O significado do câncer no cotidiano de mulheres em tratamento quimioterápico
PESQUISA/RESEARCH/INVESTIGACIÓN
O significado do câncer no cotidiano de mulheres em tratamento quimioterápico
The meaning of cancer in the everyday of women undergoing chemotherapeutic
treatment
El significado del cáncer en el cotidiano de mujeres en tratamiento
quimioterápico
Catarina Aparecida SalesI; Maria Aparecida Salci MolinaII
IEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora da Universidade Estadual de
Maringá
IIEnfermeira. Especialista em Saúde Mental. Enfermeira do Programa da Saúde da
família da Secretaria de Saúde de Maringá
E-mail do autor: calescida@wnet.com.br
1 Introdução
Em seu cotidiano, a pessoa com câncer convive com transtornos emocionais,
cognitivos e comportamentais, condicionados ao fato de sua vida estar, muitas
vezes, ligada a uma doença grave. A ameaça que a doença suscita, de
incapacidade ou risco de vida, é difícil de ser abarcada emocionalmente, pelo
doente. Nesses momentos, a dúvida e a incerteza soterram as esperanças e
crenças existentes e, esses seres voltam-se para as pessoas ao seu redor,
buscando sempre uma possibilidade de expressar seus temores e sentimentos(1).
Da vivência de uma das pesquisadoras ao desenvolver suas atividades em um
ambulatório oncológico, surgiu o interesse pela história de vida desses
pacientes, que em muitos momentos, expressavam a necessidade de compartilhar
seus sentimentos durante as sessões de quimioterapia. Em face dos relatos
emocionados de mulheres ao expressarem as mudanças ocorridas em seus ambientes
familiares, em virtude da doença e do tratamento, emergiu o nosso interesse em
buscar compreender o sofrimento dessas mulheres nesse seu existir no mundo com
câncer, uma vez que, entendemos sua importância no liame enfermagem/mulher, e
mãe/cuidado.
Historicamente, a mulher sempre se destacou como um alicerce de sustentação no
seio familiar, principalmente no que tange ao cuidado de seus entes queridos. A
proteção materna instintiva sempre se destacou no processo de cuidar, sendo
considerada por historiadores e antropólogos, como a primeira forma de
manifestação do ser humano, no cuidado aos seus semelhantes. Durante o período
primitivo e medieval o cuidado aos doentes era praticado por feiticeiros,
sacerdotes e, principalmente, por mulheres dotadas de aptidão e que possuíam
conhecimentos rudimentares sobre ervas e preparo de remédios. Em vista disto,
as mulheres descobriram recursos do meio ambiente e familiarizaram-se com
diferentes plantas e a relação destas com o clima, altitude e estações. Através
deste conhecimento, elas preparavam infusões de plantas, vinhos, óleos,
elixires, e, assim, não apenas utilizavam as plantas como fonte de alimento,
mas também se aprofundavam em suas propriedades curativas específicas(2).
Dotada de uma especial capacidade para perceber, sentir e analisar as
situações, a mulher tornou-se, ao longo dos tempos, uma fonte de apoio aos seus
entes queridos, visando sempre transmitir a compreensão, e o respeito a seus
familiares, preservando assim a união familiar. Todavia, ao se descobrir
acometida por uma doença cuja possibilidade de acarretar a morte se torna algo
concreto, a mulher passa a vivenciar uma inversão em seu papel, de pessoa
cuidadora a um ser cuidado.
Acreditamos que o profissional enfermeiro não deva apenas promover a saúde
dentro das instituições cuidadoras, mas também procurar depreender os
sentimentos enredados no bojo de cada pessoa portadora de uma doença crônica,
como o câncer. Cumpre-lhe, repensar o cuidado tanto físico como psíquico, ou
seja, o cuidado integral ao ser doente e seus familiares, encorajando-os a
encarar seus problemas e superar as dificuldades domésticas que são encontradas
diante do enfrentamento da doença. Assim o que deve mover a prática e a
pesquisa da enfermagem são:
as situações concretas vivenciadas pelas famílias em seu cotidiano e
a necessidade de compreender suas relações com seus membros e com
outros grupos que compõem a sociedade, não de forma isolada, mas como
elas ocorrem na realidade(3:248).
