O gerenciamento em enfermagem frente a pauperização das condições materiais de
trabalho
REFLEXÃO
O gerenciamento em enfermagem frente a pauperização das condições materiais de
trabalho
Management in nursing in the current state impoverishment of working conditions
La gestión en enfermería frente a pauperización de las condiciones materiales
de trabajo
Roseney BellatoI; Wilza Rocha PereiraII
IEnfermeira. Professora Doutora Adjunto II do Departamento de Enfermagem da
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso. Vice
Coordenadora do Grupo de Pesquisa Enfermagem, Saúde e Cidadania.
IIEnfermeira. Professora Doutora Adjunto III do Departamento de Enfermagem da
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso. Coordenadora do
Grupo de Pesquisa Enfermagem, Saúde e Cidadania.
Correspondência
1 Introdução
Partindo de dados obtidos em pesquisa já finalizada (1) procuramos, nesse
estudo, problematizar alguns aspectos do processo de gerenciar serviços de
saúde e enfermagem perante a pauperização das condições físicas, no que se
refere ao mobiliário, aos materiais e equipamentos, disponíveis para a
assistência à saúde, pois entendemos que essas condições tornam o usuário e o
trabalhador de enfermagem mais expostos a situações desnecessárias, como
constrangimentos legais ou riscos a integridade física que se tornam mais
freqüentes em condições precárias de assistência.
Guia-nos na busca por essa compreensão o pressuposto de que as condições
precárias, tanto de materiais como de equipamentos destinados à assistência
prestada na instituição em estudo contribuem, sobremaneira, para a privação da
cidadania, tanto dos usuários, que se vêem submetidos a uma assistência à saúde
carente de qualidade, quanto dos trabalhadores de enfermagem, que exercem suas
atividades profissionais sob condições precárias de trabalho, processo esse que
torna ambos os segmentos vulneráveis, embora de forma diferenciada.
Estamos, nesse estudo, dando continuidade acerca dos pressupostos que devem ser
construídos para que possamos iniciar a problematização acerca das garantias e
dos direitos daqueles que têm maiores necessidades dentro dos contextos dos
serviços públicos de saúde, iniciando uma reflexão da aplicação de conceitos
como vulnerabilidade, ética e responsabilidade técnica, presentes no processo
de gerenciar, assistir e cuidar a partir de uma realidade específica(2).
2 Metodologia
Nos baseamos em pesquisa já finalizada(1) para, retomando os dados sob uma nova
ótica, aprofundar a análise dos mesmos tendo em vista o objetivo deste artigo.
Fizemos um estudo do tipo exploratório-descritivo em uma instituição hospitalar
pública de porte médio da cidade de Cuiabá - MT. Os dados foram colhidos junto
a 71 pessoas, dessas 65 se encontravam internadas e 06 eram acompanhantes de
crianças na clínica pediátrica. Tivemos então, 25 pessoas entrevistadas na
clínica médica, 19 na clínica cirúrgica, 20 na clínica gineco-obstétrica, 01 na
clínica pediátrica, e mais as 06 acompanhantes de crianças internadas na
clínica pediátrica da instituição em estudo.
Tivemos como técnica de coleta de dados a estratégia da Observação Sistemática
através de um roteiro que nos permitiu avaliar o espaço físico, o mobiliário,
os materiais e equipamentos disponíveis para a assistência à saúde nas clínicas
estudadas. Nessa observação foram coletados dados relativos tanto a existência
desses itens, como também quanto ao número e condições de uso e de manutenção
dos mesmos, sendo que posteriormente foram analisados qualitativamente no que
se refere a sua implicação na assistência à saúde das pessoas internadas e
confrontados com alguns aspectos da legislação em vigor na área.
O período de coleta de dados deu-se de setembro/2003 a março/2004, sendo que,
além das pesquisadoras, participaram também dessa fase alunas de enfermagem
bolsistas PIBIC/CNPq.
Todos os preceitos éticos estabelecidos na Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde no que se refere à pesquisa envolvendo seres humanos foram
respeitados (3). Tivemos a anuência de todos os sujeitos da pesquisa, e também
do responsável pela instituição de saúde onde a pesquisa se desenvolveu.
