Ser humano idoso estomizado e ambientes de cuidado: reflexão sob a ótica da
complexidade
INTRODUÇÃO
A palavra estomia ou estoma é de origem grega(1). A estomia pode representar
uma limitação aos projetos de vida dos seres humanos, principalmente quando
estes são idosos(2). Em meio a esse processo de adaptação após a cirurgia o
idoso estomizado começa a ressignificar sua condição e o seu ambiente de
cuidado. Dessa forma, o ambiente caracteriza-se por articulações e associações
dinâmicas, aproximações e distanciamentos, liberdade, dependência e
interdependência, mecanismos de superação e aceitação, limites e
potencialidades(3).
O ambiente é definido como a entidade que existe externamente ao ser humano ou
à humanidade, concebida ou como um todo ou como contendo muitos elementos
distintos. É importante compreender que as pessoas criaram as alterações em seu
ambiente ao longo de sua história, e da mesma maneira, foram afetadas por estas
mudanças. A atividade e o desenvolvimento de um ser humano são reprimidos e
determinados pela natureza do ambiente no qual esse se encontra ou se
posiciona. Muitas das condições de saúde humana estão associadas com os fatores
ambientais, logo os elementos destes enfoques ambientais: físico, social e
simbólico, afetam não apenas os seres humanos que estão posicionados nele, mas
também a maneira pela qual são fornecidos os cuidados pelo enfermeiro(4).
Após a realização de um procedimento cirúrgico que culmina em uma estomia, em
um ambiente estranho, o idoso se depara com diversas alterações em sua vida,
que vão desde a alteração de sua fisiologia gastrintestinal ou urinária, da
autoestima à alteração da imagem corporal. Estas transformações por sua vez,
condicionam a sua vida familiar, afetiva e social, bem como se reflete no
ambiente em que ele é cuidado ou se autocuida. Diante do processo de
envelhecimento, o ser humano perpassa por diversas mudanças, as quais
necessitam um reolhar na ótica da complexidade, em que haja uma reabilitação
gradativa com vistas à sua adaptação à nova condição ' idoso com estomia.
Os idosos quando estomizados, muitas vezes, recusam a aceitação de suas
condições de saúde e, assim, tendem a rejeitar o tratamento, o que pode
resultar no agravamento de sua deficiência. Além do prejuízo ocupacional e
social diante das alterações decorrentes do processo de envelhecimento, eles se
veem em uma situação interna de autoabandono, perda da autoestima e isolamento
da sociedade, do ambiente familiar, por vergonha ou por acharem que poderão
incomodar se pedirem ajuda.
Além disso, na estomização houve a amputação de uma parte do corpo alterando a
autoimagem de seus portadores aliado ao corpo envelhecido. O ser humano
necessita de um tempo para o seu momento de luto, ou seja, reformar os seus
conceitos, dimensionar suas perdas e encontrar forças para reorganizar seu
viver como portador de uma estomia, dependente de uma bolsa coletora aderida ao
seu abdome(5).
Dessa forma, essas dificuldades podem levar à inadequação dos mecanismos de
enfrentamento, de sua visão acerca de si e do outro. Com isso é importante
reconhecer e reelaborar o cuidado voltado às necessidades e experiências
manifestadas por esse idoso, adequadas ao seu ambiente, bem como às suas
fragilidades inerentes ao processo de envelhecimento, estimulando continuamente
o seu autocuidado.
Outro olhar acerca do cuidado com enfoque na complexidade vislumbra a inter-
relação geriatria/gerontologia e estomaterapia, constituindo um elemento
importante para os profissionais da enfermagem, considerando o ambiente de
inserção do idoso com estomia.
Em um contexto polissêmico e fluído, não há uma definição para ambiente,
podendo ter diferentes significados, em meio à incerteza, sendo de troca ou
cooperação. É necessário, com isso, levar em conta o contexto social e cultural
do ser humano idoso com estomia, conhecer sua origem e seu desenvolvimento para
que haja um cuidado compatível com suas necessidades.
Compreende-se a complexidade como uma maneira de entender o mundo, integrando
as relações de coexistência entre os seres vivos e não vivos, integrando
conceitos de ordem e desordem, uno e diverso, estabilidade e mudança e,
principalmente, a noção de incerteza(6). Assim, para compreender o processo
incerto que envolve o ser humano cuidado, faz-se necessário tecer um olhar,
sobre o todo(7), ou seja, as dimensões individual, social e biológica.
Diante da complexidade do tema surge a seguinte indagação: que características
apresentam os ambientes de cuidado, onde os idosos estomizados se inserem? Para
responder a este questionamento objetivou-se refletir acerca da relação ser
humano idoso estomizado e seus ambientes de cuidado sob o olhar da
Complexidade.
