Humanização hospitalar: satisfação dos profissionais de um hospital pediátrico
PESQUISA1. INTRODUÇÃO
O humanismo deve ser a tônica da assistência à saúde, mas essa característica
do cuidar foi perdendo ênfase no hospital, sendo resgatada em nosso atual
sistema de saúde.
A partir do trabalho desenvolvido em um centro municipal de assistência à
criança, aflorou em nós uma inquietação interior para desenvolver uma
assistência humanizada. Realizou-se neste estudo uma avaliação da satisfação
profissional quanto à assistência humanizada. Nesta perspectiva, o profissional
de saúde deve proporcionar uma assistência adequada à criança hospitalizada,
sendo necessário que esteja satisfeito na realização das suas atividades no
trabalho.
A hospitalização realiza-se, normalmente, numa atmosfera de tensão e
insegurança para a criança e seus acompanhantes, acarretando outras situações
desagradáveis: novos horários, exames dolorosos, afastamento do ambiente
familiar, abandono da atividade escolar, falta de estímulos sociais, dentre
outras alterações no cotidiano das crianças e familiares. Essas modificações
podem ocasionar agitação, gritos, choros, retrocesso, regressão, depressão,
ausência no controle dos esfíncteres, entre outros(1).
Portanto, para minimizar ou evitar os traumas da hospitalização, o ambiente
hospitalar para as crianças não pode se limitar ao leito, devendo a unidade
pediátrica fornecer condições que atendam às necessidades físicas, emocionais,
culturais, sociais, educacionais e de desenvolvimento da criança. Daí, a
necessidade de criar um ambiente recreativo, contendo livros, jogos e
brinquedos seguros para estimular a auto-expressão da criança. Além disso, é
necessário que os profissionais que assistem essas crianças estejam satisfeitos
com suas condições de trabalho, fornecendo um atendimento humanizado às
crianças e seus acompanhantes, reduzindo o período de hospitalização e os
traumas decorrentes do mesmo.
Essa dinâmica se evidencia pela atual tendência de introdução de práticas de
humanização nos centros de atendimento à saúde, na qual o Ministério da Saúde
lançou em 2000, oPrograma Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar
(PNHAH), que busca melhorias na instituição hospitalar e na formação
educacional de seus profissionais, com o objetivo fundamental de aprimorar as
relações entre profissional de saúde e usuário, dos profissionais entre si, e
do hospital com a comunidade, apontando, portanto, para uma requalificação dos
hospitais públicos, que poderão se tornar mais modernos, dinâmicos e
solidários, atendendo às expectativas de seus gestores e comunidade(2).
Esse movimento gera a necessidade de uma reflexão profunda e consistente sobre
o tema. Diante dessas considerações, objetivou-se avaliar a satisfação dos
profissionais de um hospital de pediatria da rede municipal de Fortaleza quanto
à humanização do atendimento hospitalar, segundo o Programa Nacional de
Humanização da Assistência Hospitalar preconizado pelo Ministério da Saúde. E
de forma específica: 1) investigar a satisfação dos profissionais quanto à
humanização do atendimento hospitalar, enfocando os relacionamentos
interpessoais, condições de trabalho e ambiente hospitalar; 2) averiguar a
valorização e motivação dos profissionais de um hospital de pediatria; e 3)
descrever as sugestões dos profissionais para melhoria da assistência à criança
no ambiente hospitalar.
2. CAMINHO METODOLÓGICO
O estudo descritivo, com análise predominantemente quantitativa, foi
desenvolvido em um centro municipal de assistência à criança, de Fortaleza-CE,
no qual uma das pesquisadoras trabalha há três anos. O referido hospital existe
há 26 anos e atende crianças e adolescentes, funcionando 24 horas diárias.
A população foi constituída pelos 229 profissionais que trabalham no hospital,
envolvendo médicos (pediatra, gastroenterologista pediátrico, cardiologista),
enfermeiros, fisioterapeutas, terapeuta ocupacional, assistentes sociais,
nutricionistas, farmacêuticos, bioquímicos, auxiliares de enfermagem, agentes
administrativos, administrador, porteiros, vigias, serventes, copeiras,
atendentes, secretárias, motoristas e radiologistas.
A amostra foi composta por 38 desses profissionais, incluindo nível médio e
superior, que aceitaram participar do estudo, com anuência em termo de
consentimento. Os demais profissionais se omitiram a responder o questionário,
sendo excluídos do estudo.
