Pesquisa em enfermagem nas Américas
INTRODUÇÃO
Dois aspectos são centrais na delimitação da problemática que fundamenta a
análise da situação da pesquisa em enfermagem na região das Américas. A
primeira diz respeito a um contexto mais geral, ou seja, a que América nós
estamos nos referindo. Uma região das Américas marcada por diferentes níveis de
desenvolvimento econômico e por uma diversidade geográfica, cultural,
linguística, política, econômica e social. Consequentemente, com demandas de
investigações que acompanham a realidade das nações que formam e conformam
distintamente, as Américas do Norte, Central e Caribe, e do Sul. A segunda
envolve um contexto mais específico de situação da enfermagem como uma prática
social e cultural politicamente engajada com a luta pela melhoria das condições
de vida e de saúde da população. A enfermagem, como parte da totalidade social,
e comprometida com a ética, a justiça e a qualidade de vida das pessoas, põe a
serviço da população uma política de geração de conhecimento, que pretende ser
transformadora da prática social e cultural do cuidado.
No Brasil, a participação do enfermeiro no desenvolvimento da pesquisa de
enfermagem se deu a partir da criação da carreira universitária em 1963,
evoluindo sobremaneira com o início do primeiro curso de mestrado em
enfermagem, a partir de 1972, na Escola Anna Nery de Enfermagem, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aquele ano se constituiu num marco do
crescimento dessa produção, dando inicio aos cursos de pós-graduação em
enfermagem na América Latina. Desde então, a pesquisa passou a ser
institucionalmente assumida como um compromisso da enfermagem, vinculada ao
sistema de ensino e a carreira universitária, mas pouco articulada com o
sistema assistencial. O incremento as produções deveu-se primariamente à
produção acadêmica, tendo como fonte de produção científica principal as
instituições de ensino(1).
Essa problemática também foi observada na análise da formação de pesquisadores
na América Latina, em que 52,8% dos pesquisadores eram oriundos do ensino e
13,1% do serviço(2).
O pioneirismo do Brasil na instituição da pesquisa de enfermagem na América
Latina, não se deu somente com o início da pós-graduação em enfermagem, mas
também com o crescimento da produção científica. Nesse sentido, compreendemos
que há relações diretas entre a pesquisa e o reconhecimento da organização
científica da enfermagem estreitamente vinculada às instituições universitárias
e os centros formadores de pesquisadores.
Questiona-se, então, qual é a situação da pesquisa de enfermagem nas Américas,
tomando-se como base três publicações. A primeira - "La investigacion em
Enfermeria em América Latina"; nela, Manfredi(3) contextualiza a problemática
do desenvolvimento da pesquisa de enfermagem na América Latina. A segunda - "Os
desafios para as enfermeiras e o sistema de saúde em Quebéc (Canadá) frente às
tendências neoliberais e a globalização na época pós-moderna"(4). A última -
"Políticas e estratégias para o desenvolvimento da pós-graduação em Enfermagem
nas Américas"(5).
As problemáticas e desafios apontados por esses textos foram relacionados com
produções publicadas entre 2005-2008, no sentido de se buscar os pontos de
superação ou manutenção. Verificou-se nas recomendações desses textos, quais
estratégias contribuíram para o desenvolvimento e o status da pesquisa em
enfermagem nas Américas. Portanto, teve-se por objetivos identificar as
problemáticas, desafios e estratégias apontados nos documentos diagnósticos da
situação da pesquisa na região das Américas de 1991 (I Jornada de Investigación
em Enfermería. Venezuela, 1991) e 1998 (VI Colóquio Pan-Americano de
Investigação em Enfermagem. Brasil); analisar como as problemáticas e desafios
foram superadas ou mantidas e que resultados foram produzidos com as
estratégias recomendadas. nas produções de 2005-2008 sobre pesquisa em
enfermagem na América Latina, disponíveis na base de dados LILACS,
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão sistemática secundária de três textos, sendo um
publicado em 1991 e dois em 1998, inspirada na metodologia da metasíntese(6).
Foram objeto da análise os seguintes pontos: o que os autores apontaram como
problemática e desafios para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem; e,
quê estratégias foram indicadas para o desenvolvimento da pesquisa em
enfermagem na região das Américas.
