Práticas utilizadas pelas puérperas nos problemas mamários
PESQUISA
Práticas utilizadas pelas puérperas nos problemas mamários
Practices used by women at post-birth on nipple problems
Práticas utilizadas por las puerperas en los problemas mamarios
Nelci Terezinha ZorziI; Ana Lúcia de Lorenzi BonilhaII
IEnfermeira. Mestre em Assistência de Enfermagem. Docente no Curso de
Enfermagem da Universidade de Passo Fundo (UPF), Passo Fundo, RS. Docente do
Curso Técnico de Enfermagem do Centro de Ensino Médio da UPF. zorzi@upf.br_
IIEnfermeira. Doutora. Professora Adjunto da Escola de Enfermagem da UFRGS,
Porto Alegre, RS. Orientadora da dissertação. bonilha@_enf.ufrgs.br
1. INTRODUÇÃO
Uma das pesquisadoras percebeu que durante sua formação acadêmica, embora a
teoria enfocasse o cuidado com o ser humano, como um todo, a prática voltava-se
para a assistência aos problemas do paciente. Na caminhada como enfermeira,
desenvolveu-se e supervisionou-se um serviço de enfermagem domiciliar e home
care1e atua-se, desde 1998, em serviço de prénatal de unidade básica.
Atuando junto às mulheres, percebia-se muitas vezes, um atendimento centrado
nos aspectos psicobiológicos, e não humanizado, que profissionais dispensavam
às gestantes, parturientes e puérperas, não respeitando as suas experiências
vividas, crenças, valores, enfim o contexto onde elas estavam inseridas. As
inquietações foram aumentando à medida que se acompanhavam as mesmas em seu
ambiente doméstico. Pôde-se observar que algumas dessas mulheres deixavam de
amamentar porque, geralmente, nos primeiros dias do puerpério surgiam as
principais intercorrências da lactação e amamentação. Surgia a insegurança
materna e, muitas vezes, familiar, resultando na introdução de outros alimentos
para a nutrição do lactente. Não bastando isso, havia a ausência de
acompanhamento de profissionais de saúde durante o puerpério.
A experiência com enfermagem domiciliar, durante essas visitas, fez com que se
refletisse sobre a importância do atendimento domiciliar e o quanto esse
atendimento era deficitário no Sistema Público de Saúde. Por outro lado
observou-se que as mulheres mais experientes transmitiam a sua experiência e
davam suporte às novas mães, além de ajudá-las nos afazeres domésticos.
Durante o acompanhamento de acadêmicos de Enfermagem nas instituições
hospitalares e na rede pública percebia-se, entretanto, que as mães já saiam da
maternidade com problemas mamários, principalmente fissuras e ingurgitamento,
apesar de muitos profissionais incentivarem e apoiarem o aleitamento materno,
por meio de orientações em grupo e individuais, disponibilizando material
didático para a puérpera e incentivo ao Programa Hospital Amigo da Criança.
Especialmente durante os atendimentos em enfermagem domiciliar, podiase
constatar que, freqüentemente, junto com essas mudanças e adaptações no período
puerperal, surgiam os problemas mamários: as fissuras mamilares,
ingurgitamento, dor mamilar, a crença do leite fraco, mastite, entre outros e
frente a esses problemas percebia-se que a puérpera não sabia como reagir, ou
que adotava práticas de cuidado que nem sempre são conhecidas pelos
profissionais da saúde.
Passou-se, então a indagar: que práticas são utilizadas pelas puérperas, quando
da ocorrência de problemas mamários, no domicílio?
Desta questão derivou o objetivo do estudo: conhecer as práticas do cuidado das
puérperas relacionadas aos problemas mamários e intervir na resolução do
problema em nível domiciliar.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa, do tipo convergente
assistencial. No estudo foram considerados como problemas mamários: fissura
mamilar, dor mamilar e ingurgitamento mamário.
