção básica pautada em ações de promoção/ proteção da saúde e
prevenção e não, apenas, no modelo curativo. Esta percepção está de acordo com
as diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, que
entende a saúde do homem como um conjunto de ações de promoção e prevenção,
assistência e recuperação, executadas com humanização e qualidade, nos
diferentes níveis de atenção(5).
Com relação aos aspectos a serem considerados pelos profissionais e pelos
serviços de saúde, as enfermeiras ressaltam que eles precisam ser revistos, no
sentido de tornar a assistência à saúde do homem realidade:
... essa política vai dar certo porque todos os outros programas,
como hipertenso e diabético - HIPERDIA dão (...). Se instituir uma
coisa ligada com a família, a escola, todo mundo voltada para aquilo
(...) só nós para resolvermos isso aí não dá. Só acredito que dará
certo se for todo mundo (D8).
... se fosse um atendimento alternativo, limitado, um dia a noite,
poderia ser que a aderência deles, pudesse ser bem maior (...) essa
temática deve ser trabalhada, não de uma forma imposta, mas uma forma
a se adequar a cada realidade, então muitas vezes o serviço deve se
adequar a população (D10).
As enfermeiras ressaltam que para a efetividade dessa política é necessária a
integração de todos os segmentos sociais: escola, igreja e, principalmente, a
família, de modo a incentivar a procura do homem pela atenção básica e para o
autocuidado.
Elas propõem a necessidade de definição de novos horários e turnos de
funcionamento das UBS, com atendimento noturno, por exemplo, para facilitar a
adesão desse grupo. Esta mudança promoveria uma adequação das ações
assistenciais às demandas dessa população. Neste sentido, a percepção dessas
enfermeiras condiz com o objetivo da Política de Saúde do Homem que propõe a
facilidade do acesso às ações e os serviços de assistência integral à saúde(5).
Por outro lado, esta categoria traz pontos de vista que expressam a
desestimulação para a implementação da assistência à saúde do homem na fase
produtiva. As falas seguintes revelam dificuldades relacionadas a três fatores
principais: sobrecarga de trabalho da enfermeira pela falta de colaboração dos
outros integrantes da equipe, a sensibilização dos homens para buscarem os
serviços de saúde, em especial a Atenção Básica e o despreparo técnico para a
utilização dos protocolos da política:
... de não termos treinamentos, protocolos, isso favorece a
dificuldade. Às vezes eu quero atuar mais, quero ir para a área
trabalhar mais a questão educativo, mas me sinto limitada porque tem
tanta papelada, tanta burocracia que a gente acaba dando prioridade
para aquele grupo que a gente tem mais costume de trabalhar: idosos,
crianças, hipertensos, diabéticos (D9).
... então, as dificuldades são imensas, imensas e a gente não sabe se
vai ter êxito nesse trabalho que a gente está tentando organizar
(...) são dificuldades que a gente vai enfrentar para formar outra
mentalidade nos homens (D1).
As falas das enfermeiras ratificam estudos esclarecedores das dificuldades
vivenciadas por essas profissionais no decorrer do tempo. Mostram nesses
estudos que o enfermeiro assumiu muitas responsabilidades relacionadas à
administração, à gestão do cuidado, à participação comunitária, além daquelas
próprias dos burocratas do setor saúde e atualmente a quantidade de atividades/
responsabilidades que o enfermeiro exerce na ESF ultrapassa os limites naturais
do ser humano e do trabalho da Enfermagem. Esse número de atividades, cada vez
maior, tem diminuído a qualidade de vida do enfermeiro no trabalho, pois ele
desenvolve um papel profissional de "cuidador clínico-assistencial, gerente de
pessoal, do território, das ações, do serviço, dos insumos, do transporte,
sistematizador de estatísticas e de produção, analista de dados e de Sistema de
Informação em Saúde, além da articulação política, social e comunitária"(15).
Outros estudos reconhecem o enfermeiro como efetiva-dor das políticas de saúde,
uma vez que ele representa mais de 80% do efetivo que atua nos programas de
assistência de saúde pública(16). Portanto, para haver mudanças em relação à
saúde do homem ele tem que está envolvido, pois sua participação efetiva
recriará mudanças nessas práticas de saúde. Este profissional precisa sentir-se
importante e valorizado no seu processo de trabalho para que ele se perceba
como um dos principais agentes para estabelecer o vínculo do homem com a
atenção básica.
