Acolhimento e vínculo na humanização do cuidado de enfermagem às pessoas com
diabetes mellitus
INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus (DM) apresenta-se como um tema relevante por estar entre os
maiores problemas de saúde pública, afetando em torno de 246 milhões de pessoas
em todo o mundo. Até 2025, a previsão é de que esse número chegue a 380 milhões
(1). A sociedade brasileira faz parte dessa alarmante realidade. Em 2006,
contávamos com cerca de seis milhões de portadores, e as estimativas indicavam
o alcance de dez milhões de pessoas em 2010(2).
Para fazer frente a esta situação, as políticas em saúde no Brasil vêm dando
cada vez maior atenção às pessoas com DM, especialmente a legislação mais
atual. Como exemplo, podemos citar o provimento gratuito de medicamentos e
equipamentos para aplicação de insulina e automonitoramento da glicemia capilar
de portadores de DM inscritos em programas de educação para pessoas com DM e o
SISHIPERDIA ' programa informatizado de âmbito nacional para o cadastro e
acompanhamento das pessoas com DM(3-4).
Aliado a estes programas específicos, o sistema de saúde brasileiro propõe de
maneira global, a assistência integral e humanizada, voltada não somente para o
controle das doenças, mas também para a promoção da saúde e da cidadania das
pessoas. Contudo, pouco sabemos a respeito de quanto ou de como esses avanços
na legislação e nas políticas públicas vêm se efetivando na prática de modo a
desenvolver a atenção em saúde de qualidade, que considere a pessoa em sua
integralidade e em contextos específicos.
A realidade mostra-nos números desfavoráveis. São quatro milhões de mortes por
ano relativas ao DM e suas complicações. Ocorre grande impacto econômico nos
serviços de saúde como consequência dos custos para tratamento da doença e suas
complicações, como doença cardiovascular, diálise por insuficiência renal
crônica e cirurgias para amputação de membros inferiores. No Brasil, o DM
associado à hipertensão arterial sistêmica representa 62,1 % dos diagnósticos
primários em pessoas com insuficiência renal crônica submetidas a diálise(1).
Ocorre também considerável impacto social com a redução da expectativa e da
qualidade de vida dessas pessoas.
Estudos realizados em diferentes locais evidenciam o baixo controle glicêmico.
Numa amostra com quase 600 pessoas com DM, a maioria encontrava-se fora dos
alvos desejados de controle glicêmico e apenas 22% atingiram níveis de HbA1c
abaixo de 7,0%, gerando elevada prevalência de complicações crônicas vasculares
(5). A adesão do paciente com DM ao tratamento medicamentoso encontra-se abaixo
do recomendado pela literatura, evidenciando mau controle glicêmico(6). Apesar
de possuirmos recomendações, protocolos e diretrizes bem estabelecidas quanto
ao manejo do DM, ainda há muito a avançar no atendimento à saúde de pessoas com
esta condição crônica.
Algumas reflexões sobre estas circunstâncias e sobre como a enfermagem vem
contribuindo para modificar essa situação na prática cotidiana dos serviços de
saúde suscitaram-nos o interesse em realizar um estudo que mostrasse um retrato
dessa realidade em um serviço especializado de atenção às pessoas com DM. O
estudo avaliativo qualitativo foi a opção, focalizando dois conceitos que
consideramos relevantes na atenção à saúde, como parte de um olhar para além do
controle clínico da doença: acolhimento e vínculo. Esses dois conceitos
integram a Política Nacional de Humanização.
Embora autores digam que a avaliação consiste fundamentalmente em fazer um
julgamento de valor a respeito de uma intervenção ou sobre qualquer um de seus
componentes, manifestar-se em relação a alguma coisa com o objetivo de ajudar
na tomada de decisões(7), a pesquisa avaliativa nos programas e serviços de
saúde objetiva também a progressão do conhecimento conceitual em relação ao
desenvolvimento do contexto de saúde em análise(8).
No campo da saúde, a humanização diz respeito à atitude de usuários, gestores e
trabalhadores de saúde comprometidos e corresponsáveis, acarretando um processo
criativo e sensível de produção da saúde e de subjetividades. Refere-se ainda à
organização social e institucional das práticas de atenção e gestão na rede do
SUS.
O compromisso ético, estético e político da humanização assenta-se nos valores
de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de corresponsabilidade entre eles, de
solidariedade nos vínculos estabelecidos, dos direitos dos usuários e da
participação coletiva no processo de gestão(9). Parece-nos que essa é a base
sobre a qual toda atenção realizada pela enfermagem deve estar assentada.
A humanização dos serviços de saúde implica transformar o próprio modo como se
concebe o usuário do serviço, de objeto passivo a sujeito; de necessitado de
atos de caridade àquele que exerce o direito de ser usuário de um serviço que
garanta ações técnica, política e eticamente seguras, prestadas por
trabalhadores responsáveis. O enfoque à saúde apresenta-se numa dimensão
ampliada, relacionada às condições de vida inseridas em um contexto
sociopolítico e econômico(10).