A pesquisa foi desenvolvida na cidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul,
Brasil, por ser o local de residência e desenvolvimento das atividades
profissionais de uma das autoras. O estudo foi realizado em um Centro de
Atenção Integral à Saúde (CAIS) de um dos bairros mais populosos da cidade. A
amostra do estudo foi composta de quatorze puérperas da comunidade, que
freqüentaram o serviço referido e foram indicadas pelos profissionais de saúde
que atuam no local, ao identificarem os problemas mamários. Além destes,
buscaram-se prontuários das gestantes inscritas no programa do pré-natal. Após
esse levantamento acompanhava-se o agendamento de suas consultas, explicava-se
o tipo de trabalho que se pretendia realizar após o nascimento do seu bebê. As
puérperas que apresentavam algum tipo de problema já mencionado, eram
selecionadas para a amostra; as que amamentavam sem nenhum tipo de problema
mamário, eram excluídas do estudo após a primeira visita domiciliar. Entre
todas as puérperas acompanhadas, três não foram incluídas na amostra. As
puérperas participantes do estudo foram informadas sobre o objetivo da pesquisa
e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme determina a
Resolução 196/96/ CONEP. A pesquisa processou-se após aprovação pelo Comitê de
Ética e pesquisa da Universidade de Passo Fundo, RS. O período de coleta dos
dados foi do mês de outubro de 2004 a março de 2005.
Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada, observação
participante e anotações em diário de campo. As entrevistas foram gravadas em
fita cassete e posteriormente transcritas. As observações e intervenções foram
registradas em diário de campo. Ao término da entrevista, sempre que possível
realizava-se a observação da participante, observando a mamada do bebê. Quando
a observação da mamada não era possível no mesmo encontro, a pesquisadora
retornava em outro momento para realizá-la.
As condutas seguidas quando da presença de problemas mamários, foram as
determinadas pelo Ministério da Saúde. Foram utilizados, como pseudônimos,
nomes próprios comuns, populares e freqüentes na comunidade, encontrando,
assim, uma forma de homenagear essas mulheres, dentro de seus universos,
dotadas de sabedoria, movidas por força interior.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados na pesquisa convergente-assistencial foi realizada
simultaneamente ao processo de assistência, conforme recomendam Trentini e Paim
(1).A análise incluiu quatro processos, denominados de: apreensão, síntese,
teorização e contextualização, os quais foram encontrados os temas e seus
subtemas que serão descritos a seguir.
3.1 Práticas utilizadas pelas puérperas nos problemas mamários
Vários são os motivos que levaram as mães acompanhadas nesta pesquisa a
amamentarem, quase todos relacionados a experiências anteriores vivenciadas
dentro do contexto familiar. As práticas adotadas para o tratamento de
intercorrências na lactação também estão baseadas em experiências familiares.
Quando os problemas mamários estavam instalados, a ajuda vinha dos familiares e
de pessoas mais próximas, como vizinhos, parentes, benzedeiras e rezadeiras da
comunidade, comadres, etc., como é confirmado nas falas de algumas puérperas,
dentre elas:
A casca de mamão e banana e Lansinonª foi o médico, essa outra
(pomada) foi minha comadre. O chá da Índia foi uma comadre e a
graxa, foi a mãe(Paula).
As práticas de saúde prestadas por familiares, estavam relacionadas com crenças
e hábitos, que perpassam de geração a geração.
3.1.1 Práticas utilizadas nas fissuras mamilares
As práticas relacionadas às fissuras foram variadas. No decorrer dos encontros
com as puérperas foi observado que as mesmas recorreram à reza ou à simpatia.
Luiza utilizou a simpatia do fígado de galinha quente, orientada por sua mãe.
No conjunto de doenças, o tratamento considerado mais eficaz e imprescindível é
a reza ou a simpatia, porque se sente que a doença tenha origem espiritual(2).
Bete, uma puérpera que enfrentou a gravidez com muitos problemas, mãe de três
filhos, separada, disse ter utilizado a reza e simpatia todas as vezes que
amamentou. A pessoa que fazia a reza e simpatia era uma senhora da comunidade
conhecida por benzedeira. Utilizou a reza associando com o chá de arruda. Tinha
muita confiança e crença em simpatias, e acreditou que iria melhorar das
fissuras com essa prática.
