O estresse da equipe multiprofissional na Sala de Cirurgia
PESQUISA
O estresse da equipe multiprofissional na Sala de Cirurgia
The stress of the multiprofessional team in the Operating Room
El estrése del equipo mutiprofesional en el quirófano
Rita Catalina de Aquino CaregnatoI; Liana LautertII
IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Curso de Enfermagem da ULBRA e
UNIVATES. carezuca@terra.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Psicologia. Professora do Curso de Mestrado da Escola
de Enfermagem da UFRGS. lila@enf.ufrgs.br
1. INTRODUÇÃO
O interesse em desenvolver estudo sobre estresse ocupacional gerado nos
profissionais que atuam na Sala de Cirurgia (SC) decorreu de questionamentos
surgidos da experiência de uma das autoras que atuando quase duas décadas como
enfermeira atuante no Bloco Cirúrgico (BC). Percebi este cenário como ideal
para desencadear o processo de estresse. Estes profissionais, além de lidarem
com a vida e a morte, vivem relações de poder e saber desempenhando diferentes
papéis, expressados em formas de controle e resistência.
Tem-se observado que o manejo das situações-problema e o enfrentamento do
estresse variam, tendo cada sujeito maneira própria de perceber, imaginar,
opinar, agir, amar e odiar a partir da sua estrutura psicológica. As vivências
determinam a maneira de sentir e compreender o que se passa em si e no mundo
(1). A história de vida estabelece a forma de entender e interpretar esse
processo, na medida em que se consideram as experiências subjetivas dados
importantes(2).
A partir deste pressuposto, da observação e da reflexão se traz à luz uma
premissa fundamental: os diversos sujeitos apresentam respostas e manifestações
variadas de comportamento quando expostos a fatores com potencial estressor.
A equipe multiprofissional foi escolhida para este estudo de caso, traçando
como objetivos identificar estressores comuns e diferenciados, bem como
conhecer respostas e manejos individuais e coletivos dos profissionais que
atuam na sala de cirurgia, procurando compreender a configuração das práticas e
saberes dos sujeitos na manipulação do seu objeto de trabalho, entendendo-se
que as características das singularidades contêm o conjunto das determinações
da totalidade(2).
Na área ocupacional o estresse tem recebido atenção especial, isto porque afeta
negativamente níveis de satisfação, produtividade, saúde e desempenho do
empregado(3,4), sendo mais intensa em atividades envolvendo inter-
relacionamento de profissionais(5-7). O estresse gera dificuldades de atenção e
concentração, confusão mental, perda temporária da memória, irritabilidade,
cansaço, mal-estar generalizado e acidentes(8). Quando encontra-se elevado,
desorganiza mente e comportamento humano, originando impacto multiplicador
inclusive em recebedores de serviços(9), tornando-se extremamente relevante
investigação visando a compreensão de como este grupo enfrenta o estresse.
O BC é um cenário da explosão tecnológica das últimas décadas, com modificações
dos procedimentos técnicos, na instrumentação e nos equipamentos usados em
cirurgia exigindo constante atualização dos profissionais(10). Soma-se a isso
trabalhos requerendo grande concentração por muitas horas, exigindo rapidez,
provocando tensão e fadiga mental(11), bem como o nível de responsabilidade no
ato cirúrgico, o ritmo e jornadas intensas e extenuantes originando fadiga
física e mental. Cirurgias de grande porte que obrigam equipes a permanecerem
em posições inadequadas e desgastantes. A este quadro somam-se vários fatores
que podem influenciar o desenvolvimento do processo de estresse.
Sabe-se que o estresse é conseqüência inevitável da vida moderna, lotando de
enfartados, deprimidos e ansiosos os consultórios médicos(12). A profissão de
médico no Brasil tem rotina desgastante(13). A baixa remuneração e pressão da
responsabilidade, aliadas à capacidade de trabalho aparentemente inesgotável,
torna-os vulneráveis ao estresse. Outro elemento que aumenta a tensão da equipe
é o conjunto de expectativas do paciente e familiares, gerando dependência
total destes em relação à equipe cirúrgica.
Fica evidente a multiplicidade de estressores, com sobreposição de diversas
variáveis, e a complexidade das interações.
2. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA
Para investigar o processo de estresse ocupacional da equipe multiprofissional
na SC optou-se pela pesquisa qualitativa, partindo da existência de relação
dinâmica entre mundo real e sujeito, interdependência viva entre sujeito e
objeto e vínculo indissociável entre mundo objetivo e subjetividade do sujeito
(15). O sujeito utiliza categorias de pensamento, regras de evidências e
teorias para selecionar e interpretar os diversos aspectos ou objetos de
situações vivenciadas(16). O conhecimento sobre os indivíduos só é possível com
a descrição da experiência humana tal como é vivida e expressas através da
linguagem(17,18).
Como os profissionais do BC apresentam condições socioculturais diferenciadas,
determinadas por sua história e formação, acreditou-se que o estudo de caso(19)
fosse mais indicado, permitindo retratar a realidade revelada por médicos,
enfermeiros e técnicos de enfermagem, evidenciando a multiplicidade de aspectos
a partir da interpretação da dimensão simbólica de cada sujeito.
Nesta pesquisa o campo de ação foi o Bloco Cirúrgico (BC) do Hospital de
Clínicas de Porto Alegre (HCPA), hospital universitário público de grande porte
localizado em Porto Alegre-RS, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, com 12 salas de cirurgias, realizando a média de 1.000 cirurgias/mês
entre eletivas, urgências, emergências e transplantes(20).
Para definir o quantitativo da amostra seguiu-se recomendações de autores que
trabalham com pesquisa qualitativa(2,21,22). Vilarino(22) apóia-se em Vérges ao
sugerir 30 sujeitos como quantidade suficiente para saturação dos dados.
Assim atendendo às recomendações de Stake(21), de que a amostra deve ser
representativa do coletivo e considerando que se estudou quatro categorias de
profissionais (cirurgião, anestesista, enfermeiro e técnico de enfermagem)
selecionou-se oito sujeitos por categoria, totalizando 32. Para traçar o perfil
da amostra, dentro da dimensão psicológica, considerou-se o tipo de
comportamento do sujeito: estressado e não estressado. Para tanto, utilizou-se
o conceito criado por Friedman e Rosenman(23-25), sendo selecionados quatro
sujeitos por categoria. Para compor o grupo de profissionais estressados
(padrão Tipo A) foram selecionados indivíduos que apresentavam regularmente
traços comportamentais de urgência temporal, competitividade e hostilidade,
manifestações típicas do padrão de conduta tipo A. Outros quatro participantes
que não manifestavam este tipo de comportamento, foram incluídos no grupo B.
Buscou-se casos típicos expressando melhor o tipo ideal da categoria,
selecionando casos extremos para fornecer uma idéia dos limites das vivências
estressantes. Como critérios de inclusão, selecionou-se casos representativos
da categoria profissional, determinou-se que todos trabalhassem no mesmo BC, no
mínimo há dois anos.
O projeto foi encaminhado para a Comissão de Ética do Grupo de Pesquisa e Pós-
Graduação (GPPG) do HCPA para aprovação. Os participantes assinaram o Termo de
Consentimento Livre e Informado em duas vias(26).
As técnicas para a coleta de dados foram: entrevista semi-estruturada, ficha
informativa e observação participante. Com o propósito de validar os dados
coletados, os achados foram transcritos e foram entregues aos sujeitos para
apreciação, discussão e validação. Somente após a validação iniciou-se a
análise dos dados.
Trabalhou-se com a técnica de análise de conteúdo, segundo Bardin(27), composta
de três etapas: a pré-análise, a exploração do material, o tratamento dos
resultados e interpretação. O critério de categorização foi semântico,
construindo as categorias temáticas(28).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Devido à extensão dos resultados encontrados, este artigo apresentará apenas a
categorização, resultante das entrevistas, e os resultados comuns entre a
equipe.
Quanto ao perfil dos participantes, a média do tempo de trabalho no BC foi: 27
anos entre cirurgiões, 9 entre anestesistas, 11 entre enfermeiras e 14 entre
técnicos de enfermagem. O nível sócio-econômico-cultural decresce
proporcionalmente conforme as categorias profissionais. Quanto maior o tempo de
escolaridade mais horas trabalhadas durante o dia.
