Mulher climatérica: uma proposta de cuidado clínico de enfermagem baseada em
ideias freireanas
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, o climatério passou a ser um tema bastante discutido, haja
vista o aumento da expectativa de vida da população e com ela a preocupação com
a qualidade de vida. Atualmente, um dos maiores desejos das mulheres é viver a
fase do climatério com melhor qualidade, sem preconceitos e opressão,
desmitificando idéias preconcebidas imposta pela cultura brasileira que
apresenta uma mulher climatérica sem perspectivas outras que vão além da fase
reprodutiva. Quando na realidade a menopausa significa apenas o fim do período
de fecundidade.
Climatério, segundo o Ministério da Saúde é a fase de transição entre a fase
reprodutiva e a não reprodutiva da vida da mulher, estendendo-se até os 65anos
de idade. Menopausa caracteriza-se pela ausência de ciclo menstrual depois de
passado 12 meses da sua ocorrência(1).
Este período não representa uma doença e sim uma fase da vida da mulher, em que
a maioria delas passa por este momento sem queixas ou necessidade de
medicamentos. No entanto, outras apresentam alterações de variável intensidade
e que geralmente não são freqüentes.
O Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), instituído pelo
Ministério da Saúde foi operacionalizado em 1984, atendendo às reivindicações
do movimento de mulheres, marcando, sobretudo, um rompimento conceitual com os
princípios norteadores da política de saúde das mulheres e os critérios para
eleição de prioridades nesta área(2).
Este programa incorporou como princípios e diretrizes as propostas de
descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços, bem como a
integralidade e a eqüidade da atenção. Paralelamente, no âmbito do Movimento
Sanitário, se concebia a estrutura conceitual que embasaria a formulação do
Sistema Único de Saúde (SUS), onde neste incluía ações educativas, preventivas,
de diagnóstico, tratamento e recuperação, englobando a assistência à mulher em
clínica ginecológica, no pré-natal, parto e puerpério, no climatério, em
planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e de mama, além de outras
necessidades identificadas a partir do perfil populacional das mulheres(3).
Embora já tenham se passado 25 anos da formulação e implantação do PAISM e os
serviços de saúde tenha conhecimento de tudo isto, ainda assim, observamos um
impasse no acompanhamento à saúde da mulher climatérica, notando-se uma
deficiência na assistência, que não corresponde ao que se propôs o referido
Programa, quando este inclui em seus preceitos ações educativas e preventivas
de saúde, de forma que os cidadãos tenham conhecimento do seu estado de saúde
ou doença.
Atualmente o cuidado dispensado às mulheres climatéricas se configura em
estratégias de cuidado voltado mais para a doença, para a "medicalização" do
corpo, de forma que o sujeito não é percebido como parte fundamental na
construção da prática dos serviços de saúde, condição contrária quando se
ressalta que o cuidado deve se manifestar na preservação do potencial saudável
dos cidadãos e estar sujeito a uma visão ética que contemple a vida como um bem
valioso em si(4).
Na concepção da Enfermagem, cuidar consiste em desafiar esforços trans-pessoais
de um ser humano para outro, em busca de promover e preservar a humanidade,
ajudando pessoas a encontrar significados na doença, sofrimento e dor, bem como
na existência. Sendo ainda uma forma de ajudar outra pessoa a obter
autoconhecimento, controle e autocura, quando na verdade um sentimento de
harmonia interna é sentido e restaurado, independente das circunstâncias
externas(5).
Neste sentido, os profissionais de saúde, dentre os quais, os enfermeiros,
poderão se utilizar de estratégias de educação em saúde e apontar caminhos para
o autocuidado, como uma alternativa de participação ativa, que promove a
autonomia dos sujeitos, como percurso da sua realidade de vida.
É necessário desenvolver uma prática educativa consciente e crítica para o
futuro, no contexto da qual entendamos o ser humano em sua complexidade. O
conhecimento, porém, na maioria das vezes, é fragmentado por disciplinas, não
sendo visível sua recomposição. Atualmente, podemos visualizar as marcas dessa
fragmentação, inclusive no conhecimento científico e na educação(6).
Neste cenário de busca de um modelo de educação que contemple o outro em sua
complexidade, visualizamos os princípios de Paulo Freire como marco norteador
para este desenvolvimento, por ele mostrar uma educação dialogada, solidária,
sem arrogância, articulando o saber científico com o conhecimento do outro,
traduzindo seu método em um trabalho coletivo.
