Educação em saúde a partir de círculos de cultura
INTRODUÇÃO
A municipalização da saúde constituiu elemento marcante para implantação dos
Programas de Saúde da Família, objetivando promover um acesso da comunidade aos
serviços de saúde, de modo a reorientar as ações com enfoque na promoção à
saúde buscando estabelecer uma articulação entre as demais instâncias de
atenção à saúde, possibilitando encaminhamentos necessários a uma assistência
que atenda, entre outros, ao princípio da integralidade.
O Programa Saúde da Família surge no contexto nacional a partir dos êxitos e
dificuldades de modelos anteriores de organização da atenção básica, dentre
estes a Ação Programática em Saúde(1), o modelo em Defesa da Vida, os sistemas
locais de saúde (SILOS), os distritos sanitários(2), reportando-se, ainda, no
plano internacional, às experiências dos modelos de Saúde da Família,
particularmente de Cuba e Canadá(3).
Vale ressaltar como alicerce para a reorientação das políticas públicas de
saúde, o moderno movimento de promoção da saúde, que surge no Canadá em 1974 e
é propagado para o mundo com a primeira Conferência Internacional sobre o tema
em Ottawa no ano de 1986. Como fruto da conferência foi elaborado a Carta de
Ottawa enfatizando que as ações comunitárias serão efetivas se for garantida a
participação popular na delimitação de prioridades, na tomada de decisões e na
definição e implementação de estratégias para alcançar um melhor nível de
saúde. Para tanto, o documento resgata a dimensão da educação em saúde, com a
idéia de "empowerment", ou seja, o processo de aquisição de poder
técnico e consciência política para atuar em prol de sua saúde(4).
Como estratégia de promoção à saúde, a práxis de Educação em Saúde, nesta
conscientização individual e coletiva de responsabilidades e de direitos, deve
eleger metodologias de ensino que conduzam a uma transformação dos indivíduos
socialmente inseridos no mundo, ampliando sua capacidade de compreensão da
complexidade dos determinantes de ser saudável(5).
É imprescindível, portanto construir práticas educativas comprometidas com os
princípios de cidadania e democracia, e que leve o indivíduo a sua autonomia e
emancipação como sujeito histórico e social capaz de propor e opinar nas
decisões de saúde, evidenciando o compromisso social com a melhoria do estado
de saúde da população(6).
O exercício de uma prática educativa crítica constitui uma forma de intervenção
no mundo, comprometida com o princípio de democracia que rejeita qualquer forma
de discriminação, dominação e integra uma atitude de inovação e renovação, na
crença de que é possível mudar(7).
A abordagem de ensino do Círculo de Cultura de Paulo Freire(8), constitui uma
idéia que substitui a de `turma de alunos' ou de `sala de aula'. A escolha por
desenvolver um Círculo de Cultura, visa ensejar uma vivência participativa com
ênfase no diálogo, campo profícuo para a reflexão-ação na elaboração coletiva
de uma proposta sistematizada para uma educação em saúde emancipatória.
A denominação de Círculo culmina porque todos estão à volta de uma equipe de
trabalho, com um animador de debates que participa de uma atividade comum em
que todos se ensinam e aprendem, ao mesmo tempo. A maior qualidade desse grupo
é a participação em todos os momentos do diálogo, que é o seu único método de
estudo nos círculos. É de cultura, porque os círculos extrapolam o aprendizado
individual, produzindo também modos próprios e renovados, solidários e
coletivos de pensar(9).
O desenvolvimento do trabalho com aplicação do Círculo de Cultura requer que o
animador(a) esteja atento para o que se fala. As falas, as conversas, as
frases, entrevistas, discussões, dentro ou fora do círculo, tudo está carregado
dos temas da comunidade, seus assuntos, sua vida(10).
Tomando por princípio norteador o delineamento do "Método Paulo
Freire"(11), o desenvolvimento do Círculo de Cultura consiste de três
momentos: a) a investigação temática,pela qual os componentes do círculo e o
animador buscam, no universo vocabular dos participantes e da sociedade onde
eles(as) vivem, as palavras e temas centrais de suas biografias; b) a
tematização,mediante a qual eles(as) codificam e decodificam esses temas; ambos
buscam o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido; e
c) a problematização,por meio de que eles(as) buscam superar a primeira visão
mágica por uma visão crítica, partindo para a transformação do contexto vivido.
