O cuidado inclusivo de enfermagem ao portador da Síndrome de Down sob o olhar
de Paterson e Zderad
O cuidado inclusivo de enfermagem ao portador da Síndrome de Down sob o olhar
de Paterson e Zderad
Inclusive nursing care for individuals suffering from Down's Syndrome under
Paterson and Zderad´s view
Cuidado inclusivo de enfermería al portador del Síndrome de Down bajo la mirada
de Paterson y Zderad
Mônica Deorsola Xavier NegriI; Liliana Maria LabroniciII; Ivete Palmira Sanson
ZagonelIII
IEnfermeira, Mestranda do Curso de Mestrado em Enfermagem da Universidade
Federal do Paraná
IIEnfermeira, Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da UFPR, Doutora
em Enfermagem pela UFSC
IIIEnfermeira, Professora Adjunta da Pós-Graduação de Enfermagem da UFPR,
Coordenadora do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Cuidado Humano de
Enfermagem (NEPECHE/UFPR). E-mail do autor:ivetesanzag@hotmail.com
1 Introdução
Sabendo-se que o enfermeiro na prática profissional, desenvolve suas atividades
através de consultas de enfermagem em ambulatórios, domicílios, centros de
saúde, maternidades e instituições hospitalares. Participa do processo
educativo em escolas, universidades e empresas, é preconizado que este
profissional utilize-se desses diferentes espaços para a efetiva implementação
do cuidado inclusivo de Enfermagem com abordagem humanística aos clientes
diferenciados(1).
A tentativa de expressar o conhecimento pela prática do cuidado de enfermagem
abre possibilidades para escolhas; e, nesse caso, a escolha de cuidar do
indivíduo portador da Síndrome de Down, com necessidades especiais, aplicada
aos diferentes campos de atuação, suscita o desejo da descoberta, do
desocultamento mediante a compreensão e o diálogo vivido. Assim, percebe-se
que, muito além do quadro sindrômico clínico em si, o conhecimento dos
conceitos de cidadania deste indivíduo e sua construção social, passam a ser da
co-responsabilidade do enfermeiro, que irá atuar dialogicamente na utilização
de seu potencial para alcançar um estar melhor de acordo com Paterson e Zderad
(2).
A teoria humanista de Enfermagem(2) foi escolhida para este estudo, pois
compreende os fundamentos e significados humanos da enfermagem e direciona o
seu desenvolvimento através da exploração de sua relação com o contexto humano,
oferecendo uma visão mais ampla deste potencial. Neste sentido, consideramos
ser de extrema importância a necessidade do profissional enfermeiro preparar-se
para aprofundar estudos, atualizar diferentes situações, tornando-se
competente, teórica e metodologicamente, a fim de alcançar seu objeto de ação -
o cuidado.
A condição do portador da Síndrome de Down impõe restrições ao desenvolvimento
físico e à capacidade intelectual do indivíduo, restrições essas que, até hoje,
não foram cientificamente delimitadas(3). É com base nesta afirmação que os
esforços conjuntos voltados para o estar melhor são fundamentais. Esforços que
se iniciam a partir do nascimento da criança portadora da Síndrome de Down, no
reconhecimento e atendimento de suas necessidades físicas mediante a
assistência adequada no momento do parto e certificação da integridade de seus
aparelhos e sistemas. A necessidade de um roteiro de exames posteriores de
acuidade de órgãos e sentidos irá diferenciar na pronta intervenção, em última
instância, os possíveis aspectos de um comprometimento futuro.
Para fins desse estudo reflexivo, temos como objetivos: desvelar a teoria
humanística(2) de Paterson e Zderad, evidenciando alguns de seus pressupostos
aplicados à pessoa portadora da Síndrome de Down e projetar a participação do
enfermeiro no cuidado inclusivo, mediante uma prática consciente relacionada à
teoria humanística. Assim, inicia-se pelo conhecimento do mundo vivido do ser
portador da Síndrome, para então delinear as conexões com a teoria humanística
(2).
