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Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672010000400009

variedadeBr
ano2010
fonteScielo

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Nexos e desafios na formação profissional do enfermeiro

INTRODUÇÃO Na década de 1980, a sociedade civil organizada impulsionou vários movimentos que resultaram na promulgação da nova Constituição da República Federativa do Brasil, em 1988, e na aprovação das Leis Orgânicas da Saúde (LOSs) - Lei 8080/90 e Lei 8.142/90, criando o Sistema Único de Saúde (SUS) e estabelecendo a integralidade da atenção à saúde como princípio constitucional norteador da formulação de políticas de saúde(1).

As LOSs reafirmam que a efetivação das políticas públicas de saúde dar-se-á pela reorientação da política de recursos humanos no SUS e, por conseguinte, na reformulação dos currículos das instituições de ensino superior por meio de Diretrizes Curriculares adequadas às necessidades dos SUS(1).

Com a regulamentação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) (2), 9.394/96, em 1996, estabeleceram-se as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para todos os cursos de Graduação. Em 7 de dezembro de 2001, foi homologada a Resolução 03 de 7/11/2001 pela qual instituíram-se as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem(3).

Assim, as DCNs do Curso de Graduação em Enfermagem apontam para uma formação do enfermeiro mais integrada com perfil generalista, humano, crítico e reflexivo e tendo como base o princípio científico(4), visando a desenvolver, no futuro profissional, competências e habilidades à atenção à saúde, tomada de decisões, comunicação, liderança, administração e gerenciamento e educação permanente.

O desenvolvimento de tais competências e habilidades pressupõe a adoção de estratégias fundamentadas nas diretrizes do SUS, no conceito ampliado de saúde e na utilização de metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Nesse processo, as atividades propostas consideram como eixo estruturante o trabalho multidisciplinar, a integração entre o ensino e as demandas dos serviços e o aperfeiçoamento da atenção integral à saúde da população. Proporcionam também, o desenvolvimento, no processo de formação, da capacidade de aprender a aprender, que engloba o aprender a conhecer, a fazer, a viver junto e a ser, garantindo a capacitação de profissionais com autonomia e discernimento para assegurar a integralidade da atenção à saúde com qualidade e e resolutividade (1).

As DCNs procuram aproximar o cuidado individual, na perspectiva da saúde coletiva, com vistas à integralidade da atenção em saúde(5), devendo ser contemplado no Projeto Pedagógico do Curso (PPC), assim como explicitar a sua intencionalidade e compromisso social.

Ao entender que o PPC é dinâmico e necessita constantemente ser revisitado para atender às mudanças, torna-se importante buscar estratégias que possibilitem avaliá-lo, de forma a promover reflexão/ação de todos os atores envolvidos, dentre eles os próprios diplomados.

Ao procurar evidenciar, os nexos e contradições entre a formação e a práxis profissional, à luz do que é preconizado nas Diretrizes Curriculares e tendo como referência a teoria do discurso de Michel Foucault, analisa-se o quanto o PPC está atendendo às competências e habilidades necessárias para a formação do enfermeiro, ao mesmo tempo, em que se buscam estratégias que possam aprimorar a formação desse profissional, frente aos avanços tecnológicos e às necessidades sociais.

As práticas discursivas são, na visão de Foucault, simplesmente, formas de fabricação de discursos, que se formam em enunciados, em teorias, em instituições, na maneira como se organizam determinadas práticas e como são transmitidas(6). A análise foucaultiana propõe descrever os enunciados do discurso que podem estar expressos de diferentes maneiras, como em uma frase ou em um ato de linguagem. Nessa análise, novos conceitos despontam, proporcionando a ressignificação de sujeitos e, conseqüentemente, das práticas de ensino(7).

Tem-se consciência, como educadores, do compromisso em preparar futuros profissionais enfermeiros que, além de competentes na técnica e no Cuidado Humano, e sintonizados com o papel social da Enfermagem, também sejam cidadãos éticos, compromissados com eles próprios e com o outro e em condições de atuar em uma sociedade impregnada de incertezas.

Entretanto, como um PPC poderá dar conta de tantas incertezas que caracterizam o mercado de trabalho atual? Está-se, realmente preparando futuros profissionais para atuarem nessa sociedade contemporânea, que exige do enfermeiro, uma postura crítica, reflexiva, empreendedora, autônoma, generalista, como preconizam as Diretrizes Curriculares de Enfermagem? Quais são as práticas discursivas que estão permeando o ensino de Graduação e repercutindo na vida profissional do enfermeiro? O PPC está preparando futuros enfermeiros com compromisso social e político de participar e assumir suas competências frente às políticas de saúde? Nesse contexto, é importante refletir sobre que Enfermagem é essa que se quer, e questionar se a formação de enfermeiro generalista, segundo as Diretrizes, conseguirá dar conta do saber/fazer enfermagem em diferentes cenários(8).

