Análise de gênero para o adoecer de câncer
INTRODUÇÃO
Uma das enfermidades de elevada incidência, atualmente, são as neoplasias, as
quais ocorrem devido transformações celulares mutacionais que comprometem de
forma crônica tecidos, órgãos ou, na maioria das vezes, o sistema orgânico por
completo. Geram efeitos biológicos, mas também, grandes repercussões
psicológicas, por serem estigmatizantes e embutidas de significados sociais de
preconceito e, de por vezes de reclusão.
Uma análise da estimativa de câncer publicada pelo INCA(1) no Brasil revela que
os tumores mais incidentes para mulheres serão os de mama com risco estimado de
49 casos a cada cem mil mulheres, enquanto que para os homens, serão os de
próstata, com risco estimando de 54 casos para cada cem mil homens. Quando
associados ambos os sexos, o segundo tipo de câncer mais incidente será o de
cólon e reto, com cerca de 14 casos para homens e 15 para mulheres,
considerando a proporção para cada cem mil habitantes.
O câncer de cólon e reto pode gerar distúrbios na imagem corporal de seus
acometidos, uma vez que sejam submetidos à ostomia intestinal - via artificial
externa de eliminação de fezes- que propicia desconforto social e muitas vezes
diminuição na auto-estima de homens e mulheres. Associado a isto ocorre
mudanças radicais no padrão alimentar, configurando, portanto um novo estilo de
vida e readaptação com o funcionamento do corpo e dos hábitos de vida.
As interpretações que homens e mulheres, portadoras de câncer de cólon e reto,
têm sobre si e seu estado de saúde, bem como a forma que vivenciam o
adoecimento tem aguçado nosso interesse desde os primeiros contatos com essa
clientela em campos de práticas das atividades extracurriculares de enfermagem
em clinica médica. Esta aproximação permitiu-nos constatar que homens e
mulheres demonstravam comportamentos diferentes quanto ao modo de lidar com a
nova condição, quer seja nos cuidados com a saúde física, quer seja na
adaptação psicológica.
Sabemos que o olhar lançado para si, para os outros e para as situações do
mundo vivido, é aprendido na sociedade a partir das regras e responsabilidades
estabelecidas para homens e para mulheres, nos diferentes contextos culturais,
podendo ser modificado com o tempo.
Isto nos remete às nuances de gênero, que vislumbra a organização social da
diferença sexual, não implementando diferenças físicas fixas e naturais entre
homens e mulheres, mas fazendo existir significados para as diferenças
corporais, os quais variam de acordo com as culturas, os grupos sociais e o
tempo(2-3).
O entendimento de que gênero é algo que vai se construindo e que é um produto
histórico, torna-se imprescindível para compreender determinados
comportamentos, que são invariavelmente mutáveis. No tocante à saúde, homens e
mulheres a percebem de formas diferentes, o que gera grande impacto nas
estratégias que utilizam para cuidarem de si mesmos, e no manejo que conduzem
suas situações de desordens físicas e psicológicas(4).
Porventura, os estereótipos de modelos comportamentais impostos pela sociedade
ditam o modo como os homens e as mulheres devem cuidar de si e devem reagir no
momento do confronto com diagnóstico de câncer?
Alguns pesquisadores têm se aproximado dessa temática na perspectiva de gênero,
haja vista que a produção acadêmica sobre gênero e saúde no Brasil circunscreve
à grande área de saúde, tendo a enfermagem como uma das áreas que mais produz
conhecimento neste setor de pesquisa(5).
Sugere-se que os profissionais de saúde fiquem atentos às relações de gênero
que perpassam as experiências das pessoas, quer em estado de saúde ou doença.
Nessas relações, os homens e as mulheres vivem problemas comuns, como é o
exemplo do desconforto e, em alguns casos, são estigmatizados devido as suas
aparências físicas causadas pela doença. Mas por outro lado, no relacionamento
estabelecido entre homens e mulheres, convive-se com a diferença(6).
O processo saúde-doença é uma construção social, e que as relações que os
indivíduos estabelecem inter e intragêneros colaboram com as práticas por eles
utilizadas no manejo dos infortúnios, até porque esta dinâmica parece estar
ligada ao gênero porque na nossa sociedade dita-se que os homens são mais
objetivos, racionais, enquanto que as mulheres são mais vulneráveis, sensíveis
a determinadas situações(7).
