Cuidando do cuidador no ambiente de trabalho: uma proposta de ação
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Cuidando do cuidador no ambiente de trabalho: uma proposta de ação
Taking care of the caregiver in the working setting: an action proposal
Cuidando del cuidador en el ambiente de trabajo: una propuesta de acción
Samanta Reikdal OliniskiI; Maria Ribeiro LacerdaII
IEnfermeira. Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal do Paraná.
Bolsista da CAPES. Membro do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Cuidado
Humano de Enfermagem - NEPECHE
IIEnfermeira. Doutora em Filosofia de Enfermagem. Professora Adjunto da UFPR.
Vice-coordenadora do NEPECHE
1. INTRODUÇÃO
O cuidador enfrenta diversas situações e fatores no ambiente de trabalho que
afetam a sua integridade física, psíquica e emocional. Alguns dos causadores de
estresse, conforme apontado por Coutrin, Freua e Guimarães(1), são os altos
níveis de poluições sonoras, visuais e do ar ambiente, a falta de lazer, o
espaço físico inadequado e a instabilidade no emprego.
Hoga(2) ao realizar entrevistas com enfermeiras atuantes em diversas áreas da
enfermagem, organizou uma categorização das principais causas que afetam o bem-
estar do cuidador, a saber: enfrentamento de situações adversas e inesperadas;
vivência do cotidiano em uma Unidade de Terapia Intensiva; relacionamento
interpessoal com familiares; relacionamento interpessoal com os demais membros
da equipe profissional; condições sócio-econômicas e conflitos gerais. No
entanto, conta-se também no ambiente de trabalho com a rotina repetitiva,
situações de risco vida, processo de morte e morrer, e ainda o sofrimento e dor
do outro, entre outros.
Estas experiências somadas à agitação da vida cotidiana levam o cuidador a
buscar mecanismos de defesa ou enfrentamento para suportar a mobilização
interna ao qual são submetidos, o que se traduz por desinteresse pelo outro,
agir mecanizado, não percepção do outro como ser humano, desvalorização do
cuidado e de si como pessoa e profissional. Deste modo, os ambientes de
trabalho da forma como estão estruturados atualmente não favorecem o cuidado de
si dos cuidadores, ao contrário, são locais naturalmente mobilizadores de
emoções, sentimentos e estresse.
Por essas razões, alguns autores têm apontado a necessidade das instituições de
saúde proporcionarem ambientes de cuidado aos cuidadores. Afinal, a realização
de ações que incentivem o cuidado de si do cuidador no ambiente de trabalho,
certamente promoverá o bem-estar do cuidador e a melhoria da qualidade dos
serviços prestados.
Jesus et al(3) sugerem um suporte institucional que possibilite uma política de
Recursos Humanos que contemple a saúde do trabalhador em sua totalidade,
enfocando a qualidade de vida e o cuidado dos cuidadores no contexto
existencial e no contexto do trabalho. Afirmam que "as instituições de saúde e
os gerentes de serviços precisam abrir espaços para que os trabalhadores
exercitem a prática do autocuidado e as relações interpessoais no âmbito da
equipe".
Neves(4) transpõe a visão de Watson para o contexto de trabalho e propõe a
criação de um ambiente de cuidado que tenha uma alma, ou seja, um ambiente no
qual os valores morais e a atitude ética favoreçam a preservação da dignidade,
respeito e solidariedade entre os cuidadores.
De acordo com a autora(4), "é preciso criar um ambiente favorável que seja
afetuoso, caloroso, atencioso, amoroso e que propicie crescimento, alívio,
segurança, proteção, bem-estar, ou seja, um ambiente no qual a pessoa
experiencie o cuidado humano", evitando que "a inércia, o desespero, o
desamparo e o sofrimento sejam os companheiros de caminhada no mundo do
trabalho".
Tendo em vista essas considerações, realizou-se este estudo com os seguintes
objetivos: estimular a sensibilização da equipe de enfermagem para o cuidado de
si e desenvolver dentro do ambiente de trabalho ações que promovessem o cuidado
de si e o cuidado do outro.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Tendo em vista a abordagem adotada no desenvolvimento deste estudo, optou-se
por utilizar alguns pressupostos da teorista de enfermagem Jean Watson como
fios condutores, uma vez que estes propõem a valorização e retomada do cuidado
humano, apresentam uma visão ampla acerca do cuidado e de suas diferentes
dimensões e consideram também em suas proposições os cuidadores.