3 As condições físicas dos materiais e equipamentos para a execução da
assistência de enfermagem aos usuários da instituição estudada
Em trabalho recente(4) foi constatado que os trabalhadores de enfermagem
sentem-se desconfortáveis no exercício de sua função principalmente devido às
más condições de trabalho que encontram nas estruturas físicas, nos recursos
materiais, equipamentos e mobiliários disponíveis para o processo de cuidar e
prestar conforto ao usuário. Relatam também preocupação com a biossegurança dos
profissionais e dos clientes, fatos que aumentam o desgaste de todos no
processo de assistir em enfermagem. Neste estudo pudemos confirmar estas
inquietações ao analisarmos todos os itens que compunham a unidade do paciente,
bem como todos os equipamentos e materiais disponíveis para executar a
assistência de enfermagem em uma realidade específica estudada.
Lembramos que esta análise é um aprofundamento de material já colhido para
outra pesquisa e que percebemos o potencial ainda contido nos dados para
explorar um novo arcabouço conceitual, que relacionasse os aspectos legais com
os gerenciais, seus limites éticos e de cidadania dentro do serviço estudado a
partir da avaliação das condições materiais que estão dadas para o paciente
internado e para o processo de cuidar.
O Ministério da Saúde define que a unidade do paciente deve ser composta
minimamente por: cama e colchão, escadinha, mesa de cabeceira, travesseiro e
cadeira, sendo que há uma área mínima para que esses elementos sejam
adequadamente posicionados e ainda permitam a circulação de pessoas, cadeiras
de rodas e macas dentro das enfermarias e ainda ofereçam espaço para a execução
de cuidados com segurança.
Em relação ao item espaço físico da unidade do paciente constatamos que em
todas as clínicas há déficit importante no espaço destinado ao paciente, sendo
isto agravado no sistema de alojamento conjunto, no qual há também os berços
para os recém-nascidos que ficam junto às suas mães, na mesma metragem
destinada a um leito comum. Temos aqui um problema de natureza gerencial pois
se o espaço é menor que o mínimo legal exigido, aumentam as possibilidades de
infecção cruzada(3)e de caracterização de conduta negligente por parte de quem
administra, pois este não deve ignorar as normas do Ministério da Saúde para
construção e adequação do espaço físico hospitalar, que são definidas de forma
exata e não relativa(5).
A banalização do olhar cotidiano dos profissionais de saúde sobre o espaço das
pessoas internadas revela a naturalização com que estes convivem com essa
realidade, pois se temos déficit de espaço físico, no que se tange ao estado de
conservação das camas utilizadas pelos pacientes, pudemos observar que a
superfície encontra-se, em muitas delas, danificada e com áreas de corrosão
pelo longo tempo de uso e pela ação dos agentes químicos empregados na sua
limpeza e desinfecção. A grande maioria se encontra também com problemas no seu
funcionamento, com mecanismo de elevação da cabeceira e pés ou de rolagem em
péssimo estado de funcionamento ou mesmo sem funcionamento.
Esses problemas trazem conseqüências de duas naturezas: uma relacionada ao
trabalho daqueles que manipulam esses equipamentos, principalmente a equipe de
enfermagem que necessita despender um grande esforço para poder mobilizá-los, e
outro relativo ao conforto e segurança da pessoa internada(4).
Quanto ao tempo e esforço dos trabalhadores, esses além de aumentados,
prejudicam os resultados obtidos pela equipe na ação de cuidar. No que ser
refere ao conforto e segurança da pessoa internada, a garantia da mobilidade
das camas está relacionada às diferentes posições em que se necessita colocar a
pessoa internada, dependendo de seu problema de saúde, sendo que alguns
necessitam da elevação do tórax, outros dos membros inferiores e a não
possibilidade de efetivar esses cuidados pode diminui a ação terapêutica
desejada e coloca em cheque a qualidade da assistência de enfermagem prestada,
aparentemente caracterizando aqui uma outra "ação negligente" desta equipe, ou
mesmo reafirmando pesquisa anterior(6) que diz estar o trabalhador de
enfermagem submetido a constantes desgastes físicos e emocionais devido as
constantes adaptações e "jeitinhos" que tem que fazer no seu cotidiano de
trabalho.
