História do cuidado à mulher na Maternidade Carmela Dutra, Florianópolis-SC,
Brasil (1956-2001)
INTRODUÇÃO
A história da assistência à mulher durante o parto, em seus encontros e
desencontros entre parteiras, médicos e enfermeiras, vem sofrendo
transformações sociais, culturais e políticas importantes ao longo dos séculos.
Revisitando a história da assistência ao parto observa-se que estes eram
realizados no domicílio, por mulheres conhecidas popularmente como aparadeiras,
comadres ou mesmo parteiras leigas, passando posteriormente a serem atendidos
em instituições de saúde por médicos e enfermeiras obstétricas.
Em Florianópolis-SC, a assistência ao parto acontecia no domicílio até o início
do século XX, modificada com a inauguração da primeira maternidade denominada
Maternidade de Florianópolisa, pelo Decreto n. 1832, de 31 de janeiro de 1925,
do Governo do Estado, sob a responsabilidade da Associação Irmão Joaquim. Em
junho de 1926 começou a receber as primeiras parturientes, embora a data
oficial de inauguração tenha sido 06 de fevereiro de 1927(1).
Considerando o crescimento da população urbana foi elaborado um projeto
político para construir a segunda maternidade da cidade, que objetivava atender
também a população indigente. A Maternidade Carmela Dutra (MCD) recebeu esse
nome em homenagem a Carmela Leite Dutra, esposa do então presidente do Brasil,
General Eurico Gaspar Dutra (1946-1951). Foi inaugurada em 03 de julho de 1955,
começando a atender as parturientes e os recém-nascidos somente em fevereiro de
1956, devido à carência de recursos humanos. Subordinada à Secretaria de Saúde
e Assistência Social, sua administração e organização ficou sob
responsabilidade das Irmãs da Divina Providência, sendo Irmã Hortênsia a Madre
Superiora(2-3).
Este artigo tem como objetivo analisar as práticas de cuidado desenvolvidas
pelas enfermeiras à mulher na MCD no período de 1956 a 2001. A escolha do
marcador do tempo contemplou o período inicial de 1956 com o ingresso da
primeira enfermeira na MCD, Irmã Cacildab, (seu nome de nascimento é Ottille
Hammes), e o período final de 2001 com a posse da primeira enfermeira como
diretora da MCD, Doutora Evanguelia Kotzias Atherino dos Santos.
METODOLOGIA
Trata-se de pesquisa qualitativa com abordagem sócio-histórica. Para a coleta
de dados foi utilizada a técnica da história oral temática pela escassez de
informações escritas referentes à participação das enfermeiras nas práticas de
cuidado na MCD. As falas das enfermeiras foram necessárias para revelar os
eventos e práticas de cuidado no período histórico estudado. História oral
temática é um gênero da história que tem como objetivo abordar assuntos
específicos e previamente estabelecidos(4).
Os sujeitos da pesquisa foram nove enfermeiras que trabalharam na MCD no
período entre 1956 e 2001, as quais foram entrevistadas de fevereiro a julho de
2009 pela técnica bola de neve(5), até a saturação dos dados. Na entrevista
foram abordadas questões sobre: contexto da maternidade, estrutura física e
práticas de cuidados à mulher parturiente e ao recém-nascido internados na MCD.
O tempo médio das entrevistas foi de três horas, em locais de escolha das
entrevistadas. As entrevistas foram gravadas por meio digital e,
posteriormente, foram transcritas e validadas pelos sujeitos, de julho a
setembro de 2009. Foram utilizadas também fontes documentais: jornais, livros
de passagem de plantão e fotos. Os dados foram analisados pela Análise de
Conteúdo Temática de Minayo(6).
O referencial teórico-filosófico de Michel Foucault estabeleceu um diálogo com
as bases filosóficas e históricas contemporâneas ao pensar os acontecimentos do
passado, na perspectiva de encontrar luz para interpretar a história do
presente e vislumbrar neste estudo o poder-saber das enfermeiras em suas
práticas de cuidado à mulher(7). A análise dos dados revelou quatro categorias:
O contexto da Maternidade Carmela Dutra; As práticas de cuidado à mulher na
admissão; As práticas de cuidado à mulher no parto e As práticas de cuidado à
mulher no puerpério. O projeto de pesquisa foi avaliado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa com Seres Humanos da UFSC, sendo aprovado por parecer exarado no
processo protocolado sob o nº 003/09. Os participantes assinaram o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, a Carta de Cessão da entrevista e o uso de
imagens fotográficas, de acordo com as Resoluções 196/96 e 251/97 do Conselho
Nacional de Saúde. Para o presente estudo, as entrevistadas concordaram que
seus nomes fossem citados. Além disso, ao lado do nome de cada uma delas foi
incluído o ano de sua inserção na MCD.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise e a discussão dos dados são abordadas em quatro categorias referentes
ao contexto e às práticas realizadas pelas enfermeiras no cuidado à mulher na
MCD. Em tal sentido, será apresentada a evolução histórica dessas práticas, sem
descrever a história de forma linear, mas uma crítica apontando as rupturas que
ocasionaram as transformações.
