Vivenciando a experiência da parturição em um modelo assistencial humanizado
INTRODUÇÃO
Enfermeiras obstetras que somos, envolvidas com a assistência de enfermagem à
parturiente e vivenciando a transformação dos modelos assistenciais na área
obstétrica, fomos tomadas por reflexões e inquietações que nos levaram a
questionar a forma como a mulher vivencia o processo da parturição em
instituições que adotam como modelo a humanização do parto e nascimento.
A assistência humanizada proporciona às mulheres um forte sentimento de
confiança e segurança durante o parto e ao cuidar de seu filho. Muitas têm uma
experiência maravilhosa de auto-transformação, sentindo-se capazes em seu novo
papel social. Esta experiência estimula a conscientização e o interesse pela
sociedade, tendo como conseqüência o fortalecimento social.
Estudos comprovam os benefícios físicos e psicológicos à mulher que o modelo
assistencial humanizado proporciona, modificando o conceito social da
parturição(1-3).
Humanizar o parto significa colocar a mulher no centro e no controle como
sujeito de suas ações, participando intimamente e ativamente das decisões sobre
seu próprio cuidado. Sendo assim, a equipe atua como facilitadora do processo
(4-5).
A Organização Mundial da Saúde(6)propõe a humanização da assistência ao parto
com o objetivo de promover o parto e o nascimento saudáveis e a prevenção da
mortalidade materna e perinatal, com intervenções criteriosas, evitando-se
excessos na utilização dos recursos tecnológicos disponíveis.
O parto é uma experiência marcante para a mulher, podendo deixar lembranças
positivas ou negativas como sofrimento, medo de engravidar novamente e
depressão(3,7).
Assim, os profissionais ao assistirem a parturiente precisam compreender como
sua clientela vivencia a parturição, atender suas carências individuais, com
sua participação ativa e poder de escolha, vislumbrando um modelo que possa
levar a uma efetiva humanização do parto.
Neste contexto, pressupõe-se que uma assistência considerada humanizada pode
ser vivenciada pelas parturientes de maneira diferente da que é esperada,
podendo não proporcionar sentimentos positivos. Diante do exposto o presente
trabalho teVE como objetivo compreender as experiências das mulheres que
vivenciaram o trabalho de parto e parto em um hospital, cujo modelo
assistencial tem como finalidade a humanização do processo de parturição.
MÉTODOS
Diante do objetivo proposto, optou-se pelo estudo qualitativo com enfoque
fenomenológico, por possibilitar a compreensão dos fenômenos em sua essência,
por meio das vivências e percepções dos sujeitos, permitindo conhecer os
sentimentos desencadeados nas mulheres ao experienciarem a parturição em um
modelo assistencial humanizado.
Os dados foram coletados nas enfermarias de Alojamento Conjunto de um hospital
público, vinculado a Secretaria de Estado da Saúde da cidade de São Paulo, cujo
modelo assistencial tem como finalidade, precípua, a humanização do processo da
parturição e uso adequado da tecnologia.
Os sujeitos deste estudo foram oito puérperas. Os critérios de inclusão foram
ausência de intercorrências clínicas ou obstétricas, durante o trabalho de
parto e parto.
Para a coleta de dados, foi utilizada a entrevista semi-estruturada que
possibilitou o alcance da profundidade necessária para compreender as
experiências relatadas, sendo iniciada com a questão: "Como foi para você
vivenciar o trabalho de parto e parto nesta instituição?" Ressalta-se que esta
ocorreu somente após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido.
A coleta dos dados encerrou-se mediante a saturação dos dados, ou seja, quando
parte da essência do fenômeno foi desvelada, conforme os pressupostos da
fenomenologia, sendo concluídas oito entrevistas.
Todos os procedimentos para execução do estudo obedeceram às normas éticas
exigidas pela Resolução no 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sendo
realizado com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal de São Paulo.
