Fatores de risco cardiovascular em adultos jovens de um município do Nordeste
brasileiro
INTRODUÇÃO
Situações de exposição a fatores de risco cardiovascular (FRCV) em nosso
cotidiano são comuns. O ritmo de vida da sociedade contemporânea, o consumismo,
a mídia, convidam para uma omissa e curiosa relação de prazer e riscos entre os
jovens e o uso de álcool, a pouca atividade física, osfast foods,dentre outras,
tornando corriqueira a vulnerabilidade à doença cardiovascular(1).
Mundialmente, estima-se que a exposição a fatores de risco cardiovascular
levará a 36 milhões de mortes prematuras até o ano de 2015, com especial
atenção aos países em desenvolvimento, que, ao contrário dos desenvolvidos, têm
sua população contraindo doenças, cada vez mais jovem, frequentemente com
complicações e mortes precoces(1).
A doença aterosclerótica e sua tendência precoce têm sido alvo de
questionamentos e pesquisas. No Brasil, um estudo que avaliou o comportamento
saudável em adultos jovens, verificou que apenas 8% eram considerados
saudáveis. Foram avaliados quesitos como a prática de atividade física e a
abstinência de álcool, entre outros(2).
Um estudo com homens jovens(3) obteve, como resultado, mais de 80% dos
entrevistados com, pelo menos, um fator de risco cardiovascular e 45,2%
apresentando dois ou mais deles, sugerindo ações direcionadas à população
jovem. Produção de conhecimentos nessa linha, com quantificação do risco
cardiovascular são escassos no interior do Nordeste, onde foi realizado este
estudo, especialmente os que tratam de adultos jovens.
Dada a tendência associativa entre os fatores de risco cardiovascular, há de se
considerar o importante valor clínico do conceito de risco cardiovascular
global, embora algumas vezes, mesmo em sua ausência, adoecimento e morte
precoce sejam possibilidades; o que faz dos ensaios clínicos randomizados
possibilidades na construção de conhecimentos para redução destes eventos(4).
A quantificação dos fatores de risco na população adulta jovem permite
identificar o nível de susceptibilidade destes e contribuir com estratégias
focadas na prevenção e promoção da saúde cardiovascular, influenciando para
condutas de vida saudáveis e minimização da incidência das doenças
cardiovasculares (DCV), com contribuição às metas da Organização Mundial de
Saúde/ Organização Pan-Americana de Saúde(1) e com atenção às prioridades do
Ministério da Saúde do Brasil, na perspectiva de mudança na supremacia da
morbimortalidade por essas causas(4-5).
Fazer prevenção primária com investigação, detecção e manipulação dos FRCV é a
grande aposta para evitar ou diminuir a progressão das doenças cardiovasculares
e suas complicações de forma menos dispendiosa e eficaz, subsidiando uma
prevenção secundária inteligente. Estudos apostam na educação precoce quanto
aos fatores de risco e hábitos saudáveis, a partir da primeira infância, em
casa e na escola(6-7). Tais sugestões corroboram a necessidade de ações
educativas continuadas em públicos jovens, dadas suas estatísticas preocupantes
de morbimortalidade.
A Enfermagem reconhece, na associação entre educação e saúde, potencial para
redução de custos, especialmente sociais, nos diversos contextos da
assistência. Embora com forte potencial enquanto profissional atuante na
educação em saúde, ainda é tímida sua atuação na promoção da saúde
cardiovascular e produção de conhecimentos nesta área junto aos adultos jovens
(7). Assim, pretendeu-se responder no estudo ao questionamento: quais os
fatores de risco cardiovascular em adultos jovens em um município do interior
do Nordeste brasileiro? Para tanto, adotou-se como objetivo averiguar os
fatores de risco cardiovascular em adultos jovens em um município do Nordeste
brasileiro.
MÉTODO
Trata-se de um estudo quantitativo, realizado entre março/2009 e dezembro/2010
nas escolas públicas estaduais de nível médio regular e Educação de Jovens e
Adultos (EJA) presencial, situadas na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará,
Brasil.