Ao mesmo tempo em que se buscam respostas para tantas questões, é importante que se tenha consciência de que tanto o PPC como as Diretrizes Curriculares da Enfermagem não poderão dar conta, na totalidade, da complexa rede visível e invisível que permeia a prática assistencial do enfermeiro.

Entretanto, ao desalojar o discurso do profissional diplomado, por meio da análise foucaultiana, se estará produzindo, além de novos conceitos, novos modos de ser e fazer - técnicas, na concepção de Foucault, o nascimento de novos sujeitos, novos jogos de verdades, ressignificando, assim, práticas de ensino(9).

Quando se fala em sujeitos e jogos de verdades(10) torna-se importante salientar que devem ser entendidos como o desenvolvimento mútuo da subjetivação e objetivação do sujeito, ou seja, ao estabelecer que posição deve ocupar o sujeito em relação ao seu conhecimento, determina-se o seu modo de subjetivação e, ao definir em quais condições ele pôde se tornar objeto para ser problematizado, para ser conhecido, define-se, também o modo de objetivação.

São os dois procedimentos que originam jogos de verdades (Foucault refere jogos, não no sentido de imitar ou de representar, mas como um conjunto de procedimentos que conduzem a um certo resultado, que pode ser considerado, em função dos seus princípios e das suas regras de procedimento, válido ou não, ganho ou perda(9)).

Sendo assim, este estudo teve como objetivo conhecer e analisar os discursos dos diplomados em Enfermagem de uma Universidade, da região Sul do Brasil, no que se refere aos nexos e às contradições entre a formação e a práxis profissional e as recomendações das Diretrizes Curriculares do Curso de Graduação em Enfermagem.

MÉTODO Realizou-se um estudo qualitativo do tipo observacional, baseado na Arqueologia e na Genealogia de Michael Foucault, com enfermeiros diplomados de um Curso de Graduação em Enfermagem de uma Universidade da região Sul do Brasil.

Constaram como critérios de inclusão dos participantes, estar formado, no mínimo, havia seis meses e possuir endereço eletrônico. Dos 191 diplomados pelo Curso de Enfermagem, no período de 2002 a 2005, 143 atendiam a esses critérios e foram contatados, dos quais 34 responderam ao questionário.

A coleta de dados foi realizada por meio de um instrumento, com questões semi- estruturadas. O participante recebeu, por correio eletrônico, a explicação sobre a pesquisa, incluindo os objetivos, e como deveria proceder no reenvio do questionário, sem ser identificado. Nesse e-mail ele acessou o questionário por meio de um link e, ao abri-lo, encontrou o formulário, no formato HTML (hypertext markup language).

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de discurso de Michael Foucault, exigindo, por parte dos pesquisadores, uma atitude arqueológica, ou seja, a de esquadrinhar os enunciados presentes nos discursos dos diplomados.

Dessa forma, a descrição arqueológica individualiza e descreve formações discursivas, busca a história dos acontecimentos e a descrição sistemática de um discurso - objeto à procura de saberes e status científico dos objetos.

Respeitando os aspectos éticos, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade (Parecer 411/08) e cumpriu os princípios da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(11). O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido constou como primeira parte do instrumento de coleta de dados. Ao responder ao questionário, os diplomados implicitamente consentiram que suas respostas fossem analisadas e, posteriormente, publicadas com fins científicos, respeitando-se seu anonimato.

RESULTADOS E DISCUSSÃO As Diretrizes Curriculares e o Currículo de Enfermagem vivenciado As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino de Graduação em Enfermagem estão definidos os princípios, fundamentos, condições e procedimentos da formação de enfermeiros e proposta a formação de profissionais generalistas, com visão humanista e que atenda às demandas sociais da saúde, no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) (12).

Sob esta ótica, serão desenvolvidas, três temáticas que emergiram dos discursos dos diplomados: Sistema Único de Saúde, Formação Generalista e Humanização.

Sistema Único de Saúde De acordo com as DCN, a formação do Enfermeiro deve assegurar a integralidade da atenção e a qualidade e humanização do atendimento(3), apontando para a mudança na educação/formação de profissionais da área da Saúde em direção às práticas cuidadoras, ao trabalho em conjunto dos profissionais da equipe de saúde e ao máximo compromisso com o SUS.