Acreditamos que a proposta de Paulo Freire para a educação de adultos não possa
ser transferida na íntegra para a Educação em Saúde, embora as deficiências de
conhecimento de muitas pessoas apontem para a necessidade de alfabetizá-las em
saúde. Ou seja, devem aprender, a partir do seu mundo, das suas condições de
sobrevivência, os conteúdos representativos para a Promoção da Saúde e
prevenção das doenças.
Estimuladas por estas questões, objetivamos neste artigo, dialogar entre os
conceitos cuidar e educar e propor uma estratégia de educação em saúde como
possibilidade de cuidado clínico de Enfermagem para mulheres no climatério
baseada nos princípios educativos de Paulo Freire.
IDEIAS FREIREANAS: a base para o cuidado de enfermagem a mulheres no
climatério, numa visão holística
Cultura é toda criação humana, pois consiste em criar e não repetir. "Trata-se
da aquisição sistemática da experiência humana", construção de sentidos que lhe
são atribuídos, as ações e comportamentos em suas relações consigo mesmo e com
os outros, com a natureza e com as divindades, sua atuação sobre a natureza e a
sociedade(7).
Para tanto se reflete sobre uma educação em que o homem fosse capaz de superar
suas atitudes ingênuas, diante de sua realidade(9). Sendo desvelado que a
resposta poderia estar em um método educativo ativo, dialogal, crítico e
conscientizador, na modificação programática da educação e para isto, o
principal caminho é o diálogo(7).
Freire concebe a educação como uma relação dialógica entre educando e educador,
onde a liberdade é um pressuposto fundamental, pois possibilita ao sujeito uma
discussão de sua problemática e de sua inserção no mundo. Por isso ele fala não
apenas de uma leitura da palavra, mas de uma leitura do mundo, pois essa
educação parte do pressuposto que ninguém educa ninguém e que todos aprendem em
comunhão, a partir da leitura coletiva do mundo. Desta forma, o autor propõe e
defende uma educação a partir da realidade do sujeito, ou seja, uma educação
crítica-dialógica, onde o educador facilita a construção de perguntas e não de
respostas prontas e acabadas. Ou seja, é a articulação do saber crítico com o
popular, mediatizados pela experiência do mundo(8-7).
A Enfermagem em seu crescimento como profissão, tem assumido diversos papéis e
posições, sendo seu objeto de estudo o cuidar/cuidado. Diante da subjetividade
da questão prática vivenciada pelo profissional de Enfermagem, que por vezes se
encontra à frente de inúmeras atividades rotineiras, pode se ver diante de um
enigma, tendo dificuldades em compreender as múltiplas faces deste conceito.
De acordo com este pensamento, sobre o reconhecimento da objetividade/
subjetividade das maneiras de cuidar em Enfermagem, realizou-se um estudo que
resultou em 46 formas de cuidar, desde a admissão até a alta hospitalar/óbito,
mostrando que, na diversidade de interações do indivíduo com o profissional,
diversas formas objetivas podem ser identificadas(9).
Assim, entre as tantas formas de cuidar, nos deteremos na maneira social de
cuidar do outro, sendo esta definida como o cuidar regulado pela preocupação
com o sofrimento do outro, principalmente aqueles em situação de exclusão, os
mais pobres, aqueles sujeitos à condição de desigualdade social, que no Brasil
tem representatividade bastante significativa, na qualidade de usuários dos
serviços de saúde pública(9).
A autora supracitada complementa que esta maneira de cuidar está fundamentada
no compromisso social e na preocupação com o outro. As ações de educação e
saúde são objetivadas a instruir os indivíduos a como tratar os fatores
comportamentais, como cuidar de si mesmo e como lidar com os assuntos de saúde
antes deles se tornarem problemas persistentes. Deste modo, pode-se afirmar que
é o compromisso social manifestado em uma maneira de cuidar em Enfermagem.
Esta assunção concorda com a anterior quando acentua que o cuidado implica um
modo de ser, mediante o qual a pessoa sai de si e se centra no outro com
desvelo e solicitude, como uma forma de preocupação, inquietação e sentido de
responsabilidade pelo outro(10).
Com base nos fatos citados necessitamos repensar a respeito deste cuidado,
especificamente, pois estudos demonstraram o descontentamento das climatéricas
em razão da vaga assistência destinada a elas, da carência de informações. Elas
salientam que os serviços de saúde estão voltados para atender as mulheres
enquanto reprodutivas, ficando uma lacuna assistencial na atenção integral à
saúde da mulher(11-12).
