O enfermeiro e a construção da autonomia profissional no processo de cuidar
REFLEXÃO
O enfermeiro e a construção da autonomia profissional no processo de cuidar
The nurse and the construction of professional autonomy in the care process
El enfermero y la construción de autonomía profesional en el proceso de cuidar
Flora Marta Giglio BuenoI; Marcos de Souza QueirozII
IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Ouvidora do Hospital de Clínicas da UNICAMP
IIAntropólogo. Doutor em Sociologia pela Universidade de Manchester,
Inglaterra. Pesquisador do Centro de Memória da UNICAMP. Professor credenciado
da Pós-Graduação em Enfermagem da FCM/UNICAMP
1. INTRODUÇÃO
Este artigo tem por objetivo estudar, sob um ponto de vista sociológico, a
profissão de enfermagem a partir de questionários e entrevistas realizadas com
59 enfermeiros assistenciais, de unidades de internação, unidades ambulatoriais
e de pronto-socorro, que atuam com vínculo empregatício no Hospital de Clínicas
da UNICAMP (HC-Unicamp). O método utilizado foi essencialmente qualitativo,
ainda que tenha sido utilizado estatística no tratamento dos dados. O período
de coleta foi de junho a dezembro/2001.
O HC-Unicamp, um hospital público estadual universitário da cidade de Campinas
é um hospital geral especializado, considerado um centro de excelência médica,
de complexidade terciária, de referência para o SUS Sistema Único de Saúde, de
nível regional, porém presta atendimento a outras regiões adjacentes e a outros
Estados. A pesquisa de campo efetuou-se após a aprovação do Comitê de Ética em
Pesquisa da FCM/UNICAMP e anuência da Superintendência e Diretoria do
Departamento de Enfermagem do Hospital de Clínicas da UNICAMP .
O objetivo maior desse estudo é, a partir de uma pesquisa empírica, qualitativa
e exploratória, contribuir para o desenvolvimento de um campo de estudos que
apenas recentemente tem despertado algum interesse entre pesquisadores
brasileiros, que é o campo da sociologia das profissões, em geral, e da
enfermagem, em particular. Trata-se de um âmbito complexo que, para se
consolidar dentro das Ciências Sociais, além de pesquisas empíricas adicionais,
exigirá uma considerável concentração de esforços para resolver suas principais
questões de ordem teórica.
O estudo sociológico das profissões na área da saúde tem contemplado
principalmente a Medicina, que contempla alguns clássicos como, por exemplo, a
obra de Freidson(1). Para este autor, uma profissão distingue-se em relação a
outras ocupações menores no que se refere à autonomia organizada e legitimada
em seu poder. Tal autonomia confere à profissão um monopólio ocupacional que
assegura uma posição de dominância no interior de um processo de divisão de
trabalho. Esta autonomia é, para ele, baseada em dois princípios fundamentais:
o conhecimento teórico reconhecido e protegido pelo Estado e o apoio das
elites.
Apesar de procurar as causas da organização médica na estrutura social,
Freidson(1) não chega a tocar em questões cruciais, tais como, a natureza das
elites por ele mencionada, o relacionamento da profissão com o Estado, e os
interesses econômicos, sociais e políticos que sus-tentam o apoio dado pelo
Estado. Este lapso deixou uma margem generosa para a crítica desenvolvida
principalmente por autores marxistas. A grande virtude de Friedson foi a sua
descrição e análise interna à profissão médica, dando uma contribuição decisiva
para a dimensionalização desse campo de estudos.
A produção marxista moderna na área da saúde é importante principalmente pelo
seu esforço de prover uma teoria que estabeleça uma conexão desta área com a
sociedade mais ampla. Com este propósito, Wright(2) situa a profissão médica
dentro da estrutura de classe da sociedade capitalista. Ao enfatizar esse
ponto, este autor critica vários estudos realizados sobre a divisão do trabalho
na área da saúde que, por não se preocuparem com esse aspecto, confundem
ocupações com classes.
Johnson(3), enfatiza que, no capitalismo monopolista, o capital é transformado
em processo de trabalho através de mecanismos comple-xos de controle produtivo.