Constituindo uma estratégia da educação libertadora, o Círculo de Cultura é um
lugar onde todos têm a palavra, onde todos lêem e escrevem o mundo. É um espaço
de trabalho, pesquisa, exposição de práticas, dinâmicas, vivências que
possibilitam a elaboração coletiva do conhecimento(12).
A partir do entendimento das ações de Educação em Saúde, como proposta
inovadora, articulada entre a concepção da realidade do contexto de saúde e a
busca de possibilidades de atitudes geradoras de mudanças, este estudo propõe
aos(as) enfermeiros(as), que atuam em Programa Saúde da Família (PSF) na cidade
do Recife, a aplicação de uma metodologia participativa por meio do Círculo de
Cultura, inspirado no método de alfabetização de Paulo Freire. A realização dos
Círculos de Cultura visa a ensejar uma vivência, entre os(as) enfermeiros(as),
de uma proposta de intervenção educativa que valorize a experiência do grupo e
promova sua participação na construção do conhecimento coletivo. Espero, desta
forma, contribuir para o desenvolvimento de competências e habilidades desses
profissionais, como educadores(as) em saúde, numa perspectiva crítico-
reflexiva.
O que me proponho é a vivência de uma experiência pedagógica e a aquisição de
uma nova técnica para a solução de problemas vitais, com o manejo de Círculos
de Cultura, como um instrumento de autonomia. Esta proposta de Paulo Freire
pode ser vista a partir da interdisciplinaridade de suas dimensões, pois ele
não se percebe apenas como cientista e educador, mas também um sujeito social e
político. Ele busca, nas ciências (sociais e naturais), elementos para
compreender mais cientificamente a realidade e poder intervir de maneira mais
eficaz nela. Por isso ele pensa a educação ao mesmo tempo como ato político,
como ato de conhecimento e como ato criador(10).
Com base na aplicação do Círculo de Cultura como recurso teórico-metodológico
para desenvolvimento desta pesquisa, advogo a seguinte tese: a aplicação dos
Círculos de Cultura como abordagem metodológica desenvolvida junto as
enfermeiras de PSF possibilita a (re)construção de ações de educação em saúde,
tornando-as reflexivas e críticas.
Diante do exposto o estudo tem como objetivo sistematizar, com as participantes
dos Círculos de Cultura, uma proposta de (re)construção das ações de Educação
em Saúde que articule as competências necessárias aos(as) enfermeiros(as) de
PSF para uma prática de educação em saúde reflexiva e crítica.
METODOLOGIA
Constitui uma Pesquisa-ação, na qual, em consonância com Peruzzo(13), como
enfermeira/pesquisadora e animadora dos Círculos de Cultura, estabeleço uma
interação com as enfermeiras, que atuam em PSF, sujeitos do estudo,
determinando a conjugação da investigação com os processos mais amplos da ação
educativa e a apropriação coletiva do conhecimento.
Na opção por este tipo de estudo foi sedimentada a finalidade de propiciar às
profissionais perceberem-se e atuarem como sujeitos políticos no
desenvolvimento dos Círculos de Cultura. Constitui, assim, a alternativa de
investigação que visa à inclusão social das enfermeiras, como agentes de
conhecimento das ações de Educação em Saúde e beneficiárias dos resultados. Na
modalidade qualitativa de pesquisa, a literatura e a experiência de pesquisar
em enfermagem tem evidenciado a importância de sua coerência interna,
articulando o rigor no emprego do método e a fidedignidade do pesquisador ao
seu referencial teórico(14).
O estudo foi realizado no Distrito Sanitário VI, em RecifePernambuco-Brasil,
que abrange o total de oito bairros, com uma população de 368.844 habitantes. A
opção por trabalhar com o VI Distrito deu-se por possuir a mais extensa área
física e o maior número de equipes. Em virtude da sua extensão, esse Distrito é
subdividido em três microrregiões. Por conseguinte, foi constatada a
necessidade de optar por uma delimitação, sendo escolhido a microrregião 6.3,
correspondente ao bairro do Ibura, que apresenta as seguintes características:
área bastante acidentada, com elevada concentração populacional, predominando o
baixo poder aquisitivo de seus moradores, população dependente em sua
totalidade do SUS, já ter havido iniciativas anteriores de implementar ações de
Educação Popular em Saúde por interesse da direção do Distrito.