Os diplomados referendaram que, durante a Graduação, estudaram conteúdos referentes às Políticas de Saúde e ao SUS. Com o objetivo de proporcionar ao leitor a oportunidade de vivenciar os depoimentos, foram incluídos alguns relatos dos egressos, identificando-os com a letra S de sujeito e o número correspondente ao número do questionário).

S1 colocou que teve oportunidade de realizar diversos estágios em atenção básica, os quais: "fizeram entender que Enfermagem não se faz somente dentro de hospitais; é preciso dar atenção à saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para que não se tenham hospitais lotados".

O participante S4 relatou em seu discurso que o conhecimento sobre o SUS foi um ponto importante no "desenvolvimento de sua competência profissional".

S11 expressou: "Realizamos estágios curriculares, observando a realidade do SUS" e S9 referiu que "[...] Abordagem do SUS foi realizada através de estágios na rede básica, elaboração de oficinas, cursos e a vivência dentro dos das Unidades Básicas, para melhor entender as necessidades do SUS".

A diversificação de cenários de prática, bem como a ampliação dos períodos e aproximação ao SUS, além da preocupação com os aspectos éticos e humanistas dos profissionais e a multiprofissionalidade, em especial com o caráter interdisciplinar, direcionarão o futuro enfermeiro, não a conhecer o perfil epidemiológico, mas a tornar-se um interventor, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos(12).

A partir dessas diferentes experiências adquiridas pelo aluno, no campo de estágio, a apreensão do conhecimento não é simplesmente por reprodução, pois a aprendizagem é recriada e transformada em novos conceitos, potencializando novos saberes(13).

Nesse sentido, os egressos também verbalizaram que a aprendizagem ocorreu, tanto em sala de aula, como nos campos de estágios, como descreveu S4: "Aulas expositivas e práticas em campo com professores experientes e capacitados, com experiência em áreas públicas. Além disso, recebemos palestras de pessoas ligadas a serviços públicos".

De fato, é no cotidiano da sala de aula, como espaço sócio-político-pedagógico, que se constrói ou não os processos de subjetividade, de construção de sujeitos em uma cidadania crítica, reflexiva, democrática e social, individualmente construída como possibilidade(14).

No que se refere às experiências para além da sala de aula, S4 relatou: "Foram realizados inúmeros estágios práticos em Unidades Básicas de Saúde, Programa de Saúde da Família (PSF) e hospitais públicos, permitindo que seguíssemos todo o processo de atenção primária e secundária de saúde". S19 colocou: "Este assunto foi bem desenvolvido, tanto em aulas como em estágios, foi muito bom".

Contrariamente, enquanto S13 referendou que "o currículo foi pouco focado em Saúde Pública", S5 declarou: "[...] não enfatizaram muito, na prática, como deveríamos aplicar as Leis e Diretrizes exigidas pelo SUS". A fala de S5 faz refletir sobre a relação entre prática e teoria que, para Foucault, é muito mais parcial e fragmentada, ou seja, uma teoria forma um corpo, quando revezamento de uma prática à outra, e a prática se constrói como saber quando esse revezamento ocorre de uma teoria para a outra. É por isso que a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática (15).

Assim, a construção do conhecimento perpassa a teoria e a prática, a partir do momento em que o aluno, por meio da interação, da prática social e das diferentes realidades, incorpora no seu agir a responsabilidade da sua aprendizagem. Portanto, ao propiciar ao aluno diferentes métodos de aprendizagem; assim como diferentes cenários de práticas, proporciona-se a ele o aprimoramento de conceitos adquiridos anteriormente, permitindo que saia de si, do lugar comum e se torne agente de mudança e de novos significados, recriando, assim, novos saberes e práticas.

Nesse contexto, S11 referiu: "Realizamos discussão com textos, aprendemos os princípios do SUS, realizamos estágios curriculares observando a realidade do SUS". E S33 completou: "Os locais de estágio puderam dar uma base para atuação profissional, não esquecendo, é claro, da fundamentação teórica, por meio de visitas domiciliares, acompanhamento da atuação dos profissionais, formação de grupos de orientação, consulta de enfermagem, atividades com a comunidade, participação em campanhas e projetos do Ministério da Saúde".

Ao propiciar ao aluno a sua inserção em diferentes cenários de prática na atenção básica, possibilita-se a sua participação e, em algumas situações, a sua intervenção na realidade do SUS(16). Da mesma forma, oferecer a ele diferentes vivências/experiências nos cenários de aprendizagem, fazendo com que ele possa interagir com a realidade local, trabalhar em equipe e participar da atenção integral à saúde, significa preparar um profissional voltado para as necessidades dos sujeitos e do coletivo, compreendendo e intervindo nos determinantes do processo saúde-doença.