A. O contexto da Maternidade Carmela Dutra
A organização do cuidado de enfermagem na MCD de fevereiro de 1956 até 1968
ficou sob a responsabilidade das Irmãs da Divina Providência que organizavam os
serviços administrativos e as práticas de enfermagem da forma como os
realizavam em outros hospitais. Elas eram a autoridade que detinha o poder-
saber "fabricando" pessoas regidas pelo poder disciplinar(8). A partir de abril
de 1956, com a inserção da primeira enfermeira, Irmã Cacilda, foi possível
melhorar a qualidade das práticas de cuidado de enfermagem, como se percebe em
seu depoimento:
Formar enfermeira foi uma proposta da congregação das Irmãs da Divina
Providência influenciadas pelo então Cardeal do Rio de Janeiro, Dom
Jaime de Barros Câmara. E também por exigência da Secretaria da
Saúde, porque até então quem exercia a enfermagem eram as práticas de
enfermagem, parteiras e atendentes. (Irmã Cacilda,1956)
A qualificação dos trabalhadores da saúde era uma Política de Estado que visava
à qualidade da assistência e a manutenção dos hospitais. Porém, a MCD continuou
com apenas uma enfermeira no quadro funcional até 1972, pois o Estado de SC na
década de 1950 era pouco atrativo, devido aos baixos salários. O enfermeiro
recebia apenas um salário mínimo mensal(9). Os dados estatísticos demonstram
que, em 1956, havia no Brasil 4.517 enfermeiros e 39 escolas de enfermagem(10).
Essa realidade se refletia na MCD na dificuldade de ter enfermeiras no seu
quadro funcional, pois no Estado não havia escola de formação dessas
profissionais. Foi na gestão da Enfermeira Irmã Cacilda na ABEN- SC que tal
cenário começou a modificar-se. A ABEN-SC foi criada em março de 1962, quando
havia no Estado apenas 11 enfermeiras. Irmã Cacilda foi diretora na primeira
gestão, reivindicando a reclassificação do enfermeiro para o nível técnico-
científico. Após um ano foi aprovada a Lei 3.175/63, que tornava realidade essa
reivindicação(9,11). A aprovação dessa lei foi um marco para a enfermagem de
Santa Catarina, motivando a vinda de enfermeiras formadas no Rio Grande do Sul
para trabalhar nos hospitais de Florianópolis e, consequentemente, melhorar a
qualificação dos profissionais, como podemos observar:
Em 1963 deu pra negociar e vieram cinco enfermeiras para o Hospital
Infantil: a Eloita Pereira Neves, a Irmgard, a Nelcy Terezinha, a
Nilza Paim e a Eleonor Caon. (Irmã Cacilda, 1956)
Irmã Cacilda destacou-se na organização e na estruturação da enfermagem na MCD,
inaugurando uma trajetória no cuidado de enfermagem à mulher parturiente e
puérpera, de maneira diferenciada e apoiada em princípios científicos e legais,
o que não era comum à época.
Quem tomava decisão era a madre superiora e o médico (diretor) [...].
Nós nos incomodávamos muito quando queríamos mudar alguma coisa
[...]. A Madre Superiora exigia que tratássemos bem o Diretor,
porque, para ela, ele era a pessoa mais importante, aí teve muitas
brigas porque eu não me submetia. (Irmã Cacilda, 1956)
A história das práticas de cuidado na MCD foi construída a partir das lutas
dessa religiosa, tendo como pano de fundo o poder-saber institucionalizado. Mas
a enfermeira não deixava prevalecer o discurso de verdade histórico-política
veiculado na instituição. A enfermeira utilizava as armas do discurso crítico
de cunho científico visando à qualidade das práticas de cuidado à mulher
parturiente e à puérpera. Essa história construída pela enfermeira Irmã Cacilda
pode ser interpretada como movimento de luta e resistência ao poder-saber
médico institucionalizado, que não reconhecia o saber-poder da enfermeira.
