Fatores de risco e medidas de prevenção do câncer de próstata: subsídios para a
enfermagem
INTRODUÇÃO
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão do Ministério da
Saúde responsável pela prevenção e controle do câncer no Brasil, as estimativas
para o ano de 2010 e válidas também para o ano de 2011, apontam que ocorrerão
489.270 casos novos de câncer. Os tipos mais incidentes, à exceção do câncer de
pele do tipo não melanoma, serão os cânceres de pulmão e de próstata no sexo
masculino(1).
Em 2010, eram esperados 236.240 casos novos de câncer para o sexo masculino e
estima-se que os tumores mais incidentes para o sexo masculino serão devidos ao
câncer de pele não melanoma (53 mil casos novos), seguido pelos tumores de
próstata (52 mil)(1).
O câncer de próstata é o sexto tipo de câncer mais comum no mundo e o mais
prevalente em homens, representando cerca de 10% do total de câncer. Mais do
que qualquer outro tipo de cân-cer, este é considerado o câncer da terceira
idade, uma vez que cerca de três quartos dos casos no mundo ocorrem a partir
dos 65 anos(2).
No Brasil, o câncer de próstata é o mais incidente entre os homens, na Região
Centro-Oeste (48/100.000). Exceto os tumores de pele não melanoma, esse tipo de
câncer é o mais frequente nas regiões Sul (69/100.000), Sudeste (62/100.000),
Nordeste (44/100.000) e Norte (24/100.000)(2).
A mortalidade por câncer de próstata é relativamente baixa, o que reflete, em
parte, seu bom prognóstico quando diagnosticado e tratado oportunamente. A
sobrevida média mundial estimada em cinco anos é de 58%. Nos países
desenvolvidos, essa sobrevida passa para 76% e nos países em desenvolvimento
45%(2).
Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o câncer de próstata é o
segundo maior causador de mortes no Brasil e estima-se que 400 mil pessoas com
mais de 45 anos tenham a doença e que a maioria não tenha conhecimento disso.
Anualmente, são diagnosticados 35 mil casos, com oito mil óbitos(3).
No que diz respeito à saúde dos homens em geral, é importante considerar que, a
cada três mortes de pessoas adultas, duas são de homens. Eles vivem, em média,
sete anos menos do que as mulheres e têm mais doenças do coração, câncer,
diabetes, colesterol e pressão arterial mais elevadas(4). Nesse sentido, é
fundamental que os profissionais da saúde estejam atentos aos problemas gerais
e específicos que podem acometer essa população, suas demandas de cuidados e
acompanhem as políticas nacionais favorecedoras de sua atuação profissional.
Em relação às ações que sinalizam para a preocupação relativa à saúde do homem
no Brasil, conta-se com a Lei 10.289, de 20 de setembro de 2001 que dispõe
sobre a Instituição do Programa Nacional de Controle do Câncer de Próstata.
Nela são estabelecidas, entre outras, as seguintes ações: I campanha
institucional nos meios de comunicação, com mensagens sobre o que é o cân-cer
de próstata e suas formas de prevenção; II parcerias com as Secretarias
Estaduais e Municipais de Saúde, colocando-se à disposição da população
masculina, acima de quarenta anos, exames para a prevenção ao câncer de
próstata; III parcerias com universidades, sociedades civis organizadas e
sindicatos, organizando-se debates e palestras sobre a doença e as formas de
combate e prevenção a ela; IV outros atos de procedimentos lícitos e úteis para
a consecução dos objetivos desta instituição - a qual posteriormente necessitou
sofrer alterações no Parágrafo II do Art. 4º para adequar-se a critérios
técnico-científicos(5-6).
Mais recentemente, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem,
lançada em 2009 pelo Ministério da Saúde (MS), tem por objetivo facilitar e
ampliar o acesso da população masculina aos serviços de saúde, em resposta à
observação de que os agravos do sexo masculino são um problema de saúde pública
(4).
O Brasil será o primeiro país da América Latina e o segundo do continente
americano a implementar uma política nacional de atenção integral à saúde do
Homem (o primeiro foi o Canadá). A política encontra-se no contexto do Programa
"Mais Saúde: Direito de Todos", lançado em 2007 pelo Ministério da Saúde, que
visa promover um novo padrão de desenvolvimento focado no crescimento, bem-
estar e melhoria das condições de vida do cidadão brasileiro(4).
A partir dos princípios e diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à
Saúde do Homem, será possível orientar as ações e serviços de saúde para a
população masculina, com integralidade e equidade, primando pela humanização da
atenção, uma vez que apresenta como princípios a humanização e a qualidade,
visando a promoção, reconhecimento e respeito à ética e aos direitos do homem,
obedecendo às suas peculiaridades sócio-culturais(7).