Uma outra dimensão na explicação de diferenças na saúde entre homens e mulheres
refere-se aos aspectos psicológicos associados à forma como as pessoas percebem
os sintomas, avaliam a gravidade da doença e decidem o que fazer com respeito à
sua saúde, como foi abordado por autores(8) ao dissertar sobre as
representações de gênero e corpo de pessoas acometidas de alguma morbidade.
Entendemos que os estudos com abordagem de gênero são importantes no campo da
enfermagem porque as mudanças sociais ao longo das décadas, e o perfil
emergente de patologias de curso crônico, como o câncer, abrem uma lacuna no
ambiente científico sobre a forma como homens/masculino e mulheres/feminino
lidam com sua saúde, tornando-se relevante, responder a inquietação
sobrescrita:
Como os homens e as mulheres enfrentam o adoecer de câncer?
Entendemos que saber captar as diferenças que são socialmente construídas entre
os papéis masculino e feminino é de fundamental importância para a promoção de
ações educativas e de cuidado no campo da saúde. Focalizar este tema com
abordagem de gênero é uma forma relevante de ampliar a base de conhecimentos
teóricos relativos ao objeto de estudo, por isso, o nosso objetivo é
compreender o processo do adoecimento de câncer, em homens e mulheres, na
perspectiva do gênero.
METODOLOGIA
Tratou-se de um estudo do tipo descritivo, a qual permite observar as
características de determinados sujeitos, suas opiniões, atitudes e crenças(9).
A abordagem selecionada foi a qualitativa, a qual é enaltecida como a que se
baseia na premissa de que os conhecimentos sobre os indivíduos só são possíveis
com a descrição da experiência humana, tal como ela é vivida e tal como ela é
definida por seus próprios atores(10).
O local do estudo foi em uma Instituição privada de tratamento oncológico
clínico, situada em Fortaleza-CE, que tem como objetivo oferecer a modalidade
terapêutica de quimioterapia anti-neoplásica ambulatorial e com internação,
assistindo ao paciente desde a fase diagnóstica, perpassando pelo tratamento, e
por fim, na alta por cura ou prestação de cuidados paliativos. A equipe
multiprofissional é composta de médicos oncologistas, enfermeira especialista
em oncologia, farmacêutica, psicóloga, nutricionista e técnicos de enfermagem.
Os participantes foram três homens e quatro mulheres, portadores de câncer de
cólon e de reto e que estavam em acompanhamento ambulatorial, na referida
instituição de saúde, independente do tempo de diagnóstico, da faixa etária, da
condição social, da escolaridade.
O número de participantes do estudo foi determinado pelo critério da saturação
e qualidade das informações, adotado em pesquisas qualitativas, onde a coleta
de dados finaliza com a identificação de convergências e divergências dos
depoimentos, não sendo a preocupação maior a quantidade e sim a qualidade(11).
A fim de resguardar a identidade dos pacientes foram-lhes atribuídas nomes de
deuses gregos os quais simbolizam a personificação dos sentimentos que mais
foram expressos durante a entrevista.
Durante o mês de julho de 2008, utilizou-se para coletar as informações a
entrevista semi-estruturada, contendo as seguintes questões norteadoras: 1)
Como é para você ser um(a) homem (mulher) portador de câncer?; e 2) Como você
percebe sua vida diária desde o surgimento do câncer até os dias atuais? Para
nos assegurarmos da ampla captação das informações dos depoentes, utilizamos o
gravador como recurso complementar.
Para a elucidação dos aspectos de gênero contidas nas falas dos homens e das
mulheres, estas foram confrontadas, procurando-se apreender os pontos
relevantes que permitiram contextualizar o igual e o desigual dos indivíduos
com câncer de cólon e reto, e, posteriormente, essas falas foram ancoradas no
referencial de gênero, considerando a perspectiva relacional(12).
Para tanto, recorremos ao Método de Análise de Conteúdo proposta por Bardin
(13), que propõe as seguintes fases de análise temática: 1ª FASE) Pré-análise -
organização propriamente dita, leitura e escolha dos documentos a serem
analisados, para retomada das hipóteses e dos objetivos iniciais com posterior
reformulação do material coletado, elaborando, assim, os indicadores que
orientem a interpretação final; 2ª FASE) Exploração do material consistiu na
operação de codificações, onde os dados brutos foram tratados com o objetivo de
compreender o texto onde foram classificados e agregados em categorias e
subcategorias, significativas e válidas, sob um tema que os identificasse; 3ª
FASE) Tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação nesta fase, os
autores procuraram analisar os significados das falas dos homens e mulheres,
interpretando e entendendo o enfoque das informações obtidas e as suas
percepções sobre a doença na perspectiva de gênero.