METODOLOGIA
Para desenvolver este estudo, de caráter descritivo-reflexivo, buscou-se um
reolhar acerca do assunto a partir de fontes nacionais e internacionais.
Complexidade de Edgar Morin é um referencial pautado em conceitos que estão
constantemente em processo de construção, sem um ponto final, que tende a
buscar a religação de saberes, união e disjunção na tentativa de compreender a
multidimensionalidade que envolve o cuidado. Será apresentado em duas partes
que tentarão responder as indagações elaboradas.
Nesse contexto, vale pensar nas relações locais, temporais e totais que
integram a condição humana(7). Um eixo sustenta a reflexão: ambientes de
cuidado para o ser humano idoso com estomia sob o olhar da complexidade.
Ambientes de cuidado para o ser humano idoso com estomia sob o olhar da
Complexidade
Ambiente, em um sentido amplo e multidimensional, tem significado relacionado
aos limites do espaço das relações humanas, sejam essas produzidas na
abrangência familiar ou até mesmo no contexto da comunidade em geral, com a
intenção de produzir e reproduzir situações favoráveis à construção de
interações saudáveis com/entre os seres humanos. Consideram-se, assim, seus
diferentes sentidos e expressões produzidas por esses seres humanos. É a
espacialização da auto-organização, um conteúdo que se expressa de inúmeras
formas, mas, de tal modo, que mantém sempre sua identidade e unidade(8).
Há evidências da incessante busca por um ambiente saudável, impulsionada pelas
insatisfações com as condições de vida oferecidas pelo processo civilizatório,
e que motivam o ser humano a estabelecer vínculos e desenvolver conceitos -
arraigados em valores individuais, culturais e históricos - estabelecendo
íntima relação entre o ser e o ambiente. Sendo este ser complexo, dotado de
múltiplas peculiaridades e necessidades, dentre elas a necessidade de ser
cuidado(3).
O cuidado pode ser tudo aquilo que se agrega sob a forma de ações ou
intervenções, que colaboram para gerar, organizar ou (re)estabelecer esperança,
autonomia, liberdade de escolha, relações humanas e sentido da vida para o ser
humano(9).
A relação do ser humano com seu ambiente não pode ser concebida de forma
reducionista, nem de forma disjuntiva, pois emerge e distingue-se pela cultura,
pensamento e consciência. Dessa forma, é necessário um resgate do ser humano em
que sua condição permeia características biológicas e ao mesmo tempo culturais,
como o nascimento ou a morte, a satisfação das necessidades alimentares/hídrica
e de eliminação fecal e urinária, que estão estritamente ligadas a normas,
proibições, valores, mitos e ritos, portanto ligado ao cérebro, como em um
holograma(10). Constitui-se de forma hologramática, esse reolhar pela
complexidade e multidimensão que afeta o ambiente do ser humano idoso após a
estomia.
Nesse sentido, apresentam-se três tipos de ambiente que circundam o contexto de
estomização do ser humano idoso: ambiente domiciliar, ambiente grupal e
ambiente hospitalar.
O ambiente domiciliar, para o ser humano idoso portador de estomia, se
caracteriza como um ponto de apoio por representar boa parte de sua vida, suas
conquistas e lembranças familiares. Quando submetido à estomização, um novo
olhar é construído, novos pensamentos, medos, conflitos e ensaios de um
enfrentamento, situações essas, em que o ambiente necessita ser reformulado com
vistas a proporcionar ao idoso, sentimentos de satisfação e conforto durante o
seu incerto processo de adaptação à estomia.
A atenção ao ser humano idoso estomizado pode estar intimamente relacionada à
presença do familiar ou alguém próximo, ou melhor, da pessoa que, no ambiente
domiciliar, realiza ou o ajuda a realizar suas atividades básicas e
instrumentais de vida diária, com o objetivo da preservação de sua autonomia e
de sua independência. Assim, nesse ambiente a família surge como sustentação,
para a manutenção tanto física como social deste idoso fragilizado(11). A
família pode procurar compreender as reações dos portadores de estomia, tais
como: revolta, angústia, insegurança, entre outros, demonstrando apoiar o
momento de dificuldade vivenciado(12).
Considerando o ambiente domiciliar do idoso portador de estomia, o cuidado
integral e específico pressupõe um olhar atencioso às diversas perspectivas que
compõem um reolhar acerca de sua condição. A família, como é a primeira fonte
prestadora de cuidados, conhece seu familiar idoso, suas necessidades e é capaz
de cuidá-lo de forma singular e afetiva em seu ambiente domiciliar, promovendo
a reestruturação do seu ambiente para recebê-lo(13).