Diante dos dados em relação à morbimortalidade masculina e mais especificamente
relativos ao câncer de próstata, entende-se que essa iniciativa do MS
brasileiro constitui um marco em relação à saúde do homem e certamente
resultará em avanços significativos nesse sentido, com uma perspectiva de
melhor qualificação dos profissionais da saúde para atuarem nessa área e,
consequen-temente, no sentido de despertá-los para questões voltadas
especificamente à promoção da saúde do homem.
Diante do exposto, o propósito do presente artigo é apresentar uma reflexão
sobre os fatores de risco e as medidas de prevenção de câncer de próstata, com
vistas a contribuir com profissionais da saúde em geral e mais especificamente
para oferecer subsídios aos enfermeiros na abordagem dos homens durante a
consulta de enfermagem.
FATORES DE RISCO E MEDIDAS DE PREVENÇÃO DO CÂNCER DE PRÓSTATA
Para o levantamento das medidas de prevenção e fatores de risco existentes
foram consultadas, no período de abril a junho de 2009, as bases de dados
Scientifc Eletronic Library Online - SCIELO (www.scielo.br), Literatura da
América Latina e Caribe LILACS e Biblioteca Cochrane no sítio da Biblioteca
Virtual em Saúde - BIREME (www.bireme.br). Também foram consultados os sítios
do Instituto do Câncer INCA (www.inca.gov.br), Sociedade Brasileira de Urologia
(SBU) (www.sbu.org.br), Society of Urologic Nurses and Associates (SUNA)
(www.suna.org), European Association of Urology(EAU) (www.uroweb.org), além de
documentos do Mi-nistério da Saúde.
Em relação às medidas de prevenção do câncer de próstata, ainda não existem
meios comprovadamente conhecidos para se prevenir este tipo de câncer(8-9), da
mesma forma como suas causas ainda permanecem desconhecidas(9-10). Entretanto,
ensaios clínicos estão sendo desenvolvidos com o objetivo de investigar melhor
esse tópico(9).
Fatores que determinam o risco de desenvolvimento do câncer de próstata também
não são bem conhecidos, apesar de alguns terem sido identificados(11). Dentre
eles destacam-se a idade avançada(5,10-13), origem étnica maior incidência em
negros(9,10,13)e origem hereditária(9-10,11-13).
Neste contexto, considera-se mais especificamente que pai ou irmão com história
de câncer de próstata(5,8,10) antes dos 60 anos de idade(5,8,12) pode aumentar
o risco de desenvolver a doença de 3 a 10 vezes em relação à população em geral
(5,12).
Marcadores exógenos são citados na literatura como agentes potencializadores ou
minimizadores na determinação do risco do câncer de próstata. Dentre os que
possivelmente atuam na diminuição do risco destacam-se uma dieta rica em
frutas,verduras, legumes(5,11,14), vegetais ricos em carotenóides (por ex.:
tomate e cenoura)(2,5,11,14), grãos, cereais integrais e pobre em gordura,
principalmente as de origem animal(5).
Alguns componentes naturalmente encontrados nos alimentos possivelmente também
possuem um efeito protetor como as vitaminas A(5), D(2,5,11,14), E(2,5,11-14),
o selênio(2,5,11-14) licopeno(2,11,13), Ômega 3(2), vitamina C(11,13-14). São
ainda citados os fito-estrógenos, isoflavonóides, flavonóides, e lignanas(11).
Já os fatores nutricionais citados como passíveis de influenciar potencialmente
o desenvolvimento da doença incluem o total de energia consumida (refletida
através do índice de massa corporal)(5,13-14), dieta rica em gordura animal
(2,5,11-12,14), carne vermelha, cálcio(2,5,11,14,), gorduras e leite(5).
Outros fatores como o tabagismo e o etilismo, vasectomia, além do fator de
crescimento "insulin-like", também são citados como passíveis de influenciar
potencialmente o desenvolvimento do câncer de próstata(5). Algumas
características específicas tais como a alta prevalência, longa latência,
dependência endócrina, disponibilidade de marcadores de soro (PSA) e lesões
precursoras histológicas (a neoplasia intra-epitelial prostática - PIN - é
precursora do câncer de próstata invasivo)(11,14-16), fazem do câncer de
próstata um candidato ideal para medidas exógenas preventivas(11,14).
Nesse sentido, mais estudos estão em andamento tentando esclarecer o papel dos
fatores de risco e seu potencial para o sucesso na prevenção contra o câncer de
próstata(14). Sabe-se que os fatores hereditários são importantes na
determinação do risco de desenvolver clinicamente esse tipo de câncer, enquanto
que os fatores exógenos podem ter um impacto importante nesse risco(11).