O acolhimento é um processo constitutivo das práticas de produção e promoção de
saúde que implica responsabilização do profissional pelo usuário, ouvindo sua
queixa, considerando suas preocupações e angústias, fazendo uso de uma escuta
qualificada que possibilite analisar a demanda e, colocando os limites
necessários, garantir atenção integral, resolutiva e responsável por meio da
articulação das redes internas dos serviços e redes externas com outros
serviços de saúde para a continuidade da assistência, quando necessário(9).
A aproximação entre usuário e profissional de saúde promove um encontro, "ficar
em frente um do outro", um e outro sendo sujeitos dotados de intenções,
interpretações, necessidades, razões e sentimentos, mas em situação de
desequilíbrio, de expectativas diferentes, em que um, o usuário, busca
assistência em estado físico e emocional fragilizado, junto ao outro, um
profissional que deve estar capacitado para atender e cuidar da causa de sua
fragilidade. Desse modo, cria-se um vínculo, isto é, processo que ata ou liga,
gerando uma ligação afetiva e ética entre ambos, numa convivência de ajuda e
respeito mútuos(9).
Tanto o acolhimento quanto o vínculo são processos que se retroalimentam nas
práticas de atenção à saúde, fomentando o cuidado humanizado. O acolhimento
caracteriza-se especialmente pela escuta sensível, que considera as
preocupações do usuário dos serviços de saúde em qualquer situação ' tanto na
chegada ao serviço de saúde quanto ao longo do seu acompanhamento pelos
profissionais. O vínculo, por sua vez, expressa-se na atenção humanizada, com
compartilhamento de saberes, na convivência, na ajuda e no respeito recíprocos
entre profissional e usuário.
Dessa forma, este estudo teve como objetivo avaliar o vínculo e o acolhimento
na prática da humanização dos cuidados de enfermagem a pessoas com diabetes
mellitus, sob a perspectiva dos usuários de um serviço de atenção especializada
em nível ambulatorial vinculado a um hospital geral de ensino público do Sul do
Brasil, tendo como referência a Política Nacional de Humanização do Ministério
da Saúde/Brasil.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa avaliativa qualitativa, desenvolvida no ambulatório de
um hospital geral público de médio porte localizado no Sul do Brasil. A escolha
do local relaciona-se ao fato deste atender uma elevada demanda de pessoas com
DM, que provêm de diversos municípios do Estado. A instituição hospitalar tem
como proposta a filosofia do atendimento humanizado e possui formalizada a
Comissão de Humanização e um Grupo de Trabalho Humanizado (GTH) que trabalha
sob um regimento interno em prol de ações humanizadoras voltadas para o usuário
do sistema de saúde e aos profissionais. O serviço tem amplo reconhecimento na
área acadêmica pela qualidade da atenção que desenvolve, integrado por
profissionais com vasta experiência e formação na área. Esses aspectos foram
decisivos na escolha, uma vez que permitiriam mostrar uma realidade que, a
princípio, atenderia o que está proposto na política de saúde.
A área ambulatorial de atenção a pessoas com DM foi constituída há 30 anos,
logo no início da fundação da instituição. Atualmente, conta com uma equipe
multiprofissional integrada por enfermeiros, médicos, nutricionistas,
psicólogos e terapeutas ocupacionais. Mantém alto fluxo diário de assistência a
usuários, que dispõem de consultas especializadas, serviços de educação em
saúde, exames e acompanhamento em saúde. A equipe de enfermagem é composta por
duas enfermeiras e uma técnica de enfermagem que prestam cuidados diversos aos
usuários do ambulatório, participam da equipe de saúde multidisciplinar e
coordenam a dinâmica de funcionamento do ambulatório.
O ambulatório abrange a atenção em saúde no nível de média complexidade,
denominado na prática como "atenção especializada". No entanto, esta condição é
recente, pois a instituição hospitalar passa atualmente por um momento de
transição referente ao modelo de gestão. O hospital, que era integrado à rede
estadual de atenção pública à saúde, a partir de 2009 passou a integrar a rede
municipal, de acordo com o pacto de gestão firmado entre a instituição e a
prefeitura local.
A enfermagem vem gradualmente se inserindo nessa nova condição, uma vez que
atuava de forma semelhante à atenção básica, com atendimento sistemático e de
longo prazo às pessoas com DM. Agora, como serviço de atenção especializada,
caracteriza-se como uma "unidade ambulatorial de referência, composta por uma
equipe multidisciplinar que acompanha os pacientes com DM tipo 1 e 2, prestando
atendimento integral a eles e a seus familiares"(11). A escassez de trabalhos
em torno do cuidado de enfermagem à saúde na atenção ambulatorial especializada
justificou a escolha desse campo para o estudo.
Participaram do estudo 20 homens e mulheres maiores de 18 anos, com DM tipo 1
ou tipo 2, diagnosticado há pelo menos um ano, usuários do ambulatório, tendo
realizado pelo menos uma consulta de enfermagem.
