Pontuando idéias sobre o desenvolvimento metodológico das representações
sociais nas pesquisas brasileiras
REFLEXÃO
Pontuando idéias sobre o desenvolvimento metodológico das representações
sociais nas pesquisas brasileiras
Punctuating ideas on the methodological development of social representations
in Brazilian researches
Puntuando ideas sobre el desarrollo metodológico de las representaciones
sociales en las pesquisas brasileras
Denize Cristina de Oliveira
Doutora em Saúde Pública e Pós-Doutora em Psicologia Social pela École des
Hautes Etudes en Sciences Sociales; Professora Titular da Área de Pesquisa e do
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; coordenadora do Grupo de Pesquisa "A
Atenção à Saúde de Grupos Populacionais"; pesquisadora do CNPQ
Procurando uma aproximação à proposta deste texto, cabe assinalar que uma das
questões de base nas discussões metodológicas sobre os estudos de representação
social, está ancorada na aparente oposição entre métodos quantitativos e
qualitativos. Essa aparente oposição, apesar de gerar polêmicas, parece não
resultar em dilemas de fato, uma vez que é possível observar empiricamente a
emergência de resultados similares em estudos realizados com métodos
diferentes, além de, mais recentemente, a utilização associada de técnicas
qualitativas e quantitativas terem permitido a obtenção de resultados
complementares. Dessa maneira, compreende-se que "o teste de uma inteligência
de primeira ordem é a capacidade de manter no espírito duas idéias
aparentemente opostas ao mesmo tempo, sem perder a capacidade de funcionar"(1).
Um aspecto a destacar nessa discussão é que a escolha metodológica em si não
apresenta um caráter de neutralidade, desde a consideração do objeto de estudo,
até as opções ideológicas e técnicas do pesquisador. Por outro lado, não se
pode negar que essas escolhas derivam também de um conjunto de situações
contingenciais, surgidas no desenrolar do processo de investigação, situações
essas pouco referidas, mas que participam igualmente da determinação do método,
das técnicas selecionadas e dos procedimentos que se estabelecem.
Considere-se ainda, além dos aspectos destacados acima, que nenhum método
isolado, por diversificado que possa ser o seu conjunto de técnicas, permite
recuperar integralmente os dois aspectos fundamentais de uma representação
social, ou seja, seu conteúdo e sua estrutura interna. Nesse sentido, a
configuração da metodologia a ser empregada em um dado estudo nem sempre segue
caminhos estritamente padronizados.
Como ponto de partida, o nível em que o pesquisador deseja acessar a
representação estudada deve intervir nessa escolha de métodos e técnicas. Uma
abordagem plurimetodológica pode apresentar-se como um caminho profícuo nos
estudos que objetivam revelar mais do que um nível, dimensão ou processo de
constituição de uma ou mais representações sociais, formadas e mobilizadas por
uma dada população(2-3). No entanto, essa opção nem sempre se mostra viável nas
pesquisas de pós-graduação, nas quais o tempo é inimigo da perfeição
metodológica, exigindo que o aluno faça sucessivas escolhas, na busca da
viabilidade do seu projeto de pesquisa, circunscrito pelo tempo que lhe é dado
e pelo diferente acesso a informação.
Alguns Conceitos Importantes
Sem pretensão de esgotar o tema, cujo universo conceitual foi objeto de
excelentes autores brasileiros, considera-se neste texto que a assunção de
determinados referenciais simbólicos e axiomáticos representa uma oportunidade
de lançar mão do arsenal metodológico subjacente a eles. Em contrapartida, a
adoção de referenciais representa, também, uma circunscrição do escopo de
observação do evento. Dessa forma, a adoção de símbolos numéricos e premissas
aritméticas para a representação de algum evento, habilita o pesquisador a
analisar o evento com a versatilidade dos números, mas priva-o da oportunidade
de reconhecimento de manifestações que excedam o escopo da representação
numérica e das premissas da aritmética(4).
Essa questão se coloca, na discussão de diversos autores, a partir da
importância dos objetivos explicativos e interpretativos imputados às ciências,
e particularmente às ciências sociais, dentro da qual a Teoria de
Representações Sociais se insere. Essa questão é tratada por Alves-Mazzotti
quando considera que "a ciência tem por objetivo explicar os fenômenos e não
apenas descrevê-los, e esta característica, considerada essencial nas ciências
naturais, é encontrada também nas ciências sociais"(5).