Tomou-se como adulto jovem a faixa etária entre 20-24 anos, assim definida pelo
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no âmbito da saúde do adolescente e
do jovem(8). A amostra somou 351 adultos jovens, matriculados nas 12 escolas
disponíveis no município, e estratificada conforme a distribuição dos
estudantes por escola e turnos. A seleção aleatória dos participantes se deu
com base na lista de matrícula. Os alunos anuíram sua participação no estudo em
termo de consentimento livre e esclarecido. À não aceitação ou desistência,
seguiu a substituição do estudante, em novo sorteio. Não foram adotados
critérios de exclusão na amostra.
Os dados foram coletados por meio de preenchimento de questionário validado(9),
com itens referentes a características sociodemográficas (idade, sexo, data de
nascimento, escola, turma, raça, estado civil, profissão, renda familiar
mensal, composição familiar, logradouro); aos fatores de risco cardiovascular
(ingestão de álcool, fumo, sal, prática de atividade física, hábitos
alimentares, antecedentes familiares e pessoais de DCV, conhecimento dos
valores de pressão arterial, colesteróis e glicemia, e participação em
atividades de educação em saúde cardiovascular) e verificação objetiva da
pressão arterial, peso e altura, cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) e
circunferência abdominal. Os dados foram analisados pelo uso de um software e
organizados com base nos FRCV contidos nas VI Diretrizes Brasileiras de
Hipertensão Arterial(10).
Este estudo integra a dissertação "Análise dos fatores de risco cardiovascular
em escolares adultos jovens de Juazeiro do Norte - Ceará"(11), financiada pela
Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(FUNCAP), aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do
Ceará, com protocolo nº 10030228-9.
RESULTADOS
Visando a melhor maneira de agregar e apresentar os resultados encontrados
sobre o risco cardiovascular (RCV) nos adultos jovens estudados, seguiu-se a
classificação de risco para hipertensão, utilizada nas VI Diretrizes
Brasileiras de Hipertensão(10). Tal classificação aponta como riscos a idade, o
gênero e a etnia, o excesso de peso e a obesidade, a ingestão de sal, a
ingestão de álcool, o sedentarismo, os fatores socioeconômicos, a genética e
outros fatores como os ambientais e comportamentais. As diretrizes ainda
reconhecem a frequente agregação desses fatores.
Os resultados apresentaram maioria de adultos jovens do sexo feminino 216
(61,5%), auto-referidos mestiços (215; 61,3%), conciliando estudos e trabalho
(222; 63,2%), sem companheiro(a) (280; 80%) e ainda vivendo na casa dos pais
(284; 80,9%). A média de idade entre os adultos jovens do estudo foi de 21,55
anos (± 1,387), conforme demonstrado na Figura_1.
No tocante ao excesso de peso e obesidade, os estudantes não destoaram da
situação mundialmente explícita em diversos estudos sobre a temática, 54
(15,4%) apresentaram sobrepeso e 14 (4%) obesidade tipo I ou II. Na soma dos
agravos, chegou-se a 68 (19,4%) adultos jovens com excesso de peso. A relação
com a obesidade central, pela medida da circunferência abdominal, foi mais
evidente em 20 (14,8%) dos homens contra três (1,4%) nas mulheres. Tal
situação, quando vista do ângulo da prevalência de 57,3% de sedentários no
estudo, ganha mais consistência. Cabe ressaltar que foram considerados
sedentários os estudantes que não praticavam qualquer atividade física por pelo
menos 150 minutos por semana.
A variável ingestão de sal, colocada na Figura_1, considera pontualmente o sal
de adição: o que se acrescenta à comida já pronta. As respostas revelaram que a
maioria (54,4%) dos adultos jovens o faz em alta ou baixa frequência, sendo que
44 destes (12,5%) o fazem sempre, mesmo antes de provar a comida; um risco
exponencial à saúde cardiovascular, especialmente se considerada a
sensibilidade ao sal.
A ingestão de álcool entre os adultos jovens foi percebida em 76,1% (267)
deles. A frequência foi maior entre os que faziam uso de bebida alcoólica de
uma a quatro vezes por mês (40,2%), os "bebedores de final de semana", e menor
entre os que relataram seu consumo diário (4,8%). A média de idade do início do
uso de bebida alcoólica de 15,58 (± 2,699) revela a iniciação do uso de bebidas
alcoólicas na adolescência, se mantendo ao longo dos anos.