A coleta de dados ocorreu com a realização de entrevistas semiestruturadas no
período de março a maio de 2010, orientadas por um roteiro que buscou levantar
diferentes perspectivas acerca da atenção recebida das enfermeiras no
ambulatório. Assim, tentamos apreender como as pessoas com DM vêm sendo
atendidas na atenção especializada ambulatorial em relação à humanização do
cuidado de enfermagem. O roteiro foi composto por duas partes: I. Dados de
Identificação do Usuário e II. Perspectivas sobre a Humanização do Cuidado às
Pessoas com DM, focando o Acolhimento e o Vínculo.
As pessoas com DM que se enquadravam nos critérios de inclusão foram convidadas
a participar do estudo após realizarem as consultas ou procedimentos no
ambulatório. Diante da aceitação e da disponibilidade de tempo do usuário, a
entrevista era realizada em algum consultório do ambulatório, propiciando um
ambiente de privacidade, confortável, com boa luminosidade e sem ruídos ou
interrupções. Nos casos em que o usuário demonstrou interesse em participar da
pesquisa, porém não dispunha de tempo para responder à entrevista, foram
agendados data, horário e local de preferência do usuário para o novo encontro.
Geralmente o local escolhido era o próprio domicílio do usuário. Nesses casos,
foi efetuado contato telefônico na véspera da entrevista para confirmar a
disponibilidade do usuário e seu endereço residencial.
Os registros dessas informações foram efetuados através de gravação em aparelho
eletrônico com a devida autorização dos usuários entrevistados e posterior
transcrição das entrevistas.
A análise de dados ocorreu paralelamente à coleta dos dados. A análise e a
interpretação dos dados obtidos nas entrevistas foram orientadas pela proposta
de autoras(12) que tiveram como referência Morse & Field, e que consta de
quatro processos genéricos: apreensão, síntese, teorização e
recontextualização.
O processo de apreensão envolveu a organização dos dados por meio de
identificação, codificação e criação de categorias. A codificação deu-se após
leitura e destaque na transcrição das entrevistas, das palavras, frases ou
temas relacionados à temática em estudo. As categorias foram compostas pelo
conjunto de códigos semelhantes ou expressões com características similares que
tinham relação de complementaridade entre os dados.
Durante a fase de síntese, houve a releitura atenta das categorias que
sintetizam o conteúdo das falas dos entrevistados, demandando um profundo
trabalho intelectual. Na teorização buscou-se desenvolver um esquema teórico, o
que implicou um trabalho de especulação, verificação, seleção e descarte. A
interpretação foi feita à luz da fundamentação teórica utilizada e com a
revisão de literatura. Na recontextualização, buscou-se dar significado aos
achados, contextualizando a temática da pesquisa.
A inclusão dos sujeitos no estudo obedeceu a Resolução nº 196/96 CNS/MS. O
projeto foi aprovado em dezembro de 2009 pelo Comitê de Ética da instituição
hospitalar e pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da
Universidade Federal de Santa Catarina, sob o protocolo número 535. As vinte
pessoas com DM incluídas no estudo foram identificadas como U1 até U20,
mantendo o sigilo sobre suas identidades, sendo que a vogal U relaciona-se à
condição de "usuários" do serviço público de saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃo
Dentre as 20 pessoas com DM entrevistadas, 17 eram do sexo feminino e três do
sexo masculino, havendo, portanto, o predomínio de mulheres. A média de idade
foi 62,5 anos e a renda familiar entre dois e quatro salários mínimos,
refletindo a condição predominante de aposentados ou pensionistas. Em relação
ao estado civil, a maioria se apresentou como casada ou viúva. Na maioria dos
casos, o grau de instrução não ultrapassou o ensino fundamental. O tempo de
diagnóstico do DM variou de três a 35 anos. Dentre os diagnósticos associados,
os mais comuns foram os eventos cardiovasculares e os problemas
osteoarticulares ' condições comuns se considerarmos a média de idade das
pessoas entrevistadas.
A análise e interpretação dos dados permitiram a construção de quatro
categorias que sustentam a concepção das pessoas com DM acerca da humanização
dos cuidados de enfermagem desenvolvidos no atendimento especializado
ambulatorial. Ao explorar como o acolhimento e o vínculo expressam-se na
prática assistencial das enfermeiras, emergiu a valorização dos atos de escuta
e diálogo, o relacionamento afetivo, a resolutividade e a facilidade de acesso
aos serviços de enfermagem, gerando as seguintes categorias: A arte do
encontro; Ultrapassando a relação profissional formal; O compromisso genuíno; e
Um breve olhar sobre o acesso.
A. A arte do encontro
No processo de atenção à saúde, o profissional e o usuário ' dois sujeitos
dotados de intenções e saberes ' ficam submetidos à comunicação e inter-
relacionamento. Trata-se de um encontro refletido em arte por envolver
criatividade diante da imprevisibilidade da demanda que o profissional atende.
