Cuidado humanizado no ensino de enfermagem
REFLEXÃO/REFLECTION/REFLEXIÓN
Cuidado humanizado no ensino de enfermagem
Humanized care in the teaching of Nursing
El cuidado humanizado en la enseñanza de enfermería
Maria da Graça Motta
Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem/ UFSC, Professora Adjunta da
Escolas de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
E-maildo autor: mottinha@enf.ufrgs.br
1 Introdução
Abordar o tema "Cuidado Humanizado" conduz à reflexão sobre condição humana,
pois se vive e se convive em um mundo onde se necessita, freqüentemente,
reiterar os valores humanos. Para a área da saúde este é um tema fundamental,
considerando que se lida com os fenômenos existenciais com a saúde e a doença,
desenvolvem-se ações de cuidado ao Ser ao longo das etapas evolutivas, em
momentos existenciais críticos, como nascimento, a doença e a morte(1).
A doença e a morte são facticidades da existência humana. São momentos que
revelam a fragilidade do ser no mundo, geradores de dor e sofrimento, uma
situação traumática. Os acontecimentos com o corpo repercutem na existência do
ser no mundo porque o corpo constitui sua presença no mundo perante o outro,
significa o ser encarnado convivendo com o outro(2). A corporeidade é: "a
maneira específica da presença do homem no mundo"(3:100).
A doença é para o ser-no-mundo uma facticidade existencial complexa e difícil,
pois desorganiza o seu mundo, altera a sua imagem corporal e simbólica,
exacerba os sentimentos e as reações, e o ser necessita reconstruir o seu modo
ser no mundo: um ser corporal e simbólico, com limitações.
O Curso de Graduação em Enfermagem procura, com base nas Diretrizes
Curriculares Nacionais, implementar um currículo que privilegie a formação de
um enfermeiro generalista, humanista, crítica e reflexiva, pautada nos
princípios científico e ético.
Buscam-se, na atividade docente, estratégias que auxiliam o aluno a aprender a
refletir, a questionar sobre sua práxis. Este relato é uma reflexão sobre a
construção de cenários de aprendizagem que ofereçam subsídios ao acadêmico para
aprender a enfrentar as realidades existenciais da saúde e da doença do mundo
do cuidado.
2 Cuidado humano
O cuidado significa preocupação e ocupação, faz parte da estrutura do homem
enquanto viver(3). As necessidades de cuidado são ampliadas nos momentos
críticos da existência: o nascimento, a doença e a morte.
A enfermagem é uma ciência humana, uma arte que lida com experiências de seres
humanos no processo Saúde-doença, mediadas por transações pessoais,
científicas, estéticas e éticas do cuidado humano(4).
O processo de cuidar é:
o desenvolvimento das ações, atitudes e comportamentos com base no
conhecimento científico, experiência, intuição e pensamento crítico,
realizada para o e com o paciente/cliente, ser cuidado no sentido de
promover, manter e/ou recuperar sua dignidade e totalidade humana
(englobam o sentido de integralidade e a plenitude física, social,
emocional, espiritual e intelectual nas fases do viver e morrer)(5:
145).
A enfermagem é uma ciência e arte humanística que promove e mantém a saúde
através de ações de cuidado, auxiliando as pessoas a superar os efeitos da
doença como fenômeno social, existencial e cultural.
A saúde é um estado de bem-estar culturalmente definido, avaliado e praticado
que reflete a capacidade que os indivíduos e/ou grupos possuem para realizar
suas atividades cotidianas de forma satisfatória(4). Entre os principais
componentes do cuidado destaca-se o conhecimento como fundamental para o
processo de cuidar, isto é, quem é o ser cuidado, seus poderes, limitações e
necessidades, acrescentando-se, ainda, como relevante conhecer os poderes e
limitações do cuidador(6).
A paciência é também outro elemento no processo de cuidar, ou seja, deixar o
outro crescer em seu próprio tempo e maneira, tolerância com as limitações,
confusões e divagações. Por sua vez, a sinceridade é uma condição necessária ao
cuidador, não mentir e enganar deliberadamente os outros.
Outro crescimento do outro, reconhecer a sua independência e deixá-lo em
liberdade, incluindo-se o da humildade, um dos elementos que exige do cuidador
disponibilidade para aprender sobre o outro e sobre si mesmo, superar a
pretensão, falsa modéstia e avaliar as próprias limitações e poderes.
A esperança é mais um aspecto essencial no ato de cuidar acreditar na
potencialidades do outro. A coragem, por fim, é apresentada como último
componente do cuidado, pois requer do cuidador que se lance no desconhecido e
confie nas suas próprias capacidades e na capacidade do outro de crescer.