Comentando as posições de alguns autores(6) sobre o tema, Alves-Mazzotti
ressalta que: as ciências sociais são tanto interpretativas como explicativas,
e ... no primeiro caso seus objetivos e procedimentos são distintos dos
encontrados nas ciências naturais, enquanto, no segundo, elas utilizam o modelo
básico daquelas ciências...(5)
Destaca-se, ainda, que "a pesquisa nas ciências sociais hoje se caracteriza por
uma multiplicidade de abordagens, com pressupostos, metodologias e estilos
narrativos diversos"(5).
Aprofundando o debate sobre a metodologia qualitativa, essa abordagem é
particularmente adaptada ao objeto das ciências humanas e sociais, qual seja, o
estudo das condutas humanas em um espaço social e cultural(7). O método
qualitativo é o único a permitir um tratamento holístico, natural e dinâmico
dos fenômenos estudados, no entanto, é preciso considerar que
esse tratamento deve se apoiar, quando não sobre um corpo de hipóteses
rigidamente definidas a priori, pelo menos em um quadro teórico, ou dentro de
uma definição de problemática que orienta a atenção sobre as coisas a olhar, os
dados a serem produzidos em um contexto definido(7).
Apresentando um posicionamento diverso, outra autora(8) trata dessa questão,
afirmando que o termo metodologias qualitativas parte de premissas
contestáveis, uma vez que supõe uma afirmação da qualidade contra a quantidade,
refletindo uma luta teórica entre o positivismo e as correntes compreensivistas
em relação à apreensão dos significados. Se entendermos a interdependência e a
inseparabilidade entre os aspectos quantificáveis e a vivência significativa da
realidade objetiva no cotidiano, veremos a referida denominação como redundante
e parcial(8).
Ao se comparar as abordagens qualitativa e quantitativa de pesquisa, observa-se
que: a pesquisa quantitativa começa com uma idéia (freqüentemente articulada
como uma hipótese), com a qual, através da mensuração, gera dados e, por
dedução, tira conclusões. A pesquisa qualitativa, ao contrário, começa com uma
intenção de explorar uma área particular, coleta "dados" (observações e
entrevistas), e gera idéias e hipóteses a partir desse dado, em grande parte
através do que é conhecido como raciocínio indutivo(9).
Os raciocínios indutivo e dedutivo, por sua vez, podem ser vistos como
inseparáveis, uma vez que "sempre que a indução parte do essencial ela se
confunde com a dedução, pois a análise dedutiva elimina as circunstâncias e
apresenta o fenômeno em sua simplicidade e essencialidade conceitual"(10).
Refletindo sobre essa questão, determinados autores concluem acerca do absurdo
que é opor indução contra dedução, como se indução não fosse raciocínio e,
portanto, dedução: "Indução e dedução vão necessariamente a par como síntese e
análise"(8).
A oposição entre essas abordagens é uma representação, provavelmente
extemporânea e inapropriada, oposição entre racionalismo e empirismo como
paradigmas científicos distintos. Considera-se que diferentes paradigmas
sucedem-se na história das ciências, mas não há relações aditivas entre si que
sugiram uma acumulação progressiva de conhecimento(11). Ao contrário, cada
paradigma representa uma forma de olhar a natureza, e o conhecimento que de um
deriva não se soma ao do outro, mas se opõe a ele como uma interpretação,
supostamente mais eficiente da realidade.
O dualismo entre abordagem racional e experimental chega aos dias de hoje
expresso na oposição entre pesquisas qualitativas e quantitativas. No entanto,
deve-se reconhecer que nem a primeira está isenta de quantificação, nem a
segunda prescinde de raciocínio lógico. São sim, alternativas metodológicas
para a pesquisa, e a denominação qualitativa ou quantitativa não delimita para
uma ou outra objetos qualitativos ou quantitativos, nem tampouco paradigmas
científicos distintos. Ambas podem interessar-se por qualquer objeto, a
identidade de cada uma expressando-se no campo dos métodos e não dos objetos
(4).