Aquém dos fatores ditos comportamentais, como é o caso da ingestão de sal e
álcool, por exemplo, os fatores genéticos são preponderantes. Presentes em 303
(86,3%) dos nossos adultos jovens, só vem demonstrar a magnitude desses agravos
na população em geral. Dentre os antecedentes familiares por DCV encontramos
68,7% de antecedentes de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS); 46,7% de
Diabetes mellitus (DM); 39,9% das doenças cardíacas; 34,8% de dislipidemias; e
15,7% de casos de Acidente Vascular Encefálico (AVE) na família.
Contra esta tendência genética é recomendada a manutenção de um estilo de vida
saudável, com adequação ao exercício físico; uma dieta rica em frutas e
verduras; o acesso à saúde e lazer; dentre outras situações protetoras ao risco
cardiovascular. Tais condições sofrem influência direta dos fatores
socioeconômicos, dos quais dispõem os sujeitos. Nos adultos jovens estudados a
renda mensal foi de até dois salários mínimos para 78,8% deles, o que não
garante poder de acesso a muitos dos itens considerados necessários à
manutenção de uma condição saudável.
Porém, não basta favorecimento econômico, é necessária informação para a
população reconhecer os riscos e os meios de preveni-los, dispondo de meios
para esse fim. Mas, o que encontramos foi escassez de atividades de educação
para a saúde cardiovascular na população estudada, com 83,5% sem qualquer
orientação, nos últimos 12 meses, sobre FRCV. Mesmo com o surgimento de DCV nas
camadas populacionais de maior idade, viram-se casos de doenças nos adultos
jovens pesquisados, conforme demonstração na Figura_2.

Foram encontrados quatro (1,2%) adultos jovens com hipertensão arterial,
destes, três (75%) eram do sexo feminino e um (25%) do masculino. Quanto ao
tipo de tratamento e condução terapêutica, um adulto jovem disse fazer
tratamento medicamentoso, outro o não medicamentoso e dois deles (50%)
referiram não realizar qualquer tratamento, o que eleva o risco de
complicações.
Dois (0,6%) tinham diabetesmellitus, sendo ambos do sexo masculino e com
manutenção do tratamento. Um deles segue o tratamento medicamentoso com uso
regular de insulina e o outro realiza tratamento não medicamentoso para ajuste
da glicemia.
Outro fato que chamou atenção foi a referência ao desconhecimento da existência
ou não de doença pelos adultos jovens, conforme demonstra a Figura_2. Foram 178
(50,7%) os que desconheciam ser hipertensos ou não e 225 (64,1%) ignoravam o
fato de ter ou não diabetesmellitus, o que tange a questão do acesso ao
diagnóstico e aos serviços de saúde.
Questões vinculadas ao conhecimento sobre os FRCV e sobre a própria condição de
saúde ficam claras na Figura_3, pois quando questionados sobre a realização nos
últimos 12 meses de um exame geral de saúde e conhecimento dos seus níveis de
pressão arterial, colesterol e glicemia, a resposta mais frequente foi a
negativa.
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Quanto ao exame geral de saúde, considerado como a avaliação de qualquer nível
do estado geral de saúde, houve negativas de 82,2% do sexo masculino, contra
76,9% do feminino. A verificação da pressão arterial (PA) foi o item mais
conhecido entre homens e mulheres; porém, ainda contava com o desconhecimento
de 58,5% dos homens e 48,1% das mulheres, com igual percentil para verificação
da PA nos últimos 12 meses.
Nos casos de verificação dos níveis de colesterol e glicemia, os percentis de
não realização também foram altos, pois havia 82,2% dos homens sem a
verificação dos valores de colesterol, contra 84,7% nas mulheres. Semelhantes
foram os níveis de glicemia, que eram desconhecidos por 84,4% dos homens e
85,6% das mulheres.
DISCUSSÃO
A ampla discussão sobre o impacto das doenças cardiovasculares e os seus
fatores de risco, perpassa pelo modo de vida contemporâneo, seja no trabalho,
nos modos de se alimentar, no lazer e até na praticidade e versatilidade
exigidas no competitivo mercado de trabalho. Chamamos a atenção para este
cenário, de busca e desafios nos campos profissionais e pessoais(12), por ser
inerente à fase do desenvolvimento humano aqui abordada - a adulta jovem.
Assim como em outros estudos(2,13-14), também obtivemos maior representação de
adultos jovens do sexo feminino (61,5%). Acreditamos que este fato esteja
relacionado não só a questões demográficas, mas pela crescente participação das
mulheres no campo profissional e, consequentemente, no educacional(12).