A categorização resultantes das entrevistas foram agrupadas de acordo com
semelhanças semânticas resultando seis categorias e respectivas subcategorias,
apresentadas no quadro_1.
3.1 Vivências Significativas do Estresse
Percebeu-se senso comum entre os participantes ao associarem o estresse a
fatores negativos; as vivências negativas marcam mais, pois são situações
inesperadas onde se perde o controle da situação, desencadeando medo e
sofrimento. O sofrimento do trabalhador começa quando este, após ter usado
todos seus recursos, não consegue mudar a tarefa. "A certeza de que o nível
atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento"
(29).
Intercorrências aparecem como vivências das mais marcantes. A maioria dos
profissionais apontou a morte como intercorrência mais significativa de
estresse. Ela é a maior preocupação dos cirurgiões e anestesistas, pois estes
se consideram responsáveis pelo paciente, inclusive perante a família.
As brigas entre a equipe aparecem também como vivências significativas do
estresse. O trabalho de equipe nas unidades críticas, muitas vezes, gera
descompassos pelas peculiaridades de cada profissional e pela dificuldade de
trabalhar de forma interdisciplinar; em decorrência é gerado o conflito(30).
Na subcategoria sentimentos decorrentes das vivências de estresse, foram,
relatados por todos profissionais: estresse, medo, ansiedade e tensão. Estes
conceitos são muito similares e até mesmo a academia tem dificuldade de fazer a
diferenciação. Kaplan, Sadock e Grebb(24) tentam fazer uma distinção entre medo
e ansiedade descrevendo o medo como um sinal de alerta similar à ansiedade. Da
mesma forma que não é fácil a distinção entre medo e ansiedade, também é muito
difícil estabelecer o limite entre ansiedade e o estresse, pois em ambos os
conceitos existem estímulos (internos/externos) e respostas.
O sentimento de desvalia foi manifestado exclusivamente pela enfermagem. A
percepção de falta de reconhecimento social pelo desempenho do trabalho gera
desgaste da identidade do trabalhador(11) e considera-se o reconhecimento
questão relevante para a saúde mental do trabalhador. Bianchi(31), analisando
algumas pesquisas com enfermeiros que trabalham em BC, verificou que a maioria
apontava falta de reconhecimento pelo seu trabalho. Esta também é apontada por
Massaroni(32) como um estressor para a enfermagem.
3.2 Situações que Geram Estresse
Esta categoria divide-se em sete subcategorias: relacionamento interpessoal,
ato cirúrgico, ambiente, material e equipamento inadequado, incertezas,
comportamento do cirurgião e condições do paciente.
A subcategoria denominada relacionamento interpessoal despontou em todas as
categorias profissionais. Para Albrecht(33) uma das principais variáveis no
equilíbrio físico-psíquico do trabalhador é o contato humano. Vários autores
concordam que efeitos do estresse apresentam-se mais intensamente entre
trabalhadores cujas atividades envolvem o inter-relacionamento de profissionais
de várias áreas(7,34). Isto ocorre com os profissionais que trabalham no BC,
ligados a um emaranhado de relações entre vários profissionais de diversas
áreas; lembrando que a equipe cirúrgica é heterogênea, formada de profissionais
de nível superior, médicos e enfermeiras, e de nível médio, auxiliares e
técnicos de enfermagem(35).
As situações de relacionamento interpessoal apontadas como geradoras de
estresse em todas as categorias profissionais, foram: brigas, desrespeito,
problemas na equipe e falta de comprometimento de alguns profissionais.
O ato cirúrgico é considerado muito importante para todas as categorias
profissionais, nele encontram-se todas as situações que podem representar
sobrecarga gerando estresse nos profissionais: grau de complexidade do
trabalho, responsabilidade pela vida e bem-estar dos outros e as exigências do
trabalho(36).
Os desafios físicos e mentais, multiplicidade de tarefas, status de trabalho e
prestação de contas são variáveis universais desencadeadas durante o ato
cirúrgico interferindo diretamente no equilíbrio físico-psíquico dos
profissionais(33). A diversidade de tarefas está presente no ato cirúrgico;
quanto mais especialidades cirúrgicas um BC estiver apto a atender maiores
serão a diversidade das tarefas e as situações diferenciadas. O status de
trabalho também se encontra, pois além dos cirurgiões considerarem-se
superiores aos colegas de outras áreas, a enfermagem também é considerada como
a "elite da enfermagem"(37), pelo conhecimento que o BC lhes exige. Por último,
a prestação de contas, aos familiares do paciente e naturalmente à instituição
também constitui um desafio aos profissionais.