Assim, percebe-se a recursividade na relação ao ser humano idoso estomizado e
seu ambiente domiciliar. A ideia recursiva representa a ruptura com a
linearidade causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, já
que tudo o que é produzido volta-se sobre o que se produz num ciclo, no qual
ele mesmo é autoconstrutivo, auto-organizador e autoprodutor(14), ou seja esse
idoso percebe que no ambiente domiciliar o cuidado vai além da visão biomédica,
inclui a rede de apoio social e as perspectivas pautadas no aconchego e
acolhimento do lar.
O ambiente grupal, representado pelos grupos de convivência, pode influenciar
na forma como o ser humano idoso com estomia reformula seu autoconceito e seu
processo de autocuidado. Esses grupos utilizam-se do compartilhamento de
saberes. Essa estratégia contribui para que seus iguais se compreendam,
reelaborem novas maneiras de conhecer-se e conhecer o outro, facilitando o
ajustamento a esse contexto desconhecido e incerto, como em uma religação
subjetiva e hologramática.
Torna-se importante que o ser humano estomizado participe de um trabalho de
grupo de forma sistemática. Ele passa a vislumbrar um novo olhar acerca de seu
processo saúde-doença, produzindo novas interpretações e promovendo meios de
assegurar seu bem-estar, por meio da identificação dos significados e/ou outras
dificuldades em outros seres humanos estomizados(2).
Considere-se que um processo de identificação com o outro, comporta a projeção
de sujeito a sujeito, destacando a intersubjetividade, como em um círculo, a
partir das interações que os seres humanos produzem na sociedade. À medida que
a sociedade emerge, produz a humanidade desses indivíduos, denotando a
recursividade como movimento contínuo(10).
Assim, o ambiente grupal, pode contribuir para minimizar a tendência do
estomizado, em especial ao idoso que, muitas vezes, apresenta isolamento
social, oportunizando novos conhecimentos, constituindo-se como rede de
solidariedade a esses seres humanos, em um processo social e autônomo(12).
Assim, a autonomia do ser humano, sendo dependente do ambiente, é também
dependente de sua ascendência genética e da sociedade em que se inscreve. Ele é
unidual, totalmente biológico e cultural ao seu tempo, por isso a compreensão
da autonomia em seu ambiente levanta um problema de complexidade: experienciar
o envelhecimento, apesar da estomia, em um ambiente constituído pelas
aproximações pessoais e memórias de toda uma vida, o que humanizaria o cuidado.
Nesse contexto, o processo social(7) é um circulo produtivo ininterrupto no
qual, de algum modo, os produtos são necessários à produção daquilo que os
produz, ou seja os idosos estomizados percebem o cuidado como um instrumento
que pode dar conta de suas especificidades.
O ambiente que proporciona melhor atendimento em saúde aos pacientes tende a
estar relacionado à qualidade de vida desses, em que a constituição do ambiente
pode estar influenciada por uma série de fatores, tais como, o social,
econômico, cultural, político e comportamental. Assim, um olhar sobre o
ambiente do idoso com estomia requer o equilíbrio entre corpo e mente para o
processo de enfrentamento do desconhecido e de seus medos e dúvidas(15).
Compreende-se ainda que, no ambiente grupal, a ênfase não carece ser dada
somente aos portadores de estomias, mas, também aos seus familiares. Torna-se
necessário planejar e oferecer um espaço físico propiciando programas
específicos que atendam as famílias que passam por esta experiência. Esse
ambiente grupal necessita ter profissionais capacitados para orientar e
conversar com a família, para compartilhar suas necessidades e receber apoio de
outras famílias e da equipe de saúde, respeitando sua unicidade(13).
Oambiente hospitalar, muitas vezes, representa, por meio da internação, um
sentimento de angústia ou medo, porque, para o ser humano idoso com estomia, a
fragilidade encontra-se na forma em que se cuida, principalmente nas possíveis
complicações decorrentes da estomia ou relacionadas a outro problema de saúde.
Logo, faz-se necessário que haja um olhar permeado pela Complexidade, ou seja,
único e múltiplo acerca de como será realizado o cuidado desse idoso que, além
de procurar o ambiente hospitalar para tratamento, é portador de estomia e
requer uma atenção específica.
Muitas vezes, o ambiente hospitalar retrata enfermarias de difíceis condições
para abrigar seres humanos acamados e dependentes de cuidados face às
necessidades básicas. Pode-se verificar, durante a internação, momentos de
isolamento, olhar perdido no tempo, relatos de solidão devido ao afastamento da
casa e da família(16). Frente a esse contexto, o ser humano idoso que porta uma
estomia pode perceber uma dificuldade para o autocuidado em sua condição, visto
que o ambiente que o rodeia apresenta-se estranho e distante do qual está
acostumado.