Cada encontro abre espaço para o usuário expor suas necessidades, expectativas
ou situações. Se cada sujeito é único, também suas necessidades e expectativas
serão singulares, o que exige que os profissionais de saúde considerem a
diversidade cultural e socioeconômica e a subjetividade de cada um.
A escuta e o diálogo fazem parte da assistência em saúde nos encontros entre as
enfermeiras e as pessoas com DM que integraram o estudo. A escuta permite que
os encontros evoluam para além dos aspectos clínicos da condição crônica de
saúde, envolvendo a subjetividade, expressa em palavras e sentimentos. Os
usuários percebem que são ouvidos com atenção e que as suas preocupações são
consideradas pelas enfermeiras, havendo abertura para a conversa, quando
desfrutam de espaço para colocar suas dúvidas e angústias, como mostram os
relatos a seguir:
Não sei se estou certa ou se estou errada, mas é até um certo
desabafo (a consulta de enfermagem). Ela escuta com atenção,
conversa, orienta. A enfermeira é muito boa. (U10)
[...] problemas pessoais eu sempre converso com ela, ela sempre tem
aquele carinho, ela escuta. Por isso, eu digo, ela é mais que uma
enfermeira. Ela escuta, é aquela pessoa que escuta. Então isso dá
abertura para gente, e é importante para tu te sentires segura. (U14)
Com o estabelecimento de diálogo entre trabalhador da saúde e usuários, as
soluções para os problemas de saúde são encontradas na parceria, no
compartilhamento de ideias, pois, muitas vezes, o desabafo pode proporcionar
resoluções para as dificuldades presentes. A escuta sensível e o diálogo aberto
parecem colocar as enfermeiras num papel diferente, especial, não sendo vistas
somente como profissionais da saúde, mas como alguém mais próximo, como pessoas
a quem podem confiar segredos. A prática cotidiana da escuta e do diálogo
suscita, como consequência, o relacionamento afetivo entre profissional e
usuário, tema que se encontra explorado mais profundamente na próxima
categoria.
A abertura para discussão de situações pessoais e específicas de saúde envolve
o compartilhamento de ideias e saberes entre profissional e usuário. O processo
de cuidar, no sentido da relação entre dois seres humanos, tem duas vias: o de
um ser humano dotado de preparo técnico-científico e humanístico e disponível
para o cuidado efetivo e de outro ser que, necessitando de ajuda de um
profissional, busca assistência em estado físico e emocional fragilizado(13).
Desse modo, é promovido o encontro entre o usuário e o trabalhador de saúde, em
que se fomenta um espaço para o estabelecimento de relações, compartilhamentos
de experiências e criação de vínculo(9).
O tempo de duração das consultas de enfermagem, de 20 a 45 minutos, dependendo
do caso, também é ressaltado, revelando que, quando não há pressa por parte do
profissional de saúde, o usuário sente-se mais à vontade para colocar suas
dúvidas, angústias, alegrias e conquistas, tanto sobre o cuidado com a condição
crônica de saúde como sobre questões pessoais. Para o exercício de um bom
diálogo, faz-se necessário uma escuta atenta, buscando detalhes que podem estar
ocultos nas falas, além do acolhimento e o vínculo, que são atributos da
assistência integral(14).
Os usuários dos serviços de saúde têm um desejo profundo de ser compreendidos
em suas necessidades, tal compreensão é um passo fundamental do cuidar e requer
o compromisso do profissional. É essencial que haja a devida disponibilidade
para que isso ocorra, o que demanda certa condição corporal e mental. É
importante, notadamente a partir da perspectiva do profissional, a abertura
para a verdadeira efetivação do cuidado em sua plenitude, pois isso certamente
contribuirá para a humanização da assistência(13).
O encontro dos usuários com as enfermeiras é valorizado por sua especificidade,
pela percepção de que são únicos naquele momento, que não há somente uma
receita a ser seguida, mas que as enfermeiras têm uma comunicação e aproximação
que permitem à pessoa sentir-se diferenciada. A arte desse encontro expressa-se
através da sensibilidade das enfermeiras em ouvir com atenção, construir um
diálogo afetuoso e indicar caminhos que possam antecipar soluções de problemas
em relação à saúde.
B. Ultrapassando a relação profissional formal
Faz parte do acolhimento e estabelecimento de vínculo propiciar ao usuário a
liberdade de expressão durante a atenção em saúde. Observou-se que no
relacionamento entre as enfermeiras e as pessoas com DM há espaço para o
compartilhamento de experiências e esclarecimento de dúvidas, havendo interesse
constante na verificação da compreensão que o usuário teve sobre o que foi
orientado, sendo estes importantes aspectos pautados na estrutura da PNH(9).
Ao falarem das enfermeiras, os usuários identificam-nas sempre pelo nome, fato
que demonstra uma referência de profissional bem estabelecida e a existência de
um relacionamento simétrico, enquanto que a maioria dos outros profissionais
são identificados por suas especialidades profissionais ou função, como "o
cardiologista", "o vascular", "a psicóloga", "a atendente".