O método proposto por Giorgi(8), foi utilizado como referência na análise dos
dados, após ser adaptado para este estudo. Este método tem uma tendência
voltada para o objetivo do estudo, e se destina a empreender pesquisas sobre
fenômenos humanos tais como vividos e experienciados.
Neste sentido, após a transcrição das entrevistas, a leitura exaustiva dos
conteúdos, permitiu captar como o fenômeno se apresenta ao sujeito,
considerando sua consciência em relação intrínseca com o objeto. Foram
realizados cortes que resultaram em partes denominadas "unidades de sentido",
agrupadas por semelhança em subtemas que foram reagrupados em dois temas:
Suportando o trabalho de parto, Tendo oportunidade de resgatar a autonomia. E o
fenômeno desvelado foi Vivenciando a Ambiguidade da parturição em um modelo
assistencial humanizado, apresentado em um terceiro tema.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Suportando o trabalho de parto
As puérperas vivenciaram o processo da parturição sob o controle da equipe,
despreparadas, sofrendo e se frustrando em suas expectativas, ao pensarem que
sentiriam menos dor na assistência humanizada, experienciando a ambigüidade
entre o esperado e o vivido.
Nesta perspectiva, as mulheres foram suportando o trabalho de parto, por
sentirem-se controladas, sofrerem por sentir dor, medo, fraqueza, culpa e
ansiedade, conforme ocorre desde a institucionalização do parto, na obstetrícia
hospitalar tradicional, que estabelece, indiretamente, como comportamento ideal
da parturiente, a passividade, a obediência e a resignação.
Assim, surgiram os subtemas: sentindo-se frustradas em suas expectativas e
sofrendo durante o processo da parturição.
No presente estudo, as mulheres entrevistadas chegaram à instituição com suas
experiências, sonhos, fantasias e expectativas formuladas durante a gestação,
assim, vivenciaram a parturição sentindo-se frustradas em suas expectativas,
desapontando-se ao não esperarem tanto sofrimento e ao pensarem que o
nascimento ocorresse ao começar a dor, se deparando com a ambiguidade entre
suas pré-concepções e a parturição.
"... achei que começava a dor já tinha logo o bebê..."
"...eu esperava ser diferente...esperava não sofrer tanto..."
O movimento em prol da humanização redefiniu, erradamente, a experiência de dar
à luz como potencialmente positiva, e as gestantes começaram a desenvolver
expectativas de um parto com menos dor e feliz, porém humanizado não quer dizer
sem dor.
Assim, as mulheres foram suportando o trabalho de parto, e esta constatação
leva a reconhecer a necessidade de repensar a prática que, até então, é
considerada humanizada, mudando-se posturas profissionais para que sejam
identificados os verdadeiros sentimentos maternos, compreendendo a experiência
no parto para, a partir daí, modificar os conceitos sociais que envolvem a
parturição.
Outro conceito que precisa ser desconstruído é o da idéia de que a única
posição para dar a luz é a litotômica, porém as mulheres necessitam de preparo
para vivenciar o parto, em outras posições, como na posição lateral esquerda,
pois sentiram câimbras nos membros inferiores.
"... achava que seria normal, mas foi na posição lateral ...ouvi os
outros falarem do parto na lateral..."
"... na lateral foi mais dolorido, senti câimbra na perna..."
O conceito social de que parto representa risco, envolve sofrimento é um
procedimento médico que requer alta tecnologia, precisa ser desconstruído. Isto
deve ocorrer sem gerar outra crença incorreta, pois alguns relatos das mulheres
evidenciaram que o movimento para humanização divulgou a concepção de um parto
feliz, sem dor e sem sofrimento, e na realidade nem sempre ocorre desta forma.
Como apresentado anteriormente, não é toda gestante que vivencia processos
educativos durante o período pré-natal, sobretudo no que diz respeito a outras
posições de parto.