Daí eu fui, eu tô benzendo. Benzei dos dois e dessa aqui também
(Bete).
Lúcia, além de usar chá, também fez uso da reza e simpatia.
Daí que eu tomei o chá. Só que a rachadura ainda continuou. Daí a
minha sogra falou, e a vó do meu marido, que o bom era eu pegar uma
galinha e passar o fígado dela no peito (Lúcia).
Uma prática popular muito encontrada foi o uso dos chás de ervas medicinais.
Na utilização dos chás caseiros, surgiram vários tipos de ervas para o
tratamento de fissuras mamilares, entre eles: chá de Confrei, o chá preto ou
chá da índia, malva, camomila, arruda, como se pode constatar nas falas
seguintes:
Usei a pomada Oxyderme
b
, o Lansinon, a casca de banana, a casca de mamão, chá da Índia, e a
graxa provadac. Tudo o que me ensinaram, eu tava usando
(Paula).
Do mesmo modo, afirmou Maria,
(...) eu passo nata de leite, sebo de ovelha. Agora, por último, chá
calmante, chá de confrei, então fico toda ensopada de algodão de
confrei, né? Pra acalmá, porque alivia a dor... (Maria).
A arruda foi utilizada por rezadeiras e benzedeiras, nos tratamentos dos
problemas com respingos, infusão de ervas ou com um ramalhete, como foi o caso
de Lucia, que a benzedeira a utilizou para tratamento das fissuras de suas
mamas, na vivência dos dois processos de amamentação.
Pôde-se perceber, durante a pesquisa, que o uso de tal prática fortalece vários
estudos encontrados na literatura sobre crenças e culturas que envolvem o
indivíduo(3,4). O uso de chás medicinais tem se tornado freqüente em quase
todas as classes sociais. Na busca de práticas alternativas, produtos de origem
natural, ou baseadas na prática utilizada por seus familiares, as puérperas
acreditaram na cura de seu problema mamilar e no alivio da dor que estava
dificultando a amamentação naquele momento. Percebeu-se que vários dos chás
usados pelas puérperas tem ação como calmantes e anti-inflamatórios, podendo
existir um alivio da dor na fissura mamilar devido a esta ação. Por outro lado,
há uma preocupação com o uso de ervas medicinais no tratamento de fissuras,
pelo fato de não se saber a origem de tais produtos e a forma como esses chás
são preparados. É possível que tornam-se a porta de entrada de bactérias no
local da fissura, podendo levar a complicações como mastite.
Na expectativa de alivio da dor mamilar e da cicatrização das fissuras
mamilares as práticas adotadas pelas mulheres, no estudo, para o tratamento se
tornavam variadas e instigadoras, como é o caso de Maria, que como sua mãe,
utilizou sebo de ovelha para tratamento da fissura,
(...) a minha mãe amamentou, teve, né? Ela usou o sebo de ovelha, foi
o que curou ela. Ela se curou com sebo de ovelha, só que eu acho
muito gorduroso, parece que machuca quando vai tira. Daí eu usei umas
três vezes, eu sei que funcionava antigamente, né? (...) (Maria).
A puérpera tinha a crença de que já funcionava antigamente e funcionaria nesse
momento também. Pôde-se acompanhar, na primeira visita de Maria, durante a
observação participante, que a mesma havia aplicado o sebo de ovelha nos
mamilos e não o retirou antes da mamada. Não há estudos sobre o sebo para
tratamento de fissuras ou efeitos de seu uso para o bebê.
O que chama a atenção é que o emoliente Lansinon, utilizado pela puérpera
Paula, é derivado da lã do carneiro após a tosa, tendo alguma aproximação de
origem bioquímica com o sebo de ovelha(5).
Outras práticas citadas pelas puérperas, já são do conhecimento de estudiosos
em aleitamento materno, é a utilização da casca de banana e casca de mamão. No
relato de Ana, a mesma demonstrou que a casca de mamão tirava a febre.
