Representações de gênero nas relações estudante de enfermagem e cliente:
contribuições ao processo de ensino-aprendizagem
INTRODUÇÃO
Ao abordar as relações de gênero na área da enfermagem, não se pode
desconsiderar a formação histórica dessa profissão, pois sabemos que continua
sendo uma profissão predominantemente feminina, ainda que o número de homens em
seu quadro profissional tenha aumentado, a profissão, por vezes, é encarada
como simples trabalho de mulher(1).
Nessa perspectiva, há uma tendência em associar o cuidado exclusivamente ao
universo feminino, ou seja, a interpretação do cuidado como representativo da
enfermagem no sentido de "maternagem" e significando-o como "essência
feminina". Esta visão reforça o preconceito existente demonstrando que tudo o
que é ligado ao sexo feminino é menos importante(2).
Segundo Bandeira e Oliveira(3), cuidar é atribuído como tarefa de mulher
(enfermeira, mãe, professora, assistente social), tratar/curar é tarefa de
homem (médico, pai, provedor). Isto posto, gera uma dicotomização entre cuidar
e curar, o que acaba definindo uma série de outros conflitos, de relações de
poder e de hierarquia que estabelecem na prática profissional da enfermagem.
Desta forma, ao utilizar a categoria gênero como lente possível para
interpretar essa realidade, as relações de gênero se tornam a novidade que
possibilita fazer a mediação entre a área da saúde e a das ciências sociais,
para pensar o conjunto das relações sociais na sua simultaneidade. A ótica de
gênero possibilita pensar na questão da igualdade e diferença entre os sexos
(4).
A desconsideração das relações de gênero concorre para a existência de lacunas
na formação profissional para lidar com a diversidade da prática profissional.
Trata-se de não preparar o(a) estudante para atender a mulheres vítimas de
violência; para realizar orientação à saúde para aos(às) diversos(as) clientes
que possuem uma orientação do desejo sexual diferente daquela considerada como
"padrão heterossexual"; para atender um(a) travesti/transexual ao chamá-lo(a)
na fila de espera.
Ao realizar um levantamento bibliográfico nas principais bases de dados de
enfermagem, foram encontrados poucos trabalhos que abrangem a temática "Gênero
e Educação em enfermagem"(5-14). Não foi encontrada literatura que abordasse
exclusivamente a categoria gênero na análise das práticas e das narrativas dos
(as) estudantes de enfermagem. As únicas pesquisas que tiveram como sujeito de
estudo os(as) estudantes de enfermagem abordam questões como: a sexualidade(15-
16); regimes de verdade que perpassam a enfermagem e são manifestados por
estudantes de graduação(11); e preconceito de gênero entre estudantes de
enfermagem(13).
Nessa perspectiva, trabalhos que articulam gênero, saúde e educação, contribuem
para compreender e delimitar redes de poder que se colocam em movimento com
determinados conhecimentos, ênfases educativas, instrumentos de diagnósticos e
modos de assistir e educar mulheres, homens e crianças(6).
Assim, é importante salientar a amplitude que a adoção da categoria gênero
possibilita para entender determinadas práticas de assistência à saúde e de
enfermagem, além do alcance e conseqüências de políticas públicas de saúde,
propiciando desta forma uma visibilidade maior para possíveis desigualdades de
gênero.
Desta forma, com base no contexto apresentado e na literatura científica,
formulou-se o seguinte problema: Como as desigualdades existentes nas relações
de gênero influenciam o cuidado prestado à(ao) cliente pela(o) estudante de
enfermagem e quais consequências isso tem para o ensino e prática da
enfermagem?
Utilizou-se um recorte da teoria das relações de gênero, contemplando, desta
forma, a categoria gênero como lente possível para conhecer o objeto, o qual se
caracteriza pelas relações de gênero entre estudante e cliente na prática do
cuidado de enfermagem. Desta forma, encontramos respaldo no referencial teórico
de Joan Scott e outras autoras nacionais, tais como Guacira Lopes Louro e
Dagmar E. Meyer. Essas autoras possuem a mesma abordagem de Scott e estão
relacionadas com o objeto de pesquisa do presente trabalho.
OBJETIVO
Identificar, conhecer e aprofundar o conhecimento sobre as relações de gênero
entre estudantes e clientes na prática do cuidado de enfermagem. Analisar como
as relações de gênero são construídas, legitimadas, contestadas e mantidas no
discurso dos (as) estudantes na relação com a (o) cliente no que concerne à
prática do cuidado de enfermagem.
MÉTODOS
Tratou-se de um estudo com abordagem qualitativa, fundamentado nos pressupostos
da representação social para subsidiar a apreensão e análise das relações de
gênero emergentes da prática do cuidado prestado pelo estudante de enfermagem
ao cliente. O objeto de estudo nesta pesquisa refere-se às relações de gênero
no contato entre estudante-cliente na prática do cuidado de enfermagem.