A nosso ver, a essência da profissão é o cuidado, sendo este o verdadeiro
instrumento dos profissionais enfermeiros. O cuidar, vai além de executar
técnicas: é, necessário em muitos momentos se colocar no lugar do outro e
perceber, mesmo na linguagem não-verbal, as necessidades, tanto fisiológicas
como emocionais: dar ao outro conforto e segurança, para que possa conviver com
os momentos difíceis de forma mais amena e tranqüila. Essa concepção é
reforçada
Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que
um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude
de ocupação, preocupação, de representação e de envolvimento afetivo
com o outro(4:33).
Esta visão do cuidado a partir da compreensão do homem, enquanto, um Ser-no-
mundo, conduziu-nos à preocupação de compreender como as mulheres portadoras de
neoplasias vivenciam suas experiências à medida que toma consciência do seu
estar-lançada-no-mundo com câncer. Assim, depreender os sentimentos desses
seres propiciará uma aproximação da doente com seus familiares, possibilitando-
lhes direcionar suas ações para o enfrentamento de sua doença e,
principalmente, para seu conviver com outras pessoas.
2 Trajetória metodológica
A estratégia metodológica que conduziu o estudo está fundamentada na abordagem
fenomenológica existencial de Martin Heidegger. Este método procura desvelar o
fenômeno, ou seja, aquilo que se mostra a si mesmo, e não o explicando-o a
partir de conceitos, de crenças ou de um referencial pré-estabelecido. Como um
método de pesquisa, a fenomenologia existencial e ontológica "é um modo de
consciência, um modo de ser e de ver, que assume uma tarefa de reinterpretar
todos os conhecimentos como expressões de nossa experiência - sentido do ser
humano"(5:154).
Neste pensar, para a realização do estudo inquirimos sete mulheres com
neoplasia em tratamento quimioterápico, em uma clínica oncológica situada no
Noroeste do Paraná nos meses de outubro e novembro de 2001(6). Inicialmente
explicitamos as depoentes os objetivos do estudo e solicitamos que as pacientes
prestassem sua colaboração, respondendo à seguinte questão norteadora. "Como
tem sido para você lidar com o câncer em seu cotidiano?". Ressaltamos ainda
que, as entrevistas foram realizadas após aprovação desta pesquisa pelo Comitê
Permanente de Ética em Pesquisa que envolve Seres Humanos da Universidade
Estadual de Maringá.
Para interpretar a linguagem das mulheres entrevistadas, inicialmente,
realizamos leituras atentivas de cada depoimento, assinalando as unidades de
significado, ou seja, partes de cada discurso que se mostraram de interesse
para as pesquisadoras, tendo como base a questão norteadora Em seguida,
agrupamos as unidades suscitadas de cada discurso e construímos as categorias,
das quais emergiram dois momentos distintos vivenciados pelas informantes, que
passaremos a interpretar à luz de algumas idéias de Heidegger(7).
3 Resultados e discussão
Ao serem interrogadas sobre sua experiência em vivenciar o câncer em seu
cotidiano, as mulheres expressaram o seu ver, sentir e, viver com a doença
dentro do tempo e espaço no qual estão inseridas. Dos discursos analisados
pudemos apreender, que as concepções das informantes se alojam em sua vivência
com o câncer e em sua vivência com os familiares após o diagnóstico do câncer.
3.1 A sua vivência com o câncer
O homem é ao mesmo tempo ator e autor de sua própria história. Ao estar no
mundo torna-se um realizador de seus projetos, planejar faz parte de seu
existir cotidiano. Isso, quer dizer que, como um ser existente e pensante, o
homem é capaz de planear seu tempo no mundo. Não obstante, ao perceber-se com
câncer, se entristece perante a possibilidade do não- pensado, do não-
planejado , ou seja, a possibilidade da morte(6).
A expressão estar-lançado indica a facticidade de ser entregue à
responsabilidade do que é e tem de ser. Entretanto, no pensar heideggeriano
essa possibilidade iminente da morte, que traz ao homem sentimentos de temor e
angústia, desperta-lhe também a consciência para a sua possibilidade ontológica
de um poder-ser total e autêntico, pois, antecipando previamente sua morte, o
Ser-aí pode passar a existir autenticamente em vista de si mesmo(7).
