Método de análise de conteúdo: ferramenta para a análise de dados qualitativos
no campo da saúde
1 Introdução
Na realização de uma pesquisa científica nos deparamos com diversas etapas,
podendo surgir obstáculos na sua execução. Essas dificuldades, via de regra,
são associadas muitas vezes, ao desconhecimento e, principalmente, a não
familiaridade com os métodos ou técnicas empregados.
Normalmente quando o pesquisador iniciante termina a etapa de coleta de dados,
geralmente uma fase exaustiva, que se não realizada adequadamente pode
comprometer toda a pesquisa, poderá ter a falsa sensação que o trabalho está
para terminar, ou poderá pensar: agora falta pouco! Ledo engano. Talvez a fase
de analisar os dados, na execução de uma pesquisa científica, seja um dos
momentos mais nevrálgicos e a escolha do método ou da técnica para a sua
realização necessite do pesquisador muita atenção e cuidado. Essa escolha
realmente tem que ser adequada e proporcionar a exploração dos dados em toda a
sua riqueza e possibilidades.
No universo das pesquisas qualitativas, a escolha de método e técnicas para a
análise de dados, deve obrigatoriamente proporcionar um olhar multifacetado
sobre a totalidade dos dados recolhidos no período de coleta (corpus), tal fato
se deve, invariavelmente, à pluralidade de significados atribuídos ao produtor
de tais dados, ou seja, seu caráter polissêmico numa abordagem naturalística.
Um método muito utilizado na análise de dados qualitativos é o de análise de
conteúdo, compreendida como um conjunto de técnicas de pesquisa cujo objetivo é
a busca do sentido ou dos sentidos de um documento.
Percebo em minha experiência, uma grande dificuldade do pesquisador iniciante
ou não familiarizado com o método de análise de conteúdo, que invariavelmente
recorre aos parcos materiais, geralmente em forma de livros, sobre o assunto.
Estes textos, apesar de apresentarem uma riqueza de informações sobre o método,
muitas vezes necessitam de uma decodificação e amplas adaptações à realidade
estudada, sobretudo na enfermagem, pela multiplicidade de problemas abordados
(1).
Desta maneira o objetivo deste trabalho é apresentar de uma maneira clara
conceitos e aspectos importantes que fazem parte do método da análise de
conteúdo e analisar alguns pontos, que segundo nossa experiência são centrais.
2 Alguns aspectos históricos do uso da análise de conteúdo
A primeira tentativa, por assim dizer, para responder à indagação: o que essa
mensagem significa exatamente?, surgiu com a decodificação de símbolos, sinais
e mensagens, por meio da exegese (avaliação minuciosa) dos textos bíblicos,
para a possível interpretação de metáforas e parábolas contidas neste
documento.
Posteriormente, no século XVII na Suécia, mais exatamente em 1640, análises de
conteúdos prematuras são citadas em referência à pesquisa de autenticidade de
hinos religiosos e os efeitos que por ventura poderiam ter sobre os luteranos.
Neste evento foram verificados os temas, valores, modalidades e complexidade
estilísticas destes escritos (2).
No período que compreende 1888-1892, o francês B. Bourbon tentou captar a
expressão das emoções e das tendências da linguagem, utilizando para isso
escritos bíblicos, mais especificamente o êxodo, numa perspectiva temática e
quantitativa.
Um exemplo clássico e importante sobre a utilização da análise de conteúdo,
passa ser o seu uso na interpretação dos artigos da imprensa, sobretudo nos
Estados Unidos no início do século XX, onde há um maior desenvolvimento dessas
técnicas, inicialmente para medir o impacto sensacionalista dos artigos, sempre
seguindo um rigor quantitativista em relação ao tamanho dos títulos, artigos e
número de páginas.