Eu tô usando o leite, né? E tô usando casca de mamão, né? Pra tirá a
febre. Tira toda a febre, foi o que melhorou (Ana).
No caso das puérperas acompanhadas, não era observado o tipo de mamão e nem sua
procedência. A fruta que era possível ser adquirida pela família era a
utilizada para tratar a fissura mamilar, não havendo nem um tipo de cuidado no
seu manuseio. Outro fator importante foi que os profissionais que orientaram o
uso do mamão, não indicaram a forma de usar e também desconheciam os efeitos da
sua aplicação.
Quanto ao uso da casca de banana, a puérpera Cláudia, foi orientada pela mãe,
que trabalhava de doméstica, na residência de um médico, a utilizá-la:
Casca de banana, me ensinaram. A mãe trabalha com um médico e ele
disse que podia usá ainda, daí eu sei. Ela deixa fresquinha, daí
alivia aquela dor, aquele calor, sabe? (Cláudia).
Entre as várias práticas utilizadas, encontra-se também o uso do sol e da luz
sobre a fissura. Dentre as recomendações adotadas pelo Ministério da Saúde está
a conduta do tratamento seco(6). Essa forma acontece no uso de luz solar ou luz
artificial, utilizando lâmpadas de 60 watts sobre a fissura mamilar. E em
alguns casos encontrou-se essa conduta sendo praticada pelas puérperas no
tratamento de fissuras, como foi o caso de Maria.
Apesar de recomendada pelo Ministério da Saúde, e ter se tornado popular nas
últimas décadas, essa prática é questionada porque ressalta que a cicatrização
de feridas é mais eficiente se as camadas se mantiverem úmidas. O tratamento
úmido das fissuras atualmente é recomendado e tem por objetivo formar uma
camada protetora que evite a desidratação das camadas mais profundas da
epiderme(7). O que é confirmado por Maria.
Logo que tu coloca o abajur, ele te dá uma calmada, né? Te dá uma
aliviada e ali vai cicatrizando e ela forma uma casquinha e fica bem
dolorido, né? E quando ele vai mamá, ela cai. Cai a casquinha, aí
parece que a dor é pior (Maria).
Avalia que este tipo de tratamento tem sido utilizado ou recomendado, mas que
sua eficácia não tem sido avaliada adequadamente e não há estudos que o
respaldem.
Com relação às medidas de proteção de fissuras, há a recomendação dos
protetores de seio, como o coador de plástico, pequeno, sem o cabo, entre as
mamadas, eliminando a fricção da área traumatizada pela roupa, mas recomenda-se
atenção com o uso dos mesmos, pois esse recurso pode favorecer a drenagem, as
macerações, devendo ser cuidadosamente avaliada essa recomendação pesando-se os
riscos e benefícios(8).
Um aprendizado importante identificado na observação das mamadas durante a
pesquisa foi que, o posicionamento materno e a técnica da mamada influenciariam
significativamente para o aparecimento dos traumas mamilares.
Parte das puérperas deste estudo apresentaram fissuras já no hospital. Apesar
de serem orientadas pelos profissionais de saúde dessa instituição, referiam,
(...) eu tenho o meu jeitinho de pegá o seio pra dá de mamá. Lá no
hospital, lá a gente faz, né? Porque elas pedem e a gente fica sem
graça, eu não consigo pegá daquele jeito (me mostra a pega tipo C), a
gente faz assim porque elas pedem(Lúcia).
Observou-se que a posição da mãe e do bebê parece ser fundamental para a
prevenção das fissuras e dor mamilar. Ficou claro na fala de Ana que havia
realizado cesareana há o relato que no pós-operatório ficava muito
desconfortável a posição durante amamentação, em sala de recuperação,
possivelmente favorecendo o desencadeamento de lesões mamilares.
(...) daí depois não explicam mais. Daí elas (enfermeiras) me
ajudaram. Só que eu não podia me virá, porque eu tava amortecida,
tanto que ele pegava de qualquer jeito, né?(Ana).
Observou-se que o período de recuperação pós-cesareana pode ser um
desencadeador de trauma mamilar devido à posição da puérpera no momento da
amamentação.