É necessário lembrar ainda que o posicionamento no leito está também
diretamente relacionado com a busca de conforto para aquele que precisa
permanecer acamado por tempo prolongado. Fica claro, portanto, que a não
existência de manutenção preventiva ou substituição das camas danificadas
prejudica o processo de cuidado e cura, acarretando conseqüências na saúde da
pessoa internada e problemas de diferentes naturezas para as equipes que
prestam cuidados.
Outro aspecto no que se refere a equipamentos é a precariedade da superfície
das camas que, em várias clínicas, apresenta extensas áreas de corrosão, o que
dificulta o processo de limpeza e desinfecção e favorece a proliferação de
microorganismos pela sua não remoção através de meios mecânicos e/ou químicos,
expondo a pessoa internada a maior risco de adquirir infecção hospitalar(3) ou
mesmo de se ferir nas superfícies descontínuas e agudas, fato agravado pela
excessiva proximidade entre as camas.
Quanto aos colchões foi observado que grande número deles apresenta rupturas
nas capas de proteção, que deveriam ser impermeáveis, dificultando, assim, sua
limpeza e desinfecção, a ser feita semanalmente e após a alta hospitalar.
Frisamos aqui que, pela alta taxa de ocupação dos leitos na instituição
estudada e pelas condições físicas precárias de muitas das pessoas internadas,
bem como pela falta de áreas de lazer ou recreação em que possam permanecer
durante o dia, as camas e colchões são intensivamente utilizados, o que diminui
ainda mais seu tempo de vida útil.
O emprego de tecido impermeável como barreira de proteção dos colchões se, por
um lado, facilita a limpeza e desinfecção dos mesmos, por outro, causa
desconforto à pessoa internada, pois aumenta a temperatura corporal visto que a
cidade é bastante quente e a instituição não dispõe de ventiladores ou
ventilação natural suficiente para arejar o ambiente, o que se configura como
um aumento no desconforto para aqueles que aí permanecem, refletindo o descaso
com o seu bem estar.
No que se refere à presença de mesas de cabeceira como parte integrante da
chamada "unidade do paciente" constatamos que, embora elas estejam presentes
nas clínicas médica, cirúrgica, gineco-obstétrica e pediátrica, elas não são
suficientes para o número de leitos existente, estando ainda em condições
inadequadas de conservação. Se considerarmos que a mesa de cabeceira é o único
espaço disponível para que a pessoa internada possa acomodar seus pertences, a
inexistência dessas faz com que estes sejam mantidos sobre a própria cama ou no
chão. Na clínica gineco-obstétrica os berços desocupados acabam sendo
utilizados para esse fim, evidenciando os arranjos quotidianos necessários
frente à escassez imposta àqueles que procuram a instituição de saúde.
É interessante lembrar ainda que é comum que as pessoas residentes em outras
cidades tragam roupas e outros pertences quando vão ser internadas, e pelo fato
do hospital não contar com uma área específica para a guarda dos pertences que
não serão utilizados durante a internação, estes permanecem na enfermaria, não
podendo ser acomodados adequadamente. Também o fato do hospital não contar com
uma lavanderia disponível para que as pessoas internadas possam mandar suas
roupas íntimas e toalhas ou outras por ela utilizadas, as obriga a lavá-las na
pia do banheiro e utilizar as guardas das camas ou berços ou portas para secá-
las, sendo este recurso empregado mesmo para as roupas íntimas. Esse arranjo
encontrado pelas pessoas internadas e por seus acompanhantes, embora resolva,
em alguma medida, as necessidades imediatas destas, empresta às enfermarias um
aspecto pouco agradável visualmente, impondo constrangimentos às próprias
pessoas que não percebem alternativas institucionais para essa questão.