Posteriormente com o advento da 1a. Guerra mundial, o interesse voltou-se ao
estudo da propaganda. Um trabalho de H. Lasswell editado em 1925 ilustra o
fato, Propaganda Technique in the World War, agrupa análises de imprensa e
propaganda deste período. Importante salientar que os Estados Unidos viviam um
momento no qual os conceitos behavioristas eram amplamente aceitos, o que
direcionava sua análise para uma vertente comportamental objetiva, que visava
avaliar a relação estímulo/reação comportamental dos sujeitos envolvidos(3).
Importante assinalar aqui a ruptura, ainda existente nesta época, entre a
psicologia social e a lingüística, sendo que apesar das duas utilizarem o mesmo
objeto de interesse, ou seja, a linguagem, a primeira se ocupava com a busca de
realidades por meio das mensagens e a segunda do estudo da linguagem(2), as
duas disciplinas se davam às costas e se ocupavam cada qual com sua visão
específica(4).
O interesse pelas ciências políticas, nos Estados Unidos, na década de 40,
aliados aos acontecimentos da época, como a 2a Guerra Mundial fizeram com que a
análise de conteúdo fosse largamente utilizada na descoberta de jornais ou
revistas que ofereciam propagandas subversivas, principalmente com ideologia
nazistas. Nesta época, Lasswell da Universidade de Chicago, continuava seus
estudos sobre a análise dos símbolos e a ele se juntaram outros pesquisadores
de diversas áreas como sociólogos, psicólogos e cientistas políticos.
Metodologicamente se projetaram também Berelson e Lazarsfeld, que
sistematizaram as preocupações epistemológicas da época, sintetizados no livro
The analysis of communication contents, editado em 1948.
Berelson, Lazarsfeld e Lasswell são os verdadeiros marcos criadores de um
instrumental de análise de conteúdo(5). Percebe-se, porém, essa metodologia
impregnada de objetividade e o rigor se confundem com os pressupostos
positivistas, excluindo outras possibilidades de avaliação qualitativa do
material.
Nos princípio da década de 50, existe uma frustração de seus próprios autores
em relação ao método. O próprio Berelson afirma: "A análise de conteúdo não
possui qualidades mágicas e raramente se retira mais do que nela se investe e
algumas vezes menos (...) no final das contas não há nada que substitua as
idéias brilhantes"(2:20).
O desencantamento inicial apesar de depressivo e desolador, usando da própria
análise de conteúdo desta fala, trás uma "brilhante idéia"; mostra-nos que não
poder-se-á prescindir, além do rigor matemático, de outra forma de validação
como a percepção dos conteúdos latentes e intuição não passível de
quantificação(5).
Nas décadas que se seguiram até os tempos atuais, o que existe são debates e
discussões a respeito do uso do método segundo as perspectivas quantitativas
descritas por Berelson, Lazersfeld e Lasswell e seus seguidores e as novas
tendências, mais voltadas à procura dos conteúdos não manifestos e associadas
às inferências sobre o material estudado, numa perspectiva qualitativa de
pesquisa. Importante assinalar que o desenvolvimento da informática das últimas
décadas trouxe no campo na análise de conteúdo, o desenvolvimento de programas
de computação apropriados para a verificação da freqüência de ocorrência de
palavras em determinado texto, o que favoreceria uma abordagem por
frequenciamento do material.
3 Conceitos e definições sobre análise de conteúdo
Para definir análise de conteúdo remeti-me aos conceitos de dois autores
estudiosos do assunto. O primeiro deles é Berelson, como visto anteriormente,
um dos primeiros a sintetizar a análise de conteúdo como técnica de estudo, na
década de 40 e apresentava uma definição fortemente baseada no modelo
cartesiano de pesquisa: "análise de conteúdo é uma técnica de pesquisa que visa
uma descrição do conteúdo manifesto de comunicação de maneira objetiva,
sistemática e quantitativa"(6:18).
Hoje críticas se fazem em relação ao uso restrito que Berelson empregava,
principalmente no tocante à negação dos conteúdos latentes da comunicação, como
objeto de atenção nas análises.