Formação Generalista O enfoque generalista é um pressuposto fundamental na formação do enfermeiro, o que requer do mesmo um conhecimento mais global e não somente da Área da Enfermagem, devendo incorporar à sua bagagem clínica, a epidemiologia, educação em saúde, relação interpessoal, iniciativa, dinamismo e capacidade de trabalho em equipe multidisciplinar com o objetivo de contribuir na articulação de projetos de intervenção individual e coletiva(12).

A formação generalista aparece como uma estratégia que contribuiu para a inserção dos enfermeiros no mercado de trabalho. Na visão dos diplomados, essa competência foi contemplada ao longo do curso, conforme relata o participante S15: "O curso nos preparou como enfermeiros generalistas, pois quando saímos do curso não sabemos a Área em que iremos trabalhar e, sendo generalistas, podemos trabalhar em diversas áreas mesmo tendo nossas preferências por certas áreas".

A ênfase dada pelas DCNs à formação de um profissional generalista, e não em um especialista, permite que ele saiba integrar ações de promoção e prevenção à saúde com ações de recuperação e reabilitação, e não apenas tratar e prevenir doenças(16).

Assim, a formação generalista passa a ser uma estratégia necessária para a formação integral dos futuros enfermeiros. Isto está em acordo com o indicado no artigo , inciso I, das DCNs: "O curso de Graduação em Enfermagem tem como perfil do formando egresso/profissional, enfermeiro com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva(3)".

Os discursos a seguir expressaram a necessidade social da saúde em dispor de profissionais com formação mais ampla, para um melhor desenvolvimento de sua competência profissional: [...] Durante o curso passamos por quase todas as áreas que um enfermeiro poderá atuar e isso faz com que tenhamos uma visão ampla da profissão de Enfermeiro [...] . S11. De modo similar, S23 colocou que houve [...] Estágio desde o terceiro semestre e atuação em diversos campos de estágios como hospital e posto de saúde [...].

Por outro lado, o comentário de S9 sobre "carga horária reduzida (estágios muito rápidos); locais de estágio (muitas Unidades Básicas de Saúde e pouca vivência no hospital); falta de conhecimento em bloco cirúrgico e quimioterapia" permite inferir-se que ainda prevalece, na visão de alguns alunos, a necessidade de vivências em Unidades especializadas como base imprescindível para a formação inicial do profissional enfermeiro. Nessa ótica, existe uma retomada das práticas que se constituem como verdades e que se mostram, dessa forma intocáveis(17).

Nesse sentido, salienta-se um grande desafio para o ensino de Graduação em Enfermagem, pois, ao mesmo tempo em que necessidade de formar um profissional generalista, também é preciso levar em conta questões políticas e econômicas, atendendo, com competência e visibilidade, as várias especializações que surgem, continuamente, no cenário da atenção à saúde.

Nesse contexto é importante refletir sobre que Enfermagem se quer, e questionar-se se a formação de enfermeiros generalistas, segundo as Diretrizes, conseguirá dar conta da complexidade das demandas da Saúde, sejam elas de alta tecnologia, das especialidades como "Home Care" ou nos Programas da Saúde da Família (PSF)(8).

Para Foucault, questionar é importante, pois destaca que momentos na vida onde pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se , é fundamental para continuar a olhar ou a refletir(18). E nessa reflexão, produzir, além de novos conceitos, técnicas, o nascimento de novos sujeitos, novas práticas de liberdade, produzindo, assim, novas práticas de saúde(7).

Humanização O cuidado, objetivo da prática de enfermagem, desenvolve-se no encontro com o outro, sendo mais facilmente reconhecido como uma necessidade nos momentos críticos da existência do ser humano. No entanto, ele precisa ser sentido, assumido e exercitado no dia-a-dia da enfermagem para evitar que sua prática se torne mecânica, impessoal e até desumana.

Mediante a ênfase dada à formação humanista, as DCNs possibilitam que os diplomados tenham uma compreensão dos determinantes sociais, culturais, comportamentais, psicológicos, ecológicos, éticos e legais, nos níveis individual e coletivo, do processo saúde-doença, assegurando a integralidade da atenção e a qualidade e humanização do atendimento(11).

Na Enfermagem, a formação humanista é aquela que consegue congregar, além da prática profissional, a pesquisa, o ensino, a extensão e a assistência humanizada, tendo como eixo de construção a investigação científica e, como referência, a cidadania(12). Da mesma forma, a humanização deve fazer parte da filosofia de enfermagem e tornar o aluno capaz de criticar e construir uma realidade mais humana(19).

