Prevalência e caraterísticas das quedas de idosos institucionalizados
INTRODUÇÃO
O envelhecimento da população é um fenômeno de amplitude mundial. A Organização
Mundial de Saúde (OMS) prevê que, em 2025, existirão 1,2 bilhões de pessoas com
mais de 60 anos, sendo que as pessoas com 80 anos ou mais constituem o segmento
populacional que mais cresce(1). No Brasil, a previsão é de que, em 2020,
existirão 30,8 milhões de idosos, ou seja, 14,2% de todos os brasileiros. O
Brasil já é considerado o sexto país do mundo em taxa de envelhecimento
populacional(2).
Esta transição demográfica repercute na saúde por meio de mudanças no perfil de
morbidade e mortalidade da população, traduzindo a necessidade de reorganizar
os modelos assistenciais(3). Assim, o atendimento adequado à saúde do idoso
deve ser voltado para a prevenção e identificação de sinais e sintomas
característicos do envelhecimento com fragilidade, um contínuo e complexo
processo envolvendo a interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais,
culminando num estado favorável à ocorrência de condições geradoras de
dependência e institucionalização, como alterações cognitivas, incontinência
urinária, instabilidade da marcha e quedas(4).
As quedas podem ser definidas como eventos não intencionais que resultam na
mudança de posição inesperada do indivíduo para um nível inferior à posição
inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil(5). Esses eventos resultam
da interação de diversos fatores de risco e múltiplas causas, sendo, por isso,
considerados eventos multifatoriais e heterogêneos.
As quedas são problemas frequentes na população idosa. No Brasil, cerca de 29%
dos idosos caem ao menos uma vez ao ano e 13% caem de forma recorrente(5).
Estes eventos têm impacto importante na mortalidade de idosos. Segundo dados
preliminares do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), no ano de 2008
ocorreram 5.142 mortes de pessoas com 60 anos ou mais, no país, em decorrência
de quedas, ocupando o segundo lugar na mortalidade por causas externas, com
25,3%(6).
Além da alta mortalidade, devemos considerar outras consequências para a saúde
e a qualidade de vida dos idosos como declínio da capacidade funcional,
limitação na realização de atividade física, diminuição da mobilidade, receio
de sofrer novas quedas, isolamento social, perda da autonomia e da
independência para execução das atividades de vida diária. Esse quadro é
responsável pela necessidade de institucionalização do idoso frágil(5).
Entende-se por institucionalização o atendimento integral, em regime de
internato, às pessoas de 60 anos ou mais, dependentes ou independentes, sem
vínculo familiar ou que não dispõem de condições para prover sua própria
subsistência. As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs),
conhecidas também como asilos, abrigos, lares, casas de repouso, clínicas
geriátricas e ancionatos, devem satisfazer às necessidades desses idosos quanto
à moradia, alimentação, saúde e convivência social, por meio do trabalho da
assistência social, medicina, psicologia, enfermagem, fisioterapia, terapia
ocupacional, odontologia, nutrição, entre outros serviços(7).
A institucionalização do idoso deve ser a última alternativa de assistência(8),
pois representa um fator de risco para quedas, uma vez que a mudança do
ambiente familiar para um ambiente estranho pode predispor a alterações
psicológicas, cognitivas e funcionais relacionadas ao isolamento, abandono e
inatividade física do indivíduo, acarretando em aumento da dependência para
realização das atividades de vida diária e consequente redução da capacidade
funcional(5).
Desta forma, o declínio funcional torna o idoso institucionalizado mais
suscetível a novas quedas, comprometendo ainda mais sua independência. O
delineamento deste contexto denota a relevância do assunto uma vez que a
questão das quedas deve ser tratada como um sério problema de saúde pública em
razão de sua frequência, morbidade e do alto custo para os serviços de saúde
(5).
Sendo a incidência de quedas um indicador de qualidade da assistência de
enfermagem(9), é fundamental a implantação de protocolo de avaliação de risco
para quedas na população idosa, como instrumento revelador da realidade da
instituição e norteador de intervenções de prevenção destes eventos.
Diante da importância desta problemática, desenvolvemos a presente pesquisa com
os seguintes objetivos: Verificar a prevalência de quedas em idosos residentes
em uma Instituição de Longa Permanência localizada no município de São Paulo;
Caracterizar os idosos que sofreram quedas no período estudado, com relação a
variáveis demográficas e clínicas; Descrever as características das quedas
ocorridas em relação a sua frequência, causas, circunstâncias e consequências.