2 O vir-a-serdo indivíduo portador da Síndrome de Down
A contribuição deste ítem está relacionada à atualização e ao reconhecimento
pelo enfermeiro, do potencial humano que é nato ao portador de Síndrome de Down
e que deve ser outorgado, valorizado e estimulado para que este possa se
constituir em alavanca para sua inclusão em nossa sociedade. A Síndrome de Down
é condição genética caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas que
configuram um determinado quadro clínico(4). Foi identificada em 1866 quando um
médico inglês John Langdon Down verificou, entre uma população de crianças
portadoras de retardo mental, algumas que se diferenciavam das demais por
vários aspectos físicos. Apenas na década de 50, o cientista francês Jerome
Lejeune descobriu que, nessas pessoas, o total de cromossomos era de 47 e não
46. Anos mais tarde, novas pesquisas identificariam que o cromossomo extra
pertencia ao par 21.
O enfermeiro, comparando e sintetizando as múltiplas realidades conhecidas,
chega a uma visão ampliada, que permite um diálogo entre as realidades e
diferenças, e utiliza os ricos fundamentos teóricos de educação e prática para
colocar determinada situação em perspectiva(5). Ele pode atuar como ponte para
a conscientização da família que convive com a criança portadora da Síndrome de
Down(6).
A criança, produto de sua herança genética, sua cultura e seu ambiente
influenciado por pessoas e eventos, ao nascer está apta a aprender como
qualquer outra criança. Contudo, os pais precisam ter o conhecimento de que seu
desenvolvimento ocorrerá de forma mais lenta, havendo atraso em algumas áreas,
como no caso da psicomotricidade, em função da fraqueza muscular. Neste sentido
é importante que eles tomem conhecimento sobre os recursos de saúde e
estimulação existentes na comunidade que poderão utilizar para uma assistência
multiprofissional.
Tão ou mais importante que o cuidado ao indivíduo portador da Síndrome de Down,
é o momento da abordagem com os pais sobre o diagnóstico dessa criança, visto
que são os primeiros a propiciar experiências de crescimento que visam à
autonomia paulatina. Porém, como mediar este momento para que, mesmo
permanecendo aspectos mobilizadores de algo que não esperavam, nem podiam
supor, como a desilusão, a culpa, e até mesmo a vergonha, possam superar e dar
início aos sentimentos de acolhimento, engajamento e esperança?
Relacionar a teoria humanística(2) ao aprofundamento da condição da pessoa
portadora da Síndrome de Down não foi por acaso. A teoria parte de princípios
básicos que incluem atuação com enriquecimento recíproco enfermeiro/cliente,
ação intencional transcendente à benevolência, à crença na força inata do ser
humano e à liberdade para a tomada de decisão consciente em suas próprias
vidas. Esses princípios deveriam ser a base de todo um relacionamento, quer com
pais, família, comunidade ou profissionais, na trajetória das pessoas com
necessidades especiais, os portadores da Síndrome de Down.
Os primeiros movimentos familiares _ principalmente o de pais _ em prol de
crianças com necessidades especiais,começaram a se formar nos anos cinqüenta,
agrupando pequenos núcleos de pais que desejavam fazer alguma coisa para
comprovar o valor de seus filhos até então esquecidos(7). A falta de informação
aliada à informação que trazia consigo noções apenas de dependência, alheamento
da comunidade e fortalecimento do estereótipo, eram um entrave para a
participação do portador da Síndrome de Down como membro da sociedade. Na
medida em que as associações de pais foram ganhando força, auxiliados também
pela comunidade e por profissionais que acreditavam na visão futura de
fraternidade, em que a diversidade do ser humano teria que ser aceita e
respeitada, os próprios portadores da Síndrome passaram a expressar suas
aspirações mais íntimas: o desejo de serem reconhecidos como pessoas.