A faixa etária, necessariamente preestabelecida, dado o foco do estudo, entre
20 e 24 anos, não é considerada, atualmente, como de risco acrescido. Tal
consideração é feita do ponto de vista biológico do desenvolvimento humano, por
serem esperadas nessa fase boas condições de saúde físicas e sensoriais,
questão também culturalmente sustentada(12). Referindo-se especialmente à saúde
cardiovascular, alguns estudos evidenciaram o aparecimento de FRCV e DCV ainda
na infância(3-4,6), o que explicaria os crescentes números envolvendo a fase
adulta jovem(5,14).
A raça foi autorreferida neste estudo e apontou para uma maioria de mestiços,
que, se somada à porcentagem de negros, chega a 69,7%, e aponta prevalência de
risco para hipertensão duas vezes maior em pessoas consideradas não brancas
(10). Índices contrários foram averiguados em outra pesquisa, que apresentava
maioria autodeclarada branca(15). Tal achado representa, além do RCV a essa
população, uma maior conscientização no momento de referir a cor da pele.
A maioria dos adultos jovens conciliavam trabalho e estudo (63,2%) e
continuavam vivendo na casa dos pais sem companheiro(a). Tal situação é
observada em nossa sociedade, dada a percepção de dificuldades da inserção no
mercado de trabalho e da busca por salários melhores, aliado à vontade de
seguir desfrutando do conforto da casa dos pais. As famílias dos adultos jovens
tinham em média quatro pessoas, uma tendência crescente na sociedade
contemporânea, que apresenta núcleos familiares cada vez menores,
principalmente por questões econômicas e pela busca feminina pela realização
profissional(12).
A renda familiar referida pela maioria foi de até dois salários mínimos,
evidenciando baixo poder aquisitivo entre os adultos jovens. A relação entre
desigualdade social e doença cardiovascular foi percebida em estudos(2-3), que
afirmam: quanto piores as condições socioeconômicas maiores os riscos de
morbimortalidade por DCV. E ainda acrescentam que há um risco também do ponto
de vista ambiental, pois o menor poder aquisitivo leva as pessoas a residirem
em áreas onde a oferta de infraestrutura de saúde e educação são menores.
Amplamente influenciada pelo fator renda, a alimentação, enquanto risco
cardiovascular, é uma realidade mundial. O cotidiano agitado, especialmente nas
grandes cidades, e o crescente acesso a alimentos industrializados, ricos em
sódio; rápidos e economicamente viáveis, aliados à vantagem ganho de tempo, têm
feito dessas um risco emergente. Uma política que não diz respeito diretamente
ao setor saúde, mas, sim, ao industrial(4).
Essa situação tem contribuído para dois grandiosos e ainda crescentes problemas
de saúde pública mundial: o sobrepeso e a obesidade(1). Estudos têm demonstrado
sua magnitude nas diversas fases do ciclo vital: na infância e adolescência(5),
entre adultos e idosos(10). Esta pesquisa revelou 4% de adultos jovens
classificados como obesos tipo 1 ou 2, que somados aos com sobrepeso chegam a
19,4% da amostra. A obesidade central, medida pela circunferência abdominal,
foi mais evidente nos homens. Outras realidades(2,5) também verificaram a
presença de sobrepeso ou obesidade ao avaliarem adultos jovens.
A determinação das causas do sobrepeso/obesidade é complexa, e a
multicausalidade é geralmente apontada. Além dos fatores alimentares há grande
contribuição da baixa atividade física/sedentarismo. A prática de atividade
física e a redução dos custos por doenças crônicas ao Sistema Único de Saúde
(SUS) foi foco de um estudo(16) que evidenciou, dos custos com as internações
em Pelotas, por DCV (R$ 4.250.000,00), cerca de R$ 2.100.000,00 poderiam ser
economizados se a população sedentária viesse a se tornar fisicamente ativa.
A evolução tecnológica tem facilitado a realização de tarefas na sociedade
contemporânea, que dispensa boa parte do seu tempo diante da televisão ou
computador, também como ferramenta de trabalho e entretenimento, amplamente
utilizada entre os jovens; e mais uma questão a ser considerada ao falar de
sedentarismo(2,16). Os adultos jovens estudados apresentaram uma taxa de
sedentarismo de 57,3%, uma maioria preocupante, especialmente do ponto de vista
associativo observado nos achados, que encontraram agregação entre sedentarismo
e dislipidemias, alteração da glicemia e aumento da pressão arterial.