Nesse sentido, visualizamos nos discursos que, ao assumirem sua condição
existencial, ou seja, estar-no-mundo com câncer, as depoentes buscam, através
da compreensão, um entendimento de sua situação. Suas falas entremostram as
transformações ocorridas nelas próprias, sua capacidade de lutar e, buscar uma
forma saudável de lidar com a condição dolorosa e desagradável perante a
doença, dedicando-se a atividades que possibilitem um bem-estar e, também a
restauração do corpo, da alma e de sua dignidade. Agora viajo mais, "estou
ficando mais andeja", tirando o câncer e a quimioterapia é a melhor fase da
minha vida (S3). agora tento passear mais, adoro fazer compras, principalmente
de roupas., Ccomprar roupas me dá muito prazer, mesmo porque não suporto ficar
em casa (S4).
Antes eu não tinha lazer, agora faço aula de pintura em tela, curso
de dança. e hidroginástica. Sempre gostei de cozinhar, mas após o
diagnóstico de câncer sinto mais prazer em preparar a alimentação de
meus familiares(S1).
Observamos também nas falas que, ao despertarem-se para sua possibilidade
existencial, as doentes desvelam-se como um ser de preocupação, projetando-se
em direção àquilo que é passível de ocupação e feitura, para o que é urgente e
inevitável nos negócios, nos afazeres cotidianos (6). Durante a leitura dos
depoimentos percebemos que as pacientes exprimem sua preocupação com suas
ocupações cotidianas, entremostrando sofrimento por não conseguirem desenvolver
sua atividades. O que mais me entristece é não poder trabalhar nesse momento,
sou babá e ainda não dá para buscar trabalho, estou me sentindo uma inútil
(S4). Eu não consegui ficar afastada do meu serviço, tirei somente duas semanas
após a cirurgia, voltei para a mesma função, não consegui ficar em casa (S5).
durante todo o tratamento de quimioterapia vou ficar de licença, mas
sinto falta do meu trabalho, pois ele me distrai. Eu gosto muito de
trabalhos manuais, sempre que eu me sinto bem realizo várias
atividades em casa(S7).
A descoberta da patologia é um momento difícil de ser enfrentado pela pessoa,
pois esta, não apenas passa a conviver com o estigma social de o câncer ser uma
doença cujas possibilidades de cura são mínimas, mas também teme os efeitos
tóxicos que a quimioterapia causará em seu organismo. As toxicidades da
quimioterapia podem afetar vários sistemas do organismo e os sintomas
apresentados são perturbadores para o doente, principalmente, aqueles que
envolvem o sistema gastrointestinal(8). Porém, constatamos que, apesar de
conviverem com as restrições impostas pela doença e o tratamento, as doentes
buscam formas de enfrentar essas vicissitudes, adaptando seus hábitos
alimentares. A nosso ver, essas concepções dos sujeitos revelam a consciência
de estarem no mundo não como seres doentes, mas sim, como seres que lutam pela
própria vida.As seguintes falas ilustram essa interpretação. Passei a cuidar
melhor da alimentação, deixei de tomar adoçantes, diminuí a carne vermelha, e
aumentei as frutas, verduras e legumes (S1). Agora, devido à bolsa de
colostomia, evito alimentos cru e leite (S2). Quanto à alimentação procuro
comer o que dá vontade, só diminuí a carne (S4). Melhorei minha alimentação;
agora tento evitar massas e doces, como mais frutas e legumes (S6). Na minha
alimentação tirei a pimenta, a carne de porco e melhorei o cozimento dos
alimentos (S6). Com relação à alimentação, mudou bastante; evito carne de porco
e, aumentei a qualidade de frutas e água de coco (S7).
Assim, ao penetrarmos no mundo destas pacientes, entendemos que elas procuram
lutar para manter acesa a chama da esperança. Na concepção heideggeriana
"aquele que tem esperança se carrega, por assim dizer, a si mesmo para dentro
da esperança, contrapondo-se ao que é esperado"(7:143).
3.2 A vivência com seus familiares após o diagnóstico de câncer
O ser humano é um ser-no-mundo, existindo sempre em relação com algo ou alguém,
e nesse estado compreende as suas experiências, ou seja, estabelece um
significado próprio aos objetos e seres em seu mundo, dando assim, sentido à
sua existência. Nesse pensar, o ser-no-mundo é determinado pelo com. o mundo do
Ser-aí é um mundo compartilhado com os outros.