MÉTODO
Trata-se de um estudo quantitativo descritivo e retrospectivo, desenvolvido
numa Instituição de Longa Permanência para Idosos, localizada no município de
São Paulo. Esta instituição, existente há 34 anos, tem caráter filantrópico e é
gerenciada pela Liga Solidária, entidade sem fins lucrativos que gerencia
outras unidades de atenção a crianças, jovens, adultos e idosos. A ILPI atende
a idosos independentes e total ou parcialmente dependentes, que, no entanto,
não apresentam quadro demencial grave. Conta com uma equipe multiprofissional
composta por médicos, enfermeiras, auxiliares e técnicos de enfermagem,
nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, terapeuta ocupacional,
psicóloga, cuidadores e voluntários.
A população do estudo foi composta por todos os 121 prontuários dos residentes
da instituição, de sexo feminino e masculino, com idade igual ou superior a 60
anos. Levantamos registros de quedas ocorridas entre agosto de 2006 e agosto de
2007, sendo a coleta de dados efetuada em fevereiro de 2008.
Para a coleta de dados, foi utilizado um instrumento semiestruturado elaborado
a partir de pesquisa bibliográfica, contendo informações sobre o idoso e a
queda. As variáveis sexo, idade, antecedentes clínicos pessoais, presença de
déficit cognitivo, número de quedas anteriores e medicações em uso, foram
obtidas do prontuário do residente. Informações sobre o grau de dependência
para Atividades de Vida Diária (AVD) e uso de equipamentos de ajuda na
locomoção foram obtidos por relato das enfermeiras da instituição. As variáveis
sobre a história da queda (data, hora, local, condições do piso, posição
inicial do idoso, situação de ocorrência da queda e consequências físicas)
foram conseguidas a partir do relatório específico da ILPI para notificação dos
eventos. Esta ficha de notificação é preenchida imediatamente após a ocorrência
da queda, pelo funcionário que encontrou o idoso, e contém uma breve avaliação
do médico e/ou enfermeira de plantão e a conduta estabelecida por eles.
O estudo passou por autorização dos diretores da instituição por meio de uma
solicitação escrita e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal de São Paulo sob protocolo número 2036/07.
Foi realizada uma análise descritiva das frequências obtidas. A discussão foi
realizada à luz da literatura sobre o assunto.
RESULTADOS
Durante o período estudado, de um ano, foram analisados 121 prontuários, a
partir dos quais encontramos 87 relatórios de ocorrência de quedas. Pelos
documentos analisados, identificamos a ocorrência de 114 quedas no período,
sofridas por 45 idosos, gerando uma média de 2,53 ± 2,9 quedas por idoso. A
prevalência encontrada no nosso estudo foi de 37,2%.
Caracterização dos idosos
Do total de 45 idosos, 38 (84,4%) eram do sexo feminino e sete (15,6%) do sexo
masculino. É uma característica da instituição a predominância de residentes do
sexo feminino. A faixa etária mais prevalente foi de 80 a 85 anos, com 12
(26,7%) idosos. A idade média foi de 83,75 ± 14 anos. A distribuição das faixas
etárias é mostrada na Tabela_1.

Dentre os residentes que caíram, 21 (46,7%) sofreram mais de uma queda no
período estudado, segundo mostra a Tabela_2.
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Em nosso estudo, os residentes que sofreram quedas apresentaram diversos
diagnósticos médicos. A hipertensão arterial sistêmica estava presente em mais
da metade dos idosos que caíram (53,3%). Já as cardiopatias (insuficiência
cardíaca, fibrilação atrial, insuficiência coronariana, infarto agudo do
miocárdio, arritmia e taquicardia sinusal) foram encontradas em 46,6% dos
idosos. Em três (6,7%) prontuários não constavam registros dos diagnósticos
médicos dos residentes. A distribuição de diagnósticos encontrados é
apresentada na Figura_1.