Para construção das representações sociais é necessário a criação de dois
mecanismos essenciais que transformam o não-familiar em familiar, transferindo-
o para nossa própria esfera particular para depois reproduzi-lo entre as coisas
que nós podemos ver e tocar, e, consequentemente, controlar. O primeiro deles é
denominado "ancoragem", o qual tem como objetivo ancorar idéias estranhas e
reluzi-las a categorias e imagens comuns. O segundo mecanismo, denominado
"objetivação", tem como objetivo transformar algo abstrato em algo quase
concreto, transferir o que está na mente em algo que exista no mundo físico.
Objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma idéia, é reproduzir um
conceito em uma imagem(17-18).
Estabelecendo uma ponte entre a metodologia das representações sociais a ser
usada e o referencial teórico adotado, encontra-se respaldo em Arruda(19) ao
estabelecer algumas associações das teorias de gênero com a teoria das
representações sociais, nos revelando que ambas tecem uma crítica ao binarismo
que antepõe natureza e cultura, ração e emoção, objetivo e subjetivo,
pensamento e ação, ciência e senso comum. Estas duas teorias afirmam a
importância das dimensões subjetiva, afetiva e cultural na construção do saber
e nas ações humanas, e a importância de considerá-las na construção do
conhecimento e no fazer científico.
O presente estudo foi realizado a partir de um "conjunto de dados", o qual é
constituído por 35 entrevistas não-estruturadas, gravadas e transcritas,
totalizando 243 páginas impressas, que versam sobre a relação estudante-cliente
na prática do cuidado de enfermagem. Essas entrevistas foram realizadas com
estudantes de um curso de graduação em enfermagem de uma universidade pública
na cidade de São Paulo, mais especificamente com 28 estudantes do sexo feminino
e sete estudantes do sexo masculino, no período de agosto de 2004 a julho de
2006.
Não houve predeterminação daqueles que deveriam ser entrevistados, qualquer
estudante que estivesse regularmente matriculado no curso de enfermagem da
referida instituição e quisesse participar poderia ser entrevistado. A
abordagem consistiu na colocação da pesquisa e o seu assunto. Caso a pessoa
abordada aceitasse, era entrevistada imediatamente ou posteriormente em horário
agendado.
Quanto ao tipo de instrumento e roteiro utilizado, foi utilizada entrevista
aberta, com roteiro não estruturado, somado ao uso de gravador, após
consentimento. As perguntas norteadoras foram: "Levando em conta as vivências
dos estágios, como você percebe o corpo do cliente e como é a sua relação com
este corpo que recebe os cuidados de enfermagem?", "Quando presta cuidados,
você se sente invadindo a intimidade do cliente?", e "Como você se sente ao
cuidar do corpo de um (a) cliente?".
A presente pesquisa foi submetida ao CEP-UNIFESP e recebeu sendo aprovado pelo
protocolo número 1766/07, atendendo ao parecer 196/96 do Conselho Nacional de
Saúde(20).
A análise dos dados foi feita de acordo com a sistematização proposta por Spink
(18, 21) associada à Teoria do Núcleo Central (22) que é considerada uma
abordagem complementar à teoria mais ampla (representação social). Essa
sistematização abrange as seguintes etapas: transcrição das entrevistas;
leitura flutuante do material, intercalando a escuta do material gravado com a
leitura do material transcrito; atentar para versões contraditórias, detalhes
sutis como silêncios, hesitações, esquecimentos, risos e entonação da voz;
mapeamento dos temas emergentes; construção do discurso: retornar aos objetivos
da pesquisa para definir claramente o objeto da representação; definição do que
é "pano de fundo" e "figura"; levantar as principais dimensões da
representação; construção dos mapas que transcrevem toda a entrevista,
respeitando a ordem do discurso. Os mapas possibilitam a visualização da
relação, associação de idéias entre as dimensões; transportar estas associações
para um gráfico (árvore da representação), pontuando as relações entre
elementos cognitivos, as práticas e os investimentos afetivos.
A partir dessa sistematização e da teoria do núcleo central foi construída a
"árvore máxima" da representação (Figura_1).
RESULTADOS E DICUSSÃO
A "árvore máxima" apresentada na Figura_1 contém o núcleo central (relação
estudante-cliente) e os elementos periféricos que se constituem em dois
principais ramos de representações: "A tríade igualdade/diferença/desigualdade
de gênero" e "A falta de preparo: a lacuna no ensino".
As narrativas das estudantes representam como a equipe de enfermagem atende um
cliente homossexual, pois, segundo ela, sentia que o cliente era discriminado e
que os membros da equipe de enfermagem tinham receio de chegar perto e de tocar
(usou-se o termo "das estudantes" quando o texto se refere especificamente ao
gênero feminino. O mesmo sentido se aplica ao gênero masculino. Quando o texto
considera ambos os gêneros, utilizamos "os" e "as)".