As situações comuns que geram estresse no ato cirúrgico em todas as categorias
profissionais, foram: atrasos, sangramento descontrolado, mau planejamento da
cirurgia e situações imprevistas.
A subcategoria ambiente aponta várias situações geradoras de estresse. Os
participantes desta pesquisa consideram o BC uma área física estressante por
natureza. As situações ambientais citadas por toda equipe cirúrgica foram: área
fechada, barulho e a temperatura ambiental. As condições de trabalho incluindo
o ambiente físico, químico e biológico, afetam a saúde física do trabalhador,
enquanto que a organização do trabalho irá interferir na saúde mental(38).
O ambiente físico determinado pelo barulho, iluminação inadequada, salas muito
pequenas e clima não adequado é considerado um fator estressor(36). A condição
ambiental, incluindo o espaço físico, pode produzir prejuízos orgânicos através
da temperatura, iluminação inadequada, gazes e substâncias tóxicas, ocasionando
algum grau de distúrbio psicofisiológico no trabalhador(11).
Na subcategoria material e equipamento inadequados estressores comuns foram:
equipamentos e materiais que não funcionam ou que funcionam inadequadamente
durante a cirurgia, uso de materiais inadequados ou ruins, falta de material e
equipamentos. Esta subcategoria pode ser relacionada a uma das condições
citadas por Grandjean(36), a exigência do trabalho. Quando as exigências do
trabalho determinadas pela carga de trabalho e pela atenção não são atendidas
existe tendência de sobrecarga.
A subcategoria comportamento do cirurgião é apontada, até mesmo pelos próprios,
como uma das situações geradoras de estresse. Os cirurgiões reconhecem que seus
comportamentos geram estresse na equipe e quanto mais jovens, menos seguros e
mais agressivos. Relacionaram como comportamentos geradores de estresse:
perfeccionista, muito exigente, irritado e com perda de controle. Os cirurgiões
disseram não gostar da espera e demora. Portanto, esperar a liberação de sala
ou de material são consideradas situações geradoras de estresse. Ficou evidente
que depender dos outros também gera estresse no cirurgião.
É importante considerar diferenças individuais dos profissionais para a
percepção dos estressores. Cada profissional dará significado diferente para a
mesma situação, pois um mesmo fator estressante pode ser motivo de alegria para
um enquanto para outro causa de muito sofrimento e doença(25). As situações
vivenciadas como estressantes afetam de forma diferente o equilíbrio do
profissional, pois cada indivíduo tem um grau de adaptação, dependendo da
experiência prévia em manejar as demandas, do momento, do seu nível de
adaptação, do tipo, número, intensidade e duração do agressor.
Na subcategoria incertezas o desconhecido foi o fator mais apontado pelos
sujeitos. Inegavelmente o desconhecido causa medo nas pessoas. O medo encontra-
se presente em todas as ocupações(29). Sendo os profissionais que trabalham no
BC responsáveis pela vida e bem-estar dos pacientes(36), é evidente que as
situações desconhecidas causarão incertezas e estresse.
A última subcategoria condições do paciente é a que menos estressa estes
profissionais, se comparada às demais. Nela aparece a situação do risco de
morte e a gravidade do caso como geradores de estresse na equipe cirúrgica.
As enfermeiras apontaram a assistência de enfermagem prestada ao paciente no
perioperatório geradora de algumas situações de estresse. Porém, não são as
mais citadas, como também na pesquisa de Bianchi(31), onde os menores escores
de estresse aparecem na assistência ao paciente. Isso ocorre porque o papel da
enfermeira no BC é principalmente de coordenadora do setor, preocupando-se mais
com a organização do ambiente e os equipamentos do que com o paciente(35).