Emergiram as seguintes categorias e subcategorias: 1) O adoecimento de câncer:
fragmentações e limitações na vida 1-1) o adoecer de câncer: fragmentação de
uma vida; 1-2) Limitações do viver impostas pelo tratamento; 2) Uma vida em
transformação: das ameaças às superações; 2-1) A preocupação com a
masculinidade; 2-2) A fragilidade e a fortaleza: ambigüidade feminina.
Esta pesquisa obedeceu a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(14),
envolvendo seres humanos e foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em
Pesquisa, da Universidade de Fortaleza UNIFOR, logrando parecer favorável
nº179/08.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Categoria 1- Adoecimento de câncer: fragmentações e limitações da vida
Os depoimentos demonstraram que o processo do adoecimento veio acompanhado de
interpretações próprias de homens e mulheres, estando envolvido nesse bojo o
aspecto de gênero humano, que influenciou no modo como se comportaram frente ao
diagnóstico, ao conhecimento e ao tratamento do câncer.
Gênero deve ser entendido como a rede de traços de personalidade, atitudes,
sentimentos, valores, condutas e atividade que, através de um processo de
construção social, diferencia os homens e mulheres(2).
Partindo do princípio de gênero enquanto rede de possibilidades de sentir e de
expressão segundo o processo de construção social, é que homens e mulheres,
cada um ao seu modo, remeteram-se aos momentos vividos desde o diagnóstico até
ao estágio de tratamento atual, como sendo um processo de fragmentação e de
limitação dolorosa e carregada de obscuridade.
Subcategoria 1.1- O adoecer de câncer: fragmentos de uma vida
O período de transição entre a saúde e o adoecimento de câncer em mulheres e
homens afetou não apenas suas próprias vidas, mas as de outras pessoas,
levando-as a expressarem variados sentimentos e a adotarem comportamentos que
os ajudassem no enfrentamento do diagnóstico e na adaptação cotidiana ao
tratamento requerido pela doença.
Essa transição é compartilhada por Kubler-Ross(15) ao dizer que a sabedoria de
compartilhar uma notícia dolorosa com o paciente é uma arte, sendo necessário o
reconhecimento dos mecanismos usados por muitos dos pacientes durante uma
doença incurável e terminal, como o câncer. Esses mecanismos são descritos nos
estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. O existir do
doente com câncer é marcado por um sofrimento contínuo, que traduz sentimentos
diferentes, dependendo dos momentos que vive e das crises que experiencia(16).
O primeiro estágio inicia com a negação, advindo com a surpresa e isolamento,
caracterizado pela recusa de acreditar que determinada informação seja
verdadeira, podendo ser um estado temporário de choque do qual se recuperará
gradualmente. Vejamos os depoimentos que denotam esse estágio.
"Eu acredito que o pior momento é quando a gente ouve do médico que
está com um câncer. Sua cabeça dá um giro de num sei quantos graus.
Parece que você morre e ressuscita em alguns minutos". (Afrodite)
"Desde que eu descobri que to com câncer acho que as coisas tão
ficando cada vez mais difíceis. Eu num posso trabalhar, num posso
passear, tenho vergonha de ficar perto das pessoas". (Hermes)
O depoimento de Afrodite sobre o momento do diagnóstico de câncer deixa
transparecer ao mesmo tempo surpresa, isolamento e choque com o inesperado. Ao
verbalizar que sua cabeça dá um giro de num sei quantos graus, mostrou-se
atordoada pelo enigma da doença e pelo sofrimento de vivenciar o limiar da vida
e da morte como alguém que morre e ressuscita em alguns minutos.
A mulher tem maior capacidade de adaptação a novas situações, pois ela, ao
contrário do homem, se esforça na busca de conhecimentos sobre a doença e busca
mais apoio social e emocional, além de orientar seus esforços cognitivos para
lidar com as exigências e o estresse da situação(17).