Os agentes que preenchem as funções da acumulação de capital podem ser
identificados como parte da nova classe média, na medida em que ela expressa
tanto a função e realização do capital como a de trabalho. As várias ocupações
na área da saúde hierarquicamente subordinadas aos médicos têm pouca autonomia
na performance de seu trabalho e podem ser identificadas como parte da classe
proletária, independentemente da condição de ser produtiva ou não. Este autor
analisa ainda a reprodução do sistema produtivo nas esferas política e
ideológica empreendida principalmente pelo Estado e pelas "profissões"
(envolvendo as áreas da saúde, educação, ciência e tecnologia). Portanto, a
reprodução do sistema produtivo, principalmente no que diz respeito à
reprodução da força de trabalho provê a base teórica para a autonomia da
medicina e seu papel dominante no processo de trabalho na área da saúde.
Willis(4) enfatiza esse ponto, salientando que a base fundamental para a
autonomia da profissão médica deve ser explicada basicamente pelo
relacionamento da profissão médica com o Estado. Nesse caso, o papel do médico
resume-se em ser capaz de estruturar e organizar o processo de trabalho na
saúde, sendo que este direito corresponde à contra-partida concedida pelo
Estado para que a medicina continue exercendo o seu importante papel no
controle da força de trabalho e na reprodução de valores fundamentais para a
manutenção do sistema produtivo como, por exemplo, a visão individualista da
doença e da cura e as soluções baseadas em tecnologia industrial.
Portanto, a profissão médica assume, na visão deste autor, um monopólio de
geração de definições, de práticas e de serviços na medida em que estes
coincidem com o interesse oficial. A medicina torna-se, assim, uma instituição
importante de manutenção da ordem e de controle social.
Analisando as ocupações e profissões diante da organização capitalista de
produção, Braverman(5) conclui que a perda da autonomia no processo produtivo é
uma tendência que atinge todas as ocupações e profissões, inclusive a do
médico. Segundo o seu ponto de vista, haveria uma tendência histórica
implacável segundo a qual a autonomia e a dignidade das profissões seria
perdida e a degradação viria na medida em que o capitalismo se desenvolve em
estágios mais complexos e sofisticados de dominação.
2. A ENFERMAGEM E A QUESTÃO DA AUTONOMIA
O tema da autonomia do profissional enfermeiro no processo de cuidar no
contexto hospitalar torna-se a cada dia mais importante uma vez que proporciona
a possibilidade de rever a enfermagem, enquanto profissão, a partir de sua
própria tradição histórica, bem como articulando-a com outras áreas
científicas, em um exercício moderno de interdisciplinaridade.
O processo de autonomia pressupõe que o profissional enfermeiro e a equipe de
enfermagem possam interferir no processo de definição das prioridades na
assistência. A autonomia está embasada na direção da vontade do indivíduo para
a ação, a partir de influências sociais e culturais(6).
Neste estudo, optamos por realizar uma reflexão crítica sobre o tema, propondo
um questionamento sobre o senso comum do agir do profissional enfermeiro, qual
seja, sua visão de mundo e, a partir daí, analisar se o profissional admite ser
necessário haver mudanças em seu processo de trabalho e se a proposição que se
faz sobre sua autonomia na ação cuidadora é viável ou pertinente.
O trabalho em saúde tem características próprias que inclui um conjunto de
saberes e de práticas com a finalidade de realizar uma intervenção sobre um
determinado problema de saúde , conforme os critérios adotados pelo modelo de
atenção do serviço, considerando-o como um objeto de ação de saúde(7). O
processo de trabalho em saúde, em geral, e de enfermagem, em particular,
pressupõe uma divisão de trabalho baseado nos princípios tayloristas, que tem
como finalidade a ação terapêutica; como objeto, o indivíduo que precisa de
cuidado; como instrumental, o saber corporificado nas técnicas e nas
metodologias assistenciais e, como produto final ,um serviço de saúde prestado.
Em tal contexto, ao profissional enfermeiro cabe o trabalho intelectual e ao
técnico de enfermagem, o trabalho manual, incluindo aqui, na maior parte das
vezes, a ação efetiva voltada ao indivíduo. Essa divisão de trabalho, além de
acarretar conflitos internos, reflete-se negativamente na assistência que se
presta ao paciente, bem como interfere na autonomia do profissional enfermeiro,
uma vez que, freqüentemente, o afasta de sua ação cuidadora direta, minimizando
o seu potencial de ação nesse processo.