Desta forma Bardin configura a análise de conteúdo como um conjunto de técnicas
de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos
de descrição do conteúdo das mensagens(2). Porém, a própria autora afirma que
este conceito não é suficiente para definir a especificidade da técnica,
acrescentando que a intenção é a inferência de conhecimentos relativos às
condições de produção (ou, eventualmente de recepção), inferência esta que
ocorre a indicadores quantitativos ou não.
Desta forma, atualmente, a técnica de análise de conteúdo refere-se ao estudo
tanto dos conteúdos nas figuras de linguagem, reticências, entrelinhas, quanto
dos manifestos(7).
É importante frisar que novas abordagens conceituais e utilização do método,
principalmente de inclusão de novas perspectivas nas pesquisas da área de saúde
tem sido verificadas contemporaneamente, citando Minayo e Turato,
respectivamente na abordagem dialética(5) e clínico-qualitativa(8).
4 Os domínios do método de análise de conteúdo
A análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise de comunicações (2),
assim sendo, é destacada neste campo, a importância da semântica para o
desenvolvimento do método. Entendo-se por semântica aqui, a pesquisa do sentido
de um texto.
Desta forma, é viável que se delineie os campos dos métodos de análise de
conteúdo, como vemos no quadro_1:
Pode-se por assim dizer que o método de análise de conteúdo é balizado por duas
fronteiras: de um lado a fronteira da lingüística tradicional e do outro o
território da interpretação do sentido das palavras (hermenêutica).
Se o caminho escolhido voltasse para o domínio da lingüística tradicional, a
análise de conteúdo abarcará os métodos lógicos estéticos, onde se busca os
aspectos formais típicos do autor ou texto. Nesse território, o estudo dos
efeitos do sentido, da retórica (estilo formal), da língua e da palavra,
invariavelmente evolui, na lingüística moderna, para a "análise de discurso".
No outro lado, sob a fronteira da hermenêutica, os métodos são puramente
semânticos, subdividindo-se em métodos psicológico-semânticos, que pesquisam as
conotações que formam o campo semântico de uma imagem ou de um enunciado, e em
métodos semânticos estruturais, que se aplicam a universos psico-semânticos ou
sócio-semânticos mais ampliados.
No centro, localiza-se o grupo de métodos lógico-semânticos, lógicos, pois se o
alcance da análise de conteúdo é de um classificador, assim sendo, a
classificação é lógica, segue parâmetros mais ou menos definidos e o analista
se vale de definições, que são problemas da lógica.
5 Uma breve discussão acerca dos conteúdos
O conteúdo de uma comunicação, não obstante a fala humana, e tão rica e
apresenta uma visão polissêmica e valiosa, que notadamente permite ao
pesquisador qualitativo uma variedade de interpretações. Talvez o maior "nó" em
relação à abordagem desses conteúdos está em como visualizá-lo no campo
objetivo, a princípio mais palpável; e no campo simbólico, ou seja, naquilo que
não está aparente na mensagem. Isto nos remete a uma breve discussão sobre os
limites dos "conteúdos manifestos" e dos "conteúdos latentes" de uma mensagem.
Em relação aos conteúdos manifestos (explícitos), é dele que se deve partir
(tal como se manifesta) e não falar "através dele", num exercício de mera
projeção subjetiva, da mesma maneira é importante que os resultados da análise
de conteúdo devam refletir os objetivos da pesquisa e ter como apoio indícios
manifestos no conteúdo das comunicações(4).
Entretanto, muitas vezes ouvimos dizer que nem sempre aquilo que se está
escrito é o que verdadeiramente o locutor queria dizer, ou mesmo, que existe
uma mensagem nas entrelinhas que não está muito clara, pois bem, chegamos a
encruzilhada, onde nem sempre os significados são expressos com clareza
absoluta, ou onde acaba a objetividade e começa o simbólico.