Ressalta-se com o depoimento de afrodite que a revelação do diagnóstico de
câncer é realmente um momento delicado e por vezes, crucial, pois a forma como
o profissional de saúde dá a notícia interfere diretamente na relação do
paciente com o seu próprio diagnóstico(18).
Hermes revela que com o diagnóstico surgiu uma barreira intransponível entre a
vida cotidiana e a sua condição de saúde que tanto a deixa angustiado pela
transformação de sua vida que esta cada vez mais difícil; assim, resta a Hermes
afastar-se da convivência com os quando diz ter vergonha de ficar perto das
pessoas.
Acrescentando-se à experiência de vivenciar essas fases retro-citadas, o câncer
provoca também uma extensão dos sintomas para além da dimensão física,
provocando um fenômeno conhecido como dor total, o qual é definido como um
conceito no qual se admite que uma pessoa sofre não apenas pelos danos físicos
que possui, mas também pelas consequências emocionais, sociais e espirituais
que a proximidade da morte e a cronicidade pode lhe proporcionar(19). Veremos
como o depoimento de Hera corrobora com essa premissa.
"Ter câncer causa dor de todo jeito, tanto espiritual, como física e
moral. Parece que você se divide em duas, uma antes de ter o câncer e
outra depois". (Hera)
Apesar de todo sofrimento causado pela doença a postura de Hera mostra a
decisão de enfrentar o câncer, a começar pela constatação de que não se pode
ser a mesma. O sofrimento da contingência de ter câncer revela-se como um marco
divisor produzindo mudanças nas maneiras específicas de viver.
Remetendo-se ao gênero enquanto rede de possibilidades é preciso ser outro
homem, ser outra mulher, para viver num cotidiano de incertezas e ambigüidades
de sentimentos que surgem no enfrentamento das limitações impostas pela doença.
Subcategoria 1.2- Limitações do viver impostas pelo tratamento
A terapia do câncer, na qual a quimioterapia está associada, gera vários
efeitos colaterais físicos, como náuseas, vômitos, anorexia, constipação,
diarréia, fadiga e mucosite.
Estes efeitos evidenciam o status da doença a medida que proporciona dor e
sofrimento com os efeitos esperados. E que, por conseguinte devido ao
significativo impacto social, o acréscimo dos efeitos colaterais da
quimioterapia pode levar o paciente a sentir-se impotente para reagir e lutar
pela sobrevivência(20).
As conseqüências inevitáveis do tratamento quimioterápico exacerbaram a
preocupação e o sofrimento físico de Geia quando verbalizou que se sente mais
cansada e mais debilitada.
"Só me sinto um pouco mais cansada, acho que é por causa da
quimioterapia, porque a gente fica meio debilitada". (Geia)
Não podemos nos esquecer de que esses homens e mulheres além de submeterem seus
corpos a quimioterapia também eram ostomizados, sendo isso mais um agravante ao
tratamento, que na maioria das vezes, gera distúrbios de auto-imagem além de
ser um co-adjuvante para o retraimento social. Artemis denuncia de forma
intensa esse aspecto quando diz que:
"(...) deixa a gente feia, careca, magra, por causa da quimioterapia.
Sem falar nessa bolsa de colostomia, eu tenho até vergonha de ter
relações sexuais com meu esposo, e acho até que ele ta se afastando
um pouquinho de mim". (Ártemis)
Este depoimento deixa evidente que a colostomia alterou a auto-estima e
provocou uma despersonalização em Artemis, influenciando de forma negativa no
relacionamento conjugal ao ponto dela ter vergonha de manter relações sexuais e
de nutrir sentimento de rejeição por parte do marido.
Chamamos a atenção para o fato de que sendo Artemis uma mulher vaidosa as
consequências desses sentimentos poderão contribuir para também alterar o
relacionamento social, desenvolve seu estilo de vida comandado pelas respostas
que a terapêutica provoca, tendo como referencial a reação do outro para
consigo.
Por outro lado é relatado que alguns pacientes reagem conformando-se com a
necessidade das ostomias, assumindo diante delas uma postura de otimismo, pois
as vêem como um fator promotor de controle dos sintomas e sinais clínicos(20).
A experiência vivida com o ato de adoecer cria significados e se desenvolvem
modos rotineiros de lidar com esta situação.