Durante a formação, o cuidado humanizado aparece como um aspecto importante na atuação do enfermeiro no mercado de trabalho. Essa compreensão também foi expressa pelos participantes S13 e S17 quando salientaram como um ponto forte na sua Graduação: [...] A ênfase dada à formação humana além da profissional [...] S13 [...] Cuidado humanizado [...] S17 [...] Relações humanas.

Entretanto, cabe salientar que essa realidade humana perpassa os diferentes modos pelo qual o ser humano torna-se sujeito para si mesmo, pelo qual ele é induzido a observar-se, analisar-se, reconhecer-se como domínio do seu saber.

São exemplos o louco e o são, o doente e o sadio, o bom e o mau, entre outros, constituindo-se a si mesmo por meio de práticas sociais(20).

Ao pensar na formação do enfermeiro, salienta-se que, para o sujeito cumprir sua missão humana, deve-se educá-lo para que ele possa atingir ou construir sua própria autoconsciência(21). E a construção dessa autoconsciência perpassa por uma educação com competência política, ética e científica.

Em contrapartida, o discurso de alguns diplomados revelou uma super-valorização da dimensão técnica. Assim, para S32, os profissionais [...] saem da faculdade muito mais preocupados com a técnica, com os procedimentos [...].

Essa fala reflete uma preocupação presente no discurso de docentes de que preparar um profissional para a Área da Saúde, significa muito mais do que formá-lo com habilidade no manejo de técnicas, procedimentos e instrumentos.

Muito mais do que a dimensão técnica, existe as que expressam valores de ordem moral ou ética, ideológica ou econômica(22).

No entanto, observa-se que mesmo destacando o aspecto técnico, os diplomados não desconsideram a dimensão ética e humana. Isso se evidencia no discurso de S10, ao destacar os pontos fortes que contribuíram para o desenvolvimento de competências para o início de sua vida profissional: conhecimento, diversidade de vivências; ética, não na formação profissional, mas pessoal, o que facilita a construção da vida profissional, facilidade para visão integral.

Dessa forma, as orientações das diretrizes curriculares possibilitam que se reflita e se questione, como docentes, como despertar no aluno a valorização do agir humanizado, seja no cotidiano da sala de aula, ou em campos de estágio, agregando-o à competência tecnológica.

Na busca de respostas a essa questão, e reforçando as DCN, alguns autores salientam os denominados quatro pilares da Educação - aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos /aprender a conviver com os outros e aprender a ser como elementos norteadores do processo educativo, fundamentais para o desenvolvimento da essência do Humanismo e da Ética(23).

TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo assinala que os discursos dos diplomados evidenciaram uma aproximação dos nexos entre as concepções e orientações das Diretrizes Curriculares e do SUS com a realidade da práxis profis-sional.

Os princípios que constituem as DCNs, como SUS, huma-nização, formação generalista, foram trazidos, pela maioria dos participantes da pesquisa, como questões trabalhadas, ao longo de toda a matriz curricular, e destacadas como importantes no processo de trabalho do enfermeiro.

Entretanto, percebe-se ainda, nos discursos de alguns diplomados certas contradições entre a formação teórico-prática e a práxis profissional, o que representa um desafio no cotidiano acadêmico da enfermagem. Nesse sentido, entende-se que estratégias pedagógicas, a exemplo de metodologias ativas, precisam ser mais bem exploradas pelo corpo docente dos cursos, para promover essa aproximação.

Da mesma forma, a diversidade dos cenários de práticas e ênfase no SUS, trazido pelos diplomados, constituem um desafio permanente de articulação do processo de construção do conhecimento conceitual e a matriz curricular, referendados nas Diretrizes Curriculares dos cursos de Graduação da Área da Saúde.

Outro ponto merecedor de reflexão é a possibilidade de ampliar a participação do aluno e do professor na produção de conhecimentos relevantes para as necessidades de saúde nos campos de prática, articulados às políticas públicas de Saúde.

Portanto, percebe-se a necessidade de continuar a avaliar, por meio dos discursos dos diplomados e norteados pelas Diretrizes Curriculares, os nexos e as contradições entre a formação e a práxis profissional, como forma de aprimorar o Projeto Pedagógico do Curso e de valorizar a qualidade do processo de trabalho do enfermeiro.

Dessa forma, se estará promovendo a constituição de um novo agir, voltado para uma compreensão ampla de Saúde, em prol de uma atenção integral, comprometida com as necessidades dos usuários e pautada na integralidade e intersetoriedade.


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