[/img/revistas/reben/v63n6/19f01.jpg]
Em decorrência da diversidade de doenças que os idosos com quedas apresentaram,
o número de medicamentos prescritos também foi elevado. Mais da metade dos
idosos (60,0%) fazia uso de anti-hipertensivos tais como vasodilatadores,
diuréticos e betabloqueadores. Os antidepressivos estavam prescritos para 53,3%
dos idosos, os benzodiazepínicos para 17,8%, os neurolépticos para 11,1% e os
hipoglicemiantes orais para 4,4%. Nos prontuários de sete idosos (15,6%) não
havia registros da prescrição médica no período estudado. A quase totalidade da
população (80,0%) fazia uso de outros medicamentos, categoria que compreende
corticosteróides, anti-inflamatórios não-hormonais, miorrelaxantes, laxativos,
protetores gástricos, anti-histamínicos, complexos vitamínicos e diversos
outros.
Encontramos em 27 (60,0%) idosos alguma alteração do estado cognitivo. Quanto
ao grau de dependência para AVD, 25 idosos (55,6%) eram parcialmente
dependentes, 14 (31,1%) independentes e seis (13,3%) totalmente dependentes.
Dentre os equipamentos de ajuda na locomoção, a bengala foi a mais usada por 19
idosos (42,2%). Dezesseis idosos (35,6%) não precisavam de ajuda para
deambular, oito (17,8%) utilizavam cadeira de rodas e um (2,2%) utilizava
andador. A informação de qual equipamento para locomoção os residentes
utilizavam foi obtida por relato das enfermeiras, uma vez que esta informação
não estava registrada em todos os prontuários.
Descrição das quedas
As quedas se deram em todos os períodos do dia: 32,4% de manhã; 13,1% à tarde;
22,8% à noite; 12,3% durante a madrugada. Em 19,3% não houve registro do
horário da ocorrência.
A posição inicial dos idosos que caíram foi predominantemente em pé, com 89
casos (78,1%). Obtivemos 14 quedas (12,3%) a partir da posição sentada e três
(2,6%) no nível deitado. Em oito (7,0%) casos não havia registro da posição
inicial dos idosos. A condição do piso foi a variável mais defasada em termos
de resposta. Em 96 eventos (84,2%) não foram registradas as condições do piso.
Não houve registros descrevendo quedas em piso seco. Em nove casos (7,9%) o
piso estava molhado, em quatro (3,5%) havia obstáculos (poltrona, tapete,
calçada irregular), três (2,6%) ocorreram em rampas e dois (1,8%) em degraus.
As situações no momento do evento foram diversas. Em 50 eventos (43,9%) os
residentes estavam deambulando; em 11,4% estavam se levantando da cama, sofá ou
cadeira; em 1,7% estavam se sentando; e em 0,9%, se abaixando. Outras situações
ocorreram em 14,9% dos casos, incluindo síncope, tontura, hipotensão, mal-
estar, desequilíbrio, rolamento da cama e quebra de cadeira. Nenhum indivíduo,
em nosso estudo, estava buscando objeto elevado, subindo ou descendo escada. Em
31 quedas (27,2%) não encontramos registro da situação de ocorrência do evento.
O local de maior ocorrência de quedas foi o quarto do idoso, com 49 eventos
(43,0%), seguido pelo banheiro com 21,0%, corredor com 8,8%, e outros locais
com 4,4% (elevador, portaria, recepção e sala de fisioterapia). Ainda ocorreram
quatro quedas (3,5%) no refeitório, três (2,5%) quedas fora da ILPI, duas
(1,8%) no jardim e uma (0,9%) na sala de estar. Em 16 eventos (14,0%) não foram
registrados o local de ocorrência.
Em 57,3% das quedas houve alguma consequência física para o idoso. Ao todo,
foram registradas 81 lesões em 66 quedas.
Não encontramos registro de perda de consciência no local do evento, nem de
óbitos em até um mês após que poderiam estar relacionados à queda. Apesar do
número significante de lesões, apenas em 12 ocorrências (10,5%) houve a
necessidade de avaliação clínica hospitalar, com seis (5,3%) delas resultando
em internação.
Em 7,0% das quedas, os idosos sofreram posterior limitação para a realização de
AVD. Este valor pode estar subestimado pela deficiência dos registros de
avaliação do grau de dependência dos idosos.
DISCUSSÃO
A prevalência de quedas encontrada no nosso estudo foi de 37,2%. Este valor é
comparável ao encontrado em estudos sobre quedas de idosos residentes em
comunidade: 34,8%(10) e 30,9%(11). Em pesquisa com idosos institucionalizados
na Bahia, encontrou-se uma prevalência de 29,4%(12). Cerca de 50% de residentes
em ILPIs sofrem pelo menos uma queda no período de um ano(13).