Ações educativas devem contribuir para a aproximação da mulher à realidade do
processo da parturição, para que o vivencie conforme imagina, e ainda, podem
propiciar o surgimento de um novo paradigma de assistência, capaz de
ultrapassar as fronteiras da simples informação, que limita a capacidade da
mulher e favorece sua submissão(4-5).
Em relação ao feto, a mulher sente que, como mãe, tem o dever de ajudar e faz o
que é proposto sem expor suas opiniões e sentimentos.
O medo das mulheres acerca do bem-estar de seu filho surge durante a gestação
(7). Neste sentido, pressupõe-se que situações consideradas anormais pelas
parturientes podem potencializar este sentimento.
Desta forma, as mulheres foram sofrendo durante o processo da parturição e se
sentiram culpadas por não se ajudarem durante o processo e não contribuir com a
equipe, suportando o trabalho de parto.
"... não me ajudei, o problema foi eu... não ajudava mesmo..."
Este sentimento feminino pode ser reforçado pelos profissionais ao culparem a
mulher por não fazer força no período expulsivo, através de expressões
comumente utilizadas como: "você não está ajudando".
Nesta realidade de tolerância, resignação e sofrimento, as mulheres relataram
uma dor intensa, horrível e prolongada, mas aceitaram e suportaram, referindo
que compensou senti-la ao ver seus filhos, demonstrando sentimentos ambíguos.
"... foi bom depois... compensa a dor ao ver o bebê..."
"... a dor foi o tempo todo, desde que cheguei até o nascimento...
foi horrível sentir dor o dia todo..."
As puérperas entrevistadas vivenciaram o processo doloroso surpreendendo-se com
a intensidade da dor, percebendo-a como crescente e que só termina com o
nascimento.
"... não imaginava que era tanta dor..."
"... a cada hora a dor vai aumentando, perto do parto aumenta
mais,... e só melhora depois que nasce..."
Os relatos das mulheres entrevistadas são coerentes com a descrição da dor como
uma experiência pessoal e subjetiva, influenciada pelo aprendizado cultural,
entre outros fatores, vivenciada diferentemente por cada um(9).
De qualquer forma, a dor é um fator que influencia negativamente a experiência
da parturição, pois algumas mulheres se desagradaram com todas as posições
adotadas no trabalho de parto.
"... a dor era tão grande que achei que todas as posições foram
ruins..."
Mesmo em uma assistência considerada humanizada, as mulheres sofreram ao
sentirem mais dor durante os exames de toque vaginal do que durante as
contrações e com a manobra de Kristeller.
"... foi exame de toque toda hora, doía mais do que as contrações...
fiquei machucada por dentro e por fora..."
"... é muito ruim, três homens em cima de você para ajudar..."
A prática de fazer pressão no fundo uterino, no segundo estágio do trabalho de
parto, para acelerar o nascimento, é comum em muitos países. Esta manobra pode
ser realizada pouco antes do desprendimento ou não, causando desconforto
materno e riscos ao útero, períneo e feto, embora não existam dados científicos
(10).
Foi relatado também, sobre as vantagens do parto sem episiotomia, procedimento
realizado para ampliar o trajeto vaginal como profilaxia para danos perineais,
por outro lado, pontuaram o desagrado com a ausência deste procedimento,
relacionando-a ao fato de não terem recebido ocitócito, para elas esta
intervenção medicamentosa poderia amenizar este sentimento.
"... este parto foi melhor porque não deram pontos... melhor para
baixar e andar..."
"... sofri mais sem o corte, porque não colocaram soro..."
Estes relatos demonstram que as mulheres se confundiram ao associarem o
sofrimento sem a episiotomia à ausência do ocitócito, vendo-o como uma ajuda,
talvez por fazer parte da cultura feminina, marcada pela obstetrícia
tradicional.
A preocupação e a ansiedade tomaram conta das mulheres, devido às lembranças
negativas de partos anteriores, e desejaram que seus filhos nascessem logo.
"... eu estava nervosa, ansiosa, queria que nascesse logo..."