A coleta de dados foi desenvolvida nos meses de fevereiro a maio de 2006, teve
a participação de dez enfermeiras que atuam no cenário do estudo, que
demonstraram interesse pela temática e aceitaram participar nos oito Círculos
de Cultura, por se identificarem com as condições, desafios e perspectivas do
estudo em todas as suas etapas.
A pesquisa teve a observância da Resolução nº. 196/96 que norteia a pesquisa
envolvendo seres humanos(15). Para tanto, foi obtido Certificado de
Apresentação para Apreciação Ética (CAAE 0074.0.097.000-05), como também,
anuência formal das participantes do estudo.
O procedimento para coleta de dados nos Círculos de Cultura, ocorreu com
registros fotográficos e filmagem dos materiais produzidos pelo grupo
participante. A associação da imagem ao som durante a coleta de dados
possibilitou a retomada do material em momento imediatamente posterior e sempre
que se fez necessário, auxiliando no exame do corpus de pesquisa, no registro,
na descrição e na análise da informação(16).
A organização e o funcionamento dos Círculos de Cultura propõe um trabalho
sistematizado desencadeando a possibilidade de uma reflexão individual e uma
construção do conhecimento compartilhada e calcada na troca de experiências.
Desse modo, com base na investigação temática que já foi iniciada nos primeiros
contatos que antecederam a realização dos Círculos foi possível lançar outras
visões acerca do planejamento, que, ainda não sendo conclusivo,foi receptivo a
flexibilizações.
Para esta outra visão sobre o planejamento prévio, era fundamental, na reflexão
crítica dos dados registrados em cada Círculo finalizado, valorizar falas,
gestos e expressões e apreender a leitura de mundo das participantes nos vários
momentos que compuseram a realização de cada um dos oito Círculos de Cultura,
como: dinâmica de descontração e/ou sensibilização, atividade lúdica para
explorar os conhecimentos prévios do grupo (universo vocabular das
enfermeiras), problematização (elaborar e discutir); seleção dos textos que
subsidiam uma boa fundamentação, para discussão e reflexão teórico-prática.
Para contribuir na codificação e decodificação dos temas geradores As palavras
geradoras utilizadas por Paulo Freire na alfabetização de adultos emergiam do
contexto do grupo a partir da relação professor-estudante, como elementos que
iriam subsidiar o processo ensino-aprendizagem embasado no diálogo e na troca
de conhecimentos. Neste estudo, pela aplicação do Círculo de Cultura envolver
profissionais de saúde com grau de instrução superior, foi possível obter temas
geradores que foram problematizados para subsidiar a discussão); e na busca de
seu significado social, provocando uma postura ativa do grupo na consciência do
mundo vivido.
A ação educativa consistiu na aplicação de oito Círculos de Cultura como
processo participativo para potencializar as ações de Educação em Saúde das
enfermeiras do PSF. A seqüência dos Círculos de Cultura foi trabalhada a partir
das seguintes questões norteadoras: Círculo 1 Como me percebo? Círculo 2 Como
percebo as famílias? Círculo 3 O que é educação? Como é ser educador? Círculo 4
O que é Círculo de Cultura? Círculo 5 Como aplicar os Círculos de Cultura na
educação em saúde? Círculo 6 Que preciso reforçar ou modificar na minha ação
educativa? Círculo 7 Como planejar os Círculos de Cultura? Círculo 8 Qual a
proposta de educação em saúde construída pelo grupo?
Devido à dimensão do estudo que constituiu resultado de tese iniciada em 2006 e
concluída em 2007, neste artigo é apresentada à descrição do oitavo Círculo de
Cultura, que teve como tema gerador: a construção coletiva de uma proposta
renovada e sistematizada das intervenções de educação popular em saúde. O tema
gerador norteia a investigação sobre o pensar das enfermeiras referido à
realidade, e sobre seu atuar em educação em saúde sobre a realidade, que é sua
práxis(10).
Estas atividades caminharam refletindo o referencial técnico-científico
adquirido pelas enfermeiras em sua formação, e a sua prática junto ao
indivíduo/família/grupos em educação na promoção à saúde.