A coleta de dados ocorreu com a utilização de questionário elaborado pelo
Comitê Técnico de Humanização do Ministério da Saúde com a adequação de algumas
questões aos objetivos do estudo. O questionário foi entregue individualmente,
devendo ser devolvido em até três dias.
Os questionários foram numerados e anônimos, permitindo que os profissionais
pudessem expressar suas opiniões de forma livre, espontânea e sem
constrangimentos. Continham na primeira página, a finalidade da pesquisa, as
instruções da forma de responder e reafirmavam a confidencialidade dos dados. A
partir da segunda página iniciava o questionário propriamente dito, subdivido
em categorias, com itens de múltipla escolha. Além de um espaço destinado para
o profissional expor sugestões à humanização do serviço.
Os dados objetivos foram apresentados em quadros e os subjetivos agrupados
segundo as similaridades surgidas, tendo sido fundamentados na literatura
pertinente.
Para atender os aspectos éticos da Resolução 196/96, do Conselho Nacional de
Saúde(3), obteve-se a autorização da diretoria do serviço para a realização do
estudo, os participantes foram informados sobre os objetivos estabelecidos e
assinaram termo de consentimento, concordando em participar da pesquisa, sendo-
lhes garantido o anonimato na divulgação das informações. Os participantes que
forneceram sugestões para humanizar o hospital, foram identificados pela letra
"P" que indica profissional, seguido de um número.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Caracterização dos profissionais
Inicialmente, foi realizada uma abordagem do perfil dos 38 profissionais do
estudo, retratando suas principais características sócio-demográficas.
Em relação ao sexo, constata-se que dos 38 profissionais que participaram do
estudo, 32 (84,2%) são do sexo feminino e seis (15,8%) do masculino. Este
resultado pode ser decorrente de se tratar de hospital pediátrico, revelando
maior afinidade das mulheres pela clientela infantil.
Quanto à faixa etária, variou de 22 a 53 anos, havendo predominância de 14
profissionais (36,9%) na faixa etária de 40 a 50 anos, seguidos de 30 a 40
anos, com 11 pessoas (28,9%). Isto já era esperado, tendo em vista que, como se
trata de um hospital municipal, comumente a admissão profissional se dá por
concurso público. Os profissionais de nível superior concluem o curso de
graduação, comumente, em torno de 20 a 23 anos de idade e trabalham nesse
hospital há pelo menos três anos, favorecendo a apresentação de idade mais
avançada.
Dentre os 38 participantes, 19 (50%) já concluíram ensino superior, sendo cinco
médicos (dois na diretoria), três enfermeiras e 11 profissionais entre
assistente social, nutricionista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e
economista doméstica (ouvidora hospitalar). Dentre estes, 13 (68,4%) realizaram
pós-graduação (especialização e até mesmo mestrado). Estes dados podem ser
decorrentes do crescente aumento dos cursos de pós-graduação no Brasil,
demonstrando necessidade de melhor qualificação para o mercado de trabalho,
especialmente no cuidado de crianças e adolescentes, por ser um grupo
específico que exige habilidade técnica e psicológica. Entretanto, outros 19
(50%) profissionais de funções auxiliares, administrativas e de serviços gerais
limitaram-se ao nível médio e/ou ensino fundamental, dificultando a compreensão
e a execução de uma assistência humanizada.
Como se trata de um hospital municipal, a principal forma de admissão do
funcionário é por concurso público (estatutário), encontrando-se nesta
categoria 22 (57,9%) profissionais. Há também contratos de terceirizados e dois
(5,2%) profissionais antigos são contratados pelo Código de Legislação
Trabalhista (CLT). Com isso, o tempo de trabalho no hospital varia de meses até
mais de 10 anos, havendo predominância dos profissionais que trabalham há mais
de 5 anos no referido serviço (60,6%). Esta característica favorece a criação
do vínculo e da interação interprofissional, mas pode gerar a acomodação e
resistência a mudanças.
Quadros_1 e 2
3.2 Satisfação dos profissionais quanto aos relacionamentos interpessoais e
ambiente hospitalar
Nesta categoria estão expostos os dados relativos às interações entre gestores
e demais profissionais, condições de trabalho, assistência prestada, ambiente
de trabalho, dentre outros aspectos relevantes ao favorecimento da satisfação
profissional em suas atividades laborais.