Com relação às dificuldades de sensibilizar o homem para a busca pelo serviço
de saúde, a fala das enfermeiras se respalda em estudos que afirmam ser a
participação do homem nas ações de saúde, no mínimo, um desafio, devido à
socialização do homem não evolver cuidados com a própria saúde e cuidados com o
outro(17).
Neste sentido, é necessário que os profissionais de saúde estejam atentos a
essas barreiras que dificultam o homem a buscar os serviços, também, devendo se
atentar quanto à heterogeneidade das possibilidades de ser homem, considerando
que essa dificuldade está principalmente, associada à masculinidade e esta é
construída historicamente e socioculturalmente(18) e ao realizar as práticas de
educação em saúde deve-se realizar continuamente para que haja mudança de
comportamento, caso contrario, haverá falta de estímulo da equipe de saúde para
o desenvolvimento de cidadania e participação nas atividades desenvolvidas pela
UBS(19).
Quanto ao despreparo das enfermeiras para assistirem a esse grupo, elas
explicitam em suas falas, a necessidade de definição de protocolos de execução
da Política de Saúde do Homem e que sejam treinadas para a sua aplicação. A
política se apresenta, claramente, em documentos que trazem princípios,
diretrizes, objetivos, papéis dos órgãos ou setores (responsabilidades
institucionais das três esferas do governo - União, Estado e Município), metas
e ações prioritárias que norteiam a execução dessa política. No entanto, são
válidos os relatos das enfermeiras ao apontarem a inexistência de um protocolo,
que são atribuições técnicas de cada membro da equipe, planos, projetos,
programas, atividades concretas(3,20).
Sobre esse assunto, vale ressaltar, que um dos princípios da Política Nacional
de Atenção à Saúde do Homem é capacitar tecnicamente os profissionais de saúde
para o atendimento ao homem e cabe a União propor, em parceria com a Secretaria
de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, estratégias de educação permanente
dos trabalhadores do SUS, voltada para essa política. Assim, o MS definiu um
plano de ação para um período de 2009 a 2011, tendo como eixo de ações
prioritárias a qualificação de 32 mil equipes da ESF até o final de 2011(20),
certamente, as enfermeiras ainda não tinham sido envolvidas.
CONCLUSÃO
A partir dos resultados alcançados, o estudo mostra que as enfermeiras
acreditam que os homens não somente merecem como precisam ser assistidos pelos
programas de saúde que buscam a redução dos índices de morbimortalidade e da
exposição destes aos fatores de riscos, fortalecendo a manutenção da estrutura
familiar, e também, por eles constituírem uma parcela significativa da
população, pois, a faixa etária masculina contemplada pela política forma a
força produtiva e política do país.
A percepção das enfermeiras do estudo é clara quanto à necessidade de assistir
aos homens integralmente, considerando sua heterogeneidade, atentando-se para o
seu estilo de vida, de modo a buscar a redução dos agravos que eles causam à
própria saúde e promover a sua longevidade com qualidade.
Apontam o desestímulo e as dificuldades para a implementação dessa política,
que devem ser consideradas para se entender como essas profissionais aceitam,
recusam ou transformam as ações propostas pela área da saúde. Portanto,
conhecer a percepção das enfermeiras, a quem é atribuída essa atividade de
saúde e sintonia com o homem, é válido, uma vez que são as enfermeiras quem
irão incorporar essa política nas suas práticas de cuidar na ESF e as ações em
saúde partem dessa compreensão.
Em face do exposto, os objetivos deste estudo foram alcançados e os resultados
apresentados são relevantes na medida em que podem trazer contribuições para
nortear o planejamento da implementação das ações de assistência ao homem tanto
na realidade do estudo quanto na realidade brasileira.
Descrever a percepção das enfermeiras relacionada à importância da política de
assistência ao homem, às perspectivas favoráveis e desfavoráveis para a sua
implementação, bem como, a sensibilização destas profissionais para assumirem
refletir sobre novos caminhos para a efetivação dessa política a execução
dessas ações é de fundamental importância. Por e, consequentemente, a melhoria
da qualidade de vida desse meio deste diagnóstico, poderão as autoridades de
saúde, homem, ao mesmo tempo, que se consolidará a prática assisos
profissionais da área, os familiares e o próprio homem, tencial das enfermeiras
na realidade do país.