Neste estudo, a descrição e a organização dos resultados constaram de
transcrição das informações coletadas com registro de falas na íntegra,
ordenadas mediante narração e discussão, segundo a sequência dos Círculos de
Cultura realizados, de onde decorreu a análise e interpretação dos resultados,
pelo grupo, do significado da experiência e por mim em diálogo com a
literatura, com apreciação de fundamentações teóricas consideradas relevantes e
enriquecedoras ao estudo crítico do discurso popular(17).
O objetivo da análise (ou descrição) desta estrutura cognitiva consiste em
oferecer a pesquisadora melhores condições de compreensão, decifração,
interpretação, análise e síntese do material qualitativo produzido na situação
investigativa. "A significação do que ocorre na situação de comunicação
estabelecida pela investigação passa pela compreensão e a análise da linguagem
em situação"(17).
Após a realização de cada um dos Círculos de Cultura, eu assistia à gravação e
analisava os cartazes, desenhos ou modelagens elaboradas pelas participantes da
pesquisa naquele encontro, para complementar o diário de campo, no qual
registrei palavras-chaves e observações significativas e, assim, procedi à
digitação ordenada dos dados.
Em vez da estrutura lógico-formal, há na abordagem metodológica da pesquisa-
ação muitas características próprias aos processos argumentativos. Esses
aspectos argumentativos se encontram: na apresentação dos problemas estudados e
das propostas de solução ou explicações apresentadas conjuntamente por
pesquisadores(as) e participantes; nas deliberações relativas à escolha dos
meios de ação aplicados; nas avaliações dos resultados da pesquisa e a
correspondente ação desencadeada(17).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Descrição do 8º Círculo de Cultura
No encontro do oitavo Círculo de Cultura para a sensibilização inicial, foi
realizada uma técnica de animação com a realização voluntária de exercícios de
alongamentos para identificar e minimizar áreas de tensão muscular, de forma
que o grupo pudesse sentir-se à vontade.
Com base no objetivo que fundamentou a realização dos Círculos, no momento de
expressão, mobilizei as participantes do estudo para responder ao seguinte
questionamento: qual a proposta de Educação em Saúde do grupo que possibilita
articular um desempenho das enfermeiras do PSF para uma práxis de educação em
saúde reflexiva e crítica?
Assim, cada enfermeira teve a oportunidade de apresentar sua proposta de ação
por meio de um planejamento de Círculo de Cultura.
Andorinha expressou seu desejo de trabalhar com grupo de mulheres, colocando-se
aberta a consultá-las e ouvi-las em seus interesses e prioridades quanto aos
temas a serem discutidos. No seu planejamento, propôs a realização de técnicas
de apresentação e descontração do grupo. No conteúdo, considerou a
possibilidade da discussão sobre sexualidade, questões de gênero, educação dos
filhos, entre outras, partindo de uma visão integral da mulher e não apenas dos
aspectos biológicos com enfoque na doença. No objetivo apresentado, expôs a
intenção de estimular a participação e expressão das mulheres, contribuindo
assim para sua auto-estima, troca de experiências e busca de enfrentamentos,
tanto para as necessidades pessoais, como para as da comunidade. Destacou,
ainda, a necessidade de consultar e ouvir a opinião das mulheres na avaliação
da experiência educativa vivenciada, conforme pode ser apreciado na citação de
alguns trechos de sua fala.
Minha proposta busca promover a participação de mulheres em todas as
etapas da atividade educativa... na descoberta dos seus anseios(...)
expressando como gostariam que o grupo fosse conduzido...
...o objetivo é estimular o grupo a buscar conhecer mais sobre corpo,
sexualidade, questões de gênero, sentimentos(...) temas envolvendo a
saúde da mulher...
Eu queria realizar uma dinâmica em que as mulheres, com argila ou
massa de modelar, pudessem elaborar representações do corpo e
aparelho reprodutor da mulher. E ai para ter idéia do conhecimento
popular dessas mulheres...
Curió sentiu-se motivada a trabalhar um grupo com enfoque na saúde mental, por
estar sensibilizada pela demanda bastante significativa de clientes/usuários
dependentes de medicação controlada (ansiolíticos), além dos portadores de
desordens mentais, como é evidenciado na fala.