Com base nesses achados procedeu-se a leitura crítica de cinco textos completos
publicados entre 1993 e 2007 disponiveis na base de dados LILACS, cujo foco
principal é a discussão sobre competências para a formação de pesquisadores de
enfermagem. Nesses textos, buscou-se analisar do que foi apontado como
problemática e desafios, quais foram os pontos de superação e de manutenção; e
em relação às estratégias, o que foi implementado e produziu resultados ou não.
A busca das palavras-chave "enfermagem", "pesquisa", "América Latina" e
"doutorado" na base de dados LILACS trouxe resultados de publicação em dois
periódicos: Revista Latino-Americana de Enfermagem, Revista Brasileira de
Enfermagem, Texto & Contexto em Enfermagem. Os textos completos dos artigos
foram submetidos à análise temática(7).
RESULTADOS
Em La investigación en enfermería en America Latina, apresentado na Jornada de
Investigación em Enfermería (Venezuela),destacou-se que apesar de os avanços
quantitativos de enfermeiras com grau de mestrado, a investigação em enfermagem
no início dos anos de 1990 apresentava problemas de natureza qualitativa(3). A
pesquisa "era limitada, restrita em sua capacidade de generalização, pobremente
apoiada e divulgada"(3). A análise da problemática da investigação em
enfermagem se deu em três esferas: a da produção, da difusão e utilização dos
resultados.
Em relação a produção da pesquisa, destacou-se que havia maior ênfase na
pesquisa clínica, como reflexo do modelo de formação profissional que
privilegiava a prática hospitalar em detrimento da prática na comunidade. O
sujeito de pesquisa mais comum era o individuo, deixando a família e a
comunidade para um segundo plano. A utilização de materiais e tecnologias nas
pesquisas era incipiente. As investigações apresentavam um caráter mais
descritivo, o que se constituía numa área crítica e explicava o desenvolvimento
inicial em que se encontrava a busca e a compreensão do objeto da enfermagem.
Sofria uma influência marcante da corrente positivista de investigação e
daquelas que englobavam a conceitualização dominante no campo da saúde. Embora
os enfermeiros/as investigassem bastante a sua própria prática, o faziam de
modo individual; a participação de outros profissionais era pequena e quando
ocorria se dava em função do apoio ao processo de pesquisar, como a
estatística, por exemplo. Quanto ao financiamento das pesquisas, 72,7% eram
autofinanciadas(3).
Na esfera da difusão dos resultados, havia uma limitação no processo de
institucionalização e sistematização da produção científica em enfermagem, o
que refletia sobre a publicação. Muitos estudos não eram publicados, mantendo-
se inéditos e desconhecidos.
A falta de divulgação e/ou a divulgação das pesquisas em espaços restritos
inviabilizava o acesso dos profissionais e a utilização dos resultados na
prática profissional.
A problemática delineada por Manfredi foi destacada no texto "A Pesquisa na
Enfermagem"(3), situando o Brasil no contexto da América Latina. Ao mesmo tempo
em que denunciava os pontos de vulnerabilidades da enfermagem como ciência do
cuidado, anunciava desafios para a pesquisa de enfermagem relacionada não
somente a produção, divulgação e utilização, mas também para o consumo e a
transformação dos resultados em política pública e de cuidado.
O anúncio pode ser identificado, quando Manfredi(3) aponta perspectivas de
mudança da problemática, tais como: inclusão da investigação de enfermagem nas
agendas técnico-científicas dos países; a definição e desenvolvimento de uma
política de investigação de enfermagem; a definição de áreas ou linhas de
pesquisa; o fomento a institucionalização das pesquisas de enfermagem; a
formação de pesquisadores; disseminação e uso dos resultados das pesquisas;
financiamento, avaliação e orientação das pesquisas desenvolvidas.
Entre as estratégias para o desenvolvimento da pesquisa destacam-se: a formação
de pesquisadores de enfermagem preparados para formar núcleos e grupos de
pesquisa uni ou multidisciplinar; a utilização dos Centros Colaboradores da
OPS/OMS e outros centros de pesquisa na formação de enfermeiros na área de
metodologia da pesquisa bem como na elaboração, execução e no seguimento dos
projetos; a inserção da comunidade científica de enfermagem nos organismos
nacionais e internacionais de pesquisa para que os projetos apresentados
recebessem a avaliação de pares e o financiamento indispensável a sua execução;
a subvenção institucional de recursos para o desenvolvimento de projetos
emergentes das linhas de pesquisa previamente definidas e que permitam a
inserção de pesquisadores nas diferentes áreas propostas.