Watson(5,6) baseia a sua teoria em fundamentos humanísticos, propondo que a
Enfermagem retome a sua essência: o cuidado, visto como ciência, filosofia,
ética e ideal moral. Para ela, o cuidado, healing,é entendido no sentido de
recomposição, reestruturação da saúde, da pessoa, da mente, do corpo e da alma
numa unicidade, e não no sentido de cura.
Um dos componentes de sua teoria é o Processo Clinical Caritas. Este ainda é
composto por dez fatores de cuidados, dos quais três foram selecionados para
serem utilizados no desenvolvimento deste estudo: formação de um sistema de
valores humanista-altruísta; cultivo da sensibilidade para consigo e com os
outros; e provisão de um ambiente de apoio, proteção e correção física, mental,
societária e espiritual.
Formação de um sistema de valores humanista-altruísta
Para Watson(6) o cuidado é baseado em um conjunto de valores humanos
universais, como a bondade, o interesse e o amor por si e pelos outros. Tais
valores emergem de seu comprometimento e da satisfação em ajudar o outro. O
profissional de enfermagem, ao possuir um sistema de valores humanista-
altruísta, é capaz de se autoconhecer e avaliar, e conseqüentemente de crescer
e se transformar.
Cultivo da sensibilidade para consigo e com os outros
Watson(6)enfatiza a necessidade de experienciar emoções e sentimentos nas
relações de cuidado, dizendo que para haver uma verdadeira interação se faz
necessário agir de modo sensível. A presença da sensibilidade em uma interação
transcende o mundo físico e material, para penetrar no mundo emocional e
subjetivo da pessoa.
Ao procurar aumentar sua sensibilidade, as enfermeiras, segundo Watson(6)
tornam-se mais autênticas. O tornar-se autêntica conduz ao autocrescimento e à
auto-realização, tanto para si como para com aqueles com quem interage.
Provisão de um ambiente de apoio, proteção e correção física, mental,
societária e espiritual
Segundo Watson(6) existem diversas variáveis externas e internas que afetam a
vida e o bem-estar das pessoas. Estas agem de forma interdependente e devem ser
consideradas no cotidiano do cuidado de enfermagem, pois afetam igualmente a
saúde e a doença. Entre as variáveis externas, destaca os fatores físicos, de
segurança e ambientais; e entre as internas estão as atividades mentais,
espirituais e culturais.
A criação deste ambiente no trabalho possibilita a reconstituição em todos os
níveis e potencializa a totalidade, beleza, conforto, dignidade e paz em um
ambiente sutil de energia e consciência.
3. METODOLOGIA
Este estudo consiste em um relato de experiência, fruto de um trabalho de
conclusão de curso da Universidade Federal do Paraná realizado pela primeira
autora e orientado pela segunda(7).
A opção metodológica pelo relato de experiência deveu-se ao fato de participar
e interferir no processo de cuidado de si da equipe de enfermagem como membro
ativo e coordenador das atividades. Tendo em vista que a maior intenção era a
de promover, no ambiente de trabalho, atividades que proporcionassem o cuidado
de si, ao invés de observar, questionar ou investigar.
Os locais selecionados para o desenvolvimento deste estudo foram duas unidades
de terapia intensiva pediátricas (UTI's) pertencentes a um hospital de grande
porte de Curitiba. A escolha desses locais se deu, principalmente, por causarem
um elevado grau de estresse e desgaste nos cuidadores.
O período no qual as atividades foram realizadas compreendeu de setembro a
dezembro de 2003, e janeiro de 2004, abrangendo ao todo dezesseis semanas. A
média de realização era de duas atividades por semana, mas com variação de uma
a quatro atividades por semana. Esta variação deveu-se principalmente à
disponibilidade dos funcionários para realizar tais atividades, pois por se
tratar de um serviço de alta complexidade, houve dias em que não foi possível
desenvolvê-las devido às condições locais.
Os horários em que as atividades foram realizadas também variaram, acontecendo
no início, meio e término do plantão; no entanto, o horário em que o maior
número de atividades ocorreu foi no meio do plantão em torno das dez horas.