Desejo formar um grupo com atenção à saúde mental, pois percebo uma
demanda muito grande de pessoas da comunidade com distúrbios mentais,
como também de dependentes de benzodiazepínicos...
Salientou que já estabeleceu algumas parcerias com a assistente social do
Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) e com a presidente do Comitê dos Neuróticos
Anônimos, que reside no bairro. Expressou o interesse em construir um espaço de
expressão e reflexão de suas necessidades e modos de estar na família, na
comunidade, na sociedade, como também de desenvolvimento criativo das
habilidades manuais e intelectuais do grupo.
Nakamura(18) acentua que as desigualdades socioeconômicas, a incompatibilidade
entre os anseios e as possibilidades reais para satisfazê-los, além de
influenciar as situações experienciadas de adoecer, são também responsáveis
pelas condições de estresse e problemas de saúde mental.
No Círculo de Cultura todos são participantes e, como tal, devem ser percebidos
como sujeitos autônomos com potencialidades e jamais como submissos, inferiores
ou incapazes. Cabe a animadora propiciar o espaço do diálogo e da escuta com a
participação espontânea de todos, respeitando as individualidades e
possibilitando a troca das experiências, de modo que a animadora ensina e
aprende com o grupo.
Foi sugerido pelo grupo que os participantes fossem consultados para nomear o
grupo que estava se formando com uma identidade própria que não se limitasse ao
enfoque da doença ou do estigma dos distúrbios mentais.
Sabiá apresentou sua proposta de formação de Círculo de Cultura com
adolescentes.
...eu e as agentes comunitários de saúde estamos trabalhando com um
grupo de adolescentes em encontros quinzenais nas quartas-feiras à
tarde na Associação de Moradores...
...os conhecimentos com os Círculos de Cultura estou utilizando com
os adolescentes...
...estou realizando dinâmicas e atividades de criação e demonstração
com a participação dos jovens, valorizando suas falas e garantindo um
espaço de escuta e respeito na construção do conhecimento...
Ela ressaltou que, dentre os temas solicitados, eles demonstraram muito
interesse em saber sobre métodos contraceptivos, pela precocidade com que
iniciam suas atividades sexuais.
Patativa sempre conversava sobre sua preocupação com as gestantes de sua
comunidade.
...identifiquei muitos casos de gravidez na adolescência, além de
casos de gravidez de alto risco, o que muito me preocupa pela
necessidade de estabelecer um encaminhamento seguro...
...percebi que em muitos casos algumas das gestantes que encaminhava
ainda continuavam mantendo seu acompanhamento comigo pelo
estabelecimento de uma relação de confiança...
Assim, ao planejar seu Círculo de Cultura, escolheu o grupo de gestantes, a ser
realizado na capela do bairro, visto que a Unidade Básica de Saúde fica um
pouco distante e em área mais elevada. Ela destacou o planejamento familiar e o
aleitamento como temas de interesse do grupo. Neste sentido, ressalto a
apreciação do tema como descoberta de possibilidades, de caminhos, respeitando
as escolhas, sem impor uma conduta preestabelecida, de modo verticalizado.
Bem-te-vi, a exemplo de Patativa, também apresentou uma proposta para formar
grupo com gestantes. Identificando a dificuldade de espaço físico na própria
unidade onde atuam três equipes, articulou a possibilidade de utilizar a
estrutura física da Associação dos Moradores, mesmo reconhecendo não possuir as
condições mais adequadas.
...junto com as agentes comunitárias de saúde (ACS) que desejarem
participar, iremos inicialmente trabalhar com um grupo de
gestantes...
...iremos consultar as gestantes sobre os temas de seu interesse(...)
entretanto desde já tenho convicção que a temática o aleitamento
materno será abordada com uma "nova" proposta metodológica
não como um conhecimento pronto a ser incutido ao grupo, mas através
de um diálogo aberto às inquietações e possibilidades de estabelecer
uma relação mãe-filho o mais saudável possível...
Com vistas a subsidiar o acesso a um saber científico contextualizado com o
saber peculiar às participantes dos Círculos, foi vivenciado um momento de
leitura crítica e reflexiva sobre um texto fotocopiado, intitulado,
Sistematização(19). O texto foi selecionado por exibir um conteúdo objetivo e
de linguagem clara, apresentando inclusive ilustrações que aproximam o conteúdo
trabalhado com situações do cotidiano, além de constituir um material bastante
atualizado, apesar do ano de publicação.