Sob a ótica de Foucault(8), que faz uma análise histórica do poder como meio
capaz de explicar a produção do saber, a enfermagem se disciplina por meio de
um regime de ordem (a divisão interna de seu processo de trabalho), relacionada
ao espaço medicalizado, o hospital, atrelado ao contexto histórico-econômico em
que ocorre a disciplinarização do corpo da enfermagem. Tal situação está
associada ao próprio desenvolvimento do capitalismo moderno no setor saúde, em
que ocorre uma ruptura entre saúde e medicina, corpo e mente, eu e o outro,
pessoa e contexto, relações econômicas e comunitáriasemum processo de intensa
burocratização e desencanto, reflexo da hegemonia do paradigma mecanicista/
cartesiano/positivista(9).
O termo paradigma é aqui utilizado de acordo com a definição de Khun(10), para
quem a "ciência normal" não teria por finalidade produzir conhecimento novo mas
apenas concentrar suas investigações no óbvio determinado pelo paradigma
científico dominante, um mapa social e historicamente forjado, que governa a
percepção dos cientistas em uma determinada época. Assim, o desenvolvimento
real da ciência (não apenas a expansão interna do paradigma) ocorre apenas em
circuns-tâncias raras e especiais, quando o paradigma (que dê conta da
realidade que não poderia ser compreendida pelo paradigma anterior) é proposto.
É sabido que a medicina científica ocidental, após a Segunda Guerra Mundial,
avançou sobremaneira na área tecnológica, reforçando cada vez mais intensamente
o paradigma mecanicista dominante. Tal fato possibilitou uma sintonia ainda
maior com o sistema produtivo na medida em que aumentou significativamente o
seu poder de intervenção no corpo humano a fim de moldá-lo às necessidades da
produção. Neste sentido, percorre um processo de intensa acumulacão de capital
(9).
A enfermagem, bem como a grande maioria das demais áreas relacionadas com a
saúde, acompanhou esta tendência. No interior de um paradigma mecanicista cada
vez mais forte, a ênfase recai, cada vez mais intensamente, na intervenção
técnica, sem vistas às questões de ordem emocional, coletiva e educacional. A
visão de ser humano, nesta perspectiva, "perde a sua integridade e consciência
social e cultural de si mesmo e se torna um objeto de manipulação"(9).
Tal desvalorização do cuidado insere-se em um processo de alienação e perda de
autonomia, uma vez que o cuidado constitui, historicamente, a essência da
prática de enfermagem(11). A tentativa de resgatar o papel de cuidar na
enfermagem significa, portanto, recuperar ou reconstruir a autonomia
profissional da enfermagem.
Cuidar, neste contexto, é um processo, é a maneira de demonstrar o saber-fazer,
pois requer um conhecimento que qualifica o trabalho do enfermeiro(12).
O processo de cuidar e o cuidado ao paciente é uma área específica da
enfermagem que, como vimos, faz parte de um conjunto de ações que são pouco
valorizadas em contexto hospitalar, sendo executadas principalmente pelo
técnico e/ou auxiliar de enfermagem. Em tal contexto, a enfermagem só poderá
adquirir plena autonomia quando o cuidado passar a ser visto como uma esfera
privilegiada na área da saúde, tanto do ponto de vista científico como prático.
É evidente que tal apropriação extrapola a vontade individual do enfermeiro ou
mesmo a vontade coletiva da profissão enquanto classe. Somente uma mudança de
paradigma científico, poderá conferir ênfase ao cuidado, juntamente com o
aspecto humano da medicina.
A crise do paradigma mecanicista da medicina, como descrito por Queiroz(9),
revela a possibilidade de construção de um novo paradigma, no interior do qual
uma nova configuração da saúde, doença e terapêutica emerge com um sentido mais
humano. Uma vez que a história abre a possibilidade de se construir uma ciência
que perceba o fenômeno saúde nesses termos, sem perder de vista as suas
conquistas na área tecnológica, é importante que tal possibilidade seja logo
assumida e liderada pela profissão de enfermagem. Outras profissões da saúde,
com menos tradição, certamente poderão aproveitar esta oportunidade e promover
este tipo de demanda que é, ao mesmo tempo, científica e social.
A enfermagem, como área de saber e de prática organizada no interior de um
paradigma mecanicista hospitalocêntrico, está sendo contestada internamente,
ainda que timidamente, pelos próprios profis-sionais de enfermagem(13). Neste
sentido, o profissional enfermeiro está rompendo com a imagem de um
profissional devoto e obediente, atrelado tanto a uma concepção religiosa do
cuidado como de um paradigma que promove exclusivamente a intervenção técnica
voltada a um paciente percebido meramente como uma máquina. Este rompimento, ao
mesmo tempo que enseja uma crise no paradigma hegemônico, permite um início de
revolução científica e, conseqüentemente, a construção de um paradigma mais
amplo na área da saúde.