Em 1968 a Congregação das Irmãs da Divina Providência deixou a MCD em razão do
término do contrato com o Estado. Naquela ocasião, a enfermeira Nilsa Borges
Paim havia pedido transferência do Hospital Infantil (HI) para compor o quadro
da enfermagem na MCD, permanecendo como única enfermeira após a saída da Irmã
Cacilda. Sua inserção no quadro funcional naquele momento histórico produz uma
mudança na organização do cuidado: a enfermagem organizada por enfermeira
religiosa é substituída pela enfermagem organizada por enfermeira leiga.
Em relação à estrutura física, na sua inauguração a MCD foi divulgada pelos
jornais da época como um grande e ousado estabelecimento hospitalar que viria
atender a especialidade da obstetrícia(2-3).
Naquele tempo só havia enfermaria e sala de parto. As gestantes
ficavam na enfermaria. Fazia a internação e ficava no leito e lá eram
acompanhadas pela parteira que as levava pra sala de parto quando
tava pra ganhar. (Irmã Cacilda,1956)
No entanto, a estrutura ficou deficitária, motivada pela grande demanda e por
ser a única maternidade em Florianópolis que atendia parturientes indigentes e
da previdência social. Na internação, as mulheres eram recebidas e acompanhadas
pelas parteiras.
Só havia duas maternidades na cidade, e num determinado tempo uma
delas parou de atender e só ficou a Carmela Dutra. Tinha dias que
chegávamos de manhã e tinha paciente deitada em sofá, ganhando neném
na cama, e as mesas de parto ocupadas. Chegamos ao ponto de encontrar
pela manhã duas pacientes na mesma cama, de tanta gente que ganhava,
não tinha mais onde colocar. (Sônia,1979)
Esse depoimento mostra a dimensão do problema que a enfermeira enfrentava por
causa da estrutura física insuficiente para atender a grande demanda de
parturientes. Assim, para melhor acolher a mulher, a sala de parto foi
reestruturada ao longo do tempo, passando a ter outras salas para acolhimento.
Era a sala de admissão, o pré-parto e a sala de parto. (Nilsa,1968)
Então não tinha leito de recuperação pós-parto, as parturientes saíam
da mesa de parto e iam direto para o Alojamento Conjunto, elas não
ficavam o período de Greenberg no Centro Obstétrico. (Odaléa,1985)
Foi em 1996, quando conseguimos o título Hospital Amigo da Criança,
que acabou o berçário. Então essa área, que era grande, transformou-
se em pré-parto e o antigo pré-parto ficou pós-parto. Eu nem consigo
imaginar como é que era isso, porque hoje a estrutura do setor de
admissão, pré-parto e berçário, tudo isso, hoje é centro obstétrico.
(Odete, 1987)
As reformas da MCD centravam-se principalmente na área física, não havendo
modificação significativa nos procedimentos realizados, o que só foi possível
com a implementação das políticas públicas que provocaram, além de alterações
profundas na área física, mudanças nas práticas de cuidado à mulher. Para
acompanhar as políticas de saúde visando à humanização da assistência, a
enfermeira necessitou treinar e remanejar os funcionários do berçário para
outras unidades, reavaliando a forma de cuidar.
[...] para a enfermagem foi um momento difícil, a extinção do setor,
foi muito traumatizante para as pessoas que trabalhavam nesse setor.
Acabou o que elas faziam uma vida inteira. [...]. Foi muito boa essa
mudança, foi muito visível, claro que houve dificuldades com o
funcionário. Foi necessário todo um trabalho de treinamento [...]
para cuidar da mãe e do filho juntos. (Odete,1987)
Observa-se que os profissionais estavam preocupados em melhorar a qualidade da
assistência, e para isso a enfermagem teve de incorporar novos saberes. Com o
apoio do Ministério da Saúde (MS), em 1996, foi implementada na MCD a
Iniciativa Hospital Amigo da Criança com o objetivo de promover, proteger e
apoiar o aleitamento materno(12).
Resumidas a organização de pessoal e a estrutura física da MCD, passamos a
apresentar as práticas de cuidados à mulher no momento de sua admissão na
maternidade.