As diferenças, tanto físicas quanto comportamentais, são percebidas e, algumas
delas, podem gerar uma assistência incompleta e inadequada. As narrativas a
seguir representam tal percepção:
Se a pessoa é homossexual, por exemplo, tem a sua vida, eu não vou
discutir se a pessoa é ou não é, a vida sexual dela, porque isso é
íntimo dela. E, a figura, a área do corpo, os genitais e a boca, o
que a pessoa usa ou deixa de usar, eu não vou discutir isso. (E6, F,
4ª série, I)
Eu acho que eu já encontrei muita gente diferente, já fiz estágios,
já encontrei homossexuais, já encontrei pessoas com HIV, já encontrei
gente de tudo quanto é tipo, gente recatada, gente depravada.
Depravado que eu falo assim é aquele sem limites, dá para qualquer
um, quantas vezes quer, sem limites. Não assim "Ah, esse cara é
depravado". Não julgando, mas uma pessoa sem limites.(E6, F, 4ª
série, I)
A análise da primeira narrativa expõe que a não discussão pode significar a
desconsideração do cuidado voltado para a orientação em saúde sexual. A
percepção que a estudante teve da orientação do desejo sexual do cliente,
diferente da sua, pode revelar um despreparo em lidar com questões de gênero e
diversidade sexual.
No tocante dessa narrativa, torna-se relevante trazer à discussão uma ética
feminista, defendida por Lunardi(23). Segundo esta autora, em nossa sociedade
e, especificamente, na saúde e na enfermagem, de modo predominante, estão
presentes muitas relações de desigualdade, seja entre os(a) trabalhadores(a),
seja entre estes(as) e os(as) clientes, o que requer não uma ética pautada na
neutralidade, no tratamento da desigualdade apenas como diferença, mas uma
ética comprometida com a maioria dos que se encontram em situação de opressão.
A opção pela ética feminista significa a opção pelo enfrentamento da superação
de relações opressivas e desiguais em qualquer campo e dimensão social.
Pela segunda narrativa a percepção da diferença leva a uma dimensão de
desigualdade no cuidado pela consideração preconceituosa ("depravado, "sem
limites) do cliente. A expressão do preconceito tanto é realizada de forma
implícita, observado na última narrativa, quanto de forma explícita:
Eu acho que infelizmente eu ainda tenho preconceito, infelizmente. Eu
vou tentar, eu vou conseguir trabalhar isso, porque eu penso de uma
forma que eu não gostaria de pensar que é "Se tem HIV, muita coisa
errada ele fez, se não foi por transar sem camisinha foi por
promiscuidade, se não foi assim foi usando droga injetável com a
mesma seringa o que é pior. Então, eu acho assim, eu fico pensando
assim "Que pessoa errada, estava merecendo mesmo passar por isso". E
eu depois paro para pensar, eu falo "Não acredito que eu, uma quase
enfermeira está pensando e falando dessa forma, não, tem que mudar,
eu vou tentar mudar e eu vou mudar, porque eu acho você pensar dessa
forma.", mas infelizmente eu ainda penso desse jeito, mas eu vou
mudar.(E6, F, 4ª série, II)
A partir dessas narrativas suscita a seguinte questão: como os (as) estudantes
de enfermagem, futuros (as) enfermeiros (as) e educadores (as) em saúde
expressarão os ideários de saúde livres de preconceitos de gênero?
Infelizmente, nos limites deste trabalho, os resultados expressam que suas
práticas atuais já contêm elementos preconceituosos que interferem em uma
assistência integralizada.
Os estereótipos sexistas se referem às práticas e representações, ideologias e
aos preconceitos. Eles funcionam em relação às mulheres para atribuir-lhes
qualidades consideradas inferiores em relação aos homens. E, na perspectiva
representada pela narrativa da estudante, o estereótipo sexista também abrange
as conotações referidas para as pessoas com orientação do desejo sexual e/ou
práticas sexuais consideradas diferentes da tradicionalmente conhecida, ou
seja, heterossexual(24).
A partir do que foi exposto, apreende-se que o corpo do cliente não é percebido
pela estudante apenas como um corpo doente ou saudável. A doença também é
construída a partir de conceitos anteriores, os quais sexualidade, gênero e
orientação do desejo sexual se fazem presentes.
Os corpos são significados pela cultura e são por ela alterados. Devemos
problematizar como determinada característica passou a ser reconhecida e
significada como uma 'marca' - como, por exemplo, o pênis, a vulva, os pêlos,
os músculos - definindo uma determinada identidade. Além disso, também se deve
problematizar quais os significados que, nesse momento e nessa cultura, estão
sendo atribuídos a tal marca ou a tal aparência, pois pode ocorrer que os
desejos e as necessidades que alguém experimenta estejam em discordância com a
aparência de seu corpo(25).
A partir dessa perspectiva, uma forma de sexualidade é generalizada e
naturalizada, além de funcionar como referência para todo o campo e para todos
os sujeitos. A heterossexualidade é concebida como "natural" e também como
universal e normal. Aparentemente supõe-se que todos os sujeitos tenham uma
inclinação inata para eleger como objeto de seu desejo, como parceiro de seus
afetos e de seus jogos sexuais alguém do sexo oposto(25). Consequentemente, as
outras formas de sexualidade são constituídas como antinaturais, peculiares e
anormais.