3. ASPECTOS METODOLÓGICOS
Este estudo utiliza uma abordagem essencialmente qualitativa, ainda que tenham
sido utilizadas quantificações numéricas e tabelas. O HC-Unicamp contava com
282 enfermeiros, incluindo gerentes e assistenciais, excluindo enfermeiros
lotados em serviços de apoio, tais como Comissão de infecção hospitalar,
Serviços Gerais (higiene e limpeza, portaria e recepção, lavanderia,
suprimentos e outros). Foram estudados enfermeiros atuantes nas seguintes
áreas: Ambulatório de Especialidades, Unidades de Internação (Adulto e
Infantil), Unidades de Terapia Intensiva (Aadulto e Infantil), Unidade de
Retaguarda de Emergência e Cirurgia do Trauma e Unidade de Emergência
Referenciada (Pronto Socorro).
A população total de enfermeiros assistenciais nessas unidades era de 172,
representando os turnos matutino, vespertino e noturno, tendo como referência a
escala do mês de março de 2001.
O critério utilizado para a escolha das unidades foi que as mesmas deveriam
constituír-se de enfermeiros assistenciais responsáveis pelo cuidado de
enfermagem a pacientes com necessidades de assistência intensiva, semi-
intensiva, cuidados intermediários e mínimos.
Para determinar o tamanho amostral de proporção para uma população finita de
172 enfermeiros, baseou-se em critérios estatísticos definidos com apoio da
Comissão de Pesquisa e Estatística da Faculdade de Ciências Médicas FCM da
Universidade Estadual de Campinas UNICAMP. Para tanto, realizou-se um estudo
prévio, em um pré teste com dez enfermeiros, a partir da definição do conteúdo
do questionário aplicado. Das questões a serem respondidas, escolheu-se uma
relacionada ao "grau de autonomia", considerando-a como a questão central do
estudo e, a partir de um cálculo amostral, que considerou a probabilidade de
resposta afirmativa à questão em 70%, admitindo-se um erro amostral de 10% e um
nível de significância de 5%, fixou-se a população alvo em 59 sujeitos.
Dessa amostra, foram selecionados 3 enfermeiros para a realização de
entrevistas; número este que se mostrou suficiente pelo critério de saturação
das informações obtidas. Optou-se por selecionar um enfermeiro de cada turno e
de áreas diferentes.
As entrevistas foram realizadas durante os meses novembro e dezembro de 2001,
uma delas realizada na residência de um dos sujeitos, conforme seu interesse e
as duas restantes no próprio hospital, em seus respectivos horários de
trabalho. O roteiro das entrevistas centrou-se na experiência de trabalho do
profissional, tendo algumas perguntas a respeito dessa experiência como o
elemento que estimulava o desenrolar da entrevista. A partir disso, o roteiro
foi aberto, levando em conta o interesse e a motivação do entrevistado com
relação a determinadas questões.
O enfoque centrado no conceito de representações sociais, a partir do conceito
desenvolvido por Moscovici(14), que informa teórica e metodologicamente a
pesquisa, significa uma abordagem compreensiva que percebe o ator social como
um agente que interpreta o mundo à sua volta com uma atitude que contém
intenções e, portanto, projetos de ação. Neste contexto, a dimensão qualitativa
da pesquisa privilegia a profundidade das informações, em detrimento da sua
extensão.
Após cada entrevista, na tradição da pesquisa etnográfica, foi realizado um
relatório que informavam aspectos emocionais não verbais emitidos pelo
entrevistado e os sentidos gerais e conexões teóricas que a entrevista remetia.
Após a transcrição de cada entrevista, procedeu-se a várias leituras, com o
propósito de encontrar unidades de significados, ou núcleos de sentido que
informaram o conteúdo de análise, de acordo com os procedimentos apropriados
para uma pesquisa qualitativa descritos por Denzin & Lincoln(15) e Bardin
(16). Neste contexto, a unidade de significação liberta-se naturalmente de um
texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia.
4. RESULTADOS
Na população estudada, a média de idade é de 37,3 anos. Em relação à formação
educacional, 79,4% tiveram sua formação em universidades privadas, contra 20,6%
em universidades públicas. Desses profissionais, 38,9% têm pós-graduação.