Inúmeros estudos têm encontrado uma frequência de quedas maior em mulheres do
que em homens(11-12,14-15). Ainda não há uma explicação conclusiva sobre este
fato, o qual parece estar relacionado ao melhor estado funcional das mulheres
idosas em comparação aos homens e maior mobilidade com consequente maior
exposição ao risco de queda(14). Também há maior fragilidade entre as mulheres,
pois a quantidade de massa magra e a força muscular são menores em idosas(11).
Outros autores também citam a utilização de maior quantidade de drogas(15) e
alta prevalência de doenças crônicas entre as mulheres(12).
A literatura tem demonstrado que a incidência dos eventos aumenta com o avançar
da idade(10,12-15). Entre 65 e 74 anos a taxa de quedas é de 32%; entre 75 e 84
anos, 35%; e acima de 85 anos, 51%(16). O envelhecimento acarreta alterações
fisiológicas que favorecem o acontecimento das quedas, como declínio da força
muscular, alterações na massa óssea, déficit de equilíbrio(10), lentificação do
tempo de reação, aumento do balanço do corpo, declínio dos reflexos, redução do
controle postural(17), da coorde-nação motora, da flexibilidade, além de
deficiências de visão, proprio-cepção, vibração e do sistema vestibular(12).
Mais de dois terços dos idosos que sofrem uma queda cairão nova-mente nos seis
meses subsequen-tes(16). Isto significa que história de queda anterior, em pelo
menos seis meses passados, é um fator predi-tor de uma nova queda(18).
Os fatores relacionados às quedas de idosos são múltiplos e comumente
classificados em intrínsecos e extrínsecos ao individuo. Os fatores intrínsecos
incluem as diversas patologias, alterações fisiológicas do envelhecimento e
consumo de medicamentos(19). Dentre as patologias que predispõe a quedas, as
mais comuns são as cardiovasculares, neurológicas, endócrino-metabólicas,
osteomus-culares, psiquiátricas, geniturinárias, pulmonares e sensoriais(15-
16,19). A hipertensão arterial esteve presente em 53,3% dos idosos que caíram.
Ainda existe controvérsia na literatura científica sobre associação entre
hipertensão e quedas, uma vez que alguns estudos não encontraram esta
associação, enquanto que outros a relacionam a hipotensão postural causada pelo
uso de anti-hipertensivos(13,17).
O diagnóstico de cardiopatia esteve presente em 46,6% dos gerontes. A queda
pode ser o primeiro sinal de um infarto agudo do miocárdio assintomático.
Certas arritmias como os bloqueios atrioventriculares, alterações do nó sinusal
e bradicardias também podem ocasionar quedas(19).
A depressão, presente em 40,0% dos residentes, é uma doença frequentemente
relacionada a quedas(13,16,18). A presença de sintomas depressivos é um
importante fator preditor para duas ou mais quedas, em decorrência do efeito de
medicações antidepressivas e sedativas, do declínio da capacidade funcional,
baixa autoconfiança, indiferença ao meio ambiente, reclusão e inatividade(20).
A demência e a diminuição da acuidade visual estiveram presentes em 16 idosos
(35,6%). A presença de demência pode aumentar o número de quedas por conta de
alterações da percepção espacial e habilidade de se orientar geograficamente
(21). Déficit visual é considerado, por outros autores, um importante fator de
risco para esses eventos(13,17,22).
O uso de medicamentos é um fator intrínseco de forte relação com as quedas. Em
função da diversidade de doenças apresentadas pelos idosos, é comum
encontrarmos a polifarmácia entre os residentes, o que é preocupante, uma vez
que os efeitos da interação medicamentosa são mais acentuados nos idosos devido
às alterações na absorção, metabolismo e eliminação das drogas que decorrem do
envelhecimento(23).
O risco de quedas é aumentado pelo uso de drogas cardio-vasculares (drogas de
maior uso pela população estudada), pois produzem hipotensão, bradicardia,
sonolência e fadiga(24). Os diuréticos promovem depleção de volume e distúrbios
hidroeletrolíticos(19), embora possa haver um efeito protetor devido à redução
na excreção urinária de cálcio e consequente aumento da densidade óssea(25). Os
antidepressivos e benzodiazepínicos podem causar sedação, alterações
psicomotoras, relaxamento muscular e bloqueio beta-adrenérgico, aumentando a
ocorrência de hipotensão ortostática(24-25), que por sua vez aumenta a
propensão a quedas.