Desta forma, essa heterossexualidade presumida, segundo a narrativa da
estudante, aparece como um padrão assumido pelos(as) estudantes como sinônimo
de normal, e consequentemente, tudo que foge a esse padrão heterossexual é
doença ou desvio.
A sociedade busca, intencionalmente, através de múltiplas estratégias e
táticas, "fixar" uma identidade masculina ou feminina "normal" e duradoura.
Esse intento articula, então, as identidades de gênero "normais" a um único
modelo de identidade sexual: a identidade heterossexual(25).
Nessa perspectiva, deve-se ampliar a compreensão do ser humano para não ser
visto apenas como um corpo onde a saúde ou a doença se instalam. Por essa
razão, torna-se necessário o entendimento de que o (a) cliente precisa ser
cuidado (a) na sua totalidade, o que implica discutir as categorias que o
compõem, tais como etnia, classe, gênero, sexualidade, geração, nacionalidade e
religião.
O elemento periférico "construção social da diferença", aborda os seguintes
discursos das estudantes de enfermagem:
A gente sabe que o homem tem um pênis e a mulher não tem, mas como
lidar com ele? Como na sua prática, você vai poder pegar sem causar
constrangimento para ele e para você?(E3, F, 2ª série)
Eu só tenho irmã, mulher em casa, eu nunca vi homem pelado. Eu nunca
tive relacionamento sexual com ninguém. Eu acho que é próprio do ser
humano, senão não iria se vestir né. Se não tivesse tanta vergonha a
gente iria andar pelado pelo mundo "eh, que beleza". Então, é
próprio, é aquela coisa que você tem. E aí na hora, eu não consegui
ver o paciente como algo sexuado, mas como alguém que está precisando
de você. Não sei, eu não consegui ver um ser sexuado lá.(E4, F, 2ª
série)
A partir da narrativa exposta anteriormente, percebe-se que o gênero nos leva a
considerar que as próprias instituições, os símbolos, as normas, os
conhecimentos, as leis e políticas de uma sociedade são constituídas e
atravessadas por representações e pressupostos de feminino e de masculino e, ao
mesmo tempo, produzem e/ou ressignificam essas representações(26).
Desta forma, é importante que se reconheça que as diversas instituições
sociais, entre elas a escola, não apenas reproduz ou reflete as concepções de
gênero e sexualidade que circulam na sociedade, mas também que ela própria as
produz. Tal fato pode ser exemplificado pela seguinte afirmação que objetiva a
diferenciação sexual: "Meninos têm pênis... e meninas têm vagina"(27).
Pelas representações das estudantes, apreende que o gênero constrói o sexo,
pois a partir de uma diferença sexual (genitália) são construídas as
características consideradas masculinas e femininas. O que se percebe como
diferença pode se caracterizar numa dimensão de igualdade ou desigualdade no
cuidado. Porém, pelos discursos das estudantes de enfermagem, a representação
dessa diferença é caracterizada da seguinte forma:
É porque a gente é criada assim, com essa diferença. O menino é o
homenzinho, namorador, tem que sair pra provar que é homem. E a
menina não, a menina é mais na dela, ela tem que se comportar, ela
não pode se misturar muito com os meninos, porque senão já é moleque.
(E14, F, 3ª série)
Eu acho que todas as pessoas têm fisiologicamente desejo sexual, mas
eu acho que mais em relação aos homens que eles têm realmente essa
necessidade de ter relações sexuais não sei quantas vezes por semana,
por mês, dizem assim, cultural do homem ter mais desejo do que a
mulher.(E9, F, 4ª série)
No tocante a essas narrativas, percebe-se que ser homem ou ser mulher
corresponde a pertencer ao gênero masculino ou feminino. Tal relação de
pertencimento a um gênero prevê a negação e o distanciamento ao sexo que não é
o seu, o chamado sexo "oposto"(28).
Os resultados desta pesquisa expressam que o elemento periférico "cuidado ao
outro gênero" é representado pela facilidade que o (a) estudante de enfermagem
tem ao cuidar um(a) cliente que possua o mesmo gênero que o seu. A seguir são
apresentadas as narrativas correspondentes aos elementos periféricos "mulher
cuidando de mulher", "mulher cuidando de homem", "homem cuidando de homem" e
"homem cuidando de mulher".
Acho que se fosse mulher não teria tanto problema, porque mulher com
mulher é normal, agora por ser homem, porque para passar sonda você
tem que pegar o pênis do paciente, essa é a parte chata, você tem que
literalmente pegar inteiro, acho que isso é a parte mais chata, e o
homem também fica constrangido por ser uma menina novinha, aluna, ele
também fica constrangido, você percebe isso. É nesse fato o contato
direto que é complicado, que eu achava, agora não tem mais problema.