Em condições de enfermos passam a assumir atitudes com a adoção de estratégias
e novas percepções sobre essa situação atual, como evidencia a fala posterior:
"Eu tenho a compreensão de que a quimioterapia é necessária, é uma
coisa pra eu ficar boa, mas é uma fase muito complicada (...) mexe
demais com a pessoa. Pior eu, que já fiz duas colostomias e vivo com
essas "danadas" penduradas no meu corpo, digo que são meus
cachorrinhos de guia (risadas) já até me acostumei com elas, to
virando expert no assunto". (Afrodite)
Sobre esta subcategoria, é interessante perceber que foi ausente nos
depoimentos masculinos a descrição de momentos dolorosos relacionados apenas ao
tratamento. Os homens parecem encarar este momento com maior tranqüilidade
apesar de não manifestarem esperança de cura tanto quanto as mulheres.
Consoante a literatura(21) e ratificado pelo nosso estudo está claro que há
diferenças no comportamento entre homens e mulheres principalmente no que se
refere aos aspectos psicológicos associados à forma como estes percebem os
sintomas, avaliam a gravidade da doença e decidem quanto ao tratamento. As
mulheres declaram mais suas doenças, avaliam pior o seu estado de saúde, se
submetem mais a exames e se apresentam mais vulneráveis ao surgimento de
efeitos.
Categoria 2- Uma vida em transformação: das ameaças as superações
Subcategoria 2.1- A preocupação com a masculinidade
Os homens mostraram que vivem numa constante preocupação relativa às
conseqüências do diagnóstico, especialmente sobre a debilidade física e da
ameaça à sua masculinidade por viver um período de perda da autonomia e do
controle total sobre si mesmo e as situações ao seu redor.
Um homem adoecer de qualquer coisa já é difícil porque parece que a
casa vai ficar sem chefe, imagine adoecer de câncer! (Zeus)
A gente às vezes se sente impotente (....) isso acaba afetando a
masculinidade da gente, principalmente se a mulher do cara ouve um
negócio desse. (Hermes)
Hermes e Zeus mostram toda a preocupação com a perda do que consideram o poder
masculino sendo que esse tipo de reação é esperado, pois do gênero masculino
não se espera sensibilidade, cuidado, fragilidade ou dependência(22).
Nota-se que esses depoimentos são repletos de alusões ao estereótipo de que a
masculinidade é ser um homem forte, produtivo, competitivo, ativo, envolvido
nas tarefas múltiplas da vida cotidiana familiar e social, sendo um provedor
exclusivo do lar. Entretanto esses homens com câncer viam-se como uma pessoa
com fragilidades que perderam o poder sobre o seu corpo em virtude de um tumor.
Hermes referenciava-se ao fato de que após ter sido diagnosticado com câncer de
reto, seus amigos o recriminavam e zombavam com brincadeiras que denegriam a
sua masculinidade, sugerindo que o mesmo realizava práticas homossexuais devido
a localização do câncer. Estes comentários o deixam atordoado porque a imagem
vinculada sobre masculinidade é aquela que não está ligada a homossexualidade,
e ligado a um ser forte e desafiador.
Ademais, foi identificado nas falas dos homens que eles atribuem a origem do
seu câncer a um fator potencialmente determinado por eles mesmos, os quais são
conhecidos como hábitos nocivos da masculinidade, tais como: tabagismo, álcool
e má alimentação.
Ser homem e ter câncer (pausa...), eu acho que isso é uma
consequência de uma vida meio desmantelada na alimentação sabe? Nunca
liguei muito pra esse negócio de prevenção, não me cuidava. (Apolo)
Com esta declaração de Apolo é possível perceber que o homem da modernidade se
vê como uma pessoa mais vulnerável, apesar de um poder socialmente atribuído ao
masculino. Vê-se que ele reconhece que o comportamento de falta de prevenção e
de cuidado consigo mesmo gerou efeitos que mudaram sua dinâmica de vida e
depreciaram sua imagem de masculinidade(23).
Subcategoria 2.2- A fragilidade e a fortaleza: ambigüidade feminina
As mulheres percebem o câncer como algo favorável a mudanças na sua maneira de
viver, causando grande desordem emocional, uma vez que as percepções femininas
reproduzem uma imagem marcada por medo, sofrimento e dúvidas.