Em nosso estudo, 60,0% dos idosos apresentavam algum prejuízo cognitivo. Alguns
autores têm observado relação entre alterações cognitivas e quedas(11,13-14,21-
22). Idosos com declínio cognitivo têm cinco vezes mais chances de sofrer
quedas(12). As principais funções cognitivas que contribuem para o controle
postural e manutenção do equilíbrio são a atenção, memória e orientação(11-
12,18) e, quando comprometidas, também prejudicam a adaptação ao ambiente,
julgamento e adoção de atitudes que não lhe ofereçam risco(12).
Verificamos que a maioria dos idosos que caíram é parcialmente dependente.
Sabe-se que a redução na capacidade de realização das atividades de vida diária
é um importante fator de risco(11,13-14,17-18,21-22). Em uma ILPI na Alemanha,
os residentes modera-damente dependentes tiveram uma incidência de quedas maior
do que os independentes ou gravemente dependentes(18). Além dos problemas com
equilíbrio, marcha, mobilidade e força muscular, o idoso com declínio funcional
apresenta risco aumentado para quedas em decorrência da baixa autoconfiança
para realizar as AVD, o que compromete ainda mais sua capacidade funcional(11).
Por isso, o grupo dos parcialmente dependentes carece de mais atenção, visto
que possui um declínio funcional significante, porém não determinante para
completa imobilidade, em comparação ao grupo dos totalmente dependentes. De
maneira que a queda entre os residentes do último grupo pode representar, de
certa forma, uma iatrogenia da equipe de enfermagem e de cuidadores.
Observamos, ainda, que a avaliação da capacidade funcional dos residentes, na
instituição estudada, não é feita por instrumentos como a Avaliação de Kenny
para os Cuidados Pessoais ou o Índice de KATZ para Atividades de Vida Diária
(26). Esta característica é verificada subjetivamente pelas enfermeiras
conforme necessidade de auxílio do residente para higiene, alimentação e
deambulação.
Em relação à marcha, vimos que 42,2% dos idosos utilizam bengala e 35,6% não
necessitam de ajuda pra deambular. O idoso com marcha livre ou que utiliza
bengala possui maior liberdade de locomoção e sensação de segurança, em
comparação ao idoso que faz uso de andador ou cadeira de rodas, fazendo com que
se exponha mais e caia mais vezes(12,21). O fato de os idosos com bengalas
sofrerem mais quedas, no nosso estudo, indica a necessidade de treinamento para
a utilização desse tipo de órtese como estratégia de redução da incidência
desses eventos.
Obtivemos maior índice de quedas pela manhã, dado semelhante ao encontrado em
outra pesquisa(12). As quedas ocorrem nesse período, pois é o horário de maior
atividade dos idosos. Esta informação é importante para o planejamento de
cuidados de enfermagem, alertando a equipe para a prevenção de quedas neste
horário.
Assim como em nossa investigação, a maioria dos idosos caem da própria altura
(15). Os principais problemas com o ambiente, segundo a literatura, são piso
escorregadio, objetos no chão, buscar objetos elevados, rolar da cama e
problemas com degraus(15,27). A descrição da cena do evento é um dado
importante para implantação de medidas preventivas em razão da íntima relação
entre ambiente e quedas, pois sabe-se que os perigos ambientais são causa de
quedas em 16% dos eventos em ILPIs e 41% em comunidade(16,21).
Os dados sobre as circunstâncias dos eventos foram semelhantes aos encontrados
em outra pesquisa(14), onde a maioria dos idosos estava deambulando quando
caiu. Estudos têm mostrado que grande parte das quedas em ILPIs ocorrem durante
transferências para cama, cadeira ou cadeira de rodas(18,21). A informação
sobre a circunstância da queda pode direcionar a avaliação médica para a causa
do evento, por exemplo: cair após se levantar de uma posição mais baixa pode
estar relacionado à hipotensão postural; quedas após tropeço ou escorregão
indicam presença de fator ambiental ou problemas de marcha, equilíbrio e visão
(22).
As quedas em ILPIs e em hospitais ocorrem principalmente nos quartos e
banheiros(19), por estes serem os espaços mais utilizados pelos idosos.
Conhecer o local de maior prevalência de quedas numa instituição é fundamental
para a priorização de cuidados preventivos específicos de cada ambiente.