Discutiremos a seguir as subcategorias da categoria interação entre a gestão
hospitalar e os demais profissionais:
- Discussões internas para avaliar a qualidade do serviço - 33 participantes
confirmaram este item. Enquanto cinco disseram nunca terem participado dessas
discussões e não saberem de sua existência.
- Oportunidade de sugerir melhoria no serviço - é importante destacar que
embora cinco pessoas relatassem não haver discussões internas para avaliar a
qualidade do serviço, somente um profissional afirmou não ter oportunidade de
sugerir melhoria ao serviço.
- Consideração das sugestões dos profissionais na tomada de decisões - foi
unânime por parte dos participantes que as chefias e direção hospitales
consideram as sugestões dos funcionários para a tomada de decisões. Embora nem
sempre seja possível acatar todas as sugestões, é dada a elas a devida
importância, desde que sejam pertinentes e proporcionem melhoria da satisfação
dos profissionais e da assistência aos usuários.
- Divergências e conflitos são administrados adequadamente pela chefia - 37
profissionais consideram que há uma boa administração, a qual busca controlar
as divergências entre profissionais e usuários.
- Normas do hospital são aplicadas uniformemente aos profissionais - nesta
subcategoria houve grande divergência de opiniões, sendo que 23 pessoas
consideram que as normas são diferenciadas conforme a profissão/cargo ocupado
no hospital. Um profissional descreveu: "Somente os `peão' seguem as normas
aqui, porque os doutores fazem o que querem e ninguém diz nada. E quando é um
peão que quebra a norma é punido".
Quanto a esta categoria será notificada à direção do hospital para que sejam
tomadas as providências cabíveis, até mesmo com criação de novas normas e
revisão das existentes, possibilitando o cumprimento por todos.
· Ambiente confortável - ao serem questionados sobre o ambiente de trabalho,
constatou-se que 15 profissionais consideram o hospital confortável para
exercerem suas funções, 13 consideram regular, podendo melhorar a qualidade do
ambiente de trabalho, e 10 pessoas classificaram o ambiente como
desconfortável. Humanizar a arquitetura do hospital é a arte de adaptar sua
construção ao atendimento das necessidades práticas e expressivas das crianças,
acompanhantes, visitantes e funcionários. Seu objetivo é a criação de um
adequado ambiente físico que favoreça o desenvolvimento do trabalho e contribua
na recuperação do paciente, aliviando o seu desconforto físico ou o seu
distúrbio mental, por meio de expedientes arquitetônicos(4).
- Segurança no trabalho - somente 11 consideram o hospital seguro para
trabalhar, enquanto 27 afirmam que o hospital não oferece segurança adequada ao
profissional, visto que há somente porteiros e vigias, mas não há seguranças
para atuarem em caso de agressão. Há relatos que no serviço houve várias
agressões físicas e verbais de pais com porteiro, vigia, auxiliares de
enfermagem, enfermeira e assistente social. E a direção do hospital não tomou
providências para solucionar estas intercorrências.
- Equipamentos e materiais de trabalho - 20 participantes do estudo consideram
os equipamentos hospitales adequados para a realização dos procedimentos,
enquanto 18 não estão satisfeitos com estes equipamentos.
- Higiene do ambiente - 26 profissionais consideram o hospital higienizado e 12
opinaram que a limpeza do hospital deve melhorar. Este aspecto merece atenção
especial, pois se trata de um hospital pediátrico em que os principais
atendimentos são infecções respiratórias, genito-urinárias, e gastro-
intestinais, comumente associadas a evacuações diarréicas e vômitos,
intercorrências que favorecem a sujidade hospitalar, requisitando, portanto,
constante limpeza. É necessário maior quantitativo de funcionários dos serviços
gerais, devendo os mesmos serem treinados pela equipe da Comissão de Controle
de Infecção Hospital (CCIH), que se encontra atualmente inativa, pois a equipe
anterior renunciou o cargo e a direção ainda não providenciou outra.
- Salário - este fator é bastante delicado para discutir, tendo em vista que
uma das características inerentes do ser humano é sempre querer algo mais.
Portanto, somente oito pessoas se mostraram satisfeitas com sua remuneração e
30 consideraram ganhar insuficientemente para as atividades executadas.
