Temas éticos e bioéticos que inquietaram a Enfermagem: publicações da REBEn de
1970-2000
REVISÃO
Temas éticos e bioéticos que inquietaram a Enfermagem: publicações da REBEn de
1970-2000
Ethical and bioethical issues disturbing nursing: REBEn's publications from
1970 to 2000
Cuestiones éticas y bioéticas que inquietan la enfermería: publicaciones de la
REBEn de 1970 a el 2000
Maria Madalena de Andrade SantiagoI; Marisa PaláciosII
IDoutora em Enfermagem. Mestre em Filosofia. Professor Adjunto da Área de
Pesquisa do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro, RJ
IIDoutora em Ciências. Mestre em Saúde Coletiva. Professora Adjunto da
Faculdade de Medicina e Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, RJ.
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O presente trabalho tem como objetivo geral identificar os temas éticos /
bioéticos que inquietaram os enfermeiros nos últimos trinta anos. Entre os
motivos para a escolha deste assunto destaca-se o fato deste tema ser ainda
hoje, pouco abordado na área de enfermagem, embora os conflitos éticos
provoquem debates acalorados em diferentes situações. Constantemente, com a
finalidade de prestar um serviço de melhor qualidade e que, na medida do
possível, promova justiça social somos levados a refletir sobre nossa prática
cotidiana e reavaliar os princípios éticos que a fundamentam. Outro aspecto que
despertou o interesse foi a presunção de possível lacuna no conhecimento.
Ainda que as divergências éticas no setor saúde não se constituam em novidade,
supõe-se que a implantação da Resolução 196/96 do CNS/MS e a conseqüente
criação dos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) tenham estimulado o interesse
pelo assunto. Portanto, faz-se necessário a preparação de profissionais que
inspirados nos paradigmas bioéticos vigentes sejam capazes de propor uma
perspectiva bioética em consonância com a realidade sócio-cultural brasileira.
A bioética discute do ponto de vista da ética, as relações entre os avanços no
campo do conhecimento científico e tecnológico e o cotidiano da vida em
sociedade. Surgida nos Estados Unidos da América na década de 70, a perspectiva
introduzida pela bioética e hoje disseminada por todos os continentes, se
distanciou da conotação da moral religiosa e respeita a pluralidade de
tendências(1).
A inclusão do conteúdo de bioética, no campo da formação do enfermeiro,
resultou da alteração ocorrida em 1994, a partir da Portaria nº. 1712 de 15 de
dezembro de 1994 do MEC, que estabeleceu novas diretrizes curriculares para o
currículo de graduação em enfermagem, posteriormente, a Portaria 1518 de 14 de
junho de 2000 integrou os conteúdos de bioética ao ensino da ética(2) que
passou a denominar a disciplina "Exercício de Enfermagem Deontologia, Ética
Profissional e Legislação", abrangendo os conteúdos de ética, bioética e
fundamentos legais do exercício profissional de enfermagem. Esta inclusão
resultou de proposições encaminhadas por Instituições de Ensino Superior e pela
Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) ao Departamento de Políticas do
Ensino Superior SESu / MEC, que por sua vez, encaminhou à Comissão de
Especialistas do Ensino de Enfermagem, também do MEC, uma proposta de
integração dos conteúdos de Bioética ao ensino da Ética.
A proposta sugere a preocupação da categoria com o tema. Portanto, há que se
sensibilizar o debate acerca dos referenciais teóricos que norteiam as
diferentes perspectivas. Pois, situações de conflito exigem a tomada de
decisões fundamentadas em posturas éticas, refletidas criticamente ou não.
Estas reflexões levaram-nos a questionar que vertentes teóricas emergem dos
artigos publicados, nos últimos trinta anos, na principal e mais tradicional
revista de enfermagem, a Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn) da Associação
Brasileira de Enfermagem.
Com o intuito de nortear este estudo, elaboramos as seguintes questões "quanto
foi publicado sobre ética / bioética em enfermagem a partir da década de 70?",
"quais os principais temas abordados pelos autores?", "em que perspectiva ética
/ bioética os autores se fundamentam?". E para respondê-las construímos os
objetivos: a) identificar os artigos publicados na Revista Brasileira de
Enfermagem (REBEn), no período de 1970 a 2000, que contém temas relacionados à
ética / bioética, b) identificar os principais temas abordados e por fim,
discutir as perspectivas teóricas nas quais os autores fundamentam suas
argumentações.