B. As práticas de cuidado à mulher na admissão
A admissão era o local onde a mulher era recebida e se submetia aos
procedimentos formais para a sua internação, e alguns deles permaneceram
inalterados por todo o período estudado. As rotinas estabelecidas para as
práticas de cuidado aconteciam em espaços setorizados, e como consequência eram
fragmentadas e realizadas por diferentes profissionais, dependendo do espaço em
que a parturiente se encontrasse. Durante algumas décadas os hábitos de
higiene e alimentação da maioria das mulheres atendidas na MCD refletiam a sua
situação econômica, como se vê na fala abaixo:
A maioria das pacientes não pagantes, ditas indigentes, vinham em
estado lastimável. Sujas, com mau cheiro, sem dentes ou com dentição
muito prejudicada, desnutridas; algumas com piolhos e com bicho de
pé. A primeira coisa após o exame era mandá-las para o banho.
Recebiam uma toalha e camisola. (Ana Maria, 1973)
Percebe-se que na hospitalização as mulheres se submetiam a rotinas que na
óptica dos profissionais visava a seu bem-estar e acolhimento afetuoso. Por
várias décadas, essas rotinas foram realizadas pela parteira com o auxilio da
atendente, pois não havia médico de plantão, apenas de sobreaviso, e era
chamado somente quando necessário. Em vista disso, a parteira assume um papel
essencial para o cuidado à mulher, como fica evidente nos depoimentos abaixo:
A parteira examinava e definia se ficava internada ou não. Se
internava, fazia os preparativos, como tricotomia na região pubiana,
lavagem intestinal. [...] mas era feito com muito carinho. (Irmã
Cacilda, 1956)
A admissão era feita pelas parteiras, naquele tempo não tinha os
residentes, não tinha médicos dentro da sala de parto, até muitas
vezes era difícil encontrar um médico pra ir lá atender a paciente
quando era um caso mais grave. Eles ficavam em casa, não tinha
plantão na maternidade. (Doraci, 1976)
Com o passar do tempo, os médicos se apropriaram do saber-fazer da parteira e
ampliaram seu espaço. Houve, portanto, a transição quanto aos profissionais que
realizavam a admissão, passando das parteiras para o médico. Alguns
procedimentos para internar a parturiente permaneceram, como, por exemplo, a
tricotomia da região pubiana e perineal e a lavagem intestinal. Cabe ressaltar
que esses procedimentos, quando foram implementados na MCD, estavam apoiados em
recomendações dos tratados de obstetrícia(13). Mas também não podemos deixar de
observar que a manutenção dessas rotinas contraria a evolução dos conhecimentos
na área, negligenciando as evidências científicas.
Podemos observar correlação de forças entre políticas de saúde baseadas em
evidências científicas e outras condutas inapropriadas na assistência ao parto
(13).
Durante o período de estudo nota-se que apenas a forma de realizar tais
procedimentos sofreu modificações com a inserção de enfermeiras e enfermeiras
obstétricas na sala de parto. Com o seu saber formal, elas questionaram as
práticas de cuidado instituídas na admissão e provocaram mudanças para melhorar
a qualidade da assistência, como se vê no depoimento das enfermeiras obstetras:
Em relação às técnicas de enfermagem, a que nos deixou realmente
chocadas foi a do enema. Na época, era feito com aquele caneco de
dois litros de água morna, mais a adição de sabão de coco líquido,
preso ao suporte de soro. O problema maior residia no uso da sonda
retal: era apenas uma sonda, usada para todas as pacientes admitidas
naquele dia. Para receber o material necessário para modificá-las, as
enfermeiras da maternidade se dispuseram a dar uma aula sobre o
assunto para o chefe do almoxarifado, que finalmente liberou o
pedido. (Ana Maria, 1973)
A tricotomia, eu lembro quando eu cheguei lá, eram giletes, aqueles
aparelhos antigos de barba, [...] deixavam de molho no germikil e
usavam um aparelho para todas as parturientes, até acabar o fio da
gilete (risos). Eu comecei a organizar o serviço, esterilizar o
aparelho em autoclave separadamente, pedir mais aparelhos de gilete e
usar lâmina nova. (Odaléa,1985)
Os problemas relacionados ao controle de infecção eram os que mais chamavam a
atenção das enfermeiras e enfermeiras obstetras. Elas precisavam evitar os
efeitos nocivos das práticas instituídas. Para evitar infecções, as enfermeiras
propunham modificações, mas não era fácil. Elas precisavam mostrar um saber que
justificasse tais mudanças. Para isso, utilizaram uma das estratégias do poder-
saber - a disciplina(8)- para organizar as práticas de cuidado desenvolvidas na
MCD. Outro aspecto a ser discutido e que se percebe na falas dos sujeitos do
estudo é a incessante busca para implementar novos cuidados/tecnologias,
voltados para a humanização.