Até 1973(3), não se tinha informação da auto-expressão da pessoa com
deficiência mental. As associações de pais, famílias e principalmente os
profissionais que atuavam nas organizações institucionalizadas é que
determinavam sua linha de ação: o que comer, o que vestir, onde se divertir,
como se manter ocupada. Os principais grupos chamados People First começaram a
surgir em diversos países, Estados Unidos, Canadá, Suécia e hoje têm grande
significado na Nova Zelândia, país no qual pessoas com deficiência mental têm
status igual ao de outros cidadãos.
Cabe à sociedade eliminar as barreiras físicas, programáticas e de atitudes,
para que as pessoas com necessidades especiais possam ter acesso aos serviços,
lugares, informações e bens necessários ao seu desenvolvimento pessoal, social,
educacional e profissional. No Brasil, ainda há um longo percurso para alcançar
este estágio; mas o importante é o perseguir na busca de uma educação em
escolas regulares onde o ensino de qualidade seja para todos; que os
professores sejam autores de sua prática aperfeiçoada, oportunizando o
reconhecimento e valorização da diversidade como elemento enriquecedor do
processo de ensino-aprendizagem, incorporando novos conceitos às instituições
de educação especial e suas modalidades excludentes. Na busca também de
oportunidades de trabalho, não mais em oficinas abrigadas sem direito à
remuneração ou perspectivas de autonomia, mas seguindo a tendência mundial de
se investir na autonomia, capacitação e oferta de empregos em todos os ramos de
atividade. O acesso ao lazer, esporte e à cultura no desempenho de seu papel
social também devem ser incorporados.
Assim
[...] apesar dos meus pais me sustentarem eu também trabalho, [...]
tenho um emprego, ganho um salário. É tão triste saber o caso de
gente que tem Síndrome de Down e ficam em casa, eles ficam sem fazer
nada; acho que nem existem como cidadãos. Eu achei boa essa parte que
eu escrevi, por que eu sei que tem pessoas que são preconceituosas,
elas não querem mostrar o filho para o mundo(8:300).
Também exercemos nossa posição de self advocacy
[...] trabalhar para mim é um prazer. Já fui secretária, telefonista,
organizei arquivos e trabalhei no xerox. Eu chegava cedo no trabalho
porque tinha a responsabilidade de abrir a sala [...] Na minha vida
tenho muitas emoções e grandes alegrias, no entanto, o caminho não é
fácil. As pedras que encontro neste caminho são difíceis, só consigo
vencer porque nunca estive só; minha família sempre unida, com
paciência e compreensão, muito amor e carinho me ajudam a conquistar
os meus objetivos(9:218).
3 A teoria de enfermagem humanística de Paterson e Zderad
As teóricas foram enfermeiras pesquisadoras voltadas para as áreas de Saúde
Pública e Saúde Mental(10). Josephine Paterson e Loretta Zderad desenvolveram a
teoria durante a docência, em um curso de Enfermagem Humanística. O livro
Humanistc Nursing foi publicado em 1976 em meio a uma discussão da sociedade
sobre a forma e o conteúdo da existência humana, cujas bases foram apontadas
pela fenomenologia e pelo existencialismo.
Assim, percebe-se no desenvolvimento da teoria de Enfermagem humanística que as
autoras utilizam-se dos conceitos da fenomenologia e do existencialismo. Para
elucidar o conceito de fenomenologia, Aranha(11) relata que enquanto movimento
da filosofia surgiu no final do século XIX com Franz Brentano, cujas principais
idéias foram desenvolvidas por seu aluno, Edmund Husserl, a partir de sua
percepção do que denomina de Insuficiência das Ciências Humanas. Neste
referencial o fenômeno é aquilo que surge para uma consciência, tudo aquilo que
se mostra, se desvela como resultado de uma interrogação. A palavra
fenomenologia vem do grego phainomenon que significa discurso esclarecedor a
respeito daquilo que se mostra ao sujeito interrogador; também do verbo
phainesthai que significa mostrar-se, desvelar-se. Deste modo a fenomenologia
procura elucidar a essência do fenômeno como ele se mostra, buscando sua
compreensão. Compreensão e desvelamento nunca serão totais, pois sempre
surgirão novos velamentos a partir de novas inquietações do investigador.