Corroborando esta ideia, estudo mostra que as mulheres no climatério apresentam
em sua maioria certo desconhecimento cognitivo do conceito do termo climatério,
expressam este conceito de formas distintas. Algumas nada sabem de imediato,
não referem um pensamento lógico; no entanto, ideias são trazidas pelas
mulheres quando interligam o termo climatério a serviços de saúde, com funções
médicas e tratamentos especializados, sugerindo desta forma que estas mulheres
estão desprovidas de informação, quer dizer, estão vazias de conhecimento em
relação ao que se passa com seu corpo, levando-nos a crer que existe carência
do diálogo, fator primordial na comunicação entre profissionais e clientes(13).
Portanto, faz-se necessário o desenvolvimento de práticas assistenciais que
levem em consideração a individualidade, a capacidade para formular a sua
história de vida, única, baseada em experiências próprias, na interação com os
outros e com o ambiente, respeitando-se crenças, costumes, valores,
conhecimentos e cultura.
Sendo assim, podemos refletir sobre a importância da democratização da cultura,
onde o homem atua como fazedor de sua história e não como espectador dela,
enfim, o homem precisa estar no mundo e com o mundo, assumindo papel de sujeito
da sua história e não como mero objeto dela.
No entanto, é acentuado que conhecer e educar não é apenas acumular
conhecimentos, informações, mas, antes de tudo, implica em mudança de atitude,
não apenas assimilando conteúdos universais, mas saber pensar(14). Para Piaget
aprender é estabelecer relações. Paulo Freire complementa, dizendo que saber é
criar vínculos(15).
Com efeito, se aprender é estabelecer relações e saber é criar vínculos,
denotamos que devam se estabelecer relações e criar vínculos com as
climatéricas, que mulheres e profissionais de saúde nesta relação aprendam
mutuamente como forma de promover saúde.
Desse modo, como um dos requisitos das ações básicas de saúde, a ação educativa
deve ser desenvolvida por todos os profissionais de saúde e estar inserida em
todas as atividades, devendo ocorrer em todo e qualquer contato entre
profissional e cliente, com o intento de levar a mulher a refletir sobre sua
saúde, adotando práticas para sua melhoria ou manutenção, realizando mudanças e
novos hábitos para a solução de seus problemas(2).
Sendo assim, o profissional deve ser um instrumento para que a mulher adquira
autonomia no seu agir e aumente a capacidade de enfrentar situações adversas
próprias desta fase e decida sobre sua vida e saúde.
IDEIAS FREIREANAS: propostas de cuidado clínico de Enfermagem a mulheres no
climatério
Defendemos que é possível forjar uma clínica na enfermagem para emancipação do
sujeito, valorizando as formas que o sujeito encontra de se apropriar de sua
história de vida, seus signos e de seus sintomas; as maneiras com as quais ele
significa a própria vida, contemplando os aspectos culturais em que se encontra
esta mulher.
Considerando que Freire pensa a educação como um ato de conhecimento, uma
aproximação critica da realidade, e que, com a apropriação deste conhecimento,
a pessoa consiga conhecer a si e ao mundo, movendo-se ao encontro da
autotransformação e da intervenção no mundo, logo, o ato de conhecimento é a
descoberta, é estar surpreso diante de algo ignorado, não "entulhamento" de
conteúdos; é a construção de algo. O conhecimento não se dá apenas em sua
dimensão individual, porquanto ocorre na dimensão social, sendo o diálogo o
mediador deste processo.
Entendemos, então que, no diálogo, podemos construir com a climatérica uma
forma de conhecimento. Podemos iniciar pela informação, para ela se apropriar
de noções e informações básicas, para posteriormente ampliarmos com esta mulher
outras formas de conhecimento; aquele conhecimento que Freire postula: que o
sujeito consiga formular a sua pergunta e ele mesmo busque sua resposta.
Logo, enfermeiro e cliente, no caso a mulher no climatério, cointencionados à
realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de
desvendá-la criticamente e, assim, criticamente conhecê-la, mas também no de
recriar este conhecimento.
Para Freire, o conhecimento é construído de forma integradora e interativa.
Conhecer é descobrir e construir, e não copiar é necessário reinventar um
conhecimento que tenha "feições de beleza".
O cuidado de Enfermagem, por conseguinte, pela alegria de viver e de aprender,
quando o diálogo entre esses sujeitos - enfermeiro e cliente - é a mola do
relacionamento, é um compromisso ético. É nesse encontro amoroso o espaço onde
enfermeiro e cliente podem construir.
Assim, o pensamento de Freire é citado quando fala da necessidade da
redescoberta do ser humano de forma integral. Logo, o conhecer, o sentir e o
fazer são condições fundamentais para existência da aprendizagem. Pois quando
ensinamos precisamos levar em consideração a cognição, o afetivo e o
psicomotor, que são domínios fundamentais no processo da aprendizagem(16).