Os sujeitos deste estudo foram os membros da equipe de enfermagem: enfermeiras,
técnicos e auxiliares de enfermagem. O número de funcionários de cada uma das
UTI's era de quinze pessoas, e a participação delas nas atividades ficou
aproximadamente entre 80 a 95%. Destaca-se que alguns funcionários não
participaram das atividades porque no momento em que foram realizadas,
necessitaram prestar algum cuidado ao cliente, ou o estado do cliente era grave
não permitindo a ausência do cuidador. Houve ainda, em alguns momentos,
funcionários que não se interessaram pela atividade proposta; portanto, não a
realizaram.
Foram realizadas ao todo quinze atividades diferentes com cada equipe. A grande
maioria destas atividades foi realizada dentro das UTI's, com exceção de duas
que foram realizadas na sala de descanso dos funcionários.
Considerando que o cuidado de si é uma atitude e ação pessoal que depende das
crenças, valores e objetivos que se tem, as formas utilizadas para promover ou
realizar o cuidado de si podem ser as mais variadas possíveis. Assim, procurou-
se desenvolver diferentes atividades de simples execução, nestes ambientes de
trabalho, com duração aproximada de quinze minutos.
4. DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES REALIZADAS
Descreve-se neste momento, de maneira sucinta, cada uma das atividades
realizadas no estudo e as impressões obtidas, visando propiciar a outros
profissionais alguns subsídios para que possam também desenvolver em seu
ambiente de trabalho ações de cuidado de si.
Alongamento
O alongamento foi a primeira atividade realizada com as equipes. Consistia em
uma série de dez a quinze exercícios para pescoço, braços, pernas, costas e
quadril, que tinha como objetivo promover o cuidado de si através do cuidado
com o corpo. Essa série foi criada pela primeira autora em parceria com uma
colega, tendo por base referências bibliográficas e orientações de
profissionais de educação física. Foram realizados, ao todo, treze alongamentos
com cada uma das equipes.
No início, era difícil fazer com que todos deixassem suas tarefas e
participassem. Demorava em torno de quinze minutos até todos se reunirem em uma
das salas. Sentiam-se um pouco envergonhados com a presença dos demais membros
da equipe multidisciplinar, e pensavam que estes iriam falar que não estavam
trabalhando. Ao longo das semanas, reunir o grupo não consistia mais em uma
tarefa tão difícil e demorada, apesar de sempre contar com alguma resistência.
Na medida em que esta atividade era desenvolvida, deixava-se sua execução sob a
responsabilidade do grupo, buscando solicitar deste o próximo exercício a ser
realizado para que pudessem inserir novos exercícios na série e também
memorizar a seqüência. Em alguns momentos, a coordenação da atividade ficava a
cargo de um funcionário ou do grupo todo.
Leitura de Pensamentos
Esse momento, baseava-se na leitura de pensamentos ou frases filosóficas
trazidas pelos pesquisadores ou pelo grupo, e posterior reflexão sobre o que as
palavras representavam ou traziam de relevante. O objetivo era realizar um
momento de reflexão sobre si mesmo e sobre seu modo de ação.
Ao todo foram realizadas quatro leituras. Dois textos foram levados pelos
pesquisadores, um obtido no próprio local, e outro levado por uma funcionária.
As reflexões ocorriam naturalmente após as leituras. As pessoas avaliavam o que
haviam compreendido, comentavam algumas situações semelhantes que passaram ou
que a leitura lhe remetia a pensar, falavam palavras positivas e de
encorajamento.
Dinâmica Feitiço
Nesta atividade, cada participante deveria escrever um "feitiço" para o colega
do lado, os papéis eram trocados e o feitiço retornava ao feiticeiro que então
fazia o que havia desejado ao colega. Essa atividade visava promover a
descontração e relaxamento do grupo.
Durante essa atividade, realizou-se também um levantamento sobre o ambiente de
trabalho sob a ótica dos profissionais, na qual os participantes responderam as
seguintes indagações: Como você gostaria que fosse o seu ambiente de trabalho?;
O que você pode fazer para que o ambiente de trabalho fique como você o
imagina? Qual a sua contribuição?; e O que você sugere de atividade para
desenvolvermos durante a semana?