O existencialismo, na teoria de Paterson e Zderad, emerge de Kierkegaard,
filósofo dinamarquês. O qual delineia o conceito a partir da crença de que não
há ordem no universo, e não há adjetivos certos ou errados.
Enumeramos proposições que devem ser inferidas do pensamento existencial à
teoria que identifica o indivíduo como ser com capacidade de auto percepção,
tendo liberdade e responsabilidade, lutando para encontrar sua própria
identidade, ao mesmo tempo estando em relação aos outros, efetivamente
envolvidos numa busca de sentido para a vida(5). Chauí(12) cita seu pensamento
referente aos indivíduos "serem livres para criar sua própria vida de acordo
com as escolhas que fizerem"(12:361), e devendo ser responsáveis por suas
ações. É desta perspectiva filosófica que se deriva o encontro existencial do
enfermeiro, no mundo do atendimento à saúde pela compreensão nos termos
pessoalmente relevantes.
A Enfermagem, como ciência passa a ser, para as teóricas o desenvolvimento de
experiências vividas pelo enfermeiro e pelo enfermo; é o ato de cuidar, o
incremento à humanidade na situação em que se encontram. As teóricas advogam
ainda um componente crítico, que é a comunidade. Partem da valorização da
singularidade, do ser único, rico em experiências diversas e celeiro humano
para trocas, que vivendo em comunidade, e sofrendo influência da mesma se
desenvolve, possibilitando o vir-a-ser.
4 Delineando os conceitos que compõem o marco
O marco conceitual
apresenta-se como sendo uma construção mental, logicamente
organizada, que serve para dirigir o processo da investigação,
orientando o plano da pesquisa e a discussão de seus resultados. Essa
construção mental poderá ser feita a partir da teoria (marco
teórico), a partir da organização do conhecimento existente,
documentado pela revisão da literatura (referencial teórico) e o que
se conhece a respeito do assunto(13:210).
Enfatizamos que toda teoria é derivada do marco conceitual, pois para construí-
la, inevitavelmente, inicia-se com um marco conceitual, descrevendo crenças e
valores, definindo os conceitos chave (os mais abstratos) para, a partir daí,
desenvolver a teoria(14). Complementando, um conceito pode ser descrito como
sendo "uma imagem mental de alguma coisa, uma pessoa ou um objeto"(15:22). É
uma idéia na mente de alguém, formada por uma generalização de experiências
concretas específicas, que através de palavras diferenciam uma coisa de outra.
Os conceitos defendidos pelas teóricas Paterson e Zderad incluem o ser humano,
a saúde, a enfermagem e o diálogo como aqueles mais significativos para
retratar suas idéias essenciais. Além dos quatro primeiros acrescentamos outros
três relacionados com o tema, entendendo que depois de sua conceitualização,
acentua-se a reflexão sobre nosso papel enquanto agentes equiparadores de
oportunidades. Passamos, então, a explicitá-los à luz da teoria adotada neste
estudo. Complementando-os com nossa vivência prática e a revisão de literatura
referente.
4.1 Seres humanos
São vistos a partir de uma estrutura existencial de vir-a-ser através de
escolhas, com capacidade de abertura para opções, com valor e como manifestação
única de seu passado, presente e futuro(5). Paterson e Zderad(2) relatam que a
enfermagem humanística perpassa pelo potencial de humanidade, implicando em um
ser humano ajudar ao outro. O ser humano em questão é a antítese do que as duas
teóricas tendem a enfocar neste conceito. O ser humano portador da Síndrome de
Down na maioria das vezes é tomado como sendo dependente, incapaz de tomar
decisões e iniciativas quanto ao rumo do seu existir, normalmente vê-se
desprovido de participar das questões decorrentes da sociedade na qual está
inserido. Para este ser humano, normalmente, é reservado um lugar abrigado,
seja no seio da família, na escola especial ou na oficina, com a justificativa
de prepará-lo indefinidamente para ingressar no mundo normal. Foi pensando
nesses seres humanos que aprofundeamos a forma humanística de atuar e passamos
a socializá-la neste estudo.