Para o investigador qualitativo, tal momento, reveste-se de suma importância,
pois a desconsideração de um em detrimento do outro, pode colocá-lo frente à
situação de negação completa da subjetividade humana ou por outro lado, a
imposição de seus próprios valores em desconsideração a um pressuposto básico
da pesquisa qualitativa, ou seja, os dados são analisados levando-se em
consideração os significados atribuídos pelo seu sujeito de pesquisa. De
qualquer forma acreditamos que esses extremismos devam ser evitados, não
reeditando o falso conflito entre os métodos quantitativos e qualitativos, mas
sim os considerando como complementares.
Desta maneira, a análise de conteúdo não deve ser extremamente vinculada ao
texto ou a técnica, num formalismo excessivo, que prejudique a criatividade e a
capacidade intuitiva do pesquisador, por conseguinte, nem tão subjetiva,
levando-se a impor as suas próprias idéias ou valores, no qual o texto passe a
funcionar meramente como confirmador dessas.
Outro ponto importante ainda dentro dos conteúdos, e que esses tendem a serem
valorizados à medida que são interpretados, levando-se em consideração o
contexto social e histórico sob o qual foram produzidos(4).
6 A importância da inferência para a análise de conteúdo
A análise de conteúdo como conjunto de técnicas se vale da comunicação como
ponto de partida. Diferente de outras técnicas como a estocagem ou indexação de
informações, crítica literária, é sempre feita a partir da mensagem e tem por
finalidade a produção de inferências.
O ato de inferir significa a realização de uma operação lógica, pela qual se
admite uma proposição em virtude de sua ligação com outras proposições já
aceitas como verdadeiras(2.39).
Produzir inferências sobre o texto objetivo é a razão de ser da análise de
conteúdo; confere ao método relevância teórica, implicando pelo menos uma
comparação onde a informação puramente descritiva sobre o conteúdo é de pouco
valor. Um dado sobre conteúdo de uma comunicação é sem valor até que seja
vinculado a outro e esse vínculo é representado por alguma forma de teoria(4).
Segundo este ponto de vista, produzir inferência, em análise de conteúdo
significa, não somente produzir suposições subliminares acerca de determinada
mensagem, mas em embasá-las com pressupostos teóricos de diversas concepções de
mundo e com as situações concretas de seus produtores ou receptores. Situação
concreta que é visualizada segundo o contexto histórico e social de sua
produção e recepção.
7 Fases da análise de conteúdo
É necessário explicitar aqui, que apresentaremos as fases de uma análise de
conteúdo sem a preocupação ou pretensão de priorizar este ou aquele autor
específico, preocupamo-nos sim em determinar de uma forma geral e sucinta os
componentes básicos que os diversos autores denominam muitas vezes com outros
nomes, mas que de uma forma geral são comuns à maioria. Desta maneira
utilizamo-nos do campo lógico-semântico para ambientar tal descrição.
I) Fase de pré-exploração do material ou de leituras flutuantes do corpus das
entrevistas
Selecionado o corpus a ser analisado procede-se às leituras flutuantes de todo
o material, com o intuito de apreender e organizar de forma não estruturada
aspectos importantes para as próximas fases da análise. Na leitura flutuante
toma-se contato com os documentos a serem analisados, conhece-se o contexto e
deixa-se fluir impressões e orientações(2).
São empreendidas várias leituras de todo o material coletado, a princípio sem
compromisso objetivo de sistematização, mas sim se tentando apreender de uma
forma global as idéias principais e os seus significados gerais.
Podemos garantir que nesta fase da análise existe uma interação significativa
do pesquisador com o material de análise, pois como um contato totalizante,
muitas das impressões trabalhadas no contato direto com o sujeito afloram na
lembrança e auxiliam na condução deste procedimento.
Nesta fase a utilização de uma leitura menos aderente, promove uma melhor
assimilação do material e elaborações mentais que forneceram indícios iniciais
no caminho a uma apresentação mais sistematizada dos dados. Essas leituras
iniciais promovem uma visão "descolada", a qual permite ao pesquisador
transcender a mensagem explícita e de uma forma menos estruturada já conseguir
visualizar mesmo que primariamente, pistas e indícios não óbvios.