Os usuários destacaram a intimidade e a liberdade que sentem perante as
enfermeiras, evidenciando a fácil comunicação e demonstrando contentamento pela
atenção em saúde recebida:
É muito bom a gente ir lá porque ela explica tanta coisa, a gente sai
de lá bem orientado, ela é muito querida mesmo, a gente se sente à
vontade com ela. (U16)
Houve ênfase nos relatos dos usuários sobre o vínculo estabelecido com as
profissionais de enfermagem, evidenciando que a relação com as enfermeiras vai
além do aspecto profissional. Ocorre acolhida afetiva, mantendo-se um bom
relacionamento, que é descrito por muitos como "relação de amizade ou relação
familiar":
É com certeza mais que uma profissional, é uma amiga! (U14)
É uma afinidade tão grande, tão grande! Porque, eu não conhecia ela e
a gente pegou aquela confiança, dá a impressão que ela é nossa mãe!
(U6)
Tal relacionamento nos faz refletir sobre as facilidades e dificuldades na
manutenção do acompanhamento em saúde e relacionamento mais denso entre
profissional e usuário no cenário da atenção especializada, o qual, segundo o
regulamento do sistema de saúde brasileiro, refere-se a um nível de atenção
voltado a atender apenas "casos que demandam assistência de maior complexidade"
(15). Caberia, portanto, ao nível de atenção básica, o estabelecimento de
acolhimento e vínculo com os usuários para efetivar o acompanhamento em saúde.
No entanto, a PNH traz a atenção especializada em unidade ambulatorial como
sendo um serviço com a função de acompanhar a saúde dos usuários, prestando-
lhes atendimento integral(9).
Alguns fatores devem ser considerados para o estabelecimento da relação
horizontal profissional e usuário, fugindo à relação hierárquica biomédica: é
importante haver empatia e afinidade, fortalecidas com acolhimento, vínculo,
confiança, tempo disponível para oferecer tal atenção e retornos frequentes
para o acompanhamento em saúde.
Um fator significativo para o exercício da assistência acolhedora e o
estabelecimento do vínculo é a característica pessoal do profissional. No caso
das enfermeiras observadas, percebeu-se o perfil acolhedor, compromisso e
defesa dos interesses dos usuários. Estes, por sua vez, descrevem as
profissionais de acordo com o relacionamento que mantêm:
Sempre ela atende muito bem as pessoas. Para mim ela é muito educada,
prestativa. Ah, é cem porcento! É sempre contente, sempre calma,
sempre tranquila, sabe, fazendo o trabalho dela mesma. Problema todo
mundo tem, mas se ela tem, ela deixa de lado assim, esquece tudo ali
no trabalho dela e vive para gente, assim, com muito carinho. [...]
Ah, eu gostei dela e foi amor à primeira vista (risos). Desde a
primeira vez que eu consultei com ela, quando não tinha vaga para a
outra enfermeira, eu comecei a consultar com ela, aí gostei demais
dela, adorei o jeitinho dela, a fala dela, como ela trata a gente com
respeito. Então é isso, compreende quando a gente está mais
amargurada e quando está menos, né? Que às vezes é assim. (U20)
Esta situação mostra o quanto a humanização da assistência ainda não é uma
realidade global na atenção à saúde, ressaltando que as atitudes pontuais e
específicas dessas profissionais são ressaltadas mais como uma característica
pessoal do que profissional.
Ainda em relação às características das profissionais e suas abordagens, a
relação afetiva que permite o contato físico como forma de carinho foi um
elemento favorável. Ao aparecer em diversas falas, o abraço, como uma
importante ação na relação com o profissional, percebemos que a demonstração de
afeto ajuda a manter o relacionamento informal. O relacionamento físico
acontece naturalmente quando há empatia e afinidade entre dois sujeitos. Muitas
vezes é terapêutico por ser acolhedor e desencadear alívio e bem estar às
angústias do usuário.
Ela me cativa muito, me cativa bastante. E já teve momentos aí que no
corredor ela ia passando e veio e me abraçou, conversou comigo. E a
gente fica muito feliz com isso, né? (U13)
O gesto do abraço apresenta-se como forma expressiva de comunicação e afeto no
relacionamento humano. O fortalecimento de sentimentos de solidariedade,
respeito e compreensão, no contexto da humanização, é considerado fundamental
para o despertar da sensibilidade humana de uns para com os outros. O abraço
emerge do próprio ato de existir no mundo com os outros, já que não existimos
apenas, coexistimos e convivemos com as realidades mais adversas. O abraço
revela a capacidade de o ser humano de se emocionar, envolver-se e comprometer-
se afetivamente ' ações indispensáveis para a conquista de um novo espaço no
contexto interdisciplinar da saúde(16).
O bom relacionamento cria um elo entre profissional e usuário, estimula a
assiduidade nas consultas, tornando o acompanhamento em saúde mais efetivo.