3.1.2 Práticas utilizadas no ingurgitamento mamário
No conhecimento das práticas que as puérperas utilizaram durante as visitas
domiciliares, outra situação especial da amamentação encontrada foi o
ingurgitamento mamário, que ocorre geralmente na primeira semana após o
nascimento.
Verônica refere que as mamas estão cheias demais e doloridas devido ao
ingurgitamento:
Tá cheio demais, dói (...) (Verônica).
Vários fatores parecem estar associados ao ingurgitamento mamário, entre eles
as mamadas em horas pré-determinadas, controle de tempo de sucção, sutiã
apertado, início tardio da amamentação, pega ineficaz, uso de bicos, uso de
mamadeira e chucas, não esvaziamento da sobra de leite, nos primeiros dias,
fissuras do mamilo, recém-nascido prematuro, queda da mama sobre sua parte
inferior(9).
No caso de Jaqueline, ao realizar a primeira visita, constatou-se que
apresentava ingurgitamento glandular de difícil drenagem, foram realizadas
massagens manuais e ordenha, pois ela referia muita dor e "inchaço" nas mamas.
Tá difícil... ahh, só esse inchaço assim... (Jaqueline).
Na segunda visita realizada a Jaqueline, o ingurgitamento persistia. Esta
informou que havia conseguido realizar ordenha após a visita do dia anterior,
uma quantidade significativa de leite, e seu esposo a ajudou na realização da
massagem manual. Este estava bastante presente nos cuidados com a mãe e o
filho. Durante a observação das mamadas, percebeu-se que havia locais em ambas
as mamas com hiperemia; foi então realizada ordenha manual havendo novamente
drenagem de grande quantidade de leite, mas mesmo assim, persistiam em alguns
locais pontos endurecidos e doloridos. Com preocupação de progredir para uma
mastite, optou-se por encaminhara puérpera até o hospital onde havia
ordenhadeira elétrica.
Dessa forma foi associada massagem manual com ordenha elétrica. Mas apenas
reforçou a observação realizada de que, se não houver massagem e ordenha manual
prévia, não haverá extração do leite.
Alguns grupos brasileiros que atuam no manejo clínico da lactação, recomendam
fundamentalmente a ordenha manual das mamas, uma vez que as bombas elétricas
podem causar fissuras(10).
Uma prática que foi muito usada décadas atrás para ingurgitamento mamário e que
esteve presente nas práticas realizadas pelas puérperas foi a de passar um
pente de cabelo nas mamas. Essa prática foi orientada pela avó de uma puérpera,
que a seguiu com muita confiança e determinação.
3.1.3 Práticas utilizadas para a dor mamilar
A dor mamilar relatada pelas puérperas acompanhadas deste estudo foi um fator
de muita angustia e desconforto no ato de amamentar descrito pelas mesmas,
dificultando o momento de troca de afeto e carinho entre mãe e filho.
Durante as observações das mamadas, em vários momentos identificou-se que a
técnica da mamada estava incorreta, o bebê abocanhava apenas parte do mamilo,
achatando-o ou deixando-o com formato não anatômico, após a mamada. Este fator
predispõe a situações de mamilos doloridos e fissuras mamilares.Assim, Maria,
Verônica, Jaqueline, Bete, Paula, Cláudia, Isabel, Aline, Tânia, Luiza, Lúcia,
Graça, realizaram a técnica da mamada de modo incorreto.
As causas mais comuns de mamilos doloridos são simples e podem ser evitadas.
Conforme consta no programa do Ministério da Saúde as freqüentes são: o bebê
não estabeleceu um padrão adequado de sucção; a mãe precisava de ajuda e
ninguém lhe mostrou como estabelecer uma boa pega; as mamas ficaram
ingurgitadas em razão de o bebê não mamar com freqüência; o bebê teve monilíase
oral e contaminou os mamilos da mãe; o freio lingual do bebê era curto e
impedia de esticar a língua sobre o lábio inferior(10).