A gente queria imprimir esses princípios da humanização, das práticas
recomendadas pela OMS. Já durante minha gestão como diretora, em
2001, comecei a trabalhar isso, para o Prêmio Galba de Araújo [...].
Mas ali esbarrava com esse poder médico. Em relação à tricotomia, por
exemplo, não havia necessidade, de acordo com as evidências
científicas, de realizar em todas as gestantes. Fiz um decreto
(risos). Mas eles reagiram, fizeram abaixo-assinado, trouxeram uma
justificativa absurda. Daí a gente batia de frente também com os
obstetras nessas políticas. (Evanguelia, 1976)
Instituído pelo Ministério da Saúde brasileiro em 1999, o Prêmio Galba de
Araújo tem como objetivo reconhecer instituições públicas e privadas
integrantes da rede do Sistema Único de Saúde (SUS), que se destacavam pelas
inovações voltadas à humanização do atendimento obstétrico e neonatal e
incentivo ao parto normal(14).
Com o crescente número de mulheres que procuravam a MCD, a enfermagem dependia
de rotinas que gerassem eficiência na organização dos serviços. Porém, não
conseguia instituir práticas de cuidado personalizadas ou as preconizadas pela
Organização Mundial da Saúde(31) que recomendava as tecnologias para atenção ao
parto e nascimento, classificando as práticas com base em evidências
científicas em quatro grupos: Grupo A, práticas benéficas a serem incentivadas;
Grupo B, práticas danosas ou ineficazes a serem abandonadas; Grupo C, práticas
com evidências insuficientes, que demandam mais pesquisas; e Grupo D, práticas
que têm sido utilizadas de maneira inadequada. Algumas vezes as enfermeiras se
defrontavam com resistências que obstavam a implementação de estratégias para a
humanização das práticas de cuidado à mulher na MCD, como, por exemplo, a
retirada de determinadas rotinas do grupo B, na admissão da mulher.
Questiona-se: por que é "simples" a exclusão dessas rotinas para as enfermeiras
e tão difícil para os médicos? Uma possibilidade é que implicaria perda de
poder e controle do processo de parturição, modificando as referências do papel
do médico na maternidade(15). Ao longo do período histórico estudado, as
rotinas na admissão da mulher defendidas pelos obstetras da MCD permaneceram
inalteradas, identificando um poder-saber dominado pela hegemonia médica,
embora as enfermeiras tenham conseguido modificar algumas dessas práticas.
C. As práticas de cuidado à mulher no parto
Na sala de parto, assim como na admissão, os poderes se confrontavam: o poder
pelo fazer da parteira, o poder pelo saber da enfermeira e o poder médico
hegemônico. Assim, as práticas de cuidado à mulher aconteciam conforme o
movimento de forças que prevaleciam naquele espaço. O atendimento às mulheres
na sala de parto antes da inserção do residente era realizado em sua maioria
pelas parteiras, em escala de serviço nas 24 horas, enquanto os médicos, por
seu reduzido número, só eram chamados quando as parteiras julgavam necessário.
Mas a maioria dos partos era feita pelas parteiras. Tanto o
particular como o de caso social, considerado indigente. (Nilsa,1968)
As parteiras faziam todo o preparo, e elas usavam ocitocina para
indução do parto. O médico prescrevia depois. Olha, às vezes eram
partos difíceis, então elas paravam e iam depressa chamar o médico.
[...], mas tinha bastante dificuldade, porque havia poucos médicos e
eles não faziam plantão; às vezes até pra uma cesárea era procurado
um, procurado outro, e não se encontrava ninguém.[...] anestesista
pra fazer a cesariana tinha. Ele morava ali perto, aí ele vinha.
(Doraci, 1976)
Os médicos definiam o fazer das parteiras. Esse saber-fazer das parteiras aos
poucos foi incorporado pelos médicos e pelas enfermeiras obstétricas, cujo
poder-saber levou-as a ocupar os espaços na sala de parto. Assim, as práticas
de cuidado realizadas pelas parteiras de maneira informal foram incorporadas
por outros profissionais da instituição, adquirindo um caráter dito
"científico". No entanto, esse discurso veiculado como "científico" nem sempre
acompanhava o desenvolvimento da prática obstétrica baseada em princípios
humanísticos, apoiada política e tecnicamente pela OMS e pelo MS(16). A mulher
deveria aceitar a ordem disciplinar das práticas de cuidado estabelecidas pela
instituição, como no momento da internação, que ela deixava fora da sala de
parto os seus pertences, seus familiares, sua cultura e sua identidade.