Sobre a relação entre hábitos nutricionais e fatores de risco, evidências estão
sendo acumuladas, mas autores referem que ainda há um longo caminho a ser
trilhado(15).
Entre medidas farmacológicas de prevenção do câncer de próstata, consta na
literatura estudo sobre o efeito da finasterida, droga inibidora da 5 alpha-
redutase, em que foi constatado seu potencial redutor no risco de câncer de
próstata. Porém, sabe-se que novos estudos buscando aperfeiçoamento desses
resultados estão sendo conduzidos(14,17).
Outro dado importante é o de que a incidência da doença assume diferentes
valores de acordo com a região/área geográfica estudada, uma vez que fatores
exógenos afetam o risco da progressão da doença latente para sua forma clínica
(p. ex. a doença possui alta incidência nos EUA e norte da Europa e baixa
incidência no Sudoeste da Ásia)(11).
No que diz respeito à idade para início do rastreamento do câncer de próstata,
observa-se pequena variação em documentos consultados, uma vez que tanto foi
identificada a recomendação de que seja realizado a partir dos 45 anos por
homens que não apresentam histórico familiar de câncer de próstata(3), quanto a
de que homens com idade igual ou maior que 50 anos devem dar início à
realização dos exames preventivos, sendo recomendado ainda que, para homens com
histórico familiar de câncer de próstata e afro-americanos, o rastreamento deve
ter inicio aos 40 anos de idade(9).
Em relação à dosagem de PSA e toque retal, na literatura nacional, tanto foram
identificadas recomendações de não se excluir a dosagem de PSA e o exame do
toque digital como medidas de detecção precoce contra o câncer de próstata(3),
quanto foram identificados documentos que apontam que não há evidências sobre o
sucesso na redução da mortalidade com o rastreamento de pacientes pela dosagem
de marcadores como o PSA e que muitos homens podem estar sendo conduzidos a
cirurgias desneces-sárias(2).
Apesar de algumas divergências terem sido identificadas e da afirmação de que
em geral sabe-se pouco sobre a maioria dos fatores estudados em relação ao
câncer da próstata(7,9), entende-se que os profissionais devem buscar
constantemente as melhores evidências disponibilizadas nos resultados de
estudos e em documentos disponibilizados pelos órgãos oficiais que tratam
dessas questões; contribuir para a formulação de protocolos com base nesses
estudos ou documentos e seguir condutas com base nas melhores evidências e em
discussões e decisões interdisciplinares em seus locais de trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há elementos que possibilitam aos enfermeiros e demais profissionais da saúde
uma abordagem em relação aos fatores de risco e fatores exógenos relativos ao
câncer de próstata junto aos homens.
Mais especificamente na área da enfermagem, a recente legislação que dispõe
sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e a implementação do
Processo de Enfermagem estabelece como função privativa do enfermeiro a
Consulta de Enfermagem e resolve que o Processo de Enfermagem deve ser
realizado, de modo deliberado e sistemático, em todos os ambientes, públicos ou
privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem(18).
Dessa maneira, o enfermeiro não deve perder a oportunidade de abordar os
homens, aproveitando as situações cotidianas da assistência de enfermagem, na
perspectiva da promoção da saúde e detecção precoce de agravos, no sentido de
orientá-los sobre os fatores de risco e medidas de prevenção relativas ao
câncer de próstata, além de identificar a presença ou não desses fatores e
buscar sinais e sintomas que possam indicar alterações relacionadas.
Com essa iniciativa, espaços de fomento à promoção da saúde do homem podem ser
promovidos, inclusive nas situações do cuidado hospitalar, o que é pertinente
na medida em que os homens, diferentemente das mulheres, procuram os serviços,
na maioria das vezes, para atendimentos de emergência e não de forma deli-
berada e programada para manutenção da saúde(19).
Diante do exposto, sugere-se que os profissionais, nos diferentes espaços de
cuidado, acompanhem os resultados de estudos que apresentem melhores níveis de
evidência em termos de prevenção do câncer de próstata e fatores de risco, o
que também poderá oferecer subsídios para a elaboração e atualização de
protocolos e condutas a serem seguidos.
Considera-se necessário também que novas pesquisas sejam conduzidas na área da
promoção da saúde e prevenção do câncer, bem como que ocorram mudanças na
educação formal da população e no ensino específico dos profissionais da área
da saúde, uma vez que estes podem proporcionar uma maior adesão aos programas
de promoção da saúde e prevenção do câncer pelos indivíduos(20).