(E8, F, 4ª série)
Às vezes, o homem erotiza o toque. É muito complicado. Eu não sabia
como lidar, por exemplo, se eu estivesse que passar uma sonda em
homem e o cara tivesse uma ereção.(E11, F, 4ª série, I)
Eu acho que com o homem é mais natural, é mais natural porque, assim,
teoricamente ele tem o mesmo sexo que você, eu acho que ele se sente
mais a vontade, passa mais segurança pra você. Agora mulher, você vê
que ela fica mais constrangida, ela fica mais envergonhada. Ela vai
passar essa insegurança pra você, e você vai se sentir invadindo a
intimidade dela. Mas no homem por esse lance de igualdade, de sexo
né, você fica mais tranquilo. (E7, M, 4ª série)
Eu procuro ficar calmo, porque principalmente quando é mulher você
fica meio tenso, mas eu procuro respirar fundo, eu procuro colocar na
minha cabeça que é um procedimento, que tem uma finalidade e presto o
cuidado na boa assim.(E7, M, 4ª série)
Essas narrativas demonstram a representação histórica do cuidado com o corpo
humano demarcado pelo rompimento entre os conceitos de sagrado e profano,
estabelecidos pelo Cristianismo, impossibilitando o acesso a áreas "proibidas",
como os órgãos sexuais. A realização de procedimentos técnicos ao corpo, só era
possível por meio de instrumentais, como forma de manter a impessoalidade e a
distância necessária para a não contaminação com o corpo profano e pecaminoso
(29).
Essa discussão nos remete à categoria sexualidade, considerada um tabu e,
portanto, marginal na enfermagem por ser relacionada nas áreas biológica e
biomédicas com as dimensões do ato sexual e da reprodução. Tal perspectiva
biologicista estendeu-se à formação dos profissionais da área da saúde e
concentra-se fixa na dimensão da genitalidade, o que é uma das tantas dimensões
que constituem a sexualidade(30).
Ao lidar com o corpo masculino, a estudante adquire certas formas de defesa
para lidar com sua dificuldade e constrangimento, como "vestir uma máscara de
cara de pau", "vou encarar isso como profissional mesmo", "não vou colocar nada
de sentimentos". A partir da criação dessas formas de defesa, a estudante deixa
de prestar um cuidado integral ao cliente, caracterizando sua assistência de
enfermagem em um cuidado fragmentado e assexuado.
Segundo as narrativas das estudantes de enfermagem, cuidar de mulher é melhor e
mais fácil, pois elas conhecem o corpo feminino. Porém, cuidar de um homem
acarretaria dificuldade pela representação de que o homem "é mais fechado", "se
reserva mais do que a mulher", "não conta suas emoções, por essa questão do
machismo". Essa dificuldade em prestar cuidado ao gênero que não é o seu é
representada pela idéia de que o "homem é o sexo oposto, tem sentimento
diferente do que numa mulher".
As representações dos (as) estudantes de enfermagem expõem a necessidade de
desconstruir a oposição binária existente entre o masculino e o feminino nas
práticas do cuidado de enfermagem, nas quais as estudantes diferenciam o
cuidado prestado ao cliente do gênero masculino, assim como o faz o estudante
ao cuidar de uma cliente(31).
As narrativas dos (as) estudantes representam "a mulher" e "o homem" como
categorias homogêneas e excludentes, porém existem muitas e conflitantes formas
de definir e viver a feminilidade e a masculinidade. Desta forma, o conceito de
gênero enfatiza essa pluralidade e conflitualidade dos processos pelos quais a
cultura constrói e distingue corpos e sujeitos femininos e masculinos,
tornando-se necessário admitir que isso se expressa pela articulação de gênero
com outras categorias sociais, tais como classe, raça/etnia, sexualidade,
geração, religião, nacionalidade(26).
Dentro das relações de gênero entre estudante e cliente, o (a) estudante
representa uma diferenciação do que é considerado universo masculino polarizado
ao universo feminino. Em nenhum momento das narrativas dos (as) estudantes foi
expressa a palavra "gênero", o que pode refletir, no âmbito deste estudo, um
desconhecimento dessa categoria de estudo, assim como uma lacuna no ensino de
enfermagem. Os (as) estudantes representam as diferenças sexuais percebidas nas
relações como os (as) clientes, porém não percebem que a prática profissional
da enfermagem é permeada pelas relações de gênero.
Gênero é a organização social da diferença sexual. O que não significa que
gênero reflita ou implemente diferenças físicas fixas e naturais entre homens e
mulheres, mas sim que gênero é o saber que estabelece significados para as
diferenças corporais. Esses significados variam de acordo com as culturas, os
grupos sociais e no tempo, pois nada no corpo, incluindo os órgãos reprodutivos
femininos, determina univocamente como a divisão social será definida(32).
O eixo temático "A falta de preparo: a lacuna no ensino" revela tanto uma falta
de preparo por parte dos docentes em lidar com o tema corpo/gênero/sexualidade
quanto por parte dos (as) estudantes. Essa falta de preparo é representada por
uma lacuna no ensino, pois não há um ambiente que proporcione ao (à) estudante
de enfermagem expressar suas dificuldades e sentimentos.