Além de defender a criação de infra-estrutura local, nacional, e internacional
que servisse de base para o desenvolvimento da produção científica da
profissão, incluindo os serviços, espaços e cenários onde a prática de
enfermagem acontece. Isso cria possibilidades de atuação dos núcleos e grupos
de pesquisa que tenham como finalidade primordial a coordenação, o intercâmbio
de experiências e o desenvolvimento de estudos em colaboração. Também ressaltou
a necessidade de desenvolvimento de metodologias de investigação que
permitissem investigar os problemas, abordando-os de acordo com a visão de
mundo do investigador, a seleção de metodologias, os recursos existentes e a
factibilidade dos projetos.
Apoiar grupos de pesquisas emergentes da realidade do trabalho de enfermagem,
assim como aqueles que através de um enfoque crítico analisem os aspectos
tecnológicos da prestação de serviços. Favorecer o desenvolvimento de programas
inovadores de pós-graduação nos países da região que conduzem a formação
acadêmica de enfermagem utilizando, por exemplo, o estabelecimento de convênios
entre universidades, centros colaboradores e instituições de serviço.
Fortalecer mecanismos que favoreçam o intercâmbio e a difusão da produção
científica a nível local, regional, e internacional. A necessidade de
desenvolver estudos que : identifiquem os meios de difusão existentes em cada
país com relação a sua cobertura, tipo, quantidade de material publicado e a
infra-estrutura utilizada. Almejar a organização de fóruns nacionais e
internacionais de pesquisa em enfermagem que permita o intercâmbio e o
enriquecimento da produção gerada pela profissão.
Westrupp, Carraro e Souza(8) destacam os seguintes desafios a serem superados:
despreparo do enfermeiro para elaborar pesquisas e aplicar os resultados dessas
pesquisas na prática; pouca ênfase no ensino de metodologia da pesquisa nos
currículos dos cursos de graduação em enfermagem; ausência de cursos de curta
duração sobre metodologia da pesquisa para enfermeiros de serviço e docentes;
interrupção de determinadas pesquisas em andamento e consequente fragmentação
do corpo de conhecimento próprio da enfermagem. Nesse sentido, as autoras
recomendavam para a prática assistencial, que os enfermeiros utilizassem o
espaço de sua prática clínica como um laboratório social de pesquisa,
incentivando a escrever sobre essa prática. Ao mesmo tempo, a prática clínica
funcionaria como campo de produção da pesquisa e de retorno dos achados dessas
pesquisas para transformar a prática assistencial. Que houvesse envolvimento
dos enfermeiros nos processos institucionais de pesquisa, e que esses cenários
de pesquisa fossem campos de formação dos enfermeiros. O ensinar e o aprender a
pesquisar pesquisando.
Em relação a formação do enfermeiro como pesquisador, defenderam a formação
básica para a pesquisa nos cursos de graduação e em programas de educação
continuada. Uma formação que contribuísse para a participação em projetos de
investigação coletivos, trabalho em grupos multiprofissionais e pesquisas
transdisciplinares. Preparar enfermeiros para gerenciar projetos de pesquisa,
propor, executar e gerir projetos de pesquisa que respondam aos desafios no
contexto da enfermagem e da sociedade.
Sobre a divulgação e consumo de pesquisa em enfermagem, consideraram a
necessidade de a Enfermagem conhecer melhor e aplicar o marketing no cotidiano
de sua prática. O conhecimento e aplicação desse marketing permitiriam ampliar
o reconhecimento do valor da Enfermagem no contexto social ampliando as
oportunidades da Enfermagem como algo sistemático e de responsabilidade social.
Consequentemente, a incorporação do consumo de pesquisa no cotidiano.
No que diz respeito ao financiamento da pesquisa, recomendaram(8) que o
investimento da pesquisa fosse parte de uma política institucional e não
individual. A compreensão da prática da pesquisa como um investimento social,
com retorno para a sociedade no contexto do desenvolvimento científico e
tecnológico. Os enfermeiros que são pesquisadores precisam lidar com o
compromisso de mudança, de modo a inserir a enfermagem no conjunto das
diferentes áreas do saber no que se refere a contribuição ao desenvolvimento
cientítico e tecnológico.