Para Falkembach(19), a sistematização é um processo coletivo de produção do
conhecimento que acontece a partir de práticas sociais concretas. E destaca
que, mesmo que os atores da prática de Educação em Saúde tenham diferentes
visões de mundo, a partir do respeito a essa diversidade, é possível dialogar,
expor pensamentos e aproximar as visões e chegar a pontos comuns no
entendimento e encaminhamento das práticas desenvolvidas, tendo como produção
resultante uma unidade sem uniformizar.
No momento de síntese do conhecimento elaborado pelas enfermeiras do PSF
participantes do estudo, foi apresentado a seguinte proposta de (re)construção
das ações de Educação em Saúde por intermédio dos Círculos de Cultura:
- Os profissionais necessitam estar sensibilizados quanto à importância do
trabalho com grupos.
- Os profissionais necessitam vivenciar a abordagem de ensino que fundamenta
uma abordagem participativa e libertária para melhor apreensão dos limites e
possibilidades de sua aplicação no cenário da Educação em Saúde.
- A abordagem tradicional de ensino encontra-se muito enraizada ao longo da
formação dos profissionais de saúde, conduzindo a uma automação na sua
reprodução nas práticas educativas em saúde, conduzindo a oferta de receitas e
imposições de condutas de saúde desarticuladas das expectativas e interesses da
comunidade.
- O Círculo de Cultura facilitou tanto a sensibilização do profissional como
também novas perspectivas sobre as ações de Educação em Saúde.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura passa pela conquista de
espaços de escuta, diálogo, participação de todos, troca de experiências,
valorização do saber popular, desenvolvimento do pensamento crítico e
reflexivo, contextualização do conteúdo, respeito à autonomia dos sujeitos
históricos, possibilidades de caminhos e de transformação da realidade.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura requer que o profissional de
saúde atue não como professor, "dono do saber", mas como animador
(a), que acredita nas potencialidades do grupo, que não se limita a ensinar,
mas também tem interesse de aprender com o grupo, que é capaz de se encantar
com as conquistas, avanços e descobertas do grupo. É essencial o
autoconhecimento, para identificar suas, limitações, valores e preconceitos,
para coibir uma atuação de inclusão, descobertas, respeito às diferenças,
aprendizagem, humanização, socialização, superação, de possibilidades.
- É necessário que, ao iniciar o trabalho educativo, cada profissional tenha a
liberdade de identificar qual grupo lhe desperta o interesse, seja pelas suas
necessidades, seja por sua proximidade, que lhe traga um significado especial
para contribuir no desenvolvimento da experiência de Educação em Saúde numa
proposta renovada e criativa.
- É essencial o apoio continuado da equipe central, estando abertos e próximos
para facilitar as ações de Educação em Saúde fortalecendo parcerias,
disponibilizando material educativo, recursos materiais mínimos, como papel-
ofício, lápis-piloto, papel-madeira, lápis-cera, material para modelagem
manual.
- Há necessidade do entendimento compartilhado entre equipe de base e equipe
central sobre a necessidade de fortalecimento de trabalhos continuados de
Educação em Saúde que considerem os indivíduos em sua integralidade e não
apenas orientações fragmentadas definidas de modo verticalizado, em que onde
profissionais e comunidade passam a ser objeto do processo, conduzindo à
alienação e não à conscientização popular.
- Valorizar as atividades de recreação e socialização dos grupos como
estratégia de promoção de auto-estima, aprendizado no estabelecimento de
relações sociais, possibilidades de lazer, valorizar atividades culturais e
talentos do grupo, oportunidade de compartilhar momentos de descontração e
alegria essenciais na promoção da saúde.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura requer a participação do
grupo, desde a etapa de planejamento, alicerçando o desenvolvimento dos
Círculos, como também, na sua avaliação, evidenciando um compromisso mútuo dos
profissionais de saúde e do grupo em buscar fortalecer o atendimento das
expectativas e necessidades do grupo. Para tanto, o profissional necessita
receber as críticas como elemento essencial na pactuação do contínuo
crescimento do grupo.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura requer dos membros da
comunidade uma participação ativa como sujeitos com autonomia para conduzirem
sua trajetória histórica, alicerçados no processo de conquista de sua
cidadania.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura, como abordagem fundamental
na prática da Educação em Saúde, vem despertar nos profissionais de saúde uma
atitude de inquietação e dinamismo ante as questões de saúde que tanto afligem
as comunidades de baixo poder aquisitivo.