Por outro lado, pode gerar dificuldades no estabelecimento de limites entre a
atenção do profissional e as relações sociais pessoais. Novamente destacamos
que o modelo de saúde hegemônico sempre enfatizou uma hierarquia entre
profissionais e usuários, em que o profissional é aquele que sabe, que
determina e que está preocupado com a resolução da alteração do corpo doente.
Assim, pode haver dificuldades para os usuários entenderem que uma relação
afetuosa também é profissional, não mudando o papel do enfermeiro, mas
promovendo uma relação mais harmoniosa e próxima que favorece o cuidado e a
adesão ao tratamento. O estabelecimento de acolhimento e vínculo permite que os
profissionais de saúde supram necessidades, intervenham, aconselhem e promovam
suporte psicológico aos usuários que buscam a assistência em saúde,
desenvolvendo ações voltadas para o alívio das ansiedades e necessidades(17).
Assim, o relacionamento horizontalizado percebido na assistência de enfermagem
às pessoas com DM expressa-se através de liberdade de expressão dos usuários,
compartilhamento de experiências, relação amigável e de confiança, empatia e
afinidade, perfil acolhedor do profissional, afeto, contato físico e retornos
frequentes, fomentando o acompanhamento em saúde.
C. O compromisso genuíno
Na atenção em saúde dispensada pelas enfermeiras aos usuários, o compromisso
com as pessoas com DM é percebido através do interesse e empenho na busca por
resolutividade diante das solicitações e situações apresentadas e cuidados
realizados baseados na abordagem integral aos sujeitos. A ajuda recebida é
observada como um fator importante de satisfação por gerar resolutividade na
assistência.
O papel da enfermeira vai além da conversa no consultório, como já mencionado,
envolvendo atos de ajuda e empenho para a resolução de problemas relativos ao
estado de saúde e a situações pessoais. As "ajudas" citadas pelos usuários
referem-se a diversas situações do dia-a-dia, quando os usuários buscam nas
enfermeiras orientações ou encaminhamentos, o atendimento de enfermagem sem
marcação prévia, a obtenção de insumos como seringas e insulina, se
disponíveis; a busca por conselhos sobre sua condição de saúde ao surgirem
dificuldades nos cuidados, tratamento e/ou controle do DM, o que, ao mesmo
tempo, evidencia a valorização dos saberes das profissionais, reconhecendo sua
capacidade de encontrar soluções para os problemas.
Na perspectiva dos usuários, o aconselhamento é um tipo de ajuda realizado pela
enfermeira que é bastante valorizado, principalmente quando gera conhecimento,
autonomia, estímulo e motivação. O aconselhamento é entendido no sentido de
indicar um caminho e facilitar o enfrentamento da condição de saúde ou
situações do dia-a-dia:
A enfermeira mais é os conselhos, aquele ânimo que ela dá para gente,
ela motiva muito, muito a gente, porque eu era uma pessoa que vivia
muito em casa, meu marido era doente... Ela me estimulou até a tomar
a insulina. (U6)
[...] pela dedicação dela, a enfermeira é uma excelente pessoa. Ela
foi me encaminhando, foi me ajudando, foi me fazendo umas perguntas e
a hora que eu precisava de algum exame ou alguma coisa, ela sempre
estava ali para me ajudar. E conversava comigo, aquilo ali foi uma
excelente coisa. (U15)
Considerar as preocupações dos usuários e dar respostas para seus problemas ou
queixas - tanto relacionados à situação de saúde como os de ordem pessoal '
promove a prática da atenção em saúde acolhedora, integral e que expressa
compromisso com os sujeitos. Além disso, frente às atitudes de empenho e
valorização dos sujeitos, as profissionais passam a ser uma importante
referência para o usuário quando este necessita de auxílio, fortalecendo o
vínculo profissional e usuário.
O conceito de profissional de referência é um instrumento importante para a
construção da clínica ampliada ' diretriz da PNH que propõe mudanças nos modos
de fazer a atenção em saúde(9), culminando na humanização da assistência. Todos
os profissionais devem refletir e conscientizar-se de que a atenção em saúde
deve ser totalizadora, humanizada, contextualizada, integral e principalmente
deve ser considerada uma prioridade na prática(18).
Observou-se que a resolução das demandas dos usuários é possível quando há
interesse genuíno das enfermeiras pela saúde e bem-estar dos usuários. Tal
interesse reflete a corresponsabilidade pela saúde, pelos cuidados e
tratamentos e ressalta o compromisso que as enfermeiras assumem de acordo com a
lei do exercício profissional em respeito às pessoas com DM. Os usuários
expressam o reconhecimento da dedicação das profissionais de enfermagem,
conforme indica a fala abaixo:
Ela tem interesse em cuidar dos pacientes dela. Ela participa, né? Eu
gosto dela, ela tem uma grande preocupação. (U10)
O compromisso de fornecer aos usuários as melhores condições para um controle
efetivo de sua condição e um viver mais saudável parece estar numa linha tênue
entre um cuidado integral e uma assistência paternalista, que pode gerar
dependência ao profissional, restringindo, de certa forma, a liberdade do
paciente. Neste sentido, refletimos sobre a polaridade representada pelo
paternalismo e a autonomia diante da relação médico-paciente, trazendo a
possibilidade de uma visão que integre ambos os aspectos, fundamentando-se na
dignidade do ser humano e no saber médico(19). A humanização da saúde, proposta
pelo Ministério da Saúde na PNH(9), incentiva um movimento pautado na ética, em
que todos devem ser tratados com igualdade, e estimula os profissionais da
saúde a terem a visão do usuário como um sujeito autônomo, protagonista e
corresponsável pela sua saúde.