As recomendações apontadas se dão em um contexto sóciopolítico marcado pelas
tendências neoliberais e de globalização no âmbito da América Latina, conforme
destacado no segundo texto, objeto da metasíntese: "Os desafios para as
enfermeiras e o sistema de saúde em Quebéc (Canada) frente às tendências
neoliberais e a globalização na época pós-moderna"(4). Particularizando o caso
do Quebéc, ressalta que a influência das dinâmicas neoliberal e da globalização
influencia a lógica da produção em saúde e do processo de trabalho em
enfermagem em um ambiente de Sistema Único de Saúde. Nesse texto, o autor
destaca que as enfermeiras devem enfrentar desafios culturais das sociedades
super modernas para cuidar e pesquisa, e sabem que as condições sociais
influenciam mais a saúde do que as características individuais. Nesse sentido,
as pessoas que vivem em situação de pobreza, portanto o aspecto nuclear que une
os povos nas Américas, e que têm bons hábitos de vida, apresentam, mesmo assim,
mais problemas de saúde do que as pessoas mais favorecidas com os mesmos
hábitos.
Para ele, o estado de saúde se deteriora mais quando as pessoas vivem sem
possibilidades de fazer escolhas, e isto independe do nível de renda e de
escolaridade. A ênfase nesses dois indicadores - nível de renda e escolaridade
- nos leva a refletir sobre a impossibilidade de se realizar escolhas diante da
situação de pobreza, analfabetismo funcional em saúde e baixo acesso a
escolaridade. Três condições que mantém o sujeito na situação de desigualdade
social, em posição alienada e com poucas possibilidades de negociação.
Os povos das Américas, sujeitos do processo de pesquisa e de cuidar dos
enfermeiros, apresentam como pontos em comum essas três condições, portanto
suas vulnerabilidades sociais. A dimensão social da saúde e da doença no
contexto neoliberal e de globalização contribui para manter a prática social da
pesquisa em Enfermagem marcada por uma problemática metodológica e
epistemológica, apontada por Manfredi(3), e sócio-histórica demarcada por
Perreault(4).
Perreault(4) argumenta que nossa cultura é ainda orientada para uma concepção
individual da doença e da saúde, e os valores assumidos pela maior parte dos
modelos de intervenção repousam sobre concepções biomédicas totalmente
individualizantes. A visão preventiva, que circula atualmente, acentua essa
individualização.
A globalização e a ideologia neoliberal nesta era super-moderna implica,
portanto, em grandes desafios culturais, sociais e econômicos para as
enfermeiras do Québec e quiçá para todas as enfermeiras da região das Américas.
As variações que podemos observar entre as Américas, dizem respeito, sobretudo,
à situação interna hoje: enquanto o Québec já possui um sistema público,
universal e gratuito, orientado cada vez mais para a promoção da saúde da
população; outros países se encontram em situações em que os sistemas de saúde
são híbridos, com maior ênfase na cura de doenças.
Nesse sentido, percebemos que o jogo de força das relações sociais se inscreve
em uma situação econômica particular, o da indústria privada da saúde que
assegura uma grande margem de lucro. A saúde e a doença como moeda de troca
interfere no processo de cuidar e pesquisar.
O texto "Políticas e estratégias para o desenvolvimento da pós-graduação em
enfermagem nas Américas"(5) destaca a necessidade de se promover ações que
fortaleçam uma política de pós-graduação internacional para a região das
Américas. A autora defende a criação de redes formadoras de doutores em
Enfermagem na América Latina, de modo a formar massa crítica capaz de ao
concluir o curso de doutorado iniciar os cursos de doutorado em seus países.
DISCUSSÃO
A análise das produções disponíveis na base de dados LILACS, que tratam de
competências para a formação de pesquisadores e a pesquisa em enfermagem na
América Latina, apontou para publicações do gênero relato de experiência,
artigos de reflexão, relatórios de oficinas e grupos de trabalho e editoriais.