Em relação às atividades que os enfermeiros consideram como mais específicas da
profissão, o quadro_1 mostra que a alternativa "coordenação de equipe" foi a
mais freqüente, tanto como primeira (27,1%) como segunda resposta (20,3%).
Nota-se que a resposta "cuidados diretos" e "prescrição de enfermagem", que,
aparentemente, seriam atividades inerentes e prioritárias, só aparecem com
maior freqüência como terceiras respostas (17,8% cada uma delas). No entanto,
se as alternativas "prescrição de enfermagem" e "consulta de enfermagem" forem
consideradas como uma unidade, ela tornar-se-ia a mais freqüente.
Como podemos observar no quadroa_2, 56,9% dos enfermeiros entrevistados, em
sintonia com a visão da equipe de saúde, consideram o gerenciamento da
assistência como a atividade mais importante que caracteriza a autonomia da
profissão de enfermagem. Este dado indica que as atividades administrativas têm
um significado muito importante no cotidiano do enfermeiro. A responsabilização
pelo cuidado está presente como atividade autônoma, porém, não é considerada
prioritária.
Uma das perguntas formuladas no questionário diz respeito ao fato de ter havido
alguma intervenção, por parte do enfermeiro, de caráter inovador, que tenha
provocado algum tipo de mudança na instituição. A grande maioria das respostas
a tal questão (79,7%) foi negativa. Uma outra questão perguntava se o
entrevistado participou alguma vez de algum tipo de representação de classe. Os
dados obtidos também foram negativos de um modo ainda mais expressivo (95,0%).
Na abordagem referente ao conhecimento desses profissionais em relação à
concepção teórica e as diretrizes básicas voltadas à saúde e preconizadas pela
Organização Mundial da Saúde OMS, obtivemos que 70,2% não conhecem as
recomendações da OMS em relação ao cuidado à saúde.
Uma outra questão indagava se o enfermeiro considerava o seu trabalho
reconhecido pela instituição e, como resposta, obtivemos que 88,14% deles
consideram bom e regular o reconhecimento dado pela instituição em relação ao
seu exercício profissional. Nesse sentido, os enfermeiros deste estudo
reconhecem-se como profissionais importantes no Hospital das Clínicas da
Unicamp, embora 37,3% reconhecerem ser necessário ampliar o nível de
conhecimento, inclusive para justificar um grau maior de autonomia.
A maioria (63,8%) dos representantes dessa amostra considera que exerce a sua
função profissional com autonomia, enquanto que 13,8% não consideram ter
autonomia em suas funções. Em relação ao grau de autonomia, entre os que
consideraram que exercem a sua função com autonomia, 54,2% avaliaram ter pouca
autonomia, contra 44,1% que avaliaram ter muita ou suficiente autonomia.
4.1 Apresentação e análise dos dados obtidos através das entrevistas
O conteúdo dos dados coletados nas entrevistas foram agrupados em várias
categorias, porém enfatizaremos algumas delas que conside-ramos pertinentes ao
enfoque deste artigo:
Qualificação do saber na enfermagem.
Os dados obtidos através de entrevista confirmam que o profissional enfermeiro
atua de forma acrítica e passiva, correspondendo, na maioria das vezes, aos
objetivos controladores da instituição. Enquanto uma parte significativa deles
tem como objetivo ampliar seus conhecimentos, a rigidez organizacional torna,
muitas vezes, tais objetivos inacessíveis, uma vez que a procura por
conhecimentos voltados ao cuidado nem sempre se mostram coerentes com a prática
desenvolvida na estrutura hospitalar dominante.
Esse aspecto explica a pouca expressividade do fato anteriormente mencionado
relativo a algum tipo de intervenção, por parte do entrevistado, de caráter
inovador, que tenha provocado algum tipo de mudança na instituição. O trecho de
entrevista abaixo expressa bem o fato de que o dia-a-dia da instituição
hospitalar consome grande parta do trabalho do enfermeiro, deixando muito pouca
margem para o exercício de um trabalho criativo.