E é neste ser-com-outro que o homem visualiza a possibilidade de situar-se com
alguém, não apenas como objeto de cuidado, mas, de uma forma envolvente e
significativa. Heidegger(7), considera esse relacionamento afetuoso com alguém
como solicitude, que engloba as características básicas de ter consideração e
paciência para com o outro.
O existir do doente com câncer é marcado por um sofrimento contínuo, que traduz
sentimentos diferentes, dependendo dos momentos que vive e das crises que
experiencia. A doença é parte do indivíduo e, nessa concepção, é essencial
pensar que ela está enredada no viver de seus familiares. Nesse entender,
averiguamos nos discursos das pacientes que a doença tornou-as mais abertas no
diálogo com seus filhos, melhorando assim, seu relacionamento com eles. Eu só
tenho um filho, que é adotivo;, ele sempre foi muito apegado a mim e agora
continua (S2). Minhas filhas me dão mais carinho e agora conversamos mais (S3).
Meus filhos amadureceram bastante após o diagnóstico (S4). Meus filhos são
muito atenciosos, preocupados, me telefonam e visitam sempre (S5).
me tornei uma mãe melhor, passei a ter mais diálogo e conversar mais
com as crianças sobre assuntos que poderiam prepará-los para a vida,
porque se eu morrer quero que eles caminhem sozinhos e estejam
preparados para encarar a vida(S1).
A família ao vivenciar o câncer em seu cotidiano enfrenta uma situação dolorosa
que desperta-os para a possibilidade da morte de seu ente querido(9:813).
Entretanto, no pensar heideggeriano essa possibilidade iminente da morte, que
traz ao homem sentimentos de temor e angústia, aviva-lhe também a consciência
para sua possibilidade ontológica de um poder-ser total e autêntico. Neste
sentido, verificamos na linguagem das depoentes que sua doença suscitou a fé,
no seio familiar, pois em uma das falas a paciente manifesta que após o
diagnóstico de câncer suas filhas passaram a ter mais fé, e acreditar mais em
Deus(6).
minhas filhas passaram a ter mais fé. No dia em que descobrimos o
diagnóstico estávamos no segundo dia de uma novena, elas começaram a
rezar, foi como se Deus tivesse dado um "puxão de orelhas" nelas para
a religião(S6).
Averiguamos também nos discursos, que a família ao percebe que seu ente querido
pode deixar de estar próximo, buscam ignorar e evitar a morte negando o fato em
si, ou seja, a morte como algo presente em nossa existência. A atitude dos
familiares nesse caso, pode sugerir um estado de negação perante a
possibilidade de perder um ente querido. Leshan,(10) em seu estudo com doentes
com câncer, expõe que o respeito é a palavra-chave para uma comunicação
autêntica. Para o autor, a negação pode ser consciente, quando os familiares
não comentam sobre a doença para proteger seu ente querido, e, inconsciente,
quando eles realmente acreditam na negação, ou seja, não existe nem a
possibilidade da doença. Nessa perspectiva, pontuamos a seguinte fala:
minha família sempre foi muito unida e acho que nos fortalecemos mais
ainda, só que ninguém toca no assunto, mesmo sabendo de tudo que está
acontecendo, eles evitam falar porque assim acreditam que ajudam a
diminuir o meu sofrimento(S7).
Ao patentear seu relacionamento com os respectivos maridos, as pacientes
demonstram em suas falas que após o diagnóstico de câncer, eles tornaram-se
mais próximos, entremostrando em seus discursos, as manifestações de solicitude
de seus esposos para com elas. Nesse sentido as doentes relatam: Sinto que
depois do câncer tudo mudou, mas tudo para melhor, meu marido está mais
atencioso, só o desejo sexual que diminuiu muito (S3). Meu relacionamento com o
marido não mudou, a vida está normal (S4). Meu marido foi um enfermeiro para
mim, fazia de tudo após minha cirurgia (S5).