O debate bioético deve ser constante particularmente, entre os profissionais de
saúde, porque o avanço científico e tecnológico nos surpreende com novidades,
que exigem solução, onde o fator racional deve prevalecer sobre o emocional, ou
que as decisões advenham de padrões de comportamento socialmente previstos e
aceitos, porém oriundos dos valores culturais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Relembrando a história, no início dos tempos civilizados não existia uma ética
direcionada às ciências humanas ou às da vida. As normas gerais é que ditavam o
comportamento social humano, e como a ética está relacionada à vida, estas se
confundiam com a ética médica.
A evolução dos conceitos de ética se deu através dos tempos, permitindo a
identificação de alguns marcos conceituais e históricos que caracterizam
diferentes momentos da ética geral e sua evolução para uma ética direcionada
para as ciências médicas e enfim, para a bioética.
Em sua origem no Brasil as discussões éticas, no campo da enfermagem, têm se
pautado numa postura que pode ser caracterizada como conservadora por
privilegiar aspectos como a religiosidade, autoritarismo, obediência,
hierarquia, subserviência e outras(2).
Primordialmente, o ensino de ética se ocupava quase que exclusivamente em
tratar dos direitos e deveres profissionais. Esta tendência, de certa forma,
permaneceu até a publicação, em 1994, da portaria anteriormente referida.
Concordamos que os códigos de deontologia são bem-vindos quando incorporam
normas morais defensáveis, mas em alguns casos, pela simplificação exagerada
das exigências morais podem mascarar a compreensão dos profissionais, levando-
os a supor que apenas o cumprimento de todas as regras do código será
suficiente para os eximirem de suas obrigações morais. Eventualmente, os
códigos parecem se opor às regras morais mais gerais ou que estão em condição
superior a elas, podendo sugerir nestes casos, maior proteção aos interesses
profissionais que introduzir uma perspectiva moral imparcial e abrangente(3).
Daí, a relevância do aprofundamento do tema.
Por que várias correntes?
Hume filósofo do século XVIII foi quem primeiro afirmou que a moral é baseada
em sentimentos e não em razão, baseado na idéia de que sempre haverá um
princípio para o qual não haverá razão. Mais tarde, já no séc XX, MacIntyre
afirma que a racionalidade só tem sentido dentro de uma tradição histórica. Não
há como pensar em razões num sentido universal. "Qual racionalidade?", "justiça
de quem?", são questões pertinentes informando a existência de comunidades que
diferem grandemente em termos morais. Embora esses filósofos tenham utilizado
esses argumentos para negar a possibilidade de uma ética universal, Rachels(4)
os recupera para afirmar a possibilidade de ser construída uma ética universal
descobrir que argumentos fazem sentido para pessoas racionais em geral e não
para um conjunto limitado de pessoas. Ao lado de questões como essa no campo
teórico, das teorias éticas, a Bioética se constitui como disciplina que
pretende aproximar a Ética como uma área de produção de conhecimento da
filosofia com o campo de produção de saberes e práticas que intervêm na vida
dos seres e do planeta. Essa aproximação é fruto de uma articulação dialética
que produz novos e crescentes desafios tanto para a produção filosófica quanto
para as ciências da vida e suas interações com a sociedade. A Bioética se
constitui assim, como um campo disciplinar capaz de, com suas reflexões,
produzir modelos teórico metodológicos para auxiliar a tomada de decisão ética
no campo da saúde. Assim, só para citar os mais significativos, apresentaremos,
em rápidas palavras as abordagens baseada em princípios, a utilitarista e a da
ética do cuidado.
Sob o título de abordagem baseada em princípios é reunida uma grande variedade
de abordagens. O que as caracteriza é ter no mínimo algumas normas morais
centrais no julgamento. Normas morais (princípios e regras) são diretrizes
gerais para a ação que especificam que determinadas ações são proibidas,
requeridas ou permitidas em determinadas circunstâncias. Princípios são as
diretrizes mais gerais e as regras são mais específicas. No Principialismo de
Beauchamps e Childress os principais princípios são os da beneficência, da não
maleficência, da autonomia e da justiça. O método de utilização dos princípios
repudia a aplicação direta por dedução dos princípios às situações concretas.
Os quatro princípios são obrigações prima-facie, não são mera recomendação. É
preciso atribuir pesos a regras e princípios quando são contraditórios em uma
dada situação concreta, e assim construir muito bons argumentos para infringir
um princípio, que na situação concreta esteja em desvantagem(5).