A política dos Centros Colaboradores da OMS fortaleceu o desenvolvimento da
pesquisa em Enfermagem na medida em que fomentou as parcerias
interinstitucionais e as redes globais. O Centro Colaborador (CC) se constitui
em um espaço em que a OMS pode exercer sua liderança na formulação da agenda de
saúde internacional, incluindo aí a capacitação do enfermeiro para o
desenvolvimento da pesquisa. Por outro lado, a designação como centro
colaborador da OMS dá as instituições maior visibilidade e reconhecimento das
autoridades nacionais, chamando a atenção do público para as questões de saúde
a que se dedicam. Abre mais oportunidades de intercâmbio de informação e
cooperação técnica com outras instituições, particularmente no nível
internacional e mobiliza recursos adicionais dos parceiros. A função principal
é dar apoio estratégico a Organização para que esta satisfaça suas
necessidades: implementar seus mandatos e objetivos, e desenvolver e fortalecer
capacidade institucional nos paises e regiões. Os Centros Colaboradores da OMS
formam uma rede de parcerias e apoio mútuo(9-11).
O Brasil conta com um Centro Colaborador para o Desenvolvimento da Pesquisa em
Enfermagem, a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, designado em 1989(1). Em
2000, foi criada entre outras redes, a Global Network of WHO Collaborating
Centres for Nursing and Midwifery (Centros Colaboradores para o Desenvolvimento
da Enfermagem e Obstetrícia). No ano de 2008. Em toda Região das Américas, a do
Norte concentra o maior número de Centros Colaboradores ativos (141), a América
Latina conta com 45 e a Central e Caribe, com 10.
Em 2008, havia 35 WHO Collaborating Centre for Nursingand Midwifery no mundo,
sendo que 13 localizavam-se na região das Américas: EUA possui 09, Canadá 1,
Colômbia, 1, Jamaica 1 e Brasil 1. As áreas técnicas desses CC são:
desenvolvimento da enfermagem, atenção primaria em saúde, desenvolvimento da
obstetrícia, prática clínica e cuidado domiciliar, pesquisa em enfermagem etc
(12-18).
Os esforços internacionais empreendidos pela Organização Mundial de Saúde/
Organização Panamericana de Saúde (OPS) culminaram numa mudança dos
quantitativos dos cursos de pós-graduação. Os cursos de doutorado (117) assumem
a função social de formar pesquisadores, posição anteriormente ocupada pelos
cursos de mestrado, que possuíam um duplo papel; qualificação para o exercício
do ensino e incremento da pesquisa.
Nos programas de doutorado, busca-se a formação avançada de pesquisadores, do
desenvolvimento da profissão e da disciplina(19). Na década de 1930 surgiu o
primeiro curso de doutorado na América do Norte (EUA). Em 1981 foi criado, na
América do Sul (Brasil) o primeiro curso de doutorado, o doutorado
interunidades Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto (USP). Em 2005, a situação dos cursos de doutorado
era a seguinte: EUA, 80 cursos; Brasil, sete; Venezuela, Chile, México, Perú e
Colômbia, com um em cada país; Argentina com um de enfermagem e três
multidisciplinares.
Sobre o desenvolvimento da pesquisa, outra faceta importante é a existência dos
centros de pesquisa mais avançados que promovem a geração de conhecimento e os
instrumentos metodológicos essenciais para a pesquisa de enfermagem. De todos
os países da Américas, os Estados Unidos contam com mais centros estruturados
para essa finalidade. Nas últimas décadas, quase todos os países da Região têm
criado núcleos de desenvolvimento da pesquisa. Os colóquios sobre investigación
en enfermería na América Latina e as atividades de caráter nacional têm se
constituído em um novo espaço instituticional da pesquisa em enfermagem, a
aplicação de seus resultados e a definição de temas e prioridades.
Na América Latina, têm-se os Colóquios Panamericanos de Investigación en
Enfermería, cuja primeira versão ocorreu em 1988. Trata-se de um evento bienal
promovido pelos Centros Colaboradores da OMS. Até o ano de 2006 foram
realizadas 10 versões.
No que diz respeito aos veículos de divulgação do conhecimento produzido em
enfermagem, a Revista Brasileira de Enfermagem e a Revista Latino-americana de
Enfermagem têm assumido um papel importante na liderança da difusão do
conhecimento de enfermagem na América Latina.
A Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn), é o órgão oficial de divulgação da
Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), criada em 1932, inicialmente com o
nome de Annaes de Enfermagem. Tem por finalidade divulgar a produção científica
das diferentes áreas do saber que sejam de interesse da enfermagem, incluindo a
que expressa o projeto político da Associação. Tem periodicidade bimestral, em
versão eletrônica a partir de 2007, e na impressa com tiragem de 1000
exemplares, multilingüe para o português, inglês e espanhol. Integra a
Biblioteca Virtual em Saúde - Enfermagem, no Portal de Revistas de Enfermagem
(RevEnf) da Biblioteca Regional de Medicina, vinculada à OPAS - Organização
Panamericana de Saúde. Referência na área de periódicos no país para a
publicação dos pesquisadores da Enfermagem, canalizando ainda a divulgação das
discussões e demandas da categoria. Considera-se relevante o papel deste
periódico para a divulgação científica da enfermagem brasileira. Em junho de
2007 a REBEn foi aprovada para integrar a Coleção SciELO Brasil (Scientific
Electronic Library Online), e está indexada nas seguintes bases de dados: BDENF
- Base de Dados de Enfermagem; LILACS (Literatura Latino-Americana em Ciências
da Saúde), CUIDEN (Base de Dados de Enfermeria), ULRICH´s (International
Periodicals Directory), PERIÓDICA (Índice de Revistas Latinoamericanas em
Ciências), CINAHL (Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature),
LATINDEX (Índice Latinoamericano de Publicações Científicas Seriadas), MEDLINE
(International Nursing Index) e SCOPUS(20).
O segundo periódico, a partir de 2000, mudou a sua política editorial para
legitimar a profissão de enfermagem na Região da América Latina. Passou a
publicar artigos multilingüe (inglês, espanhol e português), com periodicidade
bimestral, ampliou o corpo editorial internacional e adotou a norma de
Vancouver em suas publicações. Tudo isso com o propósito de atingir os padrões
internacionais para indexação em base de dados internacionais, dinamizando a
publicação das pesquisas produzidas no Brasil e na América Latina(10).
Outra contribuição importante da Associação Brasileira de Enfermagem para o
desenvolvimento da pesquisa em enfermagem acontece através do Centro de Estudos
e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn), criado em 17 de julho de 1971. O Centro
destina-se a incentivar o desenvolvimento e a divulgação da pesquisa em
enfermagem, organizar e preservar documentos históricos da profissão. Possui o
maior banco de teses e dissertações na área de enfermagem no Brasil, com mais
de 6000 produções registradas em seu acervo, além de possuir a coleção da
maioria dos periódicos brasileiros de enfermagem. O CEPEn é responsável pelas
edições dos Seminários Nacionais de Pesquisa em Enfermagem (SENPE), um valioso
fórum de discussão da enfermagem científica no Brasil e América Latina. É um
evento itinerante, realizado pela ABEn em parceria com as sessões e regionais
(21).
Um panorama da pesquisa em enfermagem na América Latina durante a década de
1988 a 1998 foi investigado a partir de informações dos Colóquios Panamericanos
de Pesquisa em Enfermagem. Na análise secundária dessa fonte, concluiu-se que a
maior parte das pesquisas foi produzida no Brasil, o único país com programa de
doutorado em enfermagem na América Latina nos anos noventa. Os temas de
pesquisa incluíam tópicos de saúde pública, estudos clínicos (normalmente de
adultos), estudos do processo de assistência de enfermagem, comunicação
terapêutica e assuntos administrativos, tais como normas de cuidado e
qualidade. O desenho mais comum foi o estudo quantitativo descritivo, mas
também encontramos vários estudos qualitativos. A análise oferece direções para
futuras pesquisas e indicam áreas de preocupação, especialmente a necessidade
de pesquisas de enfermagem com fundamentação teórica(2).