Estes sentimentos podem ser causados pela dor, pelos medos de não se controlar,
da falta de assistência por parte da equipe, de danos físicos a si própria,
como a episiotomia, e ao recém-nascido, assim como de malformações do feto
(3,9).
Após tanto sofrimento, as mulheres referiram que sentiram um alívio depois do
nascimento, se esqueceram da dor, ficaram maravilhadas e felizes por ter um
filho.
"... o parto é um alívio, depois de tudo que se passa, sente-se um
alívio..."
"... não existe felicidade maior do que a de ter um filho..."
"... depois que nasce a gente até esquece como foi a dor..."
Os sentimentos maternos relacionados com a parturição podem ser mascarados por
reações de felicidade por seus filhos serem saudáveis ou não terem tido
complicações durante o processo (1). Geralmente, a puérpera refere que o parto
foi bom por ter seu filho, e se esquece da dor.
Tendo oportunidade de resgatar a autonomia
As puérperas entrevistadas relataram que durante a vivência da parturição, em
um modelo assistencial considerado humanizado, foram distinguindo a assistência
recebida e participando da assistência quando perceberam a oportunidade de
fazer escolhas.
Portanto, tiveram a oportunidade de resgatar sua autonomia, mas não o fizeram,
pois a possibilidade de escolha ocorreu apenas em alguns momentos durante o
período pré-parto, vivenciando momentos ambíguos, sem tornarem-se sujeitos
centrais do processo.
Durante a vivência da hospitalização, no trabalho de parto e parto, as
puérperas distinguiram a assistência recebida, fazendo comparações referentes a
experiências hospitalares anteriores, baseando-se em conhecimentos pessoais e
histórias ouvidas durante a gestação, buscando compreender as condutas da
equipe e deparando-se com a ambigüidade assistencial.
Neste processo, as puérperas teceram elogios, caracterizando positivamente o
Centro de Parto Normal pela assistência natural, percebendo a ausência de
medicação e alguns procedimentos.
"... se tiver outro iria querer vir aqui de novo..."
"... aqui não é como nos outros hospitais..."
"... não deram medicamento, eles falaram para andar, ficar na
banheira e no chuveiro, eu gostei..."
Estes relatos apresentam coerência com a definição de parto natural, como sendo
por via vaginal com o menor nível possível de intervenções, no qual são
utilizadas medidas não farmacológicas para alívio da dor e para estimular sua
evolução.
Entretanto, apesar das mulheres distinguirem o parto natural, ainda se
demonstraram despreparadas para aceitarem o parto vaginal como o fisiológico.
Isto também foi constatado neste estudo, pois as puérperas, mesmo relatando que
o atendimento foi bom, ao reconhecerem a vivência de um parto natural, foram
afirmando que todo hospital insiste no parto normal e deixa sofrer, como ocorre
na obstetrícia tradicional, evidenciando a ambigüidade sentida durante o
processo.
"... todo hospital deixa sofrer até a última hora, para ter um parto
normal..."
O período em trabalho de parto pareceu interminável, fazendo com que as
mulheres caracterizassem suas vivências como horríveis pelo parto ter sido
natural, por não terem recebido anestesia e ter sido demorado pela ausência de
medicação.
"... foi ruim porque foi natural, não empurram, não dão remédio, é
muito devagar..."
"... não deram anestesia, é tudo natural mesmo..."
Por outro lado, as puérperas concluíram que o nascimento é rápido após a
dilatação ou, quando ocorre dentro do período de 3h, acreditando que toda
mulher fica satisfeita ao dar à luz rapidamente.
"... depois de 3h nasceu até que foi rápido..."
"... quando dilatou nasceu rápido..."
"... acho que todas estão satisfeitas porque teve mulher que deu à
luz mais rápido do que eu..."
Sabe-se que a duração do trabalho de parto sofre a influência de
características pessoais, pois a mulher terá maior ou menor dificuldade para se
sentir segura, livre, agir instintivamente e ouvir seu próprio corpo e assim,
devem ser preparadas para o parto.