- Meio de transporte do hospital - quatro pessoas consideram que o hospital
possui meios de transporte adequados e satisfatórios para atender às
necessidades do hospital e sete afirmam que existe precariamente. Este quesito
pode ter sido interpretado erroneamente pelos participantes do estudo, visto
que 27 relataram que o hospital não possui transporte ou que não se aplica para
o seu caso. Porém, ao avaliar o hospital detectou-se que há uma ambulância para
transferências de crianças graves para outro hospital com encaminhamento médico
e autorização da assistente social, e um utilitário para resolver assuntos
técnicos e administrativos do hospital, considerado adequado para as atividades
exercidas no hospital, que é de pequeno porte.
- Estacionamento - todos são unânimes em afirmar a existência de um
estacionamento no hospital, sendo que 22 pessoas o consideram precário e 18
satisfatório. O hospital possui amplo estacionamento, com cinco vagas cobertas,
destinadas à direção do hospital. As demais ficam no sol e não comportam o
número de carros dos funcionários em serviço.
- Refeitório - no hospital há um refeitório amplo, considerado pela maioria
(34) como satisfatório. O serviço de nutrição e dietética contribui para a
humanização hospitalar, visto que o nutricionista ocupa papel fundamental nas
vidas dos funcionários, por utilizar tal ciência para ajudar as pessoas a se
alimentarem melhor, proporcionando saúde, bem-estar e qualidade de vida.
Quadro_3
- Área de descanso - este aspecto varia de acordo com o profissional
respondente, pois há funcionários que atuam no setor administrativo e não
possuem área de descanso, pois só trabalham no período diurno. Então há 18
profissionais sem área de repouso e outros 18 com essa área, sendo que nove se
mostraram satisfeitos e nove não. O sono é uma função protetora em todos os
organismos, que permite a reparação e a recuperação dos tecidos após atividades
(1). Daí, a necessidade de um ambiente adequado ao repouso dos funcionários, em
especial dos que trabalham no horário noturno.
- Atividades recreativas e/ou sociais para os profissionais - a maioria (28)
afirma não haver atividades recreativas, nem sociais para os profissionais.
Este aspecto, já vem sendo modificado com as atividades promovidas pela criação
da Educação Continuada, que já realizou oficinas de tapeçaria, pintura, crochê,
fuxico de tecido, dentre outras.
- Programas psicossociais para equipe - 36 profissionais afirmam que não existe
este tipo de programa no hospital para os funcionários ou usuários.
- Treinamentos para o aprimoramento dos profissionais - com a criação da
Educação Continuada em agosto de 2003 são percebidos resultados positivos em
treinamentos e reciclagem profissionais, pois 18 pessoas citam sua realização
no hospital, embora em fase de aprimoramento. Mas, como esse processo é
recente, ainda não contemplou todos os setores. Dentre os treinamentos, há
destaque especial para melhoria do relacionamento entre usuários e familiares,
visando inserir neste hospital a humanização hospitalar.
A Educação Continuada é um processo permanente de treinamento, aperfeiçoamento
e atualização profissional, visando atender necessidades do serviço e promover
elevado padrão de assistência, sob o ponto de vista humano, técnico-científico
e ético. Assim, os membros da Educação Continuada promovem treinamentos para os
funcionários relacionados à saúde da criança e atendimento humanizado de
qualidade, favorecendo a criação e manutenção de um clima harmonioso, propício
para satisfação do profissional e recuperação da criança.
- Rapidez e agilidade no atendimento - 11 consideraram este aspecto
satisfatório e 24 afirmaram sua precariedade ou inexistência. Isto chama a
atenção, pois há uma longa fila de espera para o atendimento do usuário devido
à grande demanda, sendo esta uma atividade essencial para humanização
hospitalar.
- Sistema eficiente de marcação de consulta, retornos e exames laboratoriais -
16 mostraram-se satisfeitos. Entretanto, trata-se de um hospital secundário,
que atende prioritariamente emergência pediátrica. As marcações de consultas
são para cardiologista, gastroenterologista, fisioterapia, terapia ocupacional
e programa da asma, marcados no serviço de atendimento médico e estatístico
(SAME) para a data mais próxima possível. Quanto aos exames laboratoriais, há
maior número (31) de satisfação, pois os exames de urgência são realizados
imediatamente e os resultados saem no menor espaço de tempo possível (horas
após), e os de rotina são agendados sem grandes esperas e os resultados,
dependendo da demanda diária de atendimentos, saem no dia seguinte.