Esta atividade mobilizou os participantes que ficaram ansiosos e curiosos para
observarem o colega realizando o "feitiço", ficando, porém constrangidos ao
terem que realizar o próprio castigo. Os "feitiços" foram bastante variados;
teve, por exemplo, dança da garrafa, massagem, abraço, oração para afastar a
bruxa, canto, recitação de um poema, dança de uma valsa, imitação de um gato
manhoso, entre outros.
Esta atividade proporcionou descontração e também permitiu que os participantes
conhecessem alguns aspectos desconhecidos dos colegas, bem como facilitou o
levantamento sobre o ambiente trabalho, pois as pessoas se sentiram mais livres
para expressar o que pensavam por não ser algo formal. A não identificação dos
respondentes nas fichas de levantamento e o recolhimento das mesmas em uma
caixa foram realizados com o mesmo intuito.
As respostas foram posteriormente analisadas com o grupo na atividade Júri
simulado e também serviram de base para o planejamento e desenvolvimento das
atividades subseqüentes.
Conhecendo-nos
Nesta atividade, cada participante deveria escolher uma figura ou fazer um
desenho que o representasse e escrever três características pessoais. À medida
que cada participante se apresentava, era solicitado que algum colega
acrescentasse ou comentasse algo sobre a personalidade do outro. O objetivo era
conhecer melhor as características pessoais e de personalidade do grupo.
O uso de recortes como objeto intermediário foi interessante, pois além de
permitir uma identificação da imagem com a pessoa, possibilitou a revelação de
outras particularidades não apontadas nas descrições escritas, bem como uma
auto-reflexão sobre as características de cada um.
Os comentários tecidos pelos colegas foram enriquecedores, uma vez que
permitiram que as pessoas pudessem perceber como são vistas pelos colegas e
então analisassem suas atitudes.
Júri Simulado
Com o objetivo de verificar como os funcionários estavam percebendo o ambiente
de trabalho e suas relações e, também, de buscar junto ao grupo soluções para
os problemas levantados, realizou-se um júri simulado.
O grupo foi dividido em promotoria e defesa. A promotoria deveria apontar como
gostaria que fosse o ambiente de trabalho e procurar os motivos que levaram o
ambiente a não ser como o desejado. Enquanto a defesa analisaria se as ações ou
atitudes sugeridas resolveriam os problemas. O réu, portanto, eram as condições
de trabalho, e o veredicto final ficou por conta do grupo todo, que julgou e
apresentou as conclusões a que chegaram.
Essa atividade exigiu enorme reflexão e compreensão das condições apresentadas
nas unidades. No decorrer da atividade, a discussão tomou tamanho vulto,
tornando difícil a coordenação do grupo, pois questionaram os salários,
representação e valorização profissional, questões políticas e organizacionais,
entre outros. Procurou-se, em conjunto, encontrar soluções para as questões
levantadas, mas ao invés de encerrar o assunto discutido, mais colocações eram
feitas. Enfim, foi um momento de desabafo para o grupo.
Porém, surgiram sugestões interessantes para o ambiente de trabalho, como:
organizar grupos para discutir as condições de trabalho, conhecer melhor a
equipe e encontrar soluções para as questões discutidas; aprimorar serviço de
psicologia para os funcionários; instalar música ambiente no refeitório, entre
outras.
Relaxamento e visualização
A atividade de relaxamento e visualização buscava promover o alívio das
tensões. Os participantes deveriam sentar-se confortavelmente em cadeiras,
soltar os braços e pernas, relaxar e respirar profundamente. A seguir,
solicitava-se a escolha de um local (praia ou montanha) que gostariam de
visualizar e conduzia-se a visualização escolhida.
A forma como esta atividade aconteceu foi diferente em cada uma das unidades.
Em um dos locais foi mais difícil reunir o grupo e acomodá-lo na sala. A
atividade foi interrompida diversas vezes por outros membros da equipe
multiprofissional, tornando impossível a concentração, relaxamento e
visualização da paisagem, o que fez com que a atividade não alcançasse o nível
desejado.
Já na outra UTI, ao contrário, foi possível desenvolver plenamente a atividade.