4.2 Saúde
Não está atrelada apenas à ausência de doença, mas a um meio de equilíbrio de
um bem-estar para um estar-melhor. Ela é valorizada como necessária à
sobrevivência, mas há situações em que não pode ser considerada como um
objetivo plenamente alcançável(10); mesmo assim, a Enfermagem deverá prover
cuidados de modo que seu propósito avance além do bem-estar (estado de
estabilidade) para um estar-melhor (processo de tornar-se, tudo o que é
humanamente possível em sua situação particular). Paterson e Zderad(2) entendem
que o interesse da Enfermagem centra-se unicamente no bem-estar de uma pessoa
em seu existir mais pleno, ajudando-o a ser o mais humano possível no momento
particular de sua vida.
Estabelecendo o que seria ser saudável, enfocando a pessoa com Síndrome de
Down, poderíamos estender esta questão para toda a população. Quantos de nós
convivemos bem com certa dificuldade, seja ela de fundo alérgico ou reumático?
Apesar de alguns fatores genéticos poderem comprometer a saúde da pessoa com
Síndrome de Down, como por exemplo uma cardiopatia grave, ela normalmente é
saudável, hígida. A importância de refletirmos sobre esse conceito está na
necessidade de zelar quanto ao termo doença genética, principalmente porque
para o leigo, doença tem outro sentido. No imaginário popular conota a idéia de
contágio, sugerindo que: quem tem Síndrome de Down não é saudável, porque é
doente. Neste contexto os desdobramentos negativos interferem no processo de
inclusão, quando é negada uma oportunidade de emprego ou matrícula em escola
regular com base nesta justificativa(3).
4.3 Enfermagem
Inserida no contexto humano, zelando pelo potencial humano e ao mesmo tempo
nutrindo-se deste investimento. George(5) denomina esta ação como sendo um
encontro; não fortuito, mas um encontro intencional, visto que existe um
chamado e uma resposta. Resume que a ação do enfermeiro é uma resposta de
cuidado para outra pessoa numa situação de necessidade, com o objetivo de
aumentar as possibilidades de escolhas responsáveis no seu processo de vir-a-
ser(10).
Durante 10 anos tivemos a oportunidade de conviver com pessoas com Síndrome de
Down, na ótica do cuidado e da percepção cotidiana dos progressos, entraves e
demandas exigidas nesta relação e pude vivenciar plenamente este encontro, o
qual considero um aprendizado e mesmo um privilégio de não ter sido marcado,
agendado, mas aceito e revestido de busca pela informação, capacitação, e
entendimento do quanto limitados somos na percepção real do outro. Desejamos o
outro pronto, curável, mas esquecemos que o valor maior está na superação dos
desafios daquele que vai ajudá-lo.
4.4 Diálogo Vivido
Paterson e Zderad(2) advertem o quanto a influência das noções preconceituosas,
rótulos e categorizações, contamina o que é significativo e afeta o
desenvolvimento do conhecimento. Neste diálogo vivo, vivido, há uma abordagem
intersubjetiva na qual enfermeiro e paciente estão presentes nesta experiência
existencial que inclui intimidade e mutualidade. O significado deste ato para o
enfermeiro e para o cliente pode ser diferente, e pode agir inclusive como
catalisador potencial para realizar mudanças no diálogo. O enfermeiro e o
portador da Síndrome de Down enquanto produtos de suas escolhas e de sua
própria história encontram-se com um propósito. A diferença, na perspectiva do
encontro dialógico, é o modo de ser de cada um na situação compartilhada. Para
que o diálogo seja genuíno, é necessário haver abertura, receptividade,
disposição e acessibilidade.
4.5 Cidadania
É o exercício dos direitos individuais e coletivos, e um acesso igualitário aos
bens e serviços de uma comunidade, pressupondo uma emancipação. Esta
possibilidade não deve ser excluída para o portador da Síndrome de Down, visto
que devem assumir junto ao Estado, sua quota-parte de responsabilidade, como
membros ativos da sociedade, mas também de exigência quanto ao respeito e às
garantias dos direitos que lhes são devidos. Esse auto conceito não se faz sem
a crença em suas possibilidades e a mediação de informações quanto ao seu
potencial; ele é construído desde o seu nascimento.