Apesar de a maioria dos eventos registrados não resultarem em lesões, sabemos
que cerca de 40% a 60% das quedas levam a ferimentos, sendo 30% a 50% de
ferimentos leves, 5% a 6% de lesões mais graves excluindo fraturas e 5% de
fraturas(13,16,21). Em nosso estudo, observamos que 11,4% de lesões ocorreram
na região da cabeça, o que poderia resultar em graves lesões cerebrais com
prejuízo às funções vitais e risco à vida.
Com respeito às fraturas, a literatura demonstra que as mais comuns são as de
quadril (25%)(19). Este tipo de fratura é mais prevalente em indivíduos acima
de 75 anos, decorrente, possivelmente, da lentificação dos reflexos e do
prejuízo na habilidade de proteger o quadril durante a queda se apoiando sobre
o punho(22). Cerca de 25% dos idosos com este tipo de fratura morrem após seis
meses do evento e 60% apresentam incapacidade de realizar suas funções
habituais(19).
As quedas em ILPIs tendem a resultar em consequências mais sérias do que as em
comunidade, de modo que a cada ano 1.800 eventos fatais ocorrem em instituições
(21). Entre os idosos com 85 anos ou mais, uma em cada cinco quedas em ILPIs é
fatal(19,21). Não encontramos óbitos em até um mês do evento.
A instituição estudada oferece atendimento médico e de enfermagem em tempo
integral, por isso os residentes que caíram foram avaliados e somente
encaminhados a hospitais quando o profissional julgava necessária a realização
de exames específicos, o que justifica o número relativamente baixo de
encaminhamentos. Cerca de 7,0% das pessoas de mais de 75 anos que sofrem quedas
buscam atendimento em serviços de emergência, e 40,0% destas necessitam de
internação hospitalar(19).
Em 7,0% das quedas, os idosos sofreram limitação para realização de AVD. A
perda da independência pode ser consequência direta de lesões causadas pelo
impacto ou consequência indireta pelo medo de voltar a cair (síndrome pós-
queda). Trata-se de uma limitação funcional autoimposta causada pela perda da
confiança em deambular sozinho com segurança. Além do declínio funcional, o
idoso pode desenvolver depressão, sentimento de impotência e isolamento social
(21). Desta forma, ao deixar de realizar suas atividades rotineiras o idoso
pode desenvolver a síndrome da imobilidade e, assim, aumentar o risco de vir a
ter novas quedas(15,22).
CONCLUSÃO
Os resultados encontrados demonstram que a prevalência de quedas em idosos
institucionalizados é elevada, sendo mais frequente em mulheres de idade
avançada, as quais sofrem quedas recorrentes, são portadoras de diversas
patologias, fazendo uso de vários medicamentos, apresentam algum grau de
déficit cognitivo e funcional e locomovem-se com auxílio de bengala. Com
relação às quedas, estas se deram em sua maioria pela manhã, da própria altura
do idoso, enquanto ele deambulava no seu próprio quarto, gerando algum tipo de
consequência física para o idoso, sendo a mais comum os hematomas/sangramentos.
Embora nossa investigação tenha um caráter descritivo e não procure realizar
inferências de causa e efeito entre as variáveis nem tencione levantar fatores
de risco, foi possível observar que nossos resultados são coerentes com o
encontrado na literatura científica sobre o assunto, mesmo que alguns dos
nossos dados sejam comparáveis aos de estudos com idosos residentes em
comunidade.
No entanto, algumas limitações do estudo precisam ser consideradas,
principalmente em relação ao levantamento de dados, o qual foi realizado
retrospectivamente a partir dos registros sobre os eventos, sem um aviso
anterior dos funcionários que realizaram tais notificações. Seria interessante
realizar um estudo prospectivo a partir dos relatos imediatos das quedas, com
treinamento prévio dos funcionários que irão anotar as ocorrências, no sentido
de evitar tantas perdas por falhas de registro.
Notamos que as quedas em idosos são fatos comuns, inclusive dentro de
instituições de longa permanência, com consequências significantes à saúde
física, psicológica e social. É importante uma avaliação constante dos
profissionais de saúde sobre os idosos caidores e não-caidores, no sentido de
identificar os fatores de risco intrínsecos e extrínsecos para implementar
estratégias de prevenção que compreendam reabilitação da força muscular,
equilíbrio e capacidade funcional, redução da polifarmácia, educação para o
autocuidado e aumento da supervisão de enfermagem nos períodos e locais de
maior incidência de quedas, melhorando desta forma a qualidade de vida dos seus
residentes.