Na abordagem utilitarista, o que faz uma ação ser correta ou errada são suas
conseqüências(6). A conseqüência mais importante é o aumento ou diminuição da
quantidade de bem-estar de todos os afetados pela ação. Nesse sentido, a melhor
ação é a que produz o máximo de bem-estar. A noção de bem-estar está
relacionada a obtenção de alto grau ou grau razoável de qualidade de vida que
no todo a pessoa almeja ou prefere ter. Incluem-se todos os seres sencientes
como objeto de preocupação moral. Em resumo, a abordagem utilitarista propõe
agir de forma a garantir o maior bem-estar para o maior número de pessoas.
Ética do cuidado(7) é uma forma de compreensão do agir ético e está baseada em
5 idéias centrais: Atenção moral, Compreensão com simpatia, Consciência das
relações, Acomodação Resposta. A voz do cuidado compreende que os agentes estão
envolvidos em contextos sociais particulares, relações e narrativas pessoais,
que dirigem suas atenções morais a outros reais e estão abertas a compreender
com simpatia e identificar-se com esses outros.
A ética do cuidado pressupõe relações humanas no interior das equipes de saúde
respeitando as especificidades técnicas de cada profissional e colocando as
questões morais para reflexão de forma aberta e igualitária, condições
indispensáveis para que se possa construir consensos nas situações concretas
onde os dilemas morais acontecem.
3. MÉTODO
Para a realização desta pesquisa optou-se por desenvolver uma investigação
documental ou bibliográfica, a fim de observar a evolução dos temas publicados
acerca do assunto. Iniciamos a pesquisa a partir do surgimento do termo
bioética com Van Resselaer Potter(8), na década de 70. Partindo do pressuposto
que antes de 1970 o interesse dos pesquisadores estaria voltado para temas
relacionados ao Exercício Profissional e os debates envolvessem a elaboração do
Código de Ética e Deontologia dos Profissionais de Enfermagem. A fixação do
recorte final em 2000 deve-se a compreensão que transcorridos seis anos da
publicação da portaria do MEC, seria suficiente para a absorção das informações
e, conseqüentemente, para que a reflexão sobre estas questões pudesse ser
assimilada, debatida e divulgada.
Uma das razões para a escolha de fontes documentais para a realização do estudo
está no fato dos dados permitirem o acesso a um conhecimento objetivo da
realidade e a detecção de "mudanças nas atitudes e valores sociais"(9). A
pesquisa bibliográfica permite conhecer as contribuições culturais ou
científicas do passado, aproximando o pesquisador do que foi escrito, dito ou
filmado no passado sobre determinado assunto. A pesquisa bibliográfica não é
mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto. Mas, propicia
o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões
inovadoras(10). Ao fazer uma re-leitura o que foi produzido pode-se visualizar
aspectos que de outra forma passariam despercebidos, como pontos obscuros ou
lacunas do conhecimento. Além de ser um reforço paralelo no referencial teórico
e na análise de sua própria pesquisa(10).
A escolha metodológica permitiu a análise de informações objetivas referentes a
identificação das revistas e artigos e, informações subjetivas relativas aos
significados dos temas aí contidos. A decisão de examinar apenas as publicações
da REBEn, embora existam outras revistas com qualificação melhor deve-se que é
o periódico nacional de enfermagem de publicação regular mais antigo, julga-se,
ser esta revista, um dos mais respeitados e reconhecidos entre os profissionais
da área de enfermagem, além de ser qualificada na avaliação do Qualisa da CAPES
como C Internacional.
A dificuldade de se encontrar todas as publicações em um mesmo acervo ou
disponíveis em veículo eletrônico nos levou a coletar as informações em
diferentes bibliotecas localizadas no município do Rio de Janeiro, esta foi uma
tarefa árdua, visto que o estado de conservação e a organização dos periódicos
são precários.
O critério para inclusão dos artigos foram as palavras-chave: deontologia,
código, legislação, exercício profissional, prática social, direitos dos
pacientes, responsabilidade, morte, paciente terminal, transplante, aborto,
humanização e cidadania. A coleta das informações ocorreu no final de 2004.
Para seleção dos artigos leu-se primeiramente os títulos contidos nos sumários
das revistas, depois os resumos dos artigos, a fim de verificar se ambos
continham a mesma informação. A seguir, criou-se uma ficha contendo ano, número
e mês de todas as revistas, a página inicial da publicação, o título, o nome
autor e o resumo, o que permitiu a análise minuciosa dos textos. À medida que
analisávamos as revistas estas eram separadas das demais, o que garantia o
controle.