Como componente da chamada unidade do paciente a escadinha também deveria estar
presente, porém, foi observado que em todas as clínicas estudadas ela se
encontra em número bastante escasso. Além disso, entre as que existem há
escadinhas que foram reformadas, sendo acrescidos degraus de madeira e muitos
deles estão soltos, pondo em risco aqueles que as utilizam. A insuficiência
numérica de escadinhas revela a face perversa da lógica hospitalar, uma vez que
as camas são altas para facilitar o trabalho da equipe de saúde e as escadas
viriam a sanar a dificuldade que a pessoa internada tem para acessar o leito.
Porém, o seu número reduzido mostra que tal lógica favorece apenas um dos
segmentos, ou seja, dos trabalhadores do serviço de saúde estudado, o que deve
ocorrer, mas ao não atender os direitos da pessoa em acessar o seu leito com
conforto e segurança, temos mais uma vez, o reforço do significado desses
últimos na instituição estudada.
Se considerarmos as peculiaridades de cada uma das clínicas estudadas, onde
temos gestantes, puérperas, pessoas em pós-operatório de cirurgias extensas,
idosos com dificuldade de locomoção, o numero reduzido dessas escadas se torna
um problema importante para ser enfrentado por elas e pela equipe de
enfermagem.
Vemos assim, que o desrespeito aos direitos da pessoa internada está presente
nas pequenas e grandes situações vivenciadas durante a hospitalização, mas já
tão banalizado que passa despercebido àqueles que aí atuam profissionalmente.
Aqui os "jeitinhos" encontrados pelas pessoas internadas mostram que as
necessidades quotidianas delas não são consideradas como importantes pela
instituição que não as vêem como pessoas, e sim como corpos portadores de um
mal físico a ser tratado. Nos parece óbvio pensar que pessoas utilizem roupas
íntimas, e que estas precisem ser lavadas diariamente. No entanto, essa
obviedade parece não estar presente na lógica da instituição que não se prepara
para atendê-la, causando constrangimentos desnecessários à pessoa internada.
Outro elemento que faz parte da unidade do paciente é o travesseiro e a
cadeira, sendo que o primeiro inexiste em todas as clínicas estudadas e as
cadeiras são em número muito inferior ao número de leitos. Essa situação nos
remete mais uma vez ao descaso com o conforto mínimo necessário à pessoa doente
durante sua hospitalização, de maneira que possa ter minimizado seu sofrimento
físico muitas vezes já exacerbado pela doença. É necessário considerar que a
pessoa durante a hospitalização precisa permanecer longo tempo recolhida ao
leito, não dispondo de um apoio adequado para sua cabeça e pescoço, obrigando-
a a improvisar 'travesseiros' com roupas e cobertores dobrados, o que pode
provocar levá-la o aparecimento de dores musculares pelo mau posicionamento
físico do pescoço.
Quanto às cadeiras, sua insuficiência numérica obriga as pessoas internadas a
permanecerem sentadas nas camas, sem apoio para as costas, mesmo para tomarem
suas refeições ou durante o processo de amamentação pelas mães na clínica
gineco-obstétrica. Esse desconforto atinge também as visitas, visto que estas
são proibidas de se sentarem nas camas, devendo permanecer em pé durante sua
estada na instituição, o que denota o não estímulo a sua presença e o que
incômodo que esta causa na rotina assistencial.
Outro item que observamos através de roteiro empregado, foi aquele referente às
condições das roupas de uso diário pela pessoa internada, como camisolas e
pijamas, avaliando se elas existem em número suficiente e se encontram em
razoáveis condições de uso em todas as clínicas. Tivemos como resultados que
inexistem fronhas, toalhas de rosto e de banho, bem como lençóis para berços. A
falta de toalhas é sanada através da utilização de lençóis ou camisolas para
esse fim. Os lençóis se prestam ainda na improvisação de fraldões para serem
usados em pessoas com incontinências esfincterianas, o que nos leva a pensar no
risco de lesão que o uso de um tecido grosso, com várias dobras, pode causar na
pele das pessoas acamadas.
É importante salientar também que em relação aos lençóis empregados para forrar
os colchões, estes não possuem elástico que os mantenham no lugar, sendo
improvisada uma amarração sob o colchão. Devido a esse arranjo, tornou-se
necessário a confecção de lençóis extra-largos, o que leva a um gasto
desnecessário de tecido e aumento dos custos hospitalares, que seria facilmente
resolvido com o sistema de lençóis com elástico, pois mesmo que estes possam
vir a ser danificados com o tratamento térmico, ainda seria menos oneroso, e
pouparia trabalho e também a formação de rugas que predispõe os pacientes
acamados por longo tempo às úlceras de pressão.