Lúcia ficava ansiosa, com medo, ao ouvir que sua filha estava acordando e iria
precisar alimentar a criança em seu seio,
Quando eu via que ela acordava, chegava me dá medo, sabe? ... ta
loco! Parece que o meu seio não tava agüentando, sim porque eu já
tava sentindo a dor antes de amamentar ela (Lúcia).
Realizando as observações, pôde-se afirmar que nas puérperas que se encontravam
com mamilos doloridos, essa situação estava relacionada com mamas ingurgitadas
e a posição mãe-bebê incorreta no momento da mamada.
3.2 Repercussões dos problemas mamários no desmame e na promoção do aleitamento
materno
Durante esta pesquisa, observou-se que a prática do aleitamento materno requer
muita compreensão do profissional de saúde, para que esse possa contemplar a
mulher em sua especificidade, em seu potencial e sua capacidade de cuidar-se.
Acredita-se que foi possível identificar nesta pesquisa que é de fundamental
importância que aconteça uma mudança no atendimento prestado pelos
profissionais de saúde durante o pré-natal. Ao realizar-se a análise das
informações refletiu-se que o pré-natal está diretamente ligado ao sucesso ou
não da amamentação. Faz-se essa análise a partir do que foi observado no
acompanhamento das puérperas e do risco existente pelo fato das mesmas não
saberem como prevenir os problemas mamários e conseqüentemente estes determinam
o desmame, como é o caso do relato de Maria,
Eu casei muito cedo e tive meu primeiro filho muito nova, com 19
anos. Inexperiente, ninguém nunca me ensinou nada, e eu queria
amamentar e não sabia como. Me diziam: faça massagem no biquinho.
(...) não, não sabia de nem um curso. O médico também não orientou
(Maria).
Maria relatou também o medo e a insegurança ao retornar pra casa; quando teve
sua filha anterior, sentia-se despreparada,
E acontece que quando eu dei alta, eu fiquei desesperada, não sabia o
que fazê, vim pra casa e agora dá leite no copinho. Eu não sabia
(Maria).
Conforme o Ministério da Saúde, "cabe à equipe de saúde, ao entrar em contato
com uma mulher gestante, na unidade de saúde ou na comunidade, buscar
compreender os múltiplos significados da gestação para aquela mulher e sua
família"(11).
Embora as puérperas acompanhadas nesta pesquisa tenham realizado o pré-natal,
poucas relataram ter recebido informações sobre amamentação durante as
consultas, e as que receberam algum tipo de informação esta não se mostrou
efetiva para o aprendizado das mulheres.
Outras mulheres, na tentativa de obter informações sobre amamentação por já
terem vivido um processo anterior com problemas mamários, relataram que
questionavam os profissionais, mas obtiveram como resposta:
Eu até perguntei pra ela, porque tinha me dado figo do primeiro
filho. Daí, a única coisa que ela me falou foi, quem ia me explicá,
era lá no hospital, quem ia me cuidá quando eu ganhasse o nenen
(Lúcia).
Dentre as participantes, uma manteve contato com acadêmicos de enfermagem
quando recebeu orientações sobre como amamentar e, outra relata ter apenas
visto informações através de um cartaz como está em seu relato;
Eu não participei porque, onde eu ia consultá, eu só via nas paredes,
mas ninguém me auxiliava, ninguém me falava, só cartazes (Luiza).
Entre as formas de realização do trabalho educativo preconizadas, destacam-se
as discussões em grupos, as dramatizações e outras dinâmicas que facilitem a
fala e a troca de experiências entre os componentes do grupo. Acrescenta que
deve ser evitada a forma de palestra, pois, é pouco produtiva e ofusca questões
subjacentes(15). Jaqueline, uma das poucas que receberam informações no pré-
natal sobre amamentação em forma de palestra disse:
(...) ela chego a ensiná a massagem, só que eu me esqueci como é que
faz (Jaqueline).
O atendimento à mulher deve ser prestado no pré-natal, parto e puerpério. O
período puerperal se torna de muita dificuldade para a mulher por não saber
manejar o processo de amamentação, facilmente conduzido se tiver a presença de
um profissional da saúde próximo a ela. No relato seguinte ficam evidentes as
dificuldades e angústias enfrentadas no seu domicílio.