Os participantes conseguiram relaxar e visualizar a paisagem proposta. Após a
visualização, comentaram como estavam antes de iniciar, como se sentiram
durante e após a atividade. A avaliação foi bastante positiva, pois conseguiram
relaxar e deixar seu campo energético mais livre e tranqüilo. Comentaram ainda
que deveriam realizar este tipo de atividade mais vezes na unidade,
principalmente após momentos de elevada tensão e estresse.
Massagem
Outra atividade desenvolvida foi a massagem. Para sua realização o grupo foi
dividido em duplas e, ao som da música, um colega fazia massagem nos ombros do
outro por aproximadamente três minutos, invertendo-se posteriormente as
posições.
Esta atividade contou com uma grande participação e interação entre os
funcionários. Eles gostaram da proposta e comentaram que ela auxiliou no
relaxamento e alívio das tensões experenciadas. Apesar de levar pouco tempo
para desenvolvê-la, os resultados obtidos nesta atividade foram bastante
significativos.
Batata-quente
Esta vivência foi realizada com os seguintes objetivos: conhecer o conceito de
cuidado da equipe; identificar as formas e instrumentos utilizados para cuidar,
bem como as pessoas que são alvo desse cuidado; verificar se realizavam o
cuidado de si e de que maneira; e avaliar se atividades realizadas estão
contribuindo para o cuidado de si da equipe.
O procedimento realizado consistia na passagem de uma bolinha de borracha de
uma participante a outro, ao som da música. No momento em que esta parasse,
quem estava com a bolinha deveria responder uma das seguintes perguntas: O que
é cuidado para você?, De quem você cuida?,
Como você cuida?, Você se cuida? Como?, As atividades estão auxiliando no
cuidado de si?
Na questão sobre de quem cuidavam, as respostas obtidas foram: de familiares,
de si, de clientes e de amigos. Nesta questão, apesar de a própria pessoa
citar-se, a resposta apareceu depois de clientes ou de familiares. Com este
questionamento, houve a reflexão dos grupos de que deveriam cuidar de si mesmos
em primeiro lugar, para poder então cuidar do outro. No entanto, o que faziam
era o inverso, cuidam de si mesmos por último, isto quando o fazem. Isto mostra
que aos poucos os grupos estavam percebendo a necessidade e a importância de
cuidar de si e de modificarem suas atitudes a este respeito.
Ao serem questionados diretamente, se cuidavam de si e de que modo, a primeira
resposta foi que sim, cuidavam-se; depois, refletiram e disseram que só às
vezes cuidavam de si. Os modos utilizados para este cuidado ficaram
relacionados principalmente ao corpo e à saúde física.
Balaio da Benção
Esta atividade foi baseada na proposta apresentada por Watson durante um
encontro internacional de enfermagem realizado no Brasil em novembro de 2003.
Nesta, cada pessoa deveria escrever em um pedaço de papel o nome de uma ou mais
pessoas que gostaria de abençoar. Os papéis eram depositados em uma caixa, e
então o grupo mentalizava pensamentos positivos, boas energias e sentimentos
àquela(s) pessoa(s).
A forma como foi a atividade foi realizada, deu-se de modo diferente em cada
uma das unidades. Enquanto em uma UTI a maioria colocou o nome de uma única
pessoa, na maior parte das vezes ela mesma, na outra, quase de maneira unânime,
o nome de toda equipe foi colocado. Um fato interessante foi que em ambos os
locais os participantes quiseram incluir, na benção, seus familiares e os
clientes internados.
4.1 Primeira Avaliação das Atividades Realizadas
Com o intuito de analisar a visão do grupo acerca das atividades desenvolvidas,
solicitou-se que fizessem, em um lado da folha, uma avaliação de como estavam
se sentindo antes de iniciar as atividades, e do outro lado, como estavam se
sentindo naquele momento. Poderiam para tal, utilizar desenhos, músicas,
poemas, frases ou símbolos. Após terminar sua avaliação, cada um deveria
apresentá-la ao grupo e comentar seu significado.
A maioria dos participantes utilizou as cores e desenhos para simbolizar sua
avaliação. Desta forma consideraram que antes estavam tristes, cansados,
estressados, ansiosos, nervosos, desanimados, vivendo uma rotina repetitiva.