- Identificação dos profissionais - 11 assinalaram que existe uma identificação
satisfatória dos profissionais, enquanto 27 consideram precária ou inexistente.
Isto ocorre, devido à identificação de alguns profissionais e outros não. Os
seguintes profissionais possuem jalecos coloridos contendo nome e profissão:
enfermeira (verde), auxiliar de enfermagem (branco), médico (bege), assistente
social (salmon), atendentes da recepção (amarelo), fisioterapeuta e terapeuta
ocupacional (azul). Os profissionais da farmácia possuem outro tipo de
fardamento e os demais profissionais não possuem fardamento específico, nem
mesmo crachá de identificação. Este aspecto já foi levantado e a direção se
responsabilizou na resolução deste problema.
- Boa comunicação entre os profissionais e os usuários - 19 profissionais
assinalaram que existe satisfatoriamente esta comunicação. Este aspecto é de
extrema relevância, pois a comunicação é o meio de transmitir informações e
orientações essenciais ao bom atendimento. Observa-se escassez dos mecanismos
de comunicação/integração, sendo necessários criar meios que a favoreçam no
hospital. Há autores(5) que corroboram com essa assertiva ao afirmarem ser
essencial para uma humanização da prática médica, uma relação paciente-médico
harmoniosa, contemplando o ser de forma holística.
O processo de humanização deve cuidar da montagem de espaços comunicativos que
permitam a circulação de temas de interesse para os coletivos dos hospitais,
favorecendo o laço social e a troca das experiências significativas de cada um
no mundo vivido do trabalho(2,6).
Quadros_4 e 5
- Confiança entre as pessoas dos setores - todos afirmaram que há confiança
entre as pessoas no hospital, mas seu grau é variável conforme o setor e a
percepção pessoal.
- Privacidade e confidencialidade - quanto a este aspecto, 26 pessoas relataram
existir privacidade no serviço, sendo que 13 a consideraram satisfatória e
outros 13 acharam que ela deve melhorar. Houve, ainda, oito profissionais que
referiram a inexistência de privacidade e confidencialidade no trabalho para
profissionais, crianças e acompanhantes.
- Ambiente de espera confortável - 25 pessoas referiram existir um ambiente em
que os usuários permanecem enquanto aguardam o atendimento, que ocorre conforme
a ordem de chegada ou prioridade de atendimento (convulsão, dispnéia intensa,
hipertermia). Entretanto, 13 profissionais não consideram este ambiente
adequado à espera, por isso opinaram que ele inexiste, sugerindo a criação de
uma sala de espera para esta finalidade, contendo materiais lúdicos e
educativos às crianças e palestras aos acompanhantes.
- Aparência do hospital - 20 profissionais assinalaram que este quesito é
satisfatório, enquanto 18 opinaram que é precária. É necessário observar a
decoração e ambientação dos espaços. Em especial, nas cores das roupas de cama
e na pintura das paredes e móveis. A presença de ambientes com músicas,
jardins, salas de estar e leitura, televisão favorecem a recuperação do
paciente. Tudo isso, influi na saúde mental do profissional e usuário,
comprovando que a arte e a ciência proporcionam grande evolução nos conceitos
de saúde. Assim, como os aromas dos produtos de limpeza, que precisam ser o
mais neutro possível, evitando desconfortos(4).
- Sinalização das salas - 29 pessoas afirmaram que existe sinalização, sendo
que, dentre estes, 19 consideram satisfatório e 10 insatisfatório. Outras nove
pessoas assinalaram que não existe sinalização nas salas. Este quesito é
fundamental para que o usuário localize mais facilmente os setores que
necessita utilizar. A sinalização em pontos estratégicos é aspecto valioso para
a humanização, pois permite orientações de espaço aos usuários e visitantes. Os
postos de informação e painéis indicativos compõem uma estrutura humanizada,
permitindo o acesso a locais e pessoas, além de garantir igual privacidade ao
usuário, de forma que esta não seja violada quando este assim desejar(7).
Portanto, será planejado, juntamente com a direção do hospital, a sinalização
das salas e setores com o intuito de facilitar o acesso dos usuários no
hospital.