Os estudantes de enfermagem ao realizarem o exame de Papanicolaou representaram
a atuação do (a) professor (a) como um obstáculo que impede as práticas do
estágio, ou mesmo sua ausência como fator negativo, correspondendo a um
preconceito de gênero:
"E o que eu senti falta foi da presença da professora nesse sentido.
Ela tinha um certo preconceito já com o homem em relação a essa
questão e ela tentou de todas as formas impedir a nossa participação
nas coletas, não deu nenhum apoio em nenhum momento. A gente
conversou com ela, a gente quer aprender, a gente quer fazer, a gente
quer estar lá junto, ela falava não e que as mulheres ficavam
inibidas".(E10, M, 4ª série)
Corroborando com esta representação, encontra-se respaldo na tese de Nascimento
(7), a qual disserta sobre a "consciência de gênero" e ensino de enfermagem das
mulheres-enfermeiras-professoras, um estudo da reprodução de relações
(desiguais) de gênero. Embora Nascimento faça uso da expressão "consciência de
gênero", prefiro substituí-la para a expressão "desconsideração das relações de
gênero", pois "consciência" envolve percepção, idéia, compreensão ou
conhecimento daquilo que se passa e a capacidade crítica de avaliar um dado.
Assim, acredito que os(as) professores(as) não estão preparados(as) para
trabalhar com essas questões devido ao desconhecimento da utilização da
categoria gênero nos discursos e nas práticas de cuidado em saúde.
Desta forma, a desconsideração das relações de gênero pelos (as) professores
(as) apresenta-se de um modo tal que não lhes permite o desenvolvimento da
crítica à dominação de gênero. Em conseqüência, os(as) professores(as)
reproduzem relações desiguais de gênero no exercício de sua prática docente
capazes de manter a subordinação/submissão das enfermeiras quando no exercício
profissional. No estudo de Nascimento, foi possível depreender dos relatos das
professoras a idéia difundida na enfermagem de que, no exercício profissional,
tanto o pessoal que trabalha na área da saúde quanto os pacientes expressam sua
sexualidade(7).
A falta de pesquisas sobre o papel do homem na enfermagem tem deixado de trazer
a experiência vivenciada por estudantes e profissionais sobre como se dá a
compreensão e a incorporação desse papel durante a formação e a vida
profissional(33). Assim, o estudante de enfermagem se sente despreparado em
certas disciplinas da grade curricular, conforme pode ser observado na
narrativa a seguir:
Eu acho que tem uma inexperiência, a gente não teve aula de como
abordar essas intercorrências, alguma técnica pra ficar
despreocupado, pra onde olhar durante o exame. Podia dar dicas porque
nós somos inexperientes, "não faça esse tipo de pergunta". Por
exemplo, eu não sabia, na primeira paciente, se "tira a roupa", "tira
a vestimenta" ou "por favor, eu vou te examinar". Eu tentava falar
delicadamente "Olha, por favor, senhora, poderia tirar a
vestimenta?", aí na outra "Você poderia tirar a saia?". Você não sabe
qual a melhor pergunta na hora. Eu acho que faltou também um pouco de
psicologia.(E12, M, 2ª série)
Diante da dificuldade expressa pelos estudantes de enfermagem, torna-se
importante expor a discussão do uso do artigo gramatical masculino em alguns
textos e o uso do artigo gramatical feminino em outros. Assim, como a
enfermagem era anteriormente só feminina, justificava o uso do feminino. No
entanto, quando entraram os homens, principalmente nas forças armadas, começou
a usar, também, o artigo masculino. Essas percepções e dificuldades em romper
com tal esquema opressivo fizeram com que até bem pouco tempo atrás, e ainda em
muitos estudos atuais, ao traçar alguma referência ao profissional de
enfermagem por escrito ou verbalmente, fosse utilizado o termo enfermeiro, como
uma forma de reforçar uma identidade pública superior masculina(34).
Uma das formas da grande confusão de identidade na enfermagem entre o binômio
(enfermeiro-enfermeira) mostra que identidades sexuais, e não basicamente de
gênero, formam um agir e falar como enfermeiro, para legitimar a prática como
poder. Porém, como a prática é essencialmente feminina, mantém-se o papel
submisso, apesar da utilização do termo no masculino(34).
A partir dessa discussão, o elemento periférico "medo de assédio sexual"
desvela as representações ao que tange tanto por um receio por parte dos(as)
estudantes de enfermagem em sofrerem assédio sexual provenientes dos(as)
clientes, quanto por um receio de cometerem assédio sexual na prática do
cuidado de enfermagem, no que tange aos cuidados nos genitais e procedimentos
que envolvem a invasão da privacidade e intimidade do(a) cliente.