A pessoa com câncer pode trazer uma série de implicações em níveis: físico,
emocional, afetivo, profissional, financeiro para o sujeito enfermo, bem como
comprometer as relações familiares, gerando estresse, tensão e conflito(24).
Podemos observar no depoimento de Ártemis que o adoecer de câncer traz consigo
uma sucessão de implicações emocionais e que as experiências por ela
vivenciadas é na verdade um grande complexo. A doença em si gera um grau de
sofrimento enorme, uma vez que amplia a fragilidade e a dependência de cuidados
especiais que a doença exige, além da singularidade que enfrenta diante da
situação.
Porque a gente sendo mulher, o povo já vê a gente, assim, mais fraca,
com menos força pra enfrentar os problemas (...). A gente fica muito
bitolada, só pensa nisso direto, num vê a hora de ficar boa, porque
sei que curada num vou ficar mesmo. (Artemis)
Foi constatado que o estudo de diferenças de gênero no enfrentamento pode
contribuir de modo importante para a nossa compreensão dos processos cognitivos
e dos fatores sociais e interpessoais que afetam o desenvolvimento e o
ajustamento do indivíduo(17). Talvez a marca mais profunda causada pelo câncer
seja a perda da identidade anterior e o medo da rejeição.
Percebemos ainda no depoimento de Afrodite que ao comparar o câncer em homens e
mulheres, a razão referida mostrou que o enfrentamento da doença para o grupo
feminino se torna mais difícil, pois demanda uma série de transformações a
nível psicológico quando diz que:
"...Se eu fosse comparar o câncer pra um homem e uma mulher, acho que
pra mulher é mais complicado porque a gente tem um psicológico mais
desenvolvido, chora por qualquer coisinha, até com beijo de
novela..." (Afrodite)
A partir do relato acima, podemos observar a vulnerabilidade feminina que o
estar com câncer suscita, a fragilidade da mulher em adoecer de câncer e isso
gera grande estresse provocando alterações físicas e psicológicas nas suas
vidas.
Em relação à forma como as pessoas percebem o seu estado de saúde, constatou-se
que gênero é um fator de risco mais importante que a idade(4). Esses autores
concluíram que baixos níveis de saúde percebida estão associados ao gênero
feminino.
Essas reações devem ser entendidas dando atenção e importância à história de
vida de cada pessoa, considerando o contexto cultural e socioeconômico em que
ela está inserida, para isso é necessário reconhecer essa realidade e os
limites de compreensão da situação existente de cada um. Nesse enfoque
observamos que a grande diferença nas experiências vivenciada por essas
mulheres está na complexidade sentida emocionalmente.
Os valores são o fundamento da diferença. As mulheres são diferentes dos
homens, porque no centro de sua existência estão outros valores: a ênfase no
relacionamento interpessoal, a atenção e o cuidado com o outro, a proteção da
vida, a valorização da intimidade e do afetivo, a gratuidade das relações. A
identidade feminina provém da interação com os outros. Daí serem as mulheres
mais intuitivas, sensíveis e empáticas(25-26).
CONCLUSÕES
As diferenças de gênero captadas nesta abordagem de câncer envolvem
características tais como: perda da masculinidade, vulnerabilidade da vida, a
reafirmação da mulher como um ser sensível e ao mesmo tempo forte mo processo
de adoecer, a quebra dos marcos de virilidade do homem, o preconceito
vivenciado em ambos os gêneros e a necessidade de um suporte no enfrentamento
da doença.
O momento do diagnóstico foi marcado por uma inevitável fragmentação na vida
dos sujeitos, indistintamente para os gêneros. Foi percebido por meio das falas
que este foi o pior momento no transcorrer da doença, caracterizado como uma
fase de medo, angústia e ansiedade. Referente ao tratamento, as mulheres
apresentavam-se mais queixosas quanto aos efeitos colaterais causados por este,
mostravam mais fragilidade e se sentiam manipuladas pela quimioterapia. Já os
homens não verbalizaram inquietude quanto ao tratamento.
Portanto, é notório que os estereótipos criados pela sociedade acerca de gênero
se traduzem no comportamento apresentado pelas pessoas que adoecem de câncer,
se fazendo necessário que os profissionais que cuidam deste tipo de paciente
estejam atentos às diferenças de gênero e as respostas que lhes são
apresentadas de acordo com a etapa do processo de adoecer, a fim de adaptar uma
comunicação terapêutica eficaz.