Para que isso aconteça, faz-se necessário o enfermeiro abdicar do seu lugar de
detentor do saber, e por meio da criatividade, estimular uma ação e reflexão
sobre a realidade, questionando-as numa perspectiva crítica sobre a realidade,
bem como da sua possibilidade de ser transformada.
Desta forma, propomos que a mulher climatérica, com apoio nas ideias
freireanas, possa:
1. entender o que se passa com ela na fase do climatério;
2. interpretar essa fase em sua vida;
3. fazer a sua pergunta;
4. criar a sua resposta; e
5. buscar possibilidades de superação.
Apostamos e defendemos um cuidado clínico de Enfermagem crítico-dialógico, no
qual exista uma pergunta formulada pela mulher climatérica. É pela relação
dialógica que enfermeiro-mulher podem refletir, criar e recriar um conhecimento
coletivo articulando seus saberes mediatizados pelas experiências do mundo. É
isso que nos ensina Freire.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando que o climatério é um período de transformação, adaptação e até
aceitação, permeado de tabus e preconceitos, podendo trazer consigo sentimentos
diversos e sendo uma fase comum a todas as mulheres, é necessário que
profissionais de saúde tenham uma melhor compreensão do ser mulher climatérica.
Reconhecendo que existe uma íntima relação entre contexto social e cultural, e
a forma como a mulher vê o climatério, é necessário que ocorra a compreensão de
que o climatério não deve ser caracterizado como doença e sim como saúde,
requerendo uma maior aproximação entre profissionais, serviços e clientela a
fim de que se conheça este universo de mulheres e, assim, se supra a carência
de cuidados existentes.
Dessa forma, precisa-se pensar a educação em saúde de modo ampliado, que
comporte ações que favoreçam as pessoas a alcançar capacidade de autonomia e de
assumirem atitudes positivas. Para tanto, é preciso levar em consideração as
experiências individuais, favorecendo sua participação e contribuindo para o
alcance de respostas satisfatórias e, ao mesmo tempo, equilíbrio de sua saúde.
Neste sentido, propomos que o atual modelo assistencial volte seu "olhar" à
mulher além de sua fase reprodutiva, permitindo a visibilidade que, até então,
tem se mantido às margens do cuidado. Faz-se necessário reformular e
implementar estratégias incluindo as mulheres em todo seu ciclo de vida, de
forma que se sintam responsáveis pelo autocuidado, ao mesmo tempo em que os
profissionais se coloquem disponíveis para o trabalho de educação e promoção da
saúde.
Pensando na defesa de um projeto de cuidado clínico de Enfermagem para mulheres
no climatério pautado na possibilidade de intervenção da realidade, refletindo
criticamente, intervindo e agindo, escolhendo e decidindo, propomos um cuidado
com arrimo nas idéias freireanas baseadas no diálogo para conscientização e
autonomia do outro.
Assim, no campo assistencial de Enfermagem torna-se necessário realizar e
experimentar-se como sujeitos, sendo o papel do enfermeiro estabelecer uma
relação horizontal com as mulheres no climatério, de forma que elas se sintam
valorizadas e motivadas a refletirem sobre seu modo de vida e seus limites.
No que se refere à assistência a saúde em geral, é essencial que reconheçamos
que mudanças de hábitos que favoreçam uma vida saudável devem ser incentivadas,
tais como: atividades físicas (dança, caminhada com o tempo recomendado,
natação), dieta rica em cálcio e proteínas e hipogordurosas, abandono do
etilismo e tabagismo; prevenção de doenças crônicas como a hipertensão e o
diabetes mellitus. A utilização de medicamentos pode ser indicado quando
garantido o acesso à ele, quando for uma opção da mulher em fazer uso destes
para controle da sintomatologia ocasionada pela carência hormonal, quando esta
se exacerba neste momento da vida feminina.
Assim sendo, esperamos que profissionais de saúde, que estão particularmente
mais próximos da mulher no climatério, tenham consciência e visão totalizadora
no continuum de Educação em Saúde, respeitando e valorizando a vida do ser
humano, tendo em vista os preceitos éticos atribuídos à formação do indivíduo.
Isto porque o climatério é uma fase na qual a mulher, diante de várias
modificações por que passa, está no começo de uma nova etapa. Precisamos, para
isto, que profissionais e mulheres no climatério caminhem juntos no sentido de
criar, construir, reconstruir e transformar.