Um trabalho de parto com evolução dentro dos padrões de normalidade pode ser
vivenciado como prolongado, demorado e traumatizante, quando associado à
ansiedade, à dor e ao medo(3).
Neste sentido, ao assistir a parturiente o profissional deve propor atividades
para distração que reduzam a ansiedade, fornecer informações sobre sua
evolução, perguntar como está sendo sua vivência, conhecendo como vê e
caracteriza seu trabalho de parto.
Entretanto, os relatos evidenciam que as puérperas reconheceram que a equipe
interferiu no processo do trabalho de parto quando foi necessário.
"... não evoluiu então fui para a banheira e para o chuveiro...depois
fui para o soro...aqui o parto foi estimulado porque não consegui
parir em uma hora..."
As puérperas experienciaram um aumento da dor com o estímulo, particulamente,
ao receberem ocitócito e no banho de imersão, percebendo que o nascimento
ocorreu mais rápido.
"... depois que tomei soro a dor veio pior..."
"... quando estimula a dor vem mais rápido e forte e é mais rápido
para o bebê nascer..."
"... a banheira aumentou a dor, foi mais rápido..."
O banho de imersão pode acelerar o trabalho de parto e diminuir a dor, pelo
efeito relaxante da água(9-10).
Pressupõe-se que a relação banho de imersão e aumento da dor ocorra pelo fato
de que o banho de imersão estimula as contrações, havendo necessidade de
pesquisas sobre o tema.
Quanto à afirmação de que o ocitócito aumenta a dor é comprovada, pois as
mulheres que receberam ocitocina, sentiram um aumento da dor.
As puérperas também relataram que experienciaram a assistência particularizando
que o apoio, o banho, os movimentos e o caminhar reduziram a dor e adiantaram o
parto.
"... a banheira e a moça que ficou ao meu lado aliviaram a dor..."
"... depois que eu tomei banho melhorei... ficando no cavalinho e
caminhar também melhorava a dor..."
"... caminhar, ficar na banheira e no chuveiro para aliviar, dilatar
e nascer mais rápido..."
A deambulação favorece a descida da apresentação, reduz o tempo do trabalho de
parto e diminui a dor lombar. E o banho de aspersão na fase ativa, com duchas
nas costas reduz a dor lombo-sacra, e no abdômen estimula as contrações
uterinas(10).
No entanto, a gestante deve ser informada e ouvida em suas opiniões sobre os
métodos farmacológicos e não-farmacológicos para alívio da dor, participando
das decisões(5,9).
Em relação aos métodos não-farmacológicos para alívio da dor, a massagem lombar
foi percebida como ineficaz na redução da dor.
"... essa dor não passa... a gente faz massagem por fazer, mas nada
adianta..."
De acordo com o propósito de utilização da massagem, acredita-se que é
necessário um preparo durante o período pré-natal, para que seus benefícios
sejam sentidos, assim como, a utilização da técnica adequada, mas são escassos
os estudos com esta abordagem.
Finalmente, as percepções femininas ao distinguirem a assistência recebida na
parturição, demonstraram que as mulheres tiveram condições de resgatar sua
autonomia, perdida desde a institucio-nalização do parto, porém, apenas em
alguns momentos conseguiram participar e se expor em igualdade com a equipe.
Desta forma, as mulheres tomaram decisões durante o trabalho de parto e
escolheram a posição e o tempo do banho de imersão, quando identificaram esta
possibilidade, participando da assistência e reafirmando sua capacidade
enquanto pessoa.
Mesmo em um ambiente hospitalar estranho, em alguns momentos durante a vivência
da parturição, as mulheres fizeram escolhas quando perceberam que o
profissional ofereceu tal possibilidade e ainda, reafirmaram sua busca por um
atendimento diferenciado, escolhendo um hospital em que não tiveram
experiências ruins, tendo oportunidade de resgatar sua autonomia.