E acontece que quando eu dei alta, eu fiquei desesperada, não sabia o
que fazê, vim pra casa e agora dá leite de copinho eu não sabia.E
assim eu fui, o pouco de leite ela tomou, mas aos trancos e
barrancos. E aí acabou, né (Maria).
Muitas puérperas durante as visitas pareceram apreensivas e deprimidas, em
graus variados, após a alta hospitalar.
4. CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES
Com o conhecimento das práticas utilizadas pelas puérperas no domicílio,
obteve-se a oportunidade de acreditar cada vez mais no valor da amamentação, a
cada visita realizada. Foi possível fortalecer a crença e entendimento que para
se promover o aleitamento materno são necessários investimentos de gestores
públicos principalmente na capacitação e envolvimento dos profissionais. E
neste processo sensibilizar os profissionais para compromete-los.
No percurso deste estudo percebeu-se que, os profissionais detêm pouco
conhecimento em relação às práticas de saúde utilizadas no ambiente doméstico,
sendo esse um universo quase desconhecido. Surgia a cada visita, um aprendizado
que não é encontrado nos livros. Aprendizado, esse, que é demonstrado e
realizado pelas puérperas, aprendizado arraigado dentro de suas famílias,
dentro de seu contexto. Esse aprendizado está vinculado às suas crenças,
valores, cultura, mitos. Esta pesquisa possibilitou conhecer e ao mesmo tempo
intervir, para que pudesse ajudar as puérperas a resolverem os problemas por
elas enfrentados no processo de amamentação. Talvez se outro tipo de pesquisa
tivesse sido adotado, não seria possível realizar intervenções, e ao mesmo
tempo ver o resultado das orientações e intervenções.
Durante a pesquisa manteve-se um relacionamento de confiança entre o
profissional e paciente facilitando a condução e resolução dos problemas
mamários. Assim foi possível às mudanças do comportamento materno, relacionadas
à amamentação. As mudanças aconteciam na medida em que, se realizavam as
orientações.
Acredita-se que a enfermeira é o profissional que faz o elo entre as mulheres
gestantes e puérperas com os demais profissionais. Dessa forma, pensa-se que a
mesma possa realizar o cuidado de forma humanizada e individualizada. Isso pode
acontecer desde o acolhimento da gestante no serviço de saúde, até o
acompanhamento da puérpera no seu domicílio, com a realização de ações
educativas voltadas para o contexto em que a mulher está inserida.
Implementando uma nova forma de atendimento voltada às necessidades individuais
e particulares de cada mulher, no processo da amamentação.
Cabe aos profissionais que estão no ensino e na formação de novos profissionais
de saúde comprometerem-se a entender essa dimensão do cuidado desenvolvido no
domicílio das mulheres. Faz-se necessário proporcionar novas alternativas de
atividades práticas ao aluno de Enfermagem na área da Saúde da mulher, saindo
do atendimento dentro de instituições hospitalares e ambulatoriais para chegar
ao conhecimento do ambiente doméstico que é vasto e riquíssimo. Percebeu-se que
a puérpera adota a prática do cuidado de dentro de sua família, deixando de
seguir as orientações recebidas dos profissionais, nas maternidades onde
tiveram seus filhos.
Promover a amamentação, colocar o tema na agenda dos meios de comunicação de
massa e como parte normal da vida da família e da sociedade é a sugestão para
que se tenha um maior número de crianças amamentadas exclusivamente ao seio
materno, até pelo menos seis meses de idade.
Este trabalho pretende servir de subsídio para um atendimento de enfermagem
mais qualificado e humanizado, com a valorização do contexto em que as
puérperas vivem. Para isso, conhecendo as práticas de saúde das puérperas,
pensa-se estar propiciando à enfermagem um processo educativo voltado para as
expectativas do cuidado domiciliar, tendo na enfermeira um agente de mudanças,
com ação reflexiva e de forma participativa.