Dentre as dificuldades para a seleção dos resumos destacamos: haver artigos que
debatiam questões éticas, cujas palavras-chaves não apareciam nos títulos.
Alguns títulos não traduzirem exatamente o conteúdo dos resumos, assim, em
alguns casos leu-se o artigo na íntegra. Esta pré-análise foi fundamental para
a compreensão dos aspectos abordados pelo autor e para ratificar a seleção, que
poderia ser mascarada caso ocorresse somente a partir do título contido no
sumário.
A análise do conteúdo dos artigos fundamentou-se no modelo de análise temática
de Bardin(11). Neste modelo as unidades de registro se constituem em palavras-
chaves, frases ou parágrafos e permitem a visualização dos temas mais
significativos em cada texto ou artigo, assegurando maior confiabilidade aos
resultados da análise(11). No primeiro momento, procedeu-se a leitura
flutuante, a seguir, uma leitura mais profunda a fim de identificar as palavras
mais significativas do resumo. Finalmente, as palavras foram contabilizadas e,
avaliada sua relevância. As informações subjetivas foram agrupadas por
semelhanças ou estranhamentos e organizadas em categorias temáticas. Após a
contabilização, as palavras-chaves foram dispostas por afinidade dando origem a
quatro categorias. Apresenta-se a seguir os resultados da análisedos dados
objetivos e das informações subjetivas.
4. RESULTADOS
No período de 1970 - 2000 foram publicados 132, editados 106 números da REBEn e
selecionados 44. Porém, examinados só 33 cujos resumos abordavam o tema,
descartando-se 11 que consistiam em relatórios ou divulgação de legislação.
Na década de 70 foram publicados 47 números. Nas 38 revistas impressas, havia
08 textos, que embora divulgassem questões éticas não foram analisados por que:
quatro consistem em documentários relativos aos Congressos Brasileiros de
Enfermagem (sendo um relativo do XXIV CBEn realizado em Belo Horizonte - MG, e
três relativos do XXVIII CBEn), três contêm Códigos (o Código de Ética do
Conselho Internacional de Enfermeiras; o Código de Deontologia de Enfermagem
aprovado pela Resolução COFEN 9, de 04/10/1975; e o Código de Ética da
Associação Brasileira de Enfermagem - 1975) e um apresenta o Relatório da
Comissão Especial do Código de Ética da Associação Brasileira de Enfermagem.
Na década de 80 observa-se que dos 40 números publicados, efetivamente foram
editadas 29 revistas. Sendo selecionados 10 textos e analisados 08 artigos. Tal
como na década anterior, entre as publicações escolhidas um era o Código da
Enfermeira conceitos éticos aplicados à enfermeira do Conselho Internacional de
Enfermeiras e o outro a "nova" Lei do Exercício Profissional da enfermagem: uma
análise crítica, ambos sem resumos.
Houve nesta década uma redução no número de publicação, que de seis passou a
quatro números anuais. Ainda assim, o número de revistas editadas foi menor que
o previsto, levando-nos a supor que a crise econômica que neste período atingiu
o país, tenha também atingido à editoração da REBEn.
Nos anos 90 constata-se a publicação de 40 e, edição de 34 números da revista.
Dos 21 textos selecionados foram analisados 20 artigos, um não tinha resumo, o
que confirma o aumento no número de artigos sobre o tema. Presume-se que esta
elevação seja conseqüência da superação da crise econômica já comentada e que o
aumento expressivo de artigos publicados sobre o tema, cerca de 50%, resulte da
publicação da Resolução 196/96.
A publicação e a edição, de cinco exemplares da REBEn em 2000, sugere a
superação da crise. Neste ano foram selecionados e analisados cinco textos. O
aumento publicações sobre o tema já evidenciado na década anterior se mantém.
O exame das revistas editadas neste período demonstra aumento progressivo do
número de artigos sobre o tema, a cada década, embora em 2000, tenha sido
analisado apenas um ano, esta tendência é melhor visualizada no Tabela a
seguir.
4.1 Análise dos resumos
Das informações qualitativas contidas nos artigos emergiram quatro categorias,
a saber: Categoria 1 dilemas e conflitos éticos associados a assistência
àsaúde,Subcategoria 1.1 assistência, Subcategoria 1.2 reflexões Categoria 2
Deontologia,Categoria 3 formação ética do enfermeiro, eCategoria 4 ética em
pesquisa.