Percebemos, assim, que o modelo de atenção do processo de trabalho das
enfermeiras nega a visão exclusivamente biomédica, na qual a doença e os
sintomas são objetos centrais de atenção, considerando predominantemente os
aspectos orgânicos. As práticas de cuidados ocorrem no sentido da ampliação da
clínica, pois implicam valorização da subjetividade, compromisso com o usuário
e seu contexto, reconhecimento dos limites dos saberes do usuário,
estabelecimento de relação de coprodução do cuidado durante o encontro
profissional e usuário e ainda objetiva produção de saúde procurando fomentar a
autonomia dos usuários, conforme a proposta da PNH(9).
Favorecer a integralidade implica fazer com que a atenção em saúde seja ampla e
desfragmentada, que os profissionais relacionem-se com os sujeitos como seres
humanos e não como objetos. Cumprir esse princípio garante a qualidade e a
resolutividade da atenção à saúde, dotando as diversas fases da atenção, de
acolhimento e cuidado(18).
Percebemos que as enfermeiras do ambulatório prezam pelo compromisso com a
atenção integral e humanizada em saúde às pessoas com DM, expresso nos
aconselhamentos, encaminhamentos, "ajudas" diversas e principalmente pelo
empenho e dedicação cotidiana para a resolutividade das situações demandadas
pelos usuários.
D. A informalidade do acesso
A facilidade de acesso é um aspecto valorizado pelos usuários em relação à
atenção em saúde dispensada pelas enfermeiras do local de estudo, conforme
indicado nas falas:
Eu tenho a felicidade de telefonar, às vezes ela marca, ou eu vou lá
no ambulatório e marco lá. (U6)
Lá onde marca a consulta, eu vou lá. Se eles marcarem, eu marco para
aquele dia porque daí meu prontuário já vem para ali. Se lá na
frente, lá onde marcam as consultas, eles disserem que não tem agenda
dela ou qualquer coisa aí eu venho direto ali, daí ela (a enfermeira)
manda pegar meu prontuário, ela dá um jeito sempre. (U11)
O acesso à consulta de enfermagem acontece de duas formas: formalmente, através
do sistema de marcação de consultas ou pelo encaminhamento de outros
profissionais que compõem a equipe multiprofissional de atenção à saúde do
ambulatório; ou informalmente, bastando ir até o ambulatório ou fazer contato
por telefone e solicitar atendimento de enfermagem. Essa última forma é
extremamente valorizada e considerada uma assistência diferenciada, pois isso
não ocorre em outros serviços, evidenciando o respeito e a consideração que as
enfermeiras têm pelos usuários que atendem. Isto é possível pela autonomia e
organização, na dinâmica de atendimento que as enfermeiras assumem no
ambulatório, com vistas a terem sempre espaço em suas agendas para esses
atendimentos eventuais.
Muitas vezes, esse acesso informal ocorre para solucionar uma dúvida do usuário
quanto aos seus cuidados e tratamentos do DM ou para obter informações acerca
de outros profissionais da saúde. Assim, a disponibilidade das enfermeiras em
escutar, considerar as preocupações ou queixas e conversar por alguns minutos
ou até mesmo o atendimento via telefone torna a atenção eficiente e
satisfatória na perspectiva do usuário.
Se considerarmos as políticas de saúde, podemos pensar essas atitudes tomadas
pelas enfermeiras como ações em saúde pautadas no acolhimento e na
solidariedade diante dos vínculos estabelecidos e que vão ao encontro dos
valores estabelecidos pela PNH(9). Assim, gera-se resolutividade e consequente
satisfação dos usuários, que podem contar com o atendimento sem barreiras, como
as longas filas de espera, quando o problema a ser resolvido é pontual e exige
pouco tempo de atenção do profissional.
Com relação à organização do serviço e da instituição para esse acesso
informal, há implicações que não serão aprofundadas aqui, uma vez que a
proposta do estudo foi a avaliação do ponto de vista do usuário. No entanto,
vale ressaltar que esse tipo de situação gera certo contraste entre a
literatura e a prática, remetendo-nos à reflexão acerca da limitação do
atendimento especializado existente na rede do SUS.