Para enfrentar o desconhecimento acerca de sua condição como idoso estomizado e
do ambiente hospitalar que o recebe, em meio à presença de alguma complicação
de saúde, é necessário que haja um cuidado específico às suas necessidades,
envolvendo os aspectos biológicos, psicossociais e espirituais, envolvendo uma
rede de solidariedade por parte dos enfermeiros e técnicos de enfermagem que
prestam o cuidado e a família, constituindo-se no cuidado complexo.
O foco está no ser humano idoso, na sua reabilitação e é realizado por uma
equipe interdisciplinar que visualiza as características individuais, as
necessidades de saúde e as fragilidades diante do envelhecimento. O cuidado
prestado pelo enfermeiro no hospital precisa intervir com vistas à preservação
da independência dos idosos que de outra forma teriam de enfrentar a internação
prolongada ou internações inadequadas. Dessa forma é necessário que seja
garantido o uso correto dos recursos articulado ao desejo de reduzir o tempo de
permanência em leitos hospitalares e reconhecer o papel crucial da reabilitação
no atendimento dos idosos(17), em especial os com estomia.
Assim, a discussão fundamenta-se na reflexão de que para o ser humano idoso a
estomia é considerada, muitas vezes, um empecilho, pois ele já enfrenta seu
processo de envelhecimento, além de mostrar-se com medo ou entender a estomia
como um fenômeno desconhecido. Cuidar do ser humano estomizado em seu ambiente,
seja ele o domicílio, o grupo ou o hospital demanda compreender suas
especificidades, pois as experiências vivenciadas pelo idoso vão se modificando
ao longo do tempo. Dependendo da evolução de sua doença e das possibilidades de
adaptação, o ser humano idoso estomizado pode desenvolver estratégias de
enfrentamento, com as quais passa a entender a importância da estomia e do
autocuidado em seus ambientes (domiciliar, grupal e hospitalar) de forma
multidimensional.
Nesse sentido, é necessário que haja a reforma do pensamento quanto à
necessidade e importância da estomia, a partir dos profissionais da saúde, do
portador/família, para que assim seja gerada uma mudança dos (pré)conceitos,
desmistificando novas formas de compreender o contexto de saúde/doença. Dessa
forma, produz novos sentidos para o cuidado e gera um pensamento que liga e
enfrenta a incerteza. Que une, substitui a causalidade linear e unidirecional
por uma causalidade em círculo e multirreferencial; corrige a rigidez da lógica
clássica pelo diálogo capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e
antagonistas; e completa o conhecimento da integração do todo no interior das
partes(10:92-3), beneficiando os seres humanos que cuidam e os que são
cuidados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir desse estudo, foi possível alcançar o objetivo de refletir acerca da
relação entre o ser humano idoso estomizado e seus ambientes de cuidado sob o
olhar da Complexidade. Pode-se perceber que, independente do ambiente; seja
domiciliar, grupal ou hospitalar, o ser humano portador de estomia necessita
adquirir autonomia e apresentar uma melhor aceitação de sua condição, sem
esquecer que o apoio dos sujeitos que o rodeiam é fundamental.
As dificuldades da reflexão baseiam-se na pouca literatura relacionada às
questões que unem cuidado, Complexidade e ambiente do ser humano idoso e/ou
estomizado. No entanto, as facilidades dão-se por meio da experiência
relacionada ao assunto e as leituras anteriores que tentam retratar as
necessidades dos idosos estomizados. Assim, os ambientes domiciliar, grupal e
hospitalar contêm suas particularidades, mas que refletem o contexto de
fragilidade e necessidade de cuidado do idoso com estomia, em meio a um
processo circular e recursivo. É necessário, assim, um conhecimento técnico-
científico adequado e humanizado/ampliado do enfermeiro; além da compreensão da
família como rede de apoio social no ambiente de cuidado.
A reflexão traz como contribuição social um reolhar acerca do redimensionamento
do cuidado ao ser humano idoso estomizado em seu ambiente. Considera-se para
isso que o ambiente que abriga esse ser humano comporta uma diversidade de
sentimentos, emoções, experiências e vincula múltiplos conceitos e significados
da relação do ambiente e o processo de cuidado frente à interface da
Complexidade. Logo, na ciência da Enfermagem, em construção, os campos do
ensino, pesquisa e extensão/assistência podem conter o conhecimento da relação:
ser humano idoso estomizado e ambientes de cuidado a partir de um olhar que
vincula o conceito multidimensional apresentado pela Complexidade. Assim poderá
ser proporcionada uma mudança do pensamento, considerando a visão da incerteza
e a condição humana.