Categoria 1 assistência à saúde, contempla temas relacionados à assistência de
enfermagem propriamente dita e reflexões teóricas sobre a prática. Deste modo,
seu conteúdo foi dividido em duas (02) subcategorias.
Subcategoria 1.1 - assistência e/ou ações de enfermagem, engloba pacientes
terminais ou morte, direitos dos pacientes, doação de órgãos e implicações
éticas da assistência. Esta subcategoria contém trechos sobre "identificar as
intervenções de enfermagem frente ao paciente em morte eminente" (R-1), "as
implicações éticas na assistência ao paciente crítico em (...) eutanásia,
doação de órgãos para transplante" (R-5), "discute o enfrentamento de situações
de conflito ético, presentes no cotidiano de enfermagem" (R-23). Outro recorte
revela o que o autor destaca na ação do profissional junto à família "Ao
trabalharmos com a família precisamos levar em consideração o que a mesma pensa
a respeito de suas funções, pois isto vai direcionar e/ou definir o papel que
ela desempenha no seu cuidado" (R-25).
Percebe-se nos fragmentos que os autores abordam questões da bioética.
Entretanto, não fundamentam seus argumentos, nem fazem referência às teorias
mais reconhecidas, embora alguns de textos sejam recentes. Acredita-se que no
Brasil, o ensino de ética na enfermagem se assemelhe ao da medicina,
restringindo-se ao estudo da deontologia ou aos Códigos de Ética(11).
Subcategoria 1.2 reflexões teóricas sobre a prática social, definição de
responsabilidade e/ou comparação entre valores pessoais e profissionais. Os
recortes revelam as inquietações éticas dos enfermeiros, como o que: "define o
termo responsabilidade no sentido geral" (R-3), outro em que o autor diz: "
(...) consiste em uma reflexão teórica acerca da participação social" (R-19). E
outro acerca das "questões que envolvem a situação de vida e morte" (R-10).
Ainda que em nosso país o ensino de ética careça de estudos sobre as relações
entre a ética e educação / formação profissional(11). Nota-se que entre os
enfermeiros existe interesse pelo tema, e ao refletirem sobre sua prática
provavelmente, surgirão novas respostas às suas inquietações.
Categoria 2 deontologiarefere-se a textos sobre: a "regulamentação e controle
do exercício profissional dos enfermeiros" (R-21), "responsabilidade civil,
penal e ética do enfermeiro à luz da legislação vigente" (R-32), outro "comenta
Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem" (R-6), "compara as legislações
de 16 países da América Latina"(R-16) e ainda "analisa os Códigos de Ética de
1958, 1975 e 1993"(R-18).
A análise revela que os autores iniciaram o debate de questões éticas a partir
da apresentação, comparação, comentários e crítica aos códigos de ética
profissional. Os códigos de ética constituem um importante debate no interior
da Bioética tanto no que diz respeito a seu efeito, ou seja a seu papel na
regulação da conduta dos profissionais quanto no conteúdo, ou o que deve mudar
ao se refletir as questões mais abrangentes. Tais questões referem-se tanto aos
temas do avanço das biotecnologias e seus impactos sobre os seres sencientes e
o ambiente, quanto da revisitação às teorias éticas em suas aplicações a área
da saúde. Isto confirma que particularmente na enfermagem e na medicina os
códigos estimularam as reflexões e o debate sobre problemas de ética biomédico
(3). Porém, evidencia-se a incorporação de uma visão mais crítica e reflexiva
na abordagem da ética, deslocando o foco para além da perspectiva da
deontologia exclusivamente(12).
Categoria 3 formação profissional esta categoria engloba: ensino, cursos,
currículos. Os fragmentos nos mostram preocupação quando: "(...) apresenta
alguns dados históricos do ensino da ética (...) e situa a disciplina Exercício
de Enfermagem" (R-4), "compreender o primeiro contato que os estudantes (...)
tem com a morte na sala de anatomia" (R-29), e "constatar (...) as concepções
de (...) cidadania, compromisso social (...)" (R-27),
Nota-se que os autores abordam aspectos históricos do ensino da ética, do
exercício profissional e outros. Compreendendo que o agir e a prática do
enfermeiro se concretizam na ação exercida sobre aquele que necessita, ou
requer sua presença, proporcionando conforto e bem estar físico, mental e
social e, portanto, deve contemplar a pessoa de forma integral(13). Constata-se
que os responsáveis pela formação preocupam-se em assegurar conteúdos não só
científicos e tecnológicos, mas também relativos à conduta profissional, como
certamente ocorre nas demais áreas da saúde, os conteúdos de ética
frequentemente são repassados por meio de outras matérias consideradas
disciplinas "preferenciais"(12).