O aumento da PA, anteriormente relacionada ao sedentarismo e aumento de peso,
também apresentou relação com a dieta. A ingestão de sal por alimentos
industrializados e/ou ricos em sódio pode elevar consideravelmente a pressão
arterial. Em algumas pessoas o efeito do sal sobre a PA é mais deletério que em
outras, é a chamada sensibilidade ao sal(4,17).
Nos adultos jovens, o estudo o sal de adição esteve presente em 54,4%, destes
12,5% fazia adição de sal mesmo antes de provar a comida. Um estudo chileno com
crianças hipertensas e medidas efetivas na redução e controle da pressão
arterial identificou resultados favoráveis na redução da ingestão de sal,
acreditando-se que o investimento em mídia de prevenção possa trazer esses
benefícios também aos jovens e população no geral, que lança mão de alimentos
industrializados e preparados fora do domicílio(17).
Importantes preditores das doenças cardiovasculares, os antecedentes familiares
estiveram presentes em 86,3% dos nossos adultos jovens, o que só comprova a
soberania das DCV na população. Dentre os antecedentes familiares por DCV, a
HAS aparece como a mais prevalente, com 68,7%; seguida do diabetesmellitus, com
46,7%; corroborando com a prevalência de 66,67% de adultos jovens com
antecedentes familiares para DCV encontrada(18). Porém, os efeitos da genética
podem ser superados pelo deszelo ao modo de vida saudável, levando os fatores
comportamentais e ambientais a papéis mais importantes no desenvolvimento das
DCV(10).
Dentre os fatores comportamentais, a ingestão alcoólica teve, nesse estudo, uma
prevalência de 76,1%, com uma média de idade inicial para o uso de 15,58 (±
2,699) anos, que revelou especialmente "bebedores de final de semana"; ao
contrário de outro estudo(19), que obteve apenas 7,91% de ingestão alcoólica, e
que considera a necessidade distinguir melhor os seguimentos sociodemográficos
mais implicados, apesar de reconhecer evidências de maior consumo nas
populações com menor renda e escolaridade.
Prevendo a associação entre FRCV e a ingestão de álcool, um estudo realizado em
Fortaleza, Ceará(20), encontrou 58,7% de sobrepeso/obesidade; 63,3% de
alteração da circunferência abdominal; 57,4% de sedentarismo; 59,6% que se
estressava com facilidade; e 74,2% com uso atual ou anterior de tabaco
concomitante.
Um excelente caminho apontado na agregação a modos de viver saudáveis é a
informação. A educação para a saúde tem sido apontada(4,6-7) como uma maneira
eficiente e economicamente viável para a implementação em ampla escala, podendo
a mídia ser amplamente utilizada para este fim. No nosso estudo, o que
encontramos foi uma população com escassez de orientações, com 83,5% de
inexistência e/ou não participação em atividades de educação para a saúde
cardiovascular nos últimos 12 meses.
Informada, a população certamente estaria mais atenta à avaliação da própria
saúde, com vistas à prevenção dos FRCV, bem como ao surgimento de sinais
indicativos de DCV, o que traria amplos benefícios, especialmente pelo nível de
desconhecimento apontado em possuir ou não essas doenças, e pelo caráter
assintomático de algumas delas, como exemplo, a HAS.
A prevalência de DCV, embora pequena neste estudo, contou com quatro (1,2%)
estudantes adultos jovens com hipertensão e dois (0,6%) com diabetes; chama
atenção pela precocidade, também evidenciada em outras investigações, seja com
público semelhante(5) ou com adultos de um modo geral(4), apresentando taxas
maiores e incremento das DCV com o avançar da idade. O abandono de tratamento
e/ou dificuldades de adesão evidenciam pontos que vão além da falta de
autocuidado e denuncia o acesso à informação e aos serviços de saúde(10).
Tais fatores só respaldam os percentis encontrados para o desconhecimento e/ou
não realização de avaliações, como exame geral de saúde e conhecimento dos
níveis de pressão arterial, colesterol e glicemia entre os adultos jovens
estudados. Muitas vezes esse desconhecimento, aliado a não associação entre
possíveis sintomas, retarda o diagnóstico, que muitas vezes ocorre já na
existência de complicações(1). A qualidade dos serviços de saúde, com garantias
de acesso a serviços especializados, quando necessários, também parece
influenciador.