- A proposta da realização de Círculos de Cultura fundamenta uma relação de
cumplicidade entre os profissionais de saúde e os grupos comunitários com o
entendimento de saúde como produto das reais condições sociais e do compromisso
com as ações de promoção da saúde.
Em seguida, solicitei às participantes que exprimissem a auto-avaliação da
vivência dos Círculos, sendo exposto como depoimentos:
...eu vou sentir falta. Foi gratificante. Tivemos outros cursos com
outros nomes, educação popular, educação em saúde (...) até na
especialização, entretanto não foi vivenciado desse modo, com esse eu
aprendi bastante. Se esse tivesse sido um módulo da minha
especialização, ela já teria valido a pena(Andorinha).
... a metodologia foi completamente diferente contribuindo para que
com a vivencia dos Círculos de Cultura eu compreendesse melhor seus
princípios e sua aplicação(...) os conhecimentos foram trabalhados em
dose homeopática nos sensibilizando sobre a importância de uma
atuação reflexiva em educação em saúde...(Curió).
...antes nos foi imposto para trabalhar com grupo, mas a gente nem
sabia como era...(Andorinha).
Já tinha participado de outros cursos para atuarmos em educação
popular, inclusive na especialização, porém a experiência desse foi
totalmente diferente...(Bem-te-vi).
Foi importante você está sensibilizando e não forçando...(Patativa).
Achei proveitoso estava começando a trabalhar com adolescentes. Eu
tinha grande dificuldade, pois utilizava uma abordagem tradicional.
Eles ficavam inquietos, desinteressados. Agora eles participam,
discutem, elaboram cartazes, estão motivados(Sabiá).
Quando a prática educativa surge de uma educação transformadora, fundamentada
no diálogo e no exercício da consciência crítica, então, as mudanças aparecem
como resultado de uma realidade em que as pessoas envolvidas no processo
retornam participativas, a conscientização passa a ter sentido de auto-
avaliação, crítica e reflexiva de sua prática de educação em saúde(20).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Círculo constituiu um espaço de encontro e descoberta do outro como sujeito,
com aspirações, sentimentos e vivências que precisam ser desveladas a partir do
diálogo no grupo, da participação nas discussões, da troca de conhecimentos e
experiências. A organização das participantes em formato de círculo, mantendo
uma dialogicidade no processo de construção de um saber coletivo, compartilhado
e contextualizado, conduziu as enfermeiras a uma viagem interior, no encontro
do pessoal, do formal, do informal. O movimento de busca interior promoveu
crescimento, pois possibilitou descortinar a superação de limitações e
dificuldades pessoais identificadas, que condicionam o indivíduo a situações de
submissão e acomodação diante de sua história de vida e de passividade ante os
processos de exclusão em que os usuários e as famílias da comunidade em que
atuam estão expostos.
O exercício da consciência política é indispensável ao processo de
"empowerment" do profissional de saúde no exercício de sua
competência sociopolítica. Assim, ele desagrega um modo de pensar e agir
compartimentalizado por normas e regras sendo conduzido como massa de manobra
para a defesa e interesses outros e suprime uma autonomia integral do(a)
enfermeiro(a) diante das diversidades e desafios presentes na realidade
brasileira marcada pelas situações de pobreza.
A partir das inquietações evidenciadas foram gestadas as propostas
apresentadas. O universo subjetivo é renovado nas vivências do real; entre
desejos e aspirações, o ser humano percebe-se em um cenário que exige sua
atitude diante dos fatos, deixando de ser mero expectador do espetáculo para se
assumir como protagonista de sua história de vida.
Percebi, nos momentos de conversa nos Círculos de Cultura, a transformação de
mulheres fortalecidas por suas conquistas de aprendizado no aprendizado
daqueles tão próximos, mas que precisam perceber-se acolhidos e participativos
no exercício de sua cidadania em espaços que lhes sejam significativos. A
Educação em Saúde, assim, vem renovar os seres em evolução, caminhantes e
perseverantes.