"acho que o enfermeiro, acaba por fazer uma porção de coisas que a
instituição lhe delega (...) tudo aquilo que ninguém sabe a quem
cabe, acaba 'sobrando' para o enfermeiro (...) são tarefas simples
que não exigem formação especial e que poderiam estar sendo delegadas
a alguém com menor qualificação, são, ainda, cobradas do enfermeiro
(...) o enfermeiro deveria ficar liberado de tudo isso, para que ele
pudesse ocupar-se do cuidado". (S1)
Esse desvio da ação cuidadora, além de traduzir a perda da autonomia no plano
do saber em relação à pessoa em cuidado e à equipe de enfermagem, é
inteiramente consistente com o paradigma mecanicista hegemônico no contexto de
um hospital moderno. Este paradigma prevê a subutilização dos profissionais
enfermeiros ao nãoreconhecer a importância do cuidado e, ao mesmo tempo, desvia
a função desses profissionais para atividades administrativas e burocráticas.
Apesar de reconhecerem que realizam atividades inespecíficas ao seu papel
profissional, as nossas entrevistas revelam uma atitude passiva diante do
problema.
Atitude para Mudança e Autonomia
Vimos anteriormente que 37,3% dos entrevistados consideram que precisam
melhorar seu nível de atuação. As atividades de educação continuada nas
instituições de saúde têm um papel extremamente importante, porque permitem não
só que o conhecimento seja atualizado e outras experiências revistas. No
entanto, o que acontece em muitas instituições hospitalares, inclusive o HC-
Unicamp, é limitar as atividades da educação continuada para interesses mais
próprios da instituição, principalmente os tecnológicos e regimentais. Temos
aqui um exemplo do que Khun(10) denominara como uma prerrogativa do campo
científico (e tecnológico) normal, onde não cabe a criatividade e inovação, mas
meramente a extensão do paradigma dominante.
A ênfase dada pelo HC-Unicamp a cursos de extensão que apenas introduzem ou
reforçam um viés tecnológico, assim como a ausência de um espaço institucional
para que novas experiências e alternativas possam ser discutidas e partilhadas,
tornam o ato criativo do profissional um empreendimento muito difícil. Esta
condição limita consideravelmente a autonomia profissional do enfermeiro. O
trecho de entrevista abaixo expressa bem esta questão.
"Eu posso mudar dentro de minha prática, no meu setor de trabalho,
implantando novas medidas, mas não depende só de mim, eu dependo da
administração do hospital e não só dessa administração, mas muito e
principalmente da administração de enfermagem, de como essa
administração vê o papel do enfermeiro (...) só a partir dessa
sintonia a mudança seria possível".(S3)
No que diz respeito à questão da autonomia, houve um consenso absoluto entre os
entrevistados no sentido de que ela só é possível para o enfermeiro quando este
se concentra em atividades que ele realmente domina. Nesse sentido, uma vez que
o cuidado ao paciente é considerado a área de competência própria do
enfermeiro, é principalmente neste contexto onde ele pode efetivamente exercer
a sua autonomia.Os trechos de entrevistas abaixo mostram bem este aspecto.
"Se a pessoa tem conhecimento, habilidade para fazer determinadas
coisas, automaticamente, ela vai ter autonomia. Ela passa isso para
as pessoas que estão perto dela e a sua autonomia é reconhecida tanto
pelo paciente quanto pelo docente médico. Todos vão saber que você
domina o que está fazendo ou falando." ( S2)
"Eu coloquei duas respostas exatamente pelo seguinte: eu exerço
autonomia em relação ao cuidado que eu presto aos pacientes; tendo
segurança e conhecimento para isso. Não considero ter autonomia nas
questões administrativas e em algumas atividades burocráticas, pois
muita coisa não depende de mim e sim da administração de
instituição..." (S3)
É interessante notar que, nessas representações, a atividade que mais ocupa as
atividades do enfermeiro, a burocrático-administrativa, não é considerada uma
atividade que constitui a essência do trabalho de enfermagem e à qual ele possa
exercer plena autonomia.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu uma reflexão sobre a prática do profissional
enfermeiro e, conseqüentemente, da equipe de enfermagem, trazendo à tona alguns
meios para a construção da autonomia profissional através do processo de
cuidar. Sob este aspecto, o referencial teórico proporcionou um olhar crítico
para a prática atual do profissional enfermeiro, instigando-o a compreender que
o espaço do cuidado lhe é dado por um direito histórico. Para legitimar tal
espaço seria preciso mudar, transformar, reorganizar e reconstruir a prática de
enfermagem.