Na sala de parto não era permitido acompanhante, pelo menos na minha
época, e ninguém nos solicitava para ficar junto e assistir o parto.
(Nilsa, 1968)
As mulheres sofreram por muito tempo com a ausência de integração da família
aos cuidados. Essa realidade na sala de parto da MCD só foi modificada com a
Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005, que garantia o direito à presença de um
acompanhante de escolha da mulher durante o trabalho de parto, parto e pós-
parto imediato(17).
No início dos anos 1970, a enfermeira chefe da unidade de internação também era
responsável pela chefia da sala de parto. Com a contratação de mais enfermeiras
na década de 1980 para a MCD, a enfermeira pôde ficar responsável por apenas um
setor. Convém salientar que a primeira enfermeira obstétrica a atuar na sala de
parto da MCD foi Ana Maria Westphal Batista da Silva, em 1973, e após doze
anos, em 1995 assume a segunda enfermeira obstétrica, Odaléa Maria Brüggemann.
Outras enfermeiras generalistas assumiram a chefia da sala de parto durante
esse período, como, por exemplo, Evanguelia Atherino Kotzias dos Santos, Sônia
Maria de Castilhos e Ercília Rosa Machado. Mesmo com muitas responsabilidades,
a enfermeira não ficava restrita à administração dos setores. Realizava
cuidados voltados para a humanização da assistência à mulher e à equipe de
saúde, como podemos observar nestes depoimentos:
Não fazia partos, não era enfermeira obstétrica, mas dentro do
possível cobrava se não estavam fazendo toque demais. Além de
supervisionar o cumprimento das rotinas de medicação, limpeza etc.,
ficava ao lado das pacientes, conversando, tranquilizando,
monitorando batimentos cardíacos e apoiando na hora do parto. Quando
o neném precisava ser levado para o berçário de alto risco, eu subia
para trazer notícias. (Sônia, 1979)
Em relação as parturientes, iniciamos campanha pela preservação da
privacidade. Trouxemos biombos, reintroduzimos a duras penas o ato de
cobri-las durante o exame ginecológico. (Ana Maria,1973)
Na sala de parto a enfermeira realizava práticas de cuidado além da técnica e
das suas atividades administrativas, indo ao encontro do que posteriormente foi
preconizado pelo MS e pela OMS(18) para a atenção obstétrica e neonatal,
realizando assistência humanizada à mulher no acompanhamento do parto. No
entanto, o cotidiano da enfermeira na sala de parto acontecia com muita
dificuldade, em razão de problemas na estrutura física da maternidade e falta
de material e pessoal, como atestam os depoimentos a seguir:
Era um trabalho desgastante e que não tinha condições adequadas. Nós
tínhamos uma média de setecentos partos por mês. Então de manhã na
sala de parto, tinha duas parturientes em cada leito. Pacote de parto
tinha que dividir para três partos. (Odaléa, 1985)
Trabalhar na sala de parto exigia da enfermeira conhecimento de administração
do tempo, do material e dos profissionais de enfermagem para atender todas as
mulheres que procuravam os serviços da MCD, proporcionando a melhor assistência
possível nesse contexto. Observa-se a concentração de trabalho na sala de
parto, a produção de trabalho em grande escala, utilizando-se ao máximo dos
espaços e dos corpos, "tornando-os dóceis" e resultando em uma racionalidade
econômica ou técnica, reproduzindo a ordem social capitalista(19:119). Além de
se preocupar em cuidar da mulher em trabalho de parto, a enfermeira
proporcionava treinamento para os profissionais de enfermagem, atentando para
os riscos de contaminação em defesa da saúde do trabalhador.
Havia apenas uma pia no pré-parto. Ali era lavado o material, as
luvas, era despejada a solução onde eram colocados os espéculos.
Estava se iniciando o uso de esterilizantes químicos e também
detectamos problemas com relação ao seu uso. Assim, dividimos os
funcionários em pequenos grupos e fizemos treinamentos curtos e
repetidos abordando esses aspectos. Os resultados foram positivos.
Era necessário colocar avental e pró-pé para entrar na sala de pré-
parto; trocar a roupa de cama mais vezes; controle da limpeza,
esterilização e armazenamento de material da sala de parto; cuidado
especial com as comadres, usadas por diversas parturientes. (Ana
Maria, 1973)
Ao priorizar o trabalho de administração, a enfermeira fortalecia o seu papel
de trabalhadora intelectual da enfermagem. Na sala de parto havia a preocupação
com o ambiente, e ela utilizava seu saber-poder para identificar os problemas e
realizar as mudanças necessárias e possíveis, procurando proporcionar um espaço
seguro para a mulher e para a equipe de enfermagem.