Simbolizaram esses sentimentos com cores escuras, raios, tempo brusco, caretas
tristes, etc. Avaliaram que depois das atividades se sentiam mais dispostos,
satisfeitos, alegres, relaxados, tranqüilos; representando esses sentimentos
com cores claras e vibrantes, caretas alegres, sol, flores, entre outros.
Dentre os comentários tecidos, alguns quiseram expor que, às vezes, não podiam
realizar a atividade, ou que as situações apresentadas na unidade, no momento,
não permitiam que as mesmas fossem desenvolvidas. Além disso, consideraram que
seria melhor realizar as atividades fora da UTI, em um local mais calmo, com
menos barulho e estresse, onde pudessem ficar mais à vontade.
Reflexão
A reflexão consistiu de uma retrospectiva das atividades realizadas e posterior
reflexão sobre objetivos pessoais e coletivos que desejavam alcançar, para que
tivessem noção do quanto já haviam caminhado e de quanto poderiam ainda,
alcançar.
Ao traçar os objetivos e aprazá-los, pôde-se refletir sobre como estava a
relação entre o que queriam realizar e sua determinação em alcançá-los.
Procurou-se demonstrar a necessidade de se ter objetivos na vida e a
importância de buscar realizá-los, bem como salientar a idéia de que as
mudanças devem acontecer primeiro na própria pessoa para depois ocorrer na
coletividade. Desta forma, cada pessoa se torna responsável pela sua vida,
ações e atitudes, pelo que faz ou deixa de fazer.
Dança dos Anos 60
Esta atividade visava promover a descontração e relaxamento. Assim, o
coordenador iniciava alguns movimentos de acordo com o ritmo tocado, e então o
grupo dava continuidade criando seus próprios movimentos.
A participação nesta atividade foi expressiva. Cada um inventava um movimento
diferente e engraçado, todos dançaram e riram. Chegou-se a dançar três músicas
seguidas devido à animação e descontração causadas. No final, algumas pessoas
comentaram com o grupo que poderiam trazer outras músicas e repetir a
atividade.
Transformando o Balão
A atividade "Transformando o balão" objetivava a reflexão sobre a forma como se
age frente às situações e como se deve encorajar mudanças de atitudes.
Constituiu na distribuição de um balão colorido a cada participante, no qual
deveriam soprar todos os sentimentos e pensamentos negativos e medos que
carregavam. A seguir, indagava-se o que fazer com ele e sugeria-se transformá-
lo em algo positivo, fazendo desenhos, escrevendo frases, etc. Decidia-se,
então, o destino final do balão.
Esta atividade baseou-se em uma oficina realizada pela Doutora Eloita Pereira
Neves, no curso de Mestrado, chamada "Retirada da cabeça", a qual foi
apresentada em um evento internacional de enfermagem realizado em novembro de
2003, no Rio de Janeiro - RJ.
Assim que os funcionários encheram os balões com aspectos negativos, sua
primeira reação foi a de querem se livrar dele, jogando-o fora ou soltando-o no
vento. Houve ainda quem sugerisse que fosse estourado, no entanto, o grupo
considerou que se o fizessem, tudo que fora colocado no balão, ficaria no
local. Sugeriu-se então, a transformação dos balões, a qual foi aceita por
todos. Neste momento todos se envolveram, trataram o balão com carinho e
cuidado buscando deixá-lo agradável.
Terminada esta etapa perguntou-se novamente o que fariam com o balão. As
respostas foram diferentes em cada local: em uma UTI, preferiram guardar cada
um o seu balão ou entregá-lo a um cliente internado; já na outra, preferiram
estourar os balões liberando e compartilhando com todos os bons fluidos e
energias. Essas atitudes demonstraram as diferentes visões das equipes e a
variedade de soluções possíveis para a mesma situação.
4.2 Segunda Avaliação das Atividades Realizadas
Novamente com o intuito de avaliar o desenvolvimento do trabalho, realizou-se
esta atividade, na qual foram entregues, a cada participante, duas cores de
massa de modelar e solicitado que fizessem algum objeto que simbolizasse o que
as atividades representaram para eles.