Com o emprego de um Roteiro de Observação Sistemática diferenciado avaliamos
também os materiais e equipamentos de uso na assistência quanto as suas
condições de funcionamento e adequação do seu número em relação às necessidades
da clientela atendida. Durante a observação sistemática foram avaliados, em
todas as clínicas, quanto ao número e as condições de funcionamento, os
seguintes itens: esfigmomanômetro, estetoscópio, suporte de soro, biombo,
termômetro, carrinho de curativo, hamper, torpedo de oxigênio, frasco coletor
de aspiração, frasco de umidificação dos gases, foco portátil de luz, oxímetro
de pulso, respirador, nebulizador, ambú e máscara, carrinho de urgência.
Pudemos constatar que todas as clínicas possuem esfigmomanômetro e
estetoscópio, porém, os mesmos só estão em boas condições de uso nas clínicas
médica e pediátrica, sendo que nesta última foi possível observar a existência
de manguitos de tamanho adequado para uso em criança. Não foi observada a
existência de esfigmomanômetros com manguitos largos para pessoas obesas em
nenhuma clínica, o que pode levar a uma leitura subdimensionada, colocando o
paciente em risco, pois dificulta a adequação da dose terapêutica de
medicamentos aos níveis pressóricos reais, podendo tal dose ficar além ou aquém
das suas necessidades.
Quanto ao suporte de soro, eles são em número insuficiente em todas as
clínicas, mesmo tendo sido adquirido recentemente alguns deles. Os suportes
antigos apresentam problemas de conservação e utilização, pois não é possível
aumentar sua altura por estarem com o mecanismo de elevação enferrujado. É
conveniente lembrar que os suportes de pedestal, destinados a permanecerem ao
lado do leito são bastante pesados, razão pela qual haveria necessidade de
suportes com rodas para facilitar a deambulação da pessoa internada que esteja
em uso de solução endovenosa. No entanto, estes não existem no hospital, sendo
que estão disponíveis alguns poucos suportes de soro para maca que são
empregados durante a deambulação da pessoa internada, não lhe permitindo,
porém, apoiá-lo para descanso. Esse fato desestimula a movimentação da pessoa
pelo hospital, restringindo-a ainda mais ao leito.
No que se refere à existência de biombos, estes estão presentes em todas as
clínicas, porém, em número reduzido e em precárias condições de uso, ora com
rodinhas que não funcionam, ora com sistema de articulação emperrado, o que
dificulta seu manuseio. Considerando que o biombo é um equipamento destinado à
proteção e preservação da intimidade da pessoa internada durante a realização
dos cuidados, sua insuficiência e/ou precariedade de funcionamento desestimula
o seu uso, o que leva os profissionais de saúde a promoverem uma maior
exposição da pessoa internada aos olhares dos demais companheiros de enfermaria
durante os procedimentos executados pela equipe de saúde, o que é
particularmente agravado quando há necessidade de algum atendimento de
urgência.
É necessário salientar que os tecidos de revestimento dos biombos devem ser
confeccionados especialmente para esse fim, sendo que a sua não existência nas
clínicas tem levado a improvisação com lençóis amarrados ou presos com fita
crepe, o que, mais uma vez, expõe a precariedade das condições mínimas
necessárias para assistir a pessoa internada na instituição estudada.
Os termômetros como equipamentos indispensáveis ao cuidado da pessoa internada
estão presentes em todas as clínicas, apresentando boas condições de uso.
Porém, por serem empregados termômetros digitais e não havendo a rotina de
troca das pilhas quando estas estão inutilizadas, pode levar a substituição dos
próprios aparelhos, fato que remete mais uma vez a questão dos custos e da
gestão de materiais na instituição estudada.