- Instalações físicas adequadas - 20 sujeitos responderam que há
satisfatoriamente, 16 há precariamente e dois não souberam responder. Este
quesito está relacionado com a recepção, consultórios, enfermarias, banheiros,
corredores, repouso, dentre outras. Embora a maioria tenha respondido que as
instalações físicas são adequadas, considera-se necessária uma melhoria nessas
instalações, pois a clientela atendida no hospital aumenta a cada dia e essas
já se tornaram inadequadas para a demanda populacional do serviço.
- Equipamentos funcionando adequadamente Dentre os equipamentos existentes no
hospital, 26 pessoas consideram que há funcionamento satisfatório, enquanto
nove afirmaram ser precários e três optaram por não responder.
- Oferta de informações sobre prevenção e educação em saúde Þ a maioria (21)
respondeu que as orientações sobre prevenção de doenças ofertadas aos usuários
no hospital são mínimas ou inexistentes. Deve-se refletir sobre este
quantitativo, tendo em vista que se trata de um hospital público que atende
crianças carentes com doenças decorrentes da falta de higiene corporal ou
domiciliar (verminose, escabiose e miíase). Portanto, é fundamental a
realização de oficinas educativas para as crianças e acompanhantes, com enfoque
nas principais patologias diagnosticadas no hospital, pois somente por meio da
adoção de medidas preventivas é que será possível a redução do número de
atendimento e internamento de crianças por essas doenças.
Quanto à valorização profissional pela direção hospitalar, 34 pessoas
reconheceram a valorização de suas atividades profissionais e quatro não o
fizeram. Do total, 30 profissionais relataram serem recompensados pelas
atividades realizadas em benefício do hospital e atendimento às crianças. A
maioria (37) relatou motivação para continuar trabalhando e foi unânime a
afirmação de realização pessoal no trabalho, mesmo que eventualmente.
3.4. Sugestões dos profissionais para humanizar o hospital
Os profissionais sugeriram realização de treinamentos para melhorar a qualidade
do atendimento às crianças hospitalizadas. Expostas a seguir:
Acho que deve-se esclarecer o que é humanização hospitalar, por meio
de palestras, informativos, etc. (P6)
O primeiro passo é descobrirmos o nosso lado humano, pois alguns
profissionais ainda não sabem o que é ser humano. Daí, podemos
desenvolver nossa cultura humana... o hospital deve oferecer cursos
de aperfeiçoamento em educação em saúde e outros assuntos que venham
integrar a nossa área. (P12)
Fazer pelo menos uma vez por mês reuniões, não só com os chefes, mas
com a equipe de apoio, ou seja os funcionários de todas as áreas que
levantam este hospital, indiretamente. Para expor suas dificuldades
de trabalho, dar sugestões para melhor funcionamento, e debater
objetivos em comum para uma convivência saudável. (P10)
Treinar os profissionais com o objetivo de humanizar a assistência,
providenciar recursos materiais e proporcionar a integração de todos
por meio de eventos dentro do próprio ambiente hospitalar, ou até
mesmo fora, como passeios, treinamentos... (P13)
Estes depoimentos retratam a necessidade que os profissionais têm de interagir
com os demais profissionais do hospital e ressaltam a importância de realizar
cursos de atualização. Diante desta necessidade expressa pelos profissionais,
pretende-se promover cursos em parceria com os Pólos de Capacitação e Educação
Permanentedo Ministério da Saúde.
Outros profissionais enfatizaram a questão do ambiente hospitalar, interação
entre os profissionais e salário, observado nos seguintes depoimentos:
Providenciar um espaço adequado para realização de procedimentos,
número de funcionário compatível com a demanda, motivação dos
profissionais, investir no relacionamento interpessoal. (P20)
Mais funcionários, aumento do hospital, melhor salário,
companheirismo da equipe... (P21)
Essas sugestões são pertinentes, pois o número de atendimento no hospital vem
crescendo consideravelmente e a estrutura hospitalar já não comporta o
quantitativo de crianças hospitalizadas, necessitando, também, de um maior
número de profissionais. Outros valorizaram mais a qualidade do atendimento à
criança, conforme exposto:
Triagem médica no pronto atendimento para detectar casos
ambulatoriais e graves e dar encaminhamento adequado, evitando longas
permanência na sala de espera; Critérios para manutenção dos
pacientes na emergência (em observação) evitando permanência
desnecessária; Correto preenchimento dos prontuários e espaço para
recreação (mães, acompanhante e profissionais).(P3)
Oferecer lanche (caldo) na sala de espera para crianças e
acompanhantes quando a demanda estiver grande; ter um profissional
para fazer triagem; e recreação para crianças internadas. (P22)
Percebe-se que alguns profissionais estão sensibilizados quanto à necessidade
de uma assistência humanizada às crianças e seus acompanhantes, pois se trata
de um hospital, cuja clientela pertence à classe econômica baixa, onde muitos
não possuem dinheiro sequer para comprar um lanche durante a espera do
atendimento.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo facilitou a compreensão da satisfação profissional no serviço,
possibilitando a atuação sobre os pontos negativos apresentados e a
intensificação dos pontos positivos. O conhecimento dessa realidade pode
contribuir com inovações na prática assistencial, voltada às reais necessidades
dos usuários, além de assegurar condições ao profissional, de ocupar seu espaço
imprescindível na assistência humanizada ao paciente no ambiente hospitalar.