A palavra controle traz consigo a relação de saber-poder(19). As enfermeiras
promoviam relação harmoniosa, técnica e ética para proteger a saúde da mulher e
da equipe de enfermagem. A infecção hospitalar constitui um problema de saúde
pública, mostra-se como um desafio constante para as enfermeiras e uma ameaça
para a mulher hospitalizada. Nesse contexto, o saber sobre a infecção
hospitalar e as ações para preveni-la conferem à enfermeira poder para melhorar
as práticas de cuidado, tanto para a mulher quanto para os profissionais de
enfermagem.
D. As práticas de cuidado à mulher no puerpério
Na MCD, até 1996, após o parto a mulher era levada para a unidade de
internação, onde continuava separada de sua família e de seu filho recém-
nascido; o contato só era permitido em horários predeterminados. As práticas de
cuidado eram realizadas por atendentes de enfermagem treinadas pelas irmãs da
Congregação da Divina Providência, principalmente pela Irmã Cacilda. Essas
unidades eram enfermarias com 11 leitos cada uma, totalizando 44 leitos.
Eu treinei tudo que era preciso: os cuidados de enfermagem e sinais
vitais. Elas chegavam sem saber nada. A gente morava lá, não tinha
horário pra nada. (Irmã Cacilda, 1956)
As atendentes seguiam uma disciplina estabelecida pelas Irmãs da Divina
Providência. O treinamento a que eram submetidas visava não somente a aumentar
as habilidades, mas torná-las úteis para a instituição, formando "uma política
das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de
seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos"(8:35). Ao serem
inseridas na maternidade, as enfermeiras assumem a função de administrar e
supervisionar o trabalho daquelas atendentes.
Eram registradas no prontuário pelas atendentes: as ocorrências mais
graves, sinais vitais e medicação que era administrada. Os
prontuários individuais ficavam no posto de enfermagem. A enfermeira,
quando passava visita com o médico, levava os prontuários. (Irmã
Cacilda, 1956)
Observa-se que as ações da enfermagem e da enfermeira eram regidas pelo poder
disciplinar, com registro contínuo detalhando os acontecimentos para fornecer
elementos ao poder-saber médico. As enfermeiras também tomavam para si a
responsabilidade de determinadas práticas próprias do profissional médico:
Algumas vezes as puérperas pediam remédio pra dormir, daí tinha que
ligar pro médico que tava de plantão. [...] falava por telefone, ele
dizia qual remédio dar, daí no outro dia tinha que lembrar pra ele
prescrever. (Nilsa, 1968)
Avaliando essa conduta, percebe-se que a enfermeira se submetia ao poder-saber
dos médicos em relação de docilidade-utilidade. Essa "mecânica do poder"(19)
define a ação da enfermeira e a orienta sobre como agir. Havia também uma
submissão dos profissionais de enfermagem ao saber-poder das enfermeiras que
organizavam as práticas de cuidado.
A atendente que cuidava da enfermaria tinha obrigação, de 15 em 15
minutos, de verificar o forro e ver a pressão. A higiene perineal era
feita com uma pinça, com gaze, colocava a comadre e derramava água e
limpava. E depois elas iam pro chuveiro no segundo dia. Banho de
leito só no primeiro dia da cesariana. (Nilsa, 1968)
O curativo da episiorrafia era feito com mercúrio. (Doraci, 1976)
Uma mudança significativa foi nos cuidados com anestesia raque. Eram
24 horas deitada sem travesseiro [...] a evolução de 24 para 12horas
e agora para 8 horas [...]. Na incisão da cesárea tinha um curativo
fechado, só podia abrir depois com 72 horas. Então, em determinado
momento também se abriu o curativo após 24 horas, ela tomava o banho
normal e só se fazia o curativo novo. Depois de um tempo não se fazia
mais o curativo. [...] agora após 24 horas retira e não se coloca
nada, fica a incisão exposta. Tudo são evoluções. [...] então, com o
Hospital Amigo da Criança a permanência passou para 48 horas, tanto o
parto quanto a cesárea. (Odete, 1987)
Havia normas estabelecidas para realizar os cuidados à mulher no puerpério,
além de vigilância constante, e esses são alguns dos mecanismos disciplinares
que ocorriam no contexto da MCD. Essa disciplina podia ter como objetivo evitar
infecção hospitalar e organizar os serviços para melhor aproveitar a força de
trabalho da enfermagem. Tal realidade reflete a ordem estabelecida na
instituição. A incorporação de novos saberes na área da saúde confere poder aos
profissionais para modificar a assistência à mulher puérpera.