O cuidado é compreendido pelo cuidador a partir do encontro com o outro. É um
processo complexo, com uma variedade de significados, envolvendo o ser doente,
a família e os integrantes da equipe de saúde(7). N compromete-se com o ser
cuidado, busca compreender o seu modo de ser e seu mundo, bem como o cuidado de
si próprio.
3 Cuidado à criança / adolescente e família
O cuidado à criança / adolescente é intermediado pela família, o seu
referencial no mundo. A família é o espaço que oferece à criança amor, afeto,
proteção e segurança, cria condições para que possa crescer e desenvolver suas
potencialidades como ser-no-mundo.
A doença gera uma ruptura na dinâmica familiar, a criança e a família ingressa
em outro mundo, um mundo estranho, o mundo do hospital. A família passa a
vivenciar outra dimensão do existir. Os seus projetos de futuro são ameaçados,
passa a enfrentar a possibilidade de perda do filho, e aflora uma gama de
sentimentos: medo, culpa, raiva(7).
A vida cotidiana é abalada, sendo necessário o afastamento de casa e dos outros
filhos, e a dinâmica familiar tem que ser redimensionada.
A equipe de saúde, sensível à dor e ao sofrimento físico e emocional da
criança, mostra-se solidária com a família, estabelece vínculos e cria uma rede
de informações e apoio. A presença da família é decisiva para o cuidado da
criança, significa segurança, preserva o mundo da criança, mantém vivos os
laços de afeto, representa o elo da criança com o mundo do hospital.
O cuidador, ao estabelecer uma relação de ajuda com acriança/adolescente e sua
família, passa a desempenhar um papel de facilitador na adaptação da criança e
da família no enfrentamento desta facticidade existencial.
A família adquire coragem e força para prosseguir na caminhada com o filho
doente, ratifica-se como fonte de afeto, geradora de segurança e apoio para a
criança e reforça a esperança como auxílio terapêutico.
Abordar as causas e as repercussões da violência intrafamiliar no mundo da
criança e adolescente é outro tema relevante no cuidado da criança e
adolescente e sua família. O cuidado à integridade física e psicológica da
criança tem sido foco de atenção no Brasil, sendo traduzida, pela Legislação
Brasileira, em 1990, com a Lei 8069 - Estatuto da Criança e Adolescente-ECA(8).
Na atualidade, verifica-se um aumento alarmante da violência, e acredita-se que
a este fato deva estar conjugado ao aprofundamento do conhecimento nesta área e
a uma divulgação mais efetiva, através dos meios de comunicação de massa, sobre
a questão da violência doméstica contra a criança e o adolescente.
A violência e a negligência contra a criança/adolescente são identificadas, em
sua grande maioria, no universo familiar. A violência é manifesta em diferentes
formas: física, psicológica, sexual e a negligência.
Vários segmentos da sociedade têm buscado um conjunto de medidas para promover
estratégias de proteção à criança e ao adolescente, considerando ser um grupo
etário vulnerável aos agravos físicos e emocionais.
As instituições hospitalares têm registro crescente do número de crianças
vítimas de negligência e/ou maus-tratos. Este fato tem mobilizado os
profissionais das diferentes áreas do conhecimento, em especial da saúde, a fim
de criar estratégias para a prevenção da negligência e da violência contra a
criança e o adolescente, bem como o compromisso na formação de profissionais
preparados para enfrentar esta realidade tanto em nível de Graduação quanto de
Pós-Graduação.
A família é uma unidade dinâmica inserida em um contexto social, uma
organização complexa de relações íntimas e construtivas da identidade pessoal,
dando forma e significado às interações entre os elemento do núcleo familiar
(9).
A violência transcende a força física e a coação pessoal, apresenta-se de forma
sutil como a coerção psicológica, a desigualdade social(10).
O fenômeno da violência surge como uma realidade no mundo das relações
familiares. A família é um lugar de refúgio, de afetividade, entretanto, pode
ser caracterizado como um ambiente de cuidado ou descuidado para a criança e o
adolescente.
4 O ser enfermeiro
O enfermeiro é um profissional preparado para o cuidado humano, objetivando a
promoção da qualidade de vida e a manutenção da integridade do ser. A
sensibilidade, o respeito ao outro, a bioética associados ao conhecimento
técnico-científico são elementos fundamentais para o desempenho de um
profissional crítico, reflexivo e comprometido com a qualidade do cuidado em
enfermagem.