II) A seleção das unidades de análise (ou unidades de significados)
Uma das mais básicas e importantes decisões para o pesquisador é a seleção das
unidades de análise. Nos estudos qualitativos, o investigador é orientado pelas
questões de pesquisa que necessitam ser respondidas. Mais freqüentemente, as
unidades de análises incluem palavras, sentenças, frases, parágrafos ou um
texto completo de entrevistas, diários ou livros (9). Existem várias opções na
escolha dos recortes a serem utilizados, mas percebemos um interesse maior pela
análise temática (temas), o que nos leva ao uso de sentenças, frases ou
parágrafos como unidades de análise.
O tema pode ser compreendido como uma escolha própria do pesquisador,
vislumbrada através dos objetivos de sua pesquisa e indícios levantados do seu
contato com o material estudado e teorias embasadoras, classificada antes de
tudo por uma seqüência de ordem psicológica, tendo comprimento variável e
podendo abranger ou aludir a vários outros temas.
O evidenciamento das unidades de análise temáticas, que são recortes do texto,
consegue-se segundo um processo dinâmico e indutivo de atenção ora concreta a
mensagem explícita, ora as significações não aparentes do contexto.
Difícil neste momento é delinear com absoluta transparência os motivos da
escolha deste ou daquele fragmento, sem levar em consideração que a relação que
se processa entre o pesquisador e o material pesquisado é de intensa
interdependência. Para tal são utilizados os objetivos do trabalho e algumas
teorias como primeiros norteadores, porém, não se pode na análise dissociar-se,
nem em última instância abster-se do uso de recursos mentais e intuitivos que
muitas vezes transcendem as questões postuladas e são definitivamente
necessários a uma análise deste porte.
Não obstante, podemos dizer que a opção por essa ou aquela unidade temática é
uma conjunção de interdependência entre os objetivos do estudo, as teorias
explicativas adotadas pelo pesquisador e por que não dizer as próprias teorias
pessoais intuitivas do pesquisador.
Neste constante ir e vir entre os objetivos do trabalho, teorias e intuições do
pesquisador emergem as unidades de análise que futuramente são categorizadas
conforme explico a seguir.
III) O processo de categorização e sub-categorização
O processo de categorização pode ser definido como
uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por
diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero(2:117).
Desta forma, podemos caracterizar as categorias como grandes enunciados que
abarcam um número variável de temas, segundo seu grau de intimidade ou
proximidade, e que possam através de sua análise, exprimirem significados e
elaborações importantes que atendam aos objetivos de estudo e criem novos
conhecimentos, proporcionando uma visão diferenciada sobre os temas propostos.
As categorias utilizadas podem ser apriorísticasou não apriorísticas:
Se apriorística, o pesquisador de antemão já possui, segundo, experiência
prévia ou interesses, categorias pré-definidas. Geralmente de larga abrangência
e que poderiam comportar sub-categorias que emergissem do texto. Entre os prós
e os contras desse tipo de categorização estão inicialmente as comodidades de
um certo balizamento, o que permitiria ao pesquisador classificar diretamente
suas unidades de análises dentro destas categorias preferenciais e a partir daí
diversificá-las em subcategorias. No entanto, percebe-se nitidamente que muitas
vezes, partir de categorias pré-definidas pode limitar a abrangência de novos
conteúdos importantes que por algum motivo não se "encaixem" nessas categorias
prévias, promovendo um certo "engessamento" das categorias temáticas.
No caso da escolha pela categorização não apriorística,essas emergem totalmente
do contexto das respostas dos sujeitos da pesquisa, o que inicialmente exige do
pesquisador um intenso ir e vir ao material analisado e teorias embasadoras,
além de não perder de vista o atendimento aos objetivos da pesquisa.