4.6 Construção social
É uma conquista progressiva na expectativa de que "todos os cidadãos serão
responsáveis pela qualidade de vida do seu semelhante, por mais diferente que
ele seja ou pareça ser"(3:21).
4.7 Cuidado inclusivo
É o processo pelo qual a sociedade/profissional se adapta para poder incluir em
seus sistemas sociais/profissionais, pessoas com necessidades especiais e,
simultaneamente estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade(16). A
inclusão social inter-relaciona-se ao cuidado, pois constitui um processo
bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade/cuidadores buscam
em parceria equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a
equiparação de oportunidades para todos. O cuidado inclusivo é interativo, pois
se fundamenta na valorização da liberdade, da sensibilidade, do diálogo,
possibilita pelo profundo conhecimento técnico-científico o vir-a-ser; auxilia
a participação do outro no processo de cuidar, fortalece o caráter humano e
solidário em cada ação desempenhada em busca de um novo sentido à vida; atua em
uma relação entre iguais, de cooperação, de reciprocidade, de amplitude de
oportunidades, de fortalecimento de vínculos mediante o diálogo vivido no
encontro do cuidador com o ser cuidado. Ele manifesta-se não apenas pelas ações
visíveis do enfermeiro, mas por ações que denotem presença, um olhar, um toque,
o tom de voz, o que implica em reciprocidade e compromisso.
5 Pressupostos
Enfocando alguns dos pressupostos da teoria humanística de enfermagem de
Paterson e Zderad explicitamos aqueles que consideramos inter-relacionados à
temática em discussão: a enfermagem humanística inclui mais que uma benevolente
relação sujeito-objeto, competente tecnicamente, guiada por um enfermeiro em
benefício de alguém; cada situação de enfermagem reciprocamente evoca e afeta a
expressão e as manifestações das capacidades existenciais dos seres humanos e
sua condição; os seres humanos têm uma força inata que os mobiliza para
reconhecer suas próprias visões e visões de outros; seres humanos são livres e
se espera que se envolvam em seu próprio cuidado e nas decisões sobre sua vida.
6 Cuidado inclusivo do enfermeiro a partir do diálogo vivido
Para que o profissional enfermeiro possa descortinar aos pais uma outra visão
que vai além daquela imposta pela genética, faz-se necessário uma postura
positiva, de abertura e receptividade. Este agir consciente e intencional
propicia situações de encontro e interação com os pais durante todas as etapas
preventivas e terapêuticas preparando-os para o vir-a-ser.
A expressão vir-a-ser, trata de um processo para a aquisição do viver da melhor
forma possível, galgando o domínio da autonomia, da escolha e da
responsabilidade perante o seu existir no mundo. Esta noção ativa de direito à
cidadania, não se edifica de um momento para o outro na pessoa do portador da
Síndrome de Down; é o resultado de um caminhar que envolve a auto-estima, o
autoconhecimento, a informação, a habilidade, a socialização, o interesse e a
autodeterminação, e culminará também com a percepção de que não precisará ser
considerada cliente a vida toda, quer por pedagogos, fonoaudiólogos,
psicomotricistas, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas ou outros.
Na área de enfermagem um cuidado realizado junto e com a família que tem filhos
com Síndrome de Down pode acarretar um impacto significativo. Os estudos e as
experiências nesse campo parecem se encontrar em fase inicial dentro da
categoria, porém o conhecimento levantado se configura em indicação para se
constituir em instrumentos para o planejamento e implementação do cuidado de
Enfermagem(6). Finalizamos demarcando duas questões importantes: o despreparo
pode ser contornado pela aquisição de conhecimentos; mas, e o des-cuidado? Como
pode ser trabalhado? Esse fato precisa ser refletido, posto que é o cuidado que
possibilita a auto-realização, e é através dele que os seres humanos vivem o
verdadeiro significado de sua própria existência(6).