No processo de cuidar, a presença do cuidador é fundamental, pois a presença do
enfermeiro no mundo do hospital significa:
estabelecer laços pessoais de intersubjetividade, onde há espaço para
a confiança e a esperança... Que esta presença tivesse mãos hábeis e
carinhosas. Hábeis porque fundadasem conhecimentos seguros e dotados
de técnicas eficazes; carinhosas, porque inspiradas num coração
sensível. Acima de tudo que esta presença tivesse um rosto. Um rosto,
comunicativo, expressivo, falante, mesmo no mais profundo silêncio; e
o rosto fosse iluminado por um olhar humano, como um elo que me une a
todos os olhares amigos que esperam a restauração da plenitude da
vida; ou , então o último gesto que comunica com a paisagem da vida
que desaparece...que esse olhar ...mais que um adeus de despedida,
fosse uma agradável lembrança e eterna de um mundo que fica(11:129-
30).
5 Oficinas de criatividade
As oficinas são realizadas utilizando-se o Método Criativo Sensível e esta
técnica oferece um espaço de reflexão e construção do conhecimento para os
acadêmicos de enfermagem, permitindo "a manutenção da singularidade da cada
participante do grupo que coletiviza suas experiências"(1:63).
A finalidade de valer-se deste recurso é a possibilidade de combinar ciência e
arte, criatividade e sensibilidade, utilizando-se de diferentes dispositivos
para a concretização das oficinas, criando uma relação dialógica - dialética
entre os acadêmicos e o docente. Desse modo, busca-se sensibilizar e
instrumentalizar os acadêmicos para a realidade existencial das crianças e
adolescentes em situação de sofrimento físico e emocional causado por
negligência e/ou violência, e para a vivência da família com a doença grave do
filho.
As dinâmicas de criatividade privilegia o diálogo entre os participantes, são
explorados os problemas ou questões básicas, os conceitos e as vivências,
subsidiados pela produção artística.
As oficinas são realizadas com grupos de seis acadêmicos, e a dinâmica é
dividida em três momentos. No primeiro momento são fornecidas as orientações
sobre o método e são iniciadas as atividades criativas, a partir dos temas
"vivências infantis", na primeira oficina, e, na segunda, "cenas de família".
No segundo momento são apresentadas as produções artísticas (pintura, desenhos,
modelagem, depoimento escrito, entre outros) que foram realizadas
individualmente ou em grupo, criando o espaço para a discussão e reflexão,
explorando o tema em questão, compartilhando idéias, conceitos, e vivências. Na
discussão também são valorizadas as conexões com o referencial teórico, as
opiniões, os estudos realizados na área, são pontuados os aspectos relevantes
para o cuidado.
No terceiro momento são apresentados referenciais teóricos, resgatando os
aspectos importantes do tema, dando continuidade à reflexão e à construção
coletiva do conhecimento. No final é realizada uma avaliação da dinâmica.
6 Refletindo sobre a vivência
A utilização do Método Criativo Sensível mostra-se eficiente para desenvolver
conteúdos complexoscomo a prevenção da negligência e violência contra a criança
e o adolescente e o cuidado de famílias com filho hospitalizado com doenças de
prognóstico reservado,considerando a sua informalidade e riqueza de formas de
expressão. Este método possibilita ao acadêmico partilhar com o grupo vivências
que julga importante, por vezes, relatadas de forma muito criativa.
A realização das oficinas favorece a construção coletiva do conhecimento, com a
participação ativa dos acadêmicos e do docente. Busca-se analisar, com o
auxílio do suporte teórico, a situação sob diversos ângulos, refletindo-se
sobre estas problemáticas, despertando o interesse do acadêmico para o cuidado
da criança/adolescente e família que vivencia a dolorosa realidade da violência
e ou doença do filho.
Outro ponto relevante é perceber a sensibilidade e o despertar do interesse dos
acadêmicos, a partir de suas histórias, para a realidade das crianças/
adolescentes e famílias em situação de dor física e emocional.
Destaca-se a importância atribuída ao papel do cidadão e dos profissionais de
saúde, na proteção a estas crianças /adolescentes e famílias de risco.
No processo de cuidar, quando o cuidador estabelece uma relação de ajuda com o
ser cuidado e sua família, pautada no respeito, na liberdade, no compromisso e
no entendimento do significado da experiência da doença para o grupo familiar,
com compaixão, o cuidador exerce a função de facilitador na adaptação e no
enfrentamento da doença do filho. A equipe de saúde pode ser auxiliar neste
processo, pois está instrumentalizada tecnicamente, assegurando um tratamento
competente, mantendo uma relação ética e estética, onde está presente a
intersubjetividade e sensibilidade. A ação de cuidado deve ser permeada pela
solicitude, respeito, afeto e cooperação, estabelecendo uma rede de apoio para
a criança/adolescente e família.
O profissional de Enfermagem, desde a formação acadêmica, deve ser preparado
para enfrentar a realidade complexa do mundo do cuidado, tendo como valores
existenciais a sensibilidade e a solicitude na construção de uma prática
voltada para o Ser, a partir do Ser.