"... fiquei na hidromassagem o tempo que eu quis... tive várias
posições para ver em qual me sentia melhor..."
"...vim aqui porque uma enfermeira me explicou como era este
hospital... tive experiências ruins em outros hospitais..."
No entanto, a parturiente quase nunca é esclarecida, consultada ou convidada a
participar das decisões e, em geral, não tem sido assegurado o direito de
escolha da posição mais cômoda no trabalho de parto e parto, pois a linguagem
dos profissionais ainda é contraditória e não favorece a emancipação da mulher
para que seja agente do processo da parturição.
É necessário o estabelecimento de um relacionamento verdadeiro de trocas entre
profissional e cliente, resgatando valores que humanizam a assistência ao
parto.
Vivenciando a ambiguidade da parturição em um modelo assistencial humanizado
Os temas identificados a partir dos discursos dos sujeitos permitiram
compreender as experiências das mulheres no parto em um modelo assistencial
considerado humanizado.
Esta compreensão demonstrou que as mulheres tiveram oportunidade de resgatar
sua autonomia no contexto assistencial, ao buscarem compreender o que ocorre
com seu corpo e ao seu redor, caracterizarem o parto natural e escolherem
quando perceberam esta possibilidade.
Por outro lado, elas não estabeleceram uma participação efetiva, por sofrerem
um processo doloroso intenso, sentirem medo, ansiedade e preocupação pelo bem-
estar de seus filhos além, de se frustrarem durante o processo vivido,
suportando o trabalho de parto.
O estudo também evidenciou a não individualização assistencial, desconsideração
dos anseios e expectativas das mulheres e desrespeito às suas limitações frente
à posição lateral esquerda para o parto.
Porém, mesmo suportando o trabalho de parto, as mulheres não desejaram ficar à
margem e participaram em alguns momentos, tendo a oportunidade de resgatar sua
autonomia, experienciando a parturição, na assistência humanizada, de forma
ambígua, gerando dúvidas quanto à efetividade e resultados desta proposta.
Sendo assim, acredita-se na necessidade de práticas educativas que visem uma
reflexão sobre o papel da mulher como protagonista de próprio parto e
conscientização de seus direitos como cidadã para que tenha autonomia.
Para que isto ocorra, os cursos para gestantes deveriam contemplar os valores
humanísticos, propiciando o desenvolvimento de potencialidades humanas, da
autonomia do cuidado e a transformação pessoal e social de todos os envolvidos
na assistência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora o estudo tenha sido realizado em um modelo assistencial considerado
humanizado, as experiências das parturientes revelam que ainda se distanciam de
uma efetiva humanização, conforme seus princípios.
Talvez isto se deva à baixa qualidade da assistência pré-natal, muitas vezes
centrada na obstetrícia tradicional, ainda vigente, à desarticulação entre os
serviços de saúde e às resistências culturais existentes de poder e saber entre
os profissionais, que impedem uma mudança no modo de ver a parturiente e
individualização do cuidado a partir de suas experiências e conhecimento, para
que seja efetivada a humanização da assistência ao parto com maior participação
da mulher, seus acompanhantes e ou familiares.
Frente a este contexto, pressupõe-se que as ações educativas sejam um meio de
se promover o conhecimento crítico, assim, fazse necessário um curso de
preparação para o parto voltado à humanização da assistência e nas experiências
das mulheres, e que consiga desenvolver o exercício da cidadania.
O presente estudo se diferencia dos outros e pode servir como instrumento
inicial para cursos de preparação para o parto, entre outras ações educativas,
instigar a reflexão sobre a realidade experienciada pelas parturientes,
evidenciar a necessidade de pesquisas com diferentes abordagens sobre o tema da
humanização ao parto, procedimentos e condutas utilizadas neste tipo de
assistência, além de contribuir para que instituições e profissionais promovam
mudanças assistenciais.
A humanização da assistência obstétrica ainda representa um desafio para os
profissionais de saúde, para as instituições e para a sociedade.