A partir dessas reflexões podemos nos posicionar frente ao debate qualitativo-
quantitativo, segundo o qual "em lugar de se destacar uma delas como principal
é preciso saber utilizá-las onde couberem e isso só será possível quando se
tenha em vista que elas vão a par e se completam reciprocamente"(8).
Mas o problema das escolhas necessárias nas pesquisas orientadas pela Teoria de
Representação Social não se esgota nessa solução provisória e, de certo modo,
circular, exigindo que se especifique como a quantificação pode se embricar e
contribuir para a qualificação dos objetos de pesquisa. O que se quer enfatizar
aqui é que técnicas quantitativas de análise talvez possam ser proveitosamente
associadas às técnicas qualitativas, com vistas a melhor definição dos objetos
de pesquisa.
Busca-se estabelecer uma diferenciação necessária entre o dado qualitativo e a
pesquisa qualitativa(4). O fulcro da suposta disputa entre a abordagem
qualitativa e quantitativa de eventos/objetos qualitativos parece residir,
particularmente, nos conceitos de mensuração e objetividade. De um lado, a
análise de dados qualitativos se desqualificaria por se propor a medir o
imponderável e, de outro, a pesquisa qualitativa seria desautorizada por seu
componente subjetivo. Nesse aspecto, deve-se considerar que o dado qualitativo
não pode se confundir com a pesquisa qualitativa, uma vez que esse é a
representação simbólica atribuída a manifestações de um evento qualitativo.
Constituindo-se em uma estratégia de classificação de um fenômeno aparentemente
imponderável que, fixando premissas de natureza ontológica e semântica,
instrumentaliza o reconhecimento do evento, a análise de seu comportamento e
suas relações com outros eventos.
Ao fugir da dualidade pura e simples e buscar o reconhecimento dos diferentes
níveis de contribuição das metodologias qualitativas e quantitativas, podemos
estar dando um passo rumo ao enriquecimento metodológico e melhor definição dos
objetos de pesquisa.
Uma Taxonomia Possível
Observa-se que o estudo das representações sociais permite uma flexibilidade
metodológica importante, tanto no que se refere à escolha das técnicas de
coleta e de análise de dados, quanto ao que se pode obter a partir delas: um
olhar processual sobre uma dada representação ou uma visão estrutural da mesma
(2-3;12-14).
A questão pode ser sintetizada em, uma vez dado um problema de pesquisa de
representação social com características particulares, examina-se quais métodos
e técnicas de estudo disponíveis poderiam dar melhor conta do problema, em
função das dimensões que se quer explorar ou desvendar: descrição do conteúdo
das representações; análise do conteúdo e da estrutura; análise da estrutura.
Para cada dimensão destacada, ora a qualidade se imporá como necessária, e ora
a quantificação da qualidade poderá ser uma ferramenta imprescindível para a
exploração da dimensão pretendida.
Durante o desenvolvimento deste texto, optou-se pela problematização dos
métodos e técnicas quantitativos e qualitativos de pesquisa utilizados, na
busca de uma compreensão taxonômica dos mesmos, refutando a oposição pura e
simples, e ressaltando a sua co-existência complementar. Não se pretende, no
entanto, o detalhamento das técnicas mencionadas na referida classificação, que
poderão ser melhor exploradas entre autores brasileiros(15-17) e europeus
(2,7,12,18-20).
Alguns desses autores insistem em uma distinção fundamental entre os métodos
que possibilitam o acesso ao conteúdo da representação e aqueles que permitem
revelar a sua estrutura(1,12,19). Nessa mesma perspectiva, buscamos propor
neste trabalho uma taxonomia dedicada a esses mesmos níveis de avaliação,
envolvendo ainda as técnicas de coleta e de análise de dados implicadas, bem
como o plano da representação acessado (quadro_1).
Apresentamos no quadro_1 o tipo de técnica de coleta de dados escolhida, as
técnicas de análise aplicáveis a cada material, bem como o plano da
representação acessado.