3.3 Comportamento Individual na Sala de Cirurgia
Esta categoria mostra como os profissionais comportam-se no seu cotidiano, e
foi subdividida em três subcategorias: autopercepção do comportamento,
envolvimento com o trabalho e comportamento frente ao estresse. Nesta categoria
trabalhou-se com conceito de padrão de comportamento tipo A e B estabelecido
por Friedman e Roseman(24, 25).
Na subcategoria autopercepção do comportamento verificou-se que os sujeitos
classificados no grupo A reconhecem em si e relatam características semelhantes
às descritas por Friedman e Roseman, quando dizem que pessoas com padrão de
comportamento do tipo A têm excesso de urgência de tempo e hostilidade
competitiva, enquanto as designadas para o grupo B exibem comportamento
diferente, ou seja, "são calmas, menos agressivas, sem pressa e menos propensas
a lutarem vigorosamente para atingirem um objetivo"(24). Interessante que
anestesistas, enfermeiras e técnicos do grupo B disseram que não são rápidos
nem lentos enquanto que nos depoimentos do grupo A aparecem manifestadas a
urgência temporal, a agilidade e rapidez. O padrão de comportamento tipo A
também é uma resposta para um desafio no ambiente; na ausência de uma situação
desafiadora este comportamento pode não se manifestar(23-25).
Na subcategoria envolvimento com o trabalho a característica comum apontada
entre todos os sujeitos é o prazer e satisfação de trabalhar no BC e, em
conseqüência, sentem-se comprometidos com o trabalho e com os pacientes. Quanto
ao envolvimento com o trabalho constatou-se que os médicos do grupo A
consideram-se auto-suficientes e individualistas, enfrentando situações
difíceis como excitantes e desafiadoras; já os do grupo B preocupam-se com os
relacionamentos interpessoais e trabalham em equipe compartilhando
responsabilidades. Os cirurgiões consideram-se o chefe da equipe e o
responsável pelo paciente. Esta opinião é compartilhada por outros
profissionais, os quais consideram ter grande responsabilidade com o paciente,
mas nunca assumindo posição de chefia da equipe. Os anestesistas consideram-se
responsáveis por controlar a dor dos pacientes, as enfermeiras destacam a
importância no seu papel de resolver problemas e autodefinem-se como
facilitadoras enquanto os técnicos deixaram evidente que fazem o seu trabalho
hierarquicamente dependentes do cirurgião.
Krahl(37) diz que o Centro Cirúrgico tem seus próprios rituais, mitos e
"deuses". Concordando com a autora constatou-se, através dos depoimentos dos
cirurgiões nesta pesquisa, que estes se consideram semi-deuses, donos dos
pacientes, com sabedoria e onipotência superior aos demais profissionais,
membros da equipe. Isto ficou evidente principalmente nos cirurgiões do grupo
A.
Quanto ao comportamento frente ao estresse constatou-se que a agressividade
aparece tanto em cirurgiões quanto anestesistas e enfermeiras do grupo A.
Kaplan(39) descreve ser a agressão uma forma de comportamento e não uma emoção.
Diz que a agressividade pode ser acompanhada por raiva, vingança e outros
afetos. Tanto nos depoimentos dos anestesistas quanto das enfermeiras apareceu
que o comportamento e a reação dependerão muito do momento. É importante
destacar que o mesmo agressor que determina estresse numa pessoa poderá ser
neutro para outra, e um acontecimento que pode ocasionar estresse em uma
determinada ocasião, pode não o ser em outro momento(40,41).
3.4 Manejo do Estresse
Esta categoria expressa as formas utilizadas pelos profissionais para enfrentar
o estresse, dividindo-se nas subcategorias: manejo centrado no problema, manejo
centrado nas emoções, manobras de alívio e desenvolvimento das relações
sociais.
O manejo do estresse está vinculado ao processo de enfrentamento, ou seja as
estratégias usadas pelo indivíduo frente a estressores; uma vez exposto, cria
formas de enfrentamento para sobreviver. Em ambientes onde existe contato
intenso com pessoas, o indivíduo se expõe freqüentemente a situações que o
obrigam a utilizar estratégias de enfrentamento ou de adaptação, ocorrendo
repetidas vezes na área humanística(42). Dependendo do padrão comportamental de
cada profissional determina o manejo e as estratégias que utilizará para o
enfrentamento. Sendo a situação percebida como positiva o sujeito, a enfrenta
como um desafio; porém, se esta se apresenta com conotação negativa o sujeito a
enfrenta como ameaça.