No início, os participantes apresentaram dificuldade em realizar a tarefa e não
sabiam como se expressar através da massa de modelar. No entanto, os objetos
confeccionados ficaram interessantes, houve bichinhos, flores, caretas felizes,
parque de diversões, sol, coração, uma mão fazendo positivo e muitos outros.
Ao explicar o seu objeto e comentar a avaliação que faziam das atividades,
houve unanimidade na consideração de que as atividades realizadas foram
produtivas, que auxiliaram no relaxamento e descontração e que permitiram que
se sentissem cuidados em seu ambiente de trabalho.
Fechamento e Despedida
Tendo em mente as impressões e avaliações obtidas ao longo do desenvolvimento
do estudo, procurou-se preparar uma última atividade que fechasse os conteúdos
abordados, que mostrasse que a responsabilidade e a realização do cuidado de si
dependia de cada um e que os incentivasse a continuar praticando o cuidado de
si no ambiente de trabalho.
Deste modo, preparou-se uma mensagem e uma lembrançinha para cada um, fazendo
analogia a sementes e flores. Comentou-se que fora trazido a "semente do
cuidado de si" à equipe, pois havíamos sensibilizado e mostrado que através de
ações simples e de curta duração era possível realizar este cuidado no ambiente
de trabalho; cabia, porém, a cada um e à equipe, como um todo, prosseguir com
as atividades ou não.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste momento, gostaríamos de tecer algumas reflexões sobre a trajetória
percorrida, apontando as dificuldades, facilidades e crescimentos
proporcionados. Inicialmente, gostaríamos de comentar que não foi fácil
escolher e prosseguir neste caminho: a resistência, e também desinteresse,
estiveram sempre presentes, o que suscitou o exercício da flexibilidade e do
relacionamento interpessoal.
A principal dificuldade encontrada foi o não envolvimento e apoio das
enfermeiras no estudo. Procuramos conhecer a visão delas sobre as atividades
desenvolvidas, as quais foram avaliadas positivamente. Comentaram que as
atividades auxiliaram na diminuição do estresse e proporcionaram relaxamento e
distração; no entanto acrescentaram, que era difícil fazer o grupo parar de
trabalhar e reuni-lo, pois estavam acostumados àquela rotina.
O envolvimento eventual das enfermeiras nas atividades demonstra que talvez as
estratégias utilizadas para sensibilizá-las não foram as melhores, ou talvez
aponte para um desinteresse em participar por não ter que assumir, após o
término do estudo, o compromisso de prosseguir com as atividades, por
considerá-las apenas, como mais uma atribuição em meio às tantas outras
exercidas, principalmente as de cunho burocrático.
Por outro lado, contamos com apoio e participação ativa dos técnicos e
auxiliares de enfermagem, que se mostrarem disponíveis, interessados e
dispostos a aprender e a realizar as atividades.
Em relação à continuidade das ações de cuidado de si da equipe dentro do
ambiente de trabalho, é difícil prever o alcance de uma questão tão subjetiva
como essa. Mas, certamente, independente de realizarem no ambiente de trabalho
ações de cuidado de si, algumas pessoas as realizarão fora, pois era nítido que
este cuidado já estava incorporado em suas vidas e que estavam dispostas a
conhecer, valorizar, respeitar e amar-se.
As descrições e reflexões contidas neste trabalho procuraram ser as mais
honestas e transparentes possíveis, para que outras pessoas possam ter uma
noção mais precisa de como foi esta experiência, e assim tenham maior clareza
para reproduzir as atividades realizadas ou para escolher e trilhar o seu
próprio caminho no cuidado de si.
Apesar dos obstáculos encontrados, o que fica são as conquistas. Esta foi uma
experiência única e enriquecedora. O conhecimento e crescimento proporcionados
por este estudo foram muitos: a) o vivenciar a importância do relacionamento
interpessoal e transpessoal; b) ao cuidar das equipes, pudemos nos conhecer
melhor, valorizar, respeitar; c) ter maior consciência sobre nós mesmas e sobre
nossos papéis enquanto enfermeiras; d) poder ir além dos limites técnicos para
adentrar na dimensão humana do cuidado nas suas mais variadas nuances. Com
isso, temos a convicção de que por mais difícil e complicado que o caminho a
ser seguido pareça, vale a pena conquistá-lo quando esse é seu objetivo.