Quanto ao item hamper, é importante salientar que, assim como todos os
equipamentos de manipulação intensa, eles também estão em precárias condições
de funcionamento, sendo que muitos deles têm as rodinhas emperradas ou mesmo
inexistentes, necessitando serem arrastados por quem os utiliza. Entendemos que
esse dado precisa ser problematizado de maneira mais intensa em relação às
normas ergonômicas, visto que, assim como outros equipamentos que apresentam
dificuldade no seu transporte por emperramento/inexistência dos sistemas de
rodízio, exige um esforço bastante aumentado e inadequado no seu manuseio, que
se dá, na quase totalidade das vezes, por membros da equipe de enfermagem.
Acresce-se a esse fato que os suportes de hamper não estão também disponíveis
em número suficiente em todas as clínicas.
Em relação aos itens frasco de aspiração, frasco umidificador de gases,
nebulizador, ambú e máscara, estes existem em todas as clínicas e apresentam
razoáveis ou boas condições de uso. Já em relação ao foco portátil de luz, este
não está presente em todas as clínicas, sendo que alguns dos existentes estão
bastante danificados, não sendo possível direcionar o foco de luz e que, devido
ao aquecimento causado pelo uso de lâmpadas incandescentes, leva ao risco de
queimadura, tanto no profissional que o manipula como na pessoa internada
durante a sua utilização em algum procedimento.
Temos a ressaltar que os carrinhos de curativo estão presentes em todas as
clínicas, porém, há materiais insuficientes nestes na clínica cirúrgica, que
deveriam ser repostos após cada utilização do mesmo. Além disso, esses
carrinhos apresentam danos na sua superfície, com várias áreas de corrosão que
tornam deficiente a sua desinfecção. Não é pouco freqüente também que
apresentem problemas nos seus rodízios, o que dificulta sua movimentação pela
clínica o que corrobora o que já foi apontado anteriormente em relação ao
esforço extra necessário para a sua movimentação. Essa dificuldade na
movimentação dos carrinhos tem levado os membros da equipe de enfermagem a
lançarem mão de uma outra estratégia para a realização dos curativos através da
utilização de bandejas para o transporte dos materiais necessários. Acresce-se
um problema a essa improvisação que é o fato das lixeiras das enfermarias não
disporem de tampa, o que leva a exposição de material contaminado nesses locais
com grande risco para a disseminação da infecção hospitalar.
Quanto ao oxímetro de pulso, apenas as clínicas médica e pediátrica dispõem do
mesmo, sendo que as demais fazem o empréstimo quando necessitam desse
equipamento, sendo que, nem sempre é possível empresta-lo, visto que seu uso é
intensivo nessas clínicas. Se considerarmos que esse é um equipamento a ser
empregado, principalmente, no cuidado as pessoas com alterações hemodinâmicas e
que, por oferecer múltiplos parâmetros vitais facilita o acompanhamento de
possíveis alterações no momento mesmo em que aconteçam, entendemos que haveria
necessidade de um número maior deles em todas as clínicas.
O respirador artificial é um equipamento que não está presente na clínica
gineco-obstétrica, sendo que nas demais o mesmo está em razoáveis condições de
uso. Quanto ao carrinho de urgência, ele existe em todas as clínicas,
apresentando boas condições de funcionamento nas clínicas médica e pediátrica,
razoáveis condições na clínica gineco-obstétrica e precárias condições na
clínica cirúrgica. É importante salientar que o carrinho de urgência deve ser
revisado após cada utilização, devendo ser feita a reposição dos materiais e
equipamentos utilizados para que esteja em pleno funcionamento em situações de
urgência, quando todo material e equipamento necessários devem estar
disponíveis em um único local de fácil acesso, agilizando o atendimento da
pessoa internada.