Pode-se observar no quadro_1 que a variabilidade de técnicas de coleta e de
análise de dados, atualmente em uso no campo de estudos das representações
sociais, é bastante diversificado. Essas técnicas podem ser sintetizados em:
técnicas interrogativas verbais, técnicas interrogativas indutivas e técnicas
associativas. A partir desses três grandes grupos, pode-se mapear o campo
técnico-metodológico desses estudos. As técnicas de análise, por sua vez, se
apresentam em dois conjuntos: as análises qualitativas, especialmente as
variações da análise de conteúdo; e as análises quantitativas, valendo-se das
inúmeras técnicas estatísticas descritivas e inferenciais.
Numa segunda aproximação metodológica, pode-se pensar em uma forma de
classificar os estudos de representação social a partir da intencionalidade
metodológica mesma, inspirados nas classificações mais tradicionais das
pesquisas. Podemos pensar que alguns estudos de representação têm a
intencionalidade básica de descrever uma representação, ou seja, de recuperar o
seu processo de constituição ou os seus conteúdos, por exemplo; ou ainda que em
determinado estudo se pretenda o teste de uma hipótese de ancoragem; ou ainda
que se pretenda comparar duas representações; e finalmente que a experimentação
pode ser desejada.
Nessa perspectiva, os estudos podem ser classificados em função dessa
intencionalidade do pesquisador, ou seja, da finalidade da pesquisa, conforme
abaixo:
Estudos descritivos: Objetivam a descrição de uma representação social sobre
determinado objeto, utilizando técnicas quantitativas e/ou qualitativas.
Estudos analíticos: Pretendem a confirmação quantitativa de elementos de uma
representação social (ancoragem, objetivação, pertença social), ou da
existência de diferenças entre duas representações (comparações ou
experimentações). As técnicas utilizadas são sempre quantitativas.
Estudos comparativos: Dedicam-se a tarefa de identificar a existência de mais
de uma representação num mesmo grupo social, em grupos diferentes ou em
períodos históricos distintos. Deve-se descrever e comparar o perfil de duas ou
mais representações, para certificar-se da existência de diferenças. Podem ser
utilizados, também, para a comparação de dois grupos socialmente distintos,
para os quais presume-se a existência de diferenças nas representações sociais.
Utilizam-se técnicas quantitativas e/ou qualitativas.
Estudos experimentais: Implicam na descrição de uma representação social
sobre determinado objeto, utilizando técnicas quantitativas e/ou qualitativas.
Realiza-se um processo de intervenção intencional, buscando transformar a
representação em estudo. Segue-se com nova descrição da representação em
estudo, e ao final comparam-se as diferenças entre a primeira e a segunda
descrição, visando identificar se ocorreu uma transformação da representação. A
hipótese implícita é a de que se houve transformação da representação, esta
teria sido causada pelo estímulo dado. As técnicas utilizadas são sempre
quantitativas para as comparações, podendo utilizar-se de técnicas qualitativas
ou quantitativas para as descrições.
Muitas das tendências acima se expressam, como pudemos observar, no campo de
pesquisa constituído pela Teoria de Representações Sociais, valendo-se de
técnicas quantitativas, especialmente nos estudos estruturais de Abric e do
Grupo do Midi(2,12, 19), nos estudos de comparação entre grupos de Doise(13),
assim como nos estudos dos processos de constituição da representação de
Valência no País Basco, bem como por Sá, Campos e Oliveira no Brasil(3,14-17).
A metodologia qualitativa e suas técnicas, são particularmente exploradas nos
estudos orientados a uma abordagem processual das representações, e são
competentemente desenvolvidos por Jodelet, Bauer e Bancks(7,20) , e por um sem
número de pesquisadores brasileiros, como Schulz, Camargo, Arruda, Prado e
outros.
Uma última reflexão necessária, se refere à coleta de informações sobre as
práticas cotidianas, quando o foco de atenção do pesquisador é lançado sobre as
relações entre representações e práticas sociais. Na maior parte das pesquisas,
as práticas dos atores são inferidas a partir dos seus relatos, apesar da
existência de técnicas específicas para um recorte focalizado nas práticas
sociais ou individuais, tais como, a observação participante e a observação
controlada ou orientada. Trata-se aqui também de uma opção metodológica
condicionada pelo nível de acesso ao objeto de estudo que se julga
satisfatório, em função dos objetivos estabelecidos. Neste caso, trabalha-se
mais com práticas relatadas ou "representadas" do que com práticas efetivadas.