A verdade é que não existem fórmulas mágicas que possam orientar o pesquisador
na categorização, e que nem é aconselhável o estabelecimento de passos
norteadores(4). Em geral, o pesquisador segue seu próprio caminho baseado nos
seus conhecimentos teóricos, norteado pela sua competência, sensibilidade,
intuição e experiência.
Oportuno ressaltar aqui, que existe um outro ponto que pode causar a primeira
vista polêmica, no momento do agrupamento das unidades de análise que
constituirão categorias, ou seja, fazê-lo por freqüenciamento ou quasi-
quantitativa (repetição de conteúdos comuns à maioria dos respondentes) ou por
relevância implícita (tema importante que não se repete no relato de outros
respondentes, mas que guarda em si, riqueza e relevância para o estudo).
Pensamos que as duas modalidades não são excludentes, como já comentamos
anteriormente sobre o falso conflito entre qualitativistas e quantitativistas.
Citamos aqui para exemplificar, o uso dessas duas técnicas em nossa tese de
doutorado, na qual definimos os significados atribuídos ao tratamento de
hemodiálise pelos doentes renais crônicos (10).
Conjuntamente na formação das categorias e sub-categorias, é prudente a
codificação das unidades de análise para que essas não se percam na diversidade
do material trabalhado. Codificar é o processo através do qual os dados brutos
são sistematicamente transformados em categorias e que permitam posteriormente
a discussão precisa das características relevantes do conteúdo(4).
O processo de codificação, ou seja, a marcação das unidades de análise, com
sinais ou símbolos que permitam seu agrupamento posterior (em categorias ou
sub-categorias), geralmente é muito individual, cabendo ao pesquisador se valer
da forma que mais lhe agrade. Percebemos, em nossa experiência, que a
codificação alfa-numérica tem a preferência de boa parte deles.
Percebemos que no exercício da categorização se abre um leque de categorias,
principalmente quando se escolhe o meio não apriorístico, sendo que esta etapa
é exaustiva e deve culminar com movimentos de reagrupamento e configuração
final das categorias e subcategorias.
Apesar de didaticamente, esse item aparecer em uma seqüência lógica,
acreditamos que o exercício de compreensão e discussão dos dados ou resultados
é um processo que possa ser feito conjuntamente com os outros passos da
análise, ou seja, à medida que são feitos, os idos e vindos ao material, ao
corpo teórico norteador, referencial pessoal do pesquisador e suas inferências.
Esse processo coloca o pesquisador em um momento, solitário, pois ele vivenciou
a coleta de dados e manteve por todo este período contato com seus sujeitos de
pesquisa, angariando dados e percepções que só ele teve acesso. No entanto,
viés da percepção e escrutínio pode acontecer, mesmo as teorias pessoais do
pesquisador podem vir acompanhadas de idéias pré-concebidas ou cristalizadas
sobre o fenômeno, desta forma se faz necessário o ajuizamento desta análise
como veremos a seguir na sua validação.
Como no processo de coleta de dados, no uso dos instrumentos e técnicas, também
é necessária uma validação da análise procedida pelo pesquisador. Existem
diversas formas de se realizar essa validação, por exemplo, na triangulação de
teorias, na qual se analisa os dados tomando por base várias teorias e tenta-se
encontrar validade intrínseca pelo embasamento de cada uma delas.
Mais comumente tem-se usado à validação externa, por juízes e pelos pares.
Também se pode apresentar os resultados, aos pares, nos grupos de discussão e
pesquisa, apresentando e debatendo os resultados nestes fóruns.
8 Considerações finais
Fazer uma abordagem do método de análise de conteúdo, significa demonstrar sua
versatilidade, mas também seus limites enquanto técnicas. Vislumbramos assim,
que o desenvolvimento deste método passa invariavelmente pela criatividade e
pela capacidade do pesquisador qualitativo em lidar com situações que, muitas
vezes, não podem ser alcançadas de outra forma. De qualquer maneira é uma
importante ferramenta na condução da análise dos dados qualitativos, mas deve
ser valorizado enquanto meio e não confundido como finalidade em um trabalho
científico.