Detectou-se interação entre a gestão hospitalar e os profissionais, pelas
discussões na avaliação do serviço, sendo consideradas suas sugestões na tomada
de decisões.
O ambiente foi considerado confortável, mas passível de melhora. O
estacionamento foi considerado precário e o refeitório adequado, porém
solicitam a melhoria das refeições. As áreas de descanso foram adequadas ou
inexistentes, variando conforme o setor.
As condições de apoio profissional são vistas como necessitando de
aperfeiçoamento, pois inexiste um programa psicossocial para os profissionais e
treinamentos para seu aprimoramento pessoal e profissional são eventualmente
realizados, melhorando com a criação da Educação.
Em relação à segurança, constatou-se sua inadequação, visto que há somente
porteiros e vigias, mas que não há seguranças para atuarem em caso de agressão.
Na qualidade do serviço prestado, foi referido morosidade no atendimento aos
usuários, decorrente da elevada demanda de atendimentos. A privacidade e
confidencialidade foram ditas preservadas nos atendimentos às crianças,
havendo, entretanto, sugestão de criação de ambiente destinado a realização de
exame e procedimentos constrangedores.
O ambiente de espera do paciente foi considerado amplo e arejado, sendo
sugerida criação de uma sala de espera com materiais lúdicos e educativos para
as crianças e palestras para os acompanhantes. A aparência do hospital foi
considerada satisfatória pela maioria, mas 47% opinaram ser necessário reformar
o hospital, pois se trata de um serviço de pediatria e não há uma estrutura
apropriada ao atendimento desta clientela, pois inexiste uma área de recreação,
favorecendo que as crianças permaneçam acamadas, assistindo televisão. Faz-se
necessário que os gestores municipais tomem providencias na melhoria da
estrutura física hospitalar, pois trata-se do único hospital municipal
pediátrico de Fortaleza.
A maioria dos participantes relatou não ser realizado educação em saúde no
serviço, o que merece reflexões, pois o hospital atende crianças carentes com
doenças decorrentes muitas vezes da falta de higiene corporal ou domiciliar,
tais como verminose, escabiose e miíase. Portanto, é fundamental o enfoque
educativo na abordagem e tratamento infantil, pois somente por meio da adoção
de medidas preventivas será possível a redução do número de atendimento e
internamento de crianças por essas doenças.
Em relação à valorização do trabalho e motivação profissional, a maioria
reconhece que suas atividades profissionais são valorizadas, sendo unânime a
realização pessoal no trabalho, ainda que eventualmente. Este fator é positivo,
para a execução satisfatória das atividades profissionais, pois o êxito no
trabalho depende da vontade e prazer de quem faz.
Faz-se necessário maior empenho dos profissionais e população na tentativa de
mobilizar e conscientizar mais pessoas à humanização hospitalar. Os hospitais
devem formar comissões de humanização e grupos de trabalho para humanização
hospitalar, com focos nos funcionários, usuários e acompanhantes, melhorando a
satisfação dos profissionais e possibilitando um atendimento de qualidade aos
usuários. Entretanto, este programa depende, também, da vontade política dos
dirigentes em participar de ações efetivas e permanentes de transformação da
realidade hospitalar, reconhecendo-se seu caráter processual.
É necessário que outros hospitais avaliem a satisfação dos seus profissionais e
usuários, visando melhorar o atendimento nos serviços públicos.
Ressalta-se que o caminho a trilhar é longo e tortuoso, mas todo esse esforço
será insignificante diante da satisfação de prestar uma assistência humanizada
às crianças, com a retribuição de um sorriso.