O medo de cometer ou sofrer assédio sexual é representado pelas seguintes
narrativas:
Eu tenho medo da pessoa interpretar o toque da forma que não é para
interpretar, porque eu estou trabalhando, estou fazendo alguma coisa
que de alguma forma é terapêutica para esse paciente. E muitas vezes,
não sei... Já ouvi relatos de umas colegas que nunca aconteceu, mas
muitas vezes, a pessoa te chama pra sair, depois... Porque acha que
aquele toque significou alguma coisa. Comigo, nunca aconteceu. Espero
que nunca aconteça porque acho extremamente constrangedor,
extremamente desrespeitoso... Você está trabalhando.(E11, F, 4ª
série, I)
E já aconteceu assim comigo de paciente, tipo, eu estava cuidando
dele e o paciente do lado, que era muito próximo, e o paciente
começou a fazer gracinha, a chamar de tchutchuca, uns nomes assim...
começar mesmo a partir pro modo sexual da coisa, de enfermeira,
aquela imagem da enfermeira erótica. E aí eu chamei minha professora,
eu estava no segundo ano, chamei a professora e conversou com o
paciente, falou que a gente estava lá pra fazer nosso trabalho, que
era um trabalho sério.(E9, F, 4ª série)
Segundo as representações das estudantes apreendem-se situações caracterizadas
por violência de gênero, que pode ser entendida por relações assimétricas de
poder entre homens e mulheres, nas quais a mulher freqüentemente encontra-se em
situação de subordinação(35).
Em um estudo realizado por Oliveira e D'Oliveira(35), que teve como sujeitos
179 profissionais de enfermagem de um hospital geral, revelou que uma em cada
três (33,3%) mulheres referiu violência física ao menos uma vez na vida. A
violência sexual, considerada grave em todas as suas expressões, foi referida
por 28,2% das mulheres, sendo 41 (23,2%) relatos referentes à relação sexual
forçada.
Os principais agressores para a violência psicológica foram na maioria dos
casos os homens colegas de trabalho (39,7%) e chefia (23,5%). Os principais
agressores da violência física foram pacientes e acompanhantes (47,7%) e
estranhos (36,8%); para violência sexual 42,8% foram de pacientes e
acompanhantes e 57,1% foram de estranhos. Colegas de trabalho e chefias não
foram relacionados a nenhum caso de violência física e/ou sexual(35).
Quanto à revelação, estudos apontam a sub-informação das experiências de
violência nas relações de intimidade por ser uma situação estigmatizante,
envolvendo vergonha e medo. A violência por outros agressores representou a
segunda maior taxa de violência. O ambiente de trabalho foi o principal locus
da violência psicológica cometida, majoritariamente, por colegas de trabalho,
chefia e pacientes/acompanhantes(35).
A partir da análise das representações sobre o elemento periférico "medo de
assédio sexual", percebeu-se uma necessidade dos(as) estudantes de mecanismos
de defesa para manipular as situações constrangedoras vivenciadas na prática do
cuidado de enfermagem. Dentre os mecanismos de defesa observou-se uma
representação de configurações pertinentes a uma possível divisão sexual nos
procedimentos de enfermagem resultantes da prestação de cuidados que implicam a
exposição dos genitais das (os) clientes. No que tange a esses cuidados
específicos, os(as) estudantes tentam se precaver e se respaldar a partir da
presença de uma pessoa que possua o mesmo gênero que o(a) cliente:
Eu acredito muito que o ser humano tenha uma boa fé, existem pessoas
boas, só que também têm pessoas que não tem uma boa índole que agem
de má fé. E eu já vi alguns relatos, em entrevistas, em jornais, de
pacientes que entram em processo, processam colegas da gente,
enfermeiros, por assédio sexual ou por atentado ao pudor. Então, se
você está num exame íntimo, está você e a paciente, de repente, é
claro, a gente nunca está esperando isso, de repente, vai que aquela
paciente, no exame, ela ache que você fez algo que não deveria ter
feito, então quem vai provar que você não fez nada daquilo. Se for
outro homem podem alegar que vocês dois, um homem ajuda outro homem e
juntos com a paciente, então por isso que eu procuro estar com uma
mulher do meu lado, uma auxiliar de enfermagem, porque ela fica do
meu lado, me auxilia com o material, para preencher as lâminas, pra
realmente, se a paciente falar alguma coisa eu tenho uma pessoa que
testemunhe todo o exame. Eu recomendo aos meus colegas que estão se
formando é que façam sempre o exame ginecológico com outra pessoa do
lado. (E8, M, 4ª série)
Durante o período dos estágios os(as) estudantes estão acostumados(as) a
colherem a histórica clínica do(a) cliente e reunir dados do prontuário, sinais
vitais, exames laboratoriais e de imagens, para apresentar um estudo de caso do
(a) cliente que estão cuidando. O caso é discutido perante o exame minucioso da
doença. O planejamento dos cuidados é traçado a partir da sistematização da
assistência de enfermagem (SAE). Porém, não há a discussão de casos que
contemplem essas experiências vivenciadas pelos (as) estudantes e as
subjetividades que emergem em cada situação. Assim, gênero e sexualidade, como
outras categorias, estão nas margens da grade curricular de enfermagem.
O elemento periférico, "Saúde da Mulher", emerge do eixo "A falta de preparo: a
lacuna no ensino", pois os (as) estudantes de enfermagem representam o corpo da
mulher para além do que é considerado no discurso da área da saúde, o qual
expressa o corpo da mulher como invólucro sexual para atividades reprodutivas.