A análise e interpretação dos dados iluminam as limitações da autonomia da
enfermagem em contexto hospitalar, onde se verifica uma forte hegemonia do
paradigma mecanicista. Tais limitações ocorrem, principalmente, através do
processo de trabalho caracterizado pela tecnificação dos procedimentos médicos
e da pouca importância conferida aos aspectos simbólicos (emocionais e sócio-
culturais) do processo da doença e da cura.
Na pesquisa, foi evidenciado que 56,9% dos enfermeiros consideraram que, em seu
cotidiano profissional, as atividades autônomas prioritárias consistiam de
atividades relacionadas com o gerenciamento assistêncial. O interessante é que
63,8% da amostra consideraram exercer atividades com autonomia, porém quanto ao
grau desta autono-mia, 54% consideraram-se com apenas alguma, sendo esta uma
atribuição dada pela instituição, que não leva em conta o cuidado como um
aspecto essencial das atividades de enfermagem.
A enfermagem é, ainda, bastante submissa à hierarquia hospitalar, ao paradigma
mecanicista (que organiza esta hierarquia) e ao modo de produção capitalista
(que forja e reforça este paradigma). A conseqüência mais importante dessa
submissão (que traz em seu bojo a desvalorização tanto do cuidar como do papel
educativo do enfermeiro) valoriza a competência técnica, porém restringe a
institucionalização da autonomia do saber da enfermagem, que é relacionado à
ampla dimensão do processo de cuidar.
O paradigma mecanicista, que organiza as atividades hospitalares, exclui a
possibilidade de perceber o ser humano como um agente complexo, integrado em um
meio sócio-cultural. A hegemonia deste paradigma, atualmente, está sendo
questionada em várias instâncias, inclusive no hospital. Tal questionamento
está propiciando a inovação, a re(construção), a re(organização) dos processos
de trabalho em saúde(17). Dessa forma, a reprodução de saberes, das estruturas
prontas estão sendo questionadas diante da possibilidade de ampliar as
perspectivas dos profissionais, principalmente através do trabalho
interdisciplinar, no qual se disponibiliza o agir comunicativo e,
conseqüentemente, o exercício da liberdade, em favor de uma assistência
adequada e ética ao ser em cuidado.
É evidente que o diagnóstico, a terapêutica, a tecnologia são importantes,
porém, o processo de cuidar e de cuidado poderia ser para o profissional
enfermeiro, seu enfoque principal, que corresponde ao espaço de sua autonomia.
Tendo seu saber fundamentado cientificamente numa perspectiva interdisciplinar,
que inclui tanto as ciências biológicas como as humanas, permitirá ao
enfermeiro proporcionar uma assistência muito mais efetiva.
Ficou claro, no estudo, que 52,7% reconheceram que necessitam melhorar seu
nível de atuação, pretendendo cursar pós-graduação na área de enfermagem.
O profissional enfermeiro está, portanto, começando a reconhecer a necessidade
de se reorganizar para assumir uma dimensão maior no trabalho em saúde, através
da implementação de estratégias para intervir de forma fundamentada no processo
de cuidar, rompendo com aquela identidade estabilizada, expressando, assim, seu
significar na equipe de saúde, afastando-se de ações submissas e pouco
expressivas..
Diante dessa possibilidade histórica de mudança de paradigma na saúde, com a
conseqüente humanização do ato de cuidar, cabe ao profissional enfermeiro um
papel que o torna um ator muito mais impor-tante na construção desse novo
saber. Neste papel de promotor do cuidado, o profissional enfermeiro não será,
como tem sido em ampla medida, um mero reprodutor de conhecimentos de outros
profissionais.
Fica evidente que a autonomia do profissional enfermeiro se concretiza a partir
do "ser profissional" (a vontade do indivíduo para a ação). Este, através de
seu conhecimento, pode compreender o paradigma vigente, porém de forma
ampliada, habilitando-o a responder às questões: o que faço, para que faço,
como faço e para quem?
Esse assunto não se esgota com este estudo, aliás, acreditamos estar na etapa
inicial, tendo em vista a insuficiência de debates sobre o tema na literatura.
No entanto, ao final desta experiência, pudemos perceber que este estudo pode
contribuir de alguma forma para facilitar a busca de caminhos estratégicos para
um agir mais crítico e com fundamentação científica. Através do seu saber, o
profissional enfermeiro reconhece o seu modelo de atuação, para que seu fazer
lhe dê visibilidade, ou seja, mostre o seu ser e proporcione mudanças
importantes no modo de produzir enfermagem, exercendo efetivamente sua
autonomia.