Frente a uma situação estressante os profissionais utilizam manejos comuns,
centrados no problema tais como: controlar a situação; tentar resolver o
problema; pedir ajuda ou procurar organizar a situação.
Os manejos centrados na emoção foram diferentes entre profissionais dos grupos
A e B. Os do grupo A apontaram manejos como agressividade, atitude enérgica,
pouca flexibilidade e falar. Os profissionais do grupo B manejam com
flexibilização, ironias, negação, mantendo o comportamento e a calma, não
demonstrando nervosismo, não se abalando e mantendo a tranqüilidade.
As manobras de alívio do estresse foram: contar piadas, dormir, silêncio, ouvir
música ambiental baixa na sala, brincar, rezar, respirar fundo e comer.
O desenvolvimento das relações sociais utilizadas pela equipe cirúrgica, foi:
trabalhar com equipe conhecida e manter sempre a mesma equipe. Os profissionais
do grupo B referiram também humildade, compartilhar o problema, ouvir e
conversar.
O apoio social é um recurso que o indivíduo deve utilizar e cultivar, usando-
o para o enfrentamento do estresse; as pessoas conseguiriam melhores resultados
de adaptação se recebessem ou acreditassem que receberiam apoio do grupo quando
necessitassem(23).
3.5 Responsabilidade e comprometimento
Esta categoria expressa como os profissionais se avaliam e percebem suas
responsabilidades e o comprometimento individual e da equipe.
Embora opiniões contraditórias das enfermeiras sobre a responsabilidade e o
comprometimento da equipe, nos depoimentos da maioria ficou evidente a opinião
de ser a equipe formada por nichos independentes.
Evidenciou-se que os cirurgiões se consideram mais responsáveis e comprometidos
com o paciente e a família do que os outros profissionais. Eles acreditam
ficarem mais expostos, manifestando muito medo de serem responsabilizados em
processos jurídicos por falhas alheias; consideram-se comandantes da equipe,
devendo o controle da situação ser, conseqüentemente, deles. Esta crença é
compartilhada pelos outros membros da equipe; embora verbalizem ser uma
percepção distorcida, alimentam esse credo, agindo de forma como se o BC
girasse em volta dos desejos e necessidades dos cirurgiões.
3.6 Manifestações de estresse
A categoria manifestações de estresse divide-se nas subcategorias: físicas e
psíquicas. Nesta categoria separou-se as manifestações relatadas pelos
profissionais pertencentes ao grupo A e ao grupo B.
A reação fisiológica que o estresse provoca no organismo através da química
hormonal foi definida por Selye(33,36). O aumento de alguns hormônios
(adrenalina e noradrenalina) desencadeia manifestações fisiológicas e
psicológicas(42).
Estresse provoca tanto alterações fisiológicas quanto psicológicas e a medida
em que progride diminuem as condições do indivíduo para tomar decisões e
resolver problemas(43). As alterações físicas comuns: exaustão, fadiga,
cefaléia, lombalgia e insônia. As alterações psíquicas manifestam-se por
mudanças na disposição, irritação ou demonstração excessiva dos sentimentos
(43).
Todos os pesquisados, independente do grupo A ou B, manifestaram alterações
fisiológicas e psicológicas durante o estresse. As manifestações físicas comuns
citadas foram: taquicardia, sudorese, dor (muscular e cefaléia), fadiga,
tremores (mão trêmula), hipertensão arterial sistêmica e boca seca. As
respostas psíquicas mais comuns foram: tensão, ansiedade, medo, estresse,
raiva, tristeza e depressão.
Comparando as manifestações físicas e psíquicas dos participantes dos grupos A
e B, identificaram-se manifestações comuns. Nas físicas, os sujeitos apontaram
a taquicardia, sudorese, fadiga, dor muscular, cefaléia, boca seca e HAS.As
manifestações psíquicas comuns aos dois grupos foram a tensão e a depressão.