CONCLUSÕES
A evidência de risco entre os adultos jovens traz a preocupação sobre sua
exposição aos FRCV e a necessidade de produção de conhecimentos para ações de
saúde factíveis, dados o estilo de vida contemporâneo, a ligação cultural entre
doença e saúde como "coisa" meramente orgânica e a ilusão do jovem de ser
inatingível.
Os riscos cardiovasculares dos adultos jovens estudados a partir da avaliação
de pontos como: idade, gênero, etnia, excesso de peso, obesidade, ingestão de
sal, ingestão de álcool, sedentarismo, fatores socioeconômicos, genética; e
outros fatores, como os ambientais e os comportamentais; apontaram,
especialmente, para uma alimentação favorável ao risco cardiovascular,
associada a tendências ao sobrepeso/obesidade e dislipidemias, em um contexto
socioeconômico deficitário.
A alimentação, por exemplo, é questão diretamente relacionada à renda, mas
existem outros pormenores. Os adultos jovens deste estudo demonstraram
inadequação em seus hábitos de vida, como exemplo, o sedentarismo.
Tais achados levantam algumas limitações do estudo, que não alcançou questões
como: a exposição ao risco seria questão de informação somente? Ou seria
questão de motivação pessoal? Ou estaria, no caso do sedentarismo, ligada ao
insuficiente tempo para a prática de exercício físico? Enquanto se questiona, o
risco é fato, e continuamos com grandes índices de sedentarismo e de alteração
do peso corporal. Quais dessas questões perpassam pela saúde?
Dois grandes, e ainda crescentes, problemas na saúde pública mundial - o
sobrepeso e a obesidade -, também evidenciados nos adultos jovens com uma
maioria masculina com circunferência abdominal alterada, contrapondo um IMC
alterado mais presente nas mulheres, são situações que se associaram
perfeitamente a uma maioria sedentária.
Outro risco, presente na maioria dos adultos jovens, foi a ingestão alcoólica,
muitas vezes apontada como artifício para amenizar o estresse cotidiano; risco
importante, considerando a frequência de "bebedores de final de semana", que
iniciaram este hábito na adolescência e ainda o mantém.
Os índices de pressão arterial aumentados nos adultos jovens, embora em menor
representação que os valores normais, evidenciaram poucos, mas importantes,
casos já diagnosticados da doença e outros com necessidades de confirmação. O
perigo da não adesão ao tratamento esteve presente em metade deles, agravando o
risco. Coincidência ou não, a hipertensão arterial também foi a maior
representação nos antecedentes familiares para as DCV, seguida do
diabetesmellitus, com casos também diagnosticados e em tratamento.
A prevalência de DCV em adultos jovens, embora pequena neste estudo, chama
atenção por ser precoce e pela não realização de avaliações de saúde e do
desconhecimento dos níveis de pressão arterial, colesterol e glicemia presentes
na maioria dos adultos jovens, alavancados por uma maioria sem participação em
momento educativo que abordasse os FRCV. Questões de informação e acesso, que
sobrecaem novamente nas condições socioeconômicas e na escassez de campanhas de
detecção dos FRCV e das DCV na população.
A evidência de risco entre os adultos jovens, diante das tendências e estilo de
vida contemporâneo, demonstrado nas evidências científicas da abrangência das
DCV, da exposição aos FRCV e pelo seu caráter multivariado, requer maior
atenção dos que fazem o setor saúde, com especial atenção aqui a enfermagem,
para a promoção da saúde cardiovascular aos diversos públicos. Estratégia de
associação entre setores, como a saúde e a educação, reforça tais ações e
incorpora outras ferramentas sociais importantes, como as escolas.
A determinação dos comportamentos favoráveis aos riscos cardiovasculares em
populações específicas de maneira continuada subsidiariam práticas cotidianas
possíveis, moldadas à relevância das DCV e seus riscos na promoção da saúde e
prevenção de doenças nas mais diversas fases do desenvolvimento humano. Este
estudo tratou de uma fase, de certo modo, considerada ainda pouco percebida
pelos serviços de saúde.