Não obstante, as manifestações de solicitude expressadas pelas informantes, uma
delas declarou em sua fala que após o diagnóstico, seu marido afastou-se ,
exprimindo com pesar a separação, as dificuldades financeiras e, a preocupação
com a segurança dos filhos. Ao decompor- a linguagem contida na unidade de
significado, notamos que, ela vivenciou em seu mundo domiciliar um estar-com-o-
marido, através de sentimento de indiferença, isto é, não sentir-se tocada, o
não sentir-se amada, uma vez que, seu marido vem ao seu encontro apenas para
cumprir as obrigações que lhe foram designadas para com os filhos.
O relacionamento com meu marido ficou pior em tudo, veio o divórcio,
ele não pagava pensão e não me ajudava com as crianças em nada [...]
faz nove meses que voltei com meu marido, porque reiniciei o
tratamento e precisava que ele estivesse presente com as crianças,
porque morava em um lugar perigoso para elas [...] mas nossa vida
sexual eu classifico como ruim, faz oito meses que a gente não tem
relação sexual(S1).
Na visão heideggeriana, esse modo de estar-com-o-outro, desvela uma forma
deficiente de solicitude. O Ser contra o outro, ou seja, não sentir-se tocado
pelo outro, é uma maneira possível de deficiência e indiferença no cuidado.
Assim, da mesma forma que o encontro autêntico traz em si a alegria do cuidado,
a inautênticidade afeta de forma significativa o domínio do encontro. O outro
não é alguém que faz parte do meu cuidado(6), pois o "cuidado nasce de um
interesse, de uma responsabilidade, de uma preocupação, de um afeto"(11:17).
4 reflexões sobre o estudo
Ao iniciarmos este estudo buscamos não apenas investigar o cotidiano da mulher
com câncer, mas também depreender as mudanças que a doença lhes impõe em seu
mundo-vida familiar. Assim, pudemos abarcar que em sua existência com câncer, a
mulher ouve, vê e conhece, imagina e espera, alegra-se e angustia-se, em
virtude de sua facticidade.
Percebemos, que, em sua existencialidade, cada pessoa reage de forma diferente
perante suas vicissitudes, desvelando quão dolorosos ou prazerosos são os
acontecimentos da vida, cabendo ao enfermeiro estar atento a sua linguagem(12).
O ser é sempre afetado nas relações que estabelece com os outros. Mudando-se as
condições, alteram-se os parâmetros, trazendo diferentes afinações, ora na
alegria, ora na tristeza, ou raiva, ou dor. A busca por uma experiência mais
autêntica de vida só pode se dar se nos permitimos toda e qualquer
possibilidade do ser-aí, isso significa a ampliação do seu projeto existencial.
Nos discursos analisados averiguamos que estar-no-mundo com câncer não torna as
pacientes angustiadas, exiladas em si mesmas, mas as fortalece para
transcenderem suas próprias angústias e buscarem novos caminhos para o
enfrentamento da doença. Dessa forma, elas se projetam para as suas próprias
possibilidades, pois em sua existencialidade o Ser-aí transmite uma história,
na cotidianeidade das vivências que estabelece com o mundo(13).
A inquietação estrutura o ser do homem dentro da temporalidade, prendendo-o ao
passado, mas, ao mesmo tempo, lançando-o para o futuro. Assumindo seu passado
e, ao mesmo tempo, seu projeto de ser, o homem afirma sua presença no mundo.
Ultrapassa então o estágio da angústia e toma o destino nas próprias mãos.
Compreendemos também que a família, na concepção das entrevistadas, faz parte
não apenas de sua doença, mas também, de sua luta para terem novamente uma vida
saudável. Em nossa opinião, as pacientes mantiveram um relacionamento autêntico
com seus familiares, baseado, na maioria dos casos, nos elementos importantes
do existir humano, como afetividade, carinho e compreensão.
A nosso ver, escutar e olhar atentamente torna-se um instrumento importante
para que o enfermeiro compreenda os doentes com câncer, em sua singularidade.
Para tanto, é fundamental entrar em seu mundo e, ver as coisas através de seus
olhos e escutar com envolvimento suas experiências. Enfim, nos foi permitido
compartilhar histórias de vida e sentimentos de cada sujeito do estudo e,
principalmente, apreender que o cuidar é uma arte a ser aprendida.
Caminhando, saberás. Andando, o indivíduo configura o seu caminhar. Criar
formas dentro de si e ao redor de si. E assim como na arte, o artista, se
procura nas formas da imagem criada, cada indivíduo se forma nas formas de seu
fazer, nas formas de seu viver(14).