A análise de 263 trabalhos científicos, pelas autoras(2), demonstrou que o
maior número de apresentadores de trabalhos científicos procedia do Brasil,
Panamá, Venezuela e Chile (Tabela_1). Mais da metade (53%) dos pesquisadores
pertencia a instituições de ensino, 13% eram enfermeiros de serviço, 5% de
outras áreas. Várias universidades foram representadas, sendo as mais
frequentes a de Concepción e Católica (Chile), Ribeirão Preto (Brasil),
Carabobo (Argentina), Trujillo (Peru) e Antioquia (Colombia). Os métodos usados
nas pesquisas incluíam, em ordem de frequência, os surveys, entrevistas,
triangulação, observação, escalas e estudos de revisão. Esses métodos foram
adotados em 79% dos estudos. Os participantes da pesquisa consistiam de
usuários de serviços de saúde (35%), profissionais de saúde (33%), outros
(13%), documentos (11%) e populações de risco (8%). Foram realizados mais
estudos de saúde pública (32%) do que de recursos humanos (23%) ou em ambientes
clínicos (14%) ou outros cenários (31%). Os estudos de saúde pública eram de
natureza epidemiológica, saúde ocupacional, prevenção, educação em saúde, saúde
comunitária e saúde mental. Observou-se uma ênfase considerável nos estudos
sobre recursos humanos que abordavam a educação de enfermagem. Os estudos
clínicos foram mais freqüentes na saúde da criança, enquanto poucos tratavam
sobre o adolescente e idoso. Os estudos de enfermagem focalizavam o processo de
enfermagem, cuidado terapêutico, comunicação terapêutica, padrões de cuidado e
planos de cuidado. Na administração, o enfoque recaia sobre pessoal, qualidade
de cuidado e avaliação de programas. Os estudos qualitativos incluíam os
fenomenológicos sobre uma variedade de assuntos tais como: doença crônica,
terceira idade, gravidez, sexualidade e AIDS. Com o decorrer dos anos houve um
aumento no numero de apresentações e no quantitativo de países participantes. A
maioria dos estudos veio de pesquisadores acadêmicos. As pesquisas foram
conduzidas quase que exclusivamente por enfermeiras mas não incluía outros
membros da equipe multidisciplinar e colaboradores. Embora os estudos fossem
predominantemente quantitativo havia poucos estudos qualitativos brasileiros e
chilenos. As teorias de enfermagem não foram referenciadas em nenhuma das
apresentações. Havia poucos registros de financiamento ou apoio institucional.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise das múltiplas estratégias apontadas pelas publicações de 1991 e 1998
indicou um crescimento da pós-graduação em enfermagem na Região das Américas,
um maior esforço de internacionalização dos programas, um aumento no número de
pesquisadores e de centros produtores de conhecimento de enfermagem. Há
articulação entre a problemática e os desafios para o desenvolvimento da
pesquisa em enfermagem com o modelo econômico neoliberal e globalizante; o
sistema de serviço de saúde e as demandas de saúde da população e da própria
profissão de enfermagem. Tudo isso contribuiu para o fortalecimento da
enfermagem como prática social e cultural cientificamente estruturada.
Entretanto, novas recomendações se configuram como novos desafios para a
definição do estatuto epistemológico do saber de enfermagem, a necessidade de
se estabelecer uma cultura de solidariedade intelectual entre os pesquisadores
e de superação de práticas endogênicas de produção, divulgação e consumo do
conhecimento. Nessa direção, os resultados apontaram para a necessidade de
realizar investigações sobre os problemas na prestação de serviços de qualidade
e atenção de enfermagem, usar os resultados de pesquisa em saúde para modificar
as práticas em benefício da clientela, capacitar os enfermeiros de serviço em
pesquisa para que possam incorporar a prática da pesquisa no serviço e assumir
responsabilidades com o ensino e fazer com que os resultados de pesquisa
cheguem aos profissionais para além das publicações e eventos científicos.
Apesar de os limites epistemológicos e metodológicos decorrentes do recorte
temporal e da seleção aleatória dos textos, acreditamos que a análise
sistemática contribui para que a Associação Brasileira de Enfermagem,
estabeleça uma agenda de compromisso para o desenvolvimento da pesquisa em
enfermagem com a comunidade científica da enfermagem brasileira. A elaboração
da agenda precisa levar em consideração os desafios aqui delineados, as
demandas da academia na formação de pesquisadores, o consumo e disseminação do
conhecimento de enfermagem, e a transformação dos resultados de pesquisa em
políticas de cuidado e políticas publicas de saúde, no sentido de reduzir a
distância entre os campos de formação acadêmica/produção científica e a prática
assistencial.