Dois conceitos estão aliados à essência da enfermagem: respeito e cuidado. O
respeito no seu sentido mais amplo ao ser do outro, a solidariedade embutida no
ato de aceitação e valorização. O cuidado, no sentido de envolvimento, e
engajamento; em quê? Na busca diária que configura o desejo de cidadania para
todos, e não apenas para alguns, no posicionamento consciente e no agente
formador de opinião para alterar e transformar a realidade em sonho.
7 Considerações finais
A fronteira entre a deficiência e a saúde não está tanto na presença ou
ausência de uma doença invalidante, mas, igualmente para na realização ou não
de si mesmo. Provavelmente a passagem de uma tendência ao isolamento social e
de um respeito meramente formal e paternalista às dinâmicas de abertura, de
socialização e inclusão, poderão acontecer apenas quando cada um reconhecer em
seus próprios limites uma parte de si, e ao fazê-lo, verá com uma luz nova os
limites e potencialidades do outro. Nesse sentido, Paterson e Zderad(2)
explicitam que para encontrar o significado da enfermagem é necessário ir "à
coisa mesma", ao fenômeno da Enfermagem em seu acontecer cotidiano.
É importante ressaltar que a enfermagem humanística defendida pelas teóricas
não abandona os avanços tecnológicos de Enfermagem, mas aumenta seu valor ao
considerar seu uso na perspectiva do desenvolvimento do potencial humano. As
autoras complementam dizendo que cada situação de Enfermagem evoca e influi
reciprocamente na expressão e manifestações da capacidade dos seres humanos
para a existência e sua condição nela.
Ao cuidar do ser portador de Síndrome de Down utilizando o referencial da
teoria humanística é possível reconhecer cada ser enquanto existência singular
em sua situação, e assim, entender seu significado e alcançar a compreensão. A
compreensão engloba ao mesmo tempo a aceitação e o reconhecimento das
limitações humanas, ampliando o horizonte do potencial de cada ser.
Paterson e Zderad(2) enfatizam que o interesse da enfermagem não se centra
unicamente no bem-estar de uma pessoa, mas em seu existir mais pleno, ajudando-
a a ser mais humana possível em um momento particular de sua vida". As autoras
conceituam a enfermagem como um fenômeno de transação humana contendo todos os
potenciais e limitações humanas. Cada vez que se realiza o ato de cuidar os
seres humanos se relacionam em uma situação compartilhada, na qual cada um
participa de acordo com o seu modo de ser. Nessa transação subjetiva, o
enfermeiro e o ser portador da Síndrome de Down são interdependentes. As ações
de cuidado, inseridas na perspectiva humanística, vão além do fazer
determinados procedimentos técnicos; envolvem o estar-com e o estar-aí, os
quais implicam na presença ativa do enfermeiro. O estar-com requer atenção no
ser cuidado, estar atento a uma abertura da situação compartilhada, bem como
comunicar essa disponibilidade, pois é um compromisso existencial dirigido ao
acréscimo e desenvolvimento do potencial humano.
Para concluir, utilizamos as palavras das teóricas que afirmam:
é importante considerar a enfermagem humanística como uma meta, pela
qual vale a pena lutar ou como uma atitude que fortalece a
perseverança individual necessária para alcançar uma meta difícil, ou
mais fundamentalmente, como um valor importante que enriquece a
prática de Enfermagem(2:35).
É com admiração e um certo orgulho que pudemos refletir sobre a base de
pensamento e as idéias tão atuais e justas destas duas enfermeiras teóricas
que, ao determinarem que os seres humanos são realmente livres, eles devem ser
envolvidos nos cuidados e nas decisões. Neste sentido pensamos que o nosso
fazer Enfermagem seja uma contribuição contínua na construção deste caminho
para a inclusão, lado a lado com os portadores da Síndrome de Down e outros
tantos que de outro modo estariam sozinhos, seguindo em outras direções.