Médicos e enfermeiras participantes de um estudo em grandes centros urbanos
avaliaram que os problemas decorrentes das listas de espera, impedindo o acesso
adequado ao cuidado especializado e hospitalar, é o principal entrave da
integração da rede de serviços de saúde. O autor do estudo sugere a realização
de pesquisas centradas em avaliações da cobertura da média complexidade e
integração da rede na perspectiva de trazer novas contribuições e elementos ao
debate(20).
Um dilema que aflige as enfermeiras é de atender bem a poucos usuários ou a
muitos, porém com menor qualidade na atenção devido ao alto fluxo, sem fomento
ao vínculo. Esta é uma situação que merece estudos aprofundados, visto que
envolve questões éticas, pois a escolha de uma ou outra situação gera
consequências aos usuários, contrapondo-se à própria Constituição e aos
princípios do SUS.
As quatro categorias apresentadas expõem a prática da atenção humanizada, em
que o acolhimento e o vínculo expressam-se de maneira diferenciada. A política
institucional de humanização e as atitudes adotadas pelas enfermeiras em
consonância com os conceitos abordados e com a PNH estão evidenciadas nos mais
variados aspectos que envolvem o cuidado de enfermagem às pessoas com DM nesse
serviço especializado.
Algumas características do serviço de saúde avaliado são elementos essenciais e
que merecem ser destacados, pois integram o contexto onde as ações de
enfermagem ocorrem e propiciam tal atendimento diferenciado:
* há autonomia das enfermeiras para o estabelecimento do número de
atendimentos por dia em suas agendas, deixando espaços para atendimentos
não previstos e reservando o tempo que julgam necessário e adequado para
cada usuário na consulta de enfermagem;
* as enfermeiras e a técnica de enfermagem atuam neste local há longo
tempo, reconhecendo e sendo reconhecidas pelos usuários e demais
profissionais, com uma história de compromisso e cuidado humanizado;
* o processo de transição do modelo de atenção básica para o especializado
vem sendo construído com base em discussões, com possibilidade de manter
o atendimento periódico e as consultas informais;
* a atuação multiprofissional no ambulatório gera a possibilidade de
articulação entre os especialistas que atuam no setor, favorecendo uma
atenção mais integral e resolutiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, identificamos que ocorre o cuidado de enfermagem humanizado
segundo o julgamento das pessoas com DM entrevistadas e também quando
comparados os nossos achados com a PNH e autores supracitados. No entanto, as
condições distintas que existem no serviço avaliado podem ser consideradas como
privilegiadas, não representando a realidade da maioria dos serviços de média
complexidade integrados ao SUS.
O acolhimento é reconhecido como parte dos cuidados de enfermagem e há vínculo
estabelecido com as enfermeiras, sendo que estes aspectos expressam-se na
atenção em saúde recebida. Os usuários relacionam a ocorrência da atenção
humanizada com as atitudes das profissionais enfermeiras que, entre outros
aspectos, destacam-se pela escuta sensível, acolhimento dialogado,
resolutividade, compartilhamento de saberes e aconselhamento presentes nos
encontros, formalizando a valorização da dimensão subjetiva e social dos
usuários.
O interesse, o empenho e a resolutividade ocorrem dentro da abordagem integral
que se dá mesclando a objetividade da clínica normatizada por princípios
tecnocientíficos com a subjetividade inerente aos sujeitos e suas situações
específicas de saúde.
Destacou-se ainda a interação que privilegia a liberdade de expressão dos
usuários, intimidade, amizade dentro da relação afetiva, em que as
características pessoais das profissionais refletem-se em suas abordagens,
garantindo respeito mútuo e ética no cuidado humanizado.
Por se tratar de uma pesquisa avaliativa, esperávamos que emergissem nos
relatos dos usuários sugestões de mudanças para a melhoria da prática
assistencial no ambiente ambulatorial. Com relação à satisfação e organização
dos serviços das enfermeiras, houve elogios de forma universal, atestando o
exercício do cuidado de enfermagem humanizado.
Neste sentido, a principal contribuição que este estudo avaliativo traz é o que
os usuários consideram como importantes numa atenção que é de qualidade, tem
resolutividade e promove sua saúde. Por outro lado, também nos mostra que para
que a atenção em enfermagem tome como referência conceitos como acolhimento e
vínculo, há necessidade de discutir a autonomia do profissional, fixação do
profissional em um mesmo serviço e relacionamento contínuo com os usuários.
Mesmo que possa ser considerada ainda como uma utopia em termos do sistema de
saúde brasileiro, é um ideal a ser perseguido.
Apesar de vivenciarmos importantes avanços teórico-filosóficos, legais e nas
práticas de atenção à saúde no cenário brasileiro, a humanização intrínseca à
integralidade da assistência como princípio constitucional do SUS ainda é um
grande desafio aos modelos de atenção e de gestão vigentes. Conhecimento acerca
desses e de outros tópicos contribuem para o planejamento de estratégias de
assistência humanizada e para o aprimoramento de modelos de avaliação
qualitativa nos serviços públicos de saúde.