Os depoimentos revelam modificações de algumas práticas de cuidado realizadas
no período estudado. Rotinas estabelecidas como verdades foram questionadas,
mas só foram modificadas por meio de um poder-saber: algumas respaldadas por
políticas públicas, outras pelas evidências científicas que visavam à qualidade
das práticas de cuidado oferecidas às mulheres. demonstrando um pensamento
crítico reflexivo, a enfermeira percebe a mulher como sujeito do cuidado.
Modificar a forma de cuidar foi difícil na MCD, as mudanças foram lentas.
Normas e rotinas conhecidas se traduzem em poder, e a mudança tira o
profissional da sua área de conforto, desprovendo-o do saber e interferindo no
seu poder. Mas nem sempre o saber da enfermeira possibilitou romper com
verdades estabelecidas pelo poder médico, como indicam estes depoimentos:
Uma rotina desnecessária, mas que continua até hoje, é uso da sonda
vesical na cesariana. A paciente fica com a sonda que é retirada após
8 horas, no momento em que vai para o banho. Só que para a cesárea
seria desnecessário o uso da sonda. A enfermagem acha cômodo, mais
fácil esvaziar uma bolsa do que estar colocando a comadre várias
vezes. Se formos fazer uma enquete com a enfermagem para saber o que
ela acha, com certeza dirá que é ótimo, mas nós temos que analisar se
é benéfico ou não para a paciente. (Odete, 1987)
Nesse período histórico, observa-se que as ordens estabelecidas para as
práticas de cuidado construíram discursos de verdade. As enfermeiras algumas
vezes demonstraram resistência e lutaram contra essa ordem, fundamentando-se no
saber científico e humanizado, amparadas principalmente pelas recomendações do
MS e da OMS; outras vezes se submeteram ao poder médico como fundamento de
verdade, sem questionar.
A noção do poder-saber é apontada como relação de força e movimento. O
referencial foucaultiano mostra outro modo de perceber o poder sob a óptica da
positividade. Não resulta de uma conquista, mas de uma luta contínua e difusa;
não apresenta uma configuração fixa, permitindo inversões nas suas relações(8).
Para as enfermeiras, essas lutas resultaram em modificações nas práticas de
cuidado focando a atenção à mulher como sujeito de cuidado, em todo o processo
da admissão, parto e puerpério vividos na MCD.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo possibilitou conhecer o cotidiano das práticas exercidas pelas
enfermeiras no cuidado dispensado à mulher na MCD no período de 1956 a 2001.
Também iluminou os bastidores, revelando como se constituíram essas práticas e
as relações de saber-poder. A história das enfermeiras foi construída a partir
da Irmã Cacilda e pode ser interpretada como movimento de luta e resistência ao
poder-saber institucionalizado.
Essas lutas foram evidenciadas ao longo do período estudado; as enfermeiras
questionaram verdades estabelecidas que foram modificadas por meio do poder-
saber respaldado tanto pelas políticas públicas quanto pelas evidências
científicas que visavam à qualidade das práticas de cuidados às mulheres.
Paralelamente houve o fortalecimento da identidade das enfermeiras e sua
contribuição para construir a profissão, demonstrando a sua participação ativa
no processo sócio-histórico, político e cultural na MCD.
Nesse contexto da prática de cuidado as relações de saber-poder ocorreram nos
microssistemas, mostrando como o poder é flexível e maleável, dependendo de
suas forças. As enfermeiras tanto exerceram o poder como também sofreram sua
ação(20).
As relações de saber-poder exercidas entre enfermeiras e médicos ou entre
enfermeiras e profissionais de enfermagem no espaço da MCD possibilitaram
rupturas e transformações na prática do cuidado à mulher. Julga-se importante
que a profissão conheça e revele os diferentes modos de ser e fazer do passado,
tanto quanto as continuidades e descontinuidades, suas resistências e lutas e
as redes do saber-poder que permeavam esse contexto. Essas práticas de cuidado
desenvolvidas pelas enfermeiras expressavam uma nova ordem e disciplina do
cuidado e do desenvolvimento da Enfermagem como uma profissão de cuidado à
saúde nos diferentes espaços e tempos históricos.