Salientamos que os dados aqui apresentados se constituem "em um retrato",
possível de ser alterado, portanto, no tempo, das condições físicas oferecidas
para que a assistência à saúde das pessoas internadas aconteça. E, frente a
essas condições, precárias na maioria das vezes, torna-se necessário um grande
número de improvisações todos os dias, principalmente por parte dos membros da
equipe de enfermagem que, mais diretamente, manipulam, utilizam e são
responsáveis pela disponibilidade e funcionamento de tais materiais e
equipamentos. É necessário, no entanto, questionarmos de maneira ampliada que,
em uma instituição tão carente de planejamento e avaliação dos recursos
materiais e equipamentos disponíveis para a prestação da assistência, ou seja,
de uma gestão administrativa eficaz e eficiente, acaba acarretando um alto
custo humano e financeiro, visto que estes poderiam ter uma sistemática
manutenção preventiva, evitando/minimizando o seu desgaste, que, caso
contrário, sendo utilizados de maneira inadequada pelo seu mau funcionamento,
ocasionam sérios prejuízos no cuidado a pessoa internada.
Nos arriscamos a dizer que tal prejuízo atinge também a saúde dos profissionais
que, nas suas atividades quotidianas nas clínicas, os manipulam/utilizam, visto
haver necessidade de um esforço extra, tanto físico, quanto mental e
psicológico frente a demanda constante de utilização de tais materiais e
equipamentos e o seu oferecimento em condições precárias e/ou inexistência. E a
"naturalização" que parece estar presente nesta instituição estudada quanto a
falta de recursos materiais e equipamentos, que é suprida, em parte, pelas
improvisações constantes. Esta situação aponta para a cultura da ausência de
planejamento e avaliação das ações, o que conduz ao círculo vicioso de parcos
investimentos em saúde que redundam em ainda menores resultados efetivos que
seriam evidenciados através dos indicadores de saúde da população.
Instala-se, assim, a lógica perversa do custo elevado para uma eficiência e
eficácia pouco consideráveis, o que, mais uma vez, aponta para o desrespeito
aos direitos das pessoas assistidas em instituições públicas de saúde, visto
que estas também contribuem para o pagamento do setor saúde, através de uma
carga tributária bastante pesada como a que impera em nosso país, e recebem uma
assistência bastante carente de qualidade em muitos aspectos como pudemos
evidenciar nesta pesquisa quando se tornam usuários desses serviços.
Nesse ponto de nossa reflexão, impõe-se a questão da implicação que a
pauperização das condições físicas no que se refere à materiais e equipamentos
para a assistência à saúde têm para o profissional enfermeiro que, histórica e
ilegitimamente, tem sido responsabilizado pelo provimento de tais condições nas
instituições onde atua, desobrigando àqueles que, de fato, são os legítimos
responsáveis, de se posicionarem frente a situação aqui apresentada.
5 Considerações finais
Entendemos que, para pensarmos em gerenciamento da assistência de enfermagem
ou, mais amplamente, no gerenciamento à saúde, faz-se necessário o envolvimento
de todos os segmentos interessando em melhores condições de saúde e de trabalho
no setor.
Como este estudo visou proporcionar novos elementos para a reflexão do processo
de gerenciar em enfermagem frente a pauperização das condições físicas
disponíveis para a assistência em enfermagem em um serviço público de saúde do
Estado de Mato Grosso, nosso intuito foi refletir sobre os conceitos de
vulnerabilidade, direitos do usuário e princípios éticos, pois entendemos que
os mesmo podem ampliar o nosso olhar cidadão e contribuir na busca por melhores
condições de assistência à saúde para os usuários e também de trabalho na
instituição estudada. A flagrante pauperização detectada nas condições
estudadas aponta para a necessidade de uma ressensibilização coletiva em todos
os níveis onde pensamos, executamos e nos submetemos à ações de saúde.
Defender a vida com radicalidade, pressupõe "mudanças no modelo vigente de
atenção à saúde"(7), ao que acrescentamos: há a necessidade de produção de
novos sujeitos e de novos vetores no modelo social que está dado, reintegrando
todos os sujeitos interessados em processos onde possam atuar ativamente para
além da interinidade dos serviços e categorias profissionais.
Assim concluímos pela necessidade de investir na ampliação da cidadania dos
usuários e trabalhadores dos serviços de saúde através da capacitação crescente
dos mesmos, deixando claro quais são seus direitos, onde e como reivindicá-los,
dessa forma podemos diminuir a sua vulnerabilidade e também fortalecer as
instâncias comunitárias para demandar por serviços de saúde de boa qualidade,
com repercussões que se farão sentir também nas nossas condições de trabalho.