Desta forma, os (as) estudantes de enfermagem percebem as subjetividades que
emergem na relação com a cliente, porém não recebem preparo para lidar com
elas, especialmente ao testemunhar um momento de violência contra a mulher:
Eu não peguei nenhum parto feito por enfermeira, eu só peguei parto
pelo médico, mas eu acho que... foi horrível, a paciente extremamente
exposta e o linguajar com a paciente é horrível, de falar "Tá vendo,
não foi bom fazer?", isso não foi uma vez só que eu ouvi. Outro caso
foi de falar assim para a paciente "Tá vendo, foi comer, tá gorda
igual um hipopótamo, agora está tendo um hipopotamozinho", nem sei
como se fala. E assim, um desrespeito com o paciente e aí, eu sempre
me coloco se fosse eu, eu fico muito chateada de ver quando fazem
isso com os pacientes, porque se põe na situação e dá uma tristeza
muito grande, em relação ao profissional, o descrédito em relação a
você se colocar na mão de um profissional que vai fazer um comentário
sobre você depois, que não vai te respeitar, é muito triste isso.
(E3, F, 3ª série)
A partir dessa narrativa, torna-se importante citar o Programa de Assistência
Integral à Saúde da Mulher (PAISM), formulado em 1983 pelo Ministério da Saúde.
Esse programa tem como proposta a ampliação da atenção à mulher e novas formas
de relacionamento que deve basear-se no respeito mútuo, no diálogo e na
transmissão de informações que dizem respeito à saúde integral da mulher. Esses
itens foram inspirados no ideário da autonomia e integralidade da pessoa, que
tem como um dos pontos importantes a apropriação do conhecimento sobre seu
corpo. Esse conceito contém a proposta de uma ruptura com normas e leis
heterônimas que sempre definiram e controlaram o corpo feminino(14).
Porém, o que se observa na representação da estudante de enfermagem sobre a
atuação da equipe de saúde é o contrário da proposta do PAISM, principalmente
na violência psicológica sofrida pela cliente por meio da linguagem
estabelecida pelos (as) profissionais da equipe de saúde.
Desta forma, é na linguagem que operam os sistemas simbólicos que nos permitem
entender nossas experiências e definir aquilo que nós somos ou pensamos ser.
Todas as práticas de significação e os processos simbólicos através dos quais
os significados são construídos envolvem relações de poder: o poder de nomear,
de descrever, de classificar, de identificar, de diferenciar, o poder de
definir, enfim, quem está incluído e quem está excluído(36).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa permitiu desvelar elementos importantes das representações
sociais dos(as) estudantes de enfermagem acerca do(a) cliente para compreender
as construções sociais sobre os objetos sociais (clientes) e a apropriação que
faz o sujeito (estudantes) destas construções, ao utilizar como lente a
categoria gênero.
Os resultados apresentam representações das categorias masculino e feminino
como homogêneas. Porém, essa representação se torna limitada ao expor as
práticas de cuidado que os(as) estudantes vivenciam em seus estágios e na
relação entre o(a) cliente. A polaridade masculino-feminino revela uma divisão
binária que é considerada uma forma limitada da visão do mundo, a partir de
duas posições. Assim, o padrão de ver o mundo pode ser caracterizado pelas
seguintes posições: homem, branco, de classe média, heterossexual. Porém, a
sociedade é múltipla por meio da variedade das intersecções das diversas
categorias.
O processo de objetivação e ancoragem das representações sociais dos(as)
estudantes de enfermagem sobre a relação com o(a) cliente na prática do cuidado
revelou que o(a) estudante representa o(a) cliente como ser assexuado, porém ao
representar as diversas situações na relação com o(a) cliente em situações
constrangedoras, revelam um discurso que assemelha a enfermagem com as imagens
polarizadas na dicotomia Eva/Maria, no passado, e no presente pelas imagens
metafóricas de "enfermeira do funk" e seu pólo oposto, "anjo assexuado".
Este estudo, ao conhecer como se expressam e se desenvolvem as relações de
gênero nas narrativas dos(as) estudantes de enfermagem a partir de suas
representações sobre a relação com a(o) cliente no universo do cuidado, fornece
conhecimento para transcender a oposição binária sem desvalorizar, ou
supervalorizar, o masculino e o feminino, e a construção de relações de gênero
nas quais o feminino e o masculino não fossem polarizados e hierarquizados, de
modo a resultarem em desigualdades no contexto na saúde.
A partir dessas questões e pela árvore máxima apresentada, percebe-se a
necessidade de trabalhar concomitantemente com as categorias corpo, gênero e
sexualidade. Essa interface propicia o enriquecimento de discussões acadêmicas
e pode ser compreendia, no âmbito deste estudo, como campo de conhecimento da
saúde e da enfermagem como uma prática de relações, na qual o(a) profissional
de saúde está inserido(a) em um contexto historicamente determinado. Em tal
contexto, trabalha-se com representações simbólicas, para muito além de corpos
estáticos, fragmentados, assexuados e desprovidos de gênero.