A contração, rigidez, tensão muscular, cefaléia e sudorese são percebidas pelo
indivíduo como reações psicofisiológicas do estresse, porém outras
manifestações passam desapercebidas, sem que ele tenha consciência dessas
modificações, como aumento da pressão sangüínea, da glicemia e dos lipídeos
(25,41). A cefaléia, independente se sua etiologia, geralmente é exacerbada
pelo estresse(24). Um dos transtornos do trabalho é a fadiga; quando crônica,
ocorrem distúrbios do sono, irritabilidade, desânimo, algias e alteração do
apetite(11).
O desalento, desânimo, depressão, apatia, agressividade, hostilidade,
ansiedade, angústia, raiva e irritabilidade podem ser desencadeados pelo
estresse, inclusive crises neuróticas e surtos psicóticos(41). A raiva,
frustrações, irritação foram manifestas somente pelos sujeitos do grupo A para
expressar seu sofrimento.
Observou-se que as manifestações psíquicas dos sujeitos classificados no grupo
B foram reações mais contidas, como negação, abalo, debilidade, inibição,
insegurança e chateação, sendo que por várias vezes disseram que não demonstram
seu sentimento.
Evidenciou-se também nesta categoria, que embora identificadas manifestações
comuns entre os grupos A e B, evidenciaram-se muitas diferenças entre eles,
principalmente no que se refere às manifestações psíquicas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constatou-se que as diferentes categorias profissionais que atuam em BC
indicaram vários estressores comuns. O estresse decorre do relacionamento
interpessoal, do ato cirúrgico, do ambiente, dos materiais e equipamentos, do
comportamento do cirurgião, das incertezas e das condições do paciente.
Embora todas as fontes geradoras sejam importantes na gênese do estresse, o
problema de relacionamento interpessoal foi o relatado com maior intensidade
pelos participantes enquanto que o paciente é o que menos gera estresse.
O relacionamento interpessoal conturbado gera conflitos, discussões e
desrespeito entre os integrantes do grupo e é evidenciado pela falta de
coleguismo a qual, pelos depoimentos, deixa transparecer que a equipe cirúrgica
é formada por nichos independentes. Não existe a troca de saberes que
caracteriza uma equipe interdisciplinar, mas sim uma equipe multiprofissional,
onde cada grupo tem poder e interesses diversos. Trabalha-se em grupo, contudo
numa configuração autônoma e fragmentada, porém, frente a uma ameaça externa
eles se unem, passando a atuar circunstancialmente como uma equipe, talvez
quase interdisciplinar. Os sujeitos pesquisados acreditam que isso ocorra
devido a uma grande heterogeneidade, tanto no campo intelectual quanto no nível
sócio-econômico-cultural, entre médicos e enfermagem. Acredita-se que além
destas diferenças, também há falta de compreensão entre os profissionais,
principalmente da área médica, no que se refere aos papéis a cumprir dos
diferentes profissionais, os quais tem a formação direcionada para executar
atribuições inerentes à profissão escolhida.
Um dos grandes geradores de estresse dentro da categoria problemas de
relacionamento interpessoal, é a equipe desconhecida. Os profissionais dizem
que precisam trabalhar ao lado de pessoas conhecidas, com quem tenham empatia e
confiança, criando vínculo semelhante ao familiar. Quando isso não ocorre a
equipe sente insegurança e falta de confiança, desencadeando o estresse.
Os sujeitos, diante das mesmas situações estressantes vividas no seu cotidiano
de trabalho, apresentaram algumas respostas comuns e outras diferenciadas.
Estas respostas podem manifestar-se em nível físico ou psíquico ou ambos.
Quanto aos padrões de comportamento tipo A e B foi identificado que frente ao
estresse vivido na sala de cirurgia, cirurgiões, anestesistas e enfermeiras do
grupo A manifestaram agressividade; já os profissionais do grupo B são
tranqüilos e tentam contornar as situações utilizando várias formas de
enfrentamento do estresse.
Constatou-se que dependendo do padrão comportamental de cada profissional foi
determinado o manejo e as estratégias usadas para o enfrentamento das situações
desafiantes, conforme a conotação dada ao fato vivenciado.
O estresse é percebido e manejado de forma individual por cada indivíduo e
dependerá do momento e da situação que está sendo vivenciada. Nem sempre o
motivo desencadeador é o mesmo, pois depende das vivências, da percepção do
mundo e do grau de responsabilidade técnica de cada profissional.