Categoria 4 pesquisa este recorte compreende os comitês de ética em pesquisa,
no qual o autor visa "apresentar as Resoluções nacionais que normatizam a área
de pesquisa em seres humanos" e "provocar a reflexão sobre a necessidade de
controle" e "orientar sobre a criação de comitê"(R-26).
Ainda que sobre este tema existisse apenas um artigo, julgamos relevante
apresentá-lo, porque antes da Resolução cabia ao pesquisador aplicar sua
própria ética na pesquisa. E neste sentido, a Res. 196/96 concretiza a
institucionalização do controle ético. Por outro lado, demonstra o interesse
dos editores em estimular a formação de opinião e não apenas divulgar
informações aos assinantes.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se afirmar que os objetivos foram atingidos, embora não se tenha discutido
as perspectivas teóricas nas quais os autores fundamentam suas argumentações,
porque estas não emergiram dos textos.
Constata-se o aumento gradativo no número de artigos que debatem
questionamentos éticos, nos últimos 30 anos, com maior concentração na década
de 90, totalizando 44 artigos publicados. Até o inicio dos anos 80 as
publicações tinham o propósito de apresentar os códigos de ética ou mesmo
compará-los.
Após 1984 surge o primeiro estudo, com conotação bioética, neste trabalho o
autor discorre sobre as intervenções de enfermagem frente ao paciente em morte
iminente, com a finalidade de verificar as relações entre os valores pessoais e
profissionais do enfermeiro.
O termo bioética, contudo, só viria a ser empregado em 1998, por Valéria
Lunardi no título de seu artigo "Bioética aplicada à assistência de enfermagem"
onde "discute o enfrentamento de situações de conflito ético, presentes no
cotidiano da enfermagem".
Dentre os temas discutidos sobressai a temática assistencial com abordagens
sobre as ações de enfermagem relativas a pacientes terminais ou morte, direitos
dos pacientes, doação de órgãos, implicações éticas e significativos textos
onde os autores fazem reflexões teóricas sobre a prática social, definição de
responsabilidade e/ou comparação entre valores pessoais e profissionais.
A seguir destaca-se a deontologia com textos sobre: legislação, exercício
profissional. Outro tema debatido pelos pesquisadores foi a formação
profissional, com aspectos históricos do ensino da ética e do exercício
profissional. Salienta-se finalmente, o texto sobre o Comitê de Ética em
Pesquisa, visto que o artigo ressalta a importância da reflexão sobre a
necessidade de controle em pesquisa, neste sentido, a Res. 196/96 concretiza a
institucionalização do controle ético e ainda pretende, orientar os leitores
sobre a criação dos Comitês.
Um aspecto já assinalado na seção Método, diz respeito à conservação do
material bibliográfico. Não pretendemos aqui julgar os responsáveis por tal
situação, apenas consideramos importante divulgar que este acervo documental
que guarda a história do cuidado da profissão de enfermagem, uma preciosidade
para nós, e não totalmente armazenado em meio eletrônico, está sendo destruído.
A conservação deste material deve ser desejada para seu compartilhamento quer
com profissionais da área de saúde ou com os demais membros da sociedade.
Esta evidência nos leva a presumir que os usuários das bibliotecas talvez se
esqueçam que estas guardam tesouros do conhecimento inestimáveis, acumulados
durante anos a fio. Por outro lado, imagina-se, quem usa este acervo têm algum
interesse pelo saber ali guardado. Pois, os materiais ali preservado, quer
seja, livro, periódico científico ou documentos não são facilmente encontrados
em outros locais.
No entanto, constatou-se que "misteriosamente" inúmeros artigos, e por vezes, o
número inteiro de um periódico simplesmente "desapareceu" da biblioteca,
situação esta nos suscitou outros questionamentos. Como e porque isto ocorre? A
quem cabe a responsabilidade pela preservação deste acervo? Que valor damos à
memória da profissão? Que valores transmitimos aos novos profissionais? Neste
momento, deixamos esta reflexão em aberto, pois, não é nossa intenção
investigar tal